ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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À JANELA DOS ANOS SESSENTA


Guida Carvalho da Silva
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ANOS SESSENTA (outros tempos)
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Quando eu tinha 15 anos, terminado o quinto ano, deixei o colégio e vim viver para Lisboa.
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O meu pai tinha tido um AVC, o meu irmão mais velho ia entrar na universidade e a minha mãe achou por bem agarrar nos trapos e voltar com todos nós para junto dos familiares.
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Não sei se terá sido uma decisão fácil para ela, eu não fui consultada, só sei que lá rumámos a Lisboa, onde eu vim terminar o liceu, num liceu só de raparigas, um liceu onde os rapazes estavam expressamente proibidos de entrar, ou mesmo de se aproximarem: menino que fosse buscar menina, tinha de a esperar pacientemente a mais de 50 metros da porta de entrada! Acabar o liceu e entrar na faculdade, com novos colegas, novas amizades, as festas dançantes nos sábados à tarde, as primeiras saídas à noite, as greves de estudantes com a consciencialização do Maio de 68 a chegar também às universidades portuguesas … “a pulga salta, a pulga grita, ora vai-te embora oh pulga fascista” ...


... o início do peace brother, peace e do flower power … os hippies com “if you’re going to S. Francisco, be sure to wear some flowers in your hair” …a partida do meu irmão Eduardo para Paris... os cursos de verão em Londres para aperfeiçoar o inglês... Para mim, a segunda metade dos anos sessenta foi um verdadeiro turbilhão de emoções, que acabou por apagar qualquer resto de saudade mais teimosa que eu pudesse ainda sentir por tudo e por todos os que tinham ficado para trás, em S Martinho do Porto ou nas Caldas da Rainha.
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Todos, sem excepção, acabaram guardados no fundo da minha memória, num canto meio desarrumado (e bem fechado à chave, por via das dúvidas!).
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E por lá teriam ficado para sempre bem guardados, não fosse o Blog do ERO , com os seus textos, fotos e links, ter começado a remexer nesse passado já tão esquecido!
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Oh maravilha das maravilhas…. aberta a caixa de Pandora., as recordações são mais que muitas a ficam cada vez mais claras: caras, lugares , situações, nomes e até cheiros e sabores de que nunca mais me tinha lembrado.

