ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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O Cinema de S. Martinho, por Luis Machado

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“Só a verdade é revolucionária”

Mao Zedong






Sou um dos desterrados que o Jales refere no texto que escreveu (CINEMA EM S. MARTINHO ). Sou igualmente a personagem filosofante quanto à arbitrariedade da ordem da projecção do filme.
O texto do Jales é bem engraçado e vem reavivar uma velha questão:


- S. Martinho ou Foz?

Estatisticamente ganham os adeptos da Foz, mas creio ser matéria contabilística. Como já disse era um dos habitantes das Caldas que passava o Verão em S. Martinho.
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Um pouco de rigor:

O Cinema era branco, branco sujo.


Não entendi bem algumas considerações sobre o Cinema, aliás a Isabel Xavier diz o mesmo. (Deliciosa a história da apanha e venda do limo para comprar bilhetes, o travo neo-realista é irresistível.)


O Cinema era um local incontornável. As cadeiras eram realmente de pau, mas não me lembro da incomodidade. A inclinação era insuficiente mas a questão da visão não se punha porque logo que as luzes se apagavam as cabeças ficavam aos pares e podia-se ver pelos intervalos. Também o facto do foyer ser ao ar livre constituía um verdadeiro must e o cacimbo (se quiserem podem traduzir por chuva, como diz o Jales) não atrapalhava nada, antes pelo contrário, permitia até alguns gestos cavalheirescos, como tirar o casaco ou o pullover e pô-lo delicadamente nos ombros da eleita, a quem se andava a arrastar a asa (bolas, até eu estou admirado com a qualidade da prosa).


Quanto aos desterrados eram poucos mas bons. Para além dos já citados no texto do Jales, recorde-se o Quá-Quá e a Micéu que vinham de Alfeizerão, onde tinham casa, de carro com chauffeur. Que glamour! (Ele não gosta nada que eu o chame assim e vai já pôr-se a chamar-me nomes). O António (pronto) tinha o record de maior número de anos sem pôr o pé na areia, creio que já ia em 5 ou 6 anos.


Mais rectificações:


Não acho nada que o principal passatempo fosse “olhar uns para os outros”, era mais olhar uns para as outras.
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São Martinho não era só um lugar frequentado por queques e alentejanos (queques era com se chamava na altura, betinhos só uns anos mais tarde) havia muito mais gente, alguma bem engraçada. Lembro-me perfeitamente das longas tardes à conversa com o João Rosado Lourenço e o Eduardo Prado Coelho já desaparecidos.

Mas havia mais:
Bailarinas em pontas no terraço do Samar, sardinhadas na praia da Gralha quando ainda não havia estrada, passeios nocturnos no túnel para ir ver o mar a Stº. António (uma vez um pai mais irritado apontou os faróis do carro à boca do túnel e foi uma confusão), as idas a Salir ao pôr-do-sol ou de madrugada, os bailes em casa do Bernardo (também já desapareceu, S. Martinho tem isso, os melhores desaparecem), leituras colectivas dos textos do Luiz Pacheco (na altura acabadinhos de sair os Exercícios de Estilo), as audições de singles dentro das barracas com um gira-discos portátil e com os discos “arquivados” em cutelo na areia, os banhos nos Salgados (o melhor mesmo era voltar à areia), as tardes no Tábuas e no cais a comer pevides. Aquela sensação que tudo ia ser assim eternamente. S. Martinho tinha isso.

E o baile das chitas, e as futeboladas na areia molhada ao fim da tarde, e os bailes do Delírio, onde havia sempre o risco de acabarmos a dançar em cima dos bilhares, no andar de baixo.


E havia os barcos. Que saudades do meu Moby Dick (reparem só na imaginação do nome), uma chata com uma combinação de cores fabulosa. E o barco do João Lourenço, um bote tradicional com o qual saíamos sempre à vela e voltávamos sempre a remos. Grandes marinheiros.


E havia a pesca:

Pesca de todas as formas e feitios.


As longas jornadas na Maria da Serra e em S. Romeu com o meu tio Zé António e o Meca, a pescar à bóia sargos e taínhas. O Meca fazia a melhor sopa de navalheiras com massinha que já alguma vez comi. Além disso era filósofo. Estes também já desapareceram, é o drama de S. Martinho.


Anos mais tarde comprei um Zebro e dediquei-me à pesca submarina com o Mário Eliseu. E não é que já desapareceu também… Corríamos toda a costa entre S.Martinho e a Foz na altura que ainda havia peixe.


Quanto à vida nocturna, tenho que discordar de alguns comentários, não acho nada que fosse assim tão má, não me lembro de me ter deitado algum dia antes das 4 da manhã.


A boémia é uma atitude. E havia grandes boémios em S. Martinho. Lembro-me bem do arquitecto Martinho que bebia vinho tinto em chávena de chá trazido num bule, no café da Ana, rodeado da melhor sociedade (a história é velha e recorrente mas eu vi-o de facto fazer isso). E do "Morcego", que vivia entre as seis da tarde e as seis da manhã, evitando o sol e consumindo exclusivamente álcool. Claro que também já desapareceram, ambos com cirrose.
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À noite, depois das famílias recolherem a casa, S. Martinho modificava-se. O cacimbo e os copos diluíam a estratificação que existia à luz do sol (quando havia). Muitas noites acabavam no meu terraço, numa casa alugada ao ano pelos meus pais( também já demolida), entre a rua dos cafés e a marginal. Até inventei uma bebida que fez algum sucesso, S. Martinho Smog, à base de gin, fazia bestialmente bem depois de umas litradas de cerveja.

Quem lá esteve nessa altura, sabe que S. Martinho era um sítio mágico.


O problema não está na troca das bobines:

O pior é que os banqueiros têm interesses imobiliários em terrenos REN, os pais de família que vão para Oeste usam calças pela barriga da perna e bonés virados ao contrário, os cowboys andam de motos de água enquanto os índios aceleram na marginal em carros tunning e o herói curte com uma brasileira que conheceu na internet.



“ A verdade é relativa.”

Jack Nicholson
, in (não me lembro do nome do filme).



Luís S. Machado


C O M E N T Á R I O S
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Isabel disse:
Grande texto sobre S. Martinho! Claro que um S. Martinho assim tão agitado não era o meu, rapariga recatada como era, mas tenho pena...
Isabel Xavier
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Jorge disse:
Divertidissimo ... o texto ... e S. Martinho, pelos vistos! o Jales tem aqui uma resposta à altura do seu conto.
Posso perguntar quem é o Luis Machado? contemporâneo do João Lourenço? não me lembro dele. jorge
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S. disse:
Este S. Martinho tem muito chantilly, e algum Gin q.b., para agradar a todos... O texto é de boa qualidade e o que o JJ pintou de preto,pintou o Luis de côr-de-rosa!A tal verdade deve andar algures no meio.Mas,com tudo isto ganhamos todos,rememorando belos tempos com bons contadores de histórias.Venham mais,de S Martinho,daNazaré ou da Foz.
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Luis Eme disse:
excelentes todas estas memórias...
é óptimo quando um blogue consegue criar esta interacção de opiniões e de histórias.
não sou da vossa geração (nasci em 1962...), e desde cedo que escolhi a Foz como minha praia. primeiro por questões pequenas, como a areia (menos fina que a de S. Martinho) ou a existência da Lagoa, para nadar, e o mar, para ver aquele festival que nos era oferecido pelas ondas, quase sempre furiosas...). depois porque era a praia da generalidade dos meus amigos...
e ainda hoje é a minha praia, mesmo que passe o Verão sem a visitar...
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João Jales disse:
Caro Luis:
Foi bom receber um texto simultaneamente tão poético e divertido, respondendo e corrigindo o meu Cinema. Agradeço a reposição da verdade com as tuas correcções, que passo a enumerar:
Eu escrevi que o Cinema tinha as “paredes exteriores de cor amarelada, muito sujas” e tu corrigiste "era branco sujo”.
Eu escrevi “Sentámo-nos numas duras cadeiras sem qualquer almofada ou forro” mas afinal não era verdade. Felizmente tu pudeste repor a verdade histórica dizendo que “As cadeiras eram realmente de pau”.
Eu fui injusto ao afirmar “A inclinação do chão era insuficiente para garantir o integral visionamento do ecrã” mas tu, que não deixas passar nada, logo corrigiste ”A inclinação era insuficiente…”.
Eu impensadamente afirmei que passámos o intervalo “no estreito pátio exterior” mas fiquei agora a saber que afinal a questão era, como tu corriges, “o facto do foyer ser ao ar livre”. Era um foyer e não um pátio, e eu não dei pela diferença!
Eu também pensava que vocês eram “meia-dúzia de amigos que lá estavam desterrados” mas afinal não era assim, porque tu afirmas “os desterrados eram poucos mas bons”, o que é completamente diferente.
E depois acrescentas “Mais rectificações”. E eu fui ver no que mais tinha errado.
“Não acho nada que o principal passatempo fosse “olhar uns para os outros”, era mais olhar uns para as outras”. Aqui confesso que não percebi bem qual a diferença, excepto excluir uma eventual comunidade Gay do "passatempo".

