ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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João B Serra disse:
Mesmo que a Isabel não assinasse, julgo que seria capaz de descobrir a autoria deste texto. É claro, preciso, arguto e salpicado de humor (mesmoquando esconde a ironia por detrás da mais objectiva das descrições). Mas como ela já aqui uma vez me chamou à condição de seu antigo professor,sinto-me autorizado a dizer-lhe que não me parece que se possa dizer que a modernização é o caminho para o fim das organizações e duvido que tenha sido o caso do ERO. A massificação do ensino secundário teria que passar em Portugal forçosamente pela acção do Estado. Quando este despertasse para a necessidade de qualificar os portugueses em níveis mais avançados do que a escolaridade primária e de ampliar o acesso ao ensino superior, o ensino particular passaria um momento difícil. Foi assim em todo o país, e não só nas Caldas. O ensino particular nos anos 70 foi deixando o campo do ensino secundário, ocupado cada vez mais pelo Estado, e procurando outros espaços de acção: o pré-primario e o primário, sobretudo. Este movimento começou antes do 25 de Abril. A revolução apenas o acelerou. O conceito dominante então, consagrado nas políticas de educação, era o de um ensino particular supletivo do oficial. Competindo ao Estado assegurar o acesso livre e gratuito à escolaridade obrigatória, ao ensino particular restaria preencheras falhas. Foi daqui que se evoluiu depois para o conceito de liberdade de opção, que é muito difícil de concretizar, pois a empresealização implica um fim lucrativo.
Em 1972, quando, depois de décadas de protesto e espera pelo ensino liceal,foi finalmente autorizada a criação de uma secção liceal nas Caldas, que poderia ter feito o Externato Ramalho Ortigão para sobreviver? Pouca coisa,certamente. Reter os melhores professores? Como, com que garantias? Baixar o valor das propinas? Seria sempre superior ao do liceu. Oferecer um ambiente escolar mais confiável? Mas como, se os liceus é que tinham o exclusivo daavaliação e da certificação?
Em suma: o elan reformador do Padre Xico estava certo e teria conduzido a organização a um patamar atractivo nos anos 70 se ela não tivesse sucumbido pelo movimento exterior. Morreu por algo que veio de fora e não por algo que veio de dentro.

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Manuela Gama Vieira disse:
Não conheci esta fase conturbada do Colégio e o seu epílogo, muito bem descrita quer pelo Senhor P.e Naia, quer pela Isabel Xavier, uma rapariga mais nova que eu.Contudo, não resisto a partilhar convosco o que "guardei" de três personalidades do Colégio, aqui lembradas:
Senhor P.e Chico:
A primeira pessoa que encontrei quando, "esbaforida", no dia 25 de Abril de 1966, pelas 19h30, ia a entrar no Montepio, para visitar minha Mãe e meu irmão Luís Filipe, "acabado de nascer; ainda mal abria os olhos e já eram para ME ver"!!!, como diz o poeta; (o Senhor P.e Chico vinha a sair de uma visita a alguém doente e ali internado).Relembro ainda as suas magníficas aulas de Canto Coral, "passando" discos de vinil, explicando-nos peças clássicas, respectivos andamentos, biografia dos respectivos compositores. A par das sonoridades caseiras, contribuiu para ajudar a "educar" os meus gostos musicais, tal como contribuiu a música clássica (que, desculpem-me, não classifico de fúnebre) que se ouvia nos corredores do colégio do meu tempo. Esta uma particularidade muito positiva que recordo do Colégio.
Senhora D. Dora:
Não vou acrescentar muito...porque recordo pormenores engraçados, coincidentes com colegas que já os referiram:O bâton encarnado nos lábios e nos dentes....o cabelo, de tão ralo, parecia mesmo algodão doce; essa dos fósforos, oh Jales, que maldade....Lembro-me das enormes e bem cuidadas unhas encarnadas, e as sobrancelhas, quase inexistentes, desenhadas a lápis castanho.
Director do Colégio- Senhor P.e Albino:
Quanto o detestava! Não pelas protuberâncias que tinha na cabeça: a saúde ou a falta dela, de quem quer que seja, merecem-me o maior respeito.Contudo...estou ESQUECIDA da pessoa que era o Sr. Director, que se impunha não pelo respeito que inspirava, mas sim pelo "ambiente quase de terror" que queria...que se respirasse no colégio.
Já aqui contei que no tal dia 25 de Abril de 1966, eu estava a cumprir 1 dia de suspensão por me ter sentado na relva.
Um místico?....Acho que era tudo menos um místico.
De resto, penso que nem se "aguentou" muitos anos na Cartuxa de Évora, para onde se auto-exilou...e fez ele muito bem!!!!
UM ABRAÇO A TODOS! MANUELA GAMA VIEIRA
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Ana Carvalho disse:
Isabel ainda bem que há pessoas que escrevem bem e passam para o papel, na perfeição, aquilo que sentem e conseguem fazer-nos voltar ao passado. A descrição do Padre Albino e Padre Chico está fantástica e parece que estou a ver a D. Dora no 1º baco da carrinha a fazer esse comentário e outros claro, só ela mesmo para chamar leiteirinhas às miudas do Liceu. E já agora a propósito da D. Dora o João fala no cabelo mas e o baton nos dentes? PP
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Belão disse:
Tal como a Isabel, não sou do tempo do Pe António Emílio. Somos muito novinhas! Também, como todas as rapariguinhas da época, ia de carrinha para o Colégio e recordo-me perfeitamente da D.Dora sentada na frente, contabilzando quem faltava. Ousei uma vez fazê-lo e, ainda não tinham terminado as aulas da tarde, já a minha mãe sabia que eu tinha ido às aulas, mas me tinha baldado à carrinha! Deu castigo, é certo. Mas era tão mais divertido subir a ladeira em conversas típicas da "idade do armário"!Obrigada Isabel por nos avivares a memória!Bjo. Belão
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Jorge disse:
entre o relato pessoal e a crónica histórica,este é um post de alguém que sabe o que quer dizer.suponho que seja a mais nova dos Xavier,certo?
a recordação do jales é uma maldade,mas suficientemente divertida para ninguém levar a mal.abraço.jorge
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Isabel Caixinha disse:
Alguns comentários são mais dificeis de escrever que outros...Este texto da Isabel lembrou-me quão confusos foram estes dois anos lectivos!Ano lectivo de 72/73, o ultimo ano do Colégio, por todas as incertezas que o seu encerramento veio trazer, como tambem a tristeza do fim!O Ano Lectivo de 73/74 no liceu, por ser para mim uma escola nova e por ter acontecido o 25 de Abril durante o ano .A tristeza que eu senti pelo fim do ERO foi em breve substituída por alegria ao descobrir que o liceu me proporcionava as vivências próprias da idade, e a liberdade, que nunca até ali tinha conhecido no colégio...Pela primeira vez desde que tinha entrado para a escola, pude descer e subir a ladeira para ir para o Liceu!Um ano muito importante o do 25 de Abril!!Obrigada Isabel por trazeres de volta estas preciosas memórias, através do teu texto!Beijinhos Isabel Caixinha
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João Jales disse:
Tenho que começar pela D. Dora e o seu fantástico penteado (era o que se chamava uma "permanente", julgo). Grande e almofadado como uma bola de algodão-doce, cabiam lá, sem a dona dar por isso, dezenas de fósforos, papelinhos, bilhetes usados e enrolados, enfim, tudo quanto a "carrinha" proporcionava aos entediados alunos que nela viajavam. A D. Dora ia sempre estrategicamente sentada no banco da frente, logo atrás do motorista. Os lugares imediatamente atrás eram rijamente disputados.
O texto da Isabel, embora omita este curioso passatempo, dá-nos uma concisa mas certeira caracterização do que foram os consulados dos padres directores. E descreve a "morte anunciada" do navio da perspectiva dos passageiros e não do comandante.
O esvaziamento do Colégio era inevitável perante a abertura do Liceu e todos o sabiam. Concordo com a Isabel, passo por ali com frequência e o edifício, entretanto ampliado, está muito bem conservado.
Penso que as contribuições da Isabel têm sido, na forma e no conteúdo, uma lufada de límpida prosa no Blog, não acham? JJ
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Luísa disse:
Oh JJ tu tens que ser interdito ou interditado -já nem sei como se escreve -se continuas a lembrar-te e a divulgar estas histórias! Nunca mais me tinha lembrado da “permanente” da D Dora!!!O texto da Isabel lê-se,como dizes,com prazer e foi para mim uma revelação- desconhecia a existência desta “turma fantasma” no E.R.O.- enquanto todos os outros estavam já no Liceu. Mas não percebi bem porque é que isso aconteceu.As palavras sobre o Padre Xico são justas - e sobre o Padre Albino também,já agora!Bjs. L
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Isabel Esse disse:
Já que agradeci ao Padre Naia o seu texto,tenho que fazer o mesmo à Isabel.
Eras uma garotita quando eu brincava com a tua irmã Lena,olha que bela escritora te tornaste,quem diria?Também não conheci o Padre António Emílio,só o Padre Xico(também gostava dele) e o Albino(Brrrrrrr!!!!pôe medo nisso).

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João Ramos Franco disse:
Tu escreveste: "O estilo existencialista do texto de João Ramos Franco sobre a praça, que também é característico do tempo em que foi escrito".
A propósito do estilo com que escrevemos, e estando tu com "receio" da citação do Gabriel Garcia Marquez, eu vou acrescentar uma outra citação também sobre a morte anunciada: "Não são dores verdadeiras, é pior, são as dores que vou ter amanhã de manhã. E depois?". Jean Paul Sartre (O Muro)
Talvez seja bom sinal ter algum estilo, mostra que sempre ficou em nós algo do que lemos.
João Ramos Franco
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Manuela G V disse:
Quanto à criação tardia, digo eu, do ensino liceal nas Caldas, não seriam alheias as "cumplicidades" entre Estado e Igreja! "Foi você que pediu justiça social"????

