ALMOÇO / CONVÍVIO

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Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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O BORLÃO QUE VOCÊS NÃO CONHECERAM E OS COMENTÁRIOS AO BORLÃO QUE EU CONHECI...

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Estes são os comentários ao post A MINHA JANELA SOBRE O BORLÃO . Se ainda não o leu clique AQUI , se já o leu aprecie os comentários e as duas magníficas fotos do Borlão em duas épocas bem anteriores ao texto ...
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Júlia Ferreira disse...
Obrigada pelas fotografias de umas Caldas que eu também não conheci.
Tenho lido os «posts».
A crónica do João Serra é uma ternura. A narrativa de um episódio das tropelias do «suspeito do costume» mostra bem que, como diz algures o Drummond de Andrade, «mãe não tem limite». Boa escolha também da fotografia da janela, espaço de descoberta, espelhando nuvens, de onde o menino curioso espera «sinais».
Quanto à tua crónica sobre o Borlão (que memória e que boa escrita!), até a mim, que vivi tão pouco tempo nas Caldas, me trouxe memórias de alguns nomes e de alguns rostos conhecidos. Por isso, JJ, obrigada por me «presentificares» momentos da juventude!
Nesta «recherche du temps perdu», cada um escolheu a sua «madeleine» para ter o passado de volta.
Continuem a escrever, para me darem o prazer de boas leituras.
Júlia Ferreira
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Luis Machado disse:
Bolas, Jales, que memória. Lembro-me de quase toda a gente que falas.
Das escadas não te vou adiantar nada.
Mas recordo-me de um episódio, no Borlão, numa noite sem nada para fazer, eu, o João Lourenço e o Henrique Conceição.Andávamos às voltas à estátua do Carmona tecendo considerandos sobre as nossas colegas e amigas.Basicamente se nos tinham dado bola ou não.E a conversa lá se ia arrastando mais ou menos nesta base:
-É pá essa já andou com todos, só faltamos nós, e aqui o Carmona.
Acho que nós na altura curtíamos assim uma onda beat burguesa de esquerda folcloricó carnavalesca.E a ladainha lá continuava:
-É pá só faltamos nós e aqui o Carmona.
Até que se fala de uma bonita moçoila e o Henrique diz:
-Desculpem lá, mas agora ficam sozinhos com o Carmona...
Abraços
Luís Machado
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Inês disse:
JJ
Como não adorar este documento verdadeiramente histórico! Você é uma fonte a jorrar memórias dos que viveram nesta Praça do Areeiro das Caldas. Bebe-se cada gole desta sua fonte de águas santas e cristalinas que refresca saudades esquecidas. Humor, amor... reconstrução desse imaginário juvenil intocado. É um belo retrato do seu coração generoso guardador de pérolas.
Este não é mais um comentário, atenção. É apenas um beijo! De quem conheceu o Borlão quando você era ainda um bebé, e eu menina a olhar os presos que chegavam agrilhoados para construir o Tribunal, uma visão inédita. Agora entrei nos prédios em volta e conheci os inquilinos muitos dos quais revi com saudade e muitos sorrisos. Que belo, que divertido relato.
Agradeço-lhe por querer o meu nome na lista dos comentadores, e com vanitas!
Inês
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Luisa disse:
João,
Senti-me ao ler-te como que embalada por alguém que sabe tudo o que aconteceu e como tudo se passou.....no meio da confusão e do esquecimento há alguém que não está indiferente e traz de volta a nossa adolescência,como diz e bem a Isabel Xavier.Era assim que se afastavam os fantasmas e os medos quando éramos miúdos.
Só posso agradecer....e esperar por mais!!!
Beijos a todos.L
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Miguel Bento Monteiro disse:
Johny
A tua descrição é simplesmente magnífica e comovente, o que aliás se depreende dos diversos comentários já publicados.
Não me lembro de todo da observação feita pela minha mãe sobre o funcionamento dos intestinos da professora mas, por outro lado, lembro-me perfeitamente desse mesmo funcionamento,que era rítmico,regular e deveras oloroso. E para uma criança com a idade que eu tinha na altura, tornou-se quase uma vivência. Mas a verdadeira razão da minha ida para o ERO foi de ordem geográfica e, portanto, prática pois como disseste fui viver para muito próximo do ERO. Assim o meu pai não mais precisou de me ir buscar (?) à escola pois eu passei a regressar sozinho a casa. O (?) deve-se ao facto de ele se esquecer sistematicamente de mim e, na realidade, nunca me foi buscar, pois era sempre a minha mãe que acabava por passar a apanhar-me.
Mas seria também interessante entrar um pouco na residência Jales. Por exemplo, um dia fui lá jantar. Para além do arroz que a Maria Helena Jales fazia (eu trato-a aqui da mesma forma que o fazia directamente) e que era simplesmente divinal,fui servido de outro acepipe que de todo detestei,mas que degluti galhardamente. "Gostas?" pergunta a dona de casa, solícita. "Adorei" "Então toma lá mais"... bom,que remédio. Mas o pior ainda estava para vir,pois das vezes seguintes que lá fui jantar aguardou-me sempre o mesmo pitéu de que eu tanto tinha gostado,e com que a mãe Jales simpaticamente me presenteava.
Houve uma ocasião em que os pais do JJ se deslocaram por diversas vezes a Lisboa.Logo após a sua saída de casa tinham início umas batotadas (na altura era o king,o poker só surgiu mais tarde) mas o baralho utilizado tinha uma particularidade: os símbolos dos naipes e, em especial, as figuras eram nus femininos,o que baralhava completamente os jogadores.
Lembro-me ainda de ter ido à residência em questão buscar umas garrafas de vinho, isto porque o pessoal estava numa festa em casa do Rui Malaca,já bem bebidos,e por ser o único a não beber,fui nomeado voluntário para ir buscar os oxidrilos. Quando me viu de garrafas na mão,tipo saloon, o pai Jales ainda me mandou umas bocas no género "estás tocado"!,"andas nos copos a esta hora?",etc.
É claro que todas estas aventuras não passavam despercebidas, mas a Maria Helena apenas dizia fleumaticamente: "Espero, pelo menos, que ninguém vá dormir para a minha cama".
Um grande abraço para ti e muitos parabéns pelo texto.
Miguel B M
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Rosa disse:
Comecei a ler o teu texto sobre o Borlão e, efectivamente, tem um ritmo tal que não consegui parar senão mesmo no fim ... gostei muito.
E achei graça a uma referência que fizeste à família Pimenta de Castro, já que não imaginava que tinham vivido nas Caldas – se forem os mesmos que conheci, claro. Em Lisboa, na Escola Lusitânia (antiga escola tipica do Estado Novo, exclusivamente feminina, ao Arco-do-Cego, bem pertinho do Archote, lembras-te?), por volta de 1970, fui colega e amiga de uma Madalena Pimenta de Castro que morava em Cascais, salvo erro. Muito gira, alta, espertíssima... Vou procurar uma foto que suponho não ter ainda perdido, para veres se é mesmo ela (esperando que a possas reconhecer), feita numa excursão a Tânger.
Nunca mais soube dessas minhas colegas mas voltei a ver a Madalena há poucos anos, no Conservatório, enquanto esperávamos por audições das nossas crianças. Acho que tenho essas fotos nas Caldas. Faço um scan e mando-to, se a busca correr bem.
Bjs. Rosa
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Anabela disse:
Era muito miúda, mas recordo-me perfeitamente do descampado que era o Borlão e também da feira do 15 de Agosto ser lá realizada.Felizmente que se foi transformando, tornando-se numa zona habitável, senão não estaríamos a ler esta magnífica descrição feita através da janela do João, para não falar na sua incrível memória!!!
Olha meu querido João, quero-te dizer que aquela subida da rampa das Cinco Bicas foi feita a maioria das vezes a "butes".Aqui a tua memória falhou, desculpa lá… (Está bem, por vezes o meu Pai levava-me de carro, que não era azul, naquela altura seria talvez branco, mas era um Ford).
Fizeste-me recordar e com saudade as brincadeiras nas escadas de serviço do prédio dos Pimenta de Castro com a S.Luís e os seus irmãos, Fázinha e Jorge.
Confesso que sinto uma nostalgia quando passo pelo Borlão, pois já não é o Borlão da minha meninice…
Anabela Miguel
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Manuela disse...
Antes de mais, Jales, felicito-te pelo teu excelente texto, o Borlão, “visto” da tua Janela. Um perfeito documentário!
As palavras estão cá e elas próprias desencadeiam as imagens.Por momentos regressei à “minha” janela do Hemiciclo Frederico Ulrich. Vi as carinhas bonitas daqueles meninos que jogavam à bola atrás da Igreja e no descampado mesmo ao lado da "minha" casa. Percorri, tendo por guia a tua espantosa memória, todas aquelas ruas, até a toponímia me não escapou, já quanto aos andares e números de polícia das casas dos nossos colegas e Professores…A Benilde, a Anabela, a Mafalda, as colegas e amigas que me eram mais “próximas”. A a Benilde,"luminosa", como a definiste bem! Ainda hoje em dia mantém essa mesma "luminosidade".
"Há palavras que fazem bater mais depressa o coração…" disse Almada Negreiros.O meu bateu mais forte por não te teres esquecido de mim e dos meus irmãos e, muito especialmente, pelas palavras elogiosas com que te referes a meu Pai. A testemunha, com toda a certeza, não se sentia bem no “papel” de mentirosa. Quem pode gostar da mentira?
Manuela Gama Vieira
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SALETTE disse...
Olá,João
Que óptima memória e que descrição deliciosa!adorei rever o nosso querido Borlão...olha,quando da tua janela espreitavas a EngºDuarte Pacheco nunca avistaste o Nuno Mendes? Ele morava aí, no prédio em frente ao dos manos Hipólitos.
Eu,antes de morar no chamado prédio da Rocaltur, morei alguns anos na Duarte Pacheco,nº13, daí que recordo muito bem essa zona.Era emocionante a altura das feiras bem como a vinda ocasional de companhias de teatro que actuavam numa tenda junto á igreja.
Eu e a Benilde (que nessa altura era minha querida vizinha de prédio)chorámos baba e ranho a ver ''Amor de Perdição''.E as idas á Avenida da Estação para apanhar folhas para os nossos bichos da seda? Tantas memórias...
Beijinho
Salette
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Ana Luisa disse...Tanto ou mais do que a escrita admiro a tua memória. Por momentos lembrei um Borlão bem mais bonito do que estava na semana passada.
E da Ana Isabel por acaso sabes alguma coisa? Fomos muito amigas enquanto estive no ERO e claro também passávamos férias em S. Martinho, mas depois de alguns anos perdi o contacto.Algumas tardes ao lanchinho que a mãe dela nos preparava também íamos dando umas espreitadelas ao largo para "ver quem passava"...
Beijinhos
Ana Luisa
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Paulinha disse...
Olá João
Eu e a minha amiga Anabela Castro Afonso, inseparáveis como sempre, estamos a passar uns dias de férias aqui no Algarve e como habitualmente atentissimas ao nosso blog, lemos juntas mais um fantástico texto escrito por ti. Memória prodigiosa!!!! realmente brilhante como sempre, continuo a achar que devias escrever um livro...
Parabens João.

