ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
.
.

Mostrar mensagens com a etiqueta Locais de Encontro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Locais de Encontro. Mostrar todas as mensagens

COMENTÁRIOS FINAIS

Estes são os comentários ao artigo do João Bonifácio Serra, publicado abaixo e que não devem perder. Mas também ao tema desse texto, o final da série sobre "Os Locais De Encontro Da Juventude Caldense 1945-1974". Estão aqui para facilitar a publicação e para permitir a todos ver imediatamente as actualizações diárias que têm surgido.
.
.
C O M E N T Á R I O S

30-06-2008

Ana Nascimento disse:

Bonifácio:
Embora tarde, não quero deixar de te dizer quão grata foi para mim a leitura dos teus “pontos de encontro e reencontro”….
Tantas vivências mencionadas ao longo destas semanas ….. umas semelhantes… outras diferentes…. e tu de um modo muito simples conseguiste mostrar que, no fundo, em todas há um pouco do ERO.
Concordo plenamente contigo, o ERO, que eu recordo com alguma nostalgia e muita saudade, foi o nosso principal ponto de encontro ….
Fechaste com chave de ouro…. obrigada rapaz.

28-06-2008

Ana Nascimento disse:

João Jales:
Quero dar-te um abraço muito grande, onde vai todo o meu reconhecimento pelo que tens feito . Não to disse na altura, mas o teu artigo sobre a ida à Foz está um espanto…. Como me fizeste reviver essas manhãs de nevoeiro … estava lá tudo … até a D. ______ com a sua condução muito especial !!!!! bem … nem tudo… tiveste um bocadinho de azar pois nesse dia, as rochas não estavam vazias e não pudeste deliciar-te com um banho naquelas piscinas naturais ou com então ires apanhar mexilhão… ihihiih
Tu não deixes de escrever rapaz , tens uma maneira muito especial de o fazer … tu agarras-nos à leitura e só ficamos descansados quando a terminamos…

27-06-2008

São Caixinha disse:

Li com prazer a excelente análise do João B. Serra que concluí com elegância a série de depoimentos. As estórias dos Locais de Encontro foram contadas com tanta autenticidade (creio que até as inventadas são verdadeiras!) que não foi nada difícil reencontrar-me por todos aqueles locais onde teimo em acreditar que só fui feliz! Até foi possível imaginar-me nos locais onde nunca estive e onde sem sombra de dúvidas também só poderia ter sido feliz! Isto é nostalgia! Sonhar a olhar para trás...e faz bem á alma!! Obrigada a todos por ter partilhado com tanta honestidade e carinho! João os meus parabéns pela ideia e a magnífica realização! Bjs, São Caixinha

27-06-2008

Zequinha Pereira da Silva disse:

Terminar os Locais de Encontro é uma maldade do JJ... acho que a iniciativa deveria continuar para recolha de mais testemunhos; até porque há gente que ainda não teve a oportunidade de participar. Acho que seria de manter como tópico permanente, ainda que não exclusivo, do blog. Se não falarmos da nossa saudade vamos falar de quê? Seria interessante, por exemplo, a construção dum "Procura-se vivo e dão-se alvíssaras...." onde cada um pudesse ir fornecendo as suas "coordenadas" actuais.Tenho receio que uma orientação sequencial temática "feche", demasiado depressa, o potencial do blog....abrem-se sugestões?

26-06-2008

Chico Carrilho disse:

Olá. Os "LOCAIS DE ENCONTRO DA JUVENTUDE CALDENSE" foi, de facto, um sucesso. Foi com alguma emoção e bastante nostalgia que, quase diáriamente, fui acompanhando os relatos dos intervenientes. É claro que acabei sempre por me identificar mais com aqueles que reflectiam uma realidade na qual eu também participei, e daí a minha única intervenção aquando do "MUCH", que o Mário Xavier nos recordou. Peço, desde já, desculpa pela minha fraca participação, mas quero deixar bem claro que sou um leitor assíduo e interessado do blogue. Aproveito também para felicitar alguns bloguistas, tais como: o João Bonifácio , o Zé Carlos Faria, o Pereira da Silva, o João Jales, não só pela produção de textos interessantíssimos, mas também pela qualidade literária dos mesmos.

Queria também saudar as "irmãs Caixinha" (São e Isabel) pelo carinho e a força que transmitem nos seus comentários e que, apesar de estarem fisicamente longe há já bastantes anos, continuam com o E.R.O. e as Caldas bem perto do coração. Um abraço. Chico Carrilho

27-06-2008

Isabel Caixinha disse:

…depois li o artigo do Bonifácio e, como sempre, é um enorme prazer segui-lo na sua apreciação, desta vez do reencontro!
E por fim agradeço-te imenso, e a todos os colegas, as recordações que vieram soltar, as estórias que partilharam, e a possibilidade de vos reencontrar e podermos juntos reviver um tempo, em que eu tendo perdido muito dessa convivência, a venho aqui reaver através de todos vós !Mais vale tarde que nunca!
Fico ansiosa á espera da nova “série”, muito feliz com a participação de tantos outros ex-colegas, e desejando que Setembro chegue!
Até à próxima!

26-06-2008

Rui Mouga disse:

É com imensa pena que vejo acabar esta primeira fase do nosso Blog. Sinceramente gostei de alguns artigos, não tanto de outros, mas no geral penso que se ficou com uma ideia do que foram "os outros tempos " no ERO. Pena é que muitos dos antigos colegas dos principios dos anos 60 não tivessem dado um ar da sua graça... Para, pelo menos, sabermos do seu paradeiro. Pode ser que na "reabertura" das próximas aulas eles apareçam.

Foi pena que não tivesses publicado as fotos que mandei, possivelmente fica para outra altura.

Boas férias para todos e até "ao meu regresso".

Um abraço do Rui Mouga

(RESPOSTA: As fotos do Rui não estão esquecidas, são o próximo artigo do Blog e já têm um álbum próprio. As férias do Blog serão apenas em Agosto, estamos "abertos" em Julho. JJ)

26-06-2008

Jorge disse:

Este texto é realmente muito bem escrito, como é habitual nele. Só não sei se concordo com o facto de não termos locais diferentes dos nossos Pais (também gosto da música, foi boa ideia tê-la aqui disponível): o Ferro Velho, a Azenha, a Floresta, a Ginginha, a Biquinha, etc, não eram frequentados pelos nossos Pais.

(RESPOSTA: Se releres com mais atenção o 3º parágrafo verás que não tens razão, o autor não disse isso. A frase que lá está é : "Alguns outros fomos nós a descobri-los, a inventá-los." Nada no texto é equívoco, que fala na descoberta de novos Locais.)

26-06-2008

Anabela Miguel disse:

Plenamente de acordo com a Paula, foi um verdadeiro reviver de sentimentos e emoções… muita saudade mesmo!!!A tua ideia, João, para os Locais de Encontro foi muito interessante, e fiquei feliz por ter contribuído um pouco com as minhas memórias de juventude.Todos os depoimentos fizeram-me passar momentos de leitura muito agradáveis e confesso que senti uma doce nostalgia.

Continuem a colaborar no nosso blog para que ele possa continuar sempre em chama.João continua com essa coragem e persistência e que venham mais colaboradores.Um abraço. Anabela Miguel

26-06-2008

Anabela Afonso disse:

Desde o almoço da lareira que voltei à adolescência e juventude.

- Voltei ao E.R.O., com travessuras e cumplicidades;

- Voltei ao Casino, à Zaira, à Talia, às festas particulares ......

- Revi as carinhas jovens e acontecimentos guardados nas minhas memórias;

O mentor de tudo isto guiou-nos duma forma fantástica numa retrospectiva ao passado, aproveitando este local de encontro, tão alargado, que as novas tecnologias nos proprorcionam. Parabéns JJ, por manteres activamente tudo isto. Continua !!!!!!!


25-06-2008

Isabel Sousa e Silva disse:

Viagem

Ao longo de algumas semanas o blog foi "invadido" por recordações de uma época marcante para todos nós – a juventude. Depoimentos vários foram surgindo e provocando aquela "saudável nostalgia" dos tempos que já lá vão e, ao mesmo tempo, uma desmesurada alegria por os podermos reviver. E só posso dizer que a viagem foi maravilhosa!

Estive de novo em salas de aula do ERO, brinquei no parque, assisti a partidas de ténis, corri cafés onde há muito não entrava, ouvi música na Tália, dancei no Casino e joguei cartas,Comprei cromos, andei de boleia até à Foz... e até consegui entrar no espaço do Much Money Group (com um bolinho, claro!)- isto, só para aguçar a curiosidade de quem não viajou comigo.Aos que me acompanharam neste "passeio pelo ontem" tenho de agradecer a companhia e os momentos de alegria que me proporcionaram. Não vou nomear (foram todos excelentes) mas não posso deixar de mencionar o organizador, que tão bem nos guiou.

