ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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A PROPÓSITO DOS "WE"

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Olá,
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Estou a enviar mais umas fotos do meu baú de memórias. Desta vez trata-se do conjunto WE numa matinée infantil no Casino. Foi no verão de 1974. Embora fosse já depois do 25 de Abril, ainda não era Casa da Cultura. O Prof. Calheiros Viegas foi o animador dessa matinée. Podemos vê-lo numa das fotos rodeado de crianças. Será que alguém se reconhece nessas crianças?
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Do conjunto WE podemos ver o Luís Silva (meu irmão), o Jaime Saez Salgado, o António João Freitas e o Carlos Silva ou Cazé (meu irmão). Em algumas fotos encontramos também o Carlos Sena, já falecido, que participou na actuação. Ele vinha do conjunto Pentágono, anterior ao WE. Na última foto estou eu e a Ana Saez Salgado, irmã do Jaime.
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Bj
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Carmo Franco Lemos
 


C O M E N T Á R I O S
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Jaime Salgado disse...
Bom, já foi há quase 40 anos...mas de certeza absoluta que esta festa na qual estive presente, penso que terá sido em 1973 e isto porque no Verão de 1974 eu estava em Luanda; hoje estou um pouco diferente, não tenho um aspecto tão "rockeiro"; a seguir ao Beatles e Rolling Stones não estávamos assim tão mal classificados.
 Um abraço para o António João, Luis e Cazé e um beijinho para ti Carmo.
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Luis disse:
Que saudades do Casino, um espaço insubstituível de convívio da juventude caldense. Este deve ter sido o último ano em que funcionou!
O Jaime Salgado é mais velho que eu, lembro-me bem dele mas fui mais próximo do António João. Que é feito de todos eles?
Um abraço.
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Carmo disse...
Jaime, é bom saber de ti depois de tantos anos! Nunca me esqueci de ti nem dos teus irmãos, a Ana, o Carlos e também o Xavier com quem tive menos contacto. Eu continuo nas Caldas, assim como os meus irmãos, o Luís e o Cazé. E vocês, por onde andam? Este blog tem destas coisas, consegue reencontrar pessoas e memórias de outros tempos! Um grande beijinho para ti e também para os teus irmãos.
Carmo Franco Lemos
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diz o que te vai na alma disse...
Para quem gosta de fotografia (como eu), estas são uma delícia.
Permitem voltar ao passado em poucos segundos e ver como a vida era tão cheia de cumplicidades, partihas e alegria, mesmo num tempo incomparavelmente mais difícil.
Esta geração marcou uma vida. Não tenho dúvidas. Obrigado pela partilha destas pequenas-grandes maravilhas.
Dalila Garcia
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maria joão disse...
E o famoso Xaranga?
Xarhanga Beat,no Casino das Caldas anos 70,que tocava os êxitos da época .
Com o Carlos Cavalheiro, Rui Venâncio, Júlio Pereira (o do famoso cavaquinho) e Carlos Patrício ?
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O Xaranga está em:
O CASINO (Belão), é só clicar.
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Artur Henrique Ribeiro Gonçalves ‎(no FB) disse...
Então como agora, o inglês a marcar a moda. Creio que nunca os vi atuar ou ouvido uma qualquer gravação. Seria interessante postá-la aqui caso exista. Reconheço o Tó, o dos braços abertos, e tenho uma vaga ideia do guitarrista. E é tudo......
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Margarida Araújo disse (no FB)...
António João Freitas de braços no ar e as outras caras lindas?
A figura central em destaque sempre é Calheiros Viegas (Pai).
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Rosario Mota (no FB)...
é pá k saudades destes tempos......
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Paulo Caiado disse...
Os We (sem o Jaime, que esteve ausente por motivos profissionais) tiveram um enorme gesto de amizade para com todos nós e reuniram-se ao fim de 30 anos para nos dar um concerto memorável numa noite memorável. Vejam as fotos através dos posts...

Breves notas e comentários a "Diário 9 Junho"

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O 10 de Junho era um feriado estranho, em que a exaltação do nacionalismo se misturava com a universalidade de Camões e as contingências da Gerra Colonial. Nunca houve uma orientação coerente nas comemorações ou eu, como o autor, nunca a compreendemos.

O final dos anos em que não havia exames equivalia realmente o início de 3 a 4 meses de férias. Nunca isso significou menor rendimento escolar e sim uma adequação ao clima mediterrânico em que vivemos. A excepção eram os anos de exame em que se fazia um pequeno sacrifício.
A redução das férias escolares não me parece ter servido a qualidade do ensino mas sim as necessidades das famílias numa época posterior em que, por ambos os pais trabalharem, não era fácil “ocupar” os jovens. Como nos anos 60 havia muitas mães que não trabalhavam, muitos avós disponíveis e os riscos de “morar” na Foz de manhã e no Parque à tarde era nulo, esse problema não existia.

Também no meu ano havia muitos alunos com ligações familiares a terras do interior Norte e Centro de Portugal. Além dos colegas da periferia que desapareciam no Verão, muitos tinham família na Beira Interior, Minho e Trás-os-Montes. Curiosamente muito poucos dos meus colegas e amigos tinham os avós nas Caldas. Tinham cá avós muitos jovens lisboetas que vinham passar o Verão nas Caldas. Deve estar aqui um curioso movimento migratório para ser analisado.

As Belgas acampadas em S. Martinho, já referenciadas em vários textos publicados na série “Locais de Encontro”, eram um “desassossego” para os jovens caldenses. Chegaram a aparecer em bandos no Casino, em “matinés” destinadas à miudagem (às Quintas e Sábados à tarde) mas que, com a sua presença, se transformavam em bailes normais e muito concorridos.

Os livros e a música eram um factor de agregação (e segregação) entre os grupos que liam (ou não liam) e ouviam (ou não ouviam) as mesmas coisas. E marcavam indelevelmente quem gostava ou não de determinados autores e compositores.

A abertura de uma sala de jogo e convívio exclusiva para a malta nova no Casino é de 1969. Está descrita nas notas ao depoimento do Miguel B M.

Sobre o Casino não deixem de ler também o artigo da Belão e a "resposta" da Luisa Nascimento.
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JJ

Retrato de Família no Casino : ERO, ESCOLA E AMIGOS

Baile da Chita 1970
Então aqui vai :
Na mesa - Dr. Lopes
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Da esquerda para a direita
Sentados: António Elias, Anabela Elias, Anabela Ferreira, João Gregório Vendas, Chico Cera, Mário Zé Jordão, Teresa Elias, Gé (Eugénia), Zé Letras e Mariazinha Gregório
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De pé: Luisa Nascimento, Augusto Machado, Roberto Ornelas, Ana Nascimento, Salete Lourenço, Janja Salvador, Marques Filipe, Ana Margarida Lobo, Elsa Nogueira, Graça Jordão, ????, São Pina e Álvaro Lucas

Título, fotografia e legendagem de Ana Nascimento.

Comentário a "Locais da Belão" , por Ana Nascimento

ANA NASCIMENTO
Querida Belão :


