ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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MILA MARQUES : UMA ÉPOCA E TRÊS PROFESSORES






MARIA EMÍLIA FRANCO HENRIQUES
Uma antiga aluna do Colégio Ramalho Ortigão

Na minha terra e para a minha geração, sou a Mila Marques, filha do José Marques Henriques. para a da minha filha, sou a mãe da Guidó e para a das minhas netas, sou a avó da Sara e Mariana Gouveia.

Nasci nas Caldas da Rainha no Ano de 1930, na Avenida da Independência Nacional, nº 29.Nesta época era habitual as crianças nascerem em casa dos seus pais e não nas Maternidades, sendo o parto assistido por uma parteira.

Estudei sempre na minha terra até vir para Lisboa para fazer o Curso Geral de Enfermagem.
Da 1ª à 4ª classe estive no ensino oficial, tendo tido sempre a mesma professora -Dona Antónia - de quem tenho a melhor recordação. Julgo que o apelido era Almendra.
Depois veio o Colégio Lusitano e o Colégio Ramalho Ortigão e é deste último que venho dar o meu testemunho, a pedido do João Jales, que em boa hora quer reviver o passado.


COLÉGIO RAMALHO ORTIGÃO

Nasceu da vontade e do empenhamento de alguns pais que queriam que os filhos continuassem a estudar mas sem partirem tão novos para outras cidades.
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E, talvez por ter nascido bem, era um colégio excelente, quer pelo ambiente, quer pelo ensino que nele se praticava. Pelo menos é esta a avaliação que eu faço á distância e passados tantos anos.

O ter sido criado sem separação de sexos permitiu uma convivência saudável entre adolescentes. Poderemos considerar que isto era avançado para a época dado que no ensino oficial havia Liceus para raparigas e outros para rapazes.
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Foi berço de grandes amizades, que ainda hoje perduram, apesar de da vida ter separado muitos de nós. Recordo em especial os colegas do meu 7º ano -Ciências, Jeca Lopes, Mário Gonçalves e Jorge Sotto-Mayor.

Foi ainda berço de casamentos... Na minha época vi nascer os namoros da Bé Castro e do Zeca Mesquita, assim como da Ana Maria e do Mário Gonçalves.

Quero ressaltar ainda a preocupação que a Direcção do Colégio tinha na selecção de professores em relação à qualidade e sem olhar a credos políticos ou religiosos.
E como exemplo farei referência a 3 professores, que escolhi pela influência que tiveram na minha Vida.


PROFESSORES DO COLÉGIO RAMALHO ORTIGÃO

1. ANITA NASCIMENTO (29/02/1920)
Foi a minha professora de bordados, assim como deve ter sido de dezenas de raparigas caldenses. Tinha uma atitude maternal no modo como ensinava. Serena, perseverante, sorridente e cheia de paciência para que aprendêssemos bem a sua Arte. É assim que ainda hoje a vejo.


Foi um prazer aprender com ela o filet matemático e o ponto cruz, quase milimétrico e com avesso. Mas com ela aprendi também como é importante procuramos a perfeição em tudo o que fazemos. Assim, mais tarde, quando fiz o meu curso de enfermagem, era conhecida pela Pontinhos ou Pontos...




2. LUÍS ROSA BRUNO (Redondo, 1916 -?)
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Licenciado em matemáticas pela Universidade de Coimbra , foi meu professor de química e era notável o modo como ensinava.
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Alentejano, nascido no Redondo, possuía uma figura carismática e uma personalidade multifacetada, que tinha algo de quixotesco!


Bastante magro e com grandes olhos negros, fazia-me lembrar o Manolete, toureiro espanhol muito em voga nessa época. Fumava muito e tinha um jeito peculiar de agarrar no cigarro. Revejo-o com as mãos muito esguias, queimadas pelo tabaco e levantadas de um modo como se estivesse a declamar. Ele assim nas suas aulas: um Professor excelente, que gostava de ensinar. Relembro, que para além do trabalho no Colégio, tinha alunos a quem dava explicações.


Houve um período da sua vida que trabalhou na Secla, possivelmente na área de laboratório.


Adorava o seu Alentejo, mas as Caldas foram também um outro amor. Basta ler a poesia por ele escrita sobre a Praça da Fruta e que a Isabel Castanheira (Loja 107) divulgou num dia de Poesia!


Para além de ser para mim uma referência quanto ao seu método de ensino, a ele devo também o tanto ter gostado de Química, a ponto de ter pensado seguir esse rumo. Devo-lhe também o ter aprendido a escrever à máquina. E perguntarão porquê? Passo a explicar: ele pretendia editar um livro sobre Química e eu ofereci-me para o dactilografar. E assim, por tentativa e erro, lá fui escrevendo numa máquina que o meu pai me tinha oferecido – uma “Woodstock” – e que ainda hoje tenho como uma relíquia do passado! Lembro-me que era necessário 1 original e três cópias e que havia um lindo capítulo sobre os gases raros da atmosfera. Nunca soube se chegou a ser editado, como foram outros que podem ser consultados na Biblioteca Nacional (ver lista de publicações). Como eu gostaria de ter ficado com uma cópia desse meu primeiro trabalho.


Para terminar desejo fazer uma sugestão: uma rua das Caldas ter o seu nome, por aquilo que ele foi como Professor e Poeta e pela dedicação franca que tinha pela nossa terra.


Publicações


Acontecer poesia, Caldas da Rainha, 1957

A minha selecta – Fernão Lopes: útil aos estudantes do 4º e 5º anos liceais, Beja: [s.n.], 1955

O alumínio: conheça os metais. Beja: [s.n.], 1955

O lítio: conheça os metais, Beja: [s.n.], 1955

Poesia de Luís Rosa Bruno, texto policopiado / compil. Maria Alcina Rosa Bruno, [S.l.: s.n., 19--]

Sou d'além...: versos, S.l. : s.n.], 1945 (Montemor-o-Novo: -- Emp. Gráfica)

Tesoiro sem preço: a língua portuguesa, Lisboa: Editorial Ultramar, 1955

Um novo mundo nasceu, [S.l.: s.n., 1946] ([Estremoz: -- Tip. "Brados do Alentejo"]), colecção “Bocadinhos de física; 1”

Tríptico: a Santo Aleixo da restauração pelos seus heróis de 1641, 1644 e 1704, Beja: Minerva Comercial 1954


3. MÁRIO BRAGA (Coimbra, 1921)
Foi meu professor de Filosofia. Transmitiu-me o seu interesse por esta matéria e a paixão pela leitura. Passados tantos anos, foram talvez as suas aulas de que me fizeram entusiasmar a frequentar cursos organizados pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira. O próximo será sobre a “Filosofia Portuguesa no século XVIII”.



Vim a encontrá-lo mais tarde, dado que fez o curso de Administração Hospitalar e assim os nossos destinos voltaram a cruzar-se.


É autor de vasta obra literária de reconhecido mérito e gostaria que tivesse uma página na Internet, onde se dando conta de trabalhos passados e futuros. De momento, sei que decorre uma exposição biobliográfica no Museu do Neo-realismo em Vila Franca de Xira, que procurarei ver.



Dirigiu a revista de cultura Vértice entre 1946 e 1965.


