ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
.
.

Mostrar mensagens com a etiqueta anos 40. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta anos 40. Mostrar todas as mensagens

MILA MARQUES : UMA ÉPOCA E TRÊS PROFESSORES






MARIA EMÍLIA FRANCO HENRIQUES
Uma antiga aluna do Colégio Ramalho Ortigão

Na minha terra e para a minha geração, sou a Mila Marques, filha do José Marques Henriques. para a da minha filha, sou a mãe da Guidó e para a das minhas netas, sou a avó da Sara e Mariana Gouveia.

Nasci nas Caldas da Rainha no Ano de 1930, na Avenida da Independência Nacional, nº 29.Nesta época era habitual as crianças nascerem em casa dos seus pais e não nas Maternidades, sendo o parto assistido por uma parteira.

Estudei sempre na minha terra até vir para Lisboa para fazer o Curso Geral de Enfermagem.
Da 1ª à 4ª classe estive no ensino oficial, tendo tido sempre a mesma professora -Dona Antónia - de quem tenho a melhor recordação. Julgo que o apelido era Almendra.
Depois veio o Colégio Lusitano e o Colégio Ramalho Ortigão e é deste último que venho dar o meu testemunho, a pedido do João Jales, que em boa hora quer reviver o passado.


COLÉGIO RAMALHO ORTIGÃO

Nasceu da vontade e do empenhamento de alguns pais que queriam que os filhos continuassem a estudar mas sem partirem tão novos para outras cidades.
.
E, talvez por ter nascido bem, era um colégio excelente, quer pelo ambiente, quer pelo ensino que nele se praticava. Pelo menos é esta a avaliação que eu faço á distância e passados tantos anos.

O ter sido criado sem separação de sexos permitiu uma convivência saudável entre adolescentes. Poderemos considerar que isto era avançado para a época dado que no ensino oficial havia Liceus para raparigas e outros para rapazes.
.
Foi berço de grandes amizades, que ainda hoje perduram, apesar de da vida ter separado muitos de nós. Recordo em especial os colegas do meu 7º ano -Ciências, Jeca Lopes, Mário Gonçalves e Jorge Sotto-Mayor.

Foi ainda berço de casamentos... Na minha época vi nascer os namoros da Bé Castro e do Zeca Mesquita, assim como da Ana Maria e do Mário Gonçalves.

Quero ressaltar ainda a preocupação que a Direcção do Colégio tinha na selecção de professores em relação à qualidade e sem olhar a credos políticos ou religiosos.
E como exemplo farei referência a 3 professores, que escolhi pela influência que tiveram na minha Vida.


PROFESSORES DO COLÉGIO RAMALHO ORTIGÃO

1. ANITA NASCIMENTO (29/02/1920)
Foi a minha professora de bordados, assim como deve ter sido de dezenas de raparigas caldenses. Tinha uma atitude maternal no modo como ensinava. Serena, perseverante, sorridente e cheia de paciência para que aprendêssemos bem a sua Arte. É assim que ainda hoje a vejo.


Foi um prazer aprender com ela o filet matemático e o ponto cruz, quase milimétrico e com avesso. Mas com ela aprendi também como é importante procuramos a perfeição em tudo o que fazemos. Assim, mais tarde, quando fiz o meu curso de enfermagem, era conhecida pela Pontinhos ou Pontos...




2. LUÍS ROSA BRUNO (Redondo, 1916 -?)
.
.
Licenciado em matemáticas pela Universidade de Coimbra , foi meu professor de química e era notável o modo como ensinava.
.

Alentejano, nascido no Redondo, possuía uma figura carismática e uma personalidade multifacetada, que tinha algo de quixotesco!


Bastante magro e com grandes olhos negros, fazia-me lembrar o Manolete, toureiro espanhol muito em voga nessa época. Fumava muito e tinha um jeito peculiar de agarrar no cigarro. Revejo-o com as mãos muito esguias, queimadas pelo tabaco e levantadas de um modo como se estivesse a declamar. Ele assim nas suas aulas: um Professor excelente, que gostava de ensinar. Relembro, que para além do trabalho no Colégio, tinha alunos a quem dava explicações.


Houve um período da sua vida que trabalhou na Secla, possivelmente na área de laboratório.


Adorava o seu Alentejo, mas as Caldas foram também um outro amor. Basta ler a poesia por ele escrita sobre a Praça da Fruta e que a Isabel Castanheira (Loja 107) divulgou num dia de Poesia!


Para além de ser para mim uma referência quanto ao seu método de ensino, a ele devo também o tanto ter gostado de Química, a ponto de ter pensado seguir esse rumo. Devo-lhe também o ter aprendido a escrever à máquina. E perguntarão porquê? Passo a explicar: ele pretendia editar um livro sobre Química e eu ofereci-me para o dactilografar. E assim, por tentativa e erro, lá fui escrevendo numa máquina que o meu pai me tinha oferecido – uma “Woodstock” – e que ainda hoje tenho como uma relíquia do passado! Lembro-me que era necessário 1 original e três cópias e que havia um lindo capítulo sobre os gases raros da atmosfera. Nunca soube se chegou a ser editado, como foram outros que podem ser consultados na Biblioteca Nacional (ver lista de publicações). Como eu gostaria de ter ficado com uma cópia desse meu primeiro trabalho.


Para terminar desejo fazer uma sugestão: uma rua das Caldas ter o seu nome, por aquilo que ele foi como Professor e Poeta e pela dedicação franca que tinha pela nossa terra.


Publicações


Acontecer poesia, Caldas da Rainha, 1957

A minha selecta – Fernão Lopes: útil aos estudantes do 4º e 5º anos liceais, Beja: [s.n.], 1955

O alumínio: conheça os metais. Beja: [s.n.], 1955

O lítio: conheça os metais, Beja: [s.n.], 1955

Poesia de Luís Rosa Bruno, texto policopiado / compil. Maria Alcina Rosa Bruno, [S.l.: s.n., 19--]

Sou d'além...: versos, S.l. : s.n.], 1945 (Montemor-o-Novo: -- Emp. Gráfica)

Tesoiro sem preço: a língua portuguesa, Lisboa: Editorial Ultramar, 1955

Um novo mundo nasceu, [S.l.: s.n., 1946] ([Estremoz: -- Tip. "Brados do Alentejo"]), colecção “Bocadinhos de física; 1”

Tríptico: a Santo Aleixo da restauração pelos seus heróis de 1641, 1644 e 1704, Beja: Minerva Comercial 1954


3. MÁRIO BRAGA (Coimbra, 1921)
Foi meu professor de Filosofia. Transmitiu-me o seu interesse por esta matéria e a paixão pela leitura. Passados tantos anos, foram talvez as suas aulas de que me fizeram entusiasmar a frequentar cursos organizados pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira. O próximo será sobre a “Filosofia Portuguesa no século XVIII”.



Vim a encontrá-lo mais tarde, dado que fez o curso de Administração Hospitalar e assim os nossos destinos voltaram a cruzar-se.


É autor de vasta obra literária de reconhecido mérito e gostaria que tivesse uma página na Internet, onde se dando conta de trabalhos passados e futuros. De momento, sei que decorre uma exposição biobliográfica no Museu do Neo-realismo em Vila Franca de Xira, que procurarei ver.



Dirigiu a revista de cultura Vértice entre 1946 e 1965.