Cheguei só agora mas penso que ainda venho a horas….Li com gosto a tua descrição do Casino… Ai que saudades que eu tenho, dos bailes… do convívio… do cafezinho tomado no bar ….das tardes de conversa passadas na Aldeia dos Macacos. Abençoado Zé Augusto, ou seja o senhor teu pai, que propôs as assinaturas de Verão e nos permitiu fazer do Casino o nosso principal ponto de encontro…. As coisas de que tu te lembras … e o que me fizeste recordar…aqui vão algumas :
No Verão de 70, além da Amália Rodrigues e do Rui de Mascarenhas (que não cantou pois estava afónico) também o D. Vicente da Câmara foi actuar no Casino e, do seu vasto reportório, dedicou-nos o fado das Caldas…A eleição de miss Praia nesse ano passou-me completamente … nem tão pouco a celeuma que isso causou… e a miss hot pants ainda muito menos…
Lembro-me sim do Baile das Chitas e do das Cabeças enfeitadas …. acho que a designação, embora um pouco estranha, era esta… sei que à ultima hora como não tinha mais nada levei um espanador a fazer de chapéu. O Baile das Chitas, além do do 15 de Agosto, era um ponto alto nos eventos de Verão…Umas semanas antes era ver as pequenas na procura das chitas para fazerem os vestido e os respectivos lenços e gravatas para o pares que as acompanhavam. … E depois havia um concurso, não sei se existia o título de Miss Chita (o teu pai poderá confirmar….) mas o modelo mais elegante, mais original, era premiado….. Sei que na altura ganhei qualquer coisa e recebi da mão do Dr. Calheiros…. uns doces da Frami !!!!
E a propósito de entradas sem pagar, o episódio contado pelo Zé Carlos não foi único. Na porta principal estava o Sr. Fernando e o Sr. José, nós abríamos a janela da nossa casa de banho, de modo a que os “piquenos” pudessem entrar, escapando-se ao pagamento. Isto era um trabalho de grupo …, enquanto umas controlavam a janela, outras distraíam a sra. do bengaleiro (não me lembro o nome dela) e as restantes estavam atentas à entrada não fosse o sr. Fernando sair do seu posto e dar de caras com os rapazes a saírem do Toillete das Senhoras...
E os concursos da valsa e do tango? Ainda ganhei um prémio a dançar a valsa com o Xixas…que bom que era dançar com ele …, dançava tão bem …leve como uma pena … quase que nos pegava ao colo para deslizarmos na pista de dança.. e havia pares tão giros a dançar… lembro o Dr. Calheiros e a Maria Emilia .. tão elegantes…
A miss Casino de 1970 não sei quem foi, mas em 69 acho que fui eu… (ai esta memória… as gotas estão a fazer-me falta…será que a Anabela Miguel se lembra da data? ) Eu não registei grande coisa deste “evento” talvez porque para mim a Miss Casino seria sempre a Ana Vieira Lino … recordo apenas que levava um vestido branco de renda , muito “in” na altura, e que o Xavier Salgado foi eleito o homem mais feio (de certo uma partida que lhe pregaram pois o “mocinho” era bastante apresentável…)Estes bailes tinham sempre um horário “alargado” … acabavam por voltas das 6 da manhã e quando chegávamos à Praça deparávamo-nos com alguns comerciantes já a postos para, ao soarem as badaladas das 7h no relógio da Câmara, ocuparem os seus lugares de venda. Não se ia logo para casa……. seguíamos direitinhos para a Padaria das Teixeiras, onde o cheirinho a pão quente, a sair do forno, era uma coisa deliciosa… Em seguida, já abastecidos de papo secos, rumávamos para a a Zaira onde o staff da altura (Sr. João ,Sr. Romão , Sr. Zé e o Albertino ) começava a contar –nos e a dar a ordem para a copa : “Atenção, saiam 2 copos de leite frios com uma casca de limão, 5 galões , 4 bicas e um pacote de manteiga para a mesa do canto….
E por aqui me fico pois vi que o que tinha começado por ser um comentário quase virou um “testamento”… Obrigada Belão por me teres feito recuar no tempo e reviver momentos tão ricos da minha juventude…
Beijinhos
Ana

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22-05-2008
Isabel disse:
A fotografia do grupo, no casino, está uma maravilha. Seria possível legendar? É que assim ficávamos também a saber quem é quem. Bjs Isabel Caixinha

22-05-2008
João Jales disse:
Já está legendada a fotografia, falta identificar uma jovem, se alguém reconhecer, por favor informe. São todos mais velho que eu e, os que tinham sido alunos do ERO, já lá não estavam nesta data.
Aproveito para esclarecer:
- não havia eleição de Miss Chita, e sim uma votação nos pares, que tinham que cumprir várias provas (incluindo dançar), conforme escrevi nos meus comentários ao artigo da Belão.
- as entradas pelas diversas janelas, evitando a bilheteira, são uma cena clássica do Casino desde os anos 50. A relativa tolerância em relação a esse acto prendia-se com o facto de serem os “penetras” normalmente pessoal da casa, com amigas e amigos no interior. Embora eu fosse sócio permanente e não pagasse, penso que a necessidade de tal aventura era muito discutível, nunca vi o Zé Augusto negar uma “borla” delicadamente pedida…
- os doces da Frami eram um prémio frequente já que o Rogério Caiado fazia parte da Direcção do Casino.
- houve muitos “bailes temáticos”, conforme as modas. Mini saias, hot pants, calças boca-de-sino, penteados, chapéus, tudo serviu de pretexto para animar os bailes de Verão. Cabeças enfeitadas, embora as houvesse, eram talvez tema de conversa mas não me lembro de serem tema de baile...Deve ser uma daquelas habituais brejeirices da Ana. Célebre ficou o Baile Hippie, em Setembro de 1971, com receita integralmente a reverter para o Xaranga, que teve polícia e Pide à porta e esteve para ser proibido! Outra estória para justificar um “regresso” ao Casino noutra ocasião. Mais tarde, já não nesta série.

22-05-2008
Belão disse:
É de facto tão bom recordar estes tempos! Ana, adorei também ler as tuas recordações. Lembro-me bem de teres sido Miss Casino (embora fosse muito "pita") e lembro-me também da Paulinha Jales ser Miss Praia (nada a ver com o concurso da Capital). O pão com manteiga na Zaira era da praxe, não só a essa hora da manhã, como todas as sextas-feiras, depois do Casino fechar. Aliás, a Zaira só fechava depois do Casino. Durante as noitadas de baile também era costume ir comer o famoso prego ao Camaroeiro (já aqui mencionado). Agora vou ter de corrigir o datómetro do JJ: João, o baile Hippie garanto-te que foi em 70, porque fui Miss Xaranga. Levava uma túnica às flores e umas calças brancas, às franjas, as quais foram autografadas pelos elementos do grupo (ainda com Burguete e Porfírio) e onde os próprios desenharam as violas, a bateria (no rabo, claro!) e toda a aparelhagem. Concordo com a Isabel Caixinha: vamos lá a legendar a foto dos jovens! Bjos a todos os que têm contribuído para o reviver desta época. Belão

Os Locais da Belão

















Belão




(Isabel Sousa e Silva)


O CASINO





Lembro-me do Casino desde muito pequena pois os meus pais eram frequentadores assíduos. Os serões eram passados pelo pessoal mais velho a jogar Canasta, Crapô e Bridge, ou no bar, frente à lareira, folheando o Século Ilustrado ou a Elle. De vez em quanto havia jogos de futebol importantes na televisão e então, sob a organização do Dr. Calheiros Viegas, faziam-se apostas acerca do resultado do jogo. Os Festivais RTP da Canção também conseguiam encher a sala do bar e deixar vazias as mesas de jogo. No bar, a D. Maria andava numa azáfama com as tostas mistas, o chocolate quente, os bombons de ginja e aquelas maravilhosas bolachas de chocolate que a Frami fornecia.

Todos os anos o Paulino Montez organizava um campeonato de Crapô que culminava com uma festa de entrega de prémios aos três primeiros classificados. Em 1964, se não me falha a memória, a festa do Crapô foi um acontecimento único. O portão do Casino abriu-se e os concorrentes entraram de automóvel no Céu de Vidro, vestidos à Anos 30.

Em dias de sol a juventude reunia-se na Aldeia dos Macacos (nunca percebi o porquê do nome) e jogava King ou Lerpa.

Não resisto a contar um episódio que despoletou na altura enormes gargalhadas. Passou pelo Casino um funcionário, o Sr Hermínio, que de expedito tinha muito pouco. Durante uma partida de King, o Nené resolveu tocar à campainha para chamar o Sr Hermínio que ao fim de algum tempo lá apareceu para tomar nota dos pedidos. Todos disseram o que queriam e o Nené concluiu: “ para mim é um copo de água d’el cano”.

Passado algum tempo o Sr Hermínio regressou: “ Sr Nené, dessa água não temos. Mas eu já escrevi no livro das faltas para o Sr Carreia Alves mandar vir.” Lindo!

E os bailes! Se havia coisas que nós as meninas ansiávamos, com direito a preparação com horas de antecedência, eram os bailes. Lembro-me de, juntamente com a João Ferreira e a João Gomes, em casa desta, começarmos o ritual às 6 horas da tarde! O baile era às 10h da noite, mas máscaras de beleza, banho de espuma, pinturas... tudo exigia muito tempo, claro! As pinturas eram o mais complicado, sem dúvida. Como não tínhamos propriamente idade para andarmos todas maquilhadas, era a Anabela (hoje Cera) que, vizinha do rés-do-chão, colocava as pinturas num cestinho que a João Gomes com uma corda recolhia no 2º andar, pela janela das traseiras do prédio. Não sei se ficávamos mais bonitas, mas nós achávamos que sim!