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A casa na Rua do Cinema, em S Martinho do Porto, a pacata vila piscatória para onde nos tínhamos mudado em meados dos anos cinquenta, as casas vazias no inverno numa terra que todos os verões se travestia de estância balnear da moda, trazendo não só os banhistas alfacinhas e caldenses mas também (já nessa altura) os turistas estrangeiros. Todos tinham em comum o facto de me parecerem estar quase sempre alegres, despreocupados e espantosamente divertidos.
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Cada verão as esplanadas da rua dos cafés e a praia se animavam e se enchiam de vida e de cor e cada verão eu ia aprendendo a nadar melhor, a andar de bicicleta mais rápido e cada verão fazia passeatas no cais de S.Martinho, via os barcos, a baía, comprava os barquilhos , pevides, bolas de Berlim, entrava nos concursos das construções na areia e caminhava até Salir, com o Eduardo e
os amigos dele, só para os ver pescar taínhas.
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Eu, que jogava ao prego ou ao ringue na praia e nadava até à velha jangada de madeira (que parecia sempre ser longe como o diabo), eu, que descia a rebolar as dunas de Salir à velocidade da luz para vir aterrar cá em baixo na ribeira, mais nódoa negra, menos nódoa negra, eu, que sonhava acordada no quintal da casa da rua do Cinema e coleccionava as fotografias dos Beatles que vinham nas pastilhas elásticas e ouvia Les Chats Sauvages “quand viens la fin de l´eté sur la plage il faut alors se quitter”… Cliff Richards… The Shadows … Silvie Vartan… Françoise Hardy… e, claro está, The Beatles …”love, love me do… you know I love you”… ah, o meu querido gira discos portátil , um Philips azul e beije, prenda por ter concluído o meu segundo ou terceiro ano, já nem me lembrava dele, o que lhe terá acontecido? Em que sótão, em que casa, em que prateleira, terá ficado arrumado e esquecido…
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Lembro-me, isso sim, de surripiar sempre «O Cavaleir Andante» ao meu irmão Eduardo, para poder ler as aventuras do Príncipe Valente, lembro-me de ficar estendida na relva do jardim, ou no areal da praia, absorta na leitura dos livros que invariavelmente ou eram da «Biblioteca das Raparigas» ou da «Biblioteca dos Rapazes» geralmente oferecidos pela titi, ou pela vovó, eu que via sempre o «Ivanhoe», o «Robin Hood» ou o «Get Smart» na TV (a preto e branco, tudo a preto e branco) e imaginava cavaleiros andantes em terras exóticas, enquanto esperava sem pressas por cada regresso às aulas, antecipando o reencontro com as amigas e os amigos do colégio.
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Nessa época cada viagem no comboio da linha do Oeste era uma pequena aventura, todos os dias o mesmo grupo de adolescentes brincalhões e despreocupados viajava de S.Martinho do Porto às Caldas da Rainha, em menos de 15 minutos (com direito a paragem no Bouro).
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E eis que, sem ser convidadas, começam a chegar as memórias do colégio: desde as aulas de ginástica onde as meninas se pavoneavam naquelas inestéticas saias de sarja branca que éramos obrigadas a vestir por cima dos calções (coisas da época) até aos napperons em ponto cruz nas aulas de Lavores Femininos da Dona Dora …
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Ui, e tal qual coelho tirado da cartola, aparecem desordenadas imagens das aulas com o professor Azevedo, o terror da matemática, a Dra Maria do Rosário, que eu achava tão elegante com os seus lenços sobre os cabelos… a Dra Irene “quand trois poules vont aux champs, la premiere marche devant”.... os directores: o tolerante e sorridente Padre António Emílio e o sisudo e inflexível (ui, que medo… ) Padre Albino!
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O padre Renato, que logo no primeiro ano, para minha grande desilusão, teve a bondade de me informar que eu desafinava demais, por isso o melhor seria ficar de boca fechada nas suas aulas de Canto Coral! Foram cinco os anos que eu passei no ERO, do primeiro ao quinto, de sessenta a sessenta e cinco e a cada novo ano lectivo o padre Renato ,sem sucesso, a tentar hipnotizar -me durante o recreio (dizia ele que o insucesso era derivado ao facto das solas dos meus sapatos serem de borracha …) e a cada novo ano lectivo eu voltava a tentar cantar e voltava a ser devidamente informada que desafinava demais por isso tinha de ficar fora do coro!
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A amiga irreverente, a Lena Figueira, que um dia, sem pré aviso, de morena passou a loura amarelo palha, num abrir e fechar de olhos, escandalizando a moral caldense mais puritana da época, a Ana Nascimento e o Carrilho , que tinham sempre boas notas e sabiam a matéria toda na ponta da língua (a Ana menina sempre bem comportada, o Carrilho nem tanto) e, claro está, as minhas duas companheiras nas viagens de comboio a Isabel Veiga (a verdadeira espalha brasas... ) e a Graciete (tão Françoise Hardy!).
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O meu irmão mais velho, o Eduardo Artur (1948/2003) , com todos os seus colegas de turma e o fascínio que os mais velhos exerciam invariavelmente sobre os mais novos, os famosos passeios ao parque durante a hora do almoço, o subir bem devagar a ladeira até ao colégio em amenas cavaqueiras, entre risadas e brincadeiras, os recreios onde as miúdas saltavam à corda, jogavam à macaca e espreitavam timidamente para o recreio dos rapazes… os «flirts» à distância…
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Cada novo ano lectivo as melhores amigas se entretinham em novas confidências e mais zanga menos zanga, continuavam a ser as melhores amigas e os rapazes, ah les garçons, esses eram infalivelmente umas verdadeiras pestes, que durante as aulas de físico-química, no anfiteatro, sopravam pequenas bolas de papel pelos tubos vazios das esferográficas, na tentativa de as fazer aterrar nos cabelos das meninas.
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Foram anos muito bons , esses anos em que eu frequentei o ERO. E, de repente, ooopppsss, bate a saudade!
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Hoje, aqui e agora, penso com alguma tristeza na Nani, essa colega que recentemente foi ao encontro dos outros que entretanto também já nos deixaram.
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Tantos anos passados, tantos anos vividos, tão longe que estão as nossas adolescências e agora unidos por um blog!
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Guida CS

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STANDING TALL...