Bjs PP
jorge disse...a memória do jj é fantástica(ou eu estou muito mais senil do que julgava)mas o que mais me admirou foi a capacidade de transformar o que poderia parecer uma lista telefónica num documentário,como´disse a manuela.mas lembro-me também do nuno,do azevedo santos e da salette na duarte pacheco,quando estavam a ser construidos os prédios de que aqui se fala.
junto os meus parabéns aos muitos que já cá estão!j
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Isabel X disse...
Recém-construído e vaticinado para novo centro da cidade, era toda uma geração de colegas e amigos nossos que morava no Borlão e nas suas imediações.
A prodigosa memória do Jales e a forma quase fotográfica como descreve o que via, de umas e de outras janelas, com o pescoço mais ou menos esticado, fascinam-me!
A Paula Jales e a Tucha chegaram a ser minhas colegas no colégio, porque tiveram que repetir um ano; a Ana Salgado não, porque, em condições idênticas às das colegas, foi mandada para o Colégio Andaluz de Santarém, pelos pais.Lembro-me bem de frequentar a casa da Paula e a da Ana. Belas festas de aniversário!
A amiga da minha geração que mais cedo "me morreu", a Isabel Reis Vieira, também morava no Borlão e uma outra amiga da primária, a Célia, de quem nunca mais soube nada.
Não fazia a menor ideia de que a Eunice Muñoz tinha morado nas Caldas, mas achei graça. Pena nunca me ter apercebido...
Tal como o Xavier e a Mafalda Serrano, também o João Jales e a Ana Paula Gouveia continuam "vizinhos" hoje em dia, mas com o o importante "pormenor" de ser no mesmo bairro da adolescência. "O bom filho à casa torna" ou será antes "os bons filhos que tornam a casa?"
Muito gratificante encontrar este retrato tão vivo dos amigos antigos. Até parece que voltamos à adolescência.
Parabéns, JJ!
- Isabel Xavier -
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Luis Abel disse :
Vivi no Borlão desde 1964, conheci bem o autor da prosa meia dúzia de anos depois quando me tornei pau-de-cabeleira para que pudesse mamoriscar a minha irmã Paula e ainda melhor quando, muitos anos depois, se tornou meu cunhado oficial.
Por isso, não é para mim novidade nenhuma a sua impressionante capacidade de memorizar factos e de os relatar. Já a minha...enfim, acho que nunca me contaste que a Eunice Munoz vivia por cima de ti, essa foi nova para mim!
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Alfredo disse...
A sorte que o fotógrafo teve de apanhar apenas um carro estacionado frente ao Tribunal (ironia)!Se calhar era dos noivos!
Nesta data passava por aqui todos os dias rumo á Escola Comercial e Industrial, ía saír por um portão de ferro frente á Praça de Touros. Às segundas feiras havia um mercado de cebôlo e outros artigos de horta, ao longo da avenida que começava no Largo da Estação e se prolongava até ao Quartel dos Bombeiros.
Joaquim disse:
João, na segunda destas duas fotos mais antigas, olhando de frente está a igreja e já se vê no meio a "rotunda". Mais para a direita está uma velha arrecadação que julgo pertencia à Câmara e que permaneceu lá durante muitos anos.
Na Rua Fonte do Pinheiro, que fazia parte desse Largo do Borlão, havia um muro "cor avinhada" que se alongava talvez até à Rua do Jasmim, com umas "humildes" casas de rés do chão e nelas moravam duas figuras simples e populares da nossa pequena cidade: eram o nosso " Ti'Pacheco" dos gelados e das quentinhas e boas e o Ti'Sebastião que era o "bagageiro" de serviço das Caldas, que percorria a cidade com a sua carroça e a sua esposa ao lado para dar uma ajuda se tal fosse necessário Quaisquer comerciante da época e não só...se lembrarão deles.
Bem hajam
Joaquim
(Estou fora do nosso país há mais de quatro décadas ,o quer dizer posso estar a ver o filme um pouco mal focado. Espero que não)
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Meus Sonhos disse...
O centro das Caldas continuou a ser a Praça da Fruta,o Borlão era as Avenidas Novas ou o Arieiro das Caldas como diz o JJ.
A memória do autor é realmente invulgar e o seu relato um testemhnho único de um tempo que não volta.Ninguém referiu ainda a conclusão final,em que se diz que as famílias com crianças foram substituídas por escritórios e serviços,desertificando o centro da cidade.Isso é verdade em quase todas as cidades portuguesas.
Grande post.
Parabéns, Jales!
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Não vos dou a certeza do ano em que fui habitar no “Borlão”, mas parece-me foi em 1959, para a rua Coronel Santos Costa, que à data nem estava alcatroada.
Esta mudança de residência deveu-se ao detectar do problema cardíaco do meu Pai, e aos médicos o mandarem evitar todos os esforços, até subir escadas; devido a isso fomos habitar um prédio com elevador.
A Laura tem toda razão em eu me recordar de ser ali o recinto da feira, o primeiro ano que eu habito lá, é precisamente o último das feiras no “Borlão”, tudo o resto coincide com o que eu me recordo.
Pouco tempo habitei na R. Coronel Santos Costa, logo que os prédios dos Capristanos estão construídos, vou residir para lá.
“A MINHA JANELA SOBRE O BORLÃO”, aproveitando as palavras do João Jales, apenas a ocupei quatro anos, em 1963 o serviço militar colocou-me perante outras janelas.
João Ramos Franco
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Benilde disse...
Olá João,
Que memória prodigiosa...
Gostei muito!
Bjs
Benilde
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João Joaquim disse...
Boa memória a do João, saber aqueles nomes todos é de apreciar.
Antes do João por ali morar, eu deslocava-me muitas vezes à Rua das Flores, onde o meu pai tinha uma pequena oficina de serralharia com o Constantino (pai do conhecido ceramista Constantino ) e então corria toda aquela área para brincar e jogar à bola com a "malta" do Bairro do Viola.
Dizia-se que nas traseiras dos armazéns de ferro do T. dos Santos(Rua 31 de Janeiro) teriam sido ali fuzilados alguns locais que se teriam revoltado contra as forças francesas. Toda aquela área era de terra batida e ali, no Largo do Borlão, se fizeram as melhores feiras anuais que as Caldas conheceram, a do São João e logo a seguir a do 15 de Agosto. Depois veio o progresso e tudo isso desapareceu, a Igreja e esses prédios, alguns sem classe alguma (os primeiros, vá lá, vá lá, depois os outros foram apenas construção e mais construção) .
O João apesar de mais novo uns anitos ainda tem a visão de tudo que existia por detrás da igreja e que se manteve durante muitos anos. Não sei ao certo o que havia de verdade nisto mas dizia-se que para tirar o tráfego desde a Rainha à Praça da Fruta, a calçada 5 de Outubro seria alargada, desde o Largo C. de Fontalva, passava no lado esquerdo da antiga Praça do Peixe , até à presente rua Padre A. Emílio e por ai fora.... Seria ideias dos arquitectos de obras feitas (opiniões), ou seriam planos da Câmara de então?