Publicações


Nevoeiro, 1944

Caminhos sem Sol, 1948

Serranos, 1948

O Pedido, 1949

Platão e a Poética, 1950

Camilo e o Realismo, 1957

Mariana, 1957

Quatro Reis, 1957

Histórias da Vila, 1958

Vale de Cangens, 1958

O Cerco, 1959

O Livro das Sombras, 1960

Corpo Ausente, 1961

Viagem Incompleta, 1963

A Ponte sobre a Vida, 1965

Café Amargo, 1966

Antes do Dilúvio, 1967

Os Olhos e as Vozes, 1971

Entre Duas Tiranias: Uma Campanha Pouco Alegre em Prol da Democracia, 1977

O Intruso, 1980

Contos Escolhidos, 1983

As Rosas e a Pedra, 1995

Contos de Natal, 1995

Espólio Intacto, 1996

Momentos Doutrinais, 1997

As Ideias e a Vida

O Reino Circular
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Mila Marques
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COMENTÁRIOS
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O meu Pai continuou até ao fim dos seus dias a pesquisar, a escrever, a experimentar, a pensar...muito haverá a dizer, a contar, a perguntar, a partilhar...agradeço contacto da Vossa parte.
Parabéns pelo vosso blogue e muito obrigada pela ALEGRIA que me proporcionaram. Joana Bruno
P.S.a minha mãe Maria Alcina R. Bruno continua a procurar textos e outros do meu Pai, eu quero ajudar e conto convosco.
Muito Grata
Joana Bruno
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Foi com imenso prazer que li o que a Mila escreveu. Dos professores tive o prazer de conhecer o Dr. Rosa Bruno e a D. Anita que, apesar de não ser professora dos rapazes, é uma amiga que todos recordamos.
Apesar dos doze anos de idade que nos separam recordo-me dos colegas que cita e de si, o nome não me é estranho na memória, mas já fico grato pelo seu aparecimento neste espaço de são convívio. João Ramos Franco
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João Jales disse:
Foi com enorme prazer que vi a nossa colega Mila aceder ao meu convite para colaborar com as suas memórias nesta série sobre os professores.
As nossas meninas se encarregarão de falar um pouco mais da D. Anita, gostaria eu aqui de realçar a enorme influência pessoal que Rosa Bruno teve em todos os que foram seus alunos, todos o descrevem com um enorme entusiasmo e um brilho nos olhos (ou nas palavras). Há poucos professores assim.
Mário Braga, de cuja passagem pelo ERO só tive conhecimento há um ano, é uma figura relevante no panorama das letras portuguesas no séc. XX e o facto de ter sido professor no Colégio uma prova da qualidade do seu corpo docente.
A forma clara e vibrante como tudo isto é exposto torna a informação não só útil mas um prazer de ler. Obrigado, Mila, ficamos à espera de mais!
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Mário Gonçalves e Ana Maria disseram:

O depoimento da Mila Marques contém um precioso testemunho que traz à actualidade a recordação de uma época passada no ERO e que nós, os da sua geração, desejaríamos talvez menos distante. É escusado dizer que adorávamos a Mila, a suas qualidades de boa aluna e de excelente colega, ponderada, possuidora de uma capacidade de estima que nos contagiava e por vezes, serenava. As amizades que assim criou são profundas, perenes. Nós, cá em casa, é assim que a consideramos ainda mais por ter sido a nossa companheira de eleição no namoro que, de facto, viu nascer. Poderíamos até não estar longe, talvez ao lado, no momento em que foi tirada a fotografia que a identifica perante as juventudes que vieram depois.

São justas as referências elogiosas que faz aos fundadores do ERO que, um pouco contra a corrente, alcançaram juntar no mesmo Colégio, as raparigas do Lusitano e os rapazes do Caldense, com óbvias vantagens para elas e para eles, no aspecto pedagógico, está bem de ver.

Os três Professores que a Mila elegeu merecem bem o destaque que lhes foi concedido, amplamente confirmado pelas qualidades humanas e pedagógicas que justamente lhes foram atribuídas e pelos dados curriculares com que complementou os outros talentos literários que tão bem se revelam na poesia de Rosa Bruno e na vasta prosa do consagrado escritor Mário Braga.

Agradecemos à Mila por ter representado de forma tão admirável a geração dos primeiros alunos que frequentaram o ERO e que o recordam com compreensível saudade.

Muitos beijinhos para a Mila com aquela nossa Amizade.

Ana Maria e Mário
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Guidó disse:
Por aqui se compreende parte dos laços que me unem ao Colégio Ramalho Ortigão (outra parte deve-se a tantos dos meus amigos por lá terem andado). Cresci a ouvir histórias de professores e colegas da minha mãe e do meu tio Cazé (Carlos José Marques Henriques). Soaram-me sempre a um bom tempo e a uma boa formação.
Da Anita um conhecimento amigo de uma vida.
Do Mário Braga o encontro de vários livros nas estantes lá de casa e do Rosa Bruno a história do livro de Química, dactilografado na "Woodstock" e na qual eu fiz os meus primeiros trabalhos na Faculdade.
Beijos amigos para todos
da Guidó (Margarida Araújo)
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António José Figueiredo Lopes disse:
Muitos parabéns Mila, adorei ler a tua colaboração no “BLOG”, fez-me recuar no tempo e reviver um passado sem dúvida muito feliz.

A vida profissional e até o período de formação afasta muitas vezes os que nascem em pequenas cidades, separa convívios e cria novos contactos e novas amizades. Julgo que isso ainda acontece, embora em menor escala, dado que actualmente existem boas vias de comunicação.

Não foi o nosso caso de há mais de sessenta anos. A cidade era pequena, mas como isso era agradável, o nosso convívio intenso, permanente, havia um sentido de apoio entre todos. Acho que foi isso que cimentou os nossos sentimentos. Embora separados pelo nossos diferentes percursos, nem o tempo nem a distância conseguiram destruir as nossas amizades de adolescentes, que perduraram por toda a vida… até hoje.

Lembras-te de ser a minha comadre um ou dois anos. Brincadeira que infelizmente penso que se perdeu “o contratar, contratar, quem primeiro manda rezar”, e graças à qual posso garantir que fazias excelentes bolos.

Falando de professores e em relação ao Dr. L. Maria Rosa Bruno estou totalmente de acordo contigo, mas à tua lista de livros gostaria de acrescentar uma Aritmética Racional cujas provas tipográficas ajudámos a rever. Infelizmente desapareceu-me um exemplar do livro de versos “Eu sou d’além” com uma dedicatória do Dr. Bruno.

Continua a escrever e manda mais fotos A.J.F.L
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Júlia Ribeiro disse:
Não há dúvida que o blog ,dia após dia,está a tornar-se mais interessante !Não sei onde irá parar.....Fiquei a saber coisas que não imaginaria,nomes de pessoas que me diriam algo, mas que não fazia a minima ideia que teriam sido professores do ERO. Assim,passo a passo, vamos sedimentando ideias e conhecimentos do colégio, e do ensino,que pelo que a Mila nos relata ,teria sido sempre de grande qualidade.Obrigada Mila
Julia R
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Sara Gouveia disse...

Adorei! A neta orgulhosa,
Sara

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Isabel VP disse...

Gostei muito do testemunho da Mila Marques, que eu só conheço de ouvir falar (Mila, lembra-se da Sra. D. Emília, costureira, que morava na Rua do Hospício? Era ela que nos falava muito de si).
Quanto aos professores referidos, a Sra. D. Antónia Almendra era nossa vizinha na Estrada de Tornada e também, em casa dela, foi minha professora e da Muki (filha do treinador do Caldas Szabo), 3ª classe, e da minha irmã Lena, salvo erro na 1ª. A Sra. D. Anita é o que todas sabemos e por quem todas temos uma imensa ternura. O Dr. Bruno, que também só conheci através de conversas do meu irmão, era para mim como uma lenda.
Apreciei imenso o seu retrato do ERO e das amizades (e amores) que por lá foram nascendo, afinal tão semelhantes às que foram nascendo mais tarde, no nosso ERO. Afinal de contas, mudam-se os tempos mas as vontades nem sempre se mudam tanto! Isabel VP
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Isabel Esse disse...

"Foi ainda berço de casamentos..." escreveu esta nossa colega(se posso tratá-la assim)que nos retrata um colégio de todos os tempos com um à vontade e uma ligeireza admiráveis!!!Tudo tão igual que até a D.Anita foi também minha professora! Estou a brincar,porque não tive a felicidade de conhecer o Dr.Luis Rosa Bruno que já aqui tinha sido citado,nem o Dr.Mário Braga,pelos vistos um escritor importante que passou pelo colégio.Parabéns Mila, pela sua contribuição.Isabel
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Jaime Serafim disse:
Deliciei-me a ler o texto daquela Senhora (D. Maria Emília Henriques). Que belo testemunho e que texto tão bem escrito!
Um abraço Jaime
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São Caixinha disse:
Adorei ler o relato da Mila sobre os tempos anteriores ao nosso e os professores que a marcaram. Felizmente conheci a D. Anita a partilho sobre ela a sua opinião! Que amoroso o bordado... e que curioso recordar ainda os documentos escritos á máquina com cópias feitas a papel químico! Como era importante não fazer erros!!! Uma verdadeira maravilha esta participação...os meus parabéns, e desejos para que nos volte a deliciar com mais estórias.
São Caixinha
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António Delicado disse...