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«Quem já tem o livro de Inglês?»
Muitos braços se levantam, mais de meia turma. Era a vantagem de já ter o material logo na primeira aula. «Guardem o livro, não vão precisar dele. Eu sou o livro!» Gosto. E a seguir, outra pergunta: «Quem já tem a gramática?» Ainda muitos braços. «Guardem a gramática, não vão precisar dela. Eu sou a gramática!» Desapontante? Não, gosto ainda mais, mas será a sério? Em Português e em Francês temos livro e gramática -- em Inglês não é preciso!? «Quem já tem dicionário?» Ainda mais braços -- afinal o dicionário é peça insubstituível, ainda mais que a gramática.
«Guardem o dicionário, não vão precisar dele. Eu sou o dicionário!» Tanto gozo a sério já causa receio -- parece que isto não vai ser mais do mesmo.
Não foi, o Dr. Luís era, como ele dizia, de 18s e de 8s. E lá começa a escrever no quadro a sua primeira «sentence»: «How are you? I am all right, thank you». E mais quatro sentences. Treinar a pronúncia, repetir a rodar pela sala de aula. Dia seguinte, primeira coisa, na ponta da língua: tudo. O Dr. Luís era diferente, a disciplina de Inglês era diferente, e era disruptiva para com as outras disciplinas.
Isto aconteceu e hoje, como acontece com tantas outras coisas, parece inacreditável. Onde estava o espartilho, a avaliação do professor, a certificação, o controlo de conteúdos e métodos? Naturalmente, havia quem não concordasse com o estilo do Dr. Luís, mesmo entre os outros professores. Como ousa ele fazer isto? Em surdina as perguntas seriam talvez mais assim, em linguagem de hoje, Can he get away with it? Can he pull it off?
É uma história nossa que vale a pena recordar, aconteceu mesmo e com sucesso -- tremendos sucessos dos alunos ERO nos exames nacionais.
E eu, muitos anos depois, «The weather is getting milder and milder» -- a impressionar os Américas.
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Tinha dado o primeiro toque. Saía da Sala de Professores e caminhava na nossa direcção, para a sala a Este na ponta do corredor, a Dra. Cândida. Senhora alta, fina, dossier no braço esquerdo, um pouco contra o peito, aproximava-se. Era uma presença agradável -- uma professora nova, elegante, num estilo sóbrio e clássico. Bonita, de pernas finas, feições finas, tez clara, cara esguia mas feminina, cabelo puxado para cima, pescoço longo, visível apesar do lenço, dentes em arcada esguia e perfeita, sorriso natural. Uma grande serenidade, um olhar calmo mas não triste, olhos serenamente vivos, castanhos claros e límpidos, abertos, sem óculos. Voz clara, dicção sempre correcta, mas tolerante (não é portenha, diz velhice com e fechado mas aceita aberto). Não há gritos nem histerias. Serenidade e presença. Uma presença de grande classe, numa classe de miúdos rabinos. «Comment allez-vous, Madame?» dizem os meus colegas logo à entrada da segunda aula de Francês -- o Filipe (do Bom Sucesso) é o mais ilustre. Na aula seguinte, já está a Dra. Cândida com os três eee de «élève». Há muito mais aqui ...
A Dra. Cândida foi talvez a melhor professora que eu tive. Muito gostaria de a poder voltar a encontrar e agradecer-lhe o muito que fez: ensinar bem, procurar incutir formas de disciplina, e acima de tudo mostrar logo no primeiro ano que ninguém estava abaixo de ninguém, e que ela era justa, disciplinante e que nos compreendia e apreciava. [JJ, não te lembras de como ela apreciava o teu especial jeito a adjectivar e adverbiar?]