Parabéns
João Joaquim
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Isabel X disse...
Houve mesmo fuzilamentos na cerca do Borlão, no período das Invasões Francesas. Eu já escrevi sobre isso para a Gazeta, mas o que é realmente relevante é saber que há lá um "monumento" de homenagem aos fuzilados que é da autoria do "nosso" Zéquinha Pereira da Silva!
E esta... ein? Uma "caixinha de surpresas", o Zéquinha!...
- Isabel Xavier -
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J.L. Reboleira Alexandre disse...
O João diz que escreveu isto de chofre e nós até acreditamos. A verve dele está toda aqui.
Afinal Caldas, cidade, nesta altura não se distinguia muito das aldeias circundantes, no que à vivência da miudagem diz respeito. A maioria dos garotos jogava a bola e só se distraia quando aparecia à janela uma daquelas «princesas» que alteravam o ritmo cardiaco daqueles.
Lá na minha aldeia tudo se passava da mesma forma, a única diferença estaria na mudança da identificação dos progenitores para:
- os filhos do Zé Mau, do Zé Sapateiro (da familia da avó dos meus netos Antoine e Coralie), do Zé Rato, do Zé da Quinta (pai daquele que segundo o nosso amigo Sanches, e eu concordo, era na altura o conterrâneo mais ilustre da terra) «et ainsi de suite».
Belo retrato de uma época.
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Isabel disse...
Olá Colegas,
Adorei ver o Borlão como ele era nos meus tempos de miúda. Quem disse algum dia que não vivemos de recordações? Eu prezo as minhas como se petiscos fossem!
Saudades dos outros tempos em todos nós tínhamos uma vidinha estudantil mais apetecível. Abençoados todos vocês que colocam fotos inexcedíveis no Blog do meu Colégio de excelência...
Mil abraços de Óbidos,
Isabel de Azevedo Noronha
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Alberto Pereira disse:
Um texto bem giro; lembro-me de ir à caça das rãs que existiam nos charcos de água que se formavam atrás do Tribunal ainda não havia prédios por lá.
Também me recordo do circo que se instalava no local onde agora é a Câmara; uma noite o urso fugiu pela R.Engº Duarte Pacheco e, partindo as vidraças, entrou na Mercearia Simão; os meus Pais chamaram a Polícia pensando tratar-se de um assalto e imaginem os guardas quando lá chegaram e viram que o assaltante era um urso que estava calma e tranquilamente a comer todos os rebuçados que o Sr. Simão tinha em stock.
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Belão disse...
Mas que memória, João!Ler o teu texto foi um mais um regresso ao passado e que me trouxe à memória tantos episódios...Éramos tantos e todos vizinhos!
Lembrei-me das brincadeiras nas escadas do tribunal enquanto esperávamos a carrinha do ERO, logo pela manhã.
Também me lembro da cena do urso, que o meu vizinho do 1º andar(o Alberto) aqui conta e que deixou sem palavras os clientes mais notívagos do Avenida, um deles, segundo consta, não sei se anestesiado pela cerveja,pensou tratar-se de uma senhora pela rua de casaco de peles.
Adorei.
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Antonio Hipolito disse:
Um pequeno apontamento que a prosa do JJ me atiçou a fazer, provocado talvez por ainda hoje lamentar não ter continuado a aprendizagem do piano, por a madame Palavicini se ter ido embora das Caldas ... sim eu tambem era uma daquelas crianças.
Falta na lista de nomes apresentada, quer pelo autor como pelos comentadores, e atendendo que se chegou práticamente à estação da então CP, em frente ao Zé Neto, na esquina do outro lado da avenida morava a nossa colega Cristina Rolim e o mano.
Abraço do Tózé H.
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Inês disse:
Parabéns, JJ. Como você escreve bem!
Inês
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Manuel Agudo disse:
Obrigado J Jales, por me ter recordado os tempos de miúdo. De facto naquele bairro habitacional vivíamos muitos colegas do ERO, dos quais o JJ tem uma lista quase completa. Se me recordar de mais alguns digo! Apenas para recordar que entre mim e a minha irmã Ana Luísa, há um outro irmão do ERO (Zé) e recordo-me também de a minha irmã ter uma colega - Ana Isabel que morava no quarteirão mais próximo do Tribunal .Parabéns pela recordação da "Burlópole"
Manuel Agudo
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JJ respondeu:
Faltava realmente o vosso irmão Zé, mas a Ana Isabel está no texto.
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Laura disse...
João,os meus parabéns, está um texto muito bom e elucidativo!As coisas que eu aprendo com as publicações deste blog! Adorei mesmo...
Por seres muito novinho não te lembras das feiras, que também poderias ver da tua Janela! Mas o João Ramos Franco deve lembrar-se...pois não foge muito da minha geração.Eram muito engraçadas as feiras do São João e do 15 de Agosto no largo do "Borlão".
Retenho na minha memória uma pombinha de madeira...que ao ser empurrada batia as asas...uma delicia!!! Coisas de criança...e prendas de um avô!!
Laura Morgado
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Luis disse...
Para completistas - Faltam que me lembre a Célia, Maine,Guilherme, Domingos Afonso (filho de sub-gerente do BES), Carlos e irmãos (filhos do juíz) no hemiciclo; Graciano e irmãos (da Sapataria Mário), na avenida; Meirim na transversal da av.; Luís Brito e João Pedro (família Correia), Paulo Moreira, Pedro Mil-Homens, na Eng. Duarte Pacheco. Eu e a família Castro, vizinhos na Heróis da Grande Guerra e com passagem pedonal das traseiras para o Hemiciclo, zona das oficinas do A. Flores. Há mais...
Luís Lamy
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Luis disse...E faltam tb os irmão Santos (filhos do chefe dos CTT), na Eng. Duarte Pacheco - Luís Lamy
PS: Põe o Manique na Eng. Duarte Pacheco - Lamy
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Artur Henrique Ribeiro Gonçalves no Facebook:Uma evocação muito viva do Borlão que eu ainda conheci, um pouco de raspão...
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Paulo Caiado no Facebook:Tantos nomes que me são próximos!
Faltam os da minha geração claro, como as manas Velhinho, Cristina Caramelo, Paula Melo, Bandeira Duarte, Tomás Marques, Costa Faro, os Ruas também conhecidos pelos ''Torralta'' (Sónia, Luis e Paulo) o Luis Correia (filho do Dr. João Correia) e mais tarde os Morgado (Nuno, Vasco e Marcelo), Rosário (Pedro e Sandra), os meus primos do outro lado da Praça, a Rosarinho Moreira, a Paula do tribunal , os Cabrais (Manuela, João Paulo e Tiago) e outra familia que viviam no prédio da Telstar (Manuela e dois rapazes, um já falecido) e toda a troupe da Raul Proença que são tantos que encheriam o blog!
(Na sua maioria todos os ''habitantes do Borlão e Avenida e perpendiculares'' dos anos 70 estão enunciados na crónica ''Cruzando os Anos em Poucos Dias - Diário de um Estudante''.)Paulo Caiado (Facebook)