Minha querida amiga Mila.
Não acompanhei esta sua vivência tão carinhosa e precisamente descrita neste texto mas tive o grande prazer em ter partilhado, durante alguns anos da sua vida profissional já como enfermeira consagrada na Direcção Geral dos Hospitais e depois da Saude, momentos de árdua labuta e ao mesmo tempo de grande partilha.A sua disponibildade, empenho e alegria contagiante ficaram marcados profundamente em mim e, creia, que são coisas que sempre perdurarão.
Grande beijinho António Delicado
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Isabel Caixinha disse:
Que surpresa tão agradável ler o texto da Mila Marques.Não só foi aluna do princípio do ERO que eu conheci, como também do ERO que eu nem tinha conhecimento que tinha existido, e que foi graças ao Blog que conheci!
Dos professores mencionados só a D. Anita me é conhecida e também eu tive a sorte de aprender nas suas aulas de lavores "pontinhos" que ainda hoje adoro fazer.
Que informação tão valiosa para a reconstrução da história do ERO!Ficam os desejos que a Mila nos venha mais vezes falar dum passado que eu não conheci mas que de certa forma nos é comum .
um beijinho
Isabel Caixinha
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farofia disse...

Apetece-me começar com um sorriso de frase que a Emília escreveu: "Lembro-me que era necessário 1 original e três cópias e que havia um lindo capítulo sobre os gases raros da atmosfera"
:))
Quando a Emília conta ...
o "COLÉGIO RAMALHO ORTIGÃO nasceu da vontade e do empenhamento de alguns pais que queriam que os filhos continuassem a estudar mas sem partirem tão novos para outras cidades. E, talvez por ter nascido bem, era um colégio excelente, quer pelo ambiente, quer pelo ensino que nele se praticava"...
fico a pensar como esta lição de 'querer é poder', de 'pôr as mãos à massa' e 'os pés ao caminho', é um clássico que precisamos reler nos dias que correm.
(ah! e adorei o seu post!)
Inês
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Isabel X disse...

Aquele professor de matemática tinha muito estilo, realmente! Não é de admirar que a Mila se tivesse oferecido para lhe dactilografar o livro. Ainda para mais sendo parecido com o Manolete!
A Mila é tão fidedigna na descrição que faz que até parece que o vemos a acender o cigarro. Agora a sério: gostei muito! Este blogue cada vez congrega mais e mais gerações do ERO. Um beijinho para a Mila.
- Isabel Xavier -
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jorge disse...

começa a surgir realmente uma panorâmica de toda a existência do colégio.excelente texto cheio de memórias interessantes e informações inéditas.parabéns.
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Amélia Viana disse:
Que bom termos o testemunho de uma "jovem colega" ,nascida em 1930...É a prova de que o tempo ilumina as mentes interessadas e curiosas da vida...Que bela é a sua descrição e que bem escrito o texto, tem o dom de nos reportar áquela época e vivenciar um pouco das suas experiências, percursos e ambiências.
Já não era novidade, mas agora fica mais reforçada ainda, a ideia de que houve desde sempre uma grande preocupação em relação ao corpo docente do nosso ERO para que tivesse os melhores professores,os de topo. Muitos parabéns à autora e não deixe de nos brindar com os seus maravilhosos contributos.
Amélia Teotónio
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Raf disse...

A Tia Miloca que se tornou, para mim, muito mais que a avó da Sara e da Mariana! Só tenho mais uma vez a agradecer os miminhos que nos proporciona depois de uma noite de festa, não esquecendo a paciência!
Espero poder continuar a viver esta sua alegria durante muito mais tempo.Um grande grande beijinho, Rafinha.
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Joana Bruno disse...

Muito grata aos digníssimos Mila Marques, João Jales e a todos os que partilham neste blogue o vosso Passado Comum, que traz conhecimento às gerações seguintes dos vossos tempos e tanto nos enriquece e inspira...
Joana Rosa Bruno

OS "CALDENSES"

DA ESQUERDA PARA A DIREITA COMEÇANDO POR TRÁS:
Mário Gonçalves, Adriano Fidalgo dos Reis, Leitão, Silva Nobre, Elmano Sá, Serrão Mendes, ? , Davis Frazão, Zé Filipe Batalha, Mário Moreira,Eugénio Claro Claro Branco Lisboa, Mesquita de Oliveira .
LIGEIRAMENTE ABAIXO (casaco claro): António José Rodrigues Borges
3ª FILA :
? , ? , Júlio Manuel Paramos Baptista de Carvalho, ? , Manuel Simões Teixeira, Nuno Cunha, António Marques Matos (alcunha Óbidos) , Armando Castro, António José Figueiredo Lopes,Jorge Caetano Venâncio, Artur Paulo Rodrigues , (+alto) ? , Varela.
PROFESSORES:
Carlos Silva, Manuela Santos, Macedo, Silveira, José Abrunhosa, Tavares(?) , Major Alves, Padre Tedoro
SENTADOS
?, ?, ?, ?, ?, Raul Neto,?.
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(A IDENTIFICAÇÃO INSCRITA ACIMA DA FOTOGRAFIA É DO ANTÓNIO JOSÉ FIGUEIREDO LOPES, QUE PEDE INFORMAÇÕES SOBRE MUITOS DESTES COLEGAS QUE NÂO VÊ HÁ MUITO TEMPO.
O EMAIL ex.alunos.ero@gmail.com ESTÁ DISPONÍVEL PARA ESSAS INFORMAÇÕES)

No artigo anterior mostrámos as alunas do Lusitano passeando-se alegremente no Parque. Esta fotografia mostra o exclusivamente masculino Caldense nesse mesmo ano lectivo de 1944/45, com os seus alunos, bem mais tristes e sorumbáticos, nas instalações da Miguel Bombarda.

Este é o pátio do edifício, que servia de recreio e, pelos vistos, de estúdio fotográfico, já que é sempre neste local que posam os "artistas" do Caldense e , a partir de Outubro de 1945, os do Externato Ramalho Ortigão.

Desta vez não há legendagem inicial, o desafio é identificar todos os intervenientes a partir dos vossos comentários. Mesmo que conheçam só um ou dois, enviem um email para

Reunidas todas as contribuições deveremos ter uma legendagem completa.

Já reconheci o professor Macedo (bigode inconfundível) que era o tal grande galã caldense. Pelos vistos dava aulas nos dois colégios, embora com mais empenho e dedicação no Lusitano, pelo que me contam...
......................................................................................................................................................
IDENTIFICAÇÕES:
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Professores
O 1º da esquerda é o professor de canto coral Carlos Silva (era padrinho do Pardal e tinha uma colecção de tinteiros das Faianças Belo que deve ter deixado ao afilhado…. Olha..hoje vale dinheiro… não sei se ele a terá vendido .. o Joca Raposa chamava-lhe um figo !!!)
Logo a seguir é a D. Manuela Santos, professora primária que ainda deu aulas no ERO. Tinha um irmão mais velho ligado à fábrica Bordalo Pinheiro e um mais novo Jorge , de alcunha “Sardeca”. A Srª era tal e qual como está no retrato …. Com uns óculos muito grossos e uns sapatos que eram umas bateiras…. (Coitada devia ter joanetes ihihih ……isso já não me lembro) e bastante rezingona……
O 1º da direita é o padre Zé Teodoro e logo a seguir a ele acho que é o Major Alves (será que ele era Major?) marido da Cândinha Alves. Bjs Ana
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Professores:
O 3º professor a contar da esquerda, parecido com o Tonico Bastos, é o professor Macedo (História). A seguir está o prof Silveira (Latim). Ao meio o Director, Dr. José Abrunhosa. Só falta identificar um professor ... e os alunos todos!
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Professores:
A Sra. D. Manuela Santos deve ter dado aulas no ERO até ao fim do ano lectivo de 63/64, pois a 1 de Outubro de 64, na abertura do ano lectivo, foi alvo de uma homenagem. Isabel V. P.