Bailes com eleição das Misses era outro momento alto. Sobretudo quando os rapazes conseguiam angariar os cartões de voto do pessoal mais velho e que quase sempre tinham como objectivo votar na pior de todas. Só para destabilizar e gozarem, claro! O menino Rui Hipólito era perito nessas andanças. Coitada da concorrente que desfilou com cinta por baixo do biquini e que, para espanto geral, e dela provavelmente, foi eleita Miss Praia da Foz do Arelho!

E os concursos de dança, organizados pelo Dr. Calheiros Viegas, nos quais até os últimos classificados recebiam prémio (que variava entre uma lata de concentrado de tomate da Frami e um cinzeiro de louça da Secla)?

Havia excelentes dançarinos que nos guiavam pela enorme pista de dança. Posso realçar talvez o Araújo, o Chiquinho Carrilho, o Xixas e o Carlos Branco. Mas havia mais, concerteza.

O Casino do Parque recebeu, ao longo da sua vida, grandes vedetas do mundo da música: Amália Rodrigues (que bebia uns valentes whiskies no toillete), Carlos do Carmo, Paulo de Carvalho, Paco Bandeira, Hermínia Silva, Shegundo Galarza... mas para muitos de nós a maior vedeta foi sem dúvida o Xaranga Beat.


O XARANGA BEAT


O Xaranga Beat chegou à experiência em 1970. Eram cinco rapazes, alguns de cabelo comprido, vestidos meio à hippies mas que convenceram pelo menos um director do Casino, logo à primeira música. E vieram para ficar.

Vocalista- Rui Burguete
Viola – Carlos Velez
Viola Baixo – Porfírio Laborinho
Viola Rítmica – Luís Maduro
Bateria – Rui Venâncio

Claro que foi um sucesso! Durante os meses de Julho e Agosto havia bailes todos os dias, excepto à 2ª feira, sempre com grande afluência, o mesmo sucedendo no Carnaval.


“Os êxitos do momento saíam em disco e um dia depois tocavamo-los, por vezes sem sequer os termos ensaiado uma única vez”! – Confirmou-me o Porfírio num magnífico serão que passámos juntos. “Ensaiávamos no carro, a caminho do casino.”

“O Xaranga Beat já existia antes de surgirem no Casino” – recorda Porfírio. Do 1º Xaranga não fazia parte o Carlos Velez nem o Rui Burguete, mas sim o Tó Achega (que mais tarde regressou ao grupo) e o Rui André.


Um dia, quatro rapazes (Burguete, Porfírio, Maduro e Venâncio) juntaram-se para tocarem durante os intervalos do conjunto que actuava no casino da Nazaré. Alfredo Monderrey, na altura fadista e proprietário da boîte “Digo eu” tornou-se empresário do grupo e marcou a dita audição para o Casino. “Não tínhamos instrumentos nenhuns na altura. Tocámos com tudo emprestado, até a bateria era do Tó Freitas. Foi o Alfredo que financiou aparelhagem e instrumentos. Fomos então buscar o Carlos Velez para se juntar ao grupo.” – Conta o Porfírio.

Fazia parte do contrato que no final do Verão se realizasse uma festa cujo lucro reverteria na totalidade para o grupo: “ Foi a Festa Hippie, que esteve para ser proibida. Cartazes...hippies... 1970... pensavam que era uma festa de drogas! Esteve quase para não se realizar. A GNR esteve mesmo de plantão à porta do casino.O resultado foi um tremendo sucesso e cada um de nós arrecadou 7 contos e tal. Muito dinheiro na época.”- Recorda o Porfírio.


Do programa constava a eleição da “Miss Xaranga” e do “Homem mais Feio”. Lembrava-me, claro, que fui “Miss Xaranga”. Não nos conseguimos lembrar quem foi o “Homem mais Feio”.


Em Outubro de 70, findo o Verão, um trágico acidente de viação vitimou toda uma família (Reis Vieira) e também o vocalista deste grupo, o Rui Burguete.” Ele era fantástico a cantar música francesa.” E era mesmo!” Lembras-te quando ele interpretava o Joseph e eu fazia uns falsetes?”- pergunta-me algo emocionado.



Não me lembro agora! Até me lembrei de uma música composta por eles, que o Rui Burguete escrevera e interpretava na perfeição. Dizia assim:

Um barco que parte
Entre imagens de areia
Um mar que se ergue
Pescador, barco, odisseia
Uma ânsia crescente
Uma ilusão falida
Um sol que é poente
Uma aurora em perspectiva...
................................................

Não sei se fiz boa figura a cantar com o Porfírio, mas gostei de o fazer. Lá que rimos muito, rimos.

Mas não era só a cantar que o Rui Burguete era fantástico. Embora muito miúda, tinha-o na minha conta como um ser superior. Tinha um coração enorme!

Sem a equipa completa, havia que substituir o Rui. Surge então e o Carlos Cavalheiro.
“ Tinha uma voz mais potente que bonita. E um grande pancadão!” – recorda.


Dois meses depois a tragédia abateu-se de novo sobre este grupo. O Porfírio sofre um brutal acidente de viação, com consequências graves. Felizmente não ficámos sem ele. Mas o Xaranga Beat viu-se privado de outro elemento.


Tó Achega ocupa o lugar de viola baixo, no grupo que nessa altura já contava com um teclista (Carlos Alberto).


Alguns meses mais tarde houve outra (trans)formação : Saem Maduro e Carlos Velez e o Xaranga conta a partir de então com Patrício, Cavalheiro, Rui Venâncio e Júlio Pereira que em 1971/1972 grava “Acid Nightmare Great Goat”- álbum duplo. No 2º disco Rui Venâncio dá o seu lugar a Zé da Cadela.

Aqueles cinco rapazes, os do “nosso Xaranga”, que em 1970 vieram para animar os bailes do Casino, mais do que artistas, eram parte do nosso círculo de amigos.
Ao longo destes anos lá fui encontrando uns e outros e sempre constatando que é com imensa saudade que recordam o Casino e a cidade, com toda a animação que a caracterizava.

Breves notas e comentários a "O Locais da Belão"

O Crapô é um jogo de cartas parecido com uma paciência jogada alternadamente por dois jogadores, cada um com um baralho. Muito popular na década de 60, conforme transparece no texto. Tivemos dúvidas na grafia e Crapaud, Crapeau, Crapeaux e até Crapot foram hipóteses consideradas. O Houaiss admite Crapô como designação portuguesa para o jogo, pelo que a Belão o adoptou no seu texto. Alguém quer contribuir para o esclarecimento desta questão?

No Casino além das salas de jogo, do bar e da sala de baile existiam dois espaços com nomes próprios: o "Céu de Vidro", a zona central com a cobertura em abóbada feita de vidros, e a “Aldeia dos Macacos”, a zona de esplanada aberta que confinava com o Parque. Como a Belão, eu nunca soube a origem desta designação, embora suponha estar ligada a ser um espaço onde a miudagem brincava enquanto os pais estavam no interior ou por ter sido uma zona nos anos 50 aberta a todos os veraneantes, enquanto o interior tinha o acesso reservado aos sócios.


O ritual das meninas a prepararem-se para os bailes era uma cerimónia interminável… Qualquer dúvida que se levantasse sobre a adequação de uma peça de vestuário, um adereço ou uma maquilhagem poderia arruinar horas de “trabalho” e atrasar irremediavelmente a chegada ao Casino. Essa hora de chegada era também estudada, já que não se podia chegar tão cedo que não estivesse lá ninguém nem tão tarde que já ninguém reparasse. Sendo de um sexo, nesse aspecto, mais afortunado, nunca passei por essas angústias.

A Belão não se lembra, mas fui o seu par num dos Bailes da Chita. Ficámos em segundo lugar devido aos habituais "jogos de bastidores", que nos retiraram a merecida medalha de ouro. O nosso Tango, espontâneo e inesquecível, levou a assistência ao rubro!

O boicote das várias eleições no Casino nos anos entre 69 e 73 era um passatempo que desesperava os “organizadores” desses eventos (Dr. Calheiros Viegas e D. Carlota Mendonça à cabeça).
A eleição de que a Belão fala foi a de Miss Praia em 1970, organizada pelo Jornal Capital: a vencedora da Miss Foz do Arelho tinha 120Kg, usava uma cinta sob o (amplo) bikini e dançou a valsa da consagração com a Mãe! O Rui Hipólito tinha 14 anos nesse ano, não foi ele o organizador dessa votação (essa memória, Belão…eu lembro-me quem foram os três autores, mas não digo!). A Capital pagou 5 contos à vencedora na condição de ela não aparecer na final, no Casino do Estoril. Como a segunda classificada (mulher do apresentador e que só concorreu para fazer número) exibia uma extensa cicatriz de uma “apendicite” algo deslocada e demasiado extensa, não houve mesmo representante da Foz na final. No ano seguinte a organização foi no Facho, em S. Martinho, com entradas rigorosamente controladas. Ainda lá fui mas, não me lembro bem porquê, não me deixaram entrar...

