ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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AS MEIAS VERMELHAS

Aqui estão 3 “ajudas” para identificar o dançarino de Hula Hoop:
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1 – Nova fotografia da mesma época com o autor sentado ao lado do Professor de Filosofia.
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2 – Texto sobre a mesma época. Ou como uma paixoneta por uma rapariga com meias vermelhas dá origem a uma aprendizagem intensiva de Hula Hoop.
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3 – Canção “chave” que desde essa mesma época (década de 1950) o autor elegeu como das suas preferidas. Trata-se do célebre tema Misty de Errol Garner, mas cantado pelo Johnny Mathis.
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“No ano lectivo de 1957-58 frequentava o liceu Pedro Nunes e, desde há cerca de 2 anos, vivia a descoberta de uma música estranha que ia crescendo e envolvendo a Juventude: o Rock´n Roll...

Sempre que passávamos por cafés perto do liceu, aproveitávamos para meter moedas nas "juke-box" para ouvirmos, deleitados, os discos de 45 rotações com as canções dos Everly Brothers, do Elvis ou do Paul Anka.

Ao fim de semana acorria aos bailes no Centro Recreativo perto de casa, onde assistia quer a exibições dos Conchas a cantarem adaptações (“Sonhos”, p.ex.) dos Everly Brothers, quer à Zezinha Meireles (nitidamente preferida pela organização) a interpretar a Malaguenha ou a Granada.

Depois havia o essencial: O Baile.

E aqui assistia-se também a uma competição entre a música “velha” e a música “nova”… Claro que sempre tentávamos influenciar quem controlava o gira discos para se ouvirem, em vez de Tangos e Passo dobles, as canções dos Platters ou da Connie Francis... Aos primeiros acordes musicais os rapazes lançavam-se em direcção às cadeiras onde as raparigas se reuniam conversando em pequenos grupos e… no caso de não se conseguir obter o par desejado, podia “marcar-se” uma dança com antecedência.

Ou seja havia uma verdadeira “lista de espera” para as jovens mais requisitadas, que usavam (grande moda) meias “collants” de cores fosforescentes (talvez para nos encandear…)… Azuis… Verdes… Amarelas, etc. Os rapazes ripostavam com camisolões vermelho vivo.

Num desses bailes, já perto do Natal de 1957, surgiu porém uma rapariga lindíssima e loiríssima com meias vermelhas (super fosforescentes claro) que “arrasou”… Ou seja a rapaziada fascinada queria dançar só com ela… E eram correrias e empurrões a ver quem chegava primeiro. Claro que eu nem me atrevia. Não só por timidez mas também porque não sabia ainda dançar. A timidez aliás fazia com que apreciasse em particular a canção "Misty" cantada pelo Johnny Mathis e com a qual me identificava – sobretudo nas horas mais melancólicas. Por exemplo quando durante a semana sonhava com a rapariga das meias encarnadas. Acho que cheguei mesmo a ter alguma febre, para a qual, o médico lá da rua, o Dr. Castilho, não conseguiu explicação. Claro que só eu sabia que a origem da temperatura excessiva era… vermelha…

Até que houve uma tarde de baile no Centro em que aconteceu algo totalmente inesperado. “Contra a corrente” e o hábito a rapariga das meias encarnadas – provavelmente intrigada porque só eu não a procurava para dançar – afastou meia dúzia de pretendentes e avançou até mim… Deu-me a mão e levou-me para o meio do salão… Atónito, senti o meu coração fazer BUMMMM, ao mesmo tempo que deixava de sentir as pernas e um calafrio me percorria o corpo… E agora??? Como fazer se não sabia dançar…. Resolvi andar ao ritmo da canção a ver se acertava… E de facto acertei... Mas foi com um sapato numa das meias vermelhas que se rompeu…

Tristíssimo com aquela tragédia e cada vez com mais “febre” resolvi aprender intensivamente a dançar, para mais tarde tentar resgatar-me perante a dona das meias vermelhas. Na altura (e como não tinha um tio como o João) a melhor professora de dança, recomendada por toda a rapaziada, era a empregada doméstica do tal médico lá da rua. Então durante semanas com o nariz encostado às nódoas do avental da Eduarda (assim se chamava a empregada do Dr. Castilho) lá ensaiei: um dois…. um dois… um dois três… Depois ainda de “treinar” também em frente ao espelho, e já me sentindo “apto”… lá fui ao baile – à reconquista da atenção perdida… já nos primeiros meses de 1958…. Esperava-me uma desilusão… A rapariga das meias cor de sangue já tinha, entretanto, encontrado um namorado com o qual dançava “em exclusividade”…

Como tinha acabado de sair o Hula Hoop cantado pela Teresa Brewer, resolvi aprender todos os truques com o arco e tornar-me campeão para ver se chamava de novo a atenção da rapariga dos meus sonhos… De facto conseguia ganhar, pouco depois, os frequentes concursos de Hula Hoop (e mais tarde de Twist) que se realizavam com frequência. Mas a dona das meias só a consegui reencontrar cerca de 5 anos depois.