Os betinhos, afinal, ainda eram queques nesta altura, só evoluindo posteriormente.
Finalmente, já muito abalado por todas estas correcções, preparei-me para saber porque era falso o que eu afirmara: “nessa altura a vida nocturna (em S. Martinho) era para nós pouco apelativa.”
Fiquei a saber que “tenho que discordar de alguns comentários, não acho nada que (a vida nocturna) fosse assim tão má, não me lembro de me ter deitado algum dia antes das 4 da manhã.” Ah, bom! Se tu não te deitavas antes das 4 da manhã a vida era seguramente trepidante. Preparei-me para revelações empolgantes. E elas vieram: o arquitecto bebia tinto em chávenas de chá, o Morcego emborcava copos das seis da tarde às seis da manhã e o resto do pessoal bebia um cocktail de Gin na varanda de uma casa alugada. Parece Monte Carlo, fervilhante, febril, os néons a piscar, música no ar…

Mas acredito que S. Martinho fosse mágico (eu não disse que não era), bastava lá estares tu e o Joni a beber um copo e a contar umas estórias. E, só por isso, lamento não ter lá ido mais vezes. Um abraço. João Jales
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São Caixinha disse:
Diverti-me imenso com o comentário do Luís Machado ao teu "Cinema em São Martinho" e por sua vez com a tua resposta!! Se pudesse voltar atrás no tempo iria certamente dar-me uma generosa oportunidade de reconsiderar as possibilidades da praia...eventualmente em dias de tempestade, pois como o Luís Eme também eu dou preferência a mares mais agitados!! Mas que esse mar manso de São Martinho continua até aos dias de hoje a inspirar artistas é um facto, como prova este óleo com o titulo de "Meia felicidade" (tradução minha) de Pierre Guillaume, pseudónimo do pintor Holandês Peter Willemse. Bjs e até breve. São X

João Ramos Franco disse:
“A boémia é uma atitude”, como cita o Luís Machado. Respondo-lhe com a fotografia do jantar dos antigos alunos de 1962,
JANTAR DE ALUNOS DO ERO EM 1962 e também uma pergunta:
- Será que éramos malta de ir para cama depois de do jantar?

Um abraço , João Ramos Franco.

S. MARTINHO DO PORTO (visto por Eduardo Prado Coelho)

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Eduardo Prado Coelho
em "Público"
16 de Maio de 2006
escreveu :
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Perdi a praia de São Martinho do Porto, a praia dos primeiros namoros. Não a reconheço, porque fui reencontrá-la massacrada por uma urbanização selvagem e incomodativa. Encontrei a Foz do Arelho.

Infelizmente também a Foz do Arelho está, entretanto, “a saque”. Basta olhar o que se passa com as construções na zona da Rotunda junto ao Mar para o perceber. Dizem-me que até há ali ilegalidades, eu não sei, não estudei o assunto, nem quero entrar aqui numa discussão técnica sobre urbanismo. Mas qualquer observador casual, munido apenas do mais elementar bom-senso, verificará, sem dificuldade, que aquilo que ali se passa é um atentado à Foz do Arelho e a todos nós, a que assistimos calados. Mas não é só aí, embora toda essa encosta seja, talvez, o pior . Será possível? Onde estão os amantes da Foz, alguns dos quais se pronunciaram aqui nos últimos dias?

Eduardo Prado Coelho já tinha escrito sobre S. Martinho do Porto noutra ocasião e eu fui à procura e encontrei o seu texto. É uma boa introdução para termos aqui, na próxima semana, mais três artigos relacionados com S. Martinho do Porto, todos eles de frequentadores e amantes dessa praia, que farão boa companhia à excelente resposta que a Isabel Xavier, brincadeiras à parte, me enviou, e eu publiquei, há dias.


Todas estas memórias serão importantes se nos permitirem olhar para o que se fez (e está a fazer) e tentar impedir que o “progresso” e o “futuro” sejam, em qualquer dos dois locais, um aglomerado de betão a esmagar o areal.


Já escrevi seguramente demais, deixo-vos com o EPC. JJ
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Os Amantes da Baía
Por EDUARDO PRADO COELHO
Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2004
É possível que eu projecte sobre a recordação da praia de São Martinho do Porto imagens que nunca existiram - que a praia seja a praia onde eternamente somos, numa adolescência deslumbrada e sem fim.

Todas as manhãs corríamos à janela para ver se o tempo estava bom. Mas, enquanto chegavam notícias de que o país era banhado por um sol esplendoroso, São Martinho obstinava-se em ter uma bruma matinal, húmida e fria. "É um microclima", dizia o meu pai. É verdade que por volta do meio-dia desencadeavam-se uns ventos impiedosos que varriam as nuvens e clareavam os céus. Mas o vento instalava-se às vezes de um modo tão intenso que a boca se enchia de uma areia fina, os jornais voavam, os toldos voltavam-se sobre si próprios, as mães vestiam as crianças com casacos de malha. "É um microclima", comentava o meu pai. Mas gostávamos daquele jogo das escondidas com o calor e o sol. Gostávamos de andar com os pés a chapinhar ao longo da baía até chegar às dunas. Gostávamos da rua dos cafés, de subir até ao Facho, de ir a um bar na Nazaré ou de comer pão-de-ló em Alfazeirão, ou javali num restaurante popular da estrada para as Caldas. Gostávamos das mesas nocturnas onde a nobreza doutros tempos e a grande burguesia se lamentava das desgraças do 25 de Abril e chamava "crise" às tostas mistas com que alguns se alimentavam. Gostávamos de andar pelos montes, de ir à capela para ver o pôr do Sol.

Num dos poemas que Luís Miguel Cintra escolheu para dizer num livro-disco dedicado à poesia do Ruy Belo (e publicado pela Assírio e Alvim), podemos ler versos que evocam esta espécie de estado de graça em que a felicidade vinha do lado do mar:

"O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de Dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de Agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar."

E mais adiante:
"Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
(...)
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida."

Sei apenas que São Martinho do Porto é hoje um lugar estragado pela improvisação, o comércio cego, o mau gosto, a leviandade. O que podia ter sido uma praia encantada é um desastre em todos os aspectos. O ministro Theias - que se confessa "um amante da baía", porque nesta praia passou 18 anos de férias - promete apoiar o projecto de reabilitação de Gonçalo Byrne apresentado pelo presidente da Câmara de Alcobaça, Gonçalo Sapinho. Será desta?
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Relembrar Artur Maurício a propósito de Eduardo Prado Coelho

ISABEL XAVIER



Lembro-me bem da presença de Eduardo Prado Coelho em S. Martinho. Ele já era casado, tinha uma filha pequena e ainda frequentava S. Martinho, e julgo que os pais dele também. Já só podia ser nos anos sessenta, para eu me poder lembrar. Curiosamente, lembro-me muito particularmente dele, pois há outras figuras de relevo da sociedade portuguesa que frequentavam a mesma praia e das quais não me recordo. Penso que a vivacidade da imagem que guardo de E.P.C. se deve às suas características físicas. Como todos se devem lembrar, E.P.C. era baixo e gordo e lembro-me de reparar que quaisquer calções de banho lhe chegavam aos joelhos, mesmo quando tal não era suposto acontecer.

Também guardo na memória com grande nitidez, por razões da mesma ordem, a presença do economista Hêrnani Lopes, muito alto, enorme mesmo, e que durante muitos anos foi o único homem que alguma vez vi em roupão de praia. Era uma figura inesquecível, ao lado da mulher, quase tão alta como ele!

Eduardo Prado Coelho era muito amigo do Artur Maurício, "Tui" para os amigos e família, e foi através dele que o conheci. A minha família era amiga da do Artur, as nossas barracas eram próximas, a minha mãe dava-se com a D. Dila (a mãe do Artur) e, em conjunto com outras senhoras, fartavam-se de fazer renda, na praia ou na esplanada.