Recordo-me também de outra eleição, Miss Hot Pants, ganha por um Travesti com o nome “artístico” de Joana Lages, que provocou uma apoplexia no Dr. Calheiros Viegas, quando este descobriu que tinha espetado dois xoxos num homem ao entregar-lhe o troféu! Foi em 1971, mas também não vou aqui revelar quem era este “artista”. E há muito mais estórias, ficam para outra ocasião.

O Miguel B M relatou na sua crónica a vinda do Paulo de Carvalho, a Belão lembra aqui outros espectáculos. Nenhum deles recordou o Rui de Mascarenhas, que era uma presença assídua e um frequentador habitual.
Todas estas vedetas passaram pelo Casino pela mão do empresário Vítor Resende, que esteve a um passo de trazer a Shirley Bassey, um dos monstros da canção da altura, ao Casino, num concerto que seria televisionado. Foi em 1969 e falhou o apoio da Câmara, a quem faltou talvez a visão da importância do acontecimento. Outra estória que fica para outra oportunidade.
Só por curiosidade refira-se que as cantoras que a Belão refere tinham direito a uma cabeleireira privativa para a sua actuação. Apesar de cobrar um “cachet” mais baixo, a gorjeta da Hermínia a essa senhora foi dez vezes maior que a da Amália, acreditam?

Foi com uma versão entusiástica de Venus, dos Shocking Blue, que os Xaranga Beat “convenceram” o Zé Augusto a contratá-los para a sua primeira temporada no Casino (15 de Julho a 15 de Setembro de 1970).



A Belão não nomeia o seu Pai, certamente por modéstia, mas ele foi a alma impulsionadora da renovação do velho Clube de Recreio e da sua transformação no (ou recuperação como) melhor espaço de convívio das Caldas no final da década de 60.

Penso que sobre o Xaranga a autora conta tudo, faltou talvez mencionar o Rui Reis, pianista, de quem me lembro particularmente bem. Escreveu-me posteriormente a Belão: O Rui Reis (esqueci-me de falar nele) é na fase do Júlio Pereira, Patrício, Cavalheiro e Rui Venâncio.

Eu fiz amizade com o Rui porque era um dos membros da banda que mais e melhor conhecia os novos movimentos musicais ingleses e americanos. Lembro-me do entusiasmo com que tentou introduzir no reportório do Xaranga algumas músicas mais próximas de um Rock mais adulto e ambicioso que emergia na altura. "America" (Leonard Bernstein), conforme já mencionei anteriormente, foi um dos exemplos mas lembro-me de lhe fornecer letra, e gravações de muitas canções.


Por exemplo "Oye Como Va", dos Santana.




Recordo-me de muitos ensaios mas não exactamente de quais chegaram a ser tocadas nos bailes... Emprestava gravações em cassetes porque, depois de ver como tratavam os discos, nunca mais lhes emprestei nenhum! E fornecia letras tipo “transcrição fonética”, os vocalistas sabiam umas coisas de francês, não tanto de inglês.

Deixei para o fim, por ser uma nota mais longa, a referência da Belão a “Joseph”, o primeiro single de Moustaqui como cantor, editado em 1968.
Georges Moustaqui chamou-se Joseph, Giuseppe e Yussuf Mustacchi, em diversos momentos. Eu explico: este francês, filho de grego e arménia nascido no Egipto, teve documentos com todos esses nomes! Na década de 50, já sediado em França, tornou-se conhecido como compositor ajudando as carreiras de, entre outros, Charles Trenet, Yves Montand , Juliette Gréco, Colette Renard, Pia Colombo, Dalida, Tino Rossi e Barbara. Ao compor "Milord" para Piaf em 1959, quando mantinha com ela um romance, tornou-se célebre. É cantado por Reggiani e Brassens nos primeiros anos da nova década. Mas só em 1968, durante uma tournée com Barbara, sua companheira na altura, acometida de uma doença súbita, foi “obrigado” a cantar em público. Um ano depois “Le Métèque” (estrangeiro, apátrida) torna-o uma estrela mundial.
Uma imagem de libertário utópico, fraternal e amigável, pregando a paz e harmonia universal torna-o irresistível para a geração de 60. Continua a cantar e dar espectáculos até hoje, com setenta e três anos de idade. A maioria dos seus álbuns chamam-se simplesmente “Georges Moustaqui”, para desespero dos seus inúmeros admiradores e coleccionadores, obrigados a usar o ano de edição ou o nome da primeira canção de cada um deles para os distinguir.

Tentei não me repetir em relação a algumas notas que já tinha escrito sobre o Casino a propósito do depoimento do Miguel B M. Quem não tiver lido pode ir a Notas e comentários a "Os Locais do Miguel B M"

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JJ

Outros Comentários a "Os Locais da Belão"