Entretanto chegaram as férias grandes, que duravam uma eternidade, numa praia que não se chamava S. Martinho. Foi tempo de regressar a calma e a poesia do “Misty”…

Durante o Verão seguinte esqueci a “febre vermelha” enquanto tudo em volta parecia estar em harmonia. Muito sol, muito azul e o aroma morno dos pinheiros nos fins de tarde, a servirem de fundo a novo romance de Verão, acompanhado de mil borboletas a agitarem as asas dentro do meu peito... Na praia acompanhado com namorada nova comia umas deliciosas "Bolas de Berlim", vendidas por mulheres negras enormes e gordas. Em alternativa havia o homem branco dos barquilhos… O Estado Salazarista parecia apostado em que nos sentíssemos como num Paraíso artificial… Em que tudo estava aparentemente bem…

Tempo de longos passeios ao longo da praia, com o eco encantado do mar ao meu lado e de descobrir os reflexos especiais das gotas de água salgada no cetim da pele de Verão...

Acima de tudo era tempo em que era capaz de sentir com facilidade as coisas mágicas em volta...

As palavras mais importantes, e as letras das canções, eram simples, tinham ligação directa ao coração e genuinas... e diziam com uma força e certeza interior inexplicáveis: "forever", "only you", "I love you sincerely"... Porque "a força estava connosco"...

Apaixonava-me com a voz especial do Nat King Cole ao ouvido ("when I fall in love") e após contemplar "nel blu di pinto di blu" , lia Rimbaud, Baudelaire e outros poetas malditos, à tarde na praia, por entre troncos ressequidos que a maré deixava.

Não sabía então que um dia, mais tarde, como já referi, cerca de 5 anos depois a voltaria a encontrar. Numa viagem de autocarro da carreira para Sapadores (era então finalista do liceu Gil Vicente – para onde tinha sido transferido), reparei numa mulherzinha baixinha e gorda com uma criança ao colo. Com cabelo castanho escuro e vestindo modestamente revelava traços de cansaço no rosto. A vida que atravessara tinha sido, certamente, dura. Durante a viagem não pude de deixar de ficar intrigado de onde conheceria tal pessoa já que nada me identificava, aparentemente, com a personagem… Só após abandonar o autocarro consegui relacionar as fisionomias e perceber que tinha estado em presença da rapariga das meias encarnadas…

A par do Hula Hoop, do Twist ou do Madison, aqueles tempos eram sobretudo feitos de desencontros…

O CAMPEÃO DE HOOLA HUP

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A propósito da recordação da febre do Hoola Hup recebemos um curioso recorte do Diário Popular (em 1959), que junto reproduzimos. Aproveito para fazer duas pequenas considerações :


1 - O recorte de jornal está degradado pelo tempo e a humidade e não é legível o nome deste "Campeão" . Sabemos que reside há muitos anos nas Caldas, embora tenha nascido e estudado (como se pode ler) em Lisboa. Parece ser ainda hoje bom dançarino, mas é mais conhecido por outros talentos e actividades.


2 - A propósito de uma recente controvérsia sobre as mal sucedidas aulas de hoola-hup do João Serra, este recorte parece dar-lhe razão. Uma curta pesquisa permite situar a "febre" desta moda entre 1957 e 1959, quando o nosso colega teria 8/9 anos. É pois pouco provável que o Tio César desperdiçasse aulas de dança com tão jovem sobrinho. Seria outro o aluno do tio César, talvez alguma "sobrinha" de que ainda não ouvimos falar...

Quem é que consegue dar um nome ao "Campeão" ?
Clica sobre a imagem para a veres no seu tamanho original.
Envia o teu palpite para ex.alunos.ero@gmail.com

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PALPITES
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João Fernando Orozco Paneiro (Neco) palpitou:
Dr. Leonel Alexandre Tomás Cardoso (Néné)