Muitos se hão-de lembrar do Artur por ter sido presidente do Tribunal Constitucional e por outros cargos que ocupou ao longo de uma fulgurante carreira de juiz. A família do Artur Maurício tinha uma casa em frente da que a minha família alugava em S. Martinho e uma das irmãs, a Gabriela (da Farmácia Caldense), casou com um caldense, o Vítor Bernardo, mais conhecido por "Vitoneca".

A nota mais triste e comovente de tudo isto é que Eduardo Prado Coelho, Artur Maurício e Vitor Bernardo faleceram todos recentemente e todos muito cedo, demasiado cedo mesmo...

Uma nota final, agora feliz, para lembrar como merece ser relembrado um homem bom. O Artur, quando acontecia um dia quente, de sol aberto desde manhã, sem vento, recomendava-nos que fôssemos para a praia cedo, aproveitar bem aquela inesperada benesse porque aquele não era um dia, mas "o dia", por só haver um assim em cada Verão, em S. Martinho.

Quando eu era miúda, vivia muito convencida que em cada Verão, em S. Martinho, só havia mesmo hipótese de um único dia verdadeiramente bom, em termos climatéricos, e que esse era "o dia". E assim acontecia, de facto, ano após ano...


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Isabel Xavier
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C O M E N T Á R I O S
João Jales disse:
Li com muito gosto este acrescento à recriação do ambiente de S. Martinho que se vai aqui fazendo. Nem digo nada sobre isso, não vá ser novamente zurzido e acusado de ser anti-martinhista por algum comentador mais exaltado...
Quero apenas acrescentar que ao ler o último parágrafo me lembrei que um amigo escocês, com que troco umas ideias e uns CDs na Net, me contou que no seu país (onde chove 364 dias por ano) se costuma dizer (certamente referindo-se a esse dia que não chove): "este ano o Verão calhou à quarta-feira...". O mesmo se poderia certamente aplicar a S. Martinho.
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Manuela Gama Vieira disse:
Oh Jales, como dizia Jacinto Prado Coelho, a questão era o "microclima"...

Comentário a S. Martinho (Eduardo Prado Coelho), por João B Serra

S. Martinho segundo um mapa de 1634



Voltamos então a S. Martinho? Isso quer dizer, caro JJ, que o ajuste de contas não ficou resolvido depois daquela narrativa implacável de uma noite perdida num cinema perdido?

E voltamos de que maneira! Guiados nada menos que pelo saudoso Eduardo Prado Coelho, um dos mais brilhantes espíritos do nosso tempo. Bem, EPC sabia do que falava, o pai, Jacinto do Prado Coelho, alugava casa em S. Martinho (lembro-me bem dela). Nos anos 40 e 50, S. Martinho deve ter sido uma espécie de S. Pedro de Moel, procurada por artistas e intelectuais, defendendo a qualidade e equilíbrio da ocupação urbana, tirando partido de uma excepcional vantagem paisagística.

Todas a costa Oeste sofreu desde os finais da Idade Média um processo inexorável de assoreamento e a baía de S. Martinho não fugiu à regra. O mar foi recuando desde Alfeizerão (porto ligado à construção naval ainda no século XV e XVI) até à pequena concha que hoje conhecemos. A actividade piscatória foi enfraquecendo e a projecção económica dos três portos (além dos dois já mencionados, Salir) diminuindo. De qualquer modo, lembro-me de ver a baía com barcos de pesca ancorados e assistir à descarga de peixe no cais de S. Martinho. Quando o mau tempo assolava a Nazaré, os barcos aqui registados procuravam refúgio em S. Martinho.

A perda de importância portuária da zona encontrou alternativa no turismo. Para isso muito contribuíu a linha de caminho de ferro do Oeste, inaugurada em 1887. A linha do Oeste, prolongando a linha de Lisboa a Torres Vedras até Alfarelos (onde encontrava a linha do Norte), servia as termas das Caldas e a praia de S. Martinho. Nas duas décadas finais do século XIX e primeira metade do século XX, S. Martinho integrou a oferta turística caldense, que dispunha no mesmo “pacote” de termas e praia amena, distantes entre si uma dezena de minutos de combóio. Os médicos das termas receitavam banhos no Hospital aos avós queixosos de reumático e aconselhavam banhos de mar aos netos esquálidos. Quando se criaram, na década de 20, os primeiros estabelecimentos de saúde pública na região, as consultas de saúde infantil orientavam as crianças para S. Martinho. A “descoberta” da Foz por parte dos caldenses e das classes médias caldenses foi mais tardia. Desse ponto de vista, a descrição que aqui foi feita de um acampamento junto à Lagoa, é elucidativa. Em meados dos anos 60, as classes médias caldenses, se queriam ir para a Foz, tinham de se instalar num improvisado Parque de Campismo, desprovido de equipamentos.

De facto, penso que foi só a partir dessa altura que a Foz do Arelho adquiriu um favor crescente entre os caldenses, destronando a preferência anterior por S. Martinho. Foi desde essa altura que deixou de se ouvir falar com tanta insistência na pretensão de anexar as freguesias de Alfeizerão a S. Martinho ao concelho das Caldas, um projecto acalentado de ambos os lados, desde pelo menos 1895.

A transição de S. Martinho para a Foz (no meu caso, fui para S. Martinho durante a instrução primária, aliás a conselho médico, e para a Foz quando entrei no ERO) não foi, no entanto nem linear, nem absoluta. Mesmo os mais apaixonados pelo ambiente, diríamos hoje “radical”, da Foz, não deixavam de manter alguma atenção sobre o que se passava em S. Martinho. Geração da modernidade como queríamos, partilhando com os jovens de outros mundos gostos e costumes, sabíamos que os ares cosmopolitas corriam mais ágeis e frescos em S. Martinho. Pois! Quem não se recorda da força atractiva que nos puxava para S. Martinho? Davam pela designação genérica (e mítica) de “belgas”…
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João B Serra
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OUTROS COMENTÁRIOS:
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João Ramos Franco disse:
Comigo também aconteceu que, até 1951, fui passar férias para S. Martinho pelas mesmas razões. O meu pai, Médico Veterinário Municipal, e o Dr. Mário de Castro, Sub-Delegado de Saúde, ambos pertencentes à Junta de Turismo, há muito conversavam sobre a insalubridade das águas da Lagoa de Óbidos.
Recordo-me de tudo, não só por assistir a conversas entre ambos no Café Lusitano, mas também por ver o meu pai a desenhar croquis para se fazer a ligação entre a Lagoa e Mar, o que veio a acontecer em 1952/3. A partir daí, a “aberta” passou ser efectuada todos anos na Primavera, e a Lagoa passou a ser mais frequentada.
João Ramos Franco
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João Jales disse:
Ao contrário do que é aqui sugerido não tenho qualquer "ajuste de contas" a fazer com S. Martinho, tive até lá um breve, mas feliz, encontro com uma "marquesinha" que... Mas não tenho agora tempo, isso fica para outra vez, hoje só quero dizer que eu também fui para a Foz a conselho do Dr. Mário de Castro, que foi sempre o médico "lá de casa", e que era adepto da Foz, onde aliás convivi com toda a sua família.
Roubando a idéia do João Serra do "masculin/feminin", que ele usou para caracterizar a Zaira e o Central, eu diria que a Foz era uma praia masculina e S. Martinho uma praia feminina. Estou à vontade neste "plágio", já que o autor nunca tem tempo para vir aqui vasculhar os artigos e comentários uma segunda vez.
Quanto às Belgas elas não eram míticas e sim bem reais. Houve uma colónia estudantil organizada que veio vários anos na década de 60 e eu conheci-a no Casino. Depois continuaram a aparecer, em grupos mais ou menos numerosos, durante a década de 70. Chamo aqui como testemunha deste facto o meu amigo Reboleira Alexandre, que relatou já aqui isto mesmo e até como este facto alterou a sua vida.
Termino dizendo que as classes médias caldenses não eram obrigadas a usar o Parque de Campismo "desprovido de equipamentos". Eu fiz sempre 3 meses de praia na Foz, desde 1958 até 1982, e nunca lá acampei. Havia automóveis e até camionetas nesse tempo e eu sempre fui e voltei. Acampar era uma opção. Havia muito menos gente a pernoitar na Foz do que em S. Martinho, isso era evidente.
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Fernando Santos disse:
Também não sou anti-martinhista, mas nas minhas memórias, reportando-me aos anos 57/58, escrevi o seguinte:
«Aos fins-de-semana eram os acampamentos na Foz do Arelho, Salir do Porto ou ainda S. Martinho, onde nunca gostei de acampar por causa da peneirice dos veraneantes. Olhavam-nos de lado, e parece que ficavam muito chocados ao verem-nos a passear de calções no meio deles. Por outro lado S. Martinho era muito húmido e provocava-me crises de asma. Foi lá que acampei duas ou três vezes com o Manuel Eduardo, o Perez, o Marcelino dos CTT, o Ramiro de Sousa mulher e filhos, e outros, cujos nomes já não me recordo.»