Sei que lhe dei algumas alegrias, que recebi alguns prémios (livros), que certamente lhe demonstrei a minha afeição pelo respeito que lhe tinha, pela atenção como a escutava e olhava e como me sentia bem nas suas aulas. Aulas chatas? Só uma, a Francês, e como foi só uma não dá para esquecer -- a chamada ao Jorge Pedro, um craque, não está a correr bem (para grande consternação dela) e quando me chama a seguir eu sei que a minha também não vai correr bem. Não corre, para uma talvez ainda maior consternação dela e alguma dissimulação de misérias óbvias. [Eu tinha sido chamado no dia anterior e tinha inferido que não iria ser chamado no dia seguinte; e a lição era bem difícil, sobre as galinhas e os Lenoir].
Exigente, sem excessos, tolerante mas sem tolerância para excessos, nem sempre recebeu a apreciação que merecia da nossa parte. Entregava-se ao ensino, e a nós para além do mero ensino, com dedicação e com entusiasmo, como uma grande professora, que de facto era. Standing tall, mas sem olhar por cima.
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Luis Marcelino
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COMENTÁRIOS
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Tó Zé Hipólito disse:
Bravo Luis! Realmente o espirito observador e a atenção nos pormenores sempre foram teus apanágios. Este retrato detalhado da Dra. vem ao encontro de uma recordação das famosas sabatinas das aulas de geografia do Dr. Lopes em que uma das perguntas feitas pelo rapazinho em causa, era "o que é a standardização?"
Claro que não lembro quem era a vitima ou, generalizando, as vitimas pois ninguém da turma sabia a resposta. O prof., depois de uma rara (nele) prelecção sobre a qualidade da pergunta, motivada pela não especificação no livro de geografia do significado que tinha, argumento usado por alguém da turma para amenizar a falha, perguntou como era que o "génio" sabia. Simplesmente foi ao dicionário. Seguiu-se o post scriptum da prelecção, com o elogio das qualidades de inteligencia e blablabla... do L.A. Tudo isto num dos raros longos momentos de silencio que a nossa turma sempre foi parca.
Fico a espera de mais momentos que tenhas guardados no arquivo da tua "malinha".
AJH
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João Jales disse:
Magnífico texto, mostrando, se tal fosse necessário, que a "malta da F" também sabe escrever (e bem).
Várias satisfações pessoais para mim:
- o Luis António foi meu colega de turma e amigo durante os sete anos do liceu;
- esta é a sua primeira colaboração;
- o seu depoimento corrobora a impressão e opinião que eu aqui exprimi sobre estes dois excelentes professores que tivémos o privilégio de ter no Colégio. ( Podem ler ou reler OS PROFESSORES QUE VIERAM DO FRIO ) .
Não é, aparentemente, uma memória consensual, mas as memórias não têm que o ser.
E sim, respondendo à pergunta que ele faz, lembro-me de ser um bom aluno que a Cândida apreciava, mas um bom aluno apreciado por um bom professor dificilmente é uma estória interessante...
Um abraço para o autor , e o desejo que volte a escrever o mais depressa possível. JJ
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Ana disse...
Gostei muito de ler este depoimento que também acho muito bem escrito,quem diria que debaixo do cientista estava um escritor?
A minha memória dos dois professores é igualmente muito favorável nem desconfiava que houvesse opiniões contrárias;li o teu texto sobre eles mas não os comentários feitos depois por falta de tempo.
Parabéns ao Luis António.Ana
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AntMor disse...
As fotografias são fantásticas,o Flores e o Malinha escrevem muito bem,onde vai parar este blogue???E o que é feito do Tó Zé Neto que parece uma estrela do surf dos anos 60???O Luis e a Cândida eram Grandes professores,assino essa declaração.