RESPOSTA:
Estava à espera que dissessem esse nome, mas não é... O Néné era um pouco mais novo em 1959, se fizeres bem as contas.
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António disse:
Cá para mim é o Neco, a identificação dele, tão rápida, foi só para despistar. A propósito, quem te fez chegar o recorte foi o próprio?
RESPOSTA:
Não, não é o Neco.
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JB Serra disse:
Não arrisco um palpite (a menos que o editor do blogue nos dê, como nos concursos, 3 hipóteses), mas arrisco um comentário.
Em primeiro lugar para agradecer ao (por enquanto anónimo) autor deste post a oportunidade de me justificar perante a acusação infundada de que eu não teria contado toda a triste história do meu insucesso na aprendizagem para dançarino.
Em segundo lugar, para me associar, com 50 anos de atraso, ao merecido elogio ao acrobático e perseverante aluno do Pedro Nunes que conseguiu ficar 3 horas de braços levantados a fazer rodopiar 5 argolas, suponho que sem paragens técnicas e sem prémio à vista.
Em terceiro lugar para sugerir que para o tal dia de Novembro de 2009 desde já se contrate este performer guinessiano para competir com o meu Tio, pelo menos no Hula-hoop. Creio que todos me concederão neste caso uma justificada dispensa. João Serra
RESPOSTA:
Vou ponderar a hipótese de fornecer ou mais alguma pista ou uma lista de nomes. Mas penso que não será necessário, já que o "artista" é bem conhecido de todos. Vamos aguardar.
Quanto à dispensa do Hoola-Hup do Serra, embora reconhecendo alguma razão ao seu pedido, encaro-a como um lamentável empobrecimento lúdico do nosso próximo encontro...
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João Ramos Franco disse:
Também não arrisco um palpite, mas apesar de alguns veraneantes tentarem introduzi-lo no nosso meio, o Hoola Hup não teve muitos aderentes (que me recorde). O Twist sim, esse toda a malta dançava.
Nós não tínhamos o Tio do João Serra como professor, mas tínhamos o Toni Vieira Pereira que, quando nós íamos ao bar molhar a goela, cansados, dizia:
-Isto de dançar tem os seus princípios filosóficos e já que Jean Jacques “Rousseau” nós devemos continuar…
João Ramos Franco
RESPOSTA:
Se bem percebi o comentário, o pouco êxito do Hoola Hup nas Caldas deveu-se, na opinião do J R F , à grande distância que o arco impunha entre os dançarinos...
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Carlos Gouveia disse:
Será o Dr. Vasco Trancoso? Ele não é das Caldas, mas creio que de Lisboa, deve estar cá há 30 anos, é conhecido de todos e guarda certamente os recortes dos jornais.Um abraço Carlos Gouveia
RESPOSTA:
BINGO!

Comentários Finais do Tio e do Sobrinho

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Este são os comentários finais aos artigos e comentários
anteriormente publicados, que poderão ser consultados em :
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1 - O TIO (César Pratas)
Obrigado bloguistas


Depois de lidos os comentários o que é para mim curioso é que os textos foram entendidos no preciso significado do que do está escrito e do que não está e se adivinha. Os meus Amigos viram por detrás dos textos e interpretaram os sentimentos e foi uma alegria de alma lê-los a todos. Mas devo fazer uma referência especial ao modo como o João Jales dissecou o meu texto e o tratou confrontando o João. Foi exímio e o resultado agora é que o João vai ter que explicar muito bem explicadinhas algumas contradições evidenciadas.

O tradicional conflito de gerações ( que no caso nem o chegou a ser) parecia muito mais evidente entre o tio e os Pais do João do que entre o João e o tio.

E por isso se adivinham outras histórias porque afinal a relação entre as duas gerações (tio e sobrinho) era complementar e não oposta. E na verdade tais histórias existem e até, se calhar, vale a pena contá-las.

Não consultei o João antes de remeter o texto. Quis fazer-lhe uma surpresa. O João disse-me, por SMS, que se lembrava das caldeiradas mas não do “Hula hup”. Mas que lhe tentei ensinar tal ritmo, lá isso tentei.

Quero ainda referir que o Pai do João, Eurico Bonifácio Serra que já não está entre nós mas cuja memoria guardo viva no coração, era um homem muito culto com quem tinha uma excelente relação. Usei e abusei da sua hospitalidade sendo sempre recebido com genuína alegria. Muitas vezes, à noite, deliciava-me a discutir com ele filósofos ou os clássicos da literatura. Escrevia correctamente e publicava os seus textos regularmente na Gazeta das Caldas. E do seu carácter ressaltava uma honradez quase feroz. Ao falar na sua reacção às lições de dança não ponho em causa a grande amizade e respeito mútuo que entre nós existia.

Finalmente se for entendido que mereço estar presente no jantar, pois que venha esse convite que mandarei o meu manager combinar as condições da deslocação sendo que metade da factura será depositada numa conta off shore. Estou a preparar um carnet para tomar nota das inscrições para o "Dança Comigo"... comigo.

Pedi a um amigo para me obter alguns arcos para o “Hula hup”, que após a dança serão sorteados pelos presentes, sendo o respectivo montante destinado a erigir uma estátua ao Dr. Fernando Costa quando comemorar o primeiro centenário como Presidente da Câmara em exercício.