Para ti, João Jales, um beijinho de parabéns e um obrigada pela forma como tens conseguido manter este espaço vivo e activo.

Hoje, terminada esta viagem, não vou desfazer as malas das recordações. Vou ficar aqui na paragem, à espera da próxima, que desejo que seja muito em breve.Belão

25-06-2008

José Luís Alexandre disse:

Como mencionei no meu depoimento, por pouco não fui aluno do ERO. As razões tiveram definitivamente muito a ver com questões de religião. Afinal não era apenas a questão da assistência ou não às tais missas semanais. É que, relendo a minha ficha de inscrição encontrada lá no sotão na casa do Chão da Parada, e parcialmente preenchida no Verão de 68, lá está a parte relativa à «formação cristã». Se exceptuar a data do baptizado, não estava, e não estou passados estes anos todos, em condições de responder a nenhuma das perguntas. É que, coisas como Crisma, Catequese ou (transcrevo) Profîssão Solene de Fé não fazem ainda parte do meu CV. E as propinas até nem eram demasiado caras. Para um aluno do 6º ano, seriam 500$00 por mês, com a particularidade de: Os alunos que anulassem no decorrer do ano lectivo a matricula em quaisquer disciplinas, continuavam a pagar por inteiro a importância da mensalidade. Além deste montante teria de entregar na Secretaria a importância de 17$50 para o seguro escolar. Ora 500$00 era a renda mensal, e lembro-me como se fosse hoje, dum quarto razoável em Lisboa lá bem no centro, entre o Camões e São Bento, (Travessa dos Pescadores) com direito a dois duches quentes por semana. E ainda com música gratuita bem alta, desde bem cedo de manhã até às tantas da noite, do Rancho Tamar da Nazaré (Não vás ao mar Toino...) que me entrava pela janela vinda da tasca em frente, frequentada maioritariamente por embarcadiços da nossa zona. Afinal, andar no mar, ainda era das poucas formas, que a maioria dos homens adultos tinham de dar uma certa qualidade de vida aos seus familiares. Devo dizer que o meu pai andava na altura no Vera Cruz, que transportou milhares de militares para Angola e Moçambique. A renda que o meu senhorio pagava pela casa toda, com mais 2 quartos, eram 100$00. Enfim um problema que após 34 anos de governação legitimada por votos, incompreensivelmente nenhum dos nossos «ilustres» dirigentes foi capaz de resolver, naquele que é talvez o maior dos anacronismos desse belo pequeno país à beira-mar plantado, e que foi outro dos maravilhosos legados que um ancião de Santa Comba nos deixou.

Mas, voltando a esta série de depoimentos que por aqui foram passando, e que nos transportaram a situações que estavam apenas adormecidas, foi no meu caso pessoal maravilhoso. Reencontrar algumas pessoas com quem convivi durante a minha, afinal curta, estadia na zona onde nasci. Poder voltar a falar mais de 40 anos depois, com o Nuno Mendes e recordar o nosso episódio rocambolesco da minha série do Cavaleiro Andante. Enfim, tudo emoções maravilhosas, que o JJ nos proporcionou, com o esforço dedicado ao blog, e a sua forma tão fácil de nos transportar no tempo, para as boas coisas da nossa adolescência. Sim as boas coisas, que as menos boas, digamos que foram apagadas através dum clicar inadvertido na «mouse» que todas limpou.

Em jeito de balanço direi que me revi em todas as mensagens, até mesmo naquela mais polémica, do Artur Alves (penso ser este o nome), apesar de não concordar de forma nenhuma com o tom agressivo e provocante, que creio ter sido propositado, exactamente para chocar sensibilidades. Como deixei a zona onde nasci há muitos anos, e toda a minha vida profissional foi desenvolvida num país dito de «primeiro Mundo» e, desde praticamente o inicio, num ramo de actividade que me permitiu lidar com gentes de todas as latitudes, é ainda com uma certa tristeza que constato, de cada vez que volto ás minhas origens, que afinal as coisas não mudaram tanto como seria de desejar. Não podemos no entanto de forma nenhuma comparar com o que se dizia e se fazia nos anos 50 ou 60, tal era o nível de sub-desenvolvimento que por aí existia. Como dizia há tempos numa mensagem que enviei para o blog da Escola do meu amigo Zé Ventura, em 68, enquanto em Paris, DeGaulle lidava com Daniel Cohn-Bendit, lá na minha escola ensinava-se às alunas a arte de serem boas donas de casa. Passaram-se muitos anos e hoje duvido se existirá de facto uma real vontade de mudança das actuais camadas dirigentes, ou se todos os lindos discursos de esquerda ou de direita, não são afinal mais do que uma encenação. Todos nós sabemos que se nos compararmos com povos que há 40 anos estavam como nós, ou pior do que nós, e que hoje por via de decisôes acertadas dos seus governantes são tidos como exemplo, percebemos que continuamos a ser das zonas mais pobres e com maiores niveis de iliteracia da Europa. Já perceberam que estou a falar do «milagre» irlandês, país donde vieram os primeiros imigrantes para o norte da América, e que hoje nos «rouba», nesta mesma América, os cérebros que criam verdadeira riqueza, e que não se limitam a invadir as cidades de cimento por tudo o que é sitio.

Antes de terminar um muito obrigado à Net que, por oposição aos media tradicionais, permite esta inter-acção entre autores e leitores e um renovado voto para que o JJ não se fique por aqui, e que depois desta série nos venha com outra, e que continue a roubar um pouquinho de tempo lá na loja para deleite dos jovens da nossa geração. J.L. Reboleira Alexandre - Québec, Canadá


25-06-2008

João Ramos Franco disse:

A satisfação que senti por ter participado neste recuar no tempo e recordar a minha juventude no ERO (fotografia do jantar de 1962 em S. Martinho do Porto) e de poder estar presente entre vós com pequenos comentários, é tal que as palavras para o expressar estão difíceis de sair.Um obrigado ao João Serra pelo convite para participar e ao João Jales como editor e a todos os colaboradores que tiveram a virtude de em cada dia de leitura do Blog me fazerem recordar as alegrias e desventuras da juventude.Lembrem-se do velho grito:É jacaré? Não é.É tubarão? Também não.Então o que é? RAMALHO ORTIGÃOJoão Ramos Franco.

25-06-2008

Maria João Gomes disse:

Obrigada "Joões".Este é sem dúvida, para mim, o texto que resume, e que bem, a actividade do blog até agora.Mas sem a história e as estórias contadas na primeira pessoa, nada deste brilhante escrito faria sentido. Portanto, obrigada a todos. BJS. MJoãoGomes

24-06-2008

João Jales disse:

Termina esta série com um texto que sintetiza, como só o João Serra sabe fazer, o que aqui foi escrito durante três meses por mais de quarenta colaboradores em cerca de sessenta artigos. Foram ultrapassadas, em quantidade e qualidade, as melhores expectativas que tínhamos quando lançámos este desafio aos bloguistas.

Obrigado a todos: os que escreveram, os que comentaram, os que leram e os que divulgaram. Muitos não foram sequer alunos do ERO mas encontraram aqui motivos de interesse que interpreto como um cumprimento ao Blog e uma prova de que as nossas recordações não estão nostalgicamente enterradas num velho sótão, elas respiram no tempo que vivemos. Escrevo isto porque penso que todos os textos falaram não só do passado, mas também de quem são os seus autores hoje.

Teremos uma nova série no “regresso às aulas”, em Setembro. Iremos recordar personalidades que marcaram as nossas vivências de estudantes: não só professores (do Colégio, da Escola, das escolas primárias) mas todos os caldenses que nos impressionaram durante o tempo de estudantes. Vão pensando nisso os que quiserem colaborar, alunos do ERO ou não, vamos estar novamente abertos a todos.

24-06-2008

Luís António disse:

Esta é uma grande análise do que se escreveu, talvez nos antípodas do romantismo dos textos do Jales. E da saudade que apareceu com o Zé Carlos Nogueira, a Belão, o Chico Cera….Mas é o somatório de tudo isto que fez destes LOCAIS um grande (re)encontro! Next?


24-06-2008

Vasco Baptista disse:

Obrigado João por mais uma vez nos brindares com estes supremos pedaços de escrita - um abraço. Vasco


24-06-2008

Júlia disse:

Esta iniciativa foi muito engraçada, teve imenso êxito, revivemos muitos dos bons momentos e iremos continuar a vivê-los....Um grande Abraço. Júlia Ribeiro


24-06-2008

Higino Rebelo disse:

Felicito o Bonifácio por este retrato literário que, certamente, terá sido escrito à pressa, porque não imagino sequer onde consegue tempo para tantas actividades.

Igualmente felicito o Jales pela mestria que colocou na administração do blogue até agora e que, seguramente, lhe custou muitas horas de descanso nocturno, pois várias vezes trocámos mails a altas horas da noite sobre vários temas.


