ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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Encontros de Verão

por João Jales

O motor ultrapassava certamente o seu limite máximo de rotações, o barulho era ensurdecedor e, no meio de uma ainda confusa “neblina cerebral”, eu tentava desesperadamente descobrir como é que tinha aterrado no meio desta chinfrineira a que se juntavam, ocasionalmente, gritos humanos…

Algumas horas antes (muitas? poucas? não me lembro…) estivemos no Casino, onde tínhamos “negociado” umas cervejas com a Luísa, do Bar; sei que era cedo, pouco depois de jantar. Mas o baile dessa noite de quarta-feira estava fraco, arrancámos depois para o Ferro Velho no Mini da Isabel, com o Fernando, o Nuno e a Anabela. Mas o motor do Mini, apesar de barulhento, nunca provocaria esta sensação de ter uma trituradora dentro do crânio! É óbvio que uns whiskies em cima não tinham ajudado nada a eliminar a Super Bock anterior, mas eu tinha quase a certeza de ter ido para casa dormir depois disso… Estaria no meio de um pesadelo atormentado pelo álcool? Não, a sensação era demasiado real e dolorosa, nenhum sonho é assim. E os gritos, que gritos seriam estes?

Enquanto eu pensava se seria preferível descobrir o que se passava ou ignorar o terrível fim que seguramente me esperava, o ruído aumentou e eu decidi arriscar. Abri os olhos: havia um exagero de luz, o Sol rasgava o pára-brisas do automóvel, mas eu viajava felizmente no banco de trás, o que tornava menos iminente a sensação de desastre. Estranhamente calmas perante as circunstâncias, sentadas nos dois lugares da frente, duas senhoras, minhas velhas conhecidas da sociedade caldense. O único facto estranho era que conversavam aos berros, já que as suas palavras tinham que se sobrepor ao ensurdecedor rugido do motor. Comecei a lembrar-me...

Apesar da “noitada” tinha-me levantado cedo e decidido ir até à Foz. Como a minha família não ia, devido aos preparativos para uma qualquer festa (roupas, cortes de cabelo, costureira, cabeleireiro), decidi apanhar uma camioneta que saía da garagem às dez e meia e passava na Rainha dois minutos depois. A grande vantagem de ir à Rainha, e não à garagem dos Capristanos, é que as hipóteses de ser visto por alguém conhecido eram grandes e evitava o incómodo das paragens constantes da camioneta e o preço do bilhete. E parecia ter resultado porque, mal cheguei, imobilizou-se logo um carro e ouvi chamar o meu nome. Com o cérebro ainda entorpecido só tarde de mais descobri que a condutora era uma amiga da minha Mãe, a D. Florinda, célebre pela sua condução. A forma como obteve a carta é um dos grandes mistérios caldenses! Tentei esconder-me mas já não consegui, e lá fui naquela terrível boleia para a praia. O curto sono nocturno, o calor do Sol e a baixa velocidade fizeram-me adormecer. Mas o problema é que, mesmo devagar, a manutenção em segunda velocidade provocava um enorme ruído, devido à elevada rotação do motor, obrigando também a que a conversa se desenrolasse a um volume insuportável! E foi essa combinação de barulho e gritos que me acordou, confuso e sobressaltado.

Com umas noções de condução obtidas em pequenas experiências no carro da minha Mãe e de alguns amigos, tentei convencer a condutora a engrenar a terceira velocidade. Respondeu-me que não era aconselhável, porque não queria ir muito depressa e assim era muito mais seguro! Desisti dos meus conselhos na subida para o Alto do Nobre, precisamente no momento em que fomos ultrapassados pela camioneta em que eu devia seguir, se o azar não me tivesse batido à porta… A viagem durou uma eternidade, com a minha ligeira ressaca a tentar, sem êxito, adaptar-se àquele ambiente claramente hostil. Quando chegámos, as duas amigas estavam já um pouco roucas e o automóvel não devia ter o motor nem a transmissão em grande estado, mas isso não me preocupava, não tencionava viajar nele nunca mais!

Estava um glorioso dia de Verão na Foz! A espessa neblina, batida pela nortada com que tínhamos sido brindados após passar o palacete Almeida Araújo, parecia chuva e encharcava até aos ossos. Dia invulgar, já que habitualmente ou está nevoeiro ou vento, não as duas coisas simultaneamente.

A praia estava muito vazia e a nossa barraca não estava armada. Nem perguntei porquê ao banheiro, o Zé Luís, com o dia assim não precisava dela, fui direito ao Tábuas tomar uma bica. Encontrei lá vários amigos refugiados, entre eles a Luísa, uma lisboeta que alugou casa na Foz, admirada com a nossa presença num dia tão mau. Expliquei-lhe que isso era imprevisível, é preciso vir todos os dias; hoje, por exemplo, estavam 30 graus nas Caldas e ali era o que se via. Mas por vezes é ao contrário, estamos habituados à Foz ser sempre uma aventura e as condições meteorológicas uma incógnita. Mas para os verdadeiros entusiastas é irrelevante, o sol não é imprescindível. Nestes dias joga-se King no Mar à Vista à espera que “abra”. Este é o verbo que todos usam nas conversas: “abrir”.
- Será que “abre”?
-Ontem só “abriu” às três…
-Se “abrir” fica o melhor dia do ano!
”Abrir” significa aparecer o sol, dissipar o nevoeiro. Acontece raramente, mas, quando acontece, são tardes fenomenais e esta é a “melhor praia do Mundo”; esquecemos os dias de chuva, vento e frio que são, infelizmente, a maioria.

Mas, por enquanto, a Foz dava razão a Ramalho Ortigão, que afirmava ser esta a estância balnear onde o Inverno passa o Verão… E lá nos preparámos para jogar umas cartas. O dono autorizou mas, para justificar o uso da mesa, trazia uma rodada de bicas de dez em dez minutos. Como ele tem sempre uma barba de três dias e os olhos injectados de quem não dorme há semanas, ninguém teve coragem de dizer que não! Com tanto café, os cigarros acenderam-se uns nos outros. Tenho que voltar a perguntar ao Dr. Marcos Costa se ele pensa mesmo que vir à praia é benéfico para a minha saúde...

Já perto da hora de almoço era evidente que não ia “abrir”. Muita gente se dirigia para a camioneta ou para os carros, a minha boleia matinal também regressava e ofereceu-se para nos transportar de volta. Assegurámos que tencionávamos ficar todo o dia, aproveitando o tempo estar esplêndido! Salvos dessa ameaça, apanhámos pouco depois boleia com o Eng. Ramires. O automóvel era novo, tivemos que assinar uma declaração assegurando que não transportávamos qualquer grão de areia. Assegurámos repetidamente que não tínhamos estado na praia, sempre no café! Olhou-nos, desconfiado, mas lá entrámos na viatura. O Nuno, um pouco mais forte que eu e o Fernando, não se enquadrava no plano do condutor de “distribuir equitativamente os pesos dos passageiros, por causa da suspensão” e ficou em terra. Os dois filhos do Engenheiro foram devidamente espanados e lá fomos todos entrando e saindo, trocando de lugares, em busca de um “equilíbrio perfeito” dos pesos dos ocupantes. Finalmente satisfeito com uma solução, após inúmeras experiências, o condutor rumou às Caldas. Durante a viagem, enquanto o automóvel se engasgava em quarta velocidade, a passo de caracol e o dono se queixava do excesso de carga, quase decidi sair para vir a pé e chegar mais depressa ao almoço. Mas o Fernando convenceu-me que seria uma indelicadeza e eu lá me deixei ficar, já com saudades da viagem com a D. Florinda.



Durante o Verão vivemos de manhã na Foz e à tarde no Parque (e à noite nunca se sabe, para desespero das mães mais preocupadas…).

Tinha um “court” de ténis marcado às quatro e bati umas bolas durante uma hora. Não tenho o vício do Miguel, também gosto de pingue-pongue, das tardes de cartas no Casino, dos passeios de barco, dos lanches no Machado e Esplanada, da preguiçosa inactividade nas “avionetas” da alameda principal e das longas conversas sobre tudo e sobre nada com garotas que fingem deixar-se seduzir enquanto nos avaliam, escolhendo (elas sim) um flirt de Verão…

Mais do que a jogar ténis, diverti-me a ver uma partida, entretanto iniciada no outro campo, entre o Dr. Camilo Veiga e o filho, o João. A esposa de um dos adversários, e mãe do outro, assistia ao feroz embate quase impossibilitada de se manifestar já que, se batia palmas ao pai, era apelidada de “madrasta”, se aplaudia o filho, de “esposa traiçoeira”. Sentei-me com o Filipe junto à senhora e acabámos a comer umas magníficas línguas de gato do Machado, originalmente destinadas aos contendores, entretanto caídos, por culpa própria, em desgraça. Nem vi quem ganhou, o prémio principal, as bolachas, já nos tinha sido entregue! E o Ténis obrigou-me a um duche que fui tomar a casa, não há balneários no Parque.

Vesti-me e preparei-me para sair. Um metro e oitenta e seis com sessenta e dois quilos permitiram-me vestir umas justas calças brancas, que hoje me serviriam talvez de cinto, e uma Lacoste que se colava às costelas, isto apesar da meia-dúzia de papo-secos do Teixeira que lanchei. O meu Pai, acabado de sair do consultório, também se lavava, barbeava e vestia para o tal jantar que impedira a minha Mãe e irmã de irem à praia. Eu, que me barbeio duas vezes por semana, olho sempre incrédulo para ele que, fazendo a barba de manhã, tem que repetir o ritual quando sai à noite.