Fiquei atento ao sorriso de Belão e não calculam o gozo que me deu ter descoberto que sobre tal sorriso não há incidência de IRS.

Se me derem licença voltarei certamente ao Blog. Afinal eu não fui aluno do Ramalho Ortigão mas frequentei assiduamente as suas proximidades o que não sendo a mesma coisa também ajuda.

E não se iludam senhores bloguistas quando pensam que o tio ensinou o sobrinho. Leiam outras histórias e verão.

Vosso
César Pratas
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2 - O SOBRINHO (João Serra)
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Caro João Jales, caro César, caros companheiros deste Ponto de Encontro: esta “short story” escrita, de cumplicidade com o JJ, com o único objectivo de preencher os tempos “mortos” do Verão, acabou por tomar um rumo imprevisto. Não posso correr o risco de fazer mais comentários. Que diz a 5ª emenda da Constituição americana, tantas vezes invocada nos romances policiais? – Posso permanecer em silêncio, para evitar que as minhas palavras possam ser usadas contra mim … Sem prejuizo, de, mais à frente, se aqui me quiserem acolher de novo, vir a contar mais histórias geradas por tão fértil imaginação como era a o meu Tio (e, a julgar pelo que agora conta, ainda é …)

Mas peço licença a todos para aqui publicar um texto relativamente antigo. Espero que ele nos ajude a perceber o que agora inesperadamente sucedeu. Endereço-o em especial aos bloguistas que mais se interessaram pelo tema da iniciação, a Guidó, o João Ramos Franco, a Manuela Gama Vieira, a São Caixinha.

RETRATO DE JOVEM TIO

“Num balanço sumário, só me lembro de um fracasso estrondoso: ensinar-me a dançar. As lições decorriam na sala de jantar, ambos de sapatos descalçados, enquanto ele entoava a música e procurava transmitir-me o sentido dos passos e a elegância das poses. Em vão: o pé de chumbo e a dureza de ouvido (meus) resistiram a tudo. Em contrapartida, um interminável conjunto de comportamentos, convicções, projectos foi o meu tio que soube inspirar, acarinhar, suscitar. Alguns exemplos: descobriu e incentivou em mim uma vocação literária; questionou as minhas conservadoras juvenis ideias feitas; orientou os meus contactos e preocupações intelectuais; conduziu-me à descoberta dos grandes valores do inconformismo face à prepotência e à injustiça e aliciou-me para o empenhamento no combate contra o autoritarismo.

Entre os 14 e os 17 anos, o meu jovem tio foi uma referência decisiva. Preencheu o espaço do irmão mais velho, do professor, do companheiro, do ídolo, do cúmplice, do mentor, do amigo. Tinha alguns anos mais, mas detinha sobretudo uma experiência intelectual e de vida que representavam uma segurança e uma força interior - tão reconfortantes para mim, pobre prisioneiro de dúvidas e inseguranças. A pequena diferença de idades facilitava a partilha do gosto da aventura (da caça e da pesca, por exemplo), da actividade física e desportiva (foi com ele que aprendi a nadar e a jogar pinguepongue), da irreverência da escapadela ou da mentirola inocente.

As alturas em que vinha passar férias connosco eram aguardadas com a maior das expectativas. Órfão de pai muito novo, o meu tio começara a trabalhar ainda na adolescência. Tinha sempre pouco dinheiro, mas a imaginação para tornear essa aparente dificuldade crescera em proporção. Lançando mão dos mais variados expedientes, o meu tio não deixava de ir à praia, de visitar as inúmeras e misteriosas namoradas, de ir às festas de alguns dos seus amigos e conhecidos das Caldas.

Para o adolescente rural que eu era, curioso mas relativamente isolado, aquele meu tio materno foi uma janela rasgada sobre um mundo fascinante: urbano, contestário, trepidante, agitado por combates arriscados e mobilizador de sentimentos fraternos. O contágio foi pois inevitável. O meu Pai presentiu-o, provavelmente inquieto perante a óbvia sedução que o perfume da grande metrópole, que se desprendia do cunhado, exercia sobre o filho. Viu-se, porém, derrotado pela jovialidade contagiante e a eficácia verbal do futuro advogado. A minha Mãe adivinhou-o igualmente, e certamente também se inquietou, mas como resistir à agitação efusiva e transbordante gerada por aquele meio-irmão mais novo, que em tantos momentos se confundia com o próprio filho?

O sebastianismo camponês alimentou o mito do tio que deixa inesperada fortuna. Ao meu jovem tio fico a dever muito mais do que isso: o encontro comigo próprio."