CINEMA EM S. MARTINHO

por João Jales
Comi um prego no prato e bebi duas imperiais com o João, enquanto esperávamos pelos nossos amigos, que jantavam a essa hora, oito e meia, com as famílias nas casas alugadas onde passavam o Verão em S. Martinho.

Sempre fui um indefectível adepto da Foz do Arelho, poucas vezes aqui vinha durante o Verão. Mas, nesse dia, surgiu uma boleia inesperada que me permitiu ir visitar meia-dúzia de amigos que lá estavam desterrados durante dois ou três meses. Felizmente a minha família nunca alugou casa em S. Martinho ou na Foz, nessa altura a vida nocturna de qualquer das localidades era para nós pouco apelativa.

Sendo o mais recente dos estabelecimentos de restauração, o Samar, onde estávamos, era frequentado por malta nova e veraneantes recentes. Os banhistas veteranos continuavam nos estabelecimentos tradicionais, na rua dos cafés. Aí a frequência era menos diferenciada, misturando gerações e grupos sociais, só o “Clube dos Betinhos”, situado na esquina dessa rua com uma transversal que subia a íngreme encosta, tinha o acesso reservado aos filhos dos novos-ricos, maioritariamente lisboetas, que chegaram a S. Martinho na segunda metade da década de sessenta. Mais ou menos ignorados nos locais “in” das Caldas (Casino, Azenha, Ferro-Velho), tinham aqui o seu pequeno mundo privativo. Os veraneantes mais antigos, maioritariamente alentejanos e ribatejanos, mantinham habitualmente uma relação mais descomplexada com a população local e com os caldenses, convivendo e misturando-se nos vários cafés e esplanadas existentes. Outro local nessa mesma rua, o “Delírio”, tinha um Rés-do-chão com pingue-pongue e bilhares (e até jogos electrónicos, a partir de 1971 ou 1972); e um primeiro andar, tenho ideia que reservada a sócios ou, pelo menos, a clientes habituais e mais velhos, que ali jogavam cartas. Como no Casino das Caldas, a maioria eram senhoras.

Num microcosmos tão pequeno como S. Martinho, em que o principal passatempo era olhar para os outros, os meus amigos não tinham muitos locais de encontro alternativos aos dos seus pais e o Samar era, neste início da década de setenta, um deles.

Enquanto tomávamos o café, o resto do pessoal começou a aparecer. O Luís sugeriu uma ida ao cinema para “matarmos” estas horas mortas até à meia-noite. Ninguém sabia qual era o filme, mas a noite, com “muita humidade no ar” porque “estava a cacimbar” (eufemismos que os veraneantes ainda hoje usam quando chove à noite, o que é frequente), tornava o conforto do cinema atractivo.

Mas a realidade era bem diferente já que, verdadeiramente, não existia “cinema” e muito menos “conforto”. O termo cinema refere-se normalmente a uma sala de espectáculos com as condições mínimas para a projecção e visionamento de um filme. O barracão onde me encontrei em S. Martinho do Porto não tinha nada a ver com isso: parecia uma velha arrecadação, com as paredes exteriores de cor amarelada, muito sujas, e com o interior forrado a madeira. Sentámo-nos numas duras cadeiras sem qualquer almofada ou forro. Soube depois que estávamos na “geral”. A parte de trás, a “plateia” propriamente dita, tinha sete ou oito filas com cadeiras um pouco mais confortáveis mas, como eram mais caras, não foi lá que ficámos.

- A diferença do preço do bilhete dá para beber uma imperial a seguir – explicou-me o Mário.

A inclinação do chão era insuficiente para garantir o integral visionamento do ecrã, sempre meio tapado pelas cabeças dos outros espectadores. Excepto para os da 1ª fila, que estavam tão próximo dele que poderiam usar a tela como lenço sem se inclinarem demasiado e até sem que ninguém desse por isso. Claro que ninguém o fazia, até porque a cor castanho-amarelada da tela sugeria que outros já a teriam usado dessa forma, muitos anos atrás.

Lembro-me de pensar que, mesmo a chuviscar, seria bem mais agradável estar lá fora, na esperança de uma troca de olhares mais prolongada com uma das garotas que se exibiam no cais ou nas esplanadas, mas o dinheiro do bilhete já era irrecuperável, pelo que decidi ficar.

Estranhei que, mal as luzes se apagaram, aparecesse imediatamente um bando de barulhentos índios a cavalo perseguindo várias caravanas que seguiam por um estreito caminho, ladeado por uma perigosa ravina, a uma velocidade vertiginosa.

A imagem era tão má que limpei duas vezes os óculos, julgando-os embaciados, mas não, era mesmo assim a projecção, nebulosa e com as cores muito desmaiadas. Ao longo da hora seguinte tivemos direito a muitos tiros, sangue e cavalgadas, o nosso herói impediu o massacre de toda uma família e salvou a donzela raptada pelos peles-vermelhas, com quem depois se casou. Tirando isso, tudo acabou em bem, com as palavras The End a sobreporem-se a um casto e longínquo beijo. Acenderam-se as luzes e preparava-me para sair quando fui informado que era apenas o intervalo. Intervalo? Outro filme? Pelo preço de um bilhete? Não estava habituado a esta generosidade no Chagas ou no Ibéria.

Fumámos um cigarro no estreito pátio exterior e regressámos, ao som de uma roufenha campainha. Desta vez o filme começou normalmente, com títulos, nomes e ficha técnica, mostrando uma família em dificuldades financeiras a ser ameaçada de ser expulsa das suas terras por um agiota de mau carácter. O banqueiro vilão era parecido com os actuais e, num ápice, executava a hipoteca e despejava a família. Esta decidia rumar para Oeste, com todos os seus parcos haveres arrumados numa caravana, em busca de melhor vida. Eu entretanto começara a protestar, já que os actores e as personagens eram os mesmos que nós víramos ser perseguidos, raptados e até assassinados pelos índios antes do intervalo: estávamos a ver a primeira parte do mesmo filme!

O Luís conseguiu acalmar-me com o argumento de que tanto fazia, ia acabar por ver o mesmo tempo de cinema e sair à meia-noite, hora de beber uma imperial. Afinal, passar o tempo da digestão do jantar era o objectivo da ida ao cinema… E, como eu podia facilmente verificar, mais nenhum dos espectadores que enchiam a sala estava incomodado com aquela pequena inversão na projecção. E filosofou:

- A ordem pela qual a história é contada é arbitrária e indiferente, o banqueiro fica com o Rancho, a família melhora de vida com uma propriedade maior e melhor no Oeste, os índios são todos mortos pelo cowboy e os heróis casam. Que importa que tudo isto aconteça na primeira ou na segunda parte?


João Jales

S. MARTINHO DO PORTO , por Isabel Xavier

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Recebi este bilhete postal da Isabel Xavier
Caro João Jales,

O teu texto sobre o cinema em S. Martinho teve o condão de despertar em mim as saudades dos tempos que lá vivi. Claro que o texto tem muita graça e obteve muito êxito: é o que acontece com qualquer caricatura bem feita! Mas, tal como qualquer caricatura mesmo quando bem feita, dá uma imagem deformada da realidade.

O cinema era na "rua do cinema", (havia a rua do cinema, tal como havia a rua dos cafés) e eu tive grande pena quando o demoliram. Mais ou menos como nas Caldas, com o Ibéria, que também não tinha grandes condições... Também eu, os meus irmãos e amigos íamos sempre para a geral. Só iam para a plateia os velhos e ir para lá seria um desprestígio para qualquer um de nós.