Com a minha idade estou já dispensado de os acompanhar, o que me permitiu ir jantar fora em mais interessante companhia. Ainda me fizeram recomendações sobre horas e deslocações, mas nem ouvi, já estava ao telefone a fazer planos. Porque a noite estendia-se à minha frente, prometendo tudo (generosa e sem condições, como só é possível aos dezassete anos), em qualquer dos Locais de Encontro da Juventude Caldense …

João Jales
COMENTÁRIOS A "ENCONTROS DE VERÃO"

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30-05-2008
Luis António disse:
Os nomes são todos inventados, não são? parece-me que reconheço algumas pessoas (......). Gostei. Um abraço. L
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30-05-2008
Higino Rebelo disse:
Olá Jales
Fiquei maravilhado com o teu texto sobre os encontros de Verão na nossa praia da Foz do Arelho e por duas razões a saber: a primeira, pela eloquente narração dos factos; e a segunda, pela convicção que conseguiste criar em mim de que o texto será apenas um ensaio para um capítulo de um futuro livro, quiçá romance. Por que não!Higino Rebelo
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30-05-2008

J. L. Reboleira Alexandre disse:
Realmente está tudo aqui. Se no caso do João Jales as coisas de mar se passavam na Foz e os encontros eram marcados pelo telefone, noutros casos, o nosso, era em Salir, mas os encontros eram marcados na reunião da malta, ao entardecer, depois da jogatana da bola no areal da praia, e dum jantar (ceia) apressado, à luz do «petromax».Já houve aqui polémica que chegue, mas como eram realmente diferentes as vivências entre a juventude caldense e a das aldeias circundantes. Para quando um estudo comparativo entre estas duas formas de viver, num passado tão recente.Abraço amigo do Canadá.
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30-05-2008
Luisa disse:
Já te disse uma vez que lia memórias deste tempo sem me cansar, o blogue podia e devia ter mais. (vais responder outra vez que as escreva eu!!)
Reconheci pessoas do nosso tempo, Nuno mendes, Fernando Jorge, Anabela Castro, Miguel Bento Monteiro,mas também outros mais velhos (............), escreve mais!!! Luisa

(NOTA: os outros nomes estão certos, mas a Anabela do texto não é a Anabela Castro. JJ)
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30-05-2008
Jorge disse:
Má publicidade para a Foz do Arelho, essa história do mau tempo! À parte isso, isto devia ser o tema do blogue, este reviver com vivacidade e humor de um tempo diferente. Parabéns e um abraço. Jorge
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30-05-2008
São disse:
Sobre os teus "Encontros de verão" quero que saibas que adorei ler... a estória está tão bem contada que acredita que me chegou a cheirar a maresia... está lá tudo, até as acidentadas boleias!!! Que memória João! E que talento!
Eu tinha com muito gosto e sem interrupção continuado a ler os próximos capítulos...! Bjs São

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30-05-2008
Filipe disse:
(.......)como já disse antes não fui aluno do E.R.O., mas este texto não é sobre os alunos do Colégio, é sobre uma geração... Eu só não joguei ténis, á parte isso "estou lá". Parabéns.

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30-05-2008
Fernando Santos disse:
Caro J.J.
Gostei de ler a descrição que faz sobre os dias de sol nas Caldas e o nevoeiro na Foz.Nos anos 50 eu costumava acampar com o meu grupo no pinhal situado no lado direito à entrada da Foz, e muitas vezes saíamos dali com uma bela manhã de sol para ir ao banho, e ao chegarmos próximo da praia o nevoeiro era tanto que nem as barracas se viam.Já lá vão muitos anos, mas ao que parece o clima dessa região continua a ser o mesmo(COISAS DA NATUREZA...).
Um abraço. Fernando Santos.

31-05-2008
Isabel Sousa e Silva disse:
Parabéns João por este magnífico texto. Quase que podemos dizer que qualquer semelhança com a realidade não é mesmo coincidência.Gostei dos nomes fictícios, mas deu para identificar. Quem não se lembra da "D.Florinda", autêntica Michelle Mouton da época?
Muito divertido! Bjo. Belão

31-05-2008
Luís Santos disse:
Li com prazer. “…das longas conversas sobre tudo e sobre nada com garotas que fingem deixar-se seduzir enquanto nos avaliam, escolhendo (elas sim) um flirt de Verão” …e era absolutamente verdade, mas nós não sabíamos, só mais tarde (tarde de mais…). O texto é muito bom, o teu melhor (até agora).

01-06-2008
Isabel Knaff disse:
Um pouco atrasada mas não quero deixar por dizer o quanto aprecio estes "teus" Encontros de Verão.
Que descrição tão refrescante , divertida e familiar.
Extraordinário como consegues trazer de volta todos estes preciosos componentes !
Adorei ler e desejo que este artigo tenha sido só o principio de muitos mais para vir.
Até á próxima
Bjs
Isabel Caixinha

01-06-2008
José Lopes disse:
Este é um blogue invulgar que visitei por indicação de um amigo que também saiu daí há muito tempo (…..)não fui aluno do Ramalho Ortigão mas passei férias nas Caldas nos saudosos sixties e tive muitos amigos de lá. Depois os meus avós morreram(……). Não me lembro de nenhum João Jales (......) , lembro-me das vidas e dos verões de que ele fala, do ténis, do parque, da Foz do Arelho e São Martinho. E de repente pareceu-me tudo tão perto e tão recente!
(NOTA: recebemos este comentário através do Blogger, gostaríamos de pedir ao autor para contactar directamente ex.alunos.ero@gmail.com por favor)

02-06-2008
João Ramos Franco disse:
Gostei João.
Neste texto vais para além das gerações, todos nós tivemos dezassete anos e andámos por aí.
Os Encontros de Verão são “reais” para mim, eles não têm data, retratam a juventude de todos nós, “como só é possível aos dezassete anos, em qualquer dos Locais de Encontro da Juventude Caldense” …(bem o dizes) João Ramos Franco

02-06-2008
António disse:
(……) só não percebi o porquê dos pseudónimos, reconheci-os todos (……) e todos eram pessoas que estimámos, não vejo motivo para não os nomear.
De resto está tudo dito nos outros comentários…
Confesso que nunca pensei em ti para isso, sempre em colegas mais velhos, mas já que eles não avançaram. porque não umas memórias a sério desses tempos? Aparentemente tens lembranças e o talento! Abraço


Margarida Araújo disse:
Já nos vamos habituando à ideia que o João não é só música. Com uma escrita viva, de boa memória e bem-humorada, prende-nos!
Relembrei muita coisa, em especial o verbo "abrir", tão empregue na Foz. Regularmente os nevoeiros eram frequentes e frase "ainda hoje abre" ou "hoje não abre" era conversa constante dos mais entendidos. Um microclima alternando os nevoeiros com as nortadas reboliçadoras a tentarem levantar as barracas como uns balões de ar.
Quanto aos nomes são todos ficcionados, claro e a fotografia do Parque é uma montagem, seguramente.
Um beijo amigo de Parabéns
Já está no prelo?????
RISCAS DE PRAIA
Todos os verões as praias vestem-se de garridas riscas.
As barracas abrigam-nos das nortadas, dos nevoeiros, do sol forte.
Transformam-se também em casinhas de pano, para tirar o fato de banho molhado, ou até fazer uma soneca.
Retorno numa nuvem de areia e sal à infância.
Lembro a vendedora dos bolos, com a caixa repartida em prateleiras deslizantes: as bolas de Berlim, os pastéis de nata, os bolos de arroz, os queques, os eclaires. O açúcar teimava a confundir-se com grãos de areia e à medida que se abriam os vários compartimentos da pastelaria ambulante o nosso apetite guloso ia crescendo.
Também havia os Olá fresquinhos – há fruta, ou chocolate. E a bolacha americana a estalar na boca ao despique com batatas fritas?
Depois eram as brincadeiras, correrias de escondidas nas barracas, poços em busca de água, castelos de areia, formas em forma de bichos ou flores, barquinhos que se faziam ao mar, saltar as ondas, ou furá-las, percorrer a beira-mar e ver as marcas deixadas no chão. Encontrar conchinhas para pôr em frascos ou colares, ver estrelas sem ser no céu e os marotos dos caranguejos a fazerem marcha-atrás.
Todos nós já vivemos pedaços de vida nas barracas de praia.
Quem sabe se até um primeiro beijo tímido, coado de luz, foi aí trocado. GUIDÓ

Comentário a "Os Locais do Mário Xavier", por Chico Carrilho




Chico Carrilho



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Muito bem Mário! Gostei muito de voltar a sentir, através das tuas palavras, o ambiente fantástico que partilhámos no MUCH. Acho que só te esqueceste de referir que, no ínicio, tínhamos lá uma mesa de pingue-pongue feita pelo teu pai onde treinámos bastante, mas, com o avançar das nossas idades e a inevitável atracção pelo sexo oposto, rápidamente passámos do desporto para outras actividades tambem elas muito suadas e, aí, o maior uso que ela teve foi servir de biombo (chama-se a isto aproveitamento dos objectos para diferentes fins). Para isso, levantávamo-la por forma a ficar assente sobre um dos lados e encostávamos os pés da mesa à parede criando um espaço reservado. Não quero adiantar muito mais, mas penso que no chão chegou a estar um colchão velho (para quem quisesse descansar...).
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Os bailes do MUCH eram famosos, como referiste e muito bem, e penso que uma das coisas que mais contribuiu para isso era o facto de um "slow" com uma determinada duração, no MUCH durava 4 a 5 vezes mais. O segredo consistia em(e aqui a cumplicidade masculina era fundamental ), quando a música estava a chegar ao fim, dar um toque no gira-discos de forma a que a agulha voltasse ao princípio. É claro que os sócios do MUCH eram os que tinham esta técnica mais desenvolvida, fruto de longas horas de treino. Também praticávamos a divisão de tarefas, assim as meninas levavam os "comes" e os rapazes os "bebes". No final, e depois de arrumada a "sede", quem é que comia e bebia o que sobrava, quem era?- os sócios do MUCH!
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Quanto à "jogatana", aquilo atingiu niveis indescritiveis, já que se chegava a jogar Poker "mano a mano". O Rogério tinha uma hora livre e aparecia lá para jogar com o Mário. Eu lembro-me de uma vez ter como opositor o saudoso Johnny (João Lourenço). Ainda hoje o Nuno Mendes é conhecido pelo "Mijinhas", devido à forma peculiar que tinha de apostar.
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Referes também que "diáriamente eu, o Xico Carrilho e o Faria". É verdade que nesses anos eu passava os dias em tua casa e gostava aqui de fazer um agradecimento público aos teus pais pela disponibilidade , paciência e carinho com que sempre me trataram ao ponto de a tua mãe me tratar por "sobrinho". Ainda outro dia comentei com a tua irmã Isabel que lhe hei-de fazer uma visita um destes dias.
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Apreciei, especialmente, a última parte em que referes que " independentemente das voltas que as nossas vidas tenham dado seremos sempre AMIGOS!" Pela minha parte não podia estar mais de acordo.
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Só queria dizer, e para terminar, como membro vitalício do MUCH MONEY GROUP, que, por mim, estou disponivel para a realização de uma Assembleia Geral com o ùnico ponto da ordem de trabalhos: proposta de entrada para sócio, após trinta e cinco anos em lista de espera, do meu bom amigo José Carlos Faria. Eu voto SIM!
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Um grande abraço
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Chico Carrilho
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Nesta fotografia estão alguns dos "suspeitos do costume" referidos nos textos do Chico e do Mário (e mais alguns). Foi tirada no Casino em 1970 e esta é uma boa altura para um dos retratados a legendar.