Perante o volume dos comentários ao artigo da Belão decidimos colocá-los num artigo à parte. Ainda cabem mais, podem continuar a escrever!
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23-05-2008
Isabel disse:
Gostava de acrescentar que, como raramente podia ir ao Casino, o artigo da Belão veio exactamente dar-me a conhecer o quão divertido e descontraído era o ambiente! E é claro que me veio tambem fazer ver o que eu involuntáriamente perdi!!! Uma descrição muito bem feita, vivída e cheia de interessantes detalhes, que me fizeram rir ao imaginar as cenas.
Adorei ler os comentários ao artigo, que tambem esses vieram com muita informação e imenso humor. Relembrei o Xaranga que, das poucas actuacções que vi, deu para ficar devota fã do grupo.
Que pena que o Casino não foi preservado para que as gerações seguintes pudessem usufruir deste tão valioso ponto de encontro!
Até á próxima. Bjs Isabel Caixinha
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21-05-2008
Zé Carlos Faria
Muito me ri com «os locais da Belão»!Com a eleição da Miss Praia, convêm dizer que quando se fala em biquini, trata-se evidentemente de uma figura de estilo: As duas peças (três, se contarmos com a cinta) do dito cujo, davam tecido que, com um pouco de imaginação, chegaria para um vestido, mas enfim... Se a memória não me falha, o próprio apresentador (um pintas sobrecarregado de brilhantina e com laço foleiro), congregou também uma votação apreciável, que o deixou muito bem posicionado no meio das beldades.
E por falar em beldades, Joana Lajes, o que é feito de si? Inolvidável a sua maquilhagem, a sua capelina, a sua fina perna esgalgada, os seus saltos altos, o donaire com que recebeu o bouquet que consagrava o seu triunfo...Isto de votações nestes eventos, tinha muito para contar. Por exemplo, quem ganhou a eleição do «homem mais feio» quem foi, quem foi? Pois fiquem sabendo que tal distinção coube a este vosso amigo e admirador. Olaré! (Deve ter sido o único concurso que ganhei; estou como o Woody Allen que jurava apenas ter ficado em primeiro lugar uma só vez e que essa tinha acontecido nove meses antes do nascimento). Claro que o escrutínio foi convenientemente arregimentado, dado que o prémio era uma garrafa de ginja, (não se podia perder), a qual desapareceu de imediato na consagração, dividida fraternalmente e emborcada pelo núcleo duro do «staff» da campanha eleitoral. Justíssimo, até porque deu trabalho conseguir maioria absoluta, o que é que pensam?Ainda duas estórias nos bailes do Clube de Recreio (era assim que se chamava. Depois foi Casa da Cultura e também dei para esse peditório):
A primeira tem a ver com uma entrada estentórica, num baile que me garantem ter sido de Carnaval (e eu acredito), de um grupo (Pedro Maldonado Freitas, Rui Hipólito, Zé Lemos e este escriba, entre outros) empunhando garrafão de tinto e pandeiretas, debaixo de um pano pintado, sustentado em dois paus de vassoura, que apregoava: «Grupio Racreativo, Coltural, Esportivo e Iscurçionista do Xungóbaile, Mátóbicho e Arrastópé». A coisa deu brado, houve fotografias para a posteridade (que não sei por onde param) e acabou num delicado jogo de «carne sem osso», com vozes e embalagem dadas no bar e liça no Salão (convirá esclarecer, para os mais distraídos, ser partida que se disputava com duas equipas, uma que amochava e outra que lhe saltava para a lombeira, tentando concentrar todo o peso em cima dum desgraçado tido por mais vulnerável. A finalidade era, num dado período contado em voz alta imediatamente após o salto do último dos contendores, fazer derrubar os adversários, sendo obrigatório manter o equilíbrio instável daquele tudo-a-monte em cima dos costados dos outros. Depois invertiam-se os papéis. Elegantíssimo, como se poderá constatar!...).
A segunda historieta dá-se, quando num dado momento se soube que naquela noite se pagava bilhete. Que fazer? Então, janela junto ao palco, protegida por pesado reposteiro, estrategicamente deixada entreaberta ao fim da tarde e com a função já começada, um grupo de para aí uma dúzia (e que integrava mais ou menos os mesmos do episódio anterior) postados em bicha (agora parece que se diz fila), um a um, a entrar de mansinho e pela sorrelfa. A meio da intrusão, houve um penetra que se desequilibrou no parapeito e irrompeu vertiginosamente pelo meio do cortinado, concluíndo com uma aterragem abrupta na mesa, para susto e espanto dos convivas. Sacudiu-se e justificou-se: «Minhas senhoras, queiram desculpar e não se preocupem. Já só faltam mais cinco!...»
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20-05-2008
Higino Rebelo disse:
Fidelissima a descrição das vivências no "Casino" feita pela Belão.E bem me lembro do Bettencourt (Xixas) ser um bailarino de referência pois arrebatava, invariávelmente, o 1º. prémio nos concursos de dança - eu ainda arrebatei um terceiro prémio com uma prima do Manuel Gerardo, tendo levado uma mini-garrafa de Gin para casa.Sobre a eleição, no verão de 1970, da Miss Praia Foz do Arelho creio que tudo começou com a colocação de um cartaz, não sei por quem, perto do Casino onde se podia ler: "hoje à noite no Casino do Parque Feira do Gado". Depois aconteceu o que já foi descrito, lembro-me de também ter feito campanha a favor da candidata vencedora mas já não me lembro de quem foi a iniciativa, tendo esse evento culminado no dia seguinte com a respectiva reportagem no jornal organizador "A Capital" com uma chamada na primeira página onde se podia ler em letras garrafais ELEIÇÃO MISS PRAIA FOZ DO ARELHO - POR GOSTO OU POR GOZO? e onde constava também a nota biográfica da Miss que era dispenseira no Hospital de Santa Maria. Higino Rebelo
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20-05-2008
Miguel B M disse:
O texto da Belão é excelente (vou dizer-lhe pessoalmente, e ainda me lembro dos seus famosos olhos) e retrata com fidelidade e minúcia aqueles anos e o local descrito. Acrescento que o Júlio Pereira era conhecido no back stage por "macaco vestido ".E felizmente transparece do artigo que o casino era um local aberto em que se estava bem e em que não havia descriminações. Pelo menos lá dentro pois se as havia até à porta de entrada creio que o casino em si seria alheio a essa situação. Apenas me recordo do Rui de Mascarenhas por ocasião de um memorável concerto no recinto das bicicletas, no parque, em que foi montado um palco, e que estava repleto. O concerto começou com o som dos "Pauliteiros " e ele entrava de rompante em palco já a cantar , perante o delírio da assistência. Ao estilo da entrada do Rod Stuart no estádio do Restelo em 1983 (o tal concerto em que passei umas horas na esquadra de Belém e de que já falei aqui antes). No final do espectáculo, ao entrar na Zaira com os pais, foi novamente recebido por enorme ovação. Não me perguntes o ano que não faço a mínima.
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20-05-2008
João Ramos Franco disse:
Gostei muito de ler o artigo e os comentários. Gostaria de acrescentar que a vivência no Casino no final da década de cinquenta, início da de sessenta era bastante mais austera. Era director o dr. Alcino Coelho, que exigia um comportamento mais rígido. Fiquei satisfeito de conhecer essa evolução no sentido de um espaço mais aberto! João R F
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19-05-2008
São Caixinha disse:
Adoro ler estas estórias do casino e desta vez do ponto de vista feminino!! A Belão conta-as como se tivessem acontecido ontem...quase que me fez sentir como se tivesse outra vez 16 anos! Obrigada Belão...vou ler mais vezes!!
Um beijinho, São Caixinha
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19-05-2008
Fernando disse:
A Belão fala-nos do casino familiar e acolhedor que todos conhecemos e apreciámos! Mas talvez o Jales pudesse ter ido mais longe no casino um pouco “louco” de que eu e ele nos lembramos….
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19-05-2008
Fernando Santos disse:
Todas as noites venho aqui ver o blog, e noite após noite, cada vez me sinto mais surpreendido com os seus bem documentados comentários. Sempre apreciei pessoas cultas que me permitem aprender algo mais. Os meus parabéns pelo seu belo trabalho que certamente é fruto de muitas noites perdidas. O meu obrigado. Fernando Santos.
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19-05-2008
Guidó disse:
Ao fim destes anos todos de convívio amigo com a Belão, fiquei agora a saber o nome dela. O diminutivo sabia que estava relacionado com o facto de ser para o roliço, mas sinceramente sempre me lembro de ti elegante. O que eu também lembro bem é essa cara de catraia que sempre tiveste e ainda hoje manténs. É o que se chama um sorriso ladino.
Memórias.....
Crapô, há quanto tempo não me lembrava deste jogo.
Dos bailes do Casino e dos seus preparativos também me lembro e de rimel daqui sombra de acolá, lá nos achávamos mais bonitas, ou por certa menos inseguras, naquela idade em que sempre supúnhamos estar mal.
Agora acho que foste injusta
"O menino Rui Hipólito era perito nessas andanças!" Pode lá ser, isso roça a ofensa moral do moço.
Gostei de saber dos bons dançarinos, das tuas recordações de cantores que passaram por aqui e do especial destaque dos Xaranga Beat.
Um bj amigo
da
Guidó
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19-05-2008
Luísa disse:
Que saudades do Casino!! Mas eu ia só de vez em quando, não era como a Belão… bons comentários do João, não achei longos demais, acho é que ele devia ter escrito ele também sobre o casino já que deve ser quem sabe mais histórias do nosso tempo.
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19-05-2008
Isabel Silva disse:
Olá João!
Bem, tenho a dizer-te que foste excelente nos teus comentários. Ainda não parei de rir!
De facto há muitas coisas de que não falei. Não me queria alargar muito.
Quanto ao famoso par do baile da Chita a quem falhou a medalha de ouro, tenho uma ideia de ter dançado contigo um tango, lá isso tenho. Mas isto é de facto " como as cerejas", atrás de umas... Lembro-me bem de um episódio que nos teve como protagonistas:
Certo dia, eu e o menino João Jales caminhávamos na Rua Camões em direcção ao Casino, quando fomos abordados por uma cigana que se ofereceu para nos ler a sina.
Aceitámos o "desafio" e o nosso destino seria: " Eu iria ser muito feliz e casar com um rapaz muito alto (estão a perceber, não é?) e o João ia ser muito feliz com uma rapariguinha bem disposta e gorduchinha (claro, nem podia ser outra coisa!). Eu ri-me bastante e o João também, até ter de lhe dar a moedinha!
Não acho nada bem, João, que não queiras revelar quem eram os autores das sabotagens! Mas olha que me lembro do Rui Hipólito na 1ª fila, sorriso maroto, a aplaudir o desfile da vencedora e sua cinta! Será por isso que no ano seguinte não te deixaram entrar no Facho? Será que a tua reputação chegou a S. Martinho? É provável. Alguém me ajuda a desvendar este mistério?
Também tenho uma vaga ideia sobre o tal travesti a quem o Dr. Calheiros Viegas enfiou 2 xoxos pela vitória. Mas mesmo muito vaga! Ei, alguém se lembra disto?
E muito mais haveria a contar, certamente.
Obrigada João pelos esclarecimentos e acima de tudo pelo humor com que os transmites.
Bjo
Belão

Os Locais do Miguel B M

Miguel Bento Monteiro




Embora de um modo geral eu passasse por todos os locais referidos no Blog, apenas referirei os que frequentava assiduamente.