Resposta e comentário final da Isabel Xavier:

Eu não digo que a modernização foi um "caminho", mas sim um sinal, falo até em "sinal premonitório". Digo também que a nomeação do padre Xico (pelos seus superiores hierárquicos) é que indicia o fim que se aproximava inexoravelmente, sem que o padre Xico tivesse "culpa", portanto, sem ser devido à sua acção.
Mas concordo com o comentário do João Serra e agradeço as explicações que ele dá sobre o contexto histórico de tudo isto. Fá-lo na qualidade de meu antigo professor, aqui invocada por ele por eu já a ter invocado noutra ocasião. Nessa altura, eu disse também que ele era um grande amigo, e é. Por isso fez questão de realçar as características específicas da minha escrita, na sua opinião. Feliz de quem pode continuar a aprender pela vida fora com professores assim!
Aproveito para agradecer os outros comentários também. A Isabel Caixinha deve lembrar-se bem deste processo porque sempre fomos colegas de turma. Ela passou a percorrer a ladeira do colégio,mas no sentido inverso, quando nós deixámos de o fazer: é curioso!
O comentário do Jales é impagável! Coitada da D. Dora!... Já agora, o da Belão também.
Tudo isto é uma descoberta! "Vasculhando" o passado, reatando o que julgávamos perdido, descobrindo-nos a nós mesmos nas memórias uns dos outros!
É urgente que nos encontremos para sabermos como somos agora. Quase como aqueles casais de possíveis namorados que levam um sinal exterior para se reconhecerem no primeiro encontro, depois da comunicação escrita, quase como nos filmes.
-Isabel Xavier-
C O M E N T Á R I O S
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Isabel disse:
Grande texto sobre S. Martinho! Claro que um S. Martinho assim tão agitado não era o meu, rapariga recatada como era, mas tenho pena...
Isabel Xavier
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Jorge disse:
Divertidissimo ... o texto ... e S. Martinho, pelos vistos! o Jales tem aqui uma resposta à altura do seu conto.
Posso perguntar quem é o Luis Machado? contemporâneo do João Lourenço? não me lembro dele. jorge
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S. disse:
Este S. Martinho tem muito chantilly, e algum Gin q.b., para agradar a todos... O texto é de boa qualidade e o que o JJ pintou de preto,pintou o Luis de côr-de-rosa!A tal verdade deve andar algures no meio.Mas,com tudo isto ganhamos todos,rememorando belos tempos com bons contadores de histórias.Venham mais,de S Martinho,daNazaré ou da Foz.
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Luis Eme disse:
excelentes todas estas memórias...
é óptimo quando um blogue consegue criar esta interacção de opiniões e de histórias.
não sou da vossa geração (nasci em 1962...), e desde cedo que escolhi a Foz como minha praia. primeiro por questões pequenas, como a areia (menos fina que a de S. Martinho) ou a existência da Lagoa, para nadar, e o mar, para ver aquele festival que nos era oferecido pelas ondas, quase sempre furiosas...). depois porque era a praia da generalidade dos meus amigos...
e ainda hoje é a minha praia, mesmo que passe o Verão sem a visitar...
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João Jales disse:
Caro Luis:
Foi bom receber um texto simultaneamente tão poético e divertido, respondendo e corrigindo o meu Cinema. Agradeço a reposição da verdade com as tuas correcções, que passo a enumerar:
Eu escrevi que o Cinema tinha as “paredes exteriores de cor amarelada, muito sujas” e tu corrigiste "era branco sujo”.
Eu escrevi “Sentámo-nos numas duras cadeiras sem qualquer almofada ou forro” mas afinal não era verdade. Felizmente tu pudeste repor a verdade histórica dizendo que “As cadeiras eram realmente de pau”.
Eu fui injusto ao afirmar “A inclinação do chão era insuficiente para garantir o integral visionamento do ecrã” mas tu, que não deixas passar nada, logo corrigiste ”A inclinação era insuficiente…”.
Eu impensadamente afirmei que passámos o intervalo “no estreito pátio exterior” mas fiquei agora a saber que afinal a questão era, como tu corriges, “o facto do foyer ser ao ar livre”. Era um foyer e não um pátio, e eu não dei pela diferença!
Eu também pensava que vocês eram “meia-dúzia de amigos que lá estavam desterrados” mas afinal não era assim, porque tu afirmas “os desterrados eram poucos mas bons”, o que é completamente diferente.
E depois acrescentas “Mais rectificações”. E eu fui ver no que mais tinha errado.
“Não acho nada que o principal passatempo fosse “olhar uns para os outros”, era mais olhar uns para as outras”. Aqui confesso que não percebi bem qual a diferença, excepto excluir uma eventual comunidade Gay do "passatempo".

Os betinhos, afinal, ainda eram queques nesta altura, só evoluindo posteriormente.
Finalmente, já muito abalado por todas estas correcções, preparei-me para saber porque era falso o que eu afirmara: “nessa altura a vida nocturna (em S. Martinho) era para nós pouco apelativa.”
Fiquei a saber que “tenho que discordar de alguns comentários, não acho nada que (a vida nocturna) fosse assim tão má, não me lembro de me ter deitado algum dia antes das 4 da manhã.” Ah, bom! Se tu não te deitavas antes das 4 da manhã a vida era seguramente trepidante. Preparei-me para revelações empolgantes. E elas vieram: o arquitecto bebia tinto em chávenas de chá, o Morcego emborcava copos das seis da tarde às seis da manhã e o resto do pessoal bebia um cocktail de Gin na varanda de uma casa alugada. Parece Monte Carlo, fervilhante, febril, os néons a piscar, música no ar…

Mas acredito que S. Martinho fosse mágico (eu não disse que não era), bastava lá estares tu e o Joni a beber um copo e a contar umas estórias. E, só por isso, lamento não ter lá ido mais vezes. Um abraço. João Jales
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São Caixinha disse:
Diverti-me imenso com o comentário do Luís Machado ao teu "Cinema em São Martinho" e por sua vez com a tua resposta!! Se pudesse voltar atrás no tempo iria certamente dar-me uma generosa oportunidade de reconsiderar as possibilidades da praia...eventualmente em dias de tempestade, pois como o Luís Eme também eu dou preferência a mares mais agitados!! Mas que esse mar manso de São Martinho continua até aos dias de hoje a inspirar artistas é um facto, como prova este óleo com o titulo de "Meia felicidade" (tradução minha) de Pierre Guillaume, pseudónimo do pintor Holandês Peter Willemse. Bjs e até breve. São X

João Ramos Franco disse:
“A boémia é uma atitude”, como cita o Luís Machado. Respondo-lhe com a fotografia do jantar dos antigos alunos de 1962,
JANTAR DE ALUNOS DO ERO EM 1962 e também uma pergunta:
- Será que éramos malta de ir para cama depois de do jantar?

Um abraço , João Ramos Franco.

COMENTÁRIOS A "CINEMA EM SÃO MARTINHO"