Belão disse:

Então ninguém legenda a foto da "matiné infantil"?Vou começar e haja alguém que termine!

Prima da João Gomes?; Belão; Nami; João Gomes; Luís Miguel; Anico; Tucha; João Ferreira; Mena Gomes; Rogério; Chico Carrilho(sentado); Rui Hipólito; Lipe Zé;Misá; Marta; Mena Pinheiro.

2ª fila- Aline?; Manuela; Gena ;?; Paula Jales;Clara; Guida Rêgo; Susana; Zé Carlos Faria; Zezinha.
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MJoãoGomes disse:
Prima da João Gomes não é. Conheço a cara, mas não me lembro do nome, deve ser do ADN (Antiguidade da Data de Nascimento), mas a Guida Rego ou a Paula Jales são rapariguinhas para saber.

Paulinha disse:
a prima do Carlos é a Misá , irmã do Janeca.

30-05-2008
Mª João Gomes disse:
O Xico referiu o carinho com que a D. Maria da Luz o tratava, mas não era só a ele. Havia aqueles miminhos:-meninas saiu agora um bolinho do forno, venham lanchar. E aí íamos nós todas contentes (ainda não tínhamos problemas de pneuzinho, colesterol trigliceridos, etc).Não sei mas acho que estes mimos eram só quando haviam meninas por perto, corrijam-me caso seja presunção minha. Um beijinho e obrigada D. Maria da Luz.

Os Locais do Mário João Xavier



Mário Xavier
















MUCH MONEY GROUP

Para que conste este era o VERDADEIRO nome de uma briosa Associação criada nos finais dos anos sessenta, em Caldas da Rainha, por alunos do E.R.O.

Tal nome, ideia do Costa segundo julgo lembrar-me, acabou por ser simplificado para o “internacionalmente” famoso MUCH.

Nessa época os locais de convívio dos jovens Caldenses eram limitados aos lugares já várias vezes referidos (Zaira, Central, Casino, Floresta, etc), mas nós pretendíamos um diferente, onde pudéssemos conviver sem gastar dinheiro e estar à vontade .

O meu irmão Luís , a residir em Lisboa, deu-nos a ideia e motivou-nos para fazermos uma pequena Discoteca. Essa era a ideia inicial.

A exemplo do que acontece muitas vezes a essa ideia foram-se acrescentando outras acabando por resultar em algo um pouco diferente do previsto.

Posto o desafio lançámos mãos à obra para concretizar tal projecto.

Eu – Mário Xavier, o Chico Carrilho, o António João Costa, o Rui Hipólito e o Rogério Matias avançámos com as primeiras iniciativas, a saber: eleger como Presidente “vitalício” Luís Xavier e declarar a indisponibilidade da Associação em, no imediato, aceitar como sócio o José Carlos Faria que, num exercício de maldade tão “querida” e própria dessas idades , ficaria em lista de espera a aguardar o honroso ingresso em tão nobre colectividade, quando tal fosse considerado oportuno.

Para além do Presidente distribuímos entre nós diversos cargos de grande gabarito e que nos elevaram aos mais altos patamares da vida social da época.

Ou seja todos nós éramos qualquer coisa como secretário, tesoureiro, vice-presidente o que para além de alimentar os nossos egos juvenis fazia do Much provavelmente a única colectividade cujos corpos gerentes constituíam a totalidade dos sócios.

É claro que o meu irmão Luís era solidário, dava as ideias, mas as suas funções eram algo limitadas pela distância a que se encontrava das Caldas e pela razoável diferença de idades. No entanto teve um papel aglutinador e dinamizador muito importante.

Para além dos corpos sociais uma colectividade que se preze necessita de um espaço próprio para desenvolver as suas actividades, aliás era esse o principal motivo da nossa mobilização – um espaço de convívio nosso.


O local já estava escolhido desde o primeiro momento e, para quem não se lembre, o Much tinha a sua sede naquele prédio verde no Largo Conde Fontalva (vulgo Largo da Rainha) com o número 7, onde ainda hoje vive a minha mãe.

A casa tem outro prédio atrás separado do edifício principal por um pequeno quintal. No r/c desse segundo edifício funcionou a nossa associação.

Preparámos a sala para o efeito, decorando-a de forma a parecer uma discoteca.

Resolvemos tapar todas as paredes com papel de jornal, com um cartaz de cinema, julgo que de um filme italiano, a cobrir a parede do fundo, uma mesa baixa e redonda para jogar às cartas, candeeiros e outros adereços que acabaram por, no seu conjunto, resultar bastante bem.

Todos trabalhámos muito nessa transformação mas tenho de ser justo e realçar o papel desempenhado pelo Faria que foi incansável nomeadamente quando foi convencido a molhar as mãos em tinta preta e marcá-las no tecto, TODO!

A entrada da sala dava para o quintal e nós resolvemos dar um nome à mesma, com a tal tinta preta, tendo ficado escrito A TEIA, mas confesso que tal nome nunca teve qualquer sucesso ou significado para nós, caindo no completo esquecimento.

Acabadas as obras estava finalmente em funcionamento o Much Money Group(queríamos com isto dizer que se tratava de um grupo com muito dinheiro).

Decidimos pelo pagamento de uma quota mensal de 25 tostões, que só cumprimos nos primeiros meses.

Distribuímos as tarefas e iniciámos as nossas actividades.


Jogávamos às cartas todos os sábados à tarde, ao póquer e à lerpa, sempre a dinheiro se bem que esse raramente fosse visto em cima da mesa, ou seja todos tinham dividas uns com os outros que ainda hoje estão por cobrar. Gosto de pensar que ganhava mas julgo que estaria a faltar à verdade, penso que perdi mais vezes do que ganhei.

Eram saborosas essas tardes e noites do fim de semana em que nos juntávamos conforme a nossa disponibilidade , ouvíamos música, conversávamos, FUMÁVAMOS e jogávamos às cartas.

Pode parecer pouco mas resultou muito bem para nos divertirmos e conhecermos melhor uns aos outros.

Recordo com alguma saudade o Xico e o Faria a tocarem viola e cantarem. Do humor imenso do António João Costa. Da forma sempre alegre e participativa dos “putos” Rui Hipólito e Rogério Matias que com a sua acção contagiavam todos para festivais épicos, de boa disposição.

O Much era um Clube onde as meninas não eram sócias mas entravam, sendo memoráveis alguns dos diversos “BAILES” organizados pelo Much ( entretanto esse passou a ser o único nome por que era conhecido).

Felizmente a família Xavier é bastante numerosa o que deu origem a várias festas de aniversário , devidamente inventadas, e que serviam de justificação às miúdas para se deslocarem às nossas festas.

As minhas irmãs Helena e Isabel, a Fani, a Joana Ribeiro Lopes, a Paula Abreu, a João Gomes, a João Ferreira, a Nami, a Paula Jales, a Mena Gomes, a Belão, a Céu, a Guida Rego, eram, entre outras, as que mais frequentavam o Much.

No que ao lado dos rapazes diz respeito a lista é bastante maior mas vou arriscar recordar alguns tais como o João Jales, Henrique Conceição, Nuno Mendes, Pedro Nobre, José Carlos Sanches, Fernando Castro, Joca Ferreira, Cácá, Hilário e muitos outros que não recordo neste momento.

O Much só não funcionava nos meses de Agosto e Setembro, época em que a minha família se deslocava para S. Martinho do Porto.

Durante o resto do ano funcionava sem paragens e sem desânimo de qualquer espécie. Diariámente eu, o Xico Carrilho e o Faria encontrávamo-nos para ouvir música, fumar e conversar ( o José Carlos não fumava) e a partir de sexta feira já os outros elementos se juntavam a nós.

Acresce ainda esclarecer que o Much só funcionava com a cumplicidade dos meus pais que seguiam o sábio conceito de que era preferível ver o local onde nos divertíamos e convivíamos do que não saber onde poderíamos estar no decorrer das nossas actividades.

Se me perguntarem se tenho saudades desses tempos eu respondo que sim , por duas ordens de motivos, uma éramos novos e a outra é que construímos algo muito importante para o nosso futuro no que ao campo dos afectos diz respeito.


Julgo poder afirmar que, independentemente das voltas que as nossas vidas tenham dado somos todos, para sempre, AMIGOS.

Cimentámos a nossa ligação numa época das nossas vidas em que se constroem as verdadeiras amizades , sem subterfúgios e sem segundas intenções e isto faz de nós, irremediavelmente, membros vitalícios do MUCH MONEY GROUP.

Caldas da Rainha, 23 de Maio de 2008
(após insistência do amigo João Jales a quem agradeço a sua enorme PACIÊNCIA)

UM GRANDE ABRAÇO A TODOS

MÁRIO XAVIER

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Comentários

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24-05-08
JJ disse:
- Em termos de data o próprio texto aponta o final da década de sessenta, início de setenta.
- Os bailes do Much eram óptimos, boa música, o “who’s who” da nossa geração estava realmente lá, faltam nomes no texto, mas isso não é importante . Além dos citados lembro-me de lá ver, da minha turma, Miguel B M, Lena Feliciano, Dália, Guidá, Paulinha, Flores, Rui F S, mas também gente de outros anos: Luís e Teresa Machado, Eca, Zé Pereira, Eurico, Pardal…
- A batota, nomeadamente o Poker, atraía gente de idades diferentes. Hoje somos todos da "mesma idade" mas entre o Rui Hipólito e o Nuno Mendes deve haver uns cinco ou seis anos de diferença, não era vulgar este “abismo etário” em grupos jovens. Talvez nas lerpas entre os “directores” o dinheiro não mudasse de mãos, mas nos Pokers que lá joguei as coisas foram diferentes!
- A paciência foi do Mário, ele é que escreveu o texto. Eu limitei-me a esperar que ele o enviasse e isso não é paciência, é pura preguiça...
- E sim, somos amigos, sem necessidade de mais comentários. Já agora, só para saber, o Zé Carlos Faria já é sócio ou ainda não?