A SUPER

Lembrada esta semana no nosso Blog a "Super" merece sem dúvida ser integrada na série "Professores e Personalidades". Grande professora de História, não tanto de Filosofia já que as dúvidas e interrogações sem resposta lhe eram estranhas e incómodas. Os apontamentos de que o Zequinha fala no texto abaixo, publicado no livro "Álbum de Figuras Caldenses 1990/1991" de Vasco Trancoso, eram bem o exemplo disso, um amontoado de certezas e afirmações categóricas para nós decorarmos, uma sui generis noção de Filosofia. Curiosamente aconteceu comigo o mesmo que com ele, tive sempre 14 como nota, antes e depois de saber antecipadamente os testes...
Acrescento, apenas porque ele o não recorda, que a Dra Deolinda colaborou em 1987 comigo e com o Pereira da Silva ( o "Sr das Cassetes", como ela lhe chamava nas aulas) num programa da Rádio Margem onde, aos Sábados à tarde , mostrava, falando da nossa região, aquilo de que realmente gostava e sabia: História.
É com saudade desse convívio que deixo aqui a sua recordação.
A minha “Super” amiga


Licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras de Coimbra em 1945, tendo defendido como tese “ A acção da Rainha D. Leonor na Vida Portuguesa”.
Especializada como Bibliotecária Arquivista em 1947, investigou na Torre do Tombo até 1952.
Colaborou com artigos de investigação sobre o concelho das Caldas da Rainha no “Boletim dos Bibliotecários”.
Exerceu a docência em disciplinas de História e Filosofia como Professora Efectiva do Ensino Secundário.
Havia para muitos da minha geração, os que prosseguindo estudos se aventuravam pelos segundo e terceiro ciclos do ensino secundário, técnico ou liceal, um obstáculo que uma quase lenda fazia deslizar pelo tempo e que se dava pelo nome simples de Doutora Deolinda ou mais comummente de “Super”. O seu campo de minas era para todos a História e para alguns a Filosofia. Aí se dariam os confrontos em que mortos e feridos a “chumbo” coleccionariam os eventos que dariam continuidade à lenda passando-a a vindouros.
Filha única, Deolinda Ribeiro estaria por certo destinada à continuação duma casa de lavoura se fosse homem. Sendo mulher quis assumir esse e o seu verdadeiro destino: o da inquietação perante os factos e os seus porquês. Ambos cumpriu.
Aqui reside o carácter extraordinário desta mulher, impregnada de terra e de saber, cuja força à natureza deve e à natureza sempre quis pagar, dedicando-se-lhe no trato e amanho com o mesmo entusiasmo que às coisas da sua real vocação, os estudos e investigação histórica, toda a vida dedicou. A sua forma de estar na vida, com simplicidade e rigor aprendeu-a, por certo, nas muitas horas passadas ao cheiro da terra aberta para as sementes e no segredo de como nascem as coisas, na ordem que a mão lhes dá e no favor da natureza.
Conheci-lhe o segredo de duas paixões: D. João II e os automóveis. Estes eram o seu calcanhar de Aquiles e uma “deixa” bem metida em qualquer aula permitiam-nos, uns cinco ou dez minutos de conversa outra que não de História ou Filosofia. O seu Cortina branco era um modelo que naquele tempo tinha fama de “bomba” e o Tomás Baptista, grande entusiasta e especialista dos desportos motorizados, era por norma o interlocutor mais activo espevitando-lhe o entusiasmo.