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"A riqueza e vivacidade deste blogue depende hoje tanto ou mais dos comentários, que dos textos que os estimulam. Só assim se explica que, em pouco tempo, tenham sido ultrapassados os 50000 visitantes." João B. Serra dixit
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Lena Arroz disse:
Tem muita graça! Era mesmo assim!
Eu também preferia a Foz, mas tal como o Jales, tinha amigos que iam para lá “desterrados” passar os 3 meses de férias… e por isso mesmo também eu cheguei a ir ao cinema, num dos dias que passei com a Ilda, na casa alugada à época pelos seus pais em S. Martinho.
O cinema era mesmo horrível. A recordação do desconforto para mim estava relacionada com o frio. Tinha a ideia de que o filme passava num terraço do Samar com um toldo por cima mas aberto pelos lados, por onde o vento trazia o cacimbo que me gelava dos pés à cabeça.
A tela era amarelo-acastanhada e as cadeiras de “pau-pedra”, duríssimas. Não me tinha ocorrido que os espectadores da frente já tinham usado a tela como lenço, mas essa é sem dúvida uma hipótese a considerar.
A rua dos cafés era um palco. Lembro-me da preparação que a descida à rua dos cafés, depois do jantar, impunha. Dos sapatos aos brincos, tudo era importante. Todos os residentes saíam de casa para se instalarem nas esplanadas. As crianças que os acompanhavam, muito bem vestidas pelas bábás (tudo a condizer), corriam por ali em brincadeiras estouvadas, produzindo sons que animavam a rua. Os não residentes, que vinham só para a noite, passeavam (ou desfilavam, como diria o Jales), pelo meio, em pequenos grupos, deitando o olho para quem estava sentado.
Penso que à meia-noite este espectáculo terminava, ou pelo menos para as raparigas terminava. Regressava-se a casa, para no dia seguinte se recomeçar tudo de novo. Ir para a praia, para dentro da barraca, por causa do nevoeiro da manhã, tomar banho por volta do meio-dia, quando o sol aparecia, ir almoçar, dormir a sesta, voltar a praia, etc...
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Júlia Ribeiro disse:
Em relação às descrições de todos vós de S Martinho, com as quais concordo plenamente, divertiram-me agora muito mais que naqueles tempos e não podia deixar passar sem dizer qualquer coisa.
Foi uma praia que frequentei bastantes anos e divertia-me imenso...nem sabia que tinha cinema....ou não me lembrava! Mas das ventanias, do cacimbo e aqueles passeios “divertidíssimos" á noite na esplanada, disso lembro-me bem.
Por algum motivo já naquele tempo chamavam àquela praia “O Bidé das Marquesas”!!!
O que eu gostava mesmo era de ir até Salir, subir as dunas e depois escorregar. Que sensação agradável! Talvez a sensação de liberdade, seria?
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R. disse:
Como lamento a minha falta de memória para esses pormenores. Contudo, garanto que ver a 2ª parte da fita antes do intervalo também aconteceu no Pinheiro Chagas - só não me lembro com que filmes.
Também no Chagas houve uns tempos em que no intervalo o gerente - o Sr. Orlando, lembras-te?? - anunciava o filme seguinte num microfone super roufenho.
Lembro-me do anúncio do "Pe lái Ti Me", do J. Tati.
A queda de cadeiras durante a projecção era vulgaríssima. Por duas vezes, ouviu-se um tal estrondo que parecia ter vindo a casa a baixo. Luzes acesas, sala evacuada - afinal era um dos arrumadores (alguns já bem velhotes) que tinha adormecido e caído ao chão. R.
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João Serra disse:
Descrição implacável, quase cruel, de S. Martinho no princípio da década de 70. Local sem vida noctura (e com uma vida diurna bem limitada, se o principal passatempo dos veraneantes era olharem-se uns aos outros), segmentação social rígida marcada pela presença de uma colónia de "betinhos". Nem o cinema se salvava neste local de desterro: desconfortável,inapropriado, com um projeccionista incompetente ou distraído. A visão crítica deste cronista de palavras ágeis não encontrou nesta sortida de má memória rasto do "Paradiso" que Giuseppe Tornatore imortalizaria mais tarde. Paraíso não, inferno. Nem a companhia serviu de lenitivo ao nosso pobre João. Acham que ele teria notado a troca de bobines, a cor duvidosa da tela,a obstrução das cabeças das filas da frente, se uma Anna Karenina, perdão,uma Lucha de olhos brilhantes, lhe tivesse feito companhia?
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Luísa disse:
O texto é muito, muito bom (quem diria que o blogue seria assim, com Noites extraordinárias, sinaleiros, Careninas e outras maravilhas) mas nota-se realmente neste texto que o João era um amante da Foz do Arelho. Registei, no seu (maravilhoso) conto anterior (Ana Carenina), que ele já chamou "Bidé das Marquesas" à Baía. Mas ninguém protestou!
São Martinho tinha os seus encantos e uma frequência muito diferente da Foz, seria preciso -um dos veraneante mais antigos- ou -um dos banhistas habituais - (expressões do Jales) - para nos falar disso.
Mas diverti-me muito a ler, embora desta vez, como já alguém fez notar, não houvesse namorada…
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Belão disse:
O texto do João está excelentemente escrito e retrata de facto o que era S. Martinho do Porto, na altura. O filme estava à altura da terra.
E hoje? Será assim tão diferente do que o João descreve? Há muita coisa que continua igual, não? Até os filmes de índios e Cowboys!
Bjo
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Laura Morgado disse:
A escrita do João Jales é de grande qualidade, parabéns!
Ao ler o artigo recordei todos os Verões que passei em S. Martinho do Porto e relembrei uma parte da minha Juventude, só por isso valeu a escrita.
Para se conseguir algum divertimento naquela época era preciso arte, mesmo sem ser em S. Martinho.No entanto quando se tinha um bom grupo…as matinés dançantes, nos quintais de uns ou de outros, eram sempre melhores que uma ida ao cinema.
Laurinha
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Luis disse...
Este conto sobre S Martinho é, na minha opinião, um bom retrato de época.E se estes textos, fruto da cumplicidade do Serra e do Jales são para nos entreterem no Verão(li aqui isso ontem)como será daqui para a frente?
Este Post é de grande nível,como era o Verão dos Anos 60 do Serra.Mas eu sempre julguei que haveria uma continuação para o Ana Karenina, pelos vistos enganei-me...Parabéns mais uma vez!
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José disse...
Não tenho muito tempo para isto, mas diverti-me imenso a ler esta excelente crónica do JJ . Um abraço.J. Carlos Abegão
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Ana Luisa disse...
Passei dois verões em São Martinho, dois ou três anos antes desta história.Era exactamente assim,a terra era gira mas havia poucas distracções.e estou mais de acordo com o Jales, tirando aquele Clube reservado(e algo esquisito)o ambiente era de abertura e confraternização. Está muito bem escrito, foi um prazer ler e reler. Ana
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São Caxinha disse:
Suspeito que a forma como retrataste São Martinho está muito de acordo com o que realmente se passava e fico a compreender melhor porque é que nunca gostei muito nem da praia nem da localidade.
Continuo a apreciar a honestidade na tuas estórias, e deliciei-me com a descrição do cinema, verdadeiramente apropiado para esse Western de partes invertidas...que extraordinários acontecimentos por essas salas de espetáculos!!
Bjs São X
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Fernando Rodrigues disse...
O Jales já nos habituou a textos de grande qualidade,capacidade de observação e humor.Não sou leitor assíduo,não percebo bem a diferença destes contos e o diário,mas leio sempre com prazer.
Isto era S. martinho,embora eu nunca lá tenha visto nenhum filme ao contrário!!!Mas eu também era fâ da Foz,como o escritor.
Quando é que a malta mais velha perde a vergonha e começa a contar as suas histórias também?
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Isabel Knaff disse.
A forma como retrataste S. Martinho fez-me lembrar algumas cenas do David Coperfield...ruas um pouco desertas...desconsolado...sombrio...
Ainda bem que na Foz o ambiente era muito diferente, mais alegre e com muito mais vida.Gostei de recordar o "Samar" onde cheguei a ir com amigos .Gostei tambem de recordar a palavra "cacimbar" . Há já décadas que tinha desaparecido do meu vocabulário e da minha memória, visto que aqui na Holanda não cacimba.Chove pouco mas, quando acontece, chove a cântaros!
Felizmente que o teu amigo Luís tinha a capacidade para sintetizar a situação duma forma espectacular!
Fiquei tambem admirada com o desenvolvimento duma vila(?) tão pequena como S. Martinho, que já apresentava nessa altura filmes de nudismo!!! Quem diria?!!! Naturistas...
Beijinhos
Isabel Caixinha
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Manuela Gama Vieira disse:
João, já vi o teu artigo ontem, mas não me foi possível apor logo um comentário, por falta de tempo! Está muito bem escrito e o cinema "muito bem filmado" pelas tuas palavras... até me lembrei de pulgas e tudo...
Gostei do retrato social que fazes de S. Martinho do Porto daquela época. Lembro-me de lá ter ido passar um dia, a convite de uma colega do ERO, cujos Pais lá tinham casa. Sim, de um dia para o outro, com grande pena minha, e já constituía "uma lança em África".... "as "liberdades" paternas, relativamente a saídas, eram muito limitadas.... Contudo, deu para perceber que era tudo "gente fina é outra coisa" (pese embora o que "isso" quer dizer). Se era MESMO ou não, não sabia... mas tu elucidaste-me.
Não me lembro de ter assistido a filmes em que "o resultado não se altera, independentemente da ordem das parcelas", nem a filmes suecos...mais caros...e, por isso, MULHERES NA RUA!!! Muito me ri com esses por...maiores(não pormenores).
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António disse:
Bom, a mim falta-me é o jeito do Jales para contar estas coisas, porque me aconteceu uma muito boa quando fui ao cinema a Salir de Matos, no princípio da década de 70...
Entrámos todos para o Clube que lá havia (se a memória me não atraiçoa era a garagem do Mário da Espingardaria, adaptada a sala de espectáculos) para ver “Por Um Punhado de Dólares” com o Clint Eastwood.
O filme era mostrado por um projeccionista ambulante, que trazia consigo umas bobinas enormes, que eram trocadas três ou quatro vezes. Logo que começou a segunda bobina, houve alarido na sala: o filme era de bangue-bangue mas não era de cowboys, já que todos os actores estavam despidos! Parou a projecção e acendeu-se a luz. Mas quando eu pensava que se ia buscar a bobina certa, não. Mulheres e crianças para fora (não havia muitas), o Clint Eastwood que se lixe, e o resto do pessoal ficou regalado a ver o filme (sueco ou dinamarquês e sem legendas!) até ao fim.
O ambulante ainda tentou cobrar mais algum, explicando que estes filmes “importados” eram mais caros, mas a malta não foi nessa. Grande noite de cinema!!!
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J L Reboleira Alexandre disse:
Acabei agora mesmo de ler todos os comentários ao cinema. Eu era mais Salir do Porto...o Salir do António, considerando que se trata de uma das tais aldeias do interior, onde ainda não tinha chegado a mini-saia, e com um filme XXX nos anos 70...!
Lembro-me muito vagamente de haver qualquer coisa parecido com um cinema lá na terra do Gente Fina é Outra Coisa. Era mesmo assim como tu contas, com aquela ironia que nos transporta, de forma tão ligeira quanto agradável, para aquela época.
Abraço. J.L. Reboleira Alexandre
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João Ramos Franco disse:
A tua passagem pelo Cinema e a visão da sociedade daquela época naquele local estão bem contadas.
Eu poucas vezes ia S. Martinho do Porto durante o Verão, nem sabia que tinham um “Cinema”, mas, quando ia, já levava o programa de festas organizado. Normalmente se ainda era cedo, para começar a noite, ficávamos por Alfeizerão a beber umas cervejas.
João Ramos Franco
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Miguel BM disse:
Acho que fizeste um retrato fiel do que era S. Martinho naquele tempo, embora eu não seja a pessoa indicada para fazer apreciações pois foi zona que, felizmente, nunca frequentei.
Desconhecia completamente o episódio "cinema" embora as situações que relataste não me sejam estranhas. Vivi cenas semelhantes no cinema (ou lá o que aquilo era) de Arouca quando lá fiz a periferia em 80 e, mais cedo ainda, no Fundão, em que o filme acabava repentinamente a meio de uma cena de pancadaria, quando o herói agredia o vilão.
Por fim, quando é a próxima almoçarada ou jantarada? M
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Isabel Xavier disse:
(clica para aceder ao texto)
C O M E N T Á R I O S

Diogo Viseu disse:

O rapaz é, toda a gente sabe, o Vasco de Noronha Trancoso. Campeão. Mas quem é o tipo do lado, o professor de filosofia? Diogo Viseu

Carlos Gouveia disse:
Será o Dr. Vasco Trancoso? Ele não é das Caldas, mas creio que de Lisboa, deve estar cá há 30 anos, é conhecido de todos e guarda certamente os recortes dos jornais.Um abraço Carlos Gouveia
RESPOSTA:
BINGO!


JJdisse:

Como vêem, e respondendo a duas “insinuações” que recebi, o artigo de jornal é genuíno e o texto foi escrito pela pessoa que está nas duas fotos, há quase trinta anos residente nas Caldas e conhecido por muitos (todos?) os caldenses.
Falamos do meu amigo Vasco Trancoso, que se dispôs a participar nesta pequena brincadeira, trazendo-nos simultâneamente memórias de um tempo (década de 50) que tem estado aqui algo ausente, por culpa dos colegas mais velhos.
Eu tinha 5 anos em 1959, tenho muita dificuldade em fazer qualquer apreciação aos aspectos não musicais do “retrato de época” que aqui é apresentado. Só posso dizer que gostei muito de o ler, mas aguardo comentários dos contemporâneos do autor.
Sobre a música, omnipresente como é habitual nos melómanos quando recordam alguma coisa, acrescento duas notas:
1-"Misty" é uma balada, um clássico do “easy listening”, composta por um dos mais dotados pianistas de Jazz de sempre, Erroll Garner. Não sabia ler uma nota de música mas compôs e interpretou canções sem fim ao longo das décadas de 40, 50, 60 e 70, chegando a gravar três LPs num dia!
Johnny Mathis é um “crooner”, com formação vocal de ópera, surgido com grande êxito em 1957. É curioso ser aqui referido como fazendo parte dos gostos de um teenager, já que a sua música foi sempre dirigida ao mercado adulto, rivalizando com Frank Sinatra e Nat King Cole, por exemplo.
2 – Representam musicalmente a época efectivamente Elvis Presley, Paul Anka, Connie Francis, Teresa Brewer, Everly Brothers, todos brancos, e os negros “bem comportados” J Mathis, Nat King Cole e Platters, que o autor cita no texto.
Os génios negros que “inventaram” o Rock (Chuck Berry, Little Richard, Fats Domino, Bo Diddley), vítimas do boicote do “music business” norte-americano, só a partir de 1964, depois das declarações e afirmações reverentes dos grupos britânicos, veriam o seu talento reconhecido. Eram, nesta altura, desconhecidos fora dos círculos musicais dos negros norte-americanos.
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Manuela Gama Vieira disse:
Seja quem for o autor, um conto muito giro e bem escrito.Manuela Gama Vieira
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Guida S disse...
Nunca dancei o Hula Hup, não sou desse tempo! - mas não me parece que fosse muito romântico , pois não?Mas lembro-me do Twist claro nos bailes particulares e no casino,quando estive nas Caldas. Não faço ideia quem seja o autor,mas é alguém mais velho que eu, eu tinha 3 anos em 1958!!!A ideia das mulheres que casam e têm filhos ficarem feias e gordas não me agradou muito - principalmente porque se ele era finalista eles tinham para aí só 18 ou 19 anos!!!
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Luisa disse:
Gostei de ler esta história dos anos 50 cheia de canções e artistas que não conheço, tirando o Elvis. Mas achei o "misty" assim um bocadinho meloso demais para o meu gosto...
Não consigo identificar o autor, mas há muitos anos que só passo curtas férias aí.Quem ai mora é que deve conhecer!
É bom que estas histórias vão aparecendo no blogue. Bjs.
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Fernando Jorge disse:
Conheço bem o autor, a quem aqui mando um abraço, porque sou seu amigo. Autor que, aliás, é identificável pelo estilo.
Quanto à rapariga das meias vermelhas, não a conheço, não conheci, nem sou, moral ou materialmente responsável pelas desgraças que lhe tenham acontecido; do que posso fazer fé publicamente, lavrar em acta, ou notarialmente, ou, e se algum dia for para o governo (o que, obviamente, nunca acontecerá!), mandar publicar um desmentido.
Quanto ao Vasco, já não ponho as mãos no fogo por ele... (será possível, 5 anos passados, já não se lembrar?!). FS
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Nota final sobre o caso das “Meias Vermelhas”


Em primeiro lugar um grande abraço ao JJales pela parceria e ao Carlos Gouveia a quem felicito pelo raciocínio….