25-05-2008
Belão disse:

Ó Mário, que bom que foi o Much! Apesar de nós, as meninas, não o frequentarmos diariamente, os "bailes",os aniversários, foram de facto inesquecíveis.
Ao ler o teu texto consegui rever na perfeição a entrada pelo quintal, a decoração, as luzes (ou falta delas!). Consigo lembrar também a boa disposição e humor do Costa que conseguia sempre arrancar gargalhadas enormes aos presentes, sempre que abria a boca.
O duo Chico/Zé Carlos era fantástico. Lembro-me do Chico a cantar desde sempre. Chegou mesmo a aspirar ultrapassar o Joselito (isto antes do Much, claro)! No Zé Carlos, desde cedo se notaram também os seus dotes artísticos!
Mário, obrigada por me fazeres recordar com saudade mais um tão importante local da minha (nossa) juventude.
Ainda bem que o João te conseguiu arrancar esta pérola!
Um grande beijo
Belão

26-05-2008
Zé Carlos Faria disse:
A minha inclinação Marxista (tendência Groucho) leva-me a dizer o seguinte: «Eu não aceitaria pertencer a um clube que me aceitasse como sócio» (excepção feita ao glorioso Sport Lisboa e Benfica, claro).
Porém, naquele grupo do Much encontei eu amizades das mais sólidas e duradouras de uma vida que vai na casa 52. E isso (desculpem lá a pieguice) toca-me muito e bem no fundo.
Abraço fraterno! ZCF

30-05-2008
Mª João Gomes disse:
O Xico referiu o carinho com que a D. Maria da Luz o tratava, mas não era só a ele,
Haviam aqueles miminhos:-meninas saiu agora um bolinho do forno, venham lanchar.
E aí íamos nós todas contentes (ainda não tinhamos problemas de peneuzinho, colestrol trigliceridos, etc).
Não sei mas acho que estes mimos eram só quando haviam meninas por perto, corrigam-me caso seja presunção minha.
Um beijinho e obrigada D. Maria da Luz

Retrato de Família no Casino : ERO, ESCOLA E AMIGOS

Baile da Chita 1970
Então aqui vai :
Na mesa - Dr. Lopes
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Da esquerda para a direita
Sentados: António Elias, Anabela Elias, Anabela Ferreira, João Gregório Vendas, Chico Cera, Mário Zé Jordão, Teresa Elias, Gé (Eugénia), Zé Letras e Mariazinha Gregório
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De pé: Luisa Nascimento, Augusto Machado, Roberto Ornelas, Ana Nascimento, Salete Lourenço, Janja Salvador, Marques Filipe, Ana Margarida Lobo, Elsa Nogueira, Graça Jordão, ????, São Pina e Álvaro Lucas

Título, fotografia e legendagem de Ana Nascimento.

Comentário a "Locais da Belão" , por Ana Nascimento

ANA NASCIMENTO
Querida Belão :


Cheguei só agora mas penso que ainda venho a horas….Li com gosto a tua descrição do Casino… Ai que saudades que eu tenho, dos bailes… do convívio… do cafezinho tomado no bar ….das tardes de conversa passadas na Aldeia dos Macacos. Abençoado Zé Augusto, ou seja o senhor teu pai, que propôs as assinaturas de Verão e nos permitiu fazer do Casino o nosso principal ponto de encontro…. As coisas de que tu te lembras … e o que me fizeste recordar…aqui vão algumas :
No Verão de 70, além da Amália Rodrigues e do Rui de Mascarenhas (que não cantou pois estava afónico) também o D. Vicente da Câmara foi actuar no Casino e, do seu vasto reportório, dedicou-nos o fado das Caldas…A eleição de miss Praia nesse ano passou-me completamente … nem tão pouco a celeuma que isso causou… e a miss hot pants ainda muito menos…
Lembro-me sim do Baile das Chitas e do das Cabeças enfeitadas …. acho que a designação, embora um pouco estranha, era esta… sei que à ultima hora como não tinha mais nada levei um espanador a fazer de chapéu. O Baile das Chitas, além do do 15 de Agosto, era um ponto alto nos eventos de Verão…Umas semanas antes era ver as pequenas na procura das chitas para fazerem os vestido e os respectivos lenços e gravatas para o pares que as acompanhavam. … E depois havia um concurso, não sei se existia o título de Miss Chita (o teu pai poderá confirmar….) mas o modelo mais elegante, mais original, era premiado….. Sei que na altura ganhei qualquer coisa e recebi da mão do Dr. Calheiros…. uns doces da Frami !!!!
E a propósito de entradas sem pagar, o episódio contado pelo Zé Carlos não foi único. Na porta principal estava o Sr. Fernando e o Sr. José, nós abríamos a janela da nossa casa de banho, de modo a que os “piquenos” pudessem entrar, escapando-se ao pagamento. Isto era um trabalho de grupo …, enquanto umas controlavam a janela, outras distraíam a sra. do bengaleiro (não me lembro o nome dela) e as restantes estavam atentas à entrada não fosse o sr. Fernando sair do seu posto e dar de caras com os rapazes a saírem do Toillete das Senhoras...
E os concursos da valsa e do tango? Ainda ganhei um prémio a dançar a valsa com o Xixas…que bom que era dançar com ele …, dançava tão bem …leve como uma pena … quase que nos pegava ao colo para deslizarmos na pista de dança.. e havia pares tão giros a dançar… lembro o Dr. Calheiros e a Maria Emilia .. tão elegantes…
A miss Casino de 1970 não sei quem foi, mas em 69 acho que fui eu… (ai esta memória… as gotas estão a fazer-me falta…será que a Anabela Miguel se lembra da data? ) Eu não registei grande coisa deste “evento” talvez porque para mim a Miss Casino seria sempre a Ana Vieira Lino … recordo apenas que levava um vestido branco de renda , muito “in” na altura, e que o Xavier Salgado foi eleito o homem mais feio (de certo uma partida que lhe pregaram pois o “mocinho” era bastante apresentável…)Estes bailes tinham sempre um horário “alargado” … acabavam por voltas das 6 da manhã e quando chegávamos à Praça deparávamo-nos com alguns comerciantes já a postos para, ao soarem as badaladas das 7h no relógio da Câmara, ocuparem os seus lugares de venda. Não se ia logo para casa……. seguíamos direitinhos para a Padaria das Teixeiras, onde o cheirinho a pão quente, a sair do forno, era uma coisa deliciosa… Em seguida, já abastecidos de papo secos, rumávamos para a a Zaira onde o staff da altura (Sr. João ,Sr. Romão , Sr. Zé e o Albertino ) começava a contar –nos e a dar a ordem para a copa : “Atenção, saiam 2 copos de leite frios com uma casca de limão, 5 galões , 4 bicas e um pacote de manteiga para a mesa do canto….
E por aqui me fico pois vi que o que tinha começado por ser um comentário quase virou um “testamento”… Obrigada Belão por me teres feito recuar no tempo e reviver momentos tão ricos da minha juventude…
Beijinhos
Ana

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22-05-2008
Isabel disse:
A fotografia do grupo, no casino, está uma maravilha. Seria possível legendar? É que assim ficávamos também a saber quem é quem. Bjs Isabel Caixinha

22-05-2008
João Jales disse:
Já está legendada a fotografia, falta identificar uma jovem, se alguém reconhecer, por favor informe. São todos mais velho que eu e, os que tinham sido alunos do ERO, já lá não estavam nesta data.
Aproveito para esclarecer:
- não havia eleição de Miss Chita, e sim uma votação nos pares, que tinham que cumprir várias provas (incluindo dançar), conforme escrevi nos meus comentários ao artigo da Belão.
- as entradas pelas diversas janelas, evitando a bilheteira, são uma cena clássica do Casino desde os anos 50. A relativa tolerância em relação a esse acto prendia-se com o facto de serem os “penetras” normalmente pessoal da casa, com amigas e amigos no interior. Embora eu fosse sócio permanente e não pagasse, penso que a necessidade de tal aventura era muito discutível, nunca vi o Zé Augusto negar uma “borla” delicadamente pedida…
- os doces da Frami eram um prémio frequente já que o Rogério Caiado fazia parte da Direcção do Casino.
- houve muitos “bailes temáticos”, conforme as modas. Mini saias, hot pants, calças boca-de-sino, penteados, chapéus, tudo serviu de pretexto para animar os bailes de Verão. Cabeças enfeitadas, embora as houvesse, eram talvez tema de conversa mas não me lembro de serem tema de baile...Deve ser uma daquelas habituais brejeirices da Ana. Célebre ficou o Baile Hippie, em Setembro de 1971, com receita integralmente a reverter para o Xaranga, que teve polícia e Pide à porta e esteve para ser proibido! Outra estória para justificar um “regresso” ao Casino noutra ocasião. Mais tarde, já não nesta série.

22-05-2008
Belão disse:
É de facto tão bom recordar estes tempos! Ana, adorei também ler as tuas recordações. Lembro-me bem de teres sido Miss Casino (embora fosse muito "pita") e lembro-me também da Paulinha Jales ser Miss Praia (nada a ver com o concurso da Capital). O pão com manteiga na Zaira era da praxe, não só a essa hora da manhã, como todas as sextas-feiras, depois do Casino fechar. Aliás, a Zaira só fechava depois do Casino. Durante as noitadas de baile também era costume ir comer o famoso prego ao Camaroeiro (já aqui mencionado). Agora vou ter de corrigir o datómetro do JJ: João, o baile Hippie garanto-te que foi em 70, porque fui Miss Xaranga. Levava uma túnica às flores e umas calças brancas, às franjas, as quais foram autografadas pelos elementos do grupo (ainda com Burguete e Porfírio) e onde os próprios desenharam as violas, a bateria (no rabo, claro!) e toda a aparelhagem. Concordo com a Isabel Caixinha: vamos lá a legendar a foto dos jovens! Bjos a todos os que têm contribuído para o reviver desta época. Belão

Os Locais da Belão

















Belão




(Isabel Sousa e Silva)


O CASINO





Lembro-me do Casino desde muito pequena pois os meus pais eram frequentadores assíduos. Os serões eram passados pelo pessoal mais velho a jogar Canasta, Crapô e Bridge, ou no bar, frente à lareira, folheando o Século Ilustrado ou a Elle. De vez em quanto havia jogos de futebol importantes na televisão e então, sob a organização do Dr. Calheiros Viegas, faziam-se apostas acerca do resultado do jogo. Os Festivais RTP da Canção também conseguiam encher a sala do bar e deixar vazias as mesas de jogo. No bar, a D. Maria andava numa azáfama com as tostas mistas, o chocolate quente, os bombons de ginja e aquelas maravilhosas bolachas de chocolate que a Frami fornecia.