Publicações


Nevoeiro, 1944

Caminhos sem Sol, 1948

Serranos, 1948

O Pedido, 1949

Platão e a Poética, 1950

Camilo e o Realismo, 1957

Mariana, 1957

Quatro Reis, 1957

Histórias da Vila, 1958

Vale de Cangens, 1958

O Cerco, 1959

O Livro das Sombras, 1960

Corpo Ausente, 1961

Viagem Incompleta, 1963

A Ponte sobre a Vida, 1965

Café Amargo, 1966

Antes do Dilúvio, 1967

Os Olhos e as Vozes, 1971

Entre Duas Tiranias: Uma Campanha Pouco Alegre em Prol da Democracia, 1977

O Intruso, 1980

Contos Escolhidos, 1983

As Rosas e a Pedra, 1995

Contos de Natal, 1995

Espólio Intacto, 1996

Momentos Doutrinais, 1997

As Ideias e a Vida

O Reino Circular
.


Mila Marques
.
________________________________________________
COMENTÁRIOS
.

O meu Pai continuou até ao fim dos seus dias a pesquisar, a escrever, a experimentar, a pensar...muito haverá a dizer, a contar, a perguntar, a partilhar...agradeço contacto da Vossa parte.
Parabéns pelo vosso blogue e muito obrigada pela ALEGRIA que me proporcionaram. Joana Bruno
P.S.a minha mãe Maria Alcina R. Bruno continua a procurar textos e outros do meu Pai, eu quero ajudar e conto convosco.
Muito Grata
Joana Bruno
.

Foi com imenso prazer que li o que a Mila escreveu. Dos professores tive o prazer de conhecer o Dr. Rosa Bruno e a D. Anita que, apesar de não ser professora dos rapazes, é uma amiga que todos recordamos.
Apesar dos doze anos de idade que nos separam recordo-me dos colegas que cita e de si, o nome não me é estranho na memória, mas já fico grato pelo seu aparecimento neste espaço de são convívio. João Ramos Franco
.
João Jales disse:
Foi com enorme prazer que vi a nossa colega Mila aceder ao meu convite para colaborar com as suas memórias nesta série sobre os professores.
As nossas meninas se encarregarão de falar um pouco mais da D. Anita, gostaria eu aqui de realçar a enorme influência pessoal que Rosa Bruno teve em todos os que foram seus alunos, todos o descrevem com um enorme entusiasmo e um brilho nos olhos (ou nas palavras). Há poucos professores assim.
Mário Braga, de cuja passagem pelo ERO só tive conhecimento há um ano, é uma figura relevante no panorama das letras portuguesas no séc. XX e o facto de ter sido professor no Colégio uma prova da qualidade do seu corpo docente.
A forma clara e vibrante como tudo isto é exposto torna a informação não só útil mas um prazer de ler. Obrigado, Mila, ficamos à espera de mais!
.
Mário Gonçalves e Ana Maria disseram:

O depoimento da Mila Marques contém um precioso testemunho que traz à actualidade a recordação de uma época passada no ERO e que nós, os da sua geração, desejaríamos talvez menos distante. É escusado dizer que adorávamos a Mila, a suas qualidades de boa aluna e de excelente colega, ponderada, possuidora de uma capacidade de estima que nos contagiava e por vezes, serenava. As amizades que assim criou são profundas, perenes. Nós, cá em casa, é assim que a consideramos ainda mais por ter sido a nossa companheira de eleição no namoro que, de facto, viu nascer. Poderíamos até não estar longe, talvez ao lado, no momento em que foi tirada a fotografia que a identifica perante as juventudes que vieram depois.

São justas as referências elogiosas que faz aos fundadores do ERO que, um pouco contra a corrente, alcançaram juntar no mesmo Colégio, as raparigas do Lusitano e os rapazes do Caldense, com óbvias vantagens para elas e para eles, no aspecto pedagógico, está bem de ver.

Os três Professores que a Mila elegeu merecem bem o destaque que lhes foi concedido, amplamente confirmado pelas qualidades humanas e pedagógicas que justamente lhes foram atribuídas e pelos dados curriculares com que complementou os outros talentos literários que tão bem se revelam na poesia de Rosa Bruno e na vasta prosa do consagrado escritor Mário Braga.

Agradecemos à Mila por ter representado de forma tão admirável a geração dos primeiros alunos que frequentaram o ERO e que o recordam com compreensível saudade.

Muitos beijinhos para a Mila com aquela nossa Amizade.

Ana Maria e Mário
.
Guidó disse:
Por aqui se compreende parte dos laços que me unem ao Colégio Ramalho Ortigão (outra parte deve-se a tantos dos meus amigos por lá terem andado). Cresci a ouvir histórias de professores e colegas da minha mãe e do meu tio Cazé (Carlos José Marques Henriques). Soaram-me sempre a um bom tempo e a uma boa formação.
Da Anita um conhecimento amigo de uma vida.
Do Mário Braga o encontro de vários livros nas estantes lá de casa e do Rosa Bruno a história do livro de Química, dactilografado na "Woodstock" e na qual eu fiz os meus primeiros trabalhos na Faculdade.
Beijos amigos para todos
da Guidó (Margarida Araújo)
.
António José Figueiredo Lopes disse:
Muitos parabéns Mila, adorei ler a tua colaboração no “BLOG”, fez-me recuar no tempo e reviver um passado sem dúvida muito feliz.

A vida profissional e até o período de formação afasta muitas vezes os que nascem em pequenas cidades, separa convívios e cria novos contactos e novas amizades. Julgo que isso ainda acontece, embora em menor escala, dado que actualmente existem boas vias de comunicação.

Não foi o nosso caso de há mais de sessenta anos. A cidade era pequena, mas como isso era agradável, o nosso convívio intenso, permanente, havia um sentido de apoio entre todos. Acho que foi isso que cimentou os nossos sentimentos. Embora separados pelo nossos diferentes percursos, nem o tempo nem a distância conseguiram destruir as nossas amizades de adolescentes, que perduraram por toda a vida… até hoje.

Lembras-te de ser a minha comadre um ou dois anos. Brincadeira que infelizmente penso que se perdeu “o contratar, contratar, quem primeiro manda rezar”, e graças à qual posso garantir que fazias excelentes bolos.

Falando de professores e em relação ao Dr. L. Maria Rosa Bruno estou totalmente de acordo contigo, mas à tua lista de livros gostaria de acrescentar uma Aritmética Racional cujas provas tipográficas ajudámos a rever. Infelizmente desapareceu-me um exemplar do livro de versos “Eu sou d’além” com uma dedicatória do Dr. Bruno.

Continua a escrever e manda mais fotos A.J.F.L
.
Júlia Ribeiro disse:
Não há dúvida que o blog ,dia após dia,está a tornar-se mais interessante !Não sei onde irá parar.....Fiquei a saber coisas que não imaginaria,nomes de pessoas que me diriam algo, mas que não fazia a minima ideia que teriam sido professores do ERO. Assim,passo a passo, vamos sedimentando ideias e conhecimentos do colégio, e do ensino,que pelo que a Mila nos relata ,teria sido sempre de grande qualidade.Obrigada Mila
Julia R
.
Sara Gouveia disse...

Adorei! A neta orgulhosa,
Sara

.

Isabel VP disse...

Gostei muito do testemunho da Mila Marques, que eu só conheço de ouvir falar (Mila, lembra-se da Sra. D. Emília, costureira, que morava na Rua do Hospício? Era ela que nos falava muito de si).
Quanto aos professores referidos, a Sra. D. Antónia Almendra era nossa vizinha na Estrada de Tornada e também, em casa dela, foi minha professora e da Muki (filha do treinador do Caldas Szabo), 3ª classe, e da minha irmã Lena, salvo erro na 1ª. A Sra. D. Anita é o que todas sabemos e por quem todas temos uma imensa ternura. O Dr. Bruno, que também só conheci através de conversas do meu irmão, era para mim como uma lenda.
Apreciei imenso o seu retrato do ERO e das amizades (e amores) que por lá foram nascendo, afinal tão semelhantes às que foram nascendo mais tarde, no nosso ERO. Afinal de contas, mudam-se os tempos mas as vontades nem sempre se mudam tanto! Isabel VP
.
Isabel Esse disse...