Tudo começou, ao ler o Blog da ERO cujo link o amigo Jales teve a amabilidade de me enviar, alertando-me para canções nele publicadas… e ao deparar com um texto sobre o Twist e o Hula Hoop em que não era feita justiça ao meu amigo João Serra – sempre com grande rigor naquilo que escreve. Não fiquei indiferente e mostrei o “recorte” ao Jales como prova que o João tinha razão…. Daí até engendrarmos também uma situação semi-misteriosa com intenção de divertir – foram poucos minutos.

Depois surgiu o texto à laia de “pista” já que o “Caso das Meias Vermelhas” tinha sido contado aos microfones da saudosa Rádio Margem à qual estiveram ligados alguns ex-alunos do ERO.

E acerca do texto podemos desvendar que “O Centro” era o Centro Recreativo do Bairro da Calçada dos Mestres, bairro então apelidado de “moradias económicas”, e onde as “famosas organizações Limão” produziam os bailes. Aliás faziam-no em diversas associações culturais e recreativas da Lisboa do final década de 1950 e início da de 1960, como a Casa do Algarve, Casa do Alentejo, etc.

Curiosamente convergiam para os bailes do Centro jovens de todos os grupos sociais. Desde o filho do Dr. Castilho até ao do Marceneiro lá do bairro. Aconteciam com frequência paixões impossíveis porque contrariadas mais tarde pela família que impunha destinos diferentes a quem vinha de classes sociais também diferentes. Uns teriam que ser doutores ou engenheiros enquanto outros não passariam de marceneiros ou pedreiros.

Foi no contexto dessa amálgama de jovens com origens e destinos diferentes que se deu o encontro com a menina das meias vermelhas que, para além de não ter eventualmente conseguido fugir ao destino que tinha marcado era, julgo, alguns anos mais velha do que eu… Aliás era um “clássico” as paixonetas por raparigas mais velhas – e que por vezes eram retribuídas. Quantas paixões pelas explicadoras de Inglês ou Português… Haverá certamente razões que esclarecem a atracção entre jovens adolescentes de 15 anos e raparigas já com 20-25 anos. Este tema é, aliás, magistralmente tratado no excelente filme “Verão de 42”.

Como tentativa de explicação da transformação radical verificada mais tarde na dona das meias encarnadas, e sabendo que eu era finalista, com 20 ou 21 anos – dado que chumbei 2 anos no liceu Pedro Nunes… (por isso me transferiram para o liceu Gil Vicente - que acolhia os casos difíceis)… podemos pensar que, em consequência, a menina nessa altura já poderia ser uma senhora talvez com cerca de 25 anos (nunca soube a idade)… Acresce que, embora não sendo obrigatório que as mulheres que casem e tenham filhos engordem (acho difícil alguém ter essa opinião)… isso pode acontecer – tal como nos homens. Por outro lado, poderíamos admitir que, enquanto mais jovem, a dona das meias vermelhas teria um cuidado especial em se arranjar, maquilhar e colorir o cabelo, apresentando um “brilho” talvez artificial, aos meus olhos de adolescente, que se desfez com o passar do tempo e com eventuais problemas que enfrentou…. Se em vez de um cabelo louro e comprido surgir a verdade de um cabelo castanho escuro e curto bem como a ausência de “pinturas de guerra” no rosto e ainda por cima existir uma dieta desregrada e um certo desleixo no vestir, a somar ao facto de que, é frequente as raparigas tornarem-se adultas e mais responsáveis muito mais cedo do que muitos rapazes… poderá ajudar a explicar a transformação…. Na altura muitas jovens, pressionadas pelo ambiente familiar, procuravam casar-se cedo “arrumando-se” como se dizia. Só que algumas deixavam de se cuidar a partir desse momento porque o objectivo para elas estava atingido.

Sabendo que há pessoas que envelhecem precocemente perante os dramas presentes na sua vida, também podemos admitir que algo de grave tenha acontecido à rapariga das meias vermelhas. Na altura não era nada fácil a sobrevivência económica das famílias mais modestas.

Por outro lado, ainda, acontecia que por vezes quando reencontrávamos antigas paixões, perguntávamos aos nossos botões: como tinha sido possível ter sentido tanto por uma pessoa que se transformou afinal num estupor ou num mau carácter.
É claro que tudo isto é especulativo, pois nunca saberemos as razões da transformação da rapariga das meias encarnadas.

Agora sabemos sim que eu era – e sou – muito distraído… sobretudo num primeiro olhar. Acontece inúmeras vezes passar por mal criado ou arrogante por não cumprimentar de imediato pessoas que conheço ou com as quais conversei algumas vezes. Assim também pode ter acontecido que não tenha prestado minuciosa atenção, nos primeiros momentos, à mulher do autocarro… Estou certo que outros espíritos mais atentos fariam diferente se estivessem no meu lugar….

Parece-me interessante partir de um texto para comentar sobre o contexto social da altura. O retrato de época como o Jales refere.

Ainda bem que o Blog do ERO passou das bolas de Berlim da praia de Magoito que eu frequentava para as da Foz do Arelho transportadas pala sra Guilhermina e pelo Justiça.

Quem se lembra de outros pregões e vendedores (estica ó chocolate, etc). E acerca dos jogos de praia. As meninas eram especialistas no “Mata” com o “ringue” e as senhoras mais velhas davam cartas no jogo do prego…

Afinal há muitos ex alunos de muitos Ramalho Ortigão espalhados pelo país.

VT

PS: Há outros blogs criados por outros ex alunos de outros liceus? Seria interessante a articulação ou intercâmbio…
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Manuela G V disse:
Em as "As Meias Vermelhas", a época e respectiva contextualização, subjazem ao conto e são perfeitamente perceptíveis ao leitor.De qualquer modo, o comentário veio ajudar os "menores de cinquenta, quiçá, de quarenta"... a situar todo o cenário!
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COMENTÁRIOS :

Margarida Araújo disse:
João:
Hilariante cena! Relembrei, pelo que nos foste contando, o teu fraco ouvido musical e a tua pouca destreza para a dança. Bom do primeiro não sei se é bem verdade, pois vou acompanhando as boas escolhas com que vais musicando a "Cidade Imaginária" (essa, na minha cabeça terá que ter sempre música). Da segunda nada sei, mas ao ver essa lição (lembra um filme do Charlie Chaplin, do Pamplinas, do Tati, do Louis de Funée) devo concluir que também não deves dançar assim tão mal: é que para nadar, também é preciso RITMO.
Toma lá nota no teu carnet de danças uma reserva para mim, pode ser mesmo para o "Let's Twist Again" no próximo almoço do ERO.Um bj amigo . Guidó

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Luis António disse:
Nunca imaginei que o João Serra pudesse escrever algo tão divertido ! Este é o Mr. Hyde do nosso Dr. Jekyll ? Estou a brincar, o conto é sensacional e nós já tinhamos visto um João Serra bem menos sério do que é costume, no Polícia Sinaleiro!
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Manuela Gama Vieira disse:
Adorei o texto!Diverti-me imenso com as aulas e o esforçado esforço.....do Tio!!!!Num curriculum tão ilustre como é o do autor, se dele constasse a "queda" para a dança, seria mais um atributo de entre os muitos que detém! Manuela Gama Vieira
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Luisa disse:
Ri-me muito, li duas vezes!!! O Tio do João Serra leu a história que ele escreveu sobre ele? Espero que sim!!!
Esta série das férias está muito boa, ainda há mais surpresas boas destas?Luisa

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João Ramos Franco disse:
A escola de “berço” incluía um Tio, que tinha uma agenda, da qual o João Serra descreve o conteúdo. Claro que o Twist e o nadar eram as aulas do programa que lhe era destinado mas o resto do conteúdo dessa agenda e as conversas com o Tio, eram a experiência da vida de um mais velho a ser-lhe transmitida.
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São Caixinha disse:
O João B. Serra continua a deliciar-nos e a divertir-nos com os seus magnificos contos...e que tio optimista nos deu a conhecer desta vez! Eu diria que aprender a dançar sem música está proporcional para aprender a nadar sem água...mas os dois invulgares métodos aplicados na mesma lição, não podem certamente ser prometedores de grandes resultados... a imaginação contudo é que é inegavelmente estimulada! Quem sabe não estaremos agora a usufruir dos resultados indirectos desses esforços! Que ternura de estória! Oxalá haja mais!
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Ana Carvalho disse:
Não sei se perdemos um dançarino mas, a ter de escolher entre o dançarino e o contador de histórias, escolhia o contador de histórias sem hesitações. È sempre com imenso prazer que leio tudo o que escreve, já há uns anos, desde os tempos da Gazeta. Fico à espera de mais... PP
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J.L.Reboleira Alexandre disse.
Ao ler esta deliciosa estória de João Serra, vieram-me à memória os dias em que na minha casa da aldeia do litoral, e à beira da estrada principal, assistíamos à peregrinação das pessoas das aldeias do interior para Salir e São Martinho, descendo as encostas de Barrantes para Tornada. Eram filas intermináveis de carroças e burros (mais tarde apareceram as éguas)com lotação esgotada (nos cestos, nas albardas) a caminho da praia aos Domingos de manhã e ao fim da tarde de regresso a casa. Nós, para quem nadar era algo de natural e obtínhamos o respeito dos mais velhos quando, com total inconsciência, atravessávamos a baia, dos faróis até à extremidade do cais sem serviço de apoio e com o risco de sermos engolidos pelas ondas provocadas por uma traineira. Teria 14 ou 15 anos quando o fiz acompanhado na aventura pelo Quim Telhada, e no final, estava tão exausto que ao tentar pôr-me na vertical, caí de imediato em cima das rochas. É que à chegada não havia, e não há areia.
E como bons, maus, miúdos que éramos lembro-me do desdém com que tratávamos o pessoal dos «cabeços» (era assim que apelidávamos as pessoas das aldeias do interior).
Assim se compreende melhor o desejo que João Serra tinha na altura de saber nadar, como condição, quase sine qua non, para ir para a Foz.
Mais velho voltei a fazer a mesma travessia. Hoje, até para a fazer de barco a remos, chegaria cansado.
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António disse:
Muito engraçada esta história, contada com grande economia de meios -palavras - mas com muita graça. O autor parece sempre pouco sentimental quando fala de si. Como já aqui perguntatam: há mais?António.
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Luis disse:
Muito giro. E o comentário da São é bem apanhado, realmente dançar sem música e nadar sem água não lembra ao diabo!O João Serra escreve muito bem , eu leio na Gazeta, e tem tido aqui no blog um estilo diferente e divertido . Parabéns .
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Mª João Gomes disse:
Se calhar os dotes dançarinos do João não serão tão maus como ele pinta, admito até pôr em causa a qualidade do professor, pois à data nem eram "avaliados"...