Todos os anos o Paulino Montez organizava um campeonato de Crapô que culminava com uma festa de entrega de prémios aos três primeiros classificados. Em 1964, se não me falha a memória, a festa do Crapô foi um acontecimento único. O portão do Casino abriu-se e os concorrentes entraram de automóvel no Céu de Vidro, vestidos à Anos 30.

Em dias de sol a juventude reunia-se na Aldeia dos Macacos (nunca percebi o porquê do nome) e jogava King ou Lerpa.

Não resisto a contar um episódio que despoletou na altura enormes gargalhadas. Passou pelo Casino um funcionário, o Sr Hermínio, que de expedito tinha muito pouco. Durante uma partida de King, o Nené resolveu tocar à campainha para chamar o Sr Hermínio que ao fim de algum tempo lá apareceu para tomar nota dos pedidos. Todos disseram o que queriam e o Nené concluiu: “ para mim é um copo de água d’el cano”.

Passado algum tempo o Sr Hermínio regressou: “ Sr Nené, dessa água não temos. Mas eu já escrevi no livro das faltas para o Sr Carreia Alves mandar vir.” Lindo!

E os bailes! Se havia coisas que nós as meninas ansiávamos, com direito a preparação com horas de antecedência, eram os bailes. Lembro-me de, juntamente com a João Ferreira e a João Gomes, em casa desta, começarmos o ritual às 6 horas da tarde! O baile era às 10h da noite, mas máscaras de beleza, banho de espuma, pinturas... tudo exigia muito tempo, claro! As pinturas eram o mais complicado, sem dúvida. Como não tínhamos propriamente idade para andarmos todas maquilhadas, era a Anabela (hoje Cera) que, vizinha do rés-do-chão, colocava as pinturas num cestinho que a João Gomes com uma corda recolhia no 2º andar, pela janela das traseiras do prédio. Não sei se ficávamos mais bonitas, mas nós achávamos que sim!

Bailes com eleição das Misses era outro momento alto. Sobretudo quando os rapazes conseguiam angariar os cartões de voto do pessoal mais velho e que quase sempre tinham como objectivo votar na pior de todas. Só para destabilizar e gozarem, claro! O menino Rui Hipólito era perito nessas andanças. Coitada da concorrente que desfilou com cinta por baixo do biquini e que, para espanto geral, e dela provavelmente, foi eleita Miss Praia da Foz do Arelho!

E os concursos de dança, organizados pelo Dr. Calheiros Viegas, nos quais até os últimos classificados recebiam prémio (que variava entre uma lata de concentrado de tomate da Frami e um cinzeiro de louça da Secla)?

Havia excelentes dançarinos que nos guiavam pela enorme pista de dança. Posso realçar talvez o Araújo, o Chiquinho Carrilho, o Xixas e o Carlos Branco. Mas havia mais, concerteza.

O Casino do Parque recebeu, ao longo da sua vida, grandes vedetas do mundo da música: Amália Rodrigues (que bebia uns valentes whiskies no toillete), Carlos do Carmo, Paulo de Carvalho, Paco Bandeira, Hermínia Silva, Shegundo Galarza... mas para muitos de nós a maior vedeta foi sem dúvida o Xaranga Beat.


O XARANGA BEAT


O Xaranga Beat chegou à experiência em 1970. Eram cinco rapazes, alguns de cabelo comprido, vestidos meio à hippies mas que convenceram pelo menos um director do Casino, logo à primeira música. E vieram para ficar.

Vocalista- Rui Burguete
Viola – Carlos Velez
Viola Baixo – Porfírio Laborinho
Viola Rítmica – Luís Maduro
Bateria – Rui Venâncio

Claro que foi um sucesso! Durante os meses de Julho e Agosto havia bailes todos os dias, excepto à 2ª feira, sempre com grande afluência, o mesmo sucedendo no Carnaval.


“Os êxitos do momento saíam em disco e um dia depois tocavamo-los, por vezes sem sequer os termos ensaiado uma única vez”! – Confirmou-me o Porfírio num magnífico serão que passámos juntos. “Ensaiávamos no carro, a caminho do casino.”

“O Xaranga Beat já existia antes de surgirem no Casino” – recorda Porfírio. Do 1º Xaranga não fazia parte o Carlos Velez nem o Rui Burguete, mas sim o Tó Achega (que mais tarde regressou ao grupo) e o Rui André.


Um dia, quatro rapazes (Burguete, Porfírio, Maduro e Venâncio) juntaram-se para tocarem durante os intervalos do conjunto que actuava no casino da Nazaré. Alfredo Monderrey, na altura fadista e proprietário da boîte “Digo eu” tornou-se empresário do grupo e marcou a dita audição para o Casino. “Não tínhamos instrumentos nenhuns na altura. Tocámos com tudo emprestado, até a bateria era do Tó Freitas. Foi o Alfredo que financiou aparelhagem e instrumentos. Fomos então buscar o Carlos Velez para se juntar ao grupo.” – Conta o Porfírio.

Fazia parte do contrato que no final do Verão se realizasse uma festa cujo lucro reverteria na totalidade para o grupo: “ Foi a Festa Hippie, que esteve para ser proibida. Cartazes...hippies... 1970... pensavam que era uma festa de drogas! Esteve quase para não se realizar. A GNR esteve mesmo de plantão à porta do casino.O resultado foi um tremendo sucesso e cada um de nós arrecadou 7 contos e tal. Muito dinheiro na época.”- Recorda o Porfírio.


Do programa constava a eleição da “Miss Xaranga” e do “Homem mais Feio”. Lembrava-me, claro, que fui “Miss Xaranga”. Não nos conseguimos lembrar quem foi o “Homem mais Feio”.


Em Outubro de 70, findo o Verão, um trágico acidente de viação vitimou toda uma família (Reis Vieira) e também o vocalista deste grupo, o Rui Burguete.” Ele era fantástico a cantar música francesa.” E era mesmo!” Lembras-te quando ele interpretava o Joseph e eu fazia uns falsetes?”- pergunta-me algo emocionado.



Não me lembro agora! Até me lembrei de uma música composta por eles, que o Rui Burguete escrevera e interpretava na perfeição. Dizia assim:

Um barco que parte
Entre imagens de areia
Um mar que se ergue
Pescador, barco, odisseia
Uma ânsia crescente
Uma ilusão falida
Um sol que é poente
Uma aurora em perspectiva...
................................................

Não sei se fiz boa figura a cantar com o Porfírio, mas gostei de o fazer. Lá que rimos muito, rimos.

Mas não era só a cantar que o Rui Burguete era fantástico. Embora muito miúda, tinha-o na minha conta como um ser superior. Tinha um coração enorme!

Sem a equipa completa, havia que substituir o Rui. Surge então e o Carlos Cavalheiro.
“ Tinha uma voz mais potente que bonita. E um grande pancadão!” – recorda.


Dois meses depois a tragédia abateu-se de novo sobre este grupo. O Porfírio sofre um brutal acidente de viação, com consequências graves. Felizmente não ficámos sem ele. Mas o Xaranga Beat viu-se privado de outro elemento.


Tó Achega ocupa o lugar de viola baixo, no grupo que nessa altura já contava com um teclista (Carlos Alberto).


Alguns meses mais tarde houve outra (trans)formação : Saem Maduro e Carlos Velez e o Xaranga conta a partir de então com Patrício, Cavalheiro, Rui Venâncio e Júlio Pereira que em 1971/1972 grava “Acid Nightmare Great Goat”- álbum duplo. No 2º disco Rui Venâncio dá o seu lugar a Zé da Cadela.

Aqueles cinco rapazes, os do “nosso Xaranga”, que em 1970 vieram para animar os bailes do Casino, mais do que artistas, eram parte do nosso círculo de amigos.
Ao longo destes anos lá fui encontrando uns e outros e sempre constatando que é com imensa saudade que recordam o Casino e a cidade, com toda a animação que a caracterizava.

Breves notas e comentários a "O Locais da Belão"

O Crapô é um jogo de cartas parecido com uma paciência jogada alternadamente por dois jogadores, cada um com um baralho. Muito popular na década de 60, conforme transparece no texto. Tivemos dúvidas na grafia e Crapaud, Crapeau, Crapeaux e até Crapot foram hipóteses consideradas. O Houaiss admite Crapô como designação portuguesa para o jogo, pelo que a Belão o adoptou no seu texto. Alguém quer contribuir para o esclarecimento desta questão?

No Casino além das salas de jogo, do bar e da sala de baile existiam dois espaços com nomes próprios: o "Céu de Vidro", a zona central com a cobertura em abóbada feita de vidros, e a “Aldeia dos Macacos”, a zona de esplanada aberta que confinava com o Parque. Como a Belão, eu nunca soube a origem desta designação, embora suponha estar ligada a ser um espaço onde a miudagem brincava enquanto os pais estavam no interior ou por ter sido uma zona nos anos 50 aberta a todos os veraneantes, enquanto o interior tinha o acesso reservado aos sócios.


O ritual das meninas a prepararem-se para os bailes era uma cerimónia interminável… Qualquer dúvida que se levantasse sobre a adequação de uma peça de vestuário, um adereço ou uma maquilhagem poderia arruinar horas de “trabalho” e atrasar irremediavelmente a chegada ao Casino. Essa hora de chegada era também estudada, já que não se podia chegar tão cedo que não estivesse lá ninguém nem tão tarde que já ninguém reparasse. Sendo de um sexo, nesse aspecto, mais afortunado, nunca passei por essas angústias.

A Belão não se lembra, mas fui o seu par num dos Bailes da Chita. Ficámos em segundo lugar devido aos habituais "jogos de bastidores", que nos retiraram a merecida medalha de ouro. O nosso Tango, espontâneo e inesquecível, levou a assistência ao rubro!