João Serra
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3 - Os Outros!
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Belão disse:
É sempre um gosto ler o João Serra, nos seus vários registos. Desde as suas obras, que fizeram parte da bibliografia que me foi aconselhada pelo orientador (Mestre Pedro Flor) do trabalho final do Complemento de Formação que concluí na Univ. Aberta, até estas pequenas delícias com que nos tem presenteado, consegue sempre prender a minha atenção e sei que assim continuará.
Quanto ao seu tio César, achei imensa piada não só ao facto de surgir no blog "a ajudar à festa", mas também ao humor que da sua escrita emanou. E é verdade que ri bastante! E quero poder continuar a fazê-lo. Por isso, amigo César, é mesmo bom que venha ao próximo almoço do ERO e que esse "Dança Comigo" aconteça! Eu alinho! Bjo ao tio e sobrinho.Belão
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João Jales disse:
Concluo que "...e aos costumes disse nada", porque essa da 5ª Emenda é dos americanos, nós por cá gostamos de tudo explicado, tintim por tintim, preto no branco...
Eu fico convencido que, em todas estas questões, é o tio que diz a verdade e o sobrinho que se esconde atrás de artifícios legais. Ficamos à espera de mais informações sobre esses tempos, para podermos tirar mais conclusões.
A presença do tio no próximo encontro ERO parece agradar a todos menos ao sobrinho, seguramente receoso dos "esqueletos no armário" que o tio poderá revelar. Caro César, duzentos pares de ouvidos ansiosos esperam por si!
JJ
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Manuela Gama Vieira disse:
O João Serra trouxe a lume a vertente afectiva que,de resto,o leitor pressente, quer em "As aulas do meu Sobrinho", quer em "As aulas do meu Tio".Penso que foi igualmente retratada uma época em que:
-A criatividade era estimulada;neste caso, com imenso talento e muito diversificado:da dança ao ping-pong, até a culinária tinha o seu lugar,sem compras no hiper-mercado...
-A juventude tinha preocupações de ordem ideológica e intelectual,estava atenta ou...adivinhava a mudança de que seria protagonista
-Os "preconceitos" familiares,ou seria uma questão de pudor entre gerações?Os Pais não acharam a dança adequada,mas o facto é que,segundo o Tio,o João também não se sentia muito à vontade "exibindo-se"frente a seus Pais.
-A solidariedade familiar,bem patente no caloroso acolhimento ao Tio que..."se fazia anunciar"
Em suma:Uma FAMÍLIA deliciosa!
Ao João:
-Acho muito bem que recorra à Quinta Emenda da Constituição dos USA;afinal, "o feitiço pode virar-se contra o feiticeiro"....Os Tios sabem sempre mais,bem se vê que não esqueceu as abençoadas lições de seu Tio;...gato escaldado...
Ao Tio:
-Como nos velhos tempos,pela mão de seu sobrinho,lá vai ao jantar do ERO!!!Água mole em pedra dura...O prazo combinado relativo à "compensação",com que seu sobrinho o brindava (de que fala no texto das Aulas),se calhar foi vitalício!!!!E é convencido,ainda por cima!!!Com que então aceita inscrições???
Por fim...nem calculam como sei avaliar o que vos une!Mantenho uma relação muito semelhante com o meu irmão Luís Filipe,(nascido nas Caldas),mais novo que eu 14 anos!!!
Então,João e Tio,ainda têm 1 ano para se treinarem...
Relativamente a mais histórias...elas que venham,eu bem dizia que o ano lectivo ainda agora havia começado,atento o estrondoso êxito destes dois excelentes "cuidadores"da língua portuguesa.
Ao João Jales,um BRAVOOO!!!
A todos,um abraço!
Manuela Gama Vieira
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Luisa disse:
Há realmente muita ternura e cumplicidade nesta "troca de galhardetes", que não é só familiar, diz-nos respeito e traz-nos recordações a todos. Twist, Hula-Hup, os rapazes a mirarem as raparigas (na Ladeira), as festas, a praia, os divertimentos (sempre inventados com muita imaginação e pouco dinheiro).... Obrigado!!! Bjs. Luisa
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São Caixinha disse:
Tendo em vista que não receio que o João Jales alguma vez nos vá privar dos seus divertidos e perspicazes comentários passo a dirigir-me ao João Serra, para que este sobretudo não se deixe intimidar e nos queira continuar a contar as suas estórias ... qual 5a Emenda da Constituição Americana qual quê... a arte é uma interpretação da realidade! O artista é um filtro a deixar passar o que a sensibilidade lhe impõe... e a recriar a vida! (...e as omissões neste caso até parecem ter sido quase completamente responsabilidade da memória!!)
Dirijo-me ainda ao tio, a quem não fiz justiça na escolha do adjectivo com que o anteriormente caracterizei, visto que são muitas mais as qualidades! Fico feliz por o saber participante neste blogue e espero poder ter um lugar na sua lista de dança no próximo almoço... já agora...eu preferia o Foxtrot ao Twist...mas se tiver a disposição e a amabilidade de me dar alguma orientação neste último tenho a certeza que fico em estado de fazer a Uma Thurman passar ao esquecimento!! Obrigada a todos por uns bons momentos!
São Caixinha