"Foi ainda berço de casamentos..." escreveu esta nossa colega(se posso tratá-la assim)que nos retrata um colégio de todos os tempos com um à vontade e uma ligeireza admiráveis!!!Tudo tão igual que até a D.Anita foi também minha professora! Estou a brincar,porque não tive a felicidade de conhecer o Dr.Luis Rosa Bruno que já aqui tinha sido citado,nem o Dr.Mário Braga,pelos vistos um escritor importante que passou pelo colégio.Parabéns Mila, pela sua contribuição.Isabel
.
Jaime Serafim disse:
Deliciei-me a ler o texto daquela Senhora (D. Maria Emília Henriques). Que belo testemunho e que texto tão bem escrito!
Um abraço Jaime
.
São Caixinha disse:
Adorei ler o relato da Mila sobre os tempos anteriores ao nosso e os professores que a marcaram. Felizmente conheci a D. Anita a partilho sobre ela a sua opinião! Que amoroso o bordado... e que curioso recordar ainda os documentos escritos á máquina com cópias feitas a papel químico! Como era importante não fazer erros!!! Uma verdadeira maravilha esta participação...os meus parabéns, e desejos para que nos volte a deliciar com mais estórias.
São Caixinha
.
António Delicado disse...

Minha querida amiga Mila.
Não acompanhei esta sua vivência tão carinhosa e precisamente descrita neste texto mas tive o grande prazer em ter partilhado, durante alguns anos da sua vida profissional já como enfermeira consagrada na Direcção Geral dos Hospitais e depois da Saude, momentos de árdua labuta e ao mesmo tempo de grande partilha.A sua disponibildade, empenho e alegria contagiante ficaram marcados profundamente em mim e, creia, que são coisas que sempre perdurarão.
Grande beijinho António Delicado
.
Isabel Caixinha disse:
Que surpresa tão agradável ler o texto da Mila Marques.Não só foi aluna do princípio do ERO que eu conheci, como também do ERO que eu nem tinha conhecimento que tinha existido, e que foi graças ao Blog que conheci!
Dos professores mencionados só a D. Anita me é conhecida e também eu tive a sorte de aprender nas suas aulas de lavores "pontinhos" que ainda hoje adoro fazer.
Que informação tão valiosa para a reconstrução da história do ERO!Ficam os desejos que a Mila nos venha mais vezes falar dum passado que eu não conheci mas que de certa forma nos é comum .
um beijinho
Isabel Caixinha
.
farofia disse...

Apetece-me começar com um sorriso de frase que a Emília escreveu: "Lembro-me que era necessário 1 original e três cópias e que havia um lindo capítulo sobre os gases raros da atmosfera"
:))
Quando a Emília conta ...
o "COLÉGIO RAMALHO ORTIGÃO nasceu da vontade e do empenhamento de alguns pais que queriam que os filhos continuassem a estudar mas sem partirem tão novos para outras cidades. E, talvez por ter nascido bem, era um colégio excelente, quer pelo ambiente, quer pelo ensino que nele se praticava"...
fico a pensar como esta lição de 'querer é poder', de 'pôr as mãos à massa' e 'os pés ao caminho', é um clássico que precisamos reler nos dias que correm.
(ah! e adorei o seu post!)
Inês
.
Isabel X disse...

Aquele professor de matemática tinha muito estilo, realmente! Não é de admirar que a Mila se tivesse oferecido para lhe dactilografar o livro. Ainda para mais sendo parecido com o Manolete!
A Mila é tão fidedigna na descrição que faz que até parece que o vemos a acender o cigarro. Agora a sério: gostei muito! Este blogue cada vez congrega mais e mais gerações do ERO. Um beijinho para a Mila.
- Isabel Xavier -
.
jorge disse...

começa a surgir realmente uma panorâmica de toda a existência do colégio.excelente texto cheio de memórias interessantes e informações inéditas.parabéns.
.
Amélia Viana disse:
Que bom termos o testemunho de uma "jovem colega" ,nascida em 1930...É a prova de que o tempo ilumina as mentes interessadas e curiosas da vida...Que bela é a sua descrição e que bem escrito o texto, tem o dom de nos reportar áquela época e vivenciar um pouco das suas experiências, percursos e ambiências.
Já não era novidade, mas agora fica mais reforçada ainda, a ideia de que houve desde sempre uma grande preocupação em relação ao corpo docente do nosso ERO para que tivesse os melhores professores,os de topo. Muitos parabéns à autora e não deixe de nos brindar com os seus maravilhosos contributos.
Amélia Teotónio
.
Raf disse...

A Tia Miloca que se tornou, para mim, muito mais que a avó da Sara e da Mariana! Só tenho mais uma vez a agradecer os miminhos que nos proporciona depois de uma noite de festa, não esquecendo a paciência!
Espero poder continuar a viver esta sua alegria durante muito mais tempo.Um grande grande beijinho, Rafinha.
.
Joana Bruno disse...

Muito grata aos digníssimos Mila Marques, João Jales e a todos os que partilham neste blogue o vosso Passado Comum, que traz conhecimento às gerações seguintes dos vossos tempos e tanto nos enriquece e inspira...
Joana Rosa Bruno

OS PROFESSORES EM 1945-51 (Miguel Bombarda)

.
.
.
por António José Figueiredo Lopes
.
.
.
.
.
.
.
Caro J.J.




Falar sobre professores de outras eras, do meu tempo de muito jovem, não é fácil. Passaram-se muitos anos, a noite do tempo esbateu nomes e recordações e a minha idade também vai cobrando o seu tributo, apagando imagens e nomes que ainda ontem estavam mesmo ali.

Meditando sobre essas épocas, apercebo-me de que teria havido uma certa rotatividade dos docentes, sendo que alguns, terão passado pelas nossas vidas de jovens sem deixar qualquer lembrança ou marca que se tivesse mantido até hoje. Foram apenas mais um professor/a. Isto pelo menos no que me toca, outros haverá com quem estabeleceram alguma empatia e que ainda os conservam nas suas recordações.

Tentando corresponder ao pedido do J.J., vou citar alguns nomes, sem qualquer pretensão de ser exaustivo, nem menor consideração por outros. São simplesmente os que na altura em que escrevo me vieram à memória.

As minhas matemáticas liceais, se bem me lembro, tiveram o seu início com o Dr. Abrunhosa, que recordo como homem austero que tentava impor disciplina, a um grupo um tanto ou quanto avesso a semelhante coisa.

A Dra. Lídia que tudo fez para me ensinar Latim e Português. Terá tido um sucesso relativo no Português… mas no latim foi uma desgraça, não por ela, claro.

A Dra. Alda Lopes, que bem tentou, com uma dedicação e competência a toda a prova que eu aprendesse Inglês. Infelizmente não teve um grande sucesso, o aluno era uma catástrofe, mas anos mais tarde foi bem vingada, quando ao chegar ao Canadá aprendi em seis meses o dobro do que deveria ter aprendido em três anos. Claro que era uma questão de pura e simples sobrevivência, mas não só, uma das provas para entrada na universidade obviamente era … Inglês.

O Maestro Carlos Silva, pessoa de grande cultura e educação, com uma paciência sem limites para aturar todas as nossas brincadeiras. Colaborador incansável em tudo o que fosse preparação de grupo coral.