AS "LUSITANAS"

Os mais atentos aos últimos artigos do Blog ficaram a saber que em 1945 existiam nas Caldas dois colégios : o Caldense, só com alunos masculinos (correria hoje o risco de ser considerado um colégio Gay?) e o Lusitano, só com alunas. Quem quiser saber mais sobre tudo isto vá a :

ANTES DO EXTERNATO RAMALHO ORTIGÃO - Os colégios das Caldas da Rainha (1928-1945)



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É do Lusitano que falamos hoje. Para vos situar melhor, acrescentei fotos do edifício e da vista de uma das salas de aulas. Estrategicamente situado na R. de Camões, em frente ao Parque, tinha neste um local de eleição para as alunas passarem os tempos livres. As duas fotografias que abaixo mostramos foram lá tiradas, uma junto às grades e outra à porta do Museu.
As legendagens (provisórias e ainda incompletas) esperam as vossas contribuições. Apreciei especialmente a da Belão, referente à foto no museu, porque lembra um pouco aqueles labirintos do “ajude o ratinho a encontrar o queijo”, para trás e para a frente, para cima e para baixo, em busca do caminho…Mas é colorida e elucidativa e eu decidi não modificar (isto de ser preguiçoso é uma arte e depende muito da forma como justificamos a inactividade).
A da prisão, melhor, das grades, é legendada também pela filha de uma das fotografadas, a Guidó. Inclui algumas “estrelas de cinema”, com penteados sensacionais, que me fazem lamentar ter nascido tarde de mais para ir ao Parque nessa altura (espero que estes comentários não caiam mal nas visadas e, sobretudo, nas nossas colegas dos anos 60; escrever o que se pensa é sempre um exercício arriscado).
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Belão:
Aqui vai o que consegui saber.
Começando da esquerda para a direita, em cima :
- Contínuo do colégio; à frente, estão duas meninas - a mais pequena é a Beatriz Rodrigues e a de cabeça inclinada é Sami(prima do Vera Jardim); ao lado(brinco branco) Mª dos Anjos e logo atrás Graciete Ferreira; ao lado desta Teresa Galinha que tem à frente Mª Lucinda Igrejas e atrás Salete Afonso( filha do Caetano Afonso da Havaneza);à frente da Salete Afonso é a Bé que tem à frente dois homens - o indiano é o prof. Silveira e o outro o prof Jorge Morais;a minha mãe, que tem atrás a Helena Faria e a Isabel Girão e ao lado a Mª Berta Mesquita; atrás desta não sei o nome, mas ao lado é Mimi Bolotinha; o Sr gordo é o capitão Dario e ao lado, a senhora da gola branca é a prof de Moral, Alice Bruno; ao lado desta é a irmã da Mª Berta, a Helena Viriato; os senhores de bigode são respectivamente um prof de Matemática e o que está mais destacado é o prof Macedo. Ao lado deste está uma estrangeira chamada Helga.
Quanto à fila da frente, isto está fraco. Só consegui a Lurdes Teixeira( fato branco, sandália branca e laço branco), ao lado, de casaquinho, é a Margarida Botas, a seguir é a Fernanda Reis , depois é uma desconhecida e a seguir a Odete Subtil.






Guidó:

Da esq. para a direita.
Em baixo:
Valentina (prima da Isabel Castanheira), Ciló, Mila Marques, Mªa dos Anjos, Aida Moreira (filha do Capitão Justino Moreira), ?
2ª fila:
Bé Viriato, ?, ?, ?, Esmeralda Henriqueta (veio a casar com o Prof. Perpétua, acho que ela era prima do meus sogro), ?, ?, Maria Guilhermina, Isabel (veio a casar com o Girão), Letícia.
Presas, melhor, atrás das grades:
?.?. Terezinha Dario (filha do Capitão) Dario, irmã, Bé Castro.



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comentários


2008-02-11
Ana Nascimento disse:
Oh cachopas que delícia de fotografias ……ADOREI !!!!!.As “piquenas “ estão giríssimas… desde o penteado à fatiota uns verdadeiros figurinos... daqui a fama das Caldas ser uma cidade de mulheres bonitas e elegantes.!!!!!!!
Além das vossas mães, reconheci outras Lusitanas mas, com muita pena minha, apenas aquelas que já estão identificadas.
A minha mãe também foi uma delas, mas creio que não tem fotos dessa altura, de qualquer modo talvez nos dê uma ajuda para a legenda ficar completa.
Obrigada Belão e Guidó por terem partilhado comigo este pedacinho da história das vossas famílias. Beijinhos Ana

2008-02-11
JJ disse:
Esclareço que as fotos são uma contribuição do nosso colega José Mesquita de Oliveira, a Belão e a Guidó contribuíram com as legendas.

2008-02-11
Ana N disse:
Meu querido Zeca
Vi agora que as fotos são suas, obrigada meu amigo. Sim senhor… um grande exemplo para os mais novos que ou nem têm tempo, ou desconhecem (e aí ainda se desculpam) ou então andam a dormir na forma (o que não abona nada em seu favor…)..
Fiquei muito contente e orgulhosa por ver que foi um dos primeiros do seu tempo a aderir a este projecto, contribuindo para que não se percam as memórias das Caldas.
Um beijinho muito grande da Ana

ANTES DO EXTERNATO RAMALHO ORTIGÃO - Os colégios das Caldas da Rainha (1928-1945)

Por João B. Serra


1. Introdução



A história do ensino particular liceal no nosso país está por fazer. Também não dispomos de monografias históricas sobre instituições de referência desse sector supletivo do ensino público. O breve apontamento aqui apresentado sobre as primeiras duas décadas dos estabelecimentos de ensino liceal nas Caldas da Rainha não pôde cruzar informações relativas a processos congéneres, nem beneficiar do método comparativo.
A expansão do ensino constituiu um dos elementos centrais da revolução social do século XX, sobretudo da sua segunda metade. Ainda no século XIX, os Estados mais desenvolvidos tinham incluído nas suas prioridades a alfabetização. O ensino primário fez então muitos progressos, tendo diversos países começado a atingir taxas de alfabetização superiores a 50 e 60% da população. Mas o número de estudantes na fileira do ensino secundário/superior permaneceu, em todo o mundo, até aos finais da década de 1950, muito reduzido, quase tão insignificante, quantitativamente, como na Idade Média. Ao longo das décadas de 1960, 1970 e 1980, os dados, porém, alteraram-se radicalmente. De forma generalizada, as famílias fizeram extraordinários esforços para colocar os seus filhos no ensino superior. Não se tratava apenas, como anteriormente, de famílias com capital económico ou cultural elevado. A ampliação da procura de ensino só pôde acontecer porque a ele acorreram jovens oriundos de estratos de rendimentos médios e baixos, cujos pais viram no ensino uma oportunidade de melhorar a condição social de origem.
Para participar neste movimento, Portugal, como é sabido, teve de ultrapassar obstáculos muito exigentes, à cabeça dos quais podemos apontar o fraco investimento do Estado Novo na expansão do sistema público de ensino. Esta observação vale tanto para o ensino primário, como para o secundário e superior. Particularmente gravoso para as regiões mais periféricas e para os grupos de menores rendimentos foi o princípio da concentração da malha de liceus nas capitais de distrito, uma vez que só os liceus davam acesso directo ao ensino superior. Em alternativa, desenvolveu-se, ao longo da primeira metade do século XX, sobretudo a partir dos anos 1920, uma rede de estabelecimentos privados que proporcionaram, nas localidades com alguma dimensão demográfica, ensino liceal. Sem essa rede, a modernização do país teria sido certamente muito mais lenta e estreita e o fenómeno de democratização do ensino superior mais atrasado e provavelmente menos consistente.


2. Fontes


Efectuei uma primeira pesquisa sobre o ensino secundário particular nas Caldas da Rainha em 1986, no âmbito de um estudo então iniciado sobre a formação das elites urbanas entre 1887 e 1941. Efectuei na altura entrevistas aprofundadas com diversos actores qualificados, como o tenente-coronel Justino Moreira, o Professor José Lalanda Ribeiro, o Dr. José Venâncio Paulo Rodrigues e o Dr. Aníbal Correia e consultei a imprensa local. A investigação foi no entanto interrompida e só muito recentemente retomada, no quadro da realização de provas académicas.
Mas o impulso decisivo para tornar público um ensaio historiográfico sobre este tema, numa forma ainda incipiente, veio do blog dos antigos alunos do Externato Ramalho Ortigão, do seu principal animador, o João Jales, e da sua colaboradora Margarida Araújo.
O João Jales publicou uma “Breve História do Externato Ramalho Ortigão, 1945-1973” onde incluiu referências a um período anterior a 1945, com identificação de algumas unidades e professores, baseando-se fundamentalmente em fontes orais. Facultou-me acesso ao texto, no decurso da sua própria elaboração, assim desencadeando um desafio estimulante que me “forçou” a ocupar-me de novo da questão. No diálogo que travámos, quase sempre a desoras, “intrometeu-se” a Margarida Araújo. A Margarida, a quem me une uma amizade com longínqua origem precisamente na docência da história, foi colocando em cima da mesa (ou seja nas nossas plataformas digitais) uma sucessão “interminável” de informações colhidas em edições da Gazeta das Caldas. Como dizia o João, fomos todos procurando compor o puzzle, ou, como na imagem inspiradora dos trabalhos de Penélope, fazendo, desfazendo e refazendo a história.
Aqui está o resultado (provisório) a que chegámos. Digo “chegámos” com inteira verdade: eu escrevi, eles foram participantes e cúmplices activos.