Em Setembro, então, S. Martinho era algo de inesquecível e o cinema ganhava particular relevância: apanhávamos limo, o que nos dava imenso trabalho, que púnhamos a secar na casa da Salette e íamos vendê-lo às cavalariças, só para ter dinheiro para ir ao cinema! Era muito mais como o "Cinema Paraíso" do que se pode pensar e, desculpem-me a ousadia, mas aquele pormenor que o Jales conta de passarem a segunda parte antes da primeira parece-me ser prova disso mesmo.

Nunca gostei de frequentar a praia da Foz - gosto de lá ir de Inverno - porque me parece que vou a andar pela rua das montras, mas em fato de banho, o que não me parece grande vantagem. Por isso mesmo, penso que as pessoas que iam a essa praia também olhavam umas para as outras, e talvez ainda com mais insistência, por se conhecerem de todo o ano.

Hoje não vou a nenhuma destas praias, mas por razões diferentes: à Foz pelas de sempre e ainda porque o banho lá é tramado, a S. Martinho pela nostalgia que me causa o facto de os meus pais já lá não poderem estar, como sempre estiveram, durante toda a vida, nos meses de Verão.

Já agora, a vida nocturna na Foz seria mais recomendável do que a de S. Martinho, naquele tempo?

Aqui nas Caldas sempre tiveram uma "dorzinha de cotovelo" pela frequência de elite que S. Martinho apresentava naquele tempo.

Aquela paisagem era (e é) linda, os passeios à capela de Santo António, memoráveis, os horários rígidos do banho, a compra dos bolos à Rosa, à Natália, à Iracema, a manutenção dos vizinhos de barraca durante uma vida inteira, a ida nocturna à rua dos cafés, com a indumentária apropriada a cada ocasião (de manhã roupão de praia, à tarde saia de praia, à noite toilettes mais sofisticadas), faziam de cada dia um ritual e isso é muito mais importante do que pode parecer à primeira vista.

Tudo isso se perdeu... S. Martinho era das poucas praias que, na nossa zona, tinha uma atmosfera própria, inconfundível e que quem lá ia não dispensava ano após ano.

Isabel Xavier
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COMENTÁRIOS
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João Jales disse:
Olá Isabel
Estive quase para não responder, tal a nossa concordância em todas as matérias referidas! Mas tu perguntaste-me “Já agora, a vida nocturna na Foz seria mais recomendável do que a de S. Martinho, naquele tempo?” e eu sinto-me obrigado a responder, usando (por preguiça) o meu texto: ”Felizmente a minha família nunca alugou casa em S. Martinho ou na Foz, nessa altura a vida nocturna de qualquer das localidades era para nós pouco apelativa.” O meu texto refere-se a 71 ou 72, conforme lá está, e, nessa altura, tínhamos a Azenha, o Ferro-Velho, o Casino, a Mansão da Torre, muitas cervejarias e cafés, todos os locais de Óbidos a 5 minutos… Eu não trocava, excepto pontualmente, nada disto pelas noites de Verão na Foz ou em S. Martinho.
Estamos, em tudo o resto, também de acordo.
Víamos o mesmo, mas encarávamos de forma diversa as passagens de modelos e as toilettes, provavelmente porque os meninos e as meninas sempre foram (e espero que continuem a ser) diferentes.
Olhando para as mesmas pessoas, tu vias elites onde eu via betinhos… Não seriam todos uma coisa nem todos outra, por isso é bom sermos vários a escrever, um retrato é sempre mais fidedigno quando se fotografa de vários ângulos.
Fico cheio de vontade de ler as tuas próximas colaborações porque achei o teu texto magnífico e me deu muito prazer lê-lo (embora eu seja certamente fraco juiz numa matéria em que tu és especialista). Não quero acreditar que esta seja uma “visita” ocasional. Bem-vinda ao Blog!
Aceita um beijo amigo do
João Jales
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Isabel Knaff disse:
Li o artigo da Isabel Xavier que achei curioso . É este o ponto de vista de um "insider"...interessante. Ela foi minha colega de classe e também achei giro encontrá-la aqui.

COMENTÁRIOS A "CINEMA EM SÃO MARTINHO"