24-06-2008

Paulinha Pardal disse:

João Jales:Gostei imenso de ler todos os comentários que aqui foram feitos. Foi um reviver de sentimentos e emoções que não estavam esquecidos mas sim adormecidos na minha memória. Adorei , parabéns tu és o "Máximo" como diz o meu neto Sebastião. Obrigado João. Beijos PP


24-06-2008

Fernando Santos disse:

Olá J.J.!Estou muito grato por ter sido aceite no Blog, e como tal, uma enorme satisfação por ver as minhas estórias publicadas.

Ainda bem que as suas expectativas foram ultrapassadas. Cada um contou um pouco das memórias da sua juventude, e a partir de agora, todas elas pertencem à "HISTÓRIA DO BLOG".

Desejo que ainda tenha fôlego e coragem de voltar com mais iniciativas do género, pois certamente novos colaboradores estarão disponíveis para manter vivo este Blog. Fernando Santos.

COMO NOSSOS PAIS

Para ouvir enquanto lêem o texto do João B Serra (Ponto de encontro. E reencontro.) . Foi ele que "citou" Elis, desta vez não foi escolha minha. JJ

Ponto de encontro. E reencontro.
















João Bonifácio Serra





Durante semanas desfiámos aqui evocações das Caldas de outros tempos. Recordamos histórias que, afinal, não esqueceramos e reconstituimos laços de cumplicidade que deixaram marcas. Demos testemunho dos locais onde crescemos.

De um modo geral, os nossos depoimentos foram serenos. Podem talvez acusar-nos de termos ocultado situações menos felizes ou apontar-nos uma excessiva benevolência connosco próprios. Mas não somos os “contentinhos” que passam pela vida sem se deterem no mundo que os interpela. Também não temos que carregar todas as dores do que não correu bem. Decidimos encarar o nosso passado com uma leve distância bem humorada. Penso que o conseguimos. O ERO já passou à história e fez jus à tranquilidade. Por isso, à primeira (e única) tentativa de toldar o ambiente, reagimos com vigor.

Obtivemos assim uma boa amostra de pontos de encontro devidamente comentados. Alguns faziam parte da herança das gerações anteriores. Como na canção da Elis Regina, seguimos aí os passos dos nossos pais. Alguns outros fomos nós a descobri-los, a inventá-los. Houve descoberta sempre que fomos ao encontro de outros grupos, de outros espaços, distintos dos que nos legaram as gerações precedentes. Houve invenção sempre que transmitimos novos valores ao património que nos legaram, ou usámos a imaginação para criar novas possibilidades. Conseguimos, por estas vias, multiplicar os pontos de encontro. Como no milagre das bodas de Canaan, dirão os mais íntimos das Escrituras. Como no caso do macaco que do rabo fez navalha e da navalha fez sardinha, observarão os que cultivam saberes de lengalenga.

Prescrutando os depoimentos acumulados no blogue, concluimos que falar dos antigos alunos do Externato Ramalho Ortigão como se um todo homogéneo se tratasse pode induzir em erro. Houve descontinuidades no tempo, aliás notadas pelo João Jales na história do ERO que aqui publicou. Há um ambiente nos anos 50 que difere significativamente do dos anos 60. Há uma mudança nos costumes em finais da década de 60 que ressalta claramente dos textos e das imagens. Aquela fotografia de alunos do ERO reunidos num restaurante de S. Martinho do Porto, em 1962, é eloquente - reunião de rapazes, com a presença de professores, todos de fato e gravata. Que distância abissal separa este grupo das fotografias da viagem de finalistas de 1971/72, menos de uma década volvida - aqui rapazes e raparigas, vestidos de forma prática, em atitudes descontraídas, sem a presença dos professores. Ao ler muitas das histórias narradas pelos participantes maioritários do blogue, seis a dez anos mais novos do que eu, perguntei muitas vezes a mim próprio se as Caldas e o ERO a que se referiam seriam os meus.

Um dos aspectos em que as mudanças civilizacionais dos finais da década de 60 mais se fizeram sentir foi nas diferenças de comportamento entre géneros. As raparigas tinham, em geral, movimentos muito mais limitados que os rapazes nos anos 50 e primeira metade da década de 60, as suas saídas de casa tinham que ser justificadas caso a caso, e os seu pontos de encontro eram restringidos pela família e pelo ambiente social. Na transição dos anos 60 para 70, estes padrões foram postos em causa, muitas das anteriores barreiras familiares e sociais foram abatidas, os pontos de encontro para rapazes e raparigas tornaram-se mais abertos e intercomunicáveis, e até partilhados.

O grupo de alunos do ERO também não é um grupo socialmente homogéneo, embora, como seria de esperar, sempre tenham predominado no colégio os jovens oriundos das classes médias da cidade. Afinal tratava-se de um estabelecimento que preparava para o acesso à Universidade e, até muito tarde no século XX, a Universidade manter-se-ia como uma área de ingresso socialmente muito restrito. Mas também aqui, na década de 60, se iniciou um movimento lento de mudança, com famílias de menor rendimento e menor capital cultural a fazerem um enorme esforço para colocar os seus filhos num Curso Superior. Nas Caldas, onde não havia liceu, esse esforço foi certamente muito mais exigente. De qualquer forma, a frequência do colégio reflectiu as mudanças no mundo rural e nas relações entre mundo rural e urbano. Vários depoimentos sinalizam a presença de jovens que fazem regularmente o percurso entre uma aldeia e a cidade. No meu caso, essa possibilidade foi concretizada pelo próprio Externato, que montou um serviço de transporte para os estudantes oriundos das freguesias do nordeste do concelho.

Houve quem questionasse a tendência de alguns bloguistas referirem pontos de encontro mais ou menos exclusivos de certos estratos sociais, como se se tratassem de locais frequentados por todos os jovens. Evidentemente que há jovens e jovens e que, como defendia o meu Mestre Adérito Sedas Nunes, a condição de jovem oculta por vezes as fracturas sociais. Entre os jovens que se viram forçados a terminar os seus estudos na escolaridade primária obrigatória, os que se matricularam na Escola Comercial e Industrial para tirar um curso de serralheiro ou electricista ou mesmo comercial, e os que se matricularam no liceu como degrau para a Universidade, existiam capacidades económicas, expectativas de vida e visões do mundo muito afastadas. Pontos de encontro igualmente diferenciados, poucos traços de união.

Mas os depoimentos do blogue também mostram que estes mundos paralelos estavam a sofrer transformações e os corredores entre eles a alargarem-se sob a pressão de um número crescente de jovens que neles transitava. No final da década de 60, começaram a chegar às Caldas os prenúncios de uma cultura global que já foi designada por “jeans e rock”. Essa cultura, inicialmente partilhada por reduzidos sectores urbanos, ampliou-se rapidamente, esbatendo as rígidas fronteiras sociais entre jovens. A força homogeneizadora desta cultura residia no facto ser difundida através de imagens, como se comprova em diversos depoimentos, pelo cinema, pela televisão, sobretudo pela música, e no facto de ser uma cultura que na origem tinha base popular e não elitista. Talvez tenha sido aqui que nos começamos a desencontrar dos pontos de encontro dos nossos país. Mas essa é uma linha de raciocínio que os testemunhos do blogue até ao momento não permitem aprofundar.

Não quero forçar a paciência dos meus antigos colegas prolongando esta análise sensaborona a uma expontânea e animada recuperação da memória. Mas não posso deixar de me referir a um ponto de encontro de que todos nós nos esquecemos.

E no entanto esse foi verdadeiramente o nosso ponto de encontro, o nosso comum ponto de encontro. Durante anos, foi lá que nos encontrámos, nas aulas de canto ou de latim do Padre Renato, de matemática do Dr. Azevedo ou do Prof. Figueiredo Lopes, de ginástica do Professor Bastos ou de Filosofia da Dr.ª Deolinda e do Padre Fernando Maria. As histórias que ali vivemos, os sonhos que ali desfizemos e refizemos! Os companheiros que escolhemos, as decepções e as descobertas que nos iluminaram, as humilhações que nos iam abatendo e os gestos salvíficos que nos surpreenderam, os amores que quase nos destruiram ou quase nos salvaram, as alegrias e dores de crescimento que ali sofremos!


O Externato Ramalho Ortigão foi esse ponto de encontro principal para tantas geraçãos de jovens caldenses.


João Bonifácio Serra

---------------------------------------------------------------------------------------------------

COMENTÁRIOS

24-06-2008
Vasco Baptista disse:
Obrigado João por mais uma vez nos brindares com estes supremos pedaços de escrita - um abraço. Vasco

24-06-2008
Júlia disse:
Esta iniciativa foi muito engraçada, teve imenso êxito, revivemos muitos dos bons momentos e iremos continuar a vivê-los....Um grande Abraço. Júlia Ribeiro

24-06-2008
Luís António disse:
Esta é uma grande análise do que se escreveu, talvez nos antípodas do romantismo dos textos do Jales. E da saudade que apareceu com o Zé Carlos Nogueira, a Belão, o Chico Cera….Mas é o somatório de tudo isto que fez destes LOCAIS um grande (re)encontro!
Next?