3. Os primórdios: 1926/1927


É em Agosto de 1926 que nos deparamos com a primeira notícia da Gazeta das Caldas sobre a criação de um colégio-liceu. “Uma iniciativa simpática” titulava o jornal, dando a lume uma entrevista com um dos seus principais protagonistas, o Dr. António Correia Sousa Neves.
António Sousa Neves queria transpor para as Caldas a experiência bem sucedida do colégio-liceu de Sintra, de que há 6 anos era director. “Portugal precisa de escolas que se preocupem com mais alguma coisa que impingir lições feitas à máquina; carece de olhar pelos seus filhos, criando-lhes qualidades, para que não continuem a ser esses eternos homens de amanhã, sempre inutilmente desejados…” (G.C. 22 de Agosto de 1926). Projectava dotar as Caldas de um estabelecimento de ensino para ambos os sexos, provido de professores especializados (para ciências e para letras), onde as línguas estrangeiras estivessem a cargo de professores das respectivas nacionalidades, se garantiria a disciplina de ginástica bem como a de higiene individual, à responsabilidade do subdelegado de saúde, Dr. Fernando Correia, que também exerceria as funções de médico escolar.
A atenção para as Caldas terá sido despertada por um professor do colégio de Sintra, Carlos de Loureiro “que conhece as Caldas”. As instalações não se encontravam ainda decididas, dependendo do número de inscritos, mas o nome já estava escolhido: “Colégio-Liceu de D. Leonor”.
Desconhecemos a sequência desta iniciativa, embora o nome da Rainha nos surja mais tarde ligado a um outro colégio das Caldas. Nada nos prova, porém, a existência de uma continuidade entre ambos. Mas parecia ter razão Sousa Neves quando afirmava que as Caldas “há muito reclamavam a organização de um estabelecimento de ensino e educação, vazado por moldes da moderna pedagogia, e no qual se pudesse cursar os liceus”. No seu entender, “Para não falar já nos progressos acentuados desta vila, basta a circunstância de haver cidades do país sensivelmente com a mesma população do que as Caldas e arredores e dotadas de um liceu oficial”.
Em 1930, residiam na freguesia das Caldas da Rainha 7822 indivíduos, sendo o total concelhio de 29207 (Censo da População de Portugal).Mais de 75% dos habitantes do concelho eram analfabetos.
Além de escolas primárias oficiais e privadas, na vila das Caldas tinha existido até justamente Julho de 1926, o mês anterior ao desta entrevista, uma Escola Primária Superior.
Para se compreende melhor o lugar desta escola, convirá recordar a orgânica do sistema de ensino republicano. Partindo da distinção entre ensino primário e secundário, o primeiro era obrigatório e compreendia 5 anos (dos 7 aos 12 anos), compreendendo 5 classes. Os que não seguissem o ensino secundário, que desembocaria no ensino superior, mas quisessem aprofundar estudos, tinham à sua disposição o ensino primário superior (3 anos, dos 12 aos 15), facultativo, compreendendo 3 classes. O diploma do curso das Escolas Primárias Superiores, habilitando os alunos com conhecimentos de línguas, dava acesso directo às Escolas Normais Primárias e a outras escolas do chamado ensino médio (agrícola, comercial e industrial) e equivalia ao Curso Geral dos Liceus.
Não encontrei dados sobre a frequência dos estabelecimentos de ensino primário nas Caldas nesta época, mas o Censo da População de 1930 indica o número de indivíduos alfabetizados entre os 6 e os 12 anos: 384. Estes números são evidentemente aproximativos, mas dão-nos um valor de referência muito baixo para a frequência do ensino primário no concelho das Caldas. Se tivermos em conta que os estudos já efectuados apontam para uma taxa de pouco mais de 4%, em 1930, para a população escolar primária que prossegue os estudos secundários, não podemos deixar de concluir que a margem seria muito apertada para os que se propunham criar um colégio-liceu nas Caldas.
A extinção da Escola Primária Superior caldense em Julho de 1926 deverá estar relacionada com este panorama. Mas pode ter tido reflexos directos ou indirectos em projectos de lançamento do ensino secundário. Professores e famílias tiveram que procurar alternativas, os primeiros à sua actividade docente nas Caldas, as segundas a uma via de estudos pós-ensino primário.
Um ano decorrido sobre a entrevista ao director do colégio-liceu de Sintra, a Gazeta insere uma notícia sobre iniciativa similar, desta vez com origem no colégio de S. José, em Santarém, cujo director, Oliveiros Brás Machado, se propõe abrir nas Caldas um estabelecimento similar (G.C., 29 de Set. de 1927). Também neste caso, desconhecemos o destino do projecto.
Um facto, porém, ocorrido exactamente em Setembro de 1927, parece ter sido decisivo para o arranque do ensino secundário liceal nas Caldas. Tratou-se da instalação definitiva do regimento de Infantaria 5 naquela que acabara de ver reconhecido, precisamente em Agosto, o estatuto formal de cidade.

4. O Colégio Moderno (1928)


Em 1918, ano em que a Grande Guerra chegou ao seu termo, os Pavilhões do Parque D. Carlos I receberam um batalhão do regimento de Infantaria 5. Pouco depois, o batalhão retornou a Lisboa. Em 1927, porém, é o próprio regimento que troca a sua sede lisboeta, no Castelo de S. Jorge, pela das Caldas da Rainha. O facto não deve ser estranho à elevação, em Agosto, das Caldas a cidade. Este processo culminava uma ampla mobilização das forças políticas, económicas e sociais locais pela afirmação da cidade como segundo núcleo polarizador do distrito de Leiria.
Os oficiais do Regimento de Infantaria 5 deram um duplo impulso ao ensino liceal caldense: como organizadores e professores e como pais e familiares de alunos. Necessitavam de um estabelecimento que preparasse os seus filhos para ingressar em escolas superiores; ofereciam, em contrapartida, as suas próprias disponibilidade e capacidades para leccionar.
De acordo com testemunhos orais, ter-se-ia formado, também em 1927, um colégio de ensino primário. O seu director, um antigo professor primário, António Augusto Ferreira, tinha a intenção de o fazer evoluir para o ensino liceal. Não pudemos
comprovar a existência de uma articulação entre António Augusto Ferreira, Carlos de Loureiro e António Sousa Neves (do Colégio-Liceu de Sintra), mas o certo e que o colégio se denominava também D. Leonor.
Em 1928, juntam-se a António Augusto Ferreira o tenente Justino Moreira e o Professor José Antunes Faria, respectivamente, oficial do RI 5, e antigo professsor da Escola Primária Superior. O novo colégio, resultante dessa associação, terá o nome de Colégio Moderno. Anuncia-se na Gazeta, a 23 de Setembro de 1928, como estabelecimento onde se pratica a coeducação, se dispõe de professora habilitada para o ensino primário e se preparam alunos do secundário por meio de explicações. Situa-se na Rua General Queiroz, 19, 21 e 23.
Pouco tempo durou, porém, esta associação. Mais uma vez segundo o testemunho de Justino Moreira, houve desentendimento entre os Professores Ferreira e Faria, logo em 1929. Da cisão no Moderno, surgirão duas novas entidades.

5. Lusitano e Rainha D. Leonor


O ano escolar de 1929/1930 abriu em Outubro com dois colégios nas Caldas da Rainha: o colégio Lusitano e o colégio Rainha D. Leonor.
Este último é propriedade de António Augusto Ferreira, que recupera o nome do seu anterior estabelecimento. Continua a funcionar na Rua General Queirós. Apresenta-se com regime diurno e nocturno e, além do ensino primário e das explicações de secundário, também anuncia Educação Física (G.C., 10 de Novembro de 1929). Oferece ensino gratuito a dois alunos desprovidos de meios para estudar que sejam indicados pela Gazeta das Caldas, um do primário e outro do secundário.