O Dr. Silveira, que não tinha grande jeito para manter alguma disciplina nas aulas.

O Tenente Alves, mais tarde major Alves, pessoa com quem contactei ainda por muitos anos, e a sua Geografia, matéria insípida, mas da qual, não sei bem como, nos conseguiu fazer aprender alguma coisa.

O Dr. Melo que na minha opinião não teria grande jeito para ensinar História e ainda menos para lidar connosco.

O Dr. L. M. Rosa Bruno, excelente professor, com um jeito muito especial para lidar com a malta, conseguindo simultaneamente camaradagem e disciplina, que me conseguiu ensinar matemática, física/química e desenho. Poeta. Um pouco controverso para as convenções sociais da época. Nunca me esquecerei da sua reacção, quando acabado de chegar ao Colégio, foi para o laboratório dar a sua primeira aula prática de química tentando impressionar os seus novos alunos. Claro que alguns (a minha modéstia impede-me de dizer quem foi) tinham conseguido acesso ao laboratório, (era fácil) e mudado os rótulos de diversos frascos com reagentes etc. Foi um fracasso total.

Encarou-nos a todos, riu com gosto e disse: óptimo, verifico que existe um grande interesse pela química e agora toca a emendar tudo, e não repitam, porque pode ser perigoso.

E por aqui termino em definitivo, desejando que isto sirva de arranque para outros dizerem de sua justiça, relembrando um passado já distante, mas que, para quem o viveu, é sempre agradável recordar.

A. J. F. Lopes


ERO Miguel Bombarda 1948/49 - Da esquerda para a direita:
Dr. Bruno, Mário Braga,D. Anita,Dra. Lídia,Dra. Alda Lopes e Dr. Azevedo.
.
......................................................................................
COMENTÁRIOS
.
Nani Barosa disse:
Gostei muito de ler o artigo do Dr. Lopes. O meu professor favorito era não só um bom educador, como também um homem bonito!
Ele tinha o dom de trazer a irreverência para a sala de aula de tal forma que toda a irreverência dos alunos se tornava irrelevante! Ele também sabia ser "duro" e sarcástico, mas isso era um mal necessário...
Investia dedicadamente nos seus alunos, a sua presença era muito positiva e transmitia sabedoria duma maneira que seduzia. Não, não estava apaixonada por ele... era mais uma espécie de ídolo! E nem sequer ensinou as minhas disciplinas favoritas, pelo contrário, nunca fui boa a desenho e muito menos a matemática. Imaginem se todos os professores tivessem sido como ele?
.
Luis disse:
Há aí pelo meio deste depoimento algumas travessuras e indisciplina, pareceu-me... como é que uma dúzia de anos depois andava este senhor a impôr disciplina e a mandar calar os seus alunos? Ele devia ser pior comportado do que a maioria dos alunos que teve, confesse...
Tenho muitas saudades das aulas e do convívio com o Dr. Lopes!!! Daqui envio um abraço. Luis M
.
Júlia Ribeiro disse:
Que delícia ler este artigo do Dr. Lopes !Reviver a sua época de estudante, e os seus professores, gostei particularmente da maneira como a descreve.Que delícia ver fotos do ano em que eu era um bébé ...que ainda usava fraldas e continuei a usar.....de pessoas que seriam mais tarde meus professores também(estou a referir-me à D. Anita,ao Dr. Lopes e ao Dr. Azevedo). Em 1964/65 , estava eu quase a sair, mas o destino estava marcado, encontrámo-nos todos no ERO. Eu, aluna, com 3 professores e 3 grandes Amigos.
Não posso deixar de fazer aqui um reparo.Conheci o Dr. Azevedo em 1958 e nunca imaginei como seria ele 10 anos mais cedo. Que engraçado... tão diferente! A postura,a toilette ... e o cabelo para onde teria ido??
Ao meu querido Professor e Amigo Dr.Lopes um muito obrigado e um grande beijinho. Júlia R
.
João Jales disse:
Tem razão o Luis, há realmente um "cheiro" de irreverência, um travo de rebeldia e não-conformismo, neste aluno António José que explicam muita da cumplicidade que caracterizou o professor Dr. Lopes. Muito do humor e da ironia que me lembro de serem típicos nele, tiveram origem no facto de, ao contrário de outros, quando foi colocado "do outro lado da sala", ainda não se ter completamente esquecido do que era estar "do lado de cá".
Hoje temos o depoimento do aluno mas já, em devido tempo, muitos aqui recordaram o professor. Vou recuperar alguns desses testemunhos para integrar nesta série.
Hoje é ao nosso colega António José Figueiredo Lopes que deixo um grande abraço. JJ
.
João Ramos Franco disse...
A minha memória ERO Miguel Bombarda não é uma realidade vivida, mas contada pelos mais velhos, vindos das antigas instalações e que comigo no ERO “prédio do Crespo”, situado no nº 91 da R. Capitão Filipe de Sousa, conviveram.
Dos professores mencionados só o Maestro Carlos Silva foi meu professor. Conheci o Dr. L. M. Rosa Bruno e Dra. Alda Lopes, mas não como professores.
É bastante provável que conheça António José Figueiredo Lopes mas se te disser que neste momento não estou a ligar o nome à pessoa, é uma realidade.Todas as palavras dos que passaram pelo ERO são bem vindas, mas os do meu tempo continuam sem dar noticias fazendo com que seja mais difícil recordá-lo. João Ramos Franco
.
Isabel Esse disse...
Este aluno é a mesma pessoa bem disposta e jovial que me deu aulas vinte anos depois. Está "muy guapo" na fotografia o nosso António José, também deve ter destroçado uns corações naquele tempo. Mas ele disso não fala... Isabel S
.

Os Locais do António José Lopes





A. J. F. Lopes



Aqui vão algumas das recordações dos meus tempos de aluno no E. R. O. , seguindo mais ou menos o vosso pedido.
Depois foi a ida para Lisboa e o corte involuntário com a vida nas Caldas. Não esquecer que as comunicações não eram tão fáceis como agora: o Comboio levava 3 horas e o autocarro nem pensar.

.
.
.



Pela parte que me toca estamos a falar talvez dos anos 40 a 50 e poucos. Mais propriamente a partir de 1944. Claro que exprimo a minha opinião muito pessoal, ou seja a minha interpretação actual das recordações de uma realidade passada há já muitos anos.

Eu diria que os pontos de encontro para os “teens” da época tinham características sazonais. Isto é, no Verão era o dia, ou parte dele, na Foz do Arelho, onde pontificava o José Félix, e a noite no Parque/Casino. Mas mais no Parque que, nessa época, era uma espécie de sala de visitas das Caldas onde todos se encontravam, ou sentados pelos bancos que ladeavam (então como hoje) a rua principal, ou na velha esplanada, ou ainda fazendo piscinas rua abaixo rua acima, enquanto a Banda se fazia ouvir no coreto. Pena que tudo isso se perdeu e o Parque se desertificou em termos humanos (sobretudo nas noites de Verão) talvez acompanhando, solidário, a ruína do Casino.

No Inverno era um pouco mais complicado, havia algum desencontro das pessoas (claro que é a minha opinião pessoal) e, aí sim, os cafés eram uma espécie de tertúlias, cada um com a sua fauna especial, de tal modo que querendo encontrar A, B ou C teríamos que ir a determinado café. Mas o verdadeiro ponto de encontro do Inverno, para mim, era mesmo o cinema, fosse o Pinheiro Chagas ou o Salão Ibéria, com a combinação prévia à saída das aulas.