25-06-2008
Maria João Gomes disse:
Obrigada "Joões".
Este é sem dúvida, para mim, o texto que resume, e que bem, a actividade do blog até agora.
Mas sem a história e as estórias contadas na primeira pessoa, nada deste brilhante escrito faria sentido. Portanto, obrigada a todos.
BJS.MJoãoGomes

24-06-2008
Higino Rebelo disse:
Felicito o Bonifácio por este retrato literário que, certamente, terá sido escrito à pressa, porque não imagino sequer onde consegue tempo para tantas actividades.
Igualmente felicito o Jales pela mestria que colocou na administração do blogue até agora e que, seguramente, lhe custou muitas horas de descanso nocturno, pois várias vezes trocámos mails a altas horas da noite sobre vários temas.

24-06-2008
João Jales disse:
Termina esta série com um texto que sintetiza, como só o João Serra sabe fazer, o que aqui foi escrito durante três meses por mais de quarenta colaboradores em cerca de sessenta artigos. Foram ultrapassadas, em quantidade e qualidade, as melhores expectativas que tínhamos quando lançámos este desafio aos bloguistas.
Obrigado a todos: os que escreveram, os que comentaram, os que leram e os que divulgaram. Muitos não foram sequer alunos do ERO mas encontraram aqui motivos de interesse que interpreto como um cumprimento ao Blog e uma prova de que as nossas recordações não estão nostalgicamente enterradas num velho sótão, elas respiram no tempo que vivemos. Escrevo isto porque penso que todos os textos falaram não só do passado, mas também de quem são os seus autores hoje.
Teremos uma nova série no “regresso às aulas”, em Setembro. Iremos recordar personalidades que marcaram as nossas vivências de estudantes: não só professores (do Colégio, da Escola, das escolas primárias) mas todos os caldenses que nos impressionaram durante o tempo de estudantes. Vão pensando nisso os que quiserem colaborar, alunos do ERO ou não, vamos estar novamente abertos a todos.

Diário - 9 de Junho

Esta é a última página do Diário de um aluno do Externato Ramalho Ortigão. Esteve guardado num sótão muito húmido, tem a capa desfeita e o ano ilegível. Grande parte das folhas estão coladas umas às outras, muito amarelecidas e com a tinta esborratada. Transcrevi as mais aproveitáveis e que tinham, simultâneamente, referências a locais de encontro e acontecimentos desse tempo. Os nomes dos locais foram fáceis de perceber, penso que estão correctos, os das pessoas não estou tão seguro.

9 de Junho


Como amanhã é o dia da Raça e de Camões, as aulas acabaram hoje. Nunca percebi bem esta coisa da raça, já que há portugueses brancos, pretos, mestiços e amarelos. Até já perguntei à professora de História e ela explicou-me fazendo um longo discurso sobre a nossa Nação. Também não sabe.


Esteve um dia azul, com sol e calor, a prometer quatro meses de férias fenomenais. Quatro meses inteirinhos… Como não há exames no sexto ano, só voltamos ao Colégio a 8 de Outubro.


O fim das aulas significa mudanças. As “aulas” de xadrez na cave do Central vão ser substituídas pelas de Bridge no Casino. Em vez de bilhar no Marinto e no Central, de snooker no Camaroeiro e de matraquilhos na Floresta vamos jogar Ténis e pingue-pongue (na Casa dos Barcos).


Já sei que vou estar nas Caldas até ao fim de Agosto, as férias do meu Pai são sempre em Setembro. Nessa altura iremos até ao Norte. Os meus pais irão até ao Porto, Matosinhos, Espinho, onde têm família e velhos amigos. Eu ficarei um mês na quinta dos meus avós, com vacas, galinhas e porcos, floresta e rio para explorar. Também poderei caçar e pescar. Os meus primos são pouco mais velhos do que eu e os meus tios não têm preocupações de horários numa aldeia em que não acontece nada. Um paraíso!


Quando falei assim do mês de Setembro à Luísa, ela não gostou. Acabámos a discutir quem tem mais saudades do outro, separados durante um mês. E prometemos longas cartas diárias. No ano passado só escrevi duas (e curtas). Foi um sarilho que demorou todo o primeiro período a resolver.


As aulas já nem nos incomodaram, nem mesmo a de Ciências. Despediu-se a professora com uma boa disposição inesperada, que nos pareceu até forçada... A nossa satisfação era verdadeira! Nem os professores com que nos damos melhor nos deixam saudades (nem provavelmente nós a eles). Nesta altura do ano estamos fartos uns dos outros! Um deles disse que o melhor dia de férias é o último dia de aulas, porque nada é tão bom como nós imaginamos antecipadamente... Mas eu espero que seja melhor!


À tarde sentei-me com os amigos na Esplanada, a planear as férias. Mas já está tudo planeado, não vai haver surpresas. Nós não decidimos grande coisa, temos que nos submeter aos planos familiares. O Vasco, o Ricardo e a Olívia, que são de Peniche, os dois primos da Dagorda, a Mariana (o génio da Matemática do Bombarral), vão desaparecer. Mas a maioria fica, um ou outro sai em Setembro para o campo, como eu. Os pais da Ana Maria falam em ir ao Algarve. Ela estava podre de chateada, não conhece lá ninguém, diz que é um atraso de vida.


Enquanto conversávamos ouvimos um grande reboliço. O Zé Tó chamou-nos, um barco virou-se! O excesso de passageiros e as constantes batalhas navais no lago provocam estes acidentes. São colegas do Colégio que naufragaram! O Pacheco passou uma hora à procura dos óculos perdidos no lodo. Os guardas do parque até trepam pelas paredes com estas coisas, a única ajuda do encarregado do aluguer foi passar essa hora a ameaçá-lo, da margem, com o que ia fazer quando ele saísse. Mas não aconteceu nada. O espectáculo dele vestido a mergulhar naquela água suja atraiu uma pequena multidão.


O Nuno relembrou que o Casino, o Parque, o Ferro-Velho e as praias se vão encher de todos os lisboetas e alentejanos que passam cá o Verão. Grande parte dos amigos do meu Pai estarão cá só uns dias em Agosto, mas as mulheres e os filhos ficam três meses. O Mário picou-me dizendo que dezenas de miúdas giras vão andar por aí e as nossas “namoradas de Inverno” vão ser um estorvo (ele não tem nenhuma, claro!). Perguntou-me como é que posso ir com ele a S. Martinho engatar as famosas Belgas de que nos falam os mais velhos?


Nem falámos das notas, passámos todos, penso. Embora sem negativas, as minhas não foram como no ano passado, longe vai o Quadro de Honra do 5º ano… Mas há tanto que fazer, não há tempo para tudo!


Subimos até à praça, alguns foram até à Zaira onde a esplanada (3 mesas!) está naturalmente cheia. Os fanáticos dos matraquilhos da Floresta ainda me chamam, mas isso é para o Inverno. Vou à Tália procurar uns livros para as férias. Sou um leitor repetitivo, ao contrário dos meus amigos, gosto de ler livros seguidos do mesmo autor. Andei a divertir-me com Mark Twain, ando agora no Somerset Maugham, que morreu há dois ou três anos. Escreveu montes de livros, todos editados na Livros do Brasil. Trouxe o melhor (dizem-me), chamado “No Fio da Navalha”. Acabei “Servidão Humana” há dias. Como o meu Pai é também um leitor viciado tenho mais ou menos carta branca para levar os livros que quiser, ele depois paga.

Aproveito para ouvir um LP dos Monkees. Não me entusiasma, eu quero mesmo é o novo do Jimi Hendrix ou dos Jefferson Airplane. E discos compro poucos, sou eu que os pago! Continuo fã dos Beatles, mas os novos sons de Londres e S. Francisco, que se ouvem no Rádio Clube em Frequência Modulada, são de gritos! Volto a casa precisamente para ouvir o “Em Órbita” no Rádio Clube Português às sete e meia. A Rádio Luxemburgo também passa música fenomenal, mas só se ouve à noite e muitas vezes mal. E eu não tenciono estar à noite em casa nos próximos meses!


Depois de jantar o encontro foi na Zaira. Ficámos a conversar à porta. Sem frio e com um feriado amanhã, grupos de caldenses faziam piscinas, subindo e descendo a praça. Bandos de garotos corriam e jogavam à apanhada usando os candeeiros e as árvores como coitos, enquanto os pais ou avós os vigiavam sentados nos bancos de madeira.