As aulas do meu Sobrinho

por César Pratas


Eu sou o tio do João Serra e, face à manifestação exuberante de interesse provocada pelo seu texto “As aulas do meu Tio”, venho dizer que sim senhor, que é tudo verdade o que o João conta mas que ele cometeu, pelo menos, duas omissões na sua descrição, a saber: a primeira é que se esqueceu definitivamente que lhe tentei ensinar também o ““hula hup”” . A segunda é que se esqueceu de contar como era por ele, pessoalmente, compensado o meu tremendo esforça para o ensinar a dançar.

Naquele verão dedicado ao “twist”, à natação e também ao ”hula hup” digo eu agora para repor a verdade histórica que tanto preza ao João, o meu sobrinho deu-me várias alegrias e tristezas. Não acertava uma com nenhum dos pés na dança. Levantar os pés do chão era uma operação delicada de grande peso emocional e esforço físico a condizer. Acertar o ritmo era coisa que nenhuma batuta conseguia fazer fosse qual fosse o seu peso ou o lugar do corpo onde batesse. Em certo momento, no desconforto da situação julguei mesmo que o erro era meu e deveria ter orientado a minha docência para aulas de valsa ou de bolero, a primeira mais clássica, a segunda mais lenta. Ma o esforço era inglório. Também não posso garantir que os meus dotes de cantor e orquestra improvisados, fazendo de saxofone e bateria, clarinete ou trombone fossem suficientemente impressivos e entusiasmantes para levar o João a levantar os pés do chão. Estou convencido que não. E a verdade é que o olhar desconsolado e algumas gargalhadas da Mãe dele perante as variações muito pessoais e não autorizadas dos temas interpretados contribuíram certamente para a falta de êxito da experiência. Em desespero de causa lembrei-me ter lido algures uma teoria segundo a qual as pedras que constituem as Pirâmides tinham sido levantadas e colocadas no seu lugar com precisão milimétrica através do uso da música como força impulsionadora. Confesso que não consultei ninguém sobre o assunto, certamente por falta de tempo útil para o efeito e a verdade é que os pés do João em ar de desafio permaneciam tão agarradinhos ao chão que pareciam colados. Riam-se, de mim e do meu esforço.

Mas passemos às omissões:

Quanto à primeira omissão a verdade é que não foi só o “twist” que lhe tentei ensinar. Foi também o “hula hup” . O “hula hup”, para se dançar exigia um apetrecho de madeira ou plástico em forma de anel, de tamanho e espessura variáveis, e o objectivo era mantê-lo na cintura mediante movimentos rotativos dos quadris. A manutenção do arco nos quadris exigia certo ritmo e um movimento das ancas semelhante ao que fazem certas dançarinas árabes.

Mas as tentativas de ensinar o jovem João a usar o “arco” (como se designava vulgarmente o anel) foi uma experiência ainda mais deprimente. O maneio da cintura em evoluções com o seu quê de erótico não se quadrava bem com o olhar inquisidor dos Pais. Ainda esbocei uma “sessão de esclarecimento” avant la lettre mas devo confessar que foi um completo inêxito. Comecei a ouvir o pigarro do Pai e a ver alguns gestos bruscos da Mãe cuja interpretação mais consentânea com a amizade que a todos nos unia ia muito no sentido de “ou paras de ensinar essas coisas esquisitas ou acabas já as férias e regressas às origens” (neste caso Lisboa), porque o João não tinha que possuir tais atributos, muito mais fruto dos devaneios do tio do que da necessidade da sua educação. A decisão de retorno às origens era difícil de aceitar com o orçamento de férias esgotado, como bem sabia o João. E o proletariado sucumbiu.

Por isto e a bem do esclarecimento da relação entre os pés do João e o “hula hup” deve dizer-se que o pouco empenho do João na dança do “hula hup” estava muito mais ligado ao pouco entusiasmante apego da família aos movimentos, talvez mesmo provocatórios, senão eróticos, das ancas, do que ao peso dos seus simpáticos pés. Aí foi a interpretação conservadora do objectivo de tais movimentos das ancas que tornava insustentável a continuidade saudável das lições. E ainda que alguma benevolência por parte dos Pais do João desse acolhimento a estas arremetidas do tio, a verdade é que o maneio das ancas ultrapassava tudo o que até à data o tio tinha feito lá em casa, desde lições de dança com o tio e fazer de par feminino a lições de natação sem água e de resultados duvidosos, a torneios de ping pong que deixavam as mesas e os cortinados em mau estado tal a emoção e entrega dos jogadores.