Claro que também havia uns jogos de bilhar (Casino e Clube de Inverno), o ténis de mesa e os inevitáveis matraquilhos. O “snooker” do Central não me lembro de ser muito popular entre a rapaziada. As Ginjinhas & Cª eram pontos de passagem e não pontos de encontro, Ferro Velho & Cª apareceram mais tarde.

Nas papelarias o Silva Santos era mais um lugar de pesquisa onde, com alguma dificuldade, se tentava encontrar um livro (não esquecer que nesses tempos a leitura era um hábito e era importante ter lido o livro X). A Tália sim, seria um ponto de encontro, ou o embrião de um ponto de encontro. Os outros vieram mais tarde.

Havia ainda a Biblioteca do Sindicato na Rua do Jardim (Alexandre Herculano), onde se encontravam, além do “PING PONG”, alguns dos livros cuja leitura era na época fortemente desaconselhada e, talvez por isso, muito procurados.

Os bailes eram inevitavelmente no Casino e Lisbonense, muitas vezes em simultâneo. Só no Carnaval, com os grupos de máscaras, se corriam os Bailes todos das Caldas, e não só, além dos inevitáveis assaltos “surpresa” que toda a gente sabia quando e onde iam acontecer.

E com isto tudo e os jogos de futebol rapa canelas no Casal Estremenho e no Campo da Mata, umas sessões de “KING” nas nossas casas, etc., ainda se tentava ter tempo para estudar alguma coisa.

A qualidade das bifanas e das imperiais é difícil de lembrar. Aliás a cerveja não era então tão popular como agora. Os pregos eram normalmente (no Verão) no Lusitano ou na Zaira, era mais perto do Parque, normalmente acompanhados por vinho branco bebido em chávenas de chá para parecer mais conveniente. No Inverno havia umas visitas ao Cazeta, na estrada para Tornada. A casa ainda lá está mas desactivada há longo tempo.

Um abraço
A. J. F. Lopes
2008-03-16
.
.

Breves notas e comentários a "O Locais do A. J. F. Lopes"


Permitam-me uma breve nota pessoal para, com a compreensão de todos os outros colaboradores, dizer que este foi o depoimento que recebi com mais prazer. Recordo com saudade os tempos em que foi meu professor, um homem sempre jovial, em paz com a vida e com os outros, que tem estado sempre disponível para o nosso Blog e com "pachorra" para os meus constantes e impertinentes pedidos. Obrigado.
.
A distância Caldas-Lisboa diminuiu bastante em termos rodoviários, ainda há dias trocava impressões com um amigo sobre a facilidade com que hoje vamos a Lisboa jantar com os nossos filhos, por exemplo. Em termos ferroviários não melhorámos nada, na década de 70 também demorei muitas vezes duas a três horas de comboio, não tenho notícias que hoje seja melhor .

A sazonalidade dos locais de encontro Foz do Arelho e Parque é exactamente o relato que encontro nos depoimentos das décadas seguintes, o fascínio por estes dois locais é perene para os caldenses. Mas…

"Pena que tudo isso se perdeu e o Parque se desertificou em termos humanos (sobretudo nas noites de Verão) talvez acompanhando, solidário, a ruína do Casino." Esta é a frase que, para mim, marca este depoimento e mostra que ele relata o passado a falar do presente. Lamentável uma cidade que não é capaz de revitalizar e transformar num local seguro a sua sala de visitas nem de encontrar uma solução para o que já foi um centro de convívio e atracção de forasteiros, hoje transformado num monte de escombros: o Casino. Isto enquanto nascem elefantes brancos.
.
Os cinemas também desapareceram, ambos, e nunca foram verdadeiramente substituídos. O Ibéria ainda há a desculpa que se “suicidou”, mas não o Pinheiro Chagas.

A sede do sindicato na R. do Jardim já merecia aqui uma menção mais alargada. Além do Ping Pong era também um local onde havia sempre um jornal para ler, uma bica mais barata e uma biblioteca onde era possível encontrar muitos “clássicos”. Num ambiente simpático, que contrastava com o tom “carregado” da palavra sindicato na altura.

A leitura de clássicos e obras contemporâneas marcantes da literatura mundial, ou a sua falta, eram sem dúvida um factor que definia e caracterizava, também no meu tempo (vinte anos depois), os nossos interlocutores. Havia uma linguagem cifrada dos que falavam de Swan e Albertina como se falassem de colegas e amigos, enquanto líam o Proust mais ou menos em simultâneo. Mas já na altura a música Rock começava a ocupar um pouco esse espaço cultural, e aí a separação era entre os apreciadores de Tom Jones, Herman´s Hermits ou Petula Clark olhados com desprezo pelos“conhecedores” de Jimi Hendrix , Cream e Byrds.

Curiosamente os mesmos bailes no Casino e Lisbonense, assaltos “surpresa” em casas ou garagens de amigos, apareceram aqui no artigo anterior (Diário - Carnaval ), num relato referente a acontecimentos passados vinte anos depois.
.
A Cazeta, apesar de ser, na época, muito longe do centro das Caldas (ou talvez por isso…) era um local de convívio muito popular e concorrido entre 45 e 65. Não há por aí umas estórias?
.
JJ
.
A fotografia que ilustra este texto é da colecção particular
do autor e foi tirada em 1948 na praia de Sta. Cruz.
.
--------------------------------------------------------------------------------------------------------
MAIS COMENTÁRIOS
.

2008-04-08
Júlia Ribeiro disse:
Não podia deixar de escrever umas palavras à pessoa do Dr. Figueiredo Lopes.Foi meu professor em 1963/64 e 1964/65;não mais deixámos de ter contacto,pois foi uma pessoa sempre presente em todos os encontros do colégio.A sua disponibilidade,companheirismo e jovialidade estão sempre presentes.....Tenho acompanhado o Blog,os depoimentos com imensa graça,mas este realmente foi o que me tocou mais:aqui o revi como aluno e lembrei como Professor....
Obrigado .Um beijinho .Júlia R.
.
2008-04-08
Isabel Caixinha disse:
Olá João!
Gostei imenso de ler o depoimento do Dr.J.F.Lopes.Tive o prazer de o ter como professor de matemática. Se eu tivesse, então, aprendido matemática com o mesmo entusiasmo com que li o artigo, estaria hoje numa Estação Espacial, algures na Galáxia!!!
Que pena que já não conheci as Caldas como Dr Lopes as descreve, e que não pude desfrutar desse ambiente calmo divertido e familiar. Mais pena ainda que hoje em dia não há nada que se lhe assemelhe ou substitua. Desta forma se perdeu muito do convívio e da vida social na Cidade.
Gostei de saber que se tocava música no Coreto e que o Parque era a sala de visitas das Caldas.
Fiquei também impressionada com a criatividade com que é consumido o vinho branco em Portugal,servido em chávenas de chá...Vinho Verde à pressão..."Ratinha" de Vinho Verde...
Um afectuoso abraço ao Dr.Lopes e família.
BjsIsabel Caixinha