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"A riqueza e vivacidade deste blogue depende hoje tanto ou mais dos comentários, que dos textos que os estimulam. Só assim se explica que, em pouco tempo, tenham sido ultrapassados os 50000 visitantes." João B. Serra dixit
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Lena Arroz disse:
Tem muita graça! Era mesmo assim!
Eu também preferia a Foz, mas tal como o Jales, tinha amigos que iam para lá “desterrados” passar os 3 meses de férias… e por isso mesmo também eu cheguei a ir ao cinema, num dos dias que passei com a Ilda, na casa alugada à época pelos seus pais em S. Martinho.
O cinema era mesmo horrível. A recordação do desconforto para mim estava relacionada com o frio. Tinha a ideia de que o filme passava num terraço do Samar com um toldo por cima mas aberto pelos lados, por onde o vento trazia o cacimbo que me gelava dos pés à cabeça.
A tela era amarelo-acastanhada e as cadeiras de “pau-pedra”, duríssimas. Não me tinha ocorrido que os espectadores da frente já tinham usado a tela como lenço, mas essa é sem dúvida uma hipótese a considerar.
A rua dos cafés era um palco. Lembro-me da preparação que a descida à rua dos cafés, depois do jantar, impunha. Dos sapatos aos brincos, tudo era importante. Todos os residentes saíam de casa para se instalarem nas esplanadas. As crianças que os acompanhavam, muito bem vestidas pelas bábás (tudo a condizer), corriam por ali em brincadeiras estouvadas, produzindo sons que animavam a rua. Os não residentes, que vinham só para a noite, passeavam (ou desfilavam, como diria o Jales), pelo meio, em pequenos grupos, deitando o olho para quem estava sentado.
Penso que à meia-noite este espectáculo terminava, ou pelo menos para as raparigas terminava. Regressava-se a casa, para no dia seguinte se recomeçar tudo de novo. Ir para a praia, para dentro da barraca, por causa do nevoeiro da manhã, tomar banho por volta do meio-dia, quando o sol aparecia, ir almoçar, dormir a sesta, voltar a praia, etc...
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Júlia Ribeiro disse:
Em relação às descrições de todos vós de S Martinho, com as quais concordo plenamente, divertiram-me agora muito mais que naqueles tempos e não podia deixar passar sem dizer qualquer coisa.
Foi uma praia que frequentei bastantes anos e divertia-me imenso...nem sabia que tinha cinema....ou não me lembrava! Mas das ventanias, do cacimbo e aqueles passeios “divertidíssimos" á noite na esplanada, disso lembro-me bem.
Por algum motivo já naquele tempo chamavam àquela praia “O Bidé das Marquesas”!!!
O que eu gostava mesmo era de ir até Salir, subir as dunas e depois escorregar. Que sensação agradável! Talvez a sensação de liberdade, seria?
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R. disse:
Como lamento a minha falta de memória para esses pormenores. Contudo, garanto que ver a 2ª parte da fita antes do intervalo também aconteceu no Pinheiro Chagas - só não me lembro com que filmes.
Também no Chagas houve uns tempos em que no intervalo o gerente - o Sr. Orlando, lembras-te?? - anunciava o filme seguinte num microfone super roufenho.
Lembro-me do anúncio do "Pe lái Ti Me", do J. Tati.
A queda de cadeiras durante a projecção era vulgaríssima. Por duas vezes, ouviu-se um tal estrondo que parecia ter vindo a casa a baixo. Luzes acesas, sala evacuada - afinal era um dos arrumadores (alguns já bem velhotes) que tinha adormecido e caído ao chão. R.
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João Serra disse:
Descrição implacável, quase cruel, de S. Martinho no princípio da década de 70. Local sem vida noctura (e com uma vida diurna bem limitada, se o principal passatempo dos veraneantes era olharem-se uns aos outros), segmentação social rígida marcada pela presença de uma colónia de "betinhos". Nem o cinema se salvava neste local de desterro: desconfortável,inapropriado, com um projeccionista incompetente ou distraído. A visão crítica deste cronista de palavras ágeis não encontrou nesta sortida de má memória rasto do "Paradiso" que Giuseppe Tornatore imortalizaria mais tarde. Paraíso não, inferno. Nem a companhia serviu de lenitivo ao nosso pobre João. Acham que ele teria notado a troca de bobines, a cor duvidosa da tela,a obstrução das cabeças das filas da frente, se uma Anna Karenina, perdão,uma Lucha de olhos brilhantes, lhe tivesse feito companhia?
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Luísa disse:
O texto é muito, muito bom (quem diria que o blogue seria assim, com Noites extraordinárias, sinaleiros, Careninas e outras maravilhas) mas nota-se realmente neste texto que o João era um amante da Foz do Arelho. Registei, no seu (maravilhoso) conto anterior (Ana Carenina), que ele já chamou "Bidé das Marquesas" à Baía. Mas ninguém protestou!
São Martinho tinha os seus encantos e uma frequência muito diferente da Foz, seria preciso -um dos veraneante mais antigos- ou -um dos banhistas habituais - (expressões do Jales) - para nos falar disso.
Mas diverti-me muito a ler, embora desta vez, como já alguém fez notar, não houvesse namorada…
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Belão disse:
O texto do João está excelentemente escrito e retrata de facto o que era S. Martinho do Porto, na altura. O filme estava à altura da terra.
E hoje? Será assim tão diferente do que o João descreve? Há muita coisa que continua igual, não? Até os filmes de índios e Cowboys!
Bjo
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Laura Morgado disse:
A escrita do João Jales é de grande qualidade, parabéns!
Ao ler o artigo recordei todos os Verões que passei em S. Martinho do Porto e relembrei uma parte da minha Juventude, só por isso valeu a escrita.
Para se conseguir algum divertimento naquela época era preciso arte, mesmo sem ser em S. Martinho.No entanto quando se tinha um bom grupo…as matinés dançantes, nos quintais de uns ou de outros, eram sempre melhores que uma ida ao cinema.
Laurinha
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Luis disse...
Este conto sobre S Martinho é, na minha opinião, um bom retrato de época.E se estes textos, fruto da cumplicidade do Serra e do Jales são para nos entreterem no Verão(li aqui isso ontem)como será daqui para a frente?
Este Post é de grande nível,como era o Verão dos Anos 60 do Serra.Mas eu sempre julguei que haveria uma continuação para o Ana Karenina, pelos vistos enganei-me...Parabéns mais uma vez!
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José disse...
Não tenho muito tempo para isto, mas diverti-me imenso a ler esta excelente crónica do JJ . Um abraço.J. Carlos Abegão
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Ana Luisa disse...
Passei dois verões em São Martinho, dois ou três anos antes desta história.Era exactamente assim,a terra era gira mas havia poucas distracções.e estou mais de acordo com o Jales, tirando aquele Clube reservado(e algo esquisito)o ambiente era de abertura e confraternização. Está muito bem escrito, foi um prazer ler e reler. Ana
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São Caxinha disse:
Suspeito que a forma como retrataste São Martinho está muito de acordo com o que realmente se passava e fico a compreender melhor porque é que nunca gostei muito nem da praia nem da localidade.
Continuo a apreciar a honestidade na tuas estórias, e deliciei-me com a descrição do cinema, verdadeiramente apropiado para esse Western de partes invertidas...que extraordinários acontecimentos por essas salas de espetáculos!!
Bjs São X
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Fernando Rodrigues disse...
O Jales já nos habituou a textos de grande qualidade,capacidade de observação e humor.Não sou leitor assíduo,não percebo bem a diferença destes contos e o diário,mas leio sempre com prazer.
Isto era S. martinho,embora eu nunca lá tenha visto nenhum filme ao contrário!!!Mas eu também era fâ da Foz,como o escritor.
Quando é que a malta mais velha perde a vergonha e começa a contar as suas histórias também?
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Isabel Knaff disse.
A forma como retrataste S. Martinho fez-me lembrar algumas cenas do David Coperfield...ruas um pouco desertas...desconsolado...sombrio...
Ainda bem que na Foz o ambiente era muito diferente, mais alegre e com muito mais vida.Gostei de recordar o "Samar" onde cheguei a ir com amigos .Gostei tambem de recordar a palavra "cacimbar" . Há já décadas que tinha desaparecido do meu vocabulário e da minha memória, visto que aqui na Holanda não cacimba.Chove pouco mas, quando acontece, chove a cântaros!
Felizmente que o teu amigo Luís tinha a capacidade para sintetizar a situação duma forma espectacular!
Fiquei tambem admirada com o desenvolvimento duma vila(?) tão pequena como S. Martinho, que já apresentava nessa altura filmes de nudismo!!! Quem diria?!!! Naturistas...
Beijinhos
Isabel Caixinha
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Manuela Gama Vieira disse:
João, já vi o teu artigo ontem, mas não me foi possível apor logo um comentário, por falta de tempo! Está muito bem escrito e o cinema "muito bem filmado" pelas tuas palavras... até me lembrei de pulgas e tudo...
Gostei do retrato social que fazes de S. Martinho do Porto daquela época. Lembro-me de lá ter ido passar um dia, a convite de uma colega do ERO, cujos Pais lá tinham casa. Sim, de um dia para o outro, com grande pena minha, e já constituía "uma lança em África".... "as "liberdades" paternas, relativamente a saídas, eram muito limitadas.... Contudo, deu para perceber que era tudo "gente fina é outra coisa" (pese embora o que "isso" quer dizer). Se era MESMO ou não, não sabia... mas tu elucidaste-me.
Não me lembro de ter assistido a filmes em que "o resultado não se altera, independentemente da ordem das parcelas", nem a filmes suecos...mais caros...e, por isso, MULHERES NA RUA!!! Muito me ri com esses por...maiores(não pormenores).
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António disse:
Bom, a mim falta-me é o jeito do Jales para contar estas coisas, porque me aconteceu uma muito boa quando fui ao cinema a Salir de Matos, no princípio da década de 70...
Entrámos todos para o Clube que lá havia (se a memória me não atraiçoa era a garagem do Mário da Espingardaria, adaptada a sala de espectáculos) para ver “Por Um Punhado de Dólares” com o Clint Eastwood.
O filme era mostrado por um projeccionista ambulante, que trazia consigo umas bobinas enormes, que eram trocadas três ou quatro vezes. Logo que começou a segunda bobina, houve alarido na sala: o filme era de bangue-bangue mas não era de cowboys, já que todos os actores estavam despidos! Parou a projecção e acendeu-se a luz. Mas quando eu pensava que se ia buscar a bobina certa, não. Mulheres e crianças para fora (não havia muitas), o Clint Eastwood que se lixe, e o resto do pessoal ficou regalado a ver o filme (sueco ou dinamarquês e sem legendas!) até ao fim.
O ambulante ainda tentou cobrar mais algum, explicando que estes filmes “importados” eram mais caros, mas a malta não foi nessa. Grande noite de cinema!!!
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J L Reboleira Alexandre disse:
Acabei agora mesmo de ler todos os comentários ao cinema. Eu era mais Salir do Porto...o Salir do António, considerando que se trata de uma das tais aldeias do interior, onde ainda não tinha chegado a mini-saia, e com um filme XXX nos anos 70...!
Lembro-me muito vagamente de haver qualquer coisa parecido com um cinema lá na terra do Gente Fina é Outra Coisa. Era mesmo assim como tu contas, com aquela ironia que nos transporta, de forma tão ligeira quanto agradável, para aquela época.
Abraço. J.L. Reboleira Alexandre
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João Ramos Franco disse:
A tua passagem pelo Cinema e a visão da sociedade daquela época naquele local estão bem contadas.
Eu poucas vezes ia S. Martinho do Porto durante o Verão, nem sabia que tinham um “Cinema”, mas, quando ia, já levava o programa de festas organizado. Normalmente se ainda era cedo, para começar a noite, ficávamos por Alfeizerão a beber umas cervejas.
João Ramos Franco
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Miguel BM disse:
Acho que fizeste um retrato fiel do que era S. Martinho naquele tempo, embora eu não seja a pessoa indicada para fazer apreciações pois foi zona que, felizmente, nunca frequentei.
Desconhecia completamente o episódio "cinema" embora as situações que relataste não me sejam estranhas. Vivi cenas semelhantes no cinema (ou lá o que aquilo era) de Arouca quando lá fiz a periferia em 80 e, mais cedo ainda, no Fundão, em que o filme acabava repentinamente a meio de uma cena de pancadaria, quando o herói agredia o vilão.
Por fim, quando é a próxima almoçarada ou jantarada? M
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Isabel Xavier disse:
(clica para aceder ao texto)

RESPOSTA AO "CINEMA EM S. MARTINHO"

por Manuela da Gama Vieira



Pois não fui ao cinema de S.Martinho, mas fui ao Cine-Teatro Tasso na Sertã!
Passava as "férias grandes" -já não se chamam assim- repartidas do seguinte modo: até 15 de Agosto nas Caldas, com idas diárias à Foz do Arelho.