A Zaira era sem dúvida o local preferido da juventude caldense, a qualquer hora do dia e em qualquer altura do ano, a par do Casino no Verão. Era um café particularmente acolhedor, com uma localização privilegiada, em que se cruzavam várias gerações de caldenses, pais e filhos. Recordo-me de lá ir sempre aos sábados à noite, era de lá que, após uns momentos de convívio, se arrancava para outros destinos, o Ferro Velho, o Casino e Óbidos, por exemplo. No que diz respeito aos cafés, a Zaira era definitivamente a minha escolha.

Com o aparecimento do Camaroeiro surgiu outro espaço de convívio, embora com características totalmente diferente. Era uma cervejaria com uma sala de bilhar e snooker, com excelentes bifes e fatias douradas. As pessoas que o frequentavam não tinham muito a ver com as que iam à Zaira e sobressaía a inexplicável antipatia e arrogância do dono (Júlio) e dos empregados que eram certamente seleccionados de acordo com aquela característica. Lembro-me de estar sentado ao balcão e ser autenticamente “vigiado”, não fosse o caso de comer um ovo cozido e não pagar. E não me venham com tretas que já tinham sido intrujados anteriormente, pois temos o direito (mesmo quando somos jovens) de sermos considerados honestos, até prova em contrário. Tirando esta faceta desagradável, era um bom sítio.

Quanto às pastelarias, sem dúvida o Machado. Tinha (penso que ainda tem) os melhores bolos da terra, pelo menos os "triângulos de ovos "continuam a ser muito apreciados cá em casa pelos meus filhos, em particular pelo mais novo, que é incapaz de comer doces de qualquer espécie, abrindo no entanto uma honrosa excepção para os referidos bolos. Era perto do parque, o nosso habitat natural desde o início das férias da Páscoa até ao fim do Verão.

Em relação às tascas, a habitualmente frequentada era a Floresta. Começou por ser o ponto de encontro dos sextanistas e coincidiu com o início das saídas nocturnas nos dias de semana, mesmo durante as aulas. Como fechava cedo, às dez horas, jantava cedo e chegava igualmente cedo a casa, após renhidas partidas de "pimbolim", ainda aproveitando muitas vezes para estudar um pouco ou ficar a fazer exercícios de matemática do triste Palma Fernandes, enquanto ouvia as emissões roqueiras nocturnas. Em relação aos jogos de matrecos eu jogava com os bonecos da defesa e fazia pares com atacantes talentosos como o Semilha, Pedro Nobre ou Flores. É claro que muitas das vezes esses atacantes jogavam contra mim, o que era sempre um problema. Mas o defesa mais perigoso (onde é que eu já escrevi isto?) era precisamente o bloguista JJ que enviava tremendos mísseis contra as tabelas a fim de iludir os adversários e forçar o factor sorte. Claro que os jogos eram sempre "ao perdes pagas". Enquanto nós jogávamos disputavam-se, com igual animação, partidas de laranjinha. Outro tipo de jogadores, que emborcavam copos de tinto no intervalo de cada jogada, até ao final da noite.

Outro local em que eu normalmente ia ao sábado à tarde era a Tália. Ficava perto da fábrica dos bolos e da padaria Teixeira, esta visitada por causa do pão quente.

Jogava muitas vezes king, e até lerpa, mas o forte era mesmo o poker sintético. Muitas vezes, depois do casino fechar, as partidas eram transferidas para minha casa quando os meus pais não estavam lá.

Frequentei a ginástica nos Bombeiros, durante os anos lectivos entre 1966 e 1969. As férias de Verão eram passadas nos campos de ténis. Foi lá que aprendi a jogar e fiquei com o “vício”, que ainda hoje me persegue e atormenta.

Mas recordo sobretudo as grandes futeboladas na Foz, no Verão, normalmente de manhã e na Mata, durante o tempo de aulas.

O futebol era também ele um “vício”, o qual chegou a ser saciado em plenas aulas de Educação Física, quando o prof Silva Bastos nos mandava fazer corta-mato na mata e a turma optava, e na minha opinião bem, por correr atrás da bola em vez de correr atrás de nada.

Também me lembro de um tremendo remate enviado pelo Malinha contra a porta de fundo do ginásio, no final de um jogo de vólei em que rapaziada optou, justamente e mais uma vez, por dar uns toques de futebol, usando a mesma bola. Isto para o Bastos era um sacrilégio, ainda por cima com ele a observar, embora ninguém o soubesse.

Definitivamente o melhor foram sempre as futeboladas que jogávamos a toda a hora, antes e depois das aulas, apesar de a minha mãe me proibir de o fazer, exigindo que eu viesse para casa imediatamene após o seu término. Uma vez cheguei a casa tão sujo que a senhora me obrigou a despir à porta de casa e apenas entrei em cuecas!

Deixo para o fim o Casino, que foi sem dúvida o local mais marcante para mim embora, infelizmente, só o frequentasse no Verão. Lá passei talvez os melhores momentos da minha juventude, que me marcaram indelevelmente. Lembro-me dos bailes, do convívio, dos jogos de cartas e de figuras carismáticas dessa altura. O Dr. Calheiros Viegas, de boa memória, com quem aprendi o "killer instinct" que um jogador de ténis deve ter. O excelente José Augusto Silva, que desligava a electricidade que alimentava as bandas quando estas exageravam nos decibéis: "isto é que é calma " dizia Muller, o baterista de uma das bandas a quem ele cortou o som por este ser considerado atroador por meia dúzia de mamãs e papás com ouvidos mais sensíveis; que não pagou ao Paulo de Carvalho pois este não cumpriu o contrato de actuação em termos de horário ( "o Elton John também só cantou uma hora em Vilar de Mouros " " mas tu não és o Elton John …") e que se mascarava de rocker no Carnaval.

Teria ainda que falar do meu grande amigo Toni Vieira Pereira, das sortidas para Lisboa durante os bailes ou as idas ao jogo do Faraó. Também teria que falar dos jogos de poker e das suas continuações na rua Andrade em Lisboa.

Os bailes do casino eram espectaculares e muitas vezes abrilhantados por verdadeiras cenas de pancadaria dignas de westerns de série B e normalmente envolvendo os betinhos de S.Martinho ou os forcados de Santarém, esses belos exemplos de “homens de coragem”, especialmente quando em grupo e bem bebidos. As cenas de pancadaria eram mais frequentes nas casas de banho mas chegaram a ocorrer em pleno Salão de Baile. Enfim o casino dava para escrever um livro e seria interessante que o blog desenvolvesse este tema específico.

Os bailes de passagem de ano eram muito animados, ainda me lembro de determinada mamã empoleirada em cima de uma mesa, com uma lanterna acesa na mão, procurando com um foco a menina sua filha quando soaram as doze badaladas e as as luzes, como habitualmente, foram desligadas. Como se fosse a ocasião própria para ser perdida a inocência… Eu, apesar de procurar durante anos a fio, nunca encontrei nenhum sapato de cristal perdido.

Mas o mais importante era a música, a dança, os corpos, a transpiração e, especialmente, o convívio. Também os copos, para quem bebia: uma noite o Tó Zé Hipólito despachou sozinho, e num curto espaço de tempo, uma garrafa de Johnie Walker Red Label (Juanito Caminante como dizem nuestros hermanos) mas conseguiu aguentar-se à bronca apesar de, em determinada altura, se ter fixado excessivamente, e quase mergulhado, no decote da esposa de um alto representante do poder local! No fim, tudo se compôs…

Houve grupos apenas sofríveis, mas outros excelentes. Recordo um inesquecível concerto realizado pelos Objectivo e que proporcionou ao Zé da Cadela um vertiginoso show de bateria.

Houve a morte do Burguete, vocalista dos Xaranga Beat, e de toda a família com quem viajava (Outubro de 1970). E o acidente de carro que deixou tetraplégico o baixo da mesma, aparentemente amaldiçoada, banda.

Houve o JJ que, já entornado, chamou "filha do pecado" a uma colega, facto que a ofendeu sobremaneira…mas descansa, eu abstenho-me de recordar as "antigas namoradas e outras horríveis recordações"…
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MIGUEL B M

Diário - Carnaval

Esta é mais uma página do Diário de um aluno do Externato Ramalho Ortigão. Esteve guardado num sótão muito húmido, tem a capa desfeita e o ano ilegível. Foi-me enviado há alguns dias e grande parte das folhas estão coladas umas às outras, muito amarelecidas e com a tinta esborratada. Estou a tentar transcrever as mais aproveitáveis e que tenham, simultâneamente, referências a locais de encontro e acontecimentos desse tempo. Os nomes dos locais foram fáceis de perceber, penso que estão correctos, os das pessoas não estou tão seguro. Valeu a pena o esforço? Vocês me dirão.