No ano lectivo de 1930/31, o D. Leonor instalou-se no Hotel Madrid, localização que a Gazeta das Caldas saudou com entusiasmo (G.C., 11 de Janeiro de 1931). Mas em Outubro desse ano muda-se para um 1º andar do topo da Praça da República (nº 106). Anuncia também aulas de escrituração comercial. Faz gala dos seus resultados: 52 aprovações e apenas 4 reprovações no ano anterior. Torna públicas as mensalidades, como se pode ver no recorte junto (G.C., 4 de Outubro de 1931).
De acordo com o testemunho de José Paulo Rodrigues, neste crescimento do Rainha D. Leonor teve papel importante o Professor Ivo Mendes, inspector do ensino oficial, que se associou a A. A. Ferreira em 1930.

O tenente Justino Moreira e o Prof. José Antunes Faria responderam a António Augusto Ferreira com a criação do Lusitano. Começou a funcionar, em Outubro de 1929, num rés-do-chão da Rua Alexandre Herculano, nº 50.
O colégio Lusitano ficou também conhecido como o colégio dos militares. Além do director, nele leccionaram Mesquita de Oliveira (que tinha um curso incompleto de engenharia), Ruben Gomes (conhecido pelos seus dotes para o desenho), Paulo Cúmano (descendente de italianos, falava fluentemente várias línguas, incluindo o alemão) e José Pedro Pereira, todos tenentes.



Em Outubro de 1930, o Lusitano muda as suas instalações para o nº 75 da Rua de Camões, beneficiando da proximidade do Parque D. Carlos. Ao ensino primário e secundário junta também o ensino comercial. Os dois colégios caldenses jogam o jogo da concorrência. Mas nele não correrão o risco de se esgotarem?

6. Colégios, liceu: um debate (1931/32)

A 12 de Julho de 1931, a Gazeta das Caldas publicava um artigo onde se equacionava a questão do ensino nas Caldas e se advogava a criação de um estabelecimento que ministrasse formação ao longo de todo o percurso liceal. Para o autor do texto, a concorrência entre os dois colégios tinha precisamente esse ónus, o de não garantir tal objectivo. “Razões de ordem vária a isso se opõem, entre as quais a dispersão de competências espalhadas pelas duas casas de ensino – que as têm, e de valor – a falta de professorado que ensine até ao 5º ano e outras que a razão e o melindre nos mandam que calemos”. E acrescenta: “Ora, esta dispersão de forças de que, seja-nos lícito dizer, as Caldas é fértil, evita, neste caso, toda a possibilidade que possa haver na criação de um Colégio-Liceu, à roda e dentro do qual todos se reunissem, ministrando numa camaradagem apreciável o pão do espírito a tantas e tantas crianças”.
O artigo não é assinado, o que pode significar proximidade à direcção do jornal, na altura dirigido por Guilherme Nobre Coutinho, um dos próceres da corrente de autonomia regionalista que marcou a segunda metade da década de 1920 das Caldas. É, aliás, em nome dos interesses caldenses, que o autor do texto se julga legitimado para exigir que o problema seja debatido pela Comissão de Iniciativa, pela Associação Comercial e pela Câmara, à qual competiria subsidiar um Liceu municipal, e bem assim pelo “Núcleo de bons professores que aí há (ao qual pede que “estude a maneira de conseguir este benefício para esta terra”). A ausência de curso completo dos liceus nas Caldas tem as seguintes consequências que importa avaliar. “Daqui se transportam para vários liceus do País dezenas de rapazes, alguns com pesados sacrifícios para as suas famílias, deixando por lá, quantas vezes a sua saúde, e sempre o seu dinheiro, que aqui poderia ficar. Além desses que têm de ir buscar a outras terras a conclusão dos seus estudos do curso geral dos liceus, outros há por aqui em quantidade, que mais não seguem nos estudos porque não têm elementos para isso, na exiguidade dos seus recursos, e que uma vez aqui um Colégio-Liceu, seguiriam na estrada luminosa da instrução, concluindo-os e tornando-se aptos para a vida!”
Estava dado o primeiro sinal para uma reivindicação que só quatro décadas mais tarde seria satisfeita: um liceu nas Caldas. A Gazeta vai ecoando o tema ao longo dos anos de 1931 e 1932. A 27 de Setembro deste ultimo ano, publica um artigo intitulado “O Liceu Nacional”, no qual se reporta a um movimento de caldenses e amigos das Caldas que aplaude entusiasticamente o projecto de criação de um Liceu nas Caldas. “Na verdade, dissémos e voltamos a repetir, que a região das Caldas da Rainha, composta dos seus quatro grandes concelhos, canaliza para os diferentes liceus do País grande número de estudantes, e que além deles, outros há, de todas as terras limítrofes que preferem decerto vir matricular-se no liceu que, porventura, possa ser aqui criado. Há aí a uma Escola Industrial, que bons serviços tem prestado a esta região, frequentada por 200 ou mais alunos, a maioria deles ansiosos por que aqui se crie um Liceu, mas que, na sua falta, ali vão buscar a luz da instrução que tão necessária é! Há dois colégios onde alguns anos do liceu se leccionam, cujos alunos e seus pais têm de arcar com o incómodo de fazer os seus exames noutros liceus do país, com um gravame enorme para o seu orçamento”.
Cerca de um ano mais tarde, o jornal exulta com a confirmação de “um grande melhoramento: a criação de um Liceu Municipal nas Caldas da Rainha é uma realidade”. A notícia desenvolve a informação obtida “de boa fonte”, de que a Câmara Municipal obteve do Ministro da Instrução Pública concordância para a criação de um Liceu Municipal o qual deverá entrar em funcionamento no próximo ano lectivo. Exultante a Gazeta (30 de Outubro de 1932) não só assevera que o Presidente da Câmara (o Dr. José Saudade e Silva) já tem escolhido o edifício onde irá funcionar o Liceu, como dá início de imediato a uma campanha de angariação de alunos com o objectivo de rapidamente elevar o futuro liceu de municipal a nacional.
Neste caso, porém, o desejo é que foi tomado por realidade. Em Março do ano seguinte, o jornal lastimava-se que após a promessa “tudo caiu no silêncio confrangedor, neste marasmo muito da nossa terra, sem que publicamente nada se diga, sem uma nota oficiosa, como gota de água venha desfazer a sede escaldante da curiosidade pública. Perguntam-nos: - então, o Liceu? Então, esse Liceu vem ou não vem?. Vocês da Gazeta sempre são muito ingénuos… Acreditam em cada peta…” (G.C., 18 de Março de 1933).




7.O Caldense (1933-1945)


Em Outubro de 1933, um novo colégio emerge na cidade: o Caldense (G.C., 28 de Outubro 1933). Arranca na Rua dos Artistas nº 24, liderado pelo Prof. Ivo Mendes. Aparentemente, o Caldense preenche o lugar deixado vago pelo Rainha D. Leonor. Não se encontraram referências ao Prof. António Augusto Ferreira, a partir de 1932. Sabemos que Ivo Mendes tinha colaborado com ele.
O projecto pedagógico do Caldense é distinto do dos colégios precedentes. Além de inserir a Música Canto Coral, os Trabalhos Manuais e a Arte Aplicada na oferta formativa, ao lado da Educação Física, oferece o Curso Geral dos Liceus. Em 1934 (G.C., 22 de Setembro) muda as instalações para a Rua Dr. Leão Azedo, anunciando uma separação orgânica entre uma unidade vocacionada para o ensino liceal e outra para o ensino primário (o chamado colégio José Malhoa). Indica como professores os médicos José Pinto e Mário de Castro, José da Costa Abrunhosa (matemática), João de Oliveira Carvalho (Filosofia), Almeida Ávila (Letras) e Dario Preto Ramos.
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Em 1936 o Caldense tem instalações na Rua Miguel Bombarda (G.C., 12 de Setembro). Anuncia que prepara alunos para admissão à Universidade. De facto, o Caldense será o primeiro colégio das Caldas da Rainha a proporcionar uma frequência completa do ensino liceal. No seu depoimento, José Paulo Rodrigues afirma ter sido dos primeiros estudantes que preparou o curso liceal nas Caldas, terminado em 1939. Os exames dos alunos preparados pelo Caldense eram realizados em Santarém.