Fomos até ao Casino, onde jogámos Poker aberto, também chamado sintético. Mas não ao pé das senhoras, que jogavam Canasta, Crapaud e Bridge. Convencemos os responsáveis a reabrir a sala que dá para a Rua de Camões de forma a podermos estar lá mais à vontade. Temos mesas e cadeiras que estavam na arrecadação e um velho pick up para ouvir música. Numa sala só para nós não incomodámos os mais velhos e a sessão durou até às tantas. O velho Sr. Solteiro lá foi trazendo umas cervejas e até uns Whiskies para os mais abonados. Sempre com grandes recomendações para não sujarmos ou queimarmos o pano verde da mesa. (Ele que vai passar o Verão a chatear-nos para não pormos os pés em cima das mesas de apoio, quando vimos do ténis para beber uma Rical e queremos descansar as pernas. A laranjada custa aqui o dobro do que custaria comprada nos courts ao Sr.Cravide. Mas aqui será paga pelas mamãs, em conjunto com as contas dos seus lanches e dos alugueres das cartas e mesas).


Fui com os vencedores até ao Ferro Velho, que estava aberto porque amanhã é feriado. Os menos felizes contentaram-se com uma última imperial no Marinto ou no Camaroeiro. Ou talvez na Zaira, se ainda estivesse aberta. Amanhã saberei.
------------------------------------------------------------------------------------------------------------
COMENTÁRIOS
21-08-2008
Vasco disse:
já me fizeste rir.................. a malta que aparece na foto não parece nada ter 16 anos deve ser do tratamento "sepia-lexivia" ou do grau, perdão do grão. Quanto ao que é relatado nessa folha, é isso, era assim e outras vezes mais mais ao lado e mais tarde (mais prómeio das férias) e as belgas eram melgas, e por aqui me fico. Deves continuar. VB
.
21-08-2008
Jorge disse:
Afinal era fácil descobrir o autor ... mas sempre julguei que fosse alguém mais velho, confesso! J
.
22-08-2008
João Serra disse:
Agora que se anuncia o termo deste Diário que o JJ em boa hora encontrou "num sótão muito húmido", tomo coragem e peço licença para comentar.A leitura deste dia 9 foi para mim absolutamente surpreendente. Voltei atrás, ao meu 6º ano de ERO. Imaginei-me como a personagem descoberta por JJ, um diarista. Procurei reconstituir a situação e confesso a enorme perturbação em que me achei.
Caro JJ, caros companheiros: eu estou naquelas páginas amarelecidas e de tinta esborratada - exactamente numa das que escapou, quase por milagre, para que alguém a transcrevesse e no-la desse a ler. Não repararam? Compreendo. Eu também levei algum tempo a perceber. É que eu estou no outro lado da história.
Como o diarista de 1966-1970 nunca se identifica, vamos atribuir-lhe o nome fictício de J. Vejamos. J. antecipa os seus 4 meses de férias (de facto três,mas o lapso é desculpável tendo em conta a excitação que o toma pelo fim das aulas). Desvenda-nos que um mês será passado entre porcos, galinhas, vacas,um rio e uma floresta. Ou seja, um terço das suas ambicionadas férias será ocupado a caçar e pescar, a divertir-se com os primos um pouco mais velhos,nesse paraíso de uma aldeia, onde nada acontece.
Não nos esclarece J. de onde vieram esses primos. De outras cidades?Provavelmente.
Este diário é um espelho. Na imagem invertida está alguém que vive nessa aldeia onde não acontece nada, que todos os dias e todos os meses se recolhe onde há porcos, galinhas, vacas, um rio e uma floresta. Alguém que todos os dias, durante o período de aulas, percorre duas vezes a distância que o separa da cidade, do colégio onde estuda. Que antecipará ele no dia 9 de Junho sobre os 3 longos meses de férias que se avizinham? Que entusiasmo será o seu perante o fecho das aulas? Deixará de se encontrar diariamente com os colegas e amigos, de saber coisas sobre as suas vidas, suspenderá laços afectivos e processos de conhecimento, interromperá camaradagens e amores. Pode ler, mas com quem trocará impressões sobre o que leu? Pode escrever cartas mas que destinatários estarão disponíveis para lhes responder?
J. esqueceu-se de referir mas eu estou em condições de esclarecer. Um daqueles primos um pouco mais velhos era eu. Não vim da cidade nas férias,está lá, vivia lá. O melhor das minhas férias eram esses primos que vinham e iam. João Serra
.
22-06-08
Luísa disse:
Não faz sentido ter acabado o diário! Só teve quatro páginas, não pode ser nenhum diário é tão curto. E também se escrevia nos diários durante as férias.
O João Serra enganou-se nas contas: de 9/6 a 8/10 são mesmo 4 e não 3 meses…
.
2008/6/23
Júlia Ribeiro disse:
O dono desse sótão com todos esses papéis velhos, húmidos e ao mesmo tempo tão bem conservados só podias ser mesmo tu.....não me enganei e cheguei a dar a dica, mas não te desmanchaste!!!!!!
Tens uma maneira incrível de escrever, consegues envolver-nos na história e voltar aos tempos da juventude (modéstia à parte, eu não seria aí tão jovem) mas como agora somos todos da mesma idade........ somos todos Antigos Alunos do ERO.... e tu tens esse mérito, como todos os colaboradores que também contribuíram.
Esta iniciativa foi muito engraçada, teve imenso êxito, revivemos muitos dos bons momentos e iremos continuar a vivê-los....
Um grande Abraço. Júlia Ribeiro
.
23-06-2008
Isabel disse:
Eu sabia, tinha que ser o teu diário! E se foi escrito quando eu penso só acabou se tu quiseres.... Deves continuar (como disse o Vasco - Batista?).
,
27-06-2008
Isabel Caixinha disse:
Sobre os últimos artigos escritos gostei imenso do diário . Este foi tocar-me em duas memorias muita queridas - a leitura e a musica!
Adorava ler e era cliente certa da nossa biblioteca do Parque. O que eu li !!!O Somerset Maughan que iniciei com o Mágico, continuei com o Fio da Navalha, o Mark Twain com as memórias de Tom Sawyer, Maximo Gorky ( A Mãe), Tolstoi, Hemingway...Eu sei lá! Era uma infindável lista de autores que me fascinavam! Estas leituras tinham normalmente lugar á noite, com som de fundo da Rádio Renascenca , “A noite é nossa” , que passava música gira, sem publicidade e só interrompida pelo bem humorado locutor! Um macaco bacana, como ele dizia!Imagina...

CARTA, de Fernando Santos

.
Recebi este email, que decidi publicar porque me pareceu conter algumas reflexões interessantes sobre o que se escreveu ao longo desta série no Blog.
Apesar de não ter sido aluno do ERO, o Fernando Santos tem sido um leitor e colaborador assíduo deste Blog, o que aqui publicamente agradeço.
Inclui uma adivinha no fim, para quem se interessa por história das Caldas. JJ

Caro J.J.

Já tive ocasião de lhe manifestar o meu apreço pelo excelente trabalho que tem desenvolvido no blog do E.R.O. Deu-me até a honra de ver publicados dois artigos meus.

Por uma questão de principio, costumo respeitar as opiniões dos outros e tenho consciência que o blog foi criado para uso dos ex-alunos. É lógico que exprima as vivências da sua época. Porém, através do depoimento de Mário João Xavier mais uma vez são referidos o Casino e a Zaira como locais de encontro da juventude caldense.

É certo que têm sido nomeados muitos outros locais, mas o João sabe perfeitamente que o Casino só era acessível aos sócios e seus familiares e a Zaira, embora tivesse a porta aberta, só era frequentada por um extracto social mais elevado.

Não possuo qualquer animosidade em relação ás pessoas que frequentavam os locais mencionados e penso ser muito natural os intervenientes contarem as suas estórias tal como as viveram.

Sei que no E.R.O. estudaram filhos de famílias menos abastadas, como foi o caso dum familiar meu que pagava uma propina simbólica, por condescendência do Padre António Emílio. Assim, tanto quanto sei, esse meu parente tal como eu e muitos outros não frequentávamos os dois locais referidos.

Éramos discriminados? Penso que não, pois convivíamos com outros jovens que os frequentavam. Tive até uma namorada que ia ao Casino, acompanhada dos familiares, mas eu nunca lá entrei.

Opiniões sobre elitismos ou hostilidades entre os alunos das duas escolas?
Sei apenas que existiam famílias de maiores ou menores recursos, e cada uma procurava a escola de acordo com a sua capacidade económica. Como eu pertencia ao segundo grupo é lógico que tinha pena e, porque não dizer, uma pontinha de inveja quando, no Verão, espreitava o Casino e via os casalinhos da minha idade a dançar ao som de boas orquestras. Mas o que lá vai lá vai!

Ferreira de Castro dizia numa das suas obras." O que este ou aquele tem, não importa. O importante é o que a maioria não tem!"

Quando foi publicado no blog o intempestivo artigo de Artur Alves, entendi não votar nem comentar. Pensei imediatamente nos conflitos que iriam surgir (e não foram poucos!).

Embora o Artur tivesse razão nalguns pontos, penso que também existiam alguns ressentimentos.