Carnaval



Hoje é quarta-feira de cinzas… E sabia-me realmente a boca a cinzas quando acordei, bestialmente cedo, com o barulho da enceradora. Penso que mandar a Maria encerar o chão hoje de manhã foi a maneira de a minha Mãe me castigar por me ter deitado tarde todos estes dias. Mas nesta época não é possível deitar cedo. Não há tempo para nada, nem para dormir! Nem consegui escrever este diário, que há uma semana não vê uma palavra.


Sexta-Feira fomos ao Ferro Velho mas estava fraco, só a malta do costume. No Casino só há baile de Sábado a Terça, alguém se lembrou de ir a Óbidos. Alguns mascarados passeavam-se entre a Biquinha e a Estalagem, mas o ambiente também era chocho. Metemos, a meias, dez paus de gasolina no Mini. Toda a gente protestou, quase três litros para ir a Óbidos e voltar? O dono do carro é que se ficou a rir. Ele está na tropa, e a fazer umas cadeiras no colégio. É por ser mais velho que já tem carro. Aproveitei para falar da guerra em África, um assunto quase proibido. O Fernando Serra é contra, não quer ir, mas fala do assunto com cuidado. Este medo da tropa e da guerra está na cabeça de todos os rapazes da minha idade, mas quase nunca se toca nele. Os meus pais já me falaram de malta nova que vai estudar para França, Suécia, Holanda, etc. Já percebi que pensam se será o que devem fazer comigo, mas avisaram-me para não tocar neste assunto com ninguém.


No Sábado fui ao "assalto" a casa dos Coutos. É realmente a melhor festa particular de Carnaval que eu conheço nas Caldas. Toda a gente levou qualquer coisa, principalmente bebidas. A minha Mãe deu-me uns croquetes, que coloquei numa mesa ao canto da garagem, junto dos restantes comes e bebes. Como sou mais novo do que a maioria dos outros “assaltantes”, andavam-me sempre a chatear para não beber. Fico lixado com estas proibições baseadas na idade, sinto-me uma pessoa igual aos mais velhos. Mas a festa foi bem animada e a música boa, passaram algumas brasileiradas mas também Beatles e Rolling Stones, até o “Pictures of Lilly” dos The Who. Adoro esta canção e acabei por dançar e por me divertir. As luzes até diminuíram mais tarde durante “Whiter Shade of Pale” e “Nights In White Satin”. Infelizmente não tinha par…


Depois picámos o ponto no Casino, que estava cheio e divertido. Acabámos nos Bombeiros (chamam-lhe o “Casino da Mangueira”). Passava das quatro da manhã, havia muitas serpentinas no chão que faziam tropeçar os já cambaleantes dançarinos. Percebia-se que tinham estado penduradas, como decoração, no início da noite. Havia pouca malta da nossa idade, pareciam todos mais velhos. Bebemos um copo e saímos. As bebidas eram bem mais baratas do que estamos habituados.


O Domingo foi fracativo, estive outra vez no Ferro-Velho. Alguns mascarados e mascaradas com mais lata metiam-se connosco e tentavam cravar uns copos. Alguns parvos bebiam Vodka com Martini, uma rápida bebedeira assegurada (já caí nessa, lembro-me do estado em que cheguei a casa. Os meus pais, infelizmente, também não se esqueceram…). Ainda fomos à Azenha mas estava a acabar, segunda-feira é dia de trabalho e quem trabalha abalou cedo. Até a Zaira já estava fechada quando lá chegámos. O patrão César só arrisca a multa por não encerrar a horas quando tem garantidos bifes e garrafas de vinho dos clientes com narta, os nossos pais. Não por uns pregos e umas imperiais dos filhos tesos. Passámos no Teixeira, esperámos pela saída do primeiro pão quente mas, com a Zaira fechada, não pudemos lá ir como habitualmente. Acabámos no Marinto que, embora já de porta fechada, lá nos serviu.


Segunda-Feira foi dia de Casino. Cheio, animado, com muitas máscaras, mas também toilettes. Alguns miúdos e velhos, porque ao Casino as famílias vão todas juntas. Conhecia quase toda a gente (até os mascarados), dancei com algumas miúdas da minha idade. Nunca mais de duas músicas, senão “parece namoro”. Os meus pais e os delas dançaram ao nosso lado as eternas músicas brasileiras “de Carnaval”. Foram conversar, sentados nas mesas que rodeiam a pista de dança, quando o conjunto atacou umas músicas rock. A pronúncia do vocalista é uma desgraça, se a Inês o ouvisse dava-lhe nega! Alguns dos mais novos (e dos mais velhos) cabeceavam e dormitavam nas salas de jogo, nesse dia transformadas em antecâmaras do salão de baile. Alguns queques de S. Martinho passeavam-se com um ar enjoado. Meia-dúzia de caras desconhecidas revelaram-se quase sempre primos ou amigos de alguém. Os mais quadrados, meia dúzia de homens e casais mais velhos, deixam-se ficar pelo bar. Eles bebem Whisky e Gin, elas Marie Brizard ou Martini. Entre as duas e as três da manhã as máscaras foram tiradas e discutiu-se quem foi enganado, quem enganou quem (conta-se que há meia dúzia de anos um médico caldense tentou engatar a mulher mascarada, que ele julgava em casa com uma dor de cabeça. A história já é célebre, mas será verdadeira?).


Aproveitámos esse momento para sair à socapa e fomos ao Lisbonense, também obrigatório neste dia (a minha Mãe vai aos arames quando sabe que lá vou). O ambiente era diferente: mais máscaras, mais barulho e tudo mais apertado. O tecto parecia mais baixo, havia mais fumo. A banda tinha mais metais, ouviam-se marchas portuguesas. Não parecia haver gente mais nova do que eu e não conhecia quase ninguém. Encontrei a Rita, amiga da namorada de um colega meu. Andam as duas na Escola Comercial. É curioso como há tão poucos namoros destes, entre malta do Colégio e da Escola. E o Mário, que lá vai muito porque o Pai é professor, garante que as miúdas são giríssimas. E muitas!


Dancei com a Rita, que me disse que estava com uns tios e primos. Os pais trabalham na Secla e não têm pachorra nem disposição para estas coisas. Fomos ao bar onde provei um cup terrível, com um sabor a anis ou amêndoa amarga muito intenso. Parecia fazer muito sucesso entre os restantes clientes. Vi pela primeira vez pedir Brandy com gelo e água. Preferi uma Sagres, a Rita uma Laranjina C.


Voltámos à sala para dançar. Aparentemente aqui ninguém fica com macaquinhos no sótão por dançarmos várias músicas com o mesmo par. A Luísa ficaria, claro, mas está fora das Caldas. E, sendo ela do Colégio e a Rita da Escola, não se vão encontrar nem conversar.


Já clareava o Sol quando o baile acabou, mas eu sabia que podia dormir. Os meus pais deitaram-se às cinco da manhã, ninguém se levantou antes do meio-dia. Nestes dias feriados vamos sempre ao Restaurante dos Capristanos (ficamos empanturrados só com os hors d’oeuvre) ou à Pensão Portugal (o melhor Bacalhau à Brás da Península Ibérica).


A noite de Terça-Feira é tradicionalmente o “Baile Trapalhão”. Toda a gente se mascarou com o que tinha mais à mão. Até eu. Proibidas neste dia as máscaras a preceito, de princesa ou arlequim, abundavam saltimbancos, vagabundos, cowboys maltrapilhos e palhaços pobres. Alguns pareciam vestir sacos de roupa suja! É um baile muito animado no Casino, mas com menos gente do que no Sábado ou na Segunda-feira. Mais tarde saímos e, como estávamos todos mascarados, deixaram-nos entrar sem pagar nos Pimpões e Columbófila. Claro que tivemos que mostrar primeiro aos porteiros quem éramos. Lá dentro, mesmo mascarados, parece que todos descobriram que éramos “intrusos”. Eram bailes claramente familiares, em que todos se conheciam. Estavam mais animados e cheios os Pimpões.


No fim da noite descemos ao Lisbonense para a tradicional Volta à Rainha. No final do Baile os músicos da orquestra pegaram cada um num instrumento e, encabeçados pelo trompetista ou saxofonista (não me lembro bem…), foram seguidos por todos os foliões do Lisbonense. Ou, pelo menos, por aqueles que estavam em condições de andar! Foi um gozo do caneco. Muitos trabalhadores já tomavam o mata-bicho, ali no Café Rosa, e olhavam-nos com ar reprovador.