No princípio da década de 1940, o Caldense consegue uma vantagem sobre o seu concorrente. Entre 1939, 1940 e 1941 o Governo insiste na aplicação de uma disposição prevista em legislação de 1928, a qual restringia a tolerância para com a coeducação no ensino particular, só a permitindo “a título excepcional e precário” nas localidades onde não existisse mais do que um estabelecimento do mesmo tipo. Não era o caso nas Caldas, tendo o Caldense, porventura beneficiando da influência do seu fundador, o inspector Ivo Mendes, obtido autorização para ensinar o sexo masculino.
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8. O Lusitano


O aparecimento do Caldense obrigou o Lusitano a introduzir melhorias na sua oferta formativa, garantindo o Curso Geral dos Liceus. O Lusitano tinha a seu favor a qualidade e boa localização das instalações. Uma reportagem sobre o colégio, publicada pela Gazeta das Caldas em 9 de Outubro de 1932 punha essa circunstância em destaque: “Entrámos numa casa completamente transformada, cheia de luz e de bom ar, que acaba de ser adaptada a casa de ensino, de harmonia com o Estatuto do Ensino Particular”. Mas, no final da década de 30 e princípios da seguinte, o colégio vai passando por sucessivas crises. Justino Moreira é mobilizado para Cabo Verde e é forçado a deixar a direcção do estabelecimento.
Depois vem a imposição de leccionar apenas ao sexo feminino. Em 1944, um grupo
de professores, liderado por Alcino Jorge de Morais adquire o alvará. Em entrevista que concede à Gazeta das Caldas (20 de Outubro de 1944) Alcino de Morais confessa-se preocupado com a baixa frequência do colégio, mas admite ser possível inverter a tendência de as famílias caldenses preferirem para as suas filhas o curso comercial ao curso liceal.
Esta experiência não teve continuidade. Em 1945, o alvará de Justino Moreira mudará outra vez de mãos, desta vez para a Sociedade de Desenvolvimento Caldense, liderada por Júlio Lopes. Tornara-se, porém, evidente que a sobrevivência do ensino liceal particular nas Caldas estaria sempre comprometida com dois colégios, obrigados pelo salazarismo à separação do ensino por sexos. A Sociedade terá de adquirir também o Caldense para poder cumprir o preceito legal que autorizava a coeducação onde só existisse um estabelecimento de ensino liceal. Com a dupla aquisição, Júlio Lopes criou o Externato Ramalho Ortigão. Mas essa é uma outra história, que está a ser feita pelos contributos deste blog e pelo trabalho de recolha e síntese de João Jales.



João Bonifácio Serra
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comentários
2008-01-28
Rui F S disse.
... vejam como o que parecia ser apenas (mais) uma iniciativa nostálgica, está a produzir conteúdos com tanto interesse, nomeadamente para a história da educação em Portugal! Um abraço do Rui Ferreira da Silva
2008-01-28
A J Figueiredo Lopes disse:
Mais uma vez muitos parabéns a todos. Acabo de ler o fantástico artigo do J. Bonifácio Serra que em parte se deve ao contágio da vossa insistência e interesse. No fundo é uma parte do passado das Caldas dos últimos 90 anos... É interessante ver nomes de várias pessoas que ainda conheci mas cujas actividades em prol das Caldas, desconhecia. Houve outro militar o major Alves que ainda foi professor de Geografia. A filha, a Lídia Alves, velha amiga com quem infelizmente perdi o contacto, ex aluna do Lusitano, vive actualmente no Porto.Um abraço A. J. F. Lopes
2008-01-29
Mário Gonçalves disse:
Caro Amigo: Acabo de receber o seu excelente trabalho de investigação sobre a história mais remota do ensino secundário nas Caldas da Rainha. Trata-se de um importante contributo que vem enriquecer o conteúdo do blog ao qual o João Jales tem dedicado muito do seu tempo e o maior entusiasmo e carinho, bem como a Guidó, que colaborou no trabalho através das pesquisas feitas na Gazeta das Caldas dessa época já remota.
Sendo um dos beneficiários da leitura da sua investigação, não posso deixar de lhe manifestar o meu reconhecimento por assim me facultar o acesso aos factos que vivi a partir de 1937. Abraço Amigo
Mário Gonçalves
2008-01-30
João Ramos Franco disse:
Parabéns João Serra, mais um contributo para demonstrar que a nossa cidade tem um passado fértil de lutadores pela cultura da sua sociedade.
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2008-01-30
Luís António disse:
Ficámos a saber tudo sobre os colégios antes do Externato , e a história está muito bem redigida, e com muita informação. Mas com a fasquia tão alta o que é que vem a seguir, João?...
2008-01-30
Vasco B disse.
.........e assim com esta magnifica contribuição do João B. Serra todos nós ficamos mais próximos e enriquecidos. Aqui fica o meu agradecimento pelo teu magnífico trabalho, bem hajas.Vasco
2008-02-03
Deolinda P. Barros disse:
Tenho seguido com muito interesse o que o nosso blog nos tem proporcionado... Alguns são apenas nomes... Outros como o Bonifácio Serra fazem parte da minha história porque também como acabei na docência o nome dele foi-se cruzando comigo em múltiplas ocasiões e era sempre com prazer eorgulho que o via referenciado... Depois, creio que também andou nas lides da Presidência da República quando um amigo meu lá estava………………… ........Hoje, ao ler o artigo do Bonifácio Serra, que neste momento é apenas um nome (se o vir nem o reconheço), senti um orgulho enorme de ter nascido em Caldas da Rainha e de lá ter crescido, no seio de uma família em que o meu pai era do Porto e minha mãe alfacinha. Bem-hajam todos os que trabalham para que continuemos a sentir mais perto estas memórias contidas, guardadas que, no meu caso, esquecera que um dia também as tinha vivido. Outro dia vi uma referência à Tertúlia e aos encontros pessoanos... Eu recitava na época Fernando Pessoa e o saudoso David Mourão-Ferreira foi lá falar de Fernando Pessoa. A Eduarda Rosa e eu lá estivemos... por isso vos enviei a notícia da exposição de pintura que ajudei a organizar sobre Pessoa e que está na Fundação Mário Soares. Como fui muito lacónica, ninguém percebeu porque é que mandava a notícia. Um abraço especial de gratidão ao Bonifácio Serra pela preservação da história da instrução/educação da nossa terra. Deolinda Pereira de Barros
2008-02-10
Ana Nascimento disse:
Olá Bonifácio Em boa hora a Guidó se “intrometeu” e o JJ te “forçou” a escrever esta crónica. Resultou num documento óptimo que nos permite saber a evolução do ensino na nossa cidade.
A título de curiosidade, ligando o passado ao presente, sempre ouvi a minha mãe falar do colégio Lusitano, onde conheceu o meu pai e para onde transitou vinda do ensino particular, mais precisamente da D. Maria Perpétua porque esta não podia propor alunos a exame. No Lusitano teve como professora a D. Maria, autora de um livro que a minha mãe guarda religiosamente. Quanto ao Capitão Mesquita de Oliveira, que fez parte do “staff “ do Lusitano, é o avô da Maria Aida ou seja o pai do Zeca Mesquita.
Obrigada rapaz pelo teu interesse e pelo teu empenho, através dos quais enriqueci o meu conhecimento. Um abraço da Ana

BREVE HISTÓRIA DO EXTERNATO RAMALHO ORTIGÃO 1945-1973 1ª parte

Conforme descrito no artigo do João Bonifácio Serra (ANTES DO EXTERNATO RAMALHO ORTIGÃO - Os colégios das Caldas da Rainha 1928-1945), no início dos anos 40 há dois colégios activos nas Caldas, o Caldense, exclusivamente masculino e o Lusitano, exclusivamente feminino. A criação de um único estabelecimento de ensino tinha grandes vantagens à partida, permitindo mais inscrições, já que a lei da separação de sexos deixava de se aplicar, e também racionalizar recursos e custos, reunindo num só estabelecimento os melhores professores, dando aulas a mais alunos. É isto que pensam pouco mais de uma dúzia de caldenses ilustres, liderados pelos Dr. Júlio Lopes, Dr. Asdrubal Calisto e Dr. Leonel Sotto Mayor, reunidos na Sociedade de Melhoramentos Caldenses, e que os leva a comprar os dois alvarás existentes fundando, em Outubro de 1945, o Externato Ramalho Ortigão. A intenção não era empresarial, o ensino não era uma actividade lucrativa, os quinze sócios fundadores procuravam uma forma de garantir não só o Curso Liceal mas principalmente o acesso ao Ensino Superior Universitário para os seus filhos, já que só existiam Liceus nas capitais de Distrito.