À JANELA DOS ANOS SESSENTA


Guida Carvalho da Silva
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ANOS SESSENTA (outros tempos)
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Quando eu tinha 15 anos, terminado o quinto ano, deixei o colégio e vim viver para Lisboa.
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O meu pai tinha tido um AVC, o meu irmão mais velho ia entrar na universidade e a minha mãe achou por bem agarrar nos trapos e voltar com todos nós para junto dos familiares.
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Não sei se terá sido uma decisão fácil para ela, eu não fui consultada, só sei que lá rumámos a Lisboa, onde eu vim terminar o liceu, num liceu só de raparigas, um liceu onde os rapazes estavam expressamente proibidos de entrar, ou mesmo de se aproximarem: menino que fosse buscar menina, tinha de a esperar pacientemente a mais de 50 metros da porta de entrada! Acabar o liceu e entrar na faculdade, com novos colegas, novas amizades, as festas dançantes nos sábados à tarde, as primeiras saídas à noite, as greves de estudantes com a consciencialização do Maio de 68 a chegar também às universidades portuguesas … “a pulga salta, a pulga grita, ora vai-te embora oh pulga fascista” ...


... o início do peace brother, peace e do flower power … os hippies com “if you’re going to S. Francisco, be sure to wear some flowers in your hair” …a partida do meu irmão Eduardo para Paris... os cursos de verão em Londres para aperfeiçoar o inglês... Para mim, a segunda metade dos anos sessenta foi um verdadeiro turbilhão de emoções, que acabou por apagar qualquer resto de saudade mais teimosa que eu pudesse ainda sentir por tudo e por todos os que tinham ficado para trás, em S Martinho do Porto ou nas Caldas da Rainha.
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Todos, sem excepção, acabaram guardados no fundo da minha memória, num canto meio desarrumado (e bem fechado à chave, por via das dúvidas!).
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E por lá teriam ficado para sempre bem guardados, não fosse o Blog do ERO , com os seus textos, fotos e links, ter começado a remexer nesse passado já tão esquecido!
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Oh maravilha das maravilhas…. aberta a caixa de Pandora., as recordações são mais que muitas a ficam cada vez mais claras: caras, lugares , situações, nomes e até cheiros e sabores de que nunca mais me tinha lembrado.

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A casa na Rua do Cinema, em S Martinho do Porto, a pacata vila piscatória para onde nos tínhamos mudado em meados dos anos cinquenta, as casas vazias no inverno numa terra que todos os verões se travestia de estância balnear da moda, trazendo não só os banhistas alfacinhas e caldenses mas também (já nessa altura) os turistas estrangeiros. Todos tinham em comum o facto de me parecerem estar quase sempre alegres, despreocupados e espantosamente divertidos.
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Cada verão as esplanadas da rua dos cafés e a praia se animavam e se enchiam de vida e de cor e cada verão eu ia aprendendo a nadar melhor, a andar de bicicleta mais rápido e cada verão fazia passeatas no cais de S.Martinho, via os barcos, a baía, comprava os barquilhos , pevides, bolas de Berlim, entrava nos concursos das construções na areia e caminhava até Salir, com o Eduardo e
os amigos dele, só para os ver pescar taínhas.
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Eu, que jogava ao prego ou ao ringue na praia e nadava até à velha jangada de madeira (que parecia sempre ser longe como o diabo), eu, que descia a rebolar as dunas de Salir à velocidade da luz para vir aterrar cá em baixo na ribeira, mais nódoa negra, menos nódoa negra, eu, que sonhava acordada no quintal da casa da rua do Cinema e coleccionava as fotografias dos Beatles que vinham nas pastilhas elásticas e ouvia Les Chats Sauvages “quand viens la fin de l´eté sur la plage il faut alors se quitter”… Cliff Richards… The Shadows … Silvie Vartan… Françoise Hardy… e, claro está, The Beatles …”love, love me do… you know I love you”… ah, o meu querido gira discos portátil , um Philips azul e beije, prenda por ter concluído o meu segundo ou terceiro ano, já nem me lembrava dele, o que lhe terá acontecido? Em que sótão, em que casa, em que prateleira, terá ficado arrumado e esquecido…
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Lembro-me, isso sim, de surripiar sempre «O Cavaleir Andante» ao meu irmão Eduardo, para poder ler as aventuras do Príncipe Valente, lembro-me de ficar estendida na relva do jardim, ou no areal da praia, absorta na leitura dos livros que invariavelmente ou eram da «Biblioteca das Raparigas» ou da «Biblioteca dos Rapazes» geralmente oferecidos pela titi, ou pela vovó, eu que via sempre o «Ivanhoe», o «Robin Hood» ou o «Get Smart» na TV (a preto e branco, tudo a preto e branco) e imaginava cavaleiros andantes em terras exóticas, enquanto esperava sem pressas por cada regresso às aulas, antecipando o reencontro com as amigas e os amigos do colégio.
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Nessa época cada viagem no comboio da linha do Oeste era uma pequena aventura, todos os dias o mesmo grupo de adolescentes brincalhões e despreocupados viajava de S.Martinho do Porto às Caldas da Rainha, em menos de 15 minutos (com direito a paragem no Bouro).
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E eis que, sem ser convidadas, começam a chegar as memórias do colégio: desde as aulas de ginástica onde as meninas se pavoneavam naquelas inestéticas saias de sarja branca que éramos obrigadas a vestir por cima dos calções (coisas da época) até aos napperons em ponto cruz nas aulas de Lavores Femininos da Dona Dora …
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Ui, e tal qual coelho tirado da cartola, aparecem desordenadas imagens das aulas com o professor Azevedo, o terror da matemática, a Dra Maria do Rosário, que eu achava tão elegante com os seus lenços sobre os cabelos… a Dra Irene “quand trois poules vont aux champs, la premiere marche devant”.... os directores: o tolerante e sorridente Padre António Emílio e o sisudo e inflexível (ui, que medo… ) Padre Albino!
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O padre Renato, que logo no primeiro ano, para minha grande desilusão, teve a bondade de me informar que eu desafinava demais, por isso o melhor seria ficar de boca fechada nas suas aulas de Canto Coral! Foram cinco os anos que eu passei no ERO, do primeiro ao quinto, de sessenta a sessenta e cinco e a cada novo ano lectivo o padre Renato ,sem sucesso, a tentar hipnotizar -me durante o recreio (dizia ele que o insucesso era derivado ao facto das solas dos meus sapatos serem de borracha …) e a cada novo ano lectivo eu voltava a tentar cantar e voltava a ser devidamente informada que desafinava demais por isso tinha de ficar fora do coro!
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A amiga irreverente, a Lena Figueira, que um dia, sem pré aviso, de morena passou a loura amarelo palha, num abrir e fechar de olhos, escandalizando a moral caldense mais puritana da época, a Ana Nascimento e o Carrilho , que tinham sempre boas notas e sabiam a matéria toda na ponta da língua (a Ana menina sempre bem comportada, o Carrilho nem tanto) e, claro está, as minhas duas companheiras nas viagens de comboio a Isabel Veiga (a verdadeira espalha brasas... ) e a Graciete (tão Françoise Hardy!).
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O meu irmão mais velho, o Eduardo Artur (1948/2003) , com todos os seus colegas de turma e o fascínio que os mais velhos exerciam invariavelmente sobre os mais novos, os famosos passeios ao parque durante a hora do almoço, o subir bem devagar a ladeira até ao colégio em amenas cavaqueiras, entre risadas e brincadeiras, os recreios onde as miúdas saltavam à corda, jogavam à macaca e espreitavam timidamente para o recreio dos rapazes… os «flirts» à distância…
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Cada novo ano lectivo as melhores amigas se entretinham em novas confidências e mais zanga menos zanga, continuavam a ser as melhores amigas e os rapazes, ah les garçons, esses eram infalivelmente umas verdadeiras pestes, que durante as aulas de físico-química, no anfiteatro, sopravam pequenas bolas de papel pelos tubos vazios das esferográficas, na tentativa de as fazer aterrar nos cabelos das meninas.
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Foram anos muito bons , esses anos em que eu frequentei o ERO. E, de repente, ooopppsss, bate a saudade!
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Hoje, aqui e agora, penso com alguma tristeza na Nani, essa colega que recentemente foi ao encontro dos outros que entretanto também já nos deixaram.
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Tantos anos passados, tantos anos vividos, tão longe que estão as nossas adolescências e agora unidos por um blog!
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Guida CS

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ANOS SESSENTA (Comentários)

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Tina disse:
Com este texto saudavelmente nostálgico, a Guida trouxe-me recordações de uma década que muito me marcou.
Não pertenço ao grupo da ERO e a vivência foi diversa. Mas fez-me lembrar que também não fui consultada aquando da mudança da minha família de Cabo Verde para Lisboa, que foi muito sofrida em Dezembro de 1966, para os meus 14 aninhos acabados de completar. E que trouxe de lá, na ponta da língua, as letras das canções em voga na música britânica, francesa, italiana, espanhola e também brasileira, pois a cidade de Mindelo era um porto franco e as influências vinham de todo o mundo. Fui parar ao severo Liceu Maria Amália, mas de ensino exemplar, onde as sementes da luta pela vida foram plantadas.
Agradeço de novo ao José Luís Alexandre ter-me chamado a atenção para um artigo do Artur R. Gonçalves, que me trouxe novamente ao convívio do JJ, que conheci sendo eu já aluna do 1º ano do ISE, onde entrei em 1971.
Não tenho sempre oportunidade de acompanhar todos os posts no ERO, mas uma coisa salta logo aos meus olhos: a vossa juventude foi vivida de modo muito semelhante que a minha. Afinal, eu vim de Cabo Verde julgando que era genuinamente portuguesa, já que até as minhas canções de roda em criança foram maioritariamente exportadas do continente.
Foi um prazer encontrar o grupo ERO através deste blog com manutenção do JJ. Com certeza que desculparão esta invasão de uma ET. Ou antes de uma ES.
(Ernes)Tina Santos
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Artur R. Gonçalves disse...
Em 1960, ano do quinto centenário da morte do Infante D. Henrique, frequentava eu a 3.ª classe na antiga escola primária da praça do peixe. Pouco recordo dessas celebrações para além da cunhagem de uma moeda de prata comemorativa com a esfinge do desconhecido senhor do chapeirão, teimosamente identificado com o pretenso navegador. Para dar mais brilho à efeméride, os irmãos Quina também andaram a velejar pela baía napolitana e trouxeram consigo uma medalha de prata das olimpíadas romanas. A experiência junto a penicheiras e nazarenas foi rápida, porque regressei à escola do bairro da ponte onde ingressara no final da década anterior. Lembro-me de ver muitos meninos de pés descalços na sala de aula, geralmente sentados na fila dos burros, e de pensar com os meus botões o quão feliz eu era por me sentar na fila do meio e ter direito a umas botas no inverno e sandálias no verão. Os sapatos, claro está, eram o luxo dos feriados e dos dias de ir à missa ou à catequese. A fase seguinte foi passada na escola velha da mata e na nova da saída norte da cidade da rainha.