Não tive aulas de dança, não tenho ouvido, sou pé de chumbo e vejam só como eu “twisto” (bem como a Paulinha e a Maria Adelaide), apreciem o estilo e vejam o que o João perdeu por causa da fixação em querer saber nadar ...
Ocorreu no passado mês de Agosto, aí mesmo, esta actuação de “jovens” raparigas, sim raparigas, porque os “piquenos” ou tiveram aulas com o tio do João ou queriam ser o Michael Phelps: nem as mãos dos bolsos tiraram.
Neste bailarico toda a noite, até de madrugada, se "twistou". MJoãoGomes
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João Jales disse:
Tenho esperança que depois de escrever este texto, rever os videos e dar uma olhadela em Pulp Fiction (e na Uma Thurman...), o João Bonifácio Serra se entusiasme a fazer-nos uma demonstração de "Twist" num próximo encontro de ex-alunos.
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M. G. Vieira disse:
O pormenor da razão da escolha da "modalidade" a aprender.. é notável! Ainda dizem que os adolescentes não têm bom senso... A obediência ao Tio, não obstante a pequena diferença de idades, também é um aspecto a assinalar. O autor do texto "As aulas do meu Tio", até nos comentários é eloquente.
Relativamente às giríssimas "twisters" da fotografia, e os rapazes a olhar...sinceramente! Nem parecem os teenagers de há uns anos atrás... Saudações!
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POST SCRIPTUM



João B Serra respondeu:
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Antes que o JJ feche este post, para (já não é sem tempo!) dar lugar a outro, deixem-me tentar comentar os comentários. Antes disso: agradecê-los – não apenas pela simpatia com que foram elaborados, mas sobretudo pelo que acrescentaram à pequena evocação de um episódio de Verão de 1962 ou 1963. A riqueza e vivacidade deste blogue depende hoje tanto ou mais dos comentários, que dos textos que os estimulam. Só assim se explica que, em pouco tempo, tenham sido ultrapassados os 50000 visitantes (ergo a minha taça, parabéns JJ, longa vida ao “ero-ico” blogue!).
O meu Tio não foi previamente consultado sobre a veracidade da história que contei, mas confirmou-me por sms (sim, ele também está convertido a esta modalidade de comunicação simplificada), depois de a ler, todo o seu conteúdo. Dada a pequena diferença de idades entre nós, este Tio actuou como um irmão mais velho e eu poderia multiplicar as histórias divertidas que ambos vivemos nesses Verões longínquos da década de 60. O Reboleira Alexandre identificou bem a origem da divergência de prioridades. Pois acontecera que no ano anterior, exactamente num passeio de barco na baía de S. Martinho, sobreviera um acidente e eu apanhara um valente susto. Para os meus 13 anos, o essencial era saber nadar bem para enfrentar com confiança o mar da Foz e as correntes da Lagoa. Para os 19/20 anos do meu Tio, o twist era evidentemente mais apelativo. Como eu agora compreendo o seu entusiasmo com aquela dança, que o João Jales descreveu de forma tão sugestiva e que os nossos elegantes colegas cinquentões tão bem ilustram na fotografia da Maria João Gomes! Como calculam, não tenho pensado noutra coisa nestes últimos tempos. Não só por causa do convite generoso da Guidó, mas também porque, na sua ficha sobre o twist, JJ referiu Uma Thurman. Se a fasquia está aí, não duvidem que vale a pena procurar uma escola de treino de “travoltas”. A menos que o meu Tio ainda tenha vontade de me ajudar a refazer a história.
JB Serra
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COMENTÁRIOS AOS ARTIGOS SOBRE O DR. JOÃO VIEIRA PEREIRA
( escritos por João B. Serra e Mário Gonçalves)

José Carlos Abegão disse:
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Continuo a ler com muito interesse os comentários que têm sido publicados, que na sua maioria nos dizem algo sobre a história da nossa cidade ou sobre lembranças da infância dos bloguistas Caldenses. Hoje aprendi mais um pouco das Caldas, na vida desse médico, cidadão exemplar que foi o Dr. João V. Pereira.
Espero que continuem com o blogue, e os meus agradecimentos ao J.J. por continuar a enviar-me notícia dos artigos aí publicados, embora eu nunca tenha sido aluno do ERO.
Cumprimentos. J.Carlos Abegão.
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João Jales disse:
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Esta efeméride foi a forma ideal de introduzir a nossa série sobre Personalidades caldenses que se inicia no final de Setembro.
Não conhecia, confesso, a faceta de jornalista do Dr. Vieira Pereira pelo que li com especial interesse o excelente artigo do João. Fico, como todos , à espera que ele ponha à nossa disposição as tais notas da conversa de 1986. Conheci ou, como já aqui disse e repeti, tive o privilégio de conhecer o casal João e Ofélia Vieia Pereira e de, apesar de mais novo, ser amigo dos seus filhos.
Foi um prazer e uma honra ter aqui um artigo assinado pelo Dr. Mário Gonçalves, também ele um antigo aluno do Externato Ramalho Ortigão. Esperemos que não seja o único.
Um beijo para "as meninas" e um pensamento de grande saudade para o Toni e os seus Pais. João
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João Ramos Franco disse:
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João Serra, ao ler transportas-me no tempo, fazes reviver toda minha infância e a ligação de amizade à família Vieira Pereira. A emoção é grande e as palavras que poderia escrever fogem-me,tenho muitas saudades do Toni e dos seus Pais.
Um abraço forte para todos Vieira Pereira, estarão para sempre presentes em mim
João Ramos Franco
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Manuela Gama Vieira disse:
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Dos anos que vivi nas Caldas,guardo o "nome" de algumas personalidades; ficou-me gravado,precisamente pelo prestígio que as suas competências pessoais e profissionais lhes permitiram,com todo o MÉRITO, grangear.O Dr. Vieira Pereira foi sem dúvida, uma dessas personalidades.
Não sou caldense,mas trouxe sempre comigo um pouco de cada terra por onde passei.Por esse motivo,curvo-me com o maior respeito perante a memória de Dr. Vieira Pereira.
Curioso que recordo uma entrevista televisiva,conduzida não me lembro por quem,já o Dr.Vieira Pereira tinha uma respeitável idade,e fiquei fascinada com a sua personalidade.
Lembro-me perfeitamente das filhas Helena,Isabel e Manuela, minhas contemporâneas no ERO.
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JBSerra disse:
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Fui à sessão de homenagem efectuada na Câmara Municipal. O salão nobre estava repleto, o que diz bem da simpatia e carinho com que o Dr. João Vieira Pereira é recordado nas Caldas. Vários oradores lembraram a sua acção, em especial o seu colega Dr. Mário Gonçalves, que falou do médico que conheceu bem, no Montepio, na Misericórdia e no Centro Hospitalar das Caldas da Rainha.As palavras que ouvi evocaram também as singulares qualidades humanas do Dr. João Vieira Pereira. Nele de facto coincidiram, não apenas as capacidades intelectuais e até artísticas (comuns a outros médicos da sua geração), a curiosidade e o espírito científico que a Medicina instiga, mas sobretudo uma vocação médica entendida no sentido de uma dedicação integral ao combate contra o sofrimento e a doença.
O Dr. Vieira Pereira chegou à cidade das Caldas em 1938, exercendo actividade no Montepio. Trazia consigo já uma experiência de 4 anos como médico rural, em Alvorninha e Alfeizerão. Essa experiência moldou o seu comportamento ao longo da vida, cumprindo os valores que definiram o médico de aldeia exemplar: a disponibilidade 24 horas sobre 24 horas, a total confiabilidade, e, sobretudo, a compaixão (essa qualidade, essa atitude, tão difícil de definir, que é o resultado mais autêntico do humanismo). O médico rural não era visto, sobretudo não era desejavelmente encarado, como um profissional de saúde, ou apenas como um profissional de saúde, mas como alguém a quem se recorria em busca de conforto e de alívio.O Dr. Vieira Pereira foi um médico de aldeia na cidade grande. Continuou aliás a visitar doentes na zona rural deste concelho. Simplesmente deixou de andar num cavalo para passar a andar num 2 cavalos.J. Serra
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J. L. Reboleira Alexandre disse:
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Depois deste comentário de João Serra ao Sr Dr Vieira Pereira, como era conhecido lá em casa, pouco mais posso dizer.
Não sei se era da humidade do Chão da Parada, mas era raro o Inverno que eu não apanhasse uma gripe qualquer, ou até outras doenças bem mais graves.Apesar de não haver na altura telefone lá em casa, era certo e sabido que o Dr Vieira Pereira lá aparecia, dia de semana ou Domingo, de noite ou de dia, com o seu famoso 2CV vermelho, se a memória não me atraiçoa no que concerne a côr.Bastava a sua presença para o miúdo que eu era, ficar melhor e poder voltar a brincar e sujar-me na areia da rua, para desgosto de minha mãe.
Uma das grandes figuras do nosso concelho.
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Margarida Araújo disse:
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Gostei muito de ler o texto do JoãoBS e de relembrar as pesquisas que fiz no jornal "O Progresso".
Fica aqui, sobretudo, o reconhecimento das qualidades humanas do Dr. Vieira Pereira. Lembro-me muito bem dele no seu 2 cavalos de um lado para o outro. Margarida Araújo
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Laura Morgado disse:
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Ao ler a descrição feita pelo Bonifácio transportei-me até à minha juventude e à amizade que ligava a minha família ao Dr. Vieira Pereira.
Recordo um excelente profissional e um HOMEM de uma extraordinária humanidade. Sempre pronto a ajudar todos, mesmo os mais desfavorecidos, sem esperar nada em troca.Quando era requerida a sua presença nos domicílios, medicava os pacientes e fazia questão de permanecer pela noite fora, aguardando a evolução do seu quadro clínico.Faltam as palavras para descrever todo o perfil do Dr. João Vieira Pereira.
Apenas como curiosidade, recordo que, como o nome do meu pai é Clemente, o Dr. Vieira Pereira sempre que me encontrava dizia “olá Clementina”, o que no meu entender era um miminho que ele me dava.
Beijinhos para as manas Vieiras Pereiras que partilharam comigo o ERO, mas um especial para a Isabel que foi da minha turma. Laura
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Júlia Ribeiro disse:
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DR VIEIRA PEREIRA - GRANDE HOMEM,GRANDE MÉDICO
Há dias em que me sinto bem e o dia da homenagem ao Grande Homem e Médico que foi o Dr. Vieira Pereira foi um deles.
Desde os meus 10 anos, quando entrei no ERO, que comecei a ouvir falar nesse Grande Senhor. Nunca tive muito contacto com ele mas, ao longo dos anos, fui nutrindo uma certa afinidade e empatia; ao ouvir as palavras que lhe foram dirigidas, compreendi e fiquei a conhecer realmente o Dr.Vieira Pereira. O doente não necessita apenas de um médico meramente prescritor de medicamentos, mas também daquela palavra amiga, da disponibilidade e compreensão que, muitas vezes, são tão importantes como o medicamento. E por saber e praticar isso, ele era amado por todos.
Aqui uma palavra de agradecimento para a D. Ofélia, sua esposa, que de certeza, também contribuiu com o seu apoio para o Homem e o Médico que ele foi.
Quando entrei na sala de Rx e vi o novo aparelho disse para a Teresa :
-Tanto que o teu pai fez, e com tão pouco, comparando com as novas tecnologias de que dispomos agora!
Por coincidência frequentei o ERO numa altura em que todas as manas V. Pereiras também lá andavam e assim tive contacto com todas, embora de maneira diferente, pois as idades variavam. Felizmente fui-me cruzando, ao longo dos tempos com elas, mais com a Manela e, ultimamente, com a Isabel. Foi com imensa alegria que as reencontrei todas num dia que lhes era tão especial. Para mim também foi um dia muito especial....Nunca o esquecerei! Às Manas Vieira Pereiras e Família um MUITO OBRIGADO.
Júlia R
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João Vieira Pereira, médico e jornalista