Após, e até 29 de Setembro, na Sertã, de onde minha Mãe é natural, onde meu Pai a conheceu, na sua primeira colocação profissional.

Como a nossa vida era de errância...o que muito gosto nos dava, a mim e a meus irmãos, especialmente quando já não gostávamos da escola da "terra" onde vivíamos...! Lembro-me de perguntar a meu Pai, quando íamos para outra "terra"...

Sertã e Coimbra, onde viviam meus Avós paternos, constituíam para nós, como que a nossa "âncora", para além do "sítio" de onde éramos naturais- eu era de Ovar!

Era aqui, na Sertã, meu berço afectivo, onde gosto imenso de viver, repartindo-me por Coimbra aos fins-de-semana, que nossos Pais nos davam mais liberdade, mas com hora de entrada em casa, religiosamente marcada! Uns minutos de atraso e, no dia seguinte, estava tudo estragado! Dura lex, sed lex!!!

O cinema, com sessões não muito regulares, era uma das nossas distracções.

A sala localizava-se no Cine-Teatro Tasso, e as condições de "conforto" da plateia (não se chamava "piolho"?) e do 2º balcão eram parecidas com a que descreves:
cadeiras de madeira, chão de cimento, e a estratificação social era bem patente no que concerne à ocupação dos lugares. O 1º balcão, já se está a adivinhar, o mais confortável, mas tinha o inconveniente do que era arremessado do 2º balcão cá para baixo, como por exemplo pastilhas elásticas... e mais não digo!

O belo edifício, inaugurado em 1915, foi mandado erigir por um grupo de ilustres cidadãos -assim eram tidos- que desejavam ter um local onde se reunir, contemplava: um belíssimo salão de baile, sala de jogos de mesa, biblioteca, sala de leitura e sala de bilhar onde, mais tarde, foi colocada uma mesa de ping-pong.

O acesso ao Clube da Sertã estava limitado a sócios, mediante proposta de admissão...que podia ser indeferida...sabe-se lá por que motivos...mas não será difícil calcular.

O "livre" acesso ao cinema, talvez fosse uma demonstração de "não exclusão"`, digo eu, à entrada naquela bonita casa cor-de-rosa, hoje pintada de amarelo.

Não me lembro de ter assistido a filmes em que "o resultado não se altera, independentemente da ordem das parcelas", nem a filmes suecos...mais caros...e, por isso, MULHERES NA RUA!!! Muito me ri com esses por...maiores (não pormenores).

Mas, já que falo do Cine-Teatro Tasso, restaurado talvez há uma dezena de anos, com um palco dotado de condições acústicas excelentes,"uma autêntica caixa de viola"( dito pelo Maestro do Coro dos Antigos Orfeonistas de Coimbra) não posso deixar de referir um belíssimo óleo que Túllio Victorino, natural de Cernache do Bonjardim(freguesia do Concelho da Sertã)e amigo do VOSSO... José Malhoa, ofereceu ao Club da Sertã, e que ainda hoje lá está. A bonita casa-atelier de Túllio Victorino, após obras de restauro, foi aberta ao público no passado domingo.

Em Figueiró dos Vinhos, relativamente perto da Sertã, a casa-atelier de José Malhoa, denominada "O Casulo".

As conversas são como as cerejas...comecei com o cinema, o mote do excelente texto do Jales, e acabo com MESTRES!!!

Manuela Gama Vieira

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COMENTÁRIOS

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JJ disse:
As férias grandes eram mesmo GRANDES. Recordei aqui que tive quatro meses de férias no final do meu sexto ano e um dos comentadores corrigiu-me, mas sem razão, foram mesmo quatro meses.
É curioso referires uma vivência familiar nómada com tanto entusiasmo, a maioria dos meus contemporâneos que passaram por situações semelhantes referiam sempre o facto com alguma amargura, pelo corte abrupto de relações e vivências que originava. Era já esse um sinal desse teu optimismo crónico...
Penso que o “piolho” era habitualmente o 2º Balcão, onde os bilhetes eram mais baratos. A instalação de redes de protecção para evitar a “queda acidental de objectos” originou um outro nome para o 2º Balcão: o “Galinheiro”.
Esperamos por mais textos teus, um deles já está agendado, acompanhado de uma fotografia tua que, desta vez, me foi negada… Bem-vinda ao Blog!

Apanhado?

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Esta não é a primeira mensagem que recebo com insinuações e interrogações sobre a verdadeira identidade do misterioso jovem que está na foto que me enviou a Ana Nascimento (e que está no artigo imediatamente anterior). Mas esta implicou um trabalho que me deixa surpreendido e me faz pensar, será que...
Alguém pode ajudar ?
JJ
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Encontrei o vosso blogue por acaso. Andava à procura de histórias sobre dançarinos ignorados a fui ter aos antigos alunos do Externato Ramalho Ortigão. Vocês não calculam quantos talentos andam por aí. Já tenho uma colecção impressionante. Graças ao vosso blogue, a minha colecção tem aumentado bastante nos últimos tempos.
Mas agora quero contar-vos a surpresa que tive. Olhei para a fotografia colocada há dois dias e tive logo uma supeita. A princípio, porém, nem queria acreditar. Podia lá ser? Observei melhor. Aumentei a imagem. Não havia engano. Era mesmo. No meio daquelas meninas todas, com o seu eterno ar sério, empenhado, mas um pouco distraído. De bóia, na Foz do Arelho. Fantástico. Quem diria?
No blogue diz-se que não pertencia ao grupo, que foi apanhado por acaso. Quase de certeza foi. É o costume. Ele só se deixa apanhar por acaso. Então resolvi tirá-lo de lá. Não fazia sentido que continuasse ali assim, apanhado. Gostaria de vos oferecer então a foto verdadeira. Sem ele, pois.

Mas temos de ser justos. Ele passou por ali, de bóia. Portanto também faz parte do blogue. É por isso aqui fica, também. Mas fica sozinho. Apanhado. Alguém sabe quem é, qual o seu verdadeiro nome?

Diogo Viseu


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C O M E N T Á R I O S

POSTAL DA FOZ (Ana Nascimento)

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Da esquerda para a direita – Paula Nascimento, Guida Nascimento,
Rita Bonacho, Gaby Bonacho e a Mami (Marta Figueiredo).
O miúdo com a bóia não pertencia ao grupo, foi apanhado por acaso



Agosto de 1969



Estamos na Foz do Arelho …. são 10 horas … há sol… o mar está calmo e o banho irresistível…


Ouve-se o pregão da Sra.Guilhermina:


-“Há bolos da Frami


Logo seguido pelo do Justiça:


Vai já, vai já! Olha o Rajá fresquinho…. há frut'ó chocolate…. Olha a bola de Berlim e o pastel de nata….Vai já, vai já!”


Aqui e acolá, entre o mar e a lagoa, pequenos grupos de banhistas desfrutam desta manhã sem nevoeiro



Julho de 2008


Estamos na Foz do Arelho…. são 10 horas… há sol …. o mar está calmo e o banho irresistível….


Não se ouvem pregões…. as bolas de Berlim e os pastéis de nata só existem nos bares…


A praia está repleta de gente … como iremos encontrar os banhistas de 1969 no meio desta multidão ? Onde estarão as manas Bonacho, as manas Gama Vieira ?


Apareçam e venham desfrutar desta manhã sem nevoeiro…..


Ana Nascimento


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COMENTÁRIOS


Bryan Adams disse:

João Jales disse:
Lembro-me perfeitamente da Guilhermina e do Justiça a vender bolos, gelados, percebes, pevides, etc., na praia. As Bolas de Berlim vinham polvilhadas com mais ou menos areia, conforme as condições climatéricas.

O Justiça gritava o seu pregão "Vai já, vai já" com uma urgência que sugeria estarem vários clientes a reclamar os seus serviços simultâneamente, o que raramente, ou nunca, era o caso. Mas eu, ao ouvi-lo ao longe, parecendo tão atarefado, temia sempre que se tivesse esgotado o bolo que eu queria antes de ele chegar à minha barraca...