Os contactos com os/as meninos/as do colégio foram muito escassos e fugidios. Faziam parte de um outro universo que não o meu. Via-os a entrar sair do edifício situado na rua capitão Filipe de Sousa. Morava em frente, junto ao chafariz d’el-rei. Depois mudaram-se para a zona alta do burgo. Via-os passar junto ao chafariz das cinco bicas, a calcorrearem ladeira acima a caminho de um externato todo novinho em folha. Não me recordo de alguma vez ter visto passar a Guida ou de alguma vez me ter cruzado com ela. Nem nas CdR nem em SMdP nem muito menos em Lx. Teria sido impossível deixar de fixar o rosto e a figura, tão composto à medida da Françoise Hardy, a minha ídola de então. Até aos meus quinze anos, passei férias de verão noutras paragens mais meridionais da província estremenha. Só muito ocasionalmente dei umas escapadelas às praias do oeste caldense. As esplanadas, os cafés, as dunas, as passeatas, os areais, as águas paradas da baía e agitadas da costa, todas os ambientes referidos da vila piscatória são-me familiares mas guardo-os na memória de um modo bastante mais ténue. As idas ao cinema eram cumpridas nos defuntos Salão Ibéria e Pinheiro Chagas. Os bailes de fds faziam-se noutras garagens e os gira-discos pertenciam a outras mãos que não as minhas.
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Quando a janela dos anos sessenta se estava a fechar e dos setenta a abrir, mudei-me para a capital do império. O meu processo de autodeterminação e independência pessoal começou aí. Na altura ainda se ouvia toda essa discalhada juvenil cantada em inglês e francês, mas também em italiano e espanhol. As novas que vinham do maio parisiense e a queda do senhor das botas alterou um pouco o meu universo de referências musicais que começou a fazer-se muitíssimo em português. Pensando bem no assunto, os meus anos sessenta foram vividos no início dos anos setenta. São esses que eu continuo a recordar como os anos dourados da minha adolescência. Em comparação com esta fase alfacinha da minha vida a anterior parece-me demasiado insípida para recordar de uma forma particular. Estive lá e saltei para a vida. Curiosamente, é através de uma janela virtual que tive a oportunidade de olhar para a janela real aberta de par em par para os nossos verdes anos que convencionámos encaixilhar nessa década prodigiosa em que os rapazes conquistaram a liberdade de deixar crescer o cabelos e as meninas de fazer subir as bainhas até aos limites inconcebíveis das mini-saias. Época heróica essa também, berço em grande parte destes nossos tempos do dia de hoje...
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Alfredo disse...
Guida:
Deliciei-me a ler o teu post recordando passos e vivências de outrora bem como fotos desse tempo. Eras linda e o teu irmão, Eduardo, “um bom camarada” e quando caminhávamos para o rio de Salir não nos entretínhamos somente em pescar tainhas mas também, e sobretudo, a apanhar caranguejos, amêijoa e berbigão tão abundantes no rio desse tempo. No cimo das dunas apanhavam-se e comiam-se as camarinhas, descendo-as depois a rebolar, deslizar ou sentados ou deitados em cima das folhas largas das piteiras e só parávamos dentro da água do rio, ás vezes com uns valentes trambolhões rebolando, ora de pé ora estatelados na areia e mazelas conquistadas nestas aventuras mas que acabavam em sonoras gargalhadas.
Deverás também lembrar-te do “ti Farinha”, sempre vestido de branco dos pés à cabeça com o seu apito a anunciar a sua chegada e passagem, e do “Catitinha” que vendia barquilhos na praia, da Rosa das “bolas de Berlim” e bem assim das sessões de teatro dos “Robertos” e as “Construções na Areia” com entrega dos prémios no Cinema com pompa e circunstância.
A Jangada em madeira, de dois pisos, que parecia tão longe da areia mas que em certos dias de marés vivas quase se alcançava “a pé” na baixa-mar, belos mergulhos e regresso a nado. Algo que também já pertence a esse passado e não mais regressou foram os viveiros de marisco “plantados” na baía e que também serviam para nadar até eles, descansar e regressar a nado até á praia.
Mais para os rapazes, foi o divertimento da abertura do túnel com os rebentamentos feitos com pólvora e a construção do paredão ao longo da Avenida, ainda recordo “os chorões” que cresciam no local desta construção e das marés grandes que levavam a água das ondas até á passagem de nível e ao Largo do Turismo até quase ao Café do “Marrofos”, hoje Café Baía, do “Manel Careca”.
Sempre tive a vaga esperança de voltar a conversar convosco, mas reparei que colocaste duas datas quando referiste o teu irmão e senti “um baque” no peito e uma sentida desilusão por saber que isso se tornou impossível, “ele foi um bom companheiro”. Talvez não te lembres destes nomes, mas eles foram os que conviveram, brincaram, passearam e muito conversaram nesse tempo, José António Louro da Costa “vulgo Barbas d’Álho”, João Moura, Eldeberto Carreira “Beto”, Alfredo Justiça, José António G. Justiça, e outros que agora não recordo, mas estes foram os que continuaram a amizade até ao ERO e Escola Industrial e Comercial.
Muito mais há para recordar… e é bom recordar, embora por vezes doa e nos deixe melancólicos mas os anos 50s e 60s são o nosso orgulho e invocá-los sabe bem. Oh se sabe.
A.Justiça
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Victor Ângelo disse:
Muito querida Guida,
O teu post faz-nos jovens, tantas décadas passadas. Tu e eu estivémos na mesma turma, no 2º e no 3º ano. Tu, a rapariga de todos os sonhos, eu um pobre tímido de meia-tijela. Depois, voltei para Évora e perdi-te por uns anos. Voltei a encontrar-te quando já estavas em Lisboa, a acabar o Liceu. Para te perder, de novo, quando fomos para a faculdade. E voltámos ao contacto em 2000, quarenta anos depois. Eu havia dado a volta ao mundo, tu havias vivido a vida. Nessa altura falámos da hipótese de tentar reunir os antigos do nosso tempo. Por isso, é tão bom ver este blog em pleno funcionamento, ter a oportunidade de rever nomes que se haviam perdido nas nossas memórias, e, sobretudo, ler a tua crónica de um tempo que era mais simples e puro, mais genuino e inocente que os dias de agora.
Muito obrigado, Guida.
Victor Angelo
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JJ disse:
Convictamente caótico, decididamente nostálgico, evidentemente sedutor, irresistivelmente soalheiro, este é o post que abre a época balnear no Blog. Começou o Verão !
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Joaquim disse...
Puxa ! e pensava eu que tinha boa memória.
Parabéns
Joaquim