por João Bonifácio Serra

(Caricatura da autoria de Vasco Trancoso)


No dia 2 de Setembro cumprem-se 100 anos sobre o nascimento do Dr. João Vieira Pereira. Natural de Amieira do Tejo (concelho de Nisa), foi nas Caldas, onde residiu, que exerceu a actividade de médico, até ao fim da sua vida. Casou, em 1935, com Maria Ofélia Aguiar de Araújo, oriunda de uma família de Alvorninha. O casal teve 6 filhos (António, Maria Luisa, Maria Teresa, Maria Isabel, Maria Helena e Maria Manuela), todos bem conhecidos de várias gerações de antigos alunos do Externato Ramalho Ortigão.


A figura de João Vieira Pereira vai ser homenageada na Câmara Municipal e no Montepio, com a presença do cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, também ele nascido em Alvorninha. Certamente nessas cerimónias de evocação destaque especial será dado à acção exercida durante mais de meio século pelo médico. Menção será justamente feita ao papel pioneiro que desempenhou na introdução de meios complementares de diagnóstico, nomeadamente a radiologia, no Montepio caldense, em 1942.

Gostaria de aproveitar esta ocasião para referir uma faceta quase desconhecida do Dr. João Vieira Pereira, a de jornalista. Foi director do jornal O Progresso, um semanário que se publicou aos Domingos, entre 18 de Agosto de 1946 e 3 de Agosto de 1947. Como se pode ver na imagem da primeira página do primeiro número, a equipa de colaboradores do jornal incluía ainda Acácio de Sotto-Mayor, Felix da Cruz, Maia de Faria, António Moreira da Câmara, Dario Preto Ramos, Eurico Bonifácio da Silva (o meu pai), Marques da Silva, J. Vieira Lino, Justino Moreira, Leonel Sotto-Mayor e Victor Coelho.




No seu primeiro editorial, João Vieira Pereira indica os propósitos do periódico: reagir contra a decadência que se encontra a posição das Caldas e região e contribuir para a elevação do nível cultural da população. “Não se vá pensar” – escrevia – “que o nosso papel crítico vai incidir num derrotismo por sistema, e sabemos bem que compete também à crítica louvar e aplaudir. O que pretendemos e o que ambicionamos. o título do nosso jornal o diz na simplicidade de uma só palavra” [Progresso].




O Progresso pretendia preencher uma lacuna, pois nas Caldas sempre existira, desde 1884, um jornal que dava corpo às aspirações locais. Nas suas edições, o novo semanário apresente um formato padrão: 8 páginas, 3 das quais preenchidas com notícias de Óbidos, Bombarral e Peniche, 1 ou 2 de publicidade e as restantes de noticiário caldense e textos de opinião assinados. Alguns desses textos são assinados exactamente pelo director.


Vejamos algumas das preocupações enunciadas pelo Dr. Vieira Pereira nos seus editoriais. Uma delas prende-se com a pobreza de inúmeras famílias que vivem na área urbana e que não terão possibilidades de conservar os seus casebres quando for aprovado – o que se espera para breve – o plano de urbanização encomendado pela Câmara. Para fazer face a essa situação, o director de O Progresso propõe a construção de um bairro social (o que, como se sabe, veio a acontecer).


Nos seus escritos, defende também o lançamento de campanhas contra certos males sociais, como o alcoolismo, ou pela divulgação de conhecimentos de puericultura junto das mães, ou a favor do uso generalizado do calçado e advoga o combate sem tréguas à ilegitimidade de filhos. Mostra-se ainda um defensor convicto da prática desportiva como instrumento de uma vida saudável, valorizando a educação física na escolas.


Na vida do semanário e na do seu director, um acontecimento mereceu um grande relevo: a inauguração da clínica do Montepio, um novo e moderno edifício na Rua Heróis da Grande Guerra, no dia 2 de Março de 1947. O jornal relata-o na sua edição de Domingo seguinte (9 de Março). João Vieira Pereira deixou nesse dia a direcção clínica do Montepio, sendo substituído pelo Dr. Ernesto Moreira.
































Usou nesse dia da palavra para contar a história da transformação de uma salão de festas numa casa de saúde e agradecer a todos os que se tinham empenhado nessa transformação. Como esse discurso é também um documento histórico, aqui o transcrevo parcialmente:


“Como nasceu esta obra?


Não ainda há muitos anos, o Montepio abria as suas portas à hora da consulta dos sócios e recebia à noite os “habitués” do bufete e do bilhar. A parte recreativa desempenhava ainda uma função.
Depois começou o Montepio a facultar as suas salas para consultas de especialidades, e o movimento dos doentes justificava já então a porta aberta durante várias horas!
Com o serviço de Raios X e cirurgia em 1942, o crescente movimento dos doentes transformou o Montepio num centro clínico que começou a experimentar as deficiências de instalação e daí a ideia de uma obra capaz, for a das improvisações e adpatações, pois o Montepio passou a ser casa de portas sempre abertas.
Como foi isso possível?
Até milagre parece! Mas possível foi. Sei que o Montepio é pobre e que supriu os fundos necessários à custa de uma força de que só é capaz a vontade nascida de uma fé forte, alimentada por uma esperança que o optimismo e o entusiasmo nunca deixam esmorecer, e justificada por um sentimento em que o desinteresse, o espírito de sacrifício e a dedicação bem sentida sintetizam a força animadora desta realização”.


O Dr. Vieira Pereira considerava que as Caldas bem se podiam orgulhar dessa nova instituição de saúde e assistência, de que foi seguramente um dos pais fundadores. Colaborou na sua concepção e planeamento, no equipamento das instalações e provavelmente no seu financiamento, conhecida a sua generosidade e o seu proverbial desprendimento.


Observação final:
Entrevistei longamente em sua casa o Dr. João Vieira Pereira, em 1986. Guardo notas dessa entrevista com o homem que muito estimei e admirei e que assistiu a minha mãe no decurso de uma complicada gestação e do parto que me trouxe à vida. Oportunamente colocá-las-ei à disposição dos leitores deste blogue.


J. B. Serra
31 de Agosto de 2008
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C O M E N T Á R I O S
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farofia disse...
Se este blog fosse um livro, eu marcava esta página com uma dobra no cantinho, para não a perder de vista.

EU CONFESSO (comentário do Tó Zé Hipólito a ANNA KARENINA)

António José Hipólito


Eu confesso que não tencionava fazer comentários, pois sempre fui pouco dado a escrita, mas o JJ insistiu, principalmente agora por ser referido no “Anna Karenina“, e também num episódio com uns pastéis de nata quentinhos (recordo-me das mesmas corridas no intervalo grande para a Floresta, onde se jogava dois jogos de matrecos e voltava-se ladeira acima para não chegar tarde as aulas. Só de pensar nisto já estou cansado).

Eu confesso que a estória narrada pelo JJ se passou conforme a narrativa, mas eu não era tão míope como ele e portanto distinguia perfeitamente, a 50 metros, se uma rapariga era loura ou morena, se bem que fisicamente até existissem semelhanças. No entanto depois de um dia de espera desesperada para encontrar a Lucha e ele já com o lábio inferior a parecer-se com beicinho, resolvi picá-lo, para ver se lhe passava a telha. E não é que resultou, se bem que não me lembro se houve continuidade de relações com a dita Teresa, nem tinha que saber.
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Eu confesso que essa ida as piscinas de S. Pedro de Moel me agradou bastante, tendo lá voltado várias vezes em verões posteriores, quando já tinha um glorioso 2CV, sempre com mais gente do que a lotação permitia ( hoje seria impossível).

Eu confesso que as minhas preferências literárias abarcavam outros “clássicos”, como o Jules Verne, Conan Doyle, toda a colecção Emílio Salgari, Marabout e até, depois de ter passado o então 5º ano e por já não estar sujeito a obrigatoriedade, os Lusiadas, que me deram um gozo nunca experimentado nos anos de tortura do Português. Também os nossos autores Camilo, Eça, Alex. Herculano, Ant. Sérgio, Júlio Dinis, enfim o que havia lá em casa. De notar que li o livro “Despertar dos Mágicos”, que com 15 anos achei uma maravilha. Até me recordo da banda desenhada do Hugo Pratt, onde o autor refere os conflitos existentes nos Balcãs, Turquia, Grécia e zonas adjacentes e que ainda hoje não tiveram solução, passado um século.