Estes faits-divers tinham particular interesse e eficácia por altura da Teoria do Conhecimento, capítulo da Filosofia que Deolinda Ribeiro ministrava “por conta própria”através duns famosos apontamentos (famosos no distrito e mesmo em Santarém), só que os apontamentos eram ditados à velocidade do dizer e o castigo durava um período inteiro. Memoráveis aulas para os antebraços que, sacrificados , pelo menos no meu caso, impunham ao meu cérebro, por reflexo condicionado, obviamente, a proibição quase absoluta de se debruçar sobre tais e assim transmitidas matérias.
A Dra. Deolinda tinha uma didáctica muito sua e baseada, quase sempre, numa sinopse introdutória que funcionava como esqueleto da dissertação que salpicava com o seu vasto conhecimento dos episódios paralelos e com os quais afastava a monotonia em que, pelo menos nas matérias filosóficas, facilmente se poderia cair. Natureza e método conjugavam-se, porém, na maneira como interpretava e impunha a disciplina, assunto em que o seu lema me parece sempre ter sido “as coisas como são, sempre foram e serão”.
A minha irreverência desses anos sempre me antagonizou à Deolinda Ribeiro de uma forma intensa mas leal, existindo até um episodio, que só agora ela ficará a conhecer, que o pode retratar. A partir de determinada altura do 7º ano, salvo erro, descobrimos que as revisões antes dos pontos eram feitas com algumas perguntas apontadas num caderninho que ela guardava na sua pasta de cabedal. As sextas feiras a aula de Filosofia era de duas horas seguidas, logo depois do almoço. Durante o intervalo, os professores iam até a sua sala e nós descíamos ao pátio, sendo interdita a permanência nos corredores. Iludida a “segurança” (a cargo dos contínuos Ulisses e Zé Caixinha) um grupo “comando” e voluntário em que eu estava obviamente incluído, resolveu consultar o misterioso caderninho. O espanto e alegria anularam o tremer das pernas que o risco justificava. Em caligrafia bem conhecida o que ali se achava reproduzido era o texto integral do próprio teste.
A Filosofia passava a ter para nós um novo aliciante. Conjugando um bom comportamento nas aulas com a demonstração de um renovado interesse pelas questões postas na aula, facilmente se justificariam os resultados que doravante iriam aparecer, pelo menos em quanto a indiscrição não viesse a ser descoberta e o esquema pudesse funcionar. Funcionou duas ou três vezes que me lembre. Nunca consegui com ele beneficiar e nas entregas dos pontos, à minha vez o anuncio continuou a ser o mesmo de sempre : “Senhor Pereira da Silva… 10!!! Ó homem já era altura de começares a estudar alguma coisa”. É que para mim o difícil era não querer as questões ao contrário do que eram postas e as nossas discussões acabavam, por vezes, com o meu pedido, em antecipação ao seu veredicto, abandono da sala, alias sempre concedido.
Foi sem dúvida este capital de lealdade e respeito mútuo construído durante os anos em que nos aturámos que se transformou no prazer que ambos sentimos quando, anos passados, nos reencontrámos como colegas de ofício na Bordalo Pinheiro. E foi no convívio do trabalho, e fora dele, que construímos uma grande amizade que me levou a descoberta e ao reconhecimento dos “porquês” da sua pedagogia e da sua didáctica. Com a experiência de uns bons anos de ensino já me deram sou obrigado a reconhecer que a minha “Super” amiga tinha razão!!!
E a emoção que todos sentimos aquando da sua despedida foi uma justa homenagem a carreira de uma exemplar e à vida de uma mulher simples que sempre soube manter os princípios como superiores guardiães da sua integridade moral e intelectual. E nesta sua lição eu não cabulei.