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jorge disse...que bela prosa,que boa memória,que belas memórias!as músicas,s. martinho,a contestação universitária,embora um pouco mais novo passei por isso tudo.maravilhoso...j.
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J.L. Reboleira Alexandre disse...
Este é o tipo de post que mexe comigo. And you wear flowers in your hair....and you did it of course, Guida!
Ao ver a primeira foto ainda antes de começar a leitura do texto, de repente disse para os meus botões: O quê, a Janis Joplin, a tal que cantava ou antes gritava «Me And Bobby McGee» também andou no ERO ?
Sequência maravilhosa de memórias que se lêem «d'un seul trait»
Lindo!
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Laura Morgado
Que boa memória a da Guida!Um texto fantástico que não pode deixar nenhum aluno daquela época sem uma recordação...por muito insignificante que seja. Quer no ERO ou na Faculdade...foram bons tempos apesar de conturbados.
Guida, esqueceste-te do Padre Chico...ou nem por isso?
Beijinhos por tudo aquilo que me relembraste.
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Guida Sousa disse...
Este texto jorra do fundo do coração,misturando pessoas,factos,músicas,memórias pessoais de uma forma arrebatadora e,como já escreveram,cativante e sedutora.
Maravilhosas as fotografias todas com um inigualável tom da época.
Não admira pois a quantidade de pessoas que têm procurado o blogue para ler. Parabens!
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Isabel Esse disse...
Gostei muito deste post,do texto e das fotografias.Mas não escrevo por isso,já outros o disseram.
A Margarida(que não conheci)salienta o blogue como local de reunião e encontro de pessoas que de outra forma estariam irremediavelmnte separadas e perdidas.Só por isso,este blogue é indispensável e insubstituível,como eu e outros dissemos em Novembro!
IS
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Cristina Ramos Horta (no Facebook) :
Não conheço a Guida Carvalho da Silva, mas escreve bem e é linda.Parabéns e obrigada pelas recordações partilhados.
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Jaime Serafim disse:
Tenho andado um tanto afastado do blogue, motivado pelo acréscimo de trabalho do fim do ano lectivo e de outras actividades em que me meti. Vida de reformado não é fácil, não...
Mesmo assim, tenho acompanhado de soslaio o que se vai passando, aguardando melhor tempo para desfrutar o prazer de proceder a uma leitura mais atenta.
No entanto, ao ver uma foto da Françoise Hardy, lembrei-me de quanto eu apreciava as suas canções - um timbre límpido e doce que nos trazia letras simples, mas muito enternecedoras. Lembrei-me também que possuo um vídeo de uma canção da Françoise. Para mim, o vídeo vale pelo som - as imagens poderiam até ser dispensadas, mas não são más de todo.
Não sei se interessará aos saudosistas, se vai sobrecarregar desnecessariamente o blogue, ou mesmo se já foi inserido e eu nem dei por tal.Seja como for, partilho-o consigo.
Um abraço
Jaime Serafim
Joaquim disse:
Parabéns ao J. Jales pelo blogue do ERO, que tem lindas estórias dos anos sessenta e anos setenta, em que os principais personagens são alunos da B.Pinheiro e R.Ortigão e todos outros certamente serão bem-vindos, embora eu pense que deveriam ser apenas alunos do ERO.
O meu nome é Joaquim Chaves, sou das Caldas e acabei a escola na Bordalo no ano 59/60. O convívio que tive com alunos do Colégio foi mais nos encontros de futebol que havia entre nós e posso dizer que geralmente havia uma boa camaradagem. Na altura eram os Calistos, "o Jorge", o TóFreitas,o muito popular João Calheiros e tantos outros. É pena que esses dos anos cinquenta não apareçam, pois foi uma época brilhante e que muitos se encontraram na vida militar, na já não tão brilhante mobilização para as antigas colónias, como o J.Franco, o Figueiredo,o Ventura, o Honório e outros
Espero estar nas Caldas em 10 de Julho e até fins de Outubro, estou sempre com colegas antigos no Central das 10 ao meio dia e vou tentar aparecer por aí para receber umas lições sobre discos...Vou enviar outro email com a estória da "porta", mas se o João decidir não publicar não faz mal algum, pois eu durante muitos anos pouco ou nada escrevi e agora torna-se um pouco difícil ...
Cordialmente.
Joaquim
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Guida Carvalho da Silva respondeu :
Se o meu apontamento sobre os anos sessenta despertou assim tanta curiosidade e teve tantos visitantes, isso deve -se antes de mais nada ao administrador do blog e à «operação de marketing» desenvolvida, que foi muito bem sucedida e conseguiu efectivamente reunir um grande número de leitores. Por esse facto fiquei particularmente contente, na medida em que me permitiu partilhar este passeio ao passado com todos aqueles que tiveram vontade de o ler. É que os bons momentos não têm sabor se não forem partilhados.
Obrigada pelos vossos comentários.
Obrigada João Jales pelo «Antigos Alunos Ero».
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José Mário Rego disse:
Guida
Gostei imenso de ler o teu relato de um tempo que vivi,com outra idade mas com igual intensidade. Tinha no teu irmão Eduardo, um colega de ano e amigo,a quem perdi o rasto, mas nunca o desejo de saber dele.Por esse motivo,gostava se possível, de conhecer um pouco mais da sua vida,após a saída das Caldas.
Podes contactar comigo?
Abraço Amigo
JMRego
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OUTRA JANELA (São Caixinha)


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Com a bonita fotografia de uma invulgar janela vermelha e um aliciante texto sobre as suas vivências em criança, a uma outra janela, o Vasco incita-nos a um regresso ao passado e a um reencontro com as nossas próprias janelas! Esta é a minha.
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Eu tinha 5 anos quando deixámos Lisboa em direcção às Caldas da Rainha, onde o meu pai iria ser continuo e residente da Escola que simultâneamente ofereceria a minha educação. Como o edificio ainda se encontrava em construção foi-nos atribuida como residência temporária, uma casinha pequena e modesta nas redondezas da obra.
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Foi nela que encontrei a “janela da minha infância”! Era no sotão! Uma janela pequenina que se encontrava muito mais perto do chão do que qualquer janela que conhecia até ali, tão perto que de joelhos me podia debruçar sobre o seu parapeito. Esta atraente particularidade era, para a minha mãe, apenas um enorme motivo de preocupação, portanto preferia-a sempre fechada! Eu entendia que sabia avaliar e evitar os perigos inerentes e, confiante, abria-a em segredo, cautelosamente, sempre que podia. E era dificil de abrir, com os seus mecanismos enferrujados e a fragilidade oscilante dos caxilhos, ademais eu procurava a todo o custo evitar o ranger escraboso das suas dobradiças cansadas... A práctica, como frequentemente acontece, fez-me perita naquela operação delicada !
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A sedução da janela não se encontrava contudo no facto de ser convenientemente à minha medida nem certamente na simplicidade da vista que proporcionava, mas no contacto inédito que me permitia com a natureza! Era o ar fresco das manhãs do campo com o chilrear dos passáros e o ramalhar das árvores. Era o vento condutor de folhas secas, joaninhas e pirilampos (oh os pirilampos!!!). Era a fragância da terra molhada, das flores, das searas... carreiros de formigas!! Era a amplidão do céu com as suas nuvens passageiras ... e a chuva dos dias cinzentos ! A janela da minha infância iniciou-me na descoberta dos valores da natureza e descobriu em mim uma paixão, que mal suspeitava mas, sei entretanto, se irá prolongar até ao fim dos meus dias!
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Os meus parabéns ao Vasco pelo excelente post e os meus agradecimentos pelo mágico reencontro que ele provocou !
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São Caixinha
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C O M E N T Á R I O S
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Joaquim disse...
Para mim a janela da São Caixinha é a mais bela, pela sua humildade e modéstia e que mesmo fechada, enferrujada, aos poucos ela se foi abrindo e por vezes uma janela pequena traz-nos um mundo muito maior.
Joaquim
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Luis disse:
O relato de uma sonhadora,que olhava para o céu enquanto cheirava a terra.É uma atitude que por vezes origina uns tropeções...
São,estou a brincar,a tua janela é muito bonita e um dos bons posts desta série.Bem como a fotografia que adorei ver e que deve ter 50 anos.L
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Fernando Ribeiro disse...
Estas janelas da nossa infância vieram abrir uma janela enorme,vieram abrir a nossa memória adormecida e que despertou num clic.Formidável e que recordações nos vem trazer.Vamos continuar, que vos parece?Para a frente nao acham?
Bem hajam.
Fernando Ribeiro
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M Manuela Gama Vieira disse:
Que bonito "argumento" contém a Janela da São!Atrevo-me a dizer que o seu gosto pela Natureza e pelo Belo é inato em si,nasceu consigo.Por momentos associei a descrição da sua Janela ao sótão de Anne Frank, que mereceu aliás um excelente texto da sua autoria numa das séries do nosso Blog.
E como a sua Janela é tão genuína,tão pura,tão bela, é-me difícil encontrar mais palavras. Dou-lhe os meus sinceros Parabéns!
Manuela Gama Vieira
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Julinha disse:
Uma janela pequenina,quase junto ao chão.....com uma vista linda,o chilrear dos pássaros e a Natureza,tal com a São a viu e sentiu !
São,a maneira como descreves a tua janela toca-me profundamente...gostei muito !
Um beijinho
Júlia R
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Vasco Trancoso disse.
Fantástico! Dir-se-ia o milagre das janelas! Uma saudável epidemia que a todos contagiou.
Agradecendo a atenção de todos os que enviaram os comentários super-simpáticos não posso deixar de constatar também que se desencadeou um fenómeno de “reacção em cadeia” – atentos os números excepcionais, nunca recepcionados antes, de visitantes, em ambos os blogues. E foram comentários/janelas (originando outros “posts”) a chegar. E o mérito é todo das janelas (isto pode ser confirmado e analisado no quadro de estatísticas publicado no final desta página-JJ).
Há vários tipos de janelas na Vida e em cada pessoa, com significados/emoções diferentes mas de facto todos temos uma janela muito importante: aquela na infância (que mexe muito com a criança ainda em nós). E o que aconteceu foi cada um(a) abrir a sua própria janela e trazê-la para o blogue – que se transformou numa rua que ia crescendo à medida que se iam abrindo cada vez mais janelas.
Têm razão quando referem que o registo é mais “Amarcord” do que “8 e ½” – só que a música para os saltimbancos que “encaixava” perfeitamente era mesmo aquela do Nino Rota. Em resumo: os blogues estão muito bonitos com toda a gente à sua janela que dá, por sua vez, para as janelas dos outros – todas a abrirem-se para um largo comum, cada vez maior, onde se sente uma festa do “sentir”.
Bem hajam
VT
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M do Rosário Pimentel disse:
"Há males que vêm por bem". Confirma-se o ditado neste lindo e ternurento post. Naquela casinha, a menina teve a oportunidade precoce de descobrir a Beleza da Natureza, forçando,teimosamente,a abertura duma janelinha de sótão. Sem saber, estava a iniciar a descoberta de si própria.
Uma janela e um sótão - quanto fascínio e quanto mistério!
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F. Clérigo disse...
Muito Bonita a Janela da São...Muito Bonito igualmente o seu Texto, indubitavelmente Bem escrito, mas sobretudo o Cariz Sensitivo que lhe imprimiu...A Força da Descrição que a São nos revela, quase nos permite escutar os Sons da Natureza, o canto dos pássaros, o canto do vento, o restolhar das folhas, o brilho dos pirilampos, as diversas fragâncias da Natureza...Natureza Essa, ousaria dizer, que acompanhou a São e que ainda Hoje tem a mais Bonita Tradução no seu Blogue “Ambrosia”...senão cite-se o Seu próprio Sentir:
“A janela da minha infância iniciou-me na descoberta dos valores da natureza e descobriu em mim uma paixão, que mal suspeitava mas, sei entretanto, se irá prolongar até ao fim dos meus dias!”
Muitos Parabéns São pelo Belo Texto ! A Foto é Enternecedora!
Beijinho
Fátima
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A BANDA DO CLUBE DOS CORAÇÕES SOLITÁRIOS DO SARGENTO PIMENTA