Mas a segunda omissão, e também há que referi-lo, é que o João me compensava amplamente do meu esforço, e digamos mesmo, de algum risco. E logo que chegava ele prometia apresentar-me a algumas colegas do Ramalho Ortigão. E honrava sempre a sua promessa ou fazendo-me participar em festas de aniversário ou promovendo encontros. O Ramalho Ortigão tornou-se um ponto de referência para visita obrigatória sempre que ia às Caldas. Digamos mesmo que fui algumas vezes ás Caldas na esperança de assistir à saída das aulas do Ramalho Ortigão. pois as alunas eram uma festa para os nossos olhos. Comecei a sentir nessa altura que estudar naquele Colégio constituía um atributo que distinguia as pessoas.

A outra compensação era as caldeiradas. O João fabricava caldeiradas com maestria e com dedo para o tempero. Talvez porque não necessitasse dos pés para as confeccionar, as suas caldeiradas levavam qualquer palato às alturas mesmo sem orquestra e sem batuta. Após as aulas de natação na Foz do Arelho íamos aos lingueirões e ao berbigão e o João confeccionava com apuro aquelas espécies que ingeríamos com emoção. E os seus cozinhados contribuíram para restabelecer a minha auto confiança seriamente abalada com as experiências no ensino da dança. Obviamente que não estava a preparar o João para o Dança Comigo que na altura não existia. Mas as pessoas têm a sua dignidade...

Cesar Pratas

Ver a dança do Hula Hup em :

C O M E N T Á R I O S
Margarida Araújo disse:
Cada vez mais surpresa! Já sabia(amos) o bom escritor que o João é. Temos agora também um tio.
Parabéns pelo pedaço de prosa deliciosa, viva e também reveladora do carinho que tem pelo João. A história revela-nos também uma enorme persistência, uma alegria de viver e muito humor.
Devo confessar ao tio do João, que já me andava a preparar para um twist, havendo só um pequeno problema: foi mencionado o nome da Uma Thurman, e eu até já tinha ensaiado aquela parte dos dedos em V, mas é difícil, literalmente, estar à altura dela (deve ter quase 2 m).
Agora com "hula-hup" é que me deixou sem fala. Por muito que o João me surpreenda, não o imagino sequer a uma tentativa dessas.
O João que não me leve a mal, mas se calhar era melhor eu dançar com o tio... ou talvez não....
Mais uma vez o meu agradecimento pelo momentos divertidos que me fizeram viver.
Um bj
Margarida
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JJ disse:
Este meu comentário segue a ordem inversa do texto, por pura comodidade, não por discordância com a explanação do autor. Vejamos então.

Segunda compensação: a caldeirada
"O João fabricava caldeiradas com maestria e com dedo para o tempero". A caldeirada não é uma surpresa, tive já oportunidade de testar os dotes culinários do seu sobrinho, estamos de acordo. Só não sabia que eram tão precoces.

Primeira compensação, segunda omissão: as alunas!
“E honrava sempre a sua promessa ou fazendo-me participar em festas de aniversário ou promovendo encontros” e “as alunas (do ERO) eram uma festa para os nossos olhos”. O João “omitiu” realmente esses factos, repetidamente, adormecendo-nos com minuciosas descrições de colegas vestidas como afegãs ou iranianas, que se dedicavam a intermináveis tarefas cristãs nas Guias e afins. E que ele raramente entrevia, quase nem conhecia… Festas ? Promover encontros? Mas nunca ouvimos falar de encontros nem festas, excepto as litúrgicas… Temos muito que conversar, não vem brevemente às Caldas?

Primeira omissão: o Hoola Hup
“A manutenção do arco nos quadris exigia certo ritmo e um movimento das ancas semelhante ao que fazem certas dançarinas árabes”. E diz o senhor que o seu sobrinho tinha dificuldades nessa matéria? Foi mais aí que no levantar dos pés que se “afogou” a carreira do seu sobrinho como dançarino? Obrigando à troca do Hoola Hup e do Twist pela natação, dando-nos um Phelps em vez de, já não digo um Nureyev, mas um Travolta? Tenho a certeza que terá sido mais a negativa atitude familiar do que as qualidades do praticante que levaram a este desfecho.