Elitismos? Sempre existiram.

Hostilidades entre escolas? Já dei a minha opinião em devido tempo.

Quem as provocava? Logicamente aqueles que pouco ou nada tinham, e também gostariam de comprar livros e discos na Tália ou frequentar os locais tantas vezes referidos nas estórias do blog.

Inveja? Discriminação? Ressentimentos? Talvez um pouco de tudo.

Sempre ouvi dizer que toda a vida existiram ricos e pobres. Por isso estou de acordo com aquela expressão que diz: “Cada macaco no seu galho”.

Pessoalmente não me posso lamentar. Embora tivesse uma infância um pouco amarga devido à crise económica provocada pela última guerra, que terminou em 1945, a minha juventude foi passada nas Caldas com uma situação económica mais desafogada e, depois de casar, é que também tive um gira-discos e a seguir o primeiro automóvel, que foi um Fiat 600.

Sem qualquer espécie de ressentimento, e livre de polémicas, sei por experiência,que nos anos 50 a maior parte da juventude caldense não frequentava o Casino nem a Zaira. Sobre os anos 60 não me posso pronunciar porque, após ter casado, fui para Lisboa.

Lembro-me duma passagem de ano ter ido a Caldas com a minha mulher e ir ao Ferro Velho, na companhia do Roberto Lança e da Salomé.

Um abraço.

Fernando Santos









P.S. Junto mais um anúncio dos anos 30 e proponho uma adivinha.

Qual o motivo do Dr. Melo Ferrari estar encerrado às segundas feiras?




Num email posterior, o Fernando escreveu: A minha mensagem era particular porque não pretendia fazer qualquer comentário ao que o Mário escreveu. Aliás a estória está muito bem contada e com todos os pormenores.
Quanto à sua publicação não era essa a minha intenção, mas se o João entender que ela contém algo de positivo para o blog e não ferir a sensibilidade daqueles que têm contado as suas estórias, pode publicar.
.
02-05-2008
Belão disse:
Vou arriscar responder à adivinha: Acho que nesse tempo nas Caldas o dia de descanso era a segunda- feira. Domingo era dia de trabalho!Belão
.
02-05-2008
Fernando disse:
Olá! Já vi que já havia uma resposta. Parabéns Belão! Acertou!!!
.
02-05-2008
JJ disse:
É verdade, as 2as feiras eram o dia de descanso da cidade. Aproveitando o facto de Domingo ser um dia muito escolhido para visitar as Caldas (trabalhava-se também ao Sábado) e o mercado da Praça ser o mais concorrido da semana, ao Domingo todo o comércio estava aberto Por isso a autoridade municipal declarou o descanso semanal à 2º feiras, dia em que tudo fechava e a cidade parecia deserta. Não seria bom negócio manter o consultório aberto nesse dia.
.
04-05-2008
Isabel disse:
Aqui está tambem um depoimento que gostei muito de ler!O Fernando Santos veio tocar num assunto muito delicado já debatido, e fá-lo com muita seriedade e respeito!A provar que é possivel expressar opiniões diferentes, sem se ter que ofender ninguem.Bravo! Os meus cumprimentos. Isabel Caixinha
.
07-08-2008
Higino Rebelo disse:
Quanto à "polémica" entre alunos da Escola e do Colégio aproveito par lembrar que o genro do Sr. Dr. Figuiredo Lopes, o Mil-Homens, foi aluno da Escola, a esposa do Rolim foi aluna da Escola, o Victor Henriques casou com a Evangelina Simões que foi aluna da Escola e mais casos haverá concerteza. E quanto a mim, que fui aluno da Escola num dos cursos nocturnos porque de dia tive que trabalhar, nunca me senti marginalizado por qualquer aluno do ERO e são muitos com quem convivi nos tempos de estudante do secundário. O mesmo se passou com as pessoas que nessa época frequentavam o Casino ou a Zaira que sempre me trataram bem e que, igualmente, só me conheciam por acompanhar com os seus filhos ou filhas.Higino Rebelo

Encontros de Verão

por João Jales

O motor ultrapassava certamente o seu limite máximo de rotações, o barulho era ensurdecedor e, no meio de uma ainda confusa “neblina cerebral”, eu tentava desesperadamente descobrir como é que tinha aterrado no meio desta chinfrineira a que se juntavam, ocasionalmente, gritos humanos…

Algumas horas antes (muitas? poucas? não me lembro…) estivemos no Casino, onde tínhamos “negociado” umas cervejas com a Luísa, do Bar; sei que era cedo, pouco depois de jantar. Mas o baile dessa noite de quarta-feira estava fraco, arrancámos depois para o Ferro Velho no Mini da Isabel, com o Fernando, o Nuno e a Anabela. Mas o motor do Mini, apesar de barulhento, nunca provocaria esta sensação de ter uma trituradora dentro do crânio! É óbvio que uns whiskies em cima não tinham ajudado nada a eliminar a Super Bock anterior, mas eu tinha quase a certeza de ter ido para casa dormir depois disso… Estaria no meio de um pesadelo atormentado pelo álcool? Não, a sensação era demasiado real e dolorosa, nenhum sonho é assim. E os gritos, que gritos seriam estes?

Enquanto eu pensava se seria preferível descobrir o que se passava ou ignorar o terrível fim que seguramente me esperava, o ruído aumentou e eu decidi arriscar. Abri os olhos: havia um exagero de luz, o Sol rasgava o pára-brisas do automóvel, mas eu viajava felizmente no banco de trás, o que tornava menos iminente a sensação de desastre. Estranhamente calmas perante as circunstâncias, sentadas nos dois lugares da frente, duas senhoras, minhas velhas conhecidas da sociedade caldense. O único facto estranho era que conversavam aos berros, já que as suas palavras tinham que se sobrepor ao ensurdecedor rugido do motor. Comecei a lembrar-me...

Apesar da “noitada” tinha-me levantado cedo e decidido ir até à Foz. Como a minha família não ia, devido aos preparativos para uma qualquer festa (roupas, cortes de cabelo, costureira, cabeleireiro), decidi apanhar uma camioneta que saía da garagem às dez e meia e passava na Rainha dois minutos depois. A grande vantagem de ir à Rainha, e não à garagem dos Capristanos, é que as hipóteses de ser visto por alguém conhecido eram grandes e evitava o incómodo das paragens constantes da camioneta e o preço do bilhete. E parecia ter resultado porque, mal cheguei, imobilizou-se logo um carro e ouvi chamar o meu nome. Com o cérebro ainda entorpecido só tarde de mais descobri que a condutora era uma amiga da minha Mãe, a D. Florinda, célebre pela sua condução. A forma como obteve a carta é um dos grandes mistérios caldenses! Tentei esconder-me mas já não consegui, e lá fui naquela terrível boleia para a praia. O curto sono nocturno, o calor do Sol e a baixa velocidade fizeram-me adormecer. Mas o problema é que, mesmo devagar, a manutenção em segunda velocidade provocava um enorme ruído, devido à elevada rotação do motor, obrigando também a que a conversa se desenrolasse a um volume insuportável! E foi essa combinação de barulho e gritos que me acordou, confuso e sobressaltado.

Com umas noções de condução obtidas em pequenas experiências no carro da minha Mãe e de alguns amigos, tentei convencer a condutora a engrenar a terceira velocidade. Respondeu-me que não era aconselhável, porque não queria ir muito depressa e assim era muito mais seguro! Desisti dos meus conselhos na subida para o Alto do Nobre, precisamente no momento em que fomos ultrapassados pela camioneta em que eu devia seguir, se o azar não me tivesse batido à porta… A viagem durou uma eternidade, com a minha ligeira ressaca a tentar, sem êxito, adaptar-se àquele ambiente claramente hostil. Quando chegámos, as duas amigas estavam já um pouco roucas e o automóvel não devia ter o motor nem a transmissão em grande estado, mas isso não me preocupava, não tencionava viajar nele nunca mais!

Estava um glorioso dia de Verão na Foz! A espessa neblina, batida pela nortada com que tínhamos sido brindados após passar o palacete Almeida Araújo, parecia chuva e encharcava até aos ossos. Dia invulgar, já que habitualmente ou está nevoeiro ou vento, não as duas coisas simultaneamente.

A praia estava muito vazia e a nossa barraca não estava armada. Nem perguntei porquê ao banheiro, o Zé Luís, com o dia assim não precisava dela, fui direito ao Tábuas tomar uma bica. Encontrei lá vários amigos refugiados, entre eles a Luísa, uma lisboeta que alugou casa na Foz, admirada com a nossa presença num dia tão mau. Expliquei-lhe que isso era imprevisível, é preciso vir todos os dias; hoje, por exemplo, estavam 30 graus nas Caldas e ali era o que se via. Mas por vezes é ao contrário, estamos habituados à Foz ser sempre uma aventura e as condições meteorológicas uma incógnita. Mas para os verdadeiros entusiastas é irrelevante, o sol não é imprescindível. Nestes dias joga-se King no Mar à Vista à espera que “abra”. Este é o verbo que todos usam nas conversas: “abrir”.
- Será que “abre”?
-Ontem só “abriu” às três…
-Se “abrir” fica o melhor dia do ano!
”Abrir” significa aparecer o sol, dissipar o nevoeiro. Acontece raramente, mas, quando acontece, são tardes fenomenais e esta é a “melhor praia do Mundo”; esquecemos os dias de chuva, vento e frio que são, infelizmente, a maioria.