Eu confesso a minha total concordância com o Xico Cera nas suas saudades das Caldas doutras eras, pois toda a Vida que, principalmente no verão, aqui existia, e se centrava na zona histórica da cidade, Hospital Termal, Parque (onde se realizaram as melhores feiras da fruta e da cerâmica), Casino, Lisbonense e Praça da Fruta, desapareceu. É que hoje as Caldas morreram, são um mero jardim para construtores civis plantarem dormitórios. Paz a sua alma.

Eu confesso mais uma vez, e não é por ter sido aluno do ERO e este ser do patriarcado, pois nunca me confessei e nem a 1ª comunhão fiz (façanha rara!) , sendo a única actividade + ou – religiosa por mim praticada a ida ao santo sacrifício da saída da missa de domingo, antes da 1 hora e por razões óbvias: Não tenho realmente veia para escrita, definitivamente sou mais como aquele brinquedo espanhol que dizia “habla comigo”.

Peço desculpa ao senhor francês que começava todas as frases do seu panfleto com “J´accuse“, mas não resisti a copiar a ideia.

A. H.


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COMENTÁRIOS
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JJ disse:
O Hipólito não é uma testemunha mas sim um cúmplice activo de tudo quanto vivemos nesses anos, daí o facto de tentar trazer as suas memórias para o Blog. Essa da "veia", que eu nem sei o que é, não serve de desculpa, esperamos mais confissões.
Quanto à questão da Teresa, que o Tó Zé, a Luisa e a Isabel Caixinha levantaram, terão a resposta em devido tempo...
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Isabel Caixinha disse:
Li o artigo do Hipólito que me deixou intrigada. Esta "falta de vista" comum aos cavalheiros da época, intrigou-me. Dei comigo a analisar, com lupa, os meus conhecidos ou possiveis "amores" de então, tentando reconhecer estes sintomas na distância que nos separaria...Huummm...Curioso, como nunca me ocorreu antes...
Gostei muito da forma directa como o Tó Zé escreve também. E mais livros...desta vez "O Despertar dos Mágicos". Bom livro. O mais curioso é que eu lia ao mesmo tempo "As Aventuras dos Cinco", com o mesmo interesse!
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Manuela Gama Vieira disse:
O(s) matar(es) de saudades às Caldas...levam-me a concordar em absoluto com o Hipólito: a beleza do centro das Caldas desapareceu! Que tristeza me deu olhar a degradação da "praça da fruta" e zona circundante. Mudam-se os tempos... infelizmente,nem sempre para melhor! É o caso!!!
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António disse :
Caros colegas:
As Caldas têm--se realmente apagado e desaparecido debaixo das horrorosas construções com que destruíram a avenida da estação, a antiga quinta dos canários (é um atentado), as novas construções na Foz, onde era a Pensão Portugal (lembram-se?), parecem ser um caso de polícia, aquilo não pode ser legal. Ninguém faz nada, ninguém diz nada?
Gostei da história do Jales, mesmo sem a confirmação do Hipólito dava para ver que eram memórias verdadeiras. O Jales já sabia que era escritor, o Hipólito foi uma surpresa.
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Fátima Vieira disse:
Sou visita habitual do Blog.
Vivo com encanto, alegria e algum saudosimo cada história cada cantinho, as canções ,as nossas memórias.
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João respondeu:
Fáfá:
Fico satisfeito com o teu "aparecimento" ... Vai-te mantendo em contacto. Demasiados leitores mantém uma atitude passiva, gostaria de ver mais a comentar o que aqui se publica, como tu fizeste.
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J.Carlos Abegão.
Gostei do artigo do Tó-Zé Hipólito, sobre as nossas Caldas, está lá toda a verdade.
Cumprimentos. JCAbegão