Ficamos na dúvida do que pedir ao João no próximo encontro do ERO: um Twist com a Guidó ou um Hoola Hup com o Tio e os seus
“dotes de cantor e orquestra improvisados, fazendo de saxofone e bateria, clarinete ou trombone” conforme descreveu… Vou organizar uma sondagem para ver o que o pessoal prefere, mas precisaria de saber desde já: a sua agenda permitiria ser convidado para um almoço no dia 14-11-2009?

Quanto ao Twist estávamos já conversados, não acrescento mais nada à sua confirmação.

Obrigado pela sua disponibilidade e bom humor, foi um enorme prazer receber e publicar o seu texto.
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João Jales
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Manuela Gama Vieira disse:
Ao ler "As aulas do meu Sobrinho",tal como aconteceu com "As Aulas do Meu Tio",tive a sensação de ter sido transportada para um filme que consegui visualizar ao "ritmo" das repectivas descrições,com cenário,música e tudo!!!Se o sobrinho não herdou os genes do Tio "danceur",herdou-lhe os da escrita!É caso para dizer...tal sobrinho,tal Tio.Uma feliz "questão" hereditária,ou será que a arte de bem manejar a "pena" também fazia parte do programa do multifacetado professor?
Já consegui contagiar os meus filhos...Afinal, no tempo da Mãe,a vida não era uma sensaboria!
Quanto à sondagem,fiquem já a saber,o sobrinho e o Tio,voto em TUDO:um Twist com a Guidó e um Hoola Hup com o Tio que deverá brindar-nos com os seus “dotes de cantor e orquestra improvisados, fazendo de saxofone e bateria, clarinete ou trombone”,numa réplica ao "Dança... a mais eu".Aconselho-os a começar já com os ensaios,nem que para tanto seja necessário recorrer aos serviços do Marco di Camilis!
Finalmente,o Tio não tem razões para desespero:o sobrinho surpreendeu-o com a sua primorosa caldeirada.
Mais um finalmente...quanto à saída das aulas das meninas do Externato Ramalho Ortigão,era vê-las desfilar ladeira abaixo,e os coleg(os)...do lado contrário.Eram essas as normas vigentes,até ao "Chafariz das Cinco Bicas":raparigas de um lado,rapazes do outro!Agora é mesmo FINALMENTE!
ADOREI O TEXTO EM APREÇO!!!!
Manuela Gama Vieira
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Luis disse:
Sensacional ter a oportunidade de ver este filme de dois ângulos opostos ou pelo menos diferentes. Adivinha-se um "bon vivant" com quem o João Serra aprendeu mais do que diz - aposto!!! o JJ tem razão nesse aspecto. Parabéns a quem o trouxe ao blogue, mas sobretudo ao próprio pela jovialidade que emana das suas palavras e que muito me divertiu !! E agora pergunto ao Tio e ao Sobrinho: não há lá mais histórias para contar???
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Alberto Pereira disse:
Engraçada esta história familiar!
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Belão disse:
Se a histório do João Serra me fascinou, a do tio então, nem se fala. De facto não imaginava o João tentando ser um expert em dança, mas o que mais me admirou foi a paciência de seu tio na tentativa de o pôr a dançar. Adorei ambos os textos.
Neste início de ano lectivo, foi mesmo a única coisa que me fez rir.
bjo ao João e ao tio. Belão
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Isabel Caixinha disse:
Gostei imenso do artigo do João Bonifácio!Que ternura as tentativas dele de aprender e do tio de o ensinar!E que tio!!!Era mesmo assim um tio que eu gostaria de ter tido com esta imaginação toda e tão criativo!Os ensinamentos dele cobriam uma vasta aréa de assuntos todos eles muito interessantes,talvez um bocadinho "futuristas" para a altura, considerando que os rapazes teriam mais tendência para jogar à bola , matrecos, etc, do que propriamente dançar o "hula hup".Pergunto-me se este último tambem seria ensinado sem 'arco' e só executando os movimentos das tais dançarinas árabes?!Quase que compreendo a apreensão da mãe do João...
E que talento para contar estórias!Tanto o tio como o sobrinho têm uma forma muito especial de nos manter envolvidos nos enredos e de ficar com muita pena que a estória chegou ao fim. Li várias vezes tentando visuallizar as cenas e para além de hilariante é tambem uma estória muito querida!Dos dois artigos fica-me o desejo de ler mais textos de ambos...muitos mais!Que tio!
Até á próxima.
Beijinhos. Isabel Caixinha
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Ana Luisa disse...
O relato do João Serra é muito engraçado,a resposta do Tio não é menos com umas brejeirices que o sobrinho tinha escondido e o comentário do Jales não fica atrás,não acham???Mostrou perfeitamente onde estavam as diferenças entre as duas versões e com piada-na minha opinião.Continuem,o Blogue está sensacional!!!Ana