Mas, por enquanto, a Foz dava razão a Ramalho Ortigão, que afirmava ser esta a estância balnear onde o Inverno passa o Verão… E lá nos preparámos para jogar umas cartas. O dono autorizou mas, para justificar o uso da mesa, trazia uma rodada de bicas de dez em dez minutos. Como ele tem sempre uma barba de três dias e os olhos injectados de quem não dorme há semanas, ninguém teve coragem de dizer que não! Com tanto café, os cigarros acenderam-se uns nos outros. Tenho que voltar a perguntar ao Dr. Marcos Costa se ele pensa mesmo que vir à praia é benéfico para a minha saúde...

Já perto da hora de almoço era evidente que não ia “abrir”. Muita gente se dirigia para a camioneta ou para os carros, a minha boleia matinal também regressava e ofereceu-se para nos transportar de volta. Assegurámos que tencionávamos ficar todo o dia, aproveitando o tempo estar esplêndido! Salvos dessa ameaça, apanhámos pouco depois boleia com o Eng. Ramires. O automóvel era novo, tivemos que assinar uma declaração assegurando que não transportávamos qualquer grão de areia. Assegurámos repetidamente que não tínhamos estado na praia, sempre no café! Olhou-nos, desconfiado, mas lá entrámos na viatura. O Nuno, um pouco mais forte que eu e o Fernando, não se enquadrava no plano do condutor de “distribuir equitativamente os pesos dos passageiros, por causa da suspensão” e ficou em terra. Os dois filhos do Engenheiro foram devidamente espanados e lá fomos todos entrando e saindo, trocando de lugares, em busca de um “equilíbrio perfeito” dos pesos dos ocupantes. Finalmente satisfeito com uma solução, após inúmeras experiências, o condutor rumou às Caldas. Durante a viagem, enquanto o automóvel se engasgava em quarta velocidade, a passo de caracol e o dono se queixava do excesso de carga, quase decidi sair para vir a pé e chegar mais depressa ao almoço. Mas o Fernando convenceu-me que seria uma indelicadeza e eu lá me deixei ficar, já com saudades da viagem com a D. Florinda.



Durante o Verão vivemos de manhã na Foz e à tarde no Parque (e à noite nunca se sabe, para desespero das mães mais preocupadas…).

Tinha um “court” de ténis marcado às quatro e bati umas bolas durante uma hora. Não tenho o vício do Miguel, também gosto de pingue-pongue, das tardes de cartas no Casino, dos passeios de barco, dos lanches no Machado e Esplanada, da preguiçosa inactividade nas “avionetas” da alameda principal e das longas conversas sobre tudo e sobre nada com garotas que fingem deixar-se seduzir enquanto nos avaliam, escolhendo (elas sim) um flirt de Verão…

Mais do que a jogar ténis, diverti-me a ver uma partida, entretanto iniciada no outro campo, entre o Dr. Camilo Veiga e o filho, o João. A esposa de um dos adversários, e mãe do outro, assistia ao feroz embate quase impossibilitada de se manifestar já que, se batia palmas ao pai, era apelidada de “madrasta”, se aplaudia o filho, de “esposa traiçoeira”. Sentei-me com o Filipe junto à senhora e acabámos a comer umas magníficas línguas de gato do Machado, originalmente destinadas aos contendores, entretanto caídos, por culpa própria, em desgraça. Nem vi quem ganhou, o prémio principal, as bolachas, já nos tinha sido entregue! E o Ténis obrigou-me a um duche que fui tomar a casa, não há balneários no Parque.

Vesti-me e preparei-me para sair. Um metro e oitenta e seis com sessenta e dois quilos permitiram-me vestir umas justas calças brancas, que hoje me serviriam talvez de cinto, e uma Lacoste que se colava às costelas, isto apesar da meia-dúzia de papo-secos do Teixeira que lanchei. O meu Pai, acabado de sair do consultório, também se lavava, barbeava e vestia para o tal jantar que impedira a minha Mãe e irmã de irem à praia. Eu, que me barbeio duas vezes por semana, olho sempre incrédulo para ele que, fazendo a barba de manhã, tem que repetir o ritual quando sai à noite.

Com a minha idade estou já dispensado de os acompanhar, o que me permitiu ir jantar fora em mais interessante companhia. Ainda me fizeram recomendações sobre horas e deslocações, mas nem ouvi, já estava ao telefone a fazer planos. Porque a noite estendia-se à minha frente, prometendo tudo (generosa e sem condições, como só é possível aos dezassete anos), em qualquer dos Locais de Encontro da Juventude Caldense …

João Jales
COMENTÁRIOS A "ENCONTROS DE VERÃO"

.
30-05-2008
Luis António disse:
Os nomes são todos inventados, não são? parece-me que reconheço algumas pessoas (......). Gostei. Um abraço. L
.
30-05-2008
Higino Rebelo disse:
Olá Jales
Fiquei maravilhado com o teu texto sobre os encontros de Verão na nossa praia da Foz do Arelho e por duas razões a saber: a primeira, pela eloquente narração dos factos; e a segunda, pela convicção que conseguiste criar em mim de que o texto será apenas um ensaio para um capítulo de um futuro livro, quiçá romance. Por que não!Higino Rebelo
.
30-05-2008

J. L. Reboleira Alexandre disse:
Realmente está tudo aqui. Se no caso do João Jales as coisas de mar se passavam na Foz e os encontros eram marcados pelo telefone, noutros casos, o nosso, era em Salir, mas os encontros eram marcados na reunião da malta, ao entardecer, depois da jogatana da bola no areal da praia, e dum jantar (ceia) apressado, à luz do «petromax».Já houve aqui polémica que chegue, mas como eram realmente diferentes as vivências entre a juventude caldense e a das aldeias circundantes. Para quando um estudo comparativo entre estas duas formas de viver, num passado tão recente.Abraço amigo do Canadá.
.
30-05-2008
Luisa disse:
Já te disse uma vez que lia memórias deste tempo sem me cansar, o blogue podia e devia ter mais. (vais responder outra vez que as escreva eu!!)
Reconheci pessoas do nosso tempo, Nuno mendes, Fernando Jorge, Anabela Castro, Miguel Bento Monteiro,mas também outros mais velhos (............), escreve mais!!! Luisa

(NOTA: os outros nomes estão certos, mas a Anabela do texto não é a Anabela Castro. JJ)
.
30-05-2008
Jorge disse:
Má publicidade para a Foz do Arelho, essa história do mau tempo! À parte isso, isto devia ser o tema do blogue, este reviver com vivacidade e humor de um tempo diferente. Parabéns e um abraço. Jorge
.
30-05-2008
São disse:
Sobre os teus "Encontros de verão" quero que saibas que adorei ler... a estória está tão bem contada que acredita que me chegou a cheirar a maresia... está lá tudo, até as acidentadas boleias!!! Que memória João! E que talento!
Eu tinha com muito gosto e sem interrupção continuado a ler os próximos capítulos...! Bjs São

.
30-05-2008
Filipe disse:
(.......)como já disse antes não fui aluno do E.R.O., mas este texto não é sobre os alunos do Colégio, é sobre uma geração... Eu só não joguei ténis, á parte isso "estou lá". Parabéns.

.

30-05-2008
Fernando Santos disse:
Caro J.J.
Gostei de ler a descrição que faz sobre os dias de sol nas Caldas e o nevoeiro na Foz.Nos anos 50 eu costumava acampar com o meu grupo no pinhal situado no lado direito à entrada da Foz, e muitas vezes saíamos dali com uma bela manhã de sol para ir ao banho, e ao chegarmos próximo da praia o nevoeiro era tanto que nem as barracas se viam.Já lá vão muitos anos, mas ao que parece o clima dessa região continua a ser o mesmo(COISAS DA NATUREZA...).
Um abraço. Fernando Santos.

31-05-2008
Isabel Sousa e Silva disse:
Parabéns João por este magnífico texto. Quase que podemos dizer que qualquer semelhança com a realidade não é mesmo coincidência.Gostei dos nomes fictícios, mas deu para identificar. Quem não se lembra da "D.Florinda", autêntica Michelle Mouton da época?
Muito divertido! Bjo. Belão

31-05-2008
Luís Santos disse:
Li com prazer. “…das longas conversas sobre tudo e sobre nada com garotas que fingem deixar-se seduzir enquanto nos avaliam, escolhendo (elas sim) um flirt de Verão” …e era absolutamente verdade, mas nós não sabíamos, só mais tarde (tarde de mais…). O texto é muito bom, o teu melhor (até agora).