.
2008-04-09
Miguel Bento Monteiro disse:
Foi com o mesmo agrado com que o ouvia nas aulas há quarenta anos, que li o artigo do excelente Dr F.Lopes a propósito dos locais frequentados pela juventude caldense. E que, justamente, poderia ser conhecido como o Homem de Calgary (ou o tipo que nos queria despachar para Uagadugu). Tive o prazer de o reencontrar no almoço de 17-11 e verificar que mantém intactas as suas características de lucidez, jovialidade, simpatia e boa comunicação. Espero que continue a colaborar no blog (e este deveria continuar a incentivá-lo para tal), pois é sempre uma boa recordação para nós, que privámos com ele e um exemplo para as gerações mais novas. Desejo-lhe muita saúde e uma longa vida, muitas felicidades e envio-lhe um grande abraço. Miguel
.
2008-04-09
Jorge disse:
Foi bom ir às aulas dele e é bom ler agora isto que escreve, quando fui aluno dele entre 1964c e 1968 nunca soube que ele tinha sido aluno do E.R.O. Daqui lhe mando um abraço!
.
2008-04-11
João Ramos Franco disse:
Nasci em 1942, tenho presente a imagem do Parque que o A. J.Lopes retém na memória e concordo quando ele nos diz: Pena que tudo isso se perdeu e o Parque se desertificou em termos humanos ( sobretudo nas noites de Verão) talvez acompanhando, solidário, a ruína do Casino João Ramos Franco
.
2008-04-12
Ana Nascimento disse:
Este é para o nosso Antonio Zé Lopes….Oh meu querido doutor seja bem aparecido no blog…. Foi muito engraçado constatar que alguns locais, nomeadamente o Silva Santos, o Parque, o Casino também fazem parte da minha geração e que as nossas recordações são tão semelhantes….E não posso deixar de lhe dizer que a foto está giríssima …(o trio continua com o mesmo ar….). Quem diria que, 17 anos depois, o sr. foi meu professor … meu e de tantos “ortigões” que graças a si trouxeram para as Caldas as melhores notas de geometria descritiva, do Liceu de Leiria……( que orgulho tão grande …. nas pautas os vintes eram nossos !!!!!!! ). Não deixe de remexer no seu baú das recordações pois, pela amostra, deve ter mais tesouros para partilhar connosco. Beijinhos e obrigada. Ana

A PERSPECTIVA CALDENSE DA "INVASÃO DOS REFUGIADOS"

“Comparada com as outras cidades da Estremadura as Caldas tinham uma vida trepidante”, foi com esta frase que o Sr. Fernando Vale me quis mostrar como era diferente viver aqui. Depois de consultar o que os historiadores disseram a propósito da passagem/estadia dos refugiados judeus nas Caldas da Rainha durante a 2ª Guerra Mundial achei que era tempo de dar voz a algumas testemunhas desse tempo, e também a alguns colegas mais novos que me transmitiram as suas opiniões, resultantes do testemunho de familiares e de alguma reflexão pessoal sobre as especificidades da vida nas Caldas nas décadas de 50 e 60.
É consensual que a nossa cidade teve entre os anos de 1940 e 1970 uma forma de viver e conviver socialmente muito diferente das suas vizinhas Leiria, Alcobaça, Santarém e Torres Vedras, por exemplo. Não só a presença das mulheres nas ruas, cafés, esplanadas, parque, enfim em todos os locais públicos, era muito mais evidente do que nessas localidades, como a vida social era mais aberta aos outros e acontecia no exterior. Lembro-me da minha Mãe, que era do Porto, estranhar o pouco que se recebia em casa nas Caldas, ao contrário do que estava habituada no Norte. O facto é que sempre me habituei a levar muitos amigos e colegas para almoçar e jantar em minha casa, o mesmo fazendo os meus Pais, mas sempre com pouca reciprocidade. Todo o convívio se passava nos restaurantes, no Clube de Recreio (vulgarmente Casino), hotéis com restauração, etc.. Já na altura nos era explicado, por alguns amigos da família, que eram hábitos de recepção introduzidos por veraneantes e refugiados que não tinham condições para “receber em casa”, como a minha Mãe estava habituada. Significativo ou não, era um facto.
Muitos testemunhos relatam estas especificidades.
“…só mais tarde me apercebi (16/17/18...) que havia alguma diferença entre as vivências Caldenses e das outras terras num raio de alguns km, Leiria incluída.”(AJFL)
“Tão diferente, que bastava sairmos do eixo Cascais/Lisboa e entrarmos no país profundo (que começava onde Lisboa acabava), para percebermos que as Caldas pertencia a um Portugal alternativo: conservador q.b., mas em que as mulheres fumavam em público e iam sozinhas aos cafés, em que o modo de vestir, se diferente, era criticado mas tolerado com benevolência, em que o CCC teve profunda influência, que não ficou restrita a meia dúzia. Mais importante, em que o CCC e o Casino não eram incompatíveis nem se hostilizavam, embora fizessem de conta. Afinal, muitas das pessoas eram as mesmas...” (FJS)
“…a maneira como se convivia, o Casino, os grupos da Zaira, era diferente da mentalidade que havia na altura no nosso País. Caldas era uma cidade muito "aberta " para a época, e eu sei do que estou a falar, vim de Moura, em pleno Alentejo, quando cheguei às Caldas nem queria acreditar!”(PP).
“As minhas recordações dos anos 50 (segunda metade) e 60, em que vivi nas Caldas, tinham algumas componentes intrigantes pois não se enquadravam nos padrões desse tempo, da cidade e do país. A explicação surgiu mais tarde e atribuo-a à influência da passagem dos refugiados pelas Caldas aliada (em alguns casos) às tradições termais.” (JMAS)
Mas que as Caldas eram diferentes nessa época não divide opiniões pelo que, embora agradecendo todas as contribuições, me limito a estas. A questão é porquê, e aqui não há unanimidade. A estadia dos refugiados em 40/45 tem um impacto decisivo ou é apenas mais um factor a adicionar a outros? Esse foi um momento de corte, alteração ou houve uma evolução gradual? Os testemunhos orais que ouvi (identificados no final) foram absolutamente unânimes em considerar que até ao Verão de 1940 as Caldas, embora “mais animadas no Verão, não eram muito diferentes de Leiria ou Santarém”, “quem saía eram os homens, as mulheres ficavam em casa” ou “elas lá iam de vez em quando ao Concurso Hípico ou ao Parque e raramente a bailes, festas, jantares, onde os maridos se divertiam.” Embora a fotografia de um encontro em S. Martinho aqui publicada há dias pareça retratar algo semelhante em 1962, a verdade é que os testemunhos apontam no sentido de uma alteração a partir de 40/45. Uma das explicações para a rapidez com que os novos hábitos foram assimilados foi o facto de os refugiados serem muitos e manterem uma relação de proximidade com todos os habitantes, natural em quem estava emocionalmente fragilizado.
“… senhoras nos cafés, um cigarro a medo, maneira de estar mais aberta, um convívio diferente, etc. O facto é que as Caldas ficou diferente da restante província circundante.” (AJFL)
“Pela 1ª vez viu-se, na província, as mulheres a fumar nos café, que frequentavam, a usar calças e a jogar ténis. Fatos de banho sem serem saias ou vestidos que as fotos do séc. XIX mostravam, enfim um sem número de pormenores e de regras às quais nos fomos habituando e que eram a vanguarda da moda nesse tempo no País e no mundo.”
(JCN).
Os fatos de banho que se usavam na praia eram efectivamente como o Zé Carlos descreve, mesmo os dos homens tinham peitilho! Foram os refugiados que alteraram isto, junto fotografia (colecção FV) que mostra os fatos de banho “escandalosos” usados por três refugiadas na Foz do Arelho.
“Em termos ideológicos, os refugiados foram actores perfeitamente subversivos, que induziram sementes de democracia pelo simples facto de esse ser para eles um modo natural de viver em sociedade. (…) Por outro lado, e talvez tenha sido esse o maior legado que nos deixaram, sabíamos que o mundo não acabava aqui, que existia mais vida para além do nosso Portugal dos pequeninos.” (FJS)
“Até à chegada dos refugiados o ténis era um desporto de elites, foi com eles que muitos caldenses como eu começaram a jogar. Até aí toda a gente associava o ténis ao Rei D. Carlos…”(FV) “Sei pouco da história desportiva das Caldas (até neste tema o Bonifácio deve ser imbatível), mas nos anos 60 o ténis não estava muito difundido em Portugal e, em termos de «província» (isto é, fora de Lisboa, Estoril/Cascais e Porto/Foz), as Caldas constituíam um pólo relevante (no verão) com bons courts, bons praticantes e torneios em que participavam os melhores jogadores nacionais.” (JMAS)
Só um dos testemunhos não tem uma visão de uma alteração tão brusca e recorda outras influências, mas mesmo assim realça o período referido:
“Quero com isto dizer que me lembro de muitos comentários sobre a grande tragédia para as Caldas que era a guerra civil em Espanha. Na altura não entendi, claro, mas compreendi depois que o turismo termal e de praia aqui do burgo vivia nessa altura em boa parte dos espanhóis. Muita gente alugava as suas residências no verão mudando-se para os sótãos ou habitações menores para alugar as suas casas mobiladas.
Claro que a guerra civil acabou com o nosso turismo espanhol, e marcou o início do fim dos vários hotéis então existentes nas Caldas. (…) Sem dúvida que essa periódica invasão pacífica espanhola teve alguma influência na nossa vida de pequena e pacata cidade. Eu ainda me lembro de críticas, embora envoltas na bruma dos anos, sobre a maneira de vestir, comportamentos etc. Ora acontece que os mais velhos criticam e os mais novos imitam, ou pelo menos adaptam ou tentam imitar.
(…) Influência dos refugiados, eu creio que houve e bastante. As críticas dos mais idosos foram dessa vez muito mais duras, porque as diferenças entre os que chegavam e os que estavam eram maiores. (…) Mas houve mudanças (...) , o facto é que Caldas ficou diferente da restante província circundante. Claro que houve colegas estrangeiros, lembro-me de dois a Elga e o Fernand. E no campo do desporto houve vários, o Clavari com o boxe, o Papa Urso com a ginástica (no Montepio), houve influência no ténis, etc. Houve quem casasse e ficasse e houve quem casasse e partisse. Permito-me citar a esposa do Dr. Costa e Silva e a “ Madame” Albuquerque, mais tarde professora universitária”.
(AJFL) Mesmo o autor destas linhas concorda que é em 40/45 que tudo se altera, reparem no “As críticas dos mais idosos foram dessa vez muito mais duras, porque as diferenças entre os que chegavam e os que estavam eram maiores.” Efectivamente as pacatas e conservadoras famílias espanholas que vinham a banhos para as Termas não tinham certamente hábitos nem valores muito diferentes dos locais.
“Mesmo depois da partida das refugiadas, as mulheres caldenses não ficaram em casa, já estavam habituadas a sair, fumar, frequentar locais públicos, não iam voltar para trás”(FV) são palavras que resumem bem as opiniões que ouvi. O filho de um vendedor (“viajante de tecidos”) confidenciou-me que “o meu Pai ficava mais tempo nas Caldas do que em qualquer outro local que visitava nos anos 50 porque a todas as horas havia muitas e bonitas mulheres na rua, não porque fizesse aqui mais negócio!”.
“As mulheres antes de 1940 não iam sozinhas nem às compras e passaram a ir a todo a lado e a encontrarem-se em público. Passaram também a usar sapatos mais altos, com “cunhas” de cortiça, saias mais curtas e leves, calças, fatos de banho sem saiotes, nada disto retrocedeu depois da saída dos refugiados, eram hábitos adquiridos. As Caldas eram conhecidas como a República das Mulheres!”(DªA). A acreditar em todos estes testemunhos as mudanças são, nestes aspectos, rápidas e duradouras.
Voltaremos seguramente a este tema, tão influente no ambiente em que vivemos e fomos educados entre 1945 e 1973 . Sei que há mais testemunhos e opiniões, ainda ontem o João Miguel me anunciava um depoimento de um colega, César Santos Gomes, que esteve presente no encontro de dia 17. Ficamos à espera.
Ficamos sempre a saber mais do que o que perguntamos, por exemplo que a esplanada do Parque era mais próxima do Casino, logo a seguir ao 1º portão de entrada e não ao 2º, que os cafés mais populares eram o Central, o Bocage e o Invicta (conhecido pelo “café do Saraiva”), e os refugiados e os seus amigos caldenses frequentavam muito os Olhos Pretos, posteriormente residencial mas na altura uma taberna onde até se cantava o fado.
Não cheguei a grandes conclusões sobre a relação entre a partida dos refugiados e a decadência do parque hoteleiro caldense, embora houvesse referências:
“A chegada dos refugiados veio trazer algum alento aos nossos hotéis permitindo-lhes sobreviver mais uns anos, poucos e sem grande brilho, pois não há um único sobrevivente há muito tempo.”(AJFL)
“Na ocasião os melhores hotéis em funcionamento eram o Rosa e o Central que tinham um ar muito acanhado e decrépito em contraste os Hotéis Lisbonense e da Copa (ficava na R. Miguel Bombarda, no quarteirão que antecede a R. das «Montras») cujas instalações abandonadas ainda aparentavam sinais de uma grande sumptuosidade passada (conheci os salões do Lisbonense em reuniões da comunidade católica e o Hotel da Copa por nele ter tido catequese! pois os quartos, já sem mobílias mas com casas de banho de imensas banheiras, comportavam folgadamente os conjuntos de catequistas e catequizados).” (JMAS)