COMENTÁRIOS / CONTRAPONTO

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João Serra disse:
Verão de 1969
(Contraponto ao Verão de João Jales)
A 27 de Abril de 1969, Alberto Martins, Presidente da Associação Académica de Coimbra interpelou o Presidente Américo Tomás no anfiteatro das Matemáticas. As consequências deste gesto projectaram-se até ao final desse ano lectivo. Os movimentos estudantis estavam de novo no centro da vida política, contestando o regime não democrático e suscitando a repressão das autoridades. Marcelo Caetano sucedera a Salazar e prometera alguma abertura política. Os estudantes punham à prova tais intenções.
Em Agosto de 1969, com 20 anos, concluido o 2º ano do Curso de História na Faculdade de Letras de Lisboa, as inquietações que partilhava com os meus amigos mais próximos giravam em torno de três questões: a Guerra, a União Soviética e o comunismo em geral, as eleições de Outubro. Estavamos ou não dispostos a cumprir o serviço militar e consequentemente a combater em África contra os movimentos africanos? – eram os termos do debate sobre a primeira questão. A segunda tinha que ver com a eclosão do conflito sino-soviético, com a invasão da Checoslováquia pelas tropas russas, com os novos temas lançados pela extrema esquerda francesa em Maio do ano anterior. O debate era aqui muito mais complexo e menos tolerante. As posições antagónicas originavam frequentes rupturas pessoais e políticas. A terceira questão, que também era atravessada pelas clivagens ideológicas presentes no debate da segunda, procurava resposta para a seguinte pergunta: devemos, apesar de sabermos que as eleições são viciadas, aproveitar a oportunidade para divulgar os nossos pontos de vista, ou, ao contrário, é mais eficaz denunciar a fraude, recusando esse jogo desleal?
Tentando vencer incertezas e dúvidas, lá fui optando: permanecer em Portugal, manter o não alinhamento com facções políticas pró-soviéticas ou pró-chinesas, colaborar na campanha eleitoral da CDE, no distrito de Leiria.
De modo que, em Setembro e Outubro (as eleições realizaram-se a 21 deste mês) estive presente, primeiro a convite e ao lado de Alberto Costa, mais tarde com Jorge Silvestre, em diversas reuniões para elaborar o programa eleitoral e sessões de esclarecimento. Alberto Costa, que eu conhecia desde os 17 anos, era natural de Alcobaça, tal como Jorge Silvestre. Em Lisboa, na Faculdade de Direito, que frequentei durante o primeiro ano, cimentara-se entre nós uma boa amizade. A Polícia Política deu uma informação negativa à candidatura do Alberto, pelo que à ultima hora teve de ser substituido nas listas do distrito. Jorge Silvestre frequentava o Instituto Superior de Agronomia, tal como José António Ribeiro Lopes, que nos apresentou.
Um dos tópicos vincados nas memórias do João Jales é a música. Também aqui, os 5 anos de diferença de idades são significativos, embora raramente sejam objecto de análise. Isso deve-se ao facto de ao longo destes últimos quarenta anos termos contruído um património comum de referências. Mas de facto, julgo que a segunda metade da década de 60 trouxe uma forte mudança: Paris e a França, com os seus “maitres à penser” e os seus autores/cantores de temas políticos e de crítica social foram substituídos por Londres e a Inglaterra (e a seguir os Estados Unidos) e a cultura hippie, onde a militância política era claramente secundarizada. Mário Vargas Llosa neste seu romance recentemente editado em Portugal (Travessuras da Menina Má) escreve: “Na segunda metade dos anos 60, Londres destronou Paris como cidade das modas que, partindo da Europa, se espalhavam pelo mundo. A música substituiu os livros e as ideias como centro de atracção dos jovens, sobretudo a partir dos Beatles, mas também de Cliff Richard, dos Shadows, dos Rolling Stones com Mick Jagger e outros grupos e cantores ingleses, e dos hippies e da revolução psicadélica dos flower children”. Estou basicamente de acordo com esta observação. Curiosamente, eu próprio tomei partido, em 1963 e 1964, no Diário de Lisboa e na Gazeta das Caldas, ao lado dos que julgavam possível impedir essa mudança cultural. Estava evidentemente enganado. Essa mudança era muito mais profunda do que eu na altura supunha. Podia voltar a citar Vargas Llosa, mas este comentário já vai longo e temo que a citação pudesse ser mal interpretada.
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JJ disse:
Nada mais gratificante para quem escreve do que ver (ler,ouvir) a reacção de quem lê.
Em relação ao comentário do João Serra só acrescentaria que a substituição da música francesa de intervenção pelo Rock (já não o Rock’n’Roll) da segunda metade da década de 60 corresponde aos anseios dos jovens consumidores, não a uma mera questão de modas. E discordo da militância política ser, nesta música, secundarizada: a rejeição da guerra do Vietname, a defesa dos direitos das mulheres, dos negros e dos jovens, a recusa radical de um modelo económico e social de desenvolvimento são muito mais subversivos e revolucionários do que a defesa dos valores de uma esquerda presa ao esgotado modelo soviético como era feita pelos engagés francófonos. Woodie Guthrie, Pete Seeger, Bob Dylan, Phil Ochs, Country Joe McDonald, J Airplane, MC5 , Tom Paxton, Joan Baez, Marvin Gaye, Jimi Hendrix, são bons exemplos, mas há muitos mais. Os próprios Beatles foram declarados persona non grata por Nixon, que tentou várias vezes expular Lennon dos USA. Mas essa conversa pode ficar para outra vez, já que este é apenas um pequeno pormenor num comentário que muito me satisfez suscitar.
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Manuela Gama Vieira disse:
Gostei muito do "Contraponto" escrito por João Serra.
Recordo o ano de 1969,o da crise académica de Coimbra, com particular acuidade. Daí em diante, nunca mais nada foi igual.
Costumo dizer que me orgulho de pertencer a uma geração riquíssima.
A geração que teve o atrevimento de se ATREVER!!!
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João Ramos Franco disse:
Caro João Jales
O 2º comentário do Serra sobre 1969 é ele (estudante) a viver a “Primavera Caetanista”, com toda carga ideológica da sua geração.
Que poderei eu acrescentar, mais velho, que em1961 tive conhecimento da prisão de estudantes na Universidade de Lisboa, sendo alguns deles amigos e ex-alunos do ERO. A minha opinião sobre a música e a canção está mais perto da dele, apesar de modo nenhum desvalorizar a tua. Penso que cada geração tem determinados valores que se apoiam em variados modos expressão e um deles é precisamente esse.
Um abraço
João Ramos Franco
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Luís António disse:
Não sei se era o que pretendias ao referir a Checoslováquia em 1968, mas é óbvio que esse foi um ponto a partir do qual não era mais possível defender o lado de lá… Mas só soubemos isso depois, lembro-me de discutir isso, mas já em Lisboa, em 73, 74,75… e , se bem me lembro, também não chegaste a passar pelo PC, pois não? Mas a geração do Bonifácio Serra sim, quase todos os que fizeram política.
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Isabel Knaff disse:
Li LOGO a Ana Karenina que adorei...Tchhhhh Meu Deus, o que ali vai...nem sei por onde começar... são os tão familiares autores e os inúmeros livros que eu devorava, que saudades do entusiasmo e sede com que eu os lia , a música que entoava o que nos ia na alma , a Foz daquele tempo com, incrivelmente, todos os promenores que lhe estarão sempre associados (até as uvas!). O começo de inocentes namoros de adolescentes...o imitar dos olhares do Omar Shariff (escolha perfeita!)...tudo, mesmo tudo!
A honestidade com que o fazes é adorável.Como descreves e trazes toda a calma e ao mesmo tempo todo o movimento próprio da Foz nesta descricão é genial...até se sente a maresia.
E esta Teresa de olhos negros ...tem mais episódios..??? Junto-me ao "grupo" aguardando por mais encontros.
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Isabel Silva disse:
Atrasadíssima! É como eu estou no que se refere a leituras de Verão.
Mas hoje voltei, vitoriosa de uma guerra com a Cabovisão que me impediu de manter a "escrita em dia" durante alguns dias.
Comecei pela Anna Karenina e devo dizer-te João, que por uns minutos me embrenhei neste magnífico conto. Para além do prazer que a tua escrita desperta, foi óptimo recordar os dias de Verão na Foz do Arelho, naquela inolvidável época: as idas às rochas, os banhos comandados pelo Calheiros Viegas, as idas ao colo para dentro de água... Mas o que me encantou mesmo foi a forma como relembras os amores da adolescência, fase da vida tão "gira" e bela, mas bem mais míope do que tu…
Um beijo. Belão
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São Caixinha disse:
(....) Muito aconteceu no blog durante estas 4 semanas e entretanto já me parece despropositado enviar comentários! Creio até que pouco teria a acrescentar ao muito que já foi dito...contudo não posso deixar de dizer que a tua ANNA KARENINA me deixou impressionada! Na minha opinião a melhor das tuas estórias até agora... límpida doce e completa, a fartar-nos os sentidos como compete à verdadeira arte!
(....) Ohhh...quase que me esquecia! Não me lembro mesmo de nenhuma Lucha...ou era Tucha? Quem seria essa menina ?!...
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Paulinha Pardal dsse:
Adorei a tua história, devias pensar em começar a escrever um livro, essa tua cabeça sempre foi muito boa a inventar...
Eu estou cada vez mais loira, será dos gargarejos no Hospital Termal? Não, isso é para a sinusite …ai meu deus que mal me estão a fazer os cabelos!!!! Queixas-te da tua miopia? Vê lá tu que fui comprar uns óculos novos, dos de ver ao pé, porque com os outros via muito mal tinha que aumentar a graduação, principalmente dum olho, cheguei à loja mostraram-me vários óculos mais graduados dos que eu trazia e eu pus e tirei ,pus e tirei, e digo:
-Ah realmente com estes mais graduados vejo muito melhor, os velhos, apesar da diferença não ser muita, via um pouco mal, principalmente com o olho direito.
Diz a empregada:
- A senhora desculpe mas por acaso já reparou que não tem uma lente?
Ah! Risos e mais risos...olha que isto foi verdade, não estou a inventar, é só para veres o estado em que está esta tua amiga, calhando esqueço-me de ir ao próximo almoço!
Bjs PP
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Manuela Gama Vieira disse:
João,parabéns porque é belo:
-Não teres esquecido as "belíssimas"férias que descreves
-Os nossos Pais falavam de "coisas"de que, naquele tempo,nada pareciam dizer-nos...mas afinal de alguma "coisa"nos serviu
-O enlevo com que descreves o "romantismo" que envolveu o teu conto.
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Margarida Araújo disse:
Parece que existe aqui um escritor merecedor de ser publicado: tu.
Bom conto a relembrar um amor de verão. Acompanhado com uma música que há tanto tempo não ouvia. Não foi música de um filme????
Bem, da fotografia que enviei posso dizer que são:
Paula Crespo
Ana Buceta
Eu (Margarida/Guidó)
Natércia Carvalho (Nami)
Essa de irmos até às Berlengas, é boa. Foi assim para a Paula e Nami, por via das barbatanas, eu e a Ana fomos dar ao Baleal e já cansadas apanhámos o burro das 13h30m e chegámos pelas 19h às Caldas da Rainha. No outro dia fomos esperar as duas amigas ao Cabo Avelar Pessoa, em Peniche (barco que fez e ainda faz as ligações marítimas à ilha).
Faço dois reparos: a minha ousadia citadina em relação ao recato das caldenses e as toucas, com farripas, acolchoadas ou em forma de bicho, do melhor.
Boas férias a todos (ah! a fotógrafa foi a minha mãe (Mila Marques ex-aluna do Ramalho Ortigão). M.
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João Ramos Franco disse:
Os amores de um adolescente...
Uma historieta de Verão, mas muito bem contada. Consegues ao transportar-nos nos amores de um adolescente, (quem não os teve), fazer-nos passar por uma Foz do Arelho, (que recordo tal tu a contas), colocar-nos perante a literatura e os seus escritores (a influencia de aquilo que lemos tem em nós) e levar-nos até preferências musicais.
As conversas dos mais velhos (que citas), são uma fonte onde sem nos apercebermos, bebemos os valores que ainda hoje fazem parte de nós.
- Estes amores da adolescência, doíam muito e eram difíceis de passar… Mas naturalmente encontraste remédio, em S. Pedro de Muel…
João R F
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Jorge disse:
continuamos a ler isto em folhetins, para quando a versão completa? Já pedi ( e não fui só eu!!!) várias vezes que escrevas um romance ou umas memórias sobre estes tempos… desta vez gostei mais do texto e da literatura que da música! jorge
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João B Serra disse:
Esta história funciona como uma espécie de tratado sobre a visão. O autor inicia-nos nos segredos da miopia, para depois nos mostrar as armas mais subtis e eficientes que os portadores da dita desenvolvem. O que não descortinam ao longe observam bem de perto, do que confundem tiram imediatamente partido, o que não podem visualizar em pormenor percebem na globalidade. Enfim, o que não vêem ou julgam não ver, tocam, ouvem e por vezes imaginam.
JJ é um grande contador de histórias. Já o sabíamos. Confirmamo-lo agora nesta bela história de sedução que acrescenta a este summerblog novas geografias (a Foz do Arelho das praias intermitentes, S. Pedro de Muel, Mondim das terras de Basto) e novas cronologias (depois de 1957 e 1973, o ano viragem de 1969).
J. Serra
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José Luis Reboleira Alexandre disse:
Ler estas férias do João é um pouco recordar as de muitos de nós da mesma altura com algumas «nuances», claro. A DS (continuo a usar o feminino desde esse ano de 69) no meu caso era o carro do pai da Martine que frequentou São Martinho em Agosto desse ano. O meu gosto pela bela lingua francesa vem talvez dessa altura. Hoje é a que mais se fala cá em casa.
A música já nessa altura era muito, mas muito mesmo, através das palavras do, hoje meu conterrâneo Montrealense, Leonard Cohen. Mesmo os escritores do realismo russo eram os mesmos.
O Give Peace a Chance foi para mim uma descoberta recente, por isso junto um link de um jornal local que irá acrescentar, estou certo, à cultura musical do JJ.
http://www.canoe.com/divertissement/musique/nouvelles/2008/07/11/6128166-jdm.html
O Ralph, jovem amigo que acompanhou Gail na aventura, não entra nesta história, e é pena, pois a versão dele é bem diferente.
4 anos mais tarde, foi do outro lado da baia na duna de Salir, que, ainda em francês, com salpiques da lingua de Camões, fiz «o tal encontro» que ainda hoje perdura.
Um abraço grande para o JJ pelo magnifico trabalho que é a manutenção do blog, e para todos os que aparecem por aqui. J. L. Reboleira Alexandre
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Laura Morgado disse:
João os meus parabéns!!!!Consegues descrever com toda a clareza o ambiente vivido na Foz naquela época.Nada falha, desde a música aos comentários das notícias.Reportas-te aos teus 15 anos, mas com os de 20 o cenário era igual.Como já não é novidade para ti, gosto muito da tua escrita! Laura
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Luisa disse:
(.....) Sabes que é que eu queria saber mesmo MESMO???? Saber o que é que aconteceu depois com a Teresa em São Pedro!!! Vou perguntar ao Tózé, ele deve saber.... Já disse vezes suficientes que gosto muito destes teu diários. L
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Fernando Santos disse:
Penso que a estória seja verídica, mas quem sou eu para acrescentar qualquer comentário além do que já disseram João Ramos Franco, João B. Serra ou Reboleira Alexandre?
Apenas me surpreende o facto do Dr. Jales oferecer ao filho de 15 anos, clássicos de Tolstoi, Dostoievsky e Gorky. Os dois primeiros encontrava-os nas bibliotecas públicas que eu frequentava, agora a Mãe, de Gorky? Só o devo ter lido em 63 ou 64 e foi-me emprestado por um amigo, no maior secretismo.
Fernando Santos
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JJ disse:
1-Esqueci-me de agradecer à Margarida Araújo e à Anabela Miguel as fotografias incluídas. Não as legendei na esperança de que alguma das retratadas o faça aqui nos comentários.
2-Agradeço todos os comentários, contactos e elogios. Aproveito para responder definitivamente a uma pergunta insistente: não há qualquer outro nome para a Lucha, esse é mesmo o nome do personagem, não tem outro.
3-Vou confirmar, logo que possível, o ano de edição do meu Gorki mas estou convicto de que é seguramente anterior a 1969. O Fernando escreveu um segundo comentário sobre este assunto, que julgo muito interessante, e que podem ler a seguir.
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Fernano Santos respondeu:
Olá J.J.
Para mim não está em causa o ano da edição de " A Mãe" mas sim o facto de na época ser um livro proibido pela PIDE.
No início dos anos 60, eu e outro colega criámos uma pequena biblioteca na empresa onde trabalhámos, e isso foi suficiente para ser vigiado por informadores daquela organização. Posso até dizer-lhe que possuía alguns livros considerados perigosos, e com receio de ser apanhado, dei uma volta pelo campo e deitei-os fora.Mais tarde arrependi-me de ter cometido tal acto de estupidez, mas o mal já estava feito.
Alguns livros de Jorge Amado, Ferreira de Castro, Aquilino, Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes e muitos outros, como sabe, eram apreendidos logo à saída das editoras. Lembro-me, que até a "Ciociara" de Morávia, me foi emprestado sub-repticiamente pela funcionária da biblioteca que eu frequentava, porque não tinha ordem de o colocar nas estantes.
Um abraço.
Fernando Santos.