O boicote das várias eleições no Casino nos anos entre 69 e 73 era um passatempo que desesperava os “organizadores” desses eventos (Dr. Calheiros Viegas e D. Carlota Mendonça à cabeça).
A eleição de que a Belão fala foi a de Miss Praia em 1970, organizada pelo Jornal Capital: a vencedora da Miss Foz do Arelho tinha 120Kg, usava uma cinta sob o (amplo) bikini e dançou a valsa da consagração com a Mãe! O Rui Hipólito tinha 14 anos nesse ano, não foi ele o organizador dessa votação (essa memória, Belão…eu lembro-me quem foram os três autores, mas não digo!). A Capital pagou 5 contos à vencedora na condição de ela não aparecer na final, no Casino do Estoril. Como a segunda classificada (mulher do apresentador e que só concorreu para fazer número) exibia uma extensa cicatriz de uma “apendicite” algo deslocada e demasiado extensa, não houve mesmo representante da Foz na final. No ano seguinte a organização foi no Facho, em S. Martinho, com entradas rigorosamente controladas. Ainda lá fui mas, não me lembro bem porquê, não me deixaram entrar...

Recordo-me também de outra eleição, Miss Hot Pants, ganha por um Travesti com o nome “artístico” de Joana Lages, que provocou uma apoplexia no Dr. Calheiros Viegas, quando este descobriu que tinha espetado dois xoxos num homem ao entregar-lhe o troféu! Foi em 1971, mas também não vou aqui revelar quem era este “artista”. E há muito mais estórias, ficam para outra ocasião.

O Miguel B M relatou na sua crónica a vinda do Paulo de Carvalho, a Belão lembra aqui outros espectáculos. Nenhum deles recordou o Rui de Mascarenhas, que era uma presença assídua e um frequentador habitual.
Todas estas vedetas passaram pelo Casino pela mão do empresário Vítor Resende, que esteve a um passo de trazer a Shirley Bassey, um dos monstros da canção da altura, ao Casino, num concerto que seria televisionado. Foi em 1969 e falhou o apoio da Câmara, a quem faltou talvez a visão da importância do acontecimento. Outra estória que fica para outra oportunidade.
Só por curiosidade refira-se que as cantoras que a Belão refere tinham direito a uma cabeleireira privativa para a sua actuação. Apesar de cobrar um “cachet” mais baixo, a gorjeta da Hermínia a essa senhora foi dez vezes maior que a da Amália, acreditam?

Foi com uma versão entusiástica de Venus, dos Shocking Blue, que os Xaranga Beat “convenceram” o Zé Augusto a contratá-los para a sua primeira temporada no Casino (15 de Julho a 15 de Setembro de 1970).



A Belão não nomeia o seu Pai, certamente por modéstia, mas ele foi a alma impulsionadora da renovação do velho Clube de Recreio e da sua transformação no (ou recuperação como) melhor espaço de convívio das Caldas no final da década de 60.

Penso que sobre o Xaranga a autora conta tudo, faltou talvez mencionar o Rui Reis, pianista, de quem me lembro particularmente bem. Escreveu-me posteriormente a Belão: O Rui Reis (esqueci-me de falar nele) é na fase do Júlio Pereira, Patrício, Cavalheiro e Rui Venâncio.

Eu fiz amizade com o Rui porque era um dos membros da banda que mais e melhor conhecia os novos movimentos musicais ingleses e americanos. Lembro-me do entusiasmo com que tentou introduzir no reportório do Xaranga algumas músicas mais próximas de um Rock mais adulto e ambicioso que emergia na altura. "America" (Leonard Bernstein), conforme já mencionei anteriormente, foi um dos exemplos mas lembro-me de lhe fornecer letra, e gravações de muitas canções.


Por exemplo "Oye Como Va", dos Santana.




Recordo-me de muitos ensaios mas não exactamente de quais chegaram a ser tocadas nos bailes... Emprestava gravações em cassetes porque, depois de ver como tratavam os discos, nunca mais lhes emprestei nenhum! E fornecia letras tipo “transcrição fonética”, os vocalistas sabiam umas coisas de francês, não tanto de inglês.

Deixei para o fim, por ser uma nota mais longa, a referência da Belão a “Joseph”, o primeiro single de Moustaqui como cantor, editado em 1968.
Georges Moustaqui chamou-se Joseph, Giuseppe e Yussuf Mustacchi, em diversos momentos. Eu explico: este francês, filho de grego e arménia nascido no Egipto, teve documentos com todos esses nomes! Na década de 50, já sediado em França, tornou-se conhecido como compositor ajudando as carreiras de, entre outros, Charles Trenet, Yves Montand , Juliette Gréco, Colette Renard, Pia Colombo, Dalida, Tino Rossi e Barbara. Ao compor "Milord" para Piaf em 1959, quando mantinha com ela um romance, tornou-se célebre. É cantado por Reggiani e Brassens nos primeiros anos da nova década. Mas só em 1968, durante uma tournée com Barbara, sua companheira na altura, acometida de uma doença súbita, foi “obrigado” a cantar em público. Um ano depois “Le Métèque” (estrangeiro, apátrida) torna-o uma estrela mundial.
Uma imagem de libertário utópico, fraternal e amigável, pregando a paz e harmonia universal torna-o irresistível para a geração de 60. Continua a cantar e dar espectáculos até hoje, com setenta e três anos de idade. A maioria dos seus álbuns chamam-se simplesmente “Georges Moustaqui”, para desespero dos seus inúmeros admiradores e coleccionadores, obrigados a usar o ano de edição ou o nome da primeira canção de cada um deles para os distinguir.

Tentei não me repetir em relação a algumas notas que já tinha escrito sobre o Casino a propósito do depoimento do Miguel B M. Quem não tiver lido pode ir a Notas e comentários a "Os Locais do Miguel B M"

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JJ

Outros Comentários a "Os Locais da Belão"