Citei opiniões e depoimentos, escritos e orais, de Fernando Venda (FV), Dª. Anita (Dª A), António José Figueiredo Lopes (AJFL), José Carlos Nogueira (JCN), João Miguel Azevedo Santos (JMAS), Fernando Jorge Sousa (FJS), Paulinha Pardal (PP). Agradeço ainda a colaboração dos meus amigos Zeca Mesquita e Zita Sotto Mayor (alguém a reconheceu na foto acima?), cujas impressões e opiniões foram preciosas.

A INFLUÊNCIA DOS REFUGIADOS JUDEUS NA VIVÊNCIA SOCIAL E CULTURAL DAS CALDAS

A publicação da crónica “Movida Caldense” provocou uma chuva de reacções , testemunhos e opiniões sobre o papel dos refugiados judeus da Segunda Guerra Mundial no modo de viver caldense durante as décadas de 50 e 60. O que todos contestaram foi a aparente desvalorização que a crónica fazia da passagem pelas Caldas dos refugiados, no final dos anos 30 e início dos anos 40, e da sua influência no modo de vida caldense. Facto tanto mais curioso quanto esse não era o tema da crónica nem o objectivo da sua republicação, já que se pretendia caracterizar a vida cultural da altura e a perda de um certo glamour das Caldas , uma vitalidade do passado entretanto afogada num crescimento urbanístico subordinado à lógica empresarial da construção civil.
Antes de dedicar uma crónica às mensagens e testemunhos que recebi, resolvi enquadrar esta questão reproduzindo alguns excertos de dois documentos que consultei, da autoria de João Bonifácio Serra, o primeiro, e de Dulce Soure e Marina Ximenes, o segundo. JJ

João B. Serra em Apresentação da obra Judeus em Portugal durante a II Guerra de Irene Pimentel, 2006, escreve:

“A partir de Junho de 1940, Portugal foi procurado por milhares de judeus provenientes dos países europeus sob ocupação consumada ou iminente das tropas alemãs. Entre Junhode 1940 e Maio de 1941, passaram pelo País cerca de 40.000 pessoas em fuga de Hitler e do Holocausto.
Não ficaram todos em Lisboa e Estoril – alguns, por exemplo, foi nas Caldas que procuraram hotel – e muitos permaneceram pouco tempo, até obterem passagem para um país de destino final, de preferência os Estados Unidos. O Estado português deixou claro que não estava disposto a aceitar a integração de judeus emigrados na sociedade portuguesa e, por isso, aos que aqui tivessem de permanecer algum tempo, até poderem sair, ficava-lhes vedado desenvolver as suas profissões. O Estado receava a perturbação nos costumes, nas mentalidades e no mercado de trabalho que a integração de judeus vindo dos países mais desenvolvidos da Europa inevitavelmente traria. E no entanto, passaram por Portugal, nestes anos, entre muita gente anónima, personalidades destacadas das ciências e das letras, da medicina, realizadores e actores de cinema, figuras políticas, historiadores, ensaístas, compositores alemães, austríacos, franceses, polacos, e de outras nacionalidades (gregos, luxemburgueses, holandeses dinamarqueses, etc.), expulsas dos seus países. As zonas de residência criadas foram: Caldas da Rainha, Ericeira, Figueira da Foz e Curia.

Socorrendo-se das memórias de Alexandre Babo, no livro recordam-se “as esplanadas da Avenida ou do Rossio”, em Lisboa, onde se viam “franceses, belgas, holandeses, judeus dos mais remotos lugares”, e em especial a pastelaria Suiça, à qual
“já chamavam o “Bompernasse”, ali onde predominavam as mulheres (…) fumando em público (…). Tudo isto era um murro no estômago do provincianismo nacional. (…) Aquela gente aparentava outros hábitos, mais livres, mais naturais e abertos (…) sem olharem (elas) de soslaio os machos, sentadas nos cafés, nas cervejarias, nos passeios públicos, o que até então era apanágio exclusivo dos homes e de algumas mulheres ."
“Pelas esplanadas, sob largos chapeleirões de listas coloridas, as mesas alastram-se em formigueiros cosmopolitas. À volta, num pequeno espaço, ouve-se holandês, francês, inglês, polaco, checo e às vezes português (…). Elas são mais ruidosas, mais alegres,despreocupadas, em cabelo, farrapitos em molho no alto das cabeças loiras, fumam sempre, pernas traçadas num grande à vontade, mostrando o que se vê e o que se adivinha (…)” “O nosso Zé Povo embasbaca em frente dos grupos a admirar a civilização!”

A primeira notícia sobre a presença de refugiados nas Caldas surge (...) a 1 de Julho de 1940. Título “Ecos da Guerra – Os emigrados em Caldas da Rainha”. “Inesperadamente” – escreve-se na notícia – “automóveis estrangeiros começaram a parar nas ruas da cidade, enquanto muitos outros, atulhados de bagagens, se dirigiam para o sul. (…) Os hotéis ficaram cheios de estrangeiros: austríacos, ingleses, franceses, americanos, belgas e holandeses. (…) Gente estranha, de todos os credos políticos e de todas as religiões recolheram-se ao bom abrigo de um Portugal tranquilo, graças ao Estado Novo, a Carmona e a Salazar”.

Dulce Soure/Marina Ximenes em Marcas da II Guerra em Caldas da Rainha, exposição-colóquio,1998, escrevem:

A maioria dos refugiados não trabalhava e sentia, por isso, necessidade de ocupar o tempo excessivamente ocioso.
Adquiriram então o hábito de usufruir o sol no parque ou na praia da Foz do Arelho. “Íamos para o parque, sentávamo-nos ali, tomávamos o nosso cafezinho e, depois, vinham os estrangeiros nossos conhecidos. Sentavam-se ao pé de nós, conversávamos um bocado e às 6horas, 6h30 íamos para casa. Era uma vida estúpida…” (Madame Renée Costa e Silva)

Lentamente, foram-se integrando na sociedade e vida caldense, beneficiando do que a cidade lhes oferecia – o Parque, o Clube do Parque, as Termas. Em 1941, segundo uma notícia da Gazeta das Caldas, frequentaram esta estância 32 estrangeira, sendo 22 mulheres e 10 homens.

Também o Clube de Recreio abriu a porta a alguns destes estrangeiros, pessoas educadas e com traquejo social. A Comissão Administrativa do Clube, resolveu no dia 5 de Junho de 1943 “que além dos sócios do Recreio Clube, fossem feitos convites a pessoas estranhas àquele Clube, pessoas que a Comissão escolheria e determinaria (…).” (Livro de Actas das sessões da Comissão, pág.3.)

Dedicavam-se muito a
actividades desportivas, sobretudo ao ténis. Organizavam-se, de Maio a Outubro, uma série de torneios onde portugueses jogavam ao lado de estrangeiros.

“Comecei a jogar ténis por causa das raparigas. O engenheiro Júlio Lopes, o filho, desafiou-me para jogar. Havia duas irmãs, Denise e Monique Dunlap, de origem francesa e tenistas razoáveis. Os estrangeiros, como não tinham nada que fazer, iam jogar ou à Foz nadar” (Sr. Fernando Venda).

Calda da Rainha não desconhecia a guerra. Pelo contrário, ela foi aqui mais vivida e sentida do que na maioria das localidades portuguesas.

Caldas da Rainha estremeceu certamente perante todo o movimento de gente estranha que esgotou os seus hotéis e pensões e introduziu uma nova dinâmica na cidade.

Os caldenses experimentaram, como todos os portugueses, os aumentos dos preços dos géneros essenciais, a escassez dos mesmos, os racionamentos, os incómodos das bichas e os exercícios de defesa civil do território. Mas na memória dos que viveram nesse tempo ficou muito mais. Ficou a convivência com os estrangeiros e a descoberta de novos costumes, por eles introduzidos.

Foram sobretudo as mulheres as grandes introdutoras de alterações na vida e mentalidade dos caldenses. Imitando o comportamento das estrangeiras, as mulheres portuguesas saíram de casa, foram para os cafés e esplanadas, tiraram as meias e os chapéus e fumavam nas ruas.

“(…)É engraçado porque a mulher portuguesa nessa altura ficava em casa, aprendia costura, aprendia a falar francês e a tocar piano e pouco mais. (…)Os namoros eram de janela! Eu achei um piadão àquilo porque nunca tinha visto. (…)Eu acho que as Caldas foi uma terra que se modernizou mais depressa que as outras terras por causa dos estrangeiros” (Mme Renée Costa e Silva).

Por aqui passou a nata cultural e financeira da Europa. “Lembro-me que foi a modificação do ambiente social da cidade em relação àquela gente, que era gente educada, que era gente com uma vivência grande numa Europa modernizada” (Dr. Ernesto Moreira).

+ + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + +

Agradeço aos autores dos textos aqui transcritos a amável colaboração, ressalvando que é da minha exclusiva responsabilidade a escolha dos excertos apresentados.
Recordo que o centro da questão é a maior ou menor importância da presença dos refugiados numa determinada forma de viver nas Caldas nas décadas de 50 e 60 vs. outros factores como o Termalismo e os visitantes que atraiu, a existência de um Hospital e um Quartel, os veraneantes de Verão (Foz do Arelho e S. Martinho) ou outros que nos queiram apresentar.
Como disse recebemos aqui no Blog várias reacções sobre este assunto, que irei transcrever numa próxima crónica. Quem quiser ainda pronunciar-se sobre este tema pode ainda escrever-nos para ex.alunos.er@gmail.com , enviando testemunhos, opiniões, documentos, fotografias, tudo o que entender relevante.