Manuela Gama Vieira disse:
Só vos digo, em manhãs de nevoeiro, ainda que nas Caldas estivesse um sol radioso, constituía tarefa árdua...convencer meus Pais a ficar na praia!
Hoje até concordo com eles, mas naquele tempo não havia vento nem nevoeiro que nos demovesse de desfrutar de uma manhã de convívio com colegas do ERO.
Têm dúvidas?
A actual foto do blog ilustra isso mesmo!
A escolha musical do João Jales, primorosa como sempre!!!

Júlia disse:
"Vai já, vai já!"
Uma Bola de Berlim agora (meia-noite...), se calhar não caía muito bem!
Mas este ano no Algarve, lá no Vau, havia Bolas de Berlim e eu comi uma. Mas as do nosso tempo eram melhores e lembrei-me, inclusive, da chegada dos tabuleiros com aquelas Bolas maravilhosas, no Colégio, com a Menina Alda a não dar conta do recado, connosco quase todas a pedi-las ao mesmo tempo no intervalo. Aí disse: minhas ricas Bolas ao pé destas!
Mas ainda bem, porque assim não voltei a tentar-me...

AS MEIAS VERMELHAS

Aqui estão 3 “ajudas” para identificar o dançarino de Hula Hoop:
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1 – Nova fotografia da mesma época com o autor sentado ao lado do Professor de Filosofia.
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2 – Texto sobre a mesma época. Ou como uma paixoneta por uma rapariga com meias vermelhas dá origem a uma aprendizagem intensiva de Hula Hoop.
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3 – Canção “chave” que desde essa mesma época (década de 1950) o autor elegeu como das suas preferidas. Trata-se do célebre tema Misty de Errol Garner, mas cantado pelo Johnny Mathis.
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“No ano lectivo de 1957-58 frequentava o liceu Pedro Nunes e, desde há cerca de 2 anos, vivia a descoberta de uma música estranha que ia crescendo e envolvendo a Juventude: o Rock´n Roll...

Sempre que passávamos por cafés perto do liceu, aproveitávamos para meter moedas nas "juke-box" para ouvirmos, deleitados, os discos de 45 rotações com as canções dos Everly Brothers, do Elvis ou do Paul Anka.

Ao fim de semana acorria aos bailes no Centro Recreativo perto de casa, onde assistia quer a exibições dos Conchas a cantarem adaptações (“Sonhos”, p.ex.) dos Everly Brothers, quer à Zezinha Meireles (nitidamente preferida pela organização) a interpretar a Malaguenha ou a Granada.

Depois havia o essencial: O Baile.

E aqui assistia-se também a uma competição entre a música “velha” e a música “nova”… Claro que sempre tentávamos influenciar quem controlava o gira discos para se ouvirem, em vez de Tangos e Passo dobles, as canções dos Platters ou da Connie Francis... Aos primeiros acordes musicais os rapazes lançavam-se em direcção às cadeiras onde as raparigas se reuniam conversando em pequenos grupos e… no caso de não se conseguir obter o par desejado, podia “marcar-se” uma dança com antecedência.

Ou seja havia uma verdadeira “lista de espera” para as jovens mais requisitadas, que usavam (grande moda) meias “collants” de cores fosforescentes (talvez para nos encandear…)… Azuis… Verdes… Amarelas, etc. Os rapazes ripostavam com camisolões vermelho vivo.

Num desses bailes, já perto do Natal de 1957, surgiu porém uma rapariga lindíssima e loiríssima com meias vermelhas (super fosforescentes claro) que “arrasou”… Ou seja a rapaziada fascinada queria dançar só com ela… E eram correrias e empurrões a ver quem chegava primeiro. Claro que eu nem me atrevia. Não só por timidez mas também porque não sabia ainda dançar. A timidez aliás fazia com que apreciasse em particular a canção "Misty" cantada pelo Johnny Mathis e com a qual me identificava – sobretudo nas horas mais melancólicas. Por exemplo quando durante a semana sonhava com a rapariga das meias encarnadas. Acho que cheguei mesmo a ter alguma febre, para a qual, o médico lá da rua, o Dr. Castilho, não conseguiu explicação. Claro que só eu sabia que a origem da temperatura excessiva era… vermelha…

Até que houve uma tarde de baile no Centro em que aconteceu algo totalmente inesperado. “Contra a corrente” e o hábito a rapariga das meias encarnadas – provavelmente intrigada porque só eu não a procurava para dançar – afastou meia dúzia de pretendentes e avançou até mim… Deu-me a mão e levou-me para o meio do salão… Atónito, senti o meu coração fazer BUMMMM, ao mesmo tempo que deixava de sentir as pernas e um calafrio me percorria o corpo… E agora??? Como fazer se não sabia dançar…. Resolvi andar ao ritmo da canção a ver se acertava… E de facto acertei... Mas foi com um sapato numa das meias vermelhas que se rompeu…

Tristíssimo com aquela tragédia e cada vez com mais “febre” resolvi aprender intensivamente a dançar, para mais tarde tentar resgatar-me perante a dona das meias vermelhas. Na altura (e como não tinha um tio como o João) a melhor professora de dança, recomendada por toda a rapaziada, era a empregada doméstica do tal médico lá da rua. Então durante semanas com o nariz encostado às nódoas do avental da Eduarda (assim se chamava a empregada do Dr. Castilho) lá ensaiei: um dois…. um dois… um dois três… Depois ainda de “treinar” também em frente ao espelho, e já me sentindo “apto”… lá fui ao baile – à reconquista da atenção perdida… já nos primeiros meses de 1958…. Esperava-me uma desilusão… A rapariga das meias cor de sangue já tinha, entretanto, encontrado um namorado com o qual dançava “em exclusividade”…

Como tinha acabado de sair o Hula Hoop cantado pela Teresa Brewer, resolvi aprender todos os truques com o arco e tornar-me campeão para ver se chamava de novo a atenção da rapariga dos meus sonhos… De facto conseguia ganhar, pouco depois, os frequentes concursos de Hula Hoop (e mais tarde de Twist) que se realizavam com frequência. Mas a dona das meias só a consegui reencontrar cerca de 5 anos depois.

Entretanto chegaram as férias grandes, que duravam uma eternidade, numa praia que não se chamava S. Martinho. Foi tempo de regressar a calma e a poesia do “Misty”…

Durante o Verão seguinte esqueci a “febre vermelha” enquanto tudo em volta parecia estar em harmonia. Muito sol, muito azul e o aroma morno dos pinheiros nos fins de tarde, a servirem de fundo a novo romance de Verão, acompanhado de mil borboletas a agitarem as asas dentro do meu peito... Na praia acompanhado com namorada nova comia umas deliciosas "Bolas de Berlim", vendidas por mulheres negras enormes e gordas. Em alternativa havia o homem branco dos barquilhos… O Estado Salazarista parecia apostado em que nos sentíssemos como num Paraíso artificial… Em que tudo estava aparentemente bem…

Tempo de longos passeios ao longo da praia, com o eco encantado do mar ao meu lado e de descobrir os reflexos especiais das gotas de água salgada no cetim da pele de Verão...

Acima de tudo era tempo em que era capaz de sentir com facilidade as coisas mágicas em volta...

As palavras mais importantes, e as letras das canções, eram simples, tinham ligação directa ao coração e genuinas... e diziam com uma força e certeza interior inexplicáveis: "forever", "only you", "I love you sincerely"... Porque "a força estava connosco"...

Apaixonava-me com a voz especial do Nat King Cole ao ouvido ("when I fall in love") e após contemplar "nel blu di pinto di blu" , lia Rimbaud, Baudelaire e outros poetas malditos, à tarde na praia, por entre troncos ressequidos que a maré deixava.

Não sabía então que um dia, mais tarde, como já referi, cerca de 5 anos depois a voltaria a encontrar. Numa viagem de autocarro da carreira para Sapadores (era então finalista do liceu Gil Vicente – para onde tinha sido transferido), reparei numa mulherzinha baixinha e gorda com uma criança ao colo. Com cabelo castanho escuro e vestindo modestamente revelava traços de cansaço no rosto. A vida que atravessara tinha sido, certamente, dura. Durante a viagem não pude de deixar de ficar intrigado de onde conheceria tal pessoa já que nada me identificava, aparentemente, com a personagem… Só após abandonar o autocarro consegui relacionar as fisionomias e perceber que tinha estado em presença da rapariga das meias encarnadas…

A par do Hula Hoop, do Twist ou do Madison, aqueles tempos eram sobretudo feitos de desencontros…