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Tive, ocasionalmente, conhecimento da existência de um desenho de um aluno do ERO publicado num jornal nacional em 1968. Como era inspirado na iconografia de Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band movi céus e terra para o obter (isto é, escrevi ao autor e ele, amavelmente, enviou-mo).

Aqui o têm, republicado mais de quarenta anos depois. O texto que publiquei sobre este disco está aqui.

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Aqui vai o desenho...é uma página de jornal (já muito velha)


do suplemento juvenil do "Diário de Lisboa" de 2-1-1968...


um abraço, JGV

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C O M E N T Á R I O S
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Isabel Esse disse...
O João Gama Vieira desenha muito bem,já tinhamos visto a caricatura do Dr. Azevedo.
Parece que isto é um scan do jornal em que foi publicado e é pena não se ver melhor porque as figuras estão muito engraçadas.Não haverá o desenho original que permitia uma cópia melhor?
Parabéns e obrigada por nos mostrares esta relíquia!
Isabel
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Luis disse:
Muita arte e muitos artistas havia no Colégio!E o Suplemento Juvenil do DL era uma publicação muito lida naquela altura.
Vejo que foi publicado em 1968 mas o desenho está datado ainda de 67,ano de edição do disco!Que idade tinha o João Vieira nessa altura?L
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Manuela G V disse:
Perdoem-me a imodéstia, mas o meu irmão João Licínio foi sempre um rapaz cheio de talentos, do desenho, à pintura...à escrita.
Ah, um melómano, também, contagiava todos (Pais incluídos) lá em casa! Com os Beatles, e todas as bandas daquele tempo.
Penso que o desenho original não existe, foi enviado para o DL. Naquele tempo não havia fotocópias....
Aquando da publicação no blog da caricatura do Dr. Azevedo, creio que algum(a) colega, num comentário, perguntou se ele ainda desenha. Como ele não respondeu, digo-vos eu, desenha e pinta (óleos) primorosamente!
Concordo com o Luís, afinal muita arte e muitos artistas havia no Colégio.
Quanto à idade do meu irmão em Setembro de 1967- data do desenho- 17anos.Ao Jales que faz "descobertas" destas, "move céus e terras"...não tenho adjectivação... Inigualável!!!
Manuela Gama Vieira
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MEMÓRIA DOS LIVROS

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por João Bonifácio Serra



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Primeiro, na aula do Capitão Dario, à Avenida, onde fiz o primeiro ano, foram os pequenos livros de cowboys. Os mais populares, da colecção “Mundo de Aventuras”, cabiam no bolso das calças e podiam esconder-se sob a capa de um caderno diário. Nas prateleiras onde acondicionávamos as pastas, por baixo dos tampos das mesas compridas, o tráfico desses livritos era intenso. Os mais novos (eu, o Clemente, o Preto Ramos) desenvolvemos um método de os surripiar aos mais velhos, usando um elástico com um gancho que prendíamos ao objecto cobiçado. A história era sempre a mesma, o desfecho seguro e certo, a ilustração eloquente, o herói era valoroso e o vilão um safado, a rapariga atraente e frequentemente bem decidida. Esta leitura tinha todos os ingredientes para se tornar compulsiva. Rapidamente adquiri o vício.

O financiamento – 15 tostões por exemplar – foi assacado ao meu avô. O expediente usual eram os trocos dos pagamentos das tarefas de que ele me incumbia: adquirir uma revista para a minha avó, comprar os bilhetes da camioneta, preencher e entregar - a partir de 1961 - o totobola.

Ninguém mo tinha dito, mas desde sempre me convenci que se tratava de prática não recomendável. Evitava que o meu Pai tomasse conhecimento da dependência e das suas sequelas. Ocultava o resultado deste movimento aquisitivo num caixote de madeira, no sótão, até que fui miseravelmente descoberto, numa incursão raticida comandada pela minha mãe. Como esperava, a reacção paterna foi negativa. Estava em causa o que parecia um gasto excessivo e injustificado, uma atracção por matérias duvidosas e um conflito inaceitável entre formas nobres ou ignóbeis de ocupação do tempo. Apesar de antecipado, o castigo que o meu Pai me infligiu pareceu-me, porém, desproporcionado e excessivo. Fiquei envergonhado e revoltado. Por uma noite dormi fora de casa.

A segunda fase fez entrar na voragem outro tipo de livros, livros com lombada e autor, livros a sério. O meu Tio ajudou a gerir a crise da repressão sobre o consumo de trash cowboyesco e a transição de acesso à literatura. Dava instruções e orientava pessoalmente as compras em épocas especiais: aniversários, passagens de ano e natais. Continuei a ser um devorador de livros, mas o vício tomou uma forma menos clandestina e aparentemente menos exclusivista.

As fontes de abastecimento diversificaram-se, passando a incluir além de aquisições e presentes, o empréstimo de amigos e familiares, a procura desenfreada dos salvados das antigas bibliotecas dos padres (ou candidatos mal sucedidos ao sacerdócio) Bonifácios e a biblioteca Gulbenkian sita nos Pavilhões do Parque. O impulso consumista manteve-se alto e abarcou diferentes géneros: a literatura para adolescentes (Condessa de Ségur, Enid Blyton, Emílio Salgari), a novela policial, o romance de aventuras. E, por fim, o romance, o grande romance (Camilo, Dumas, Eça). Falarei dessa progressão não linear a seu tempo, se a benevolência do gestor deste blogue o autorizar e a paciência dos leitores o tolerar.

É verdade que, como nas boas famílias tradicionais sempre se soube, o risco que corria era elevado. Os meninos que liam de mais acabavam a tresler. Foi, mais ou menos, o que se passou comigo. É certo que já lá vai quase meio século desde os acontecimentos que relato e consegui abafar o caso e disfarçar as suas consequências. Mas de facto, a passagem da literatura de cowboys à literatura propriamente produziu uma alteração radical de valores. Uma subversão do real. Como se diz em brasileiro, o mundo pontacabeça. Ou seja, enquanto li livros de cowboys, tudo bem. Eu percebia que aquilo não existia. Mas quando comecei a ler romances, aconteceu uma coisa surpreendente: uma cortina de névoa, cada vez mais espessa, isolava-me de tudo o resto à minha volta. Ao alcance do meu olhar, por vezes até das minhas mãos, quando não dos restantes sentidos, ali estavam personagens que deviam ser imaginários, cenas que deviam ser virtuais, objectos que deviam ser imateriais. Mas não eram: tinham espessura, cheiro, vida.

Não, não se tratava de representação, de projecção da alegoria das cavernas. O que se passou comigo foi simplesmente isto: mundos paralelos. Conhecem a teoria? Ao lado do mundo que nós julgamos real, há outro, com outras regras, outros personagens, outra história. Ambos os mundos são reais, mas prosseguem lógicas distintas, ignoram-se mutuamente. Pois bem: eu aprendi a transitar entre um e outro, graças aos livros. Acreditam?