Perante o volume dos comentários ao artigo da Belão decidimos colocá-los num artigo à parte. Ainda cabem mais, podem continuar a escrever!
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23-05-2008
Isabel disse:
Gostava de acrescentar que, como raramente podia ir ao Casino, o artigo da Belão veio exactamente dar-me a conhecer o quão divertido e descontraído era o ambiente! E é claro que me veio tambem fazer ver o que eu involuntáriamente perdi!!! Uma descrição muito bem feita, vivída e cheia de interessantes detalhes, que me fizeram rir ao imaginar as cenas.
Adorei ler os comentários ao artigo, que tambem esses vieram com muita informação e imenso humor. Relembrei o Xaranga que, das poucas actuacções que vi, deu para ficar devota fã do grupo.
Que pena que o Casino não foi preservado para que as gerações seguintes pudessem usufruir deste tão valioso ponto de encontro!
Até á próxima. Bjs Isabel Caixinha
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21-05-2008
Zé Carlos Faria
Muito me ri com «os locais da Belão»!Com a eleição da Miss Praia, convêm dizer que quando se fala em biquini, trata-se evidentemente de uma figura de estilo: As duas peças (três, se contarmos com a cinta) do dito cujo, davam tecido que, com um pouco de imaginação, chegaria para um vestido, mas enfim... Se a memória não me falha, o próprio apresentador (um pintas sobrecarregado de brilhantina e com laço foleiro), congregou também uma votação apreciável, que o deixou muito bem posicionado no meio das beldades.
E por falar em beldades, Joana Lajes, o que é feito de si? Inolvidável a sua maquilhagem, a sua capelina, a sua fina perna esgalgada, os seus saltos altos, o donaire com que recebeu o bouquet que consagrava o seu triunfo...Isto de votações nestes eventos, tinha muito para contar. Por exemplo, quem ganhou a eleição do «homem mais feio» quem foi, quem foi? Pois fiquem sabendo que tal distinção coube a este vosso amigo e admirador. Olaré! (Deve ter sido o único concurso que ganhei; estou como o Woody Allen que jurava apenas ter ficado em primeiro lugar uma só vez e que essa tinha acontecido nove meses antes do nascimento). Claro que o escrutínio foi convenientemente arregimentado, dado que o prémio era uma garrafa de ginja, (não se podia perder), a qual desapareceu de imediato na consagração, dividida fraternalmente e emborcada pelo núcleo duro do «staff» da campanha eleitoral. Justíssimo, até porque deu trabalho conseguir maioria absoluta, o que é que pensam?Ainda duas estórias nos bailes do Clube de Recreio (era assim que se chamava. Depois foi Casa da Cultura e também dei para esse peditório):
A primeira tem a ver com uma entrada estentórica, num baile que me garantem ter sido de Carnaval (e eu acredito), de um grupo (Pedro Maldonado Freitas, Rui Hipólito, Zé Lemos e este escriba, entre outros) empunhando garrafão de tinto e pandeiretas, debaixo de um pano pintado, sustentado em dois paus de vassoura, que apregoava: «Grupio Racreativo, Coltural, Esportivo e Iscurçionista do Xungóbaile, Mátóbicho e Arrastópé». A coisa deu brado, houve fotografias para a posteridade (que não sei por onde param) e acabou num delicado jogo de «carne sem osso», com vozes e embalagem dadas no bar e liça no Salão (convirá esclarecer, para os mais distraídos, ser partida que se disputava com duas equipas, uma que amochava e outra que lhe saltava para a lombeira, tentando concentrar todo o peso em cima dum desgraçado tido por mais vulnerável. A finalidade era, num dado período contado em voz alta imediatamente após o salto do último dos contendores, fazer derrubar os adversários, sendo obrigatório manter o equilíbrio instável daquele tudo-a-monte em cima dos costados dos outros. Depois invertiam-se os papéis. Elegantíssimo, como se poderá constatar!...).
A segunda historieta dá-se, quando num dado momento se soube que naquela noite se pagava bilhete. Que fazer? Então, janela junto ao palco, protegida por pesado reposteiro, estrategicamente deixada entreaberta ao fim da tarde e com a função já começada, um grupo de para aí uma dúzia (e que integrava mais ou menos os mesmos do episódio anterior) postados em bicha (agora parece que se diz fila), um a um, a entrar de mansinho e pela sorrelfa. A meio da intrusão, houve um penetra que se desequilibrou no parapeito e irrompeu vertiginosamente pelo meio do cortinado, concluíndo com uma aterragem abrupta na mesa, para susto e espanto dos convivas. Sacudiu-se e justificou-se: «Minhas senhoras, queiram desculpar e não se preocupem. Já só faltam mais cinco!...»
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20-05-2008
Higino Rebelo disse:
Fidelissima a descrição das vivências no "Casino" feita pela Belão.E bem me lembro do Bettencourt (Xixas) ser um bailarino de referência pois arrebatava, invariávelmente, o 1º. prémio nos concursos de dança - eu ainda arrebatei um terceiro prémio com uma prima do Manuel Gerardo, tendo levado uma mini-garrafa de Gin para casa.Sobre a eleição, no verão de 1970, da Miss Praia Foz do Arelho creio que tudo começou com a colocação de um cartaz, não sei por quem, perto do Casino onde se podia ler: "hoje à noite no Casino do Parque Feira do Gado". Depois aconteceu o que já foi descrito, lembro-me de também ter feito campanha a favor da candidata vencedora mas já não me lembro de quem foi a iniciativa, tendo esse evento culminado no dia seguinte com a respectiva reportagem no jornal organizador "A Capital" com uma chamada na primeira página onde se podia ler em letras garrafais ELEIÇÃO MISS PRAIA FOZ DO ARELHO - POR GOSTO OU POR GOZO? e onde constava também a nota biográfica da Miss que era dispenseira no Hospital de Santa Maria. Higino Rebelo
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20-05-2008
Miguel B M disse:
O texto da Belão é excelente (vou dizer-lhe pessoalmente, e ainda me lembro dos seus famosos olhos) e retrata com fidelidade e minúcia aqueles anos e o local descrito. Acrescento que o Júlio Pereira era conhecido no back stage por "macaco vestido ".E felizmente transparece do artigo que o casino era um local aberto em que se estava bem e em que não havia descriminações. Pelo menos lá dentro pois se as havia até à porta de entrada creio que o casino em si seria alheio a essa situação. Apenas me recordo do Rui de Mascarenhas por ocasião de um memorável concerto no recinto das bicicletas, no parque, em que foi montado um palco, e que estava repleto. O concerto começou com o som dos "Pauliteiros " e ele entrava de rompante em palco já a cantar , perante o delírio da assistência. Ao estilo da entrada do Rod Stuart no estádio do Restelo em 1983 (o tal concerto em que passei umas horas na esquadra de Belém e de que já falei aqui antes). No final do espectáculo, ao entrar na Zaira com os pais, foi novamente recebido por enorme ovação. Não me perguntes o ano que não faço a mínima.
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20-05-2008
João Ramos Franco disse:
Gostei muito de ler o artigo e os comentários. Gostaria de acrescentar que a vivência no Casino no final da década de cinquenta, início da de sessenta era bastante mais austera. Era director o dr. Alcino Coelho, que exigia um comportamento mais rígido. Fiquei satisfeito de conhecer essa evolução no sentido de um espaço mais aberto! João R F
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19-05-2008
São Caixinha disse:
Adoro ler estas estórias do casino e desta vez do ponto de vista feminino!! A Belão conta-as como se tivessem acontecido ontem...quase que me fez sentir como se tivesse outra vez 16 anos! Obrigada Belão...vou ler mais vezes!!
Um beijinho, São Caixinha
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19-05-2008
Fernando disse:
A Belão fala-nos do casino familiar e acolhedor que todos conhecemos e apreciámos! Mas talvez o Jales pudesse ter ido mais longe no casino um pouco “louco” de que eu e ele nos lembramos….
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19-05-2008
Fernando Santos disse:
Todas as noites venho aqui ver o blog, e noite após noite, cada vez me sinto mais surpreendido com os seus bem documentados comentários. Sempre apreciei pessoas cultas que me permitem aprender algo mais. Os meus parabéns pelo seu belo trabalho que certamente é fruto de muitas noites perdidas. O meu obrigado. Fernando Santos.
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19-05-2008
Guidó disse:
Ao fim destes anos todos de convívio amigo com a Belão, fiquei agora a saber o nome dela. O diminutivo sabia que estava relacionado com o facto de ser para o roliço, mas sinceramente sempre me lembro de ti elegante. O que eu também lembro bem é essa cara de catraia que sempre tiveste e ainda hoje manténs. É o que se chama um sorriso ladino.
Memórias.....
Crapô, há quanto tempo não me lembrava deste jogo.
Dos bailes do Casino e dos seus preparativos também me lembro e de rimel daqui sombra de acolá, lá nos achávamos mais bonitas, ou por certa menos inseguras, naquela idade em que sempre supúnhamos estar mal.
Agora acho que foste injusta
"O menino Rui Hipólito era perito nessas andanças!" Pode lá ser, isso roça a ofensa moral do moço.
Gostei de saber dos bons dançarinos, das tuas recordações de cantores que passaram por aqui e do especial destaque dos Xaranga Beat.
Um bj amigo
da
Guidó
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19-05-2008
Luísa disse:
Que saudades do Casino!! Mas eu ia só de vez em quando, não era como a Belão… bons comentários do João, não achei longos demais, acho é que ele devia ter escrito ele também sobre o casino já que deve ser quem sabe mais histórias do nosso tempo.
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19-05-2008
Isabel Silva disse:
Olá João!
Bem, tenho a dizer-te que foste excelente nos teus comentários. Ainda não parei de rir!
De facto há muitas coisas de que não falei. Não me queria alargar muito.
Quanto ao famoso par do baile da Chita a quem falhou a medalha de ouro, tenho uma ideia de ter dançado contigo um tango, lá isso tenho. Mas isto é de facto " como as cerejas", atrás de umas... Lembro-me bem de um episódio que nos teve como protagonistas:
Certo dia, eu e o menino João Jales caminhávamos na Rua Camões em direcção ao Casino, quando fomos abordados por uma cigana que se ofereceu para nos ler a sina.
Aceitámos o "desafio" e o nosso destino seria: " Eu iria ser muito feliz e casar com um rapaz muito alto (estão a perceber, não é?) e o João ia ser muito feliz com uma rapariguinha bem disposta e gorduchinha (claro, nem podia ser outra coisa!). Eu ri-me bastante e o João também, até ter de lhe dar a moedinha!
Não acho nada bem, João, que não queiras revelar quem eram os autores das sabotagens! Mas olha que me lembro do Rui Hipólito na 1ª fila, sorriso maroto, a aplaudir o desfile da vencedora e sua cinta! Será por isso que no ano seguinte não te deixaram entrar no Facho? Será que a tua reputação chegou a S. Martinho? É provável. Alguém me ajuda a desvendar este mistério?
Também tenho uma vaga ideia sobre o tal travesti a quem o Dr. Calheiros Viegas enfiou 2 xoxos pela vitória. Mas mesmo muito vaga! Ei, alguém se lembra disto?
E muito mais haveria a contar, certamente.
Obrigada João pelos esclarecimentos e acima de tudo pelo humor com que os transmites.
Bjo
Belão

O SINALEIRO

João Bonifácio Serra


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O “Sinaleiro”
(uma noite de Setembro de 1966)




- Tens onde ficar? perguntou-me o Zé Tó, já devia ser perto das 2 da manhã. O “Inferno” acalmara. No piso inferior, havia três grupos na cavaqueira. O dos professores primários, um grupo de amigos e familiares dos donos da casa e o dos estudantes universitários, aqueles dois lá atrás, mesmo no pé do sem-fim.. Eu deambulara entre eles. Tinha vindo com o capitão Aventino Teixeira, que encontrara na Zaira ao fim da tarde e com quem combinara ir à noite à Azenha. Tema da conversa: a Faculdade de Direito de Lisboa, onde ambos acabáramos de entrar. Como aluno voluntário, o Aventino queria saber se eu já tomara contacto com os programas e adquirira sebentas e códigos. Estávamos em Setembro. Dentro de pouco tempo a minha vida sofreria uma grande mudança.

O Aventino tinha relações familiares com o Luis Barreto, o proprietário daquele espaço, uma velha azenha do século XVIII, desactivada em 1945 e recuperada em 1964, funcionando desde o ano seguinte como clube particular aberto a “amigos e amigos dos amigos”.

No grupo dos professores todos me eram familiares, a começar pela Branquinha, que residia em casa dos meus Pais, no Carvalhal Benfeito, a Melita e o Tó. Com eles estava também Alice Pimentel, Joca Sales, e o irmão deste, Zé Maria, pintor e escultor. O Ferreira da Silva dançava sozinho no espaço central, em terra batida. Era uma figura impressionante, com a boina preta por baixo da qual despontavam madeixas rebeldes, e uma camisa de quadrados com as mangas enroladas. A certa altura parou e desafiou Alice para cantar, mas não havia ninguém com guitarra. No outro grupo estavam antigos alunos do Externato Ramalho Ortigão, que tinham feito o 7º ano em anos anteriores e estavam em Coimbra ou Lisboa, na Universidade. O Zé Tó estava com eles.

- Desta vez fico nas Caldas – respondi. Vais sair agora? Tens lugar para mim no carro?

Nas férias, ficava muitas vezes em casa do Zé Tó, na Quinta de S. José, em Óbidos. Tinhamos frequentado juntos o 7º ano da alínea e), do Direito, os únicos a fazê-lo no Colégio nesse ano, e na circunstância tornámo-nos amigos. Mas o Zé Tó necessitava de repetir uma cadeira para completar a alínea f), se quisesse ingressar em Agronomia. Eu sabia que ele estava ocupado a estudar para os exames e não quisera desafiá-lo a saír naquela noite.

- Levo-te. Onde dormes?

- Em casa do Dr. Leonel Cardoso. O Néné emprestou-me a chave.

O Zé Tó, um pouco mais velho do que eu, tinha carta e conduzia um velho Woseley que fora do avô.

Despedi-me dos professores e do Ferreira da Silva. Acenei ao Aventino e ao Luis Barreto. Subi as escadas com o Zé Tó. Os outros membros do grupo dos antigos alunos já tinham saído. No piso de cima, havia um grupo a comer pão e chouriço. Ouviam-se vozes no exterior.

- Quanto vais deixar? – perguntei. Na Azenha, cada um pagava o que lhe parecia adequado ao consumo que fizera. Eu tinha bebido uma aguardente e o Zé Tó um copo de vinho.

- Podemos deixar uma nota de 20 escudos – sugeriu ele. Introduziu a mão no porco sem fundo concebido pelo Ferreira da Silva e onde cada um depositava o que achava justo, enquanto eu reunia os 10 escudos da minha parte para lhe entregar.