01-06-2008
Isabel Knaff disse:
Um pouco atrasada mas não quero deixar por dizer o quanto aprecio estes "teus" Encontros de Verão.
Que descrição tão refrescante , divertida e familiar.
Extraordinário como consegues trazer de volta todos estes preciosos componentes !
Adorei ler e desejo que este artigo tenha sido só o principio de muitos mais para vir.
Até á próxima
Bjs
Isabel Caixinha

01-06-2008
José Lopes disse:
Este é um blogue invulgar que visitei por indicação de um amigo que também saiu daí há muito tempo (…..)não fui aluno do Ramalho Ortigão mas passei férias nas Caldas nos saudosos sixties e tive muitos amigos de lá. Depois os meus avós morreram(……). Não me lembro de nenhum João Jales (......) , lembro-me das vidas e dos verões de que ele fala, do ténis, do parque, da Foz do Arelho e São Martinho. E de repente pareceu-me tudo tão perto e tão recente!
(NOTA: recebemos este comentário através do Blogger, gostaríamos de pedir ao autor para contactar directamente ex.alunos.ero@gmail.com por favor)

02-06-2008
João Ramos Franco disse:
Gostei João.
Neste texto vais para além das gerações, todos nós tivemos dezassete anos e andámos por aí.
Os Encontros de Verão são “reais” para mim, eles não têm data, retratam a juventude de todos nós, “como só é possível aos dezassete anos, em qualquer dos Locais de Encontro da Juventude Caldense” …(bem o dizes) João Ramos Franco

02-06-2008
António disse:
(……) só não percebi o porquê dos pseudónimos, reconheci-os todos (……) e todos eram pessoas que estimámos, não vejo motivo para não os nomear.
De resto está tudo dito nos outros comentários…
Confesso que nunca pensei em ti para isso, sempre em colegas mais velhos, mas já que eles não avançaram. porque não umas memórias a sério desses tempos? Aparentemente tens lembranças e o talento! Abraço


Margarida Araújo disse:
Já nos vamos habituando à ideia que o João não é só música. Com uma escrita viva, de boa memória e bem-humorada, prende-nos!
Relembrei muita coisa, em especial o verbo "abrir", tão empregue na Foz. Regularmente os nevoeiros eram frequentes e frase "ainda hoje abre" ou "hoje não abre" era conversa constante dos mais entendidos. Um microclima alternando os nevoeiros com as nortadas reboliçadoras a tentarem levantar as barracas como uns balões de ar.
Quanto aos nomes são todos ficcionados, claro e a fotografia do Parque é uma montagem, seguramente.
Um beijo amigo de Parabéns
Já está no prelo?????
RISCAS DE PRAIA
Todos os verões as praias vestem-se de garridas riscas.
As barracas abrigam-nos das nortadas, dos nevoeiros, do sol forte.
Transformam-se também em casinhas de pano, para tirar o fato de banho molhado, ou até fazer uma soneca.
Retorno numa nuvem de areia e sal à infância.
Lembro a vendedora dos bolos, com a caixa repartida em prateleiras deslizantes: as bolas de Berlim, os pastéis de nata, os bolos de arroz, os queques, os eclaires. O açúcar teimava a confundir-se com grãos de areia e à medida que se abriam os vários compartimentos da pastelaria ambulante o nosso apetite guloso ia crescendo.
Também havia os Olá fresquinhos – há fruta, ou chocolate. E a bolacha americana a estalar na boca ao despique com batatas fritas?
Depois eram as brincadeiras, correrias de escondidas nas barracas, poços em busca de água, castelos de areia, formas em forma de bichos ou flores, barquinhos que se faziam ao mar, saltar as ondas, ou furá-las, percorrer a beira-mar e ver as marcas deixadas no chão. Encontrar conchinhas para pôr em frascos ou colares, ver estrelas sem ser no céu e os marotos dos caranguejos a fazerem marcha-atrás.
Todos nós já vivemos pedaços de vida nas barracas de praia.
Quem sabe se até um primeiro beijo tímido, coado de luz, foi aí trocado. GUIDÓ

Comentário a "Os Locais do Mário Xavier", por Chico Carrilho




Chico Carrilho



.



.







Muito bem Mário! Gostei muito de voltar a sentir, através das tuas palavras, o ambiente fantástico que partilhámos no MUCH. Acho que só te esqueceste de referir que, no ínicio, tínhamos lá uma mesa de pingue-pongue feita pelo teu pai onde treinámos bastante, mas, com o avançar das nossas idades e a inevitável atracção pelo sexo oposto, rápidamente passámos do desporto para outras actividades tambem elas muito suadas e, aí, o maior uso que ela teve foi servir de biombo (chama-se a isto aproveitamento dos objectos para diferentes fins). Para isso, levantávamo-la por forma a ficar assente sobre um dos lados e encostávamos os pés da mesa à parede criando um espaço reservado. Não quero adiantar muito mais, mas penso que no chão chegou a estar um colchão velho (para quem quisesse descansar...).
.
Os bailes do MUCH eram famosos, como referiste e muito bem, e penso que uma das coisas que mais contribuiu para isso era o facto de um "slow" com uma determinada duração, no MUCH durava 4 a 5 vezes mais. O segredo consistia em(e aqui a cumplicidade masculina era fundamental ), quando a música estava a chegar ao fim, dar um toque no gira-discos de forma a que a agulha voltasse ao princípio. É claro que os sócios do MUCH eram os que tinham esta técnica mais desenvolvida, fruto de longas horas de treino. Também praticávamos a divisão de tarefas, assim as meninas levavam os "comes" e os rapazes os "bebes". No final, e depois de arrumada a "sede", quem é que comia e bebia o que sobrava, quem era?- os sócios do MUCH!
.
Quanto à "jogatana", aquilo atingiu niveis indescritiveis, já que se chegava a jogar Poker "mano a mano". O Rogério tinha uma hora livre e aparecia lá para jogar com o Mário. Eu lembro-me de uma vez ter como opositor o saudoso Johnny (João Lourenço). Ainda hoje o Nuno Mendes é conhecido pelo "Mijinhas", devido à forma peculiar que tinha de apostar.
.
Referes também que "diáriamente eu, o Xico Carrilho e o Faria". É verdade que nesses anos eu passava os dias em tua casa e gostava aqui de fazer um agradecimento público aos teus pais pela disponibilidade , paciência e carinho com que sempre me trataram ao ponto de a tua mãe me tratar por "sobrinho". Ainda outro dia comentei com a tua irmã Isabel que lhe hei-de fazer uma visita um destes dias.
.
Apreciei, especialmente, a última parte em que referes que " independentemente das voltas que as nossas vidas tenham dado seremos sempre AMIGOS!" Pela minha parte não podia estar mais de acordo.
.
Só queria dizer, e para terminar, como membro vitalício do MUCH MONEY GROUP, que, por mim, estou disponivel para a realização de uma Assembleia Geral com o ùnico ponto da ordem de trabalhos: proposta de entrada para sócio, após trinta e cinco anos em lista de espera, do meu bom amigo José Carlos Faria. Eu voto SIM!
.
Um grande abraço
-


Chico Carrilho
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------
Nesta fotografia estão alguns dos "suspeitos do costume" referidos nos textos do Chico e do Mário (e mais alguns). Foi tirada no Casino em 1970 e esta é uma boa altura para um dos retratados a legendar.


Belão disse:

Então ninguém legenda a foto da "matiné infantil"?Vou começar e haja alguém que termine!

Prima da João Gomes?; Belão; Nami; João Gomes; Luís Miguel; Anico; Tucha; João Ferreira; Mena Gomes; Rogério; Chico Carrilho(sentado); Rui Hipólito; Lipe Zé;Misá; Marta; Mena Pinheiro.

2ª fila- Aline?; Manuela; Gena ;?; Paula Jales;Clara; Guida Rêgo; Susana; Zé Carlos Faria; Zezinha.
.

MJoãoGomes disse:
Prima da João Gomes não é. Conheço a cara, mas não me lembro do nome, deve ser do ADN (Antiguidade da Data de Nascimento), mas a Guida Rego ou a Paula Jales são rapariguinhas para saber.

Paulinha disse:
a prima do Carlos é a Misá , irmã do Janeca.

30-05-2008
Mª João Gomes disse:
O Xico referiu o carinho com que a D. Maria da Luz o tratava, mas não era só a ele. Havia aqueles miminhos:-meninas saiu agora um bolinho do forno, venham lanchar. E aí íamos nós todas contentes (ainda não tínhamos problemas de pneuzinho, colesterol trigliceridos, etc).Não sei mas acho que estes mimos eram só quando haviam meninas por perto, corrijam-me caso seja presunção minha. Um beijinho e obrigada D. Maria da Luz.