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João B Serra


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C O M E N T Á R I O S



Isabel X disse...
Isto da memória tem muito que se lhe diga! Eu que já confessara a "desmemória" em que ando(até já escrevo à Mia Couto...) e eis que este texto teve o condão de me fazer lembrar um período da minha infância em que descobri debaixo da cama do meu irmão Luís um caixote cheio de livros de cowboys, colecção seis balas, salvo erro! A partir de então, lia um por dia, durante vinte minutos, meia-hora, em que me escondia para o efeito. Repunha-o no caixote e tirava outro. Tudo feito clandestinamente e com a agravante, no meu caso, de ser necessário agir em duas frentes: o mano mais velho e os meus pais! Até que um dia, sem ter a mais leve noção de estar a pôr em causa um sistema tão bem arquitectado, resolvi perguntar à mesa, aos restantes membros da família, o que significava uma palavra, essa palavra, além de constituir o título do próximo livro que eu (julgava que) ia ler, era-me totalmente desconhecida: "O Parricida"! O meu pai ia-se engasgando, claro, e não descansou enquanto não apurou a origem daquela minha dúvida tão pouco metódica. Até parece que sinto agora a frustração que então senti por nem ter chegado a ler o livro. Aliás, nunca mais voltei a ler livros daqueles, mas tenho lido e treslido muito mais do que o bom senso aconselha.
Quanto à transição entre mundos de que o João é capaz, fico expectante, à espera da prometida continuação deste tão promissor texto: conte-nos como é, está bem?
- Isabel Xavier -
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farofia disse...
Esta narrativa está uma delícia! Que recheio, hmm… nem sei… hmm… (desculpe,… hmmm) nem sei qual o ingrediente a destacar, que eles são tantos e a mistura finíssima… hmm!


Escolho um pedacinho de susto ‘Por uma noite dormi fora de casa’… e mais a cena do ‘deve e haver’ do financiamento… ah!... e o vício do ‘herói, vilão e rapariga’… e a ‘perdição’ dos mundos paralelos!

…desisto! Enquanto continuo a deleitar-me com esta, estou já a aguardar a próxima ‘delícia’ do João BS
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João Ramos Franco disse...
O João Bonifácio Serra, dá-nos aqui, e muito bem, a imagem de um percurso pelos livros, em que gerações se tocam numa caminhada de leitura pelos heróis da nossa juventude. Não existe outra realidade, todos passamos esta.
Com sua arte de relatar factos, envolve-nos nas aulas do Capitão Dário (Professor que também foi meu e numa sala que bem conheço), no seu método de aquisição dos livros e os conflitos que este tipo literatura gerava perante a educação familiar.Em seguida mostra o caminho como partiu para os outros géneros literários com o conflito que gera o começar a arrumar na nossa mente tudo o que lemos e sabê-lo distinguir para o poder tornar em conhecimento e validá-lo.
Não vou alargar o comentário, estou na presença de um texto de alguém que muito respeito pelo seu saber e vou aproveitar para aprender com ele na continuação do que tem para nos contar…Sempre amigo
João Ramos Franco
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Luis disse:

Texto muito "saboroso" como diz a "farófia" (é a Drª Inês, não é?),em que apesar da diferença de idades, eu me revejo, já que a leitura de quadradinhos era também censurada no meu tempo.Os livrinhos de "coubois" que comprávamos em 2ª mão,trocávamos,roubávamos uns aos outros, já que dinheiro líquido não abundava na altura foram também as minhas primeiras leituras.
Anoto a promessa de continuação!O João Serra tem muito que contar. L
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ze_mas disse...
Sigo também as reflexões do autor no seu blogue mas aí ele reflecte mais sobre a actualidade do que o passado.
Esta evocação do que significa a leitura,Texas Jack ou os Três Mosqueteiros,retrata realmente o que os livros e a leitura significaram para nós.Será que a Internet e a Playstation terão o mesmo papel nas novas gerações?
Este post,com continuação pelo que percebo,coloca alto as expectativas deste novo capítulo do blogue.
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João Jales disse:
Talvez por ser mais novo nunca tive qualquer censura ao Mundo de Aventuras nem ao Falcão, para os quais houve sempre alguns abonos familiares legais.
O gosto pelos quadradinhos de dois primos,mais velhos,que passaram lá por casa enquanto estudavam no ERO, ajudou-me até a conhecer melhor o Mandrake,Fantasma,Matt Dillon,Tarzan,Flash Gordon,Cisco Kid, Kit Carson (o meu preferido)... Havia muitos mais, mas não os recordo, não me marcaram como estes.Mesmo o célebre Sgt Kirk, desenhado por Corto Maltese (e editado no Falcão), só muito mais tarde me despertou a atenção.
No excelente texto do João, que dispensa os meus elogios, há uma passagem que me chamou a atenção quando a li:
"Os meninos que liam de mais acabavam a tresler. Foi, mais ou menos, o que se passou comigo (...) consegui abafar o caso e disfarçar as suas consequências." Será mesmo?
Se o gestor do Blog a que o autor se refere sou eu (vejo-me mais como um contínuo/linotipista de serviço) só posso afirmar que a continuação deste texto é uma exigência colectiva, bem expressa em todos os comentários.
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Manuela Gama Vieira disse:
Será um lugar comum elogiar as já conhecidas e múltiplas qualidades do autor do texto, mas não posso deixar de o fazer. O seu estilo literário imbuído da singularidade de nos transportar ao mundo e "cenários" da sua juventude, como que conduzindo-nos aos lugares e objectos- aquele delicioso caixote, no sótão-constitui uma viagem ao passado, que parece não ter meia centena de anos, de tão claro e vivo.
O gosto pela leitura ainda nas "carteiras" do Colégio- delicioso, o truque do elástico...- redundou no leitor compulsivo que diz ser, no brilhante escritor e comunicador que, reconhecidamente, é!
Manuela Gama Vieira
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Ana Carvalho disse:
É sempre uma delicia ler estes textos do João Bonifácio. Enquanto o lia, eu que não me conseguia lembrar de nada, recordei-me que, quando era pequena, por volta dos meus 7 anos, começaram a sair uns livros pequenos que se chamavam "Histórinhas Semanais"; eram da Disney, contavam uma história, Os três Porquinhos, O Capuchinho Vermelho, etc, e eu esperava ansiosamente que fosse, salvo erro, 4ª feira, para sair um novo livro que o meu pai nunca se esquecia de me comprar.
Depois vieram "Os Cinco, "Os sete", alguns livros de cowboys , recordo-me do Zorro e muito livros de banda desenhada do Pato Donald, Tio Patinhas, e muito mais coisas que eu lia, melhor devorava...ainda hoje leio alguma coisa, tenho de ter sempre um ou dois livros entre mãos.
Bjs PP
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Isabel Esse disse...
Acho que não percebi bem como é que surripiavam -palavra gira!- os livros aos mais velhos com o elástico mas isso não me impediu de ler e reler esta história da infância do João Serra.Porque ela despertou-me as memórias dos truques para arranjar 2$50 para uma revista,um bolo,uma pastilha elástica,etc.
Eu nunca li o mundo de aventuras porque as minhas bds eram mais o pato Donald e Zé Carioca e depois passei também para a Enyd Blyton.
Gostei muito desta Memória dos Livros e também peço ao autor que não se esqueça da continuação!Lembrou-me isto que havia umas revistas que eram de continuação e era preciso comprar várias para saber a história toda,mas outras estavam entretanto a meio.Lembram-se?
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Isabel Cx disse:
Gostei imenso de recordar muitas destas leituras que o Bonifácio descreve.Leituras que estavam completamente adormecidas na memória e que tambem eu lia e tambem às escondidas..Os favoritos eram sem dúvida o Mandrake e o Kit Carson!!!
Se eu e o Bonifácio fossemos da mesma idade, possivelmente nos teríamos encontrado algum dia na biblioteca do Parque, que para mim era como que uma fonte onde podia acalmar a sede de ler... e mais uma vez às escondidas do meu pai!
Gostei muito dos mundos paralelos...infinidade de mundos onde podemos transitar quando queremos e viver situações conscientemente escolhidas por nós !
Gostei muito.
Beijinho. Isabel Caixinha
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J L Reboleira Alexandre disse...
João Serra, como de costume, conta-nos da forma que só ele sabe a maneira como a maioria de nós (parece que as miúdas também liam livros de cowboys) rapazes, nos iniciávamos na leitura.
Ver a capa do Sargento Preston da GRC (iniciais em francês) ou da RCMP (em inglês) ou para todos nós em Português, da Policia Real (somos ainda súbditos de sua Majestade Britânica)Montada Canadiana, dá para verificar que o actual uniforme de Inverno é o mesmo.Eu «era» no entanto mais Kit Carson, e a sua Jane, Tin Tin e Ron Ron (e não Milu como agora se diz), Buffalo Bill e Coronel William Cody, Capitão Fiúza e os outros que os jovens americanos aprendem na história, como Daniel Boone, ou o grande David Crockett, herói da batalha de Los Alamos. Porque não também o Zorro e o seu companheiro indio, o Tonto. Mas o «meu» Zorro não lutava contra os espanhóis, não usava espada, e disparava balas de prata montado no cavalo Silver.
Enfim a lista nunca mais acaba e faço daqui um desafio ao Nuno Mendes para explicar, com a memória que todos lhe reconhecemos, onde é que fui arranjar a maioria destes livrinhos.
Os cinco, e os sete vieram a seguir, e depois por influência destes veio a literatura. Como a censura doméstica era mínima, pude seguir a minha evolução literária ao sabor das minhas preferências e o sotão ainda guarda muitas destas reliquias.
Abraço
J L Reboleira Alexandre