Dirigiamo-nos para o carro, passando pelos rapazes que continuavam a conversa cá fora, quando dois deles pediram para vir connosco. Eram o João Mário Anjos, que terminara o 7º no ano anterior e entrara em Coimbra, e o João Branco Lisboa, que estava a terminar Farmácia em Lisboa. O João Mário contava histórias delirantes sobre a vida académica em Coimbra. Na sua voz grave, os episódios narrados tinham uma graça irresistível.

- Onde é que os deixo? perguntou o Zé Tó. Todos declararam que iam levar o futuro caloiro a casa.

A Casa do Dr. Leonel Cardoso era um 1º andar da Rua das Montras, para o qual se entrava pela mesma porta que dava acesso à “Tertúlia Artes e Letras”. O Zé Tó saiu da Quinta de Santo António e apanhou a estrada de Tornada, seguiu depois para o interior da cidade, parando na Rua das Montras, junto ao “Turita”. Saímos. O João Mário continuava entusiasmado com as lembranças de Coimbra. Toda a gente se ria.

Vindo da praça, pelo meio da rua, aproximaram-se dois outros retardatários. Um deles era o Nené.

- Encontrei o Luis, meu amigo de Lisboa, que está a passar férias nas Caldas, Tem uma garrafa de whisky para a malta beber. Mas para onde havemos de ir? O meu avô a esta hora já está a dormir. É muito surdo, mas não quero correr o rsico de o acordar.

Entreolhamo-nos com desolação. Tínhamos uma garrafa, ainda por cima de whisky, mas não sabíamos que fazer com ela. Poderíamos ficar sentados no passeio - àquela hora não passava ninguém - mas não tínhamos copos.

Foi então que o João Branco Lisboa se adiantou para dizer:

- Eu resolvo. Vamos à farmácia.

Trotámos animados até à Farmácia do João, um pouco mais adiante. Passamos para lá do balcão, entrámos na área reservada. Havia uma mesa de pedra escura, com embalagens de cortiça e uma balança. O João trouxe os copos improvisados. Toda a gente celebrou a primeira vez que bebia whisky por tubos de ensaio.

Quando a garrafa acabou e saímos para a rua, a cidade, definitivamente dormecida, estava à nossa mercê. A euforia tornara-nos mais afoitos. Talvez afinal pudéssemos ousar mais do que até então. Quem nos iria impedir? O João Mário correu à frente. Seguimo-lo, sem perguntas. Uma certa urgência tomara conta de nós.

No fim da Rua das Montras, encostado aos Armazéns de Vinho do Dr. Julio Lopes, jazia, inútil, um tamborete de polícia sinaleiro. O João Mário arrastou-o para o centro do cruzamento e subiu para o estrado. Deu um assobiu estridente. Rapidamente, distribuimo-nos pelas restantes ruas: a Heróis da Grande Guerra (Norte e Sul) e a Miguel Bombarda. Apitávamos ruidosamente à aproximação do cruzamento. O sinaleiro, de luvas calçadas, fazia “alto” com uma mão e acenava com a outra. O Nené, conduzindo um carro dos Bombeiros, exigia prioridade. Luis, o forasteiro, pretendeu discutir as regras e foi mandado de castigo para o fim da fila. A minha carrinha Volkswagen tinha o pisca pisca da direita fundido. O Zé Tó queria mudar de direcção, sempre que se aproximava do centro da rotunda improvisada. O sinaleiro lembrava-se de uma nova história e mandava parar o trânsito para que o pudéssemos ouvir. O Carlos Gil (ou seria o Manuel?), vindo de um ensaio tardio no CCC, entrou na operação para corrigir a postura do sinaleiro. Juntaram-se mais dois carros vindos ninguém sabia de onde, conduzidos pelo João Morais e pelo jornalista F. Marques Pereira, da Gazeta. Andavam ambos em zigue-zague e o do jornalista ia-se abaixo sempre que travava e só pegava de empurrão.

Eram 4 da manhã. A cidade continuaria ainda por mais algum tempo adormecida. Por momentos, tinhamos estado no seu posto de comando.
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João B. Serra
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(Esta história, que dedico a todos os EROs, é imaginária. Qualquer semelhança com a realidade não é, porém, mera coincidência)
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COMENTÁRIOS
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26-05-2008
J B Serra disse;
Comentário final aos comentários anteriores
A todos agradeço as notas benevolentes (e estimulantes) que dedicaram a este texto – que o João Jales surpreendeu uma noite na sua caixa de correio e já não deixou sair … a não ser para o blogue. Ele compreendeu cedo, talvez até antes de mim, que esta era uma história “destinada” a um blogue, cujo sentido só se revelaria plenamente no espaço interactivo de um blogue. O João também deve ter antecipado o efeito de uma narrativa na primeira pessoa de alguém que escreve normalmente sobre outras personagens. E divertiu-se certamente ao prever os comentários que iriam apontar esse momentâneo desvario de alguém “habitualmente tão sisudo e institucional” como é este vosso colega…
Mas vamos ao ponto de encontro. Durante semanas, recordamos aqui os locais onde fomos felizes. Todos eles locais pré-existentes, que não inventámos, mas que usamos de uma forma particular. E, com raras excepções, todos os depoimentos relataram a memória individual que foi retida de um local que era evidentemente de uso colectivo. A minha história fala de um local efémero, criado numa madrugada e nela desfeito, um local onde ser ergueu um poder imaginário que não resistiu nem à inconsequência bem humorada de um bando de teenagers nem aos primeiros sinais da manhã.
Naquele tempo em que a Rua das Montras, como a Rua Miguel Bombarda, tinham trânsito nos dois sentidos, em que o piso térreo do prédio onde hoje está uma perfumaria e a loja Giovanni Galli era um armazém de vinhos, em que o mundo rural se fazia ainda transportar até à cidade em burros com canastas e charrettes puxadas a cavalos ou machos, o polícia sinaleiro daquele cruzamento exercia uma função de ordem e regulação. Pois bem, por umas fugidias dezenas de minutos, aquele grupo de rapazes um pouco eufóricos apoderou-se o local e fez dele um ponto de encontro…
Perguntar-se-ão alguns dos “eros” onde acaba a verdade e começa a ficção. Tempo perdido, caros amigos. Parafraseando o poeta, quem escreve uma história imagina-a tão fielmente que chega a relatar os factos, os factos que deveras aconteceram.
Até breve. JBSerra
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23-05-2008
Júlia Ribeiro disse:
Oh Bonifácio!
Fui reler novamente o "Sinaleiro" e duvido que seja estória imaginária!!!!! É que estou mesmo a imaginar-vos naquela correria toda.....eu quase me sinto a percorrer aqueles locais todos, até a beber "ginginha por um tubo de ensaio"", porque de Whisky não gosto......Nunca imaginei que tubos de ensaio dessem para tanta coisa... servir de jarra para flores,servir de copo, e até para experiências!!!!!!!!!!!!!.Adorei também essa tua outra" face" da escrita. Aproveito para te dar os parabéns pelas tuas novas funções, mas não te esqueças do ERO...ERO...ERO. Um abraço Júlia Ribeiro
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22-05-2008
Ana Nascimento disse:
Olá Bonifácio
Como eu gostei de ler o teu artigo sobre o Sinaleiro ou melhor …sobre uma noite de copos !!!!…Fiquei deliciada pelo modo como o fizeste… de uma forma solta, mostrando uma faceta nada formal do rapaz que eu conheço há tantos anos…E a tua descrição é tão clara que eu me senti ali ao pé de vocês a viver cada momento… (bem gostava de ter ido também para a farmácia do João beber wisky pelos tubos de ensaio !!!!….. ) Beijinhos e um abraço de parabéns pelas tuas novas funções. Ana
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18-05-2008
João Jales disse:
Graças a Deus temos ainda um texto da Belão (pelo menos), senão o que seria desta série, terminando assim, às quatro da manhã, entaramelada e claudicante, perdida na Rua das Montras e a tresandar a whisky!
Felizmente a sugestão final de se tratar de ficção (embora com uma preocupante semelhança com a realidade) deixa-nos a esperança que o João Bonifácio Serra continue, apesar de tudo, a ser um garante de bom-senso, sobriedade e ponderação neste Blog, e que este tenha sido apenas um momento de fortuito desvario! (Pese embora o muito prazer que deu a todos quantos o leram…)
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17-05-2008
João Ramos Franco disse:
("Esta história, que dedico a todos os EROs, é imaginária. Qualquer semelhança com a realidade não é, porém, mera coincidência" João B Serra)
Há semelhança entre a realidade desta história e as histórias reais passadas no meu tempo (com o célebre Joaquim “21”, o “polícia mau”, coitado do homem, nem tenho a certeza de quem era o mau da fita, se ele se nós). Se em vez das que indicas, colocarmos outras personagens do ERO, é real. Por simples acaso, não estavam a fazer de “Sinaleiro”, estavam a tomar banho no tanque da Quinta da Boneca. Mas nenhum de nós pensou na lei da propriedade privada, quando a polícia aparece (Joaquim “21”) e isto só termina na esquadra com uma repreensão porque aquilo “não era atitude de meninos estudantes”.
A realidade e a mera coincidência estão de braço dado neste retrato, bem o podes dedicar a todos os EROs.
João Ramos Franco
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17-05-2008
Margarida Araújo disse:
O que eu já me ri com a história. Conheço bem o autor e não estou nada a ver a beber pelo tubo de ensaio uma bebida de elevado teor alcóolico. Também não o estou a ver nestas andanças e tão despudoradamente contá-las. Está mais solto o João, é certo. Certo é também que continua a contar-nos histórias "imaginadas realmente" (ou será que é "realmente imaginadas"?) de uma forma bonita, interessante, engraçada, viva. Faz-nos fácilmente actores daquele acontecimento. E que acontecimento. Se fosse hoje, por certo passariam por alunos da ESAD em qualquer instalação urbana.
Acabei de chegar da Azenha. Sempre que lá vou revivo outros tempos, como agora também o fiz ao ler gostosamente o tua históra ficcionada (???!!!!!). Será que ainda existem sinaleiros?
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17-05-2008
Belão disse:
É sempre agradável ler o João Bonifácio Serra. Mas neste registo, delirei.Que história fantástica!E que personagens!"E como diz a Guidó, faz-nos sentir actores do acontecimento.Lindo, mesmo.
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17-05-2008
Luis Santos disse:
Este texto é diferente dos outros que têm aparecido do João Serra, e fiquei sem saber se faz parte das Crónicas ou não. Gostei de ler e revi-me nestas noites de sessenta numas Caldas adormecidas....