Não há pois motivo para a perplexidade de alguns pela escolha do nome para um estabelecimento católico, já que o “baptismo” é muito anterior à “conversão”, a escolha do nome é treze anos anterior à sua compra pela Igreja. São trinta e oito os alunos inscritos, entre eles António José F Lopes, Mário Gualdino Gonçalves, José Mesquita de Oliveira, Óscar Baptista, Elmano Soares de Sá, Maria Emília Marques Henriques, Joaquim J Nazareth, António José Rodrigues Borges, Margarida Calisto, Adriano Fidalgo dos Reis, Jorge Sotto Mayor, Carlos O. Gomes, Fernando M. Loureiro de Sousa, Vasco Henriques, Manuel Mesquita de Oliveira, Viriato L. Castro, Sami Bento, Carlos José Marques Henriques, David Vazão …


Começa o ERO por ocupar as instalações do Caldense, na Rua Miguel Bombarda. Os professores mais conhecidos desta época são o Dr. Azevedo (Matemática e Desenho), que leccionará em todas as instalações, o Dr. Rosa Bruno (Matemática e Físico-Química), o Capitão Dario Preto Ramos (Desenho), o Maestro Carlos Silva (Canto Coral), o Dr. Melo (Latim e História), a Dra. Marília (Matemática), o Dr. Mário Braga (sim, o conhecido escritor foi aqui professor de Filosofia), substituído depois pelo Dr. Catarino. Desde o primeiro dia faz parte dos quadros a Dª Anita Nascimento, professora de Lavores e depois também funcionária administrativa, que será a única pessoa que se manterá ao serviço do Colégio durante os seus quase trinta anos de funcionamento.




Entre 1945 e 1950 serão directores o Dr. José Brilhante de Paiva, um professor da Nazaré, depois o Dr. José Melo, dizem que muito cioso dos brasões e pergaminhos da família e a Dra. Lídia Gomes, antiga professora do Caldense que posteriormente fundará o Colégio Nuno Álvares no Bombarral.



É neste período que se atinge o objectivo final, perseguido há vários anos pelos diversos colégios anteriores. No ano lectivo de 1947/48 o Externato Ramalho Ortigão lecciona o 7º ano do Curso dos Liceus (Letras e Ciências) permitindo finalmente que os filhos dos caldenses transitem directamente da sua cidade de origem para a Universidade da sua escolha. Vinte anos tinham passado desde a formação da sociedade de António Augusto Ferreira e Justino Moreira, e os restantes militares, no Colégio Moderno, precisamente com essa intenção.
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Rapidamente o número de alunos cresce e duas mudanças se sucedem em Outubro de 1951: os alunos da primária (e em 1952 os do 1º e 2º ano do Ciclo) ocupam o primeiro andar do prédio que faz esquina entre a Heróis da Grande Guerra e a Rua do Jardim (onde o Dr. Lamy instalará o seu consultório) e os restantes passam para os dois primeiros andares do “prédio do Crespo”, situado no nº 91 da R. Capitão Filipe de Sousa, ali colado à antiga Garagem Caldas. Graças à habilitação conferida pelo seu Curso Comercial é nomeada responsável por este polo destinado aos mais novos a famosa Teodora Costa (vulgo Dª Dora, com um penteado que é uma lenda no ERO).




Continuam alguns dos professores (Dr. Rosa Bruno, Dr.Azevedo, Dra. Lídia Gomes, Dra. Alda Lopes, Maestro Carlos Silva), mas surgem novos nomes: Dr. Manuel Perpétua (Português e História), Escultor Macário Dinis (Desenho), Dra. Irene Trunninger Albuquerque (Línguas várias), Dra. Lúcia (Francês), Padre Teodoro (Religião e Moral), Dr. Umbelino Torres (Latim) e, mais tarde, quatro professoras que também leccionavam na Escola Comercial, a Dra. Alice Freitas (Português e Francês), a Dra. Elvira Bento Monteiro (Grego), a Dra. Deolinda (Histórico-Filosóficas) e a sua sobrinha, a Dr.ª Margarida (Matemática). Na secretaria está a Dº Eulália e os contínuos são o Sr.Madeira e a Sra. Albertina. As aulas de Ginástica eram no pátio, quando a chuva permitia, conduzidas pelo Capitão Hipólito que, curiosamente, dava também aulas de Português, mas essas independentemente das condições climatéricas. Ginástica e Português mostram a grande versatilidade lectiva deste militar.


A directora da transição é a Dra. Alda Lopes (50-52), filha do fundador Dr. Júlio Lopes, que ocupa o cargo no último ano na Miguel Bombarda e no primeiro na Capitão Filipe de Sousa, depois substituída pelo Dr. Manuel Perpétua (52-58) que, com uma gestão polémica, deixou poucos amigos no Colégio, especialmente no grupo de sócios proprietários … Funda um Internato em Porto de Mós em 1958-59 levando consigo um importante grupo de alunos do ERO. O mesmo tinha tentado o Professor Rosa Bruno em 1954 quando, incompatibilizado com o Dr. Perpétua, fundou um outro colégio em S. Martinho. Mas esse sem sucesso.

Os laboratórios, embora já existentes nas anteriores instalações, são ampliados e providos com mais e melhor material, mostrando uma vontade firme de melhorar a qualidade do ensino. A grande carência é sem dúvida um ginásio, embora a Educação Física já não tenha nos anos 50, para a sociedade e o regime, a importância dos anos 30, quando eram exemplo os fascistas e os nazis que glorificavam o corpo e a raça em gigantescas demonstrações atléticas e desportivas.


Não há actividade da Mocidade Portuguesa dentro do Colégio nestes anos, mas muitos alunos se associam voluntariamente às suas actividades desportivas, que tinham lugar Sábado à tarde na Mata, sob a supervisão do Sargento Peixoto (excepto futebol, que não se praticava na MP). Além do desporto a possibilidade de participarem nos acampamentos (uns dias fora de casa…) era também um aliciante.




Neste período realizam-se encontros, sociais e desportivos, com outros estabelecimentos de ensino, nomeadamente os Regentes Agrícolas de Santarém e o I.V.S. São normalmente jogos de Futebol (fotograficamente documentados no Álbum de Recordações) seguidos de lanches ou bailes: “Eu sou um ex-aluno (1957/8/9 ) do IVS - Instituto Vaz Serra de Cernache do Bonjardim (também chamado Instituto de Voos Supersónicos…) e fiz parte da equipe de futebol que anualmente defrontava o Ramalho Ortigão, um ano em Cernache e outro nas Caldas. Num ano, que não posso precisar, a vossa recepção, após o jogo, foi-nos oferecida no Casino das Caldas. Eu fui à chegada pescado para ir almoçar a casa da Teresa Caldeira (o que é feito dela?). Vocês tinham um craque que, salvo erro, já jogava no Caldas e que veio a jogar na Académica.
Passávamos o ano à vossa espera! O nosso colégio também era misto e daí acontecerem cenas giras nos encontros e o esmero nas recepções ser recíproco.”( Acácio Leite, a alcunha no IVS era Yustrich).
Uma dessas cenas giras será relatada oportunamente no Blog.

Ainda não se realizam Bailes e Excursões de Finalistas como virá a acontecer na década de 60 . Há relatos de diversas viagens, mas sempre dentro do país, nunca ultrapassando um ou dois dias. Os bailes e festas são na garagem do edifício, graciosamente cedida pelo proprietário para o efeito. As mais importantes actividades extra-curriculares são talvez as Récitas no Teatro Pinheiro Chagas. Estão no arquivo fotográfico do Blog alguns programas que mostram bem o empenho de professores e alunos nestes eventos que envolvem música, teatro, bailado, poesia… O Dr. Rosa Bruno e o Maestro Carlos Silva surgem como grandes promotores, animadores e até participantes destes espectáculos que envolvem dezenas de pessoas. Não tenho ideia de na década seguinte se realizarem festas desta dimensão no edifício da Diário de Notícias.

A nomeação do Padre António Emílio para substituir o Dr. Manuel Perpétua, no Verão de 1958, prenuncia grandes mudanças que estavam para acontecer.

(continua)