Foi o final perfeito para mais um Carnaval. Apesar da enceradora às dez da manhã, foi bestial! Nem quero acreditar que amanhã tenho Ciências logo às oito e meia da manhã. E a professora deve estar com os azeites, não acredito que se tenha divertido nestes dias…
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COMENTÁRIOS
2008-04-06
António disse:
Podia quase ser o meu diário ... só que eu não escrevi nenhum ... tenho agora pena (…) além de que eu não conhecia assim tanta gente no Casino.(...) e entre janeiro e o Carnaval ...não havia nada ?

2008-04-06
Isabel disse:
Quem escreveu este Diário possivelmente estaria no final da adolescência a ver pela forma consciente como escrevia! É sempre giro saber como as situações foram vividas pelo ponto de vista dos rapazes. Só desejo que haja mais folhas legíveis nesse diário, muitas mais!
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2008-04-07
João Santos disse:
(…) mas claro que me deu prazer ler. Só não foi explicado (ou eu não percebi) porque é que não tem o nome do autor?
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2008-04-07
Isabel Silva disse:
Mesmo q o diario esteja estragado não se pode saber a data e de qem o escreveu? Gostava de saber a ver se conheço, estive no colégio até 68 mas ja n fiz ai 7º ano. Bjos a todos.
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2008-04-07
A minha reacção ao Diário (Conceição Caixinha):
Deviam ter sido muito divertidos esses dias de carnaval! Meu Deus o que eu perdi pois tenho que admitir com uma certa mágoa que só me lembro de ter ouvido contar...porque os meus pais não me permitiam tomar parte neste tipo de festividades! Pensei que me tinha compensado mais tarde...mas ao ler o diário do nosso enigmático colega tenho que concluir que a compensação não foi proporcional!! Continuo intrigada com o motivo da escolha pelo anonimato do autor! Será que é ministro?!
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2008-04-07
Ex.Alunos.Ero disse.
O autor não é exactamente anónimo. É um aluno do ERO, que está incontactável após problemas familiares (que conheço mal e não quero comentar). A sua irmã, que me entregou o diário (ou parte dele, não se percebe bem), só permite a revelação do nome com autorização do próprio. Pode ser que ele leia e se identifique. Mas penso que as vivências, os acontecimentos, os hábitos e os amigos o denunciarão, pelo menos perante os colegas de turma.
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2008-04-09
Jorge disse:
Não havia assim tantos rapazes na alinea F , já que tinha ciências, que fossem ao casino e a casa dos Castros (não me lembro de nenhuns Coutos) a saltar de uns para outros, nesses anos .....e essa história do anonimato está mal contada ....
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2008-04-12
Ana Nascimento disse:
Tenho lido as páginas do diário com muito agrado, até porque não era muito vulgar que um rapaz o tivesse, normalmente éramos nós raparigas que escrevíamos. Está muito giro, revi-me na descrição da ronda pelos bailes de Carnaval…..
Realmente estou intrigada …de quem será ?
Olha Jorge concordo contigo…. Não existiam Coutos mas sim os manos Castro…. As festas na Garagem deles eram sempre divertidas, a avó a D. Felismina era uma querida que adorava ter os amigos dos netos à sua volta….sem dúvida que também foi um dos pontos de encontro da juventude das Caldas.
Muitas tardes de sábado passei nessa garagem ensinando a dançar os “piquenos” do grupo da minha irmã Luisa…. será que ele é um deles? Também não consigo descobrir…lá teremos que continuar a aguardar que ele saia do anonimato.
Ana
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15-04-2008
Rui Hipólito disse:
Fico com a ideia que o “especialista” dos anos 60 é o autor, cá para mim foi o “Mijinhas” que escreveu este diário... .
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15-04-2005
Luisa disse:
Esta Luisa não é nenhuma Luisa!!! Os nomes foram concerteza trocados (o J.J. não responde, já perguntei).....rapaz da alínea F que acabou o Colégio em 1968 ou 1969 que escreveu um diário não pode haver assim muitos... a rapaziada desse tempo se pensar um bocado descobre de certeza!!!

Notas e Comentários a "Diário" - Carnaval"

A data deste diário foi calculada entre 1966 e 1970, baseando-me nos elementos constantes na página anteriormente publicada, que podem consultar em DIÁRIO - 9 de Janeiro . Não vejo aqui motivos para alterar essa estimativa.
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O preço da gasolina (se o texto estiver correcto, não confirmei este dado) seria entre 3 e 4 escudos o litro nessa altura. Parece muito barato, mas com esse dinheiro comprava-se 1 maço de tabaco (hoje 3€), 4 jornais (hoje 3€ ou mais), pagava-se 1/900 do ordenado de um professor (hoje 1/1200). Seria a gasolina mais barata que hoje? Não parece, mas deixo a pergunta aos economistas.

Tal como está escrito a guerra colonial estava na cabeça de todos mas era evitada nas conversas públicas. Todos conheciam alguém que lutava nas colónias, todos conheciam famílias enlutadas, jovens feridos e traumatizados. Lembro-me de muitas conversas de adultos, mas poucas com colegas no Colégio.

Ao longo dos meus 9 anos no ERO só um professor defendeu abertamente, numa aula, a guerra colonial. Para meu espanto (e indignação do professor), no incidente em que me vi envolvido a seguir, a hierarquia do estabelecimento não foi nada clara no apoio a essa sua tomada de posição. Um dia posso contar essa estória.

Beatles, Rolling Stones e The Who eram dos mais importantes grupos britânicos, que transferiram o centro do Pop/Rock (em 1964/66) dos EUA para Inglaterra. O enorme êxito dos Beatles e seus seguidores na América teve até um nome: “ British Invasion” .

Sobre as músicas que tocaram no Baile:
“Pictures of Lilly”, de Pete Townshend, é uma canção que conta a estória de um adolescente obcecado pelas fotografias de uma pin-up que lhe enchem o quarto (e as noites) e que entra em depressão quando descobre que as imagens são dos anos 20 e o modelo já morreu. As referências explícitas à masturbação, a consequente proibição na maior parte das rádios e um arranjo musical excitante garantiram-lhe o sucesso.
“Whiter Shade Of Pale”, embora assinada por Gary Brooker, líder dos Procol Harum, foi composta realmente por J S Bach: a melodia é da sua “Ária para a 4ª Corda” e o famoso arranjo de órgão é decalcado da “Suite nº 3 em Ré Maior “. O êxito foi tão estrondoso (ainda hoje é um retrato e símbolo do Summer Of Love) que impediu a extraordinária obra posterior dos Procol Harum de ter a visibilidade e reconhecimento que merecia. (A melodia já tinha sido roubada no ano anterior em “When A Man Loves A Woman”)
Em 1967 a editora Decca decidiu publicitar um novo método de gravação Stereo contratando um grupo de Blues e meia dúzia de músicos de formação clássica para gravar uma versão “moderna” da Sinfonia do Novo Mundo, de Dvorak. Incapazes de tal cometimento, os Moody Blues gravaram uma sequência de canções que acompanhavam o decorrer do dia (Dawn, Morning, etc). Como só havia seis composições, e era preciso usar os outros músicos, acrescentaram interlúdios musicais vagamente “clássicos” e estenderam a última por quase 7 minutos. Apesar dessa duração, invulgar na época, “Nights In White Satin” foi um êxito de crítica e vendas mundial (excepto nos EUA onde rádio nenhuma ficava tanto tempo sem publicidade. Só quase dez anos depois lá foi um sucesso).

Lembro-me do César da Zaira servir ceias fora-de-horas nas grandes noites do Casino. Por vezes iam embrulhadas para lá, outras os comensais subiam à Zaira. A coisa prolongava-se e lá vinha um PSP com a multa por estar aberto fora do horário afixado. O lucro da refeição, normalmente bem regada, compensava esse “custo extra”.

A questão dos namoros entre pessoas do ERO e da Escola ser muito raro, parece-me exagerado no texto. Havendo vários casais “mistos” hoje nas Caldas, muito mais namorados haveria na altura. Aguardamos um depoimento, já prometido, sobre isso.

Também me parece que os Capristanos e a Pensão Portugal eram, efectivamente, os melhores restaurantes da época. Terá o autor esquecido algum?

Ao contrário do que se pode perceber do texto, a Volta à Rainha era uma tradição não só no Carnaval mas também na passagem de Ano e no 15 de Agosto, pelo menos.