José Manuel Pereira da Silva

Desenho e texto extraídos do livro de Vasco Trancoso
"ÁLBUM DE FIGURAS CALDENSES 1990/1991" , editado em 1992

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Esta é uma "repescagem", este post apareceu pela primeira vez no Blog em Dezembro de 2007, mas pensei que fazia todo o sentido integrá-lo na actual série.

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Comentários:

João Ramos Franco disse...
“E nesta sua lição eu não cabulei.” Após o que li, teria piada dizeres que tinhas cabulado. Desculpa a brincadeira, gostei do que escreveste, a carga humana da visão passado/presente, tem para mim, um sentido muito especial…
Um abraço João Ramos Franco
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18 Dezembro, 2007
Miguel B M disse:
Foi com muita saudade que li o artigo sobre a Super. É pena ela já não poder lê-lo pois certamente ficaria uma fã do blogue e certamente uma assídua colaboradora. Eu era muito seu amigo e até foi por causa dela que uma vez fui corrido de uma aula de Física. Era habitual ela fazer uma perscrutação digital à sua cavidade nasal. Quando encontrava um corpo estranho mirava-o e remirava-o, avaliava as suas características físicas (consistência, viscosidade, densidade, elasticidade) e depois decidia degluti-lo ou deitá-lo para um lenço enrodilhado que sempre a acompanhava. Era para esse mesmo lenço que ela impulsionava estrepitosamente um volumoso escarro ( atenção para que não haja dúvidas, este termo é técnico em termos de pneumologia ).Ora eu tinha como desiderato imitar nas aulas esse mesmo impulso .Como os serviços de inteligência da turma já tinham alertado o corpo docente para este facto, ainda eu estava a começar e já o Jaime Serafim me estava a expulsar sem a mínima hesitação pois obviamente já sabia o que se passava e quem era o prevaricador. Este comentário serve ainda para confirmar não só o que o ZCFaria muito bem escreveu mas também para reforçar aquilo que eu próprio disse acerca desse mesmo artigo. Miguel B M

Dra Alda Lopes (Foto e Versos, 1963)









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No artigo anterior prometemos revelar um famoso telefonema... Foi assim:

Durante uma aula de Geografia, bateram à porta; era o Sr. Trovoada, o contínuo, que vinha chamá-la ao telefone para atender uma chamada urgente. A Manela Carvalheiro, a poetisa da turma, teve uma inspiração momentânea e fez uns versos:

Drª Maria Alda Lopes


Truz,Truz,faz o Trovoada
Oh,faça favor de entrar.
D. Alda venha apressada
Para ao telefone falar

Passa o tempo e cá na aula
A parodeira aumenta
Eis a Senhora na sala,
Já acabou a tormenta

Sentada no cadeirão
As franjas puxa e destorça
Quem seria o malandrão
Por quem tanto se esforça

Seria seu namorado?
Ouviu-se alguém alvitrar
Temos casamento marcado,
Trate de nos convidar.

(MANUELA CARVALHEIRO , 1963)




Nesta entrevista, foi-nos revelado o segredo (ao fim de tantos anos!!!). Realmente, o telefonema era urgente e preocupante: era a então futura cunhada a informá-la de que o namorado estava em plena operação ao apêndice, no Hospital da Estrela. Apesar da situação, a aula continuou como se nada de grave lhe tivesse sido comunicado. Quem foi a musa que segredou à Manela?



Nesta história só não há um final 100% feliz porque ninguém daquela turma foi convidado para o casamento…
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Júlia Ribeiro
Isabel V. P
Mélita Teotónio

Maria Alda Lopes respondeu:

Fizeram-me voltar à juventude enquanto vocês voltaram à adolescência!

Crescemos juntos, naqueles 2 anos do ERO, eu e vocês, os meus primeiros alunos, que eram alegres, simpáticos, bem educados e cumpridores (verdade!).

Esse anbiente devia-se também à orientação pedagógica e humana do Padre António Emídio sob cuja "batuta" eu percebi que podia, realmente, ser feliz naquela profissão. E sei do que falo porque tive, a seguir, variadíssimos termos de comparação.

Agradeço à Júlia, que me "achou" ao fim de tantos anos e às outras meninas que escreveram coisas, para mim, um pouco embaraçosas. E ao João Serra que sabe redigir em "íssima" e nas outras terminações todas.

Permitam-me estes reencontros tão saborosos e reconfortantes mas que me fizeram, até, reflectir sobre o significado da minha vida, numa fase em que eu pensava que já tinha reflectido tudo!

Obrigada a todos, aos que nomeei e aos outros todos - aos que foram meus alunos no ERO e a todos os que depois vieram, nos trinta e tal anos de trabalho que se seguiram. Foram eles que permitiram que eu me tornasse naquilo que sou, embora eu não saiba muito bem o que isso significa.

E a propósito ... vocês vão continuar a tratar-me, respeitosamente, por Dr.ª?

Maria Alda

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COMENTÁRIOS

JJ disse:
A fotografia de 1963 foi-nos enviada por uma antiga aluna da Drª Alda, que lha ofereceu nesse ano. Aguardo que seja ela a dizer em que circunstâncias.
A 2ª foto é de Julho de 2008, o casal quarenta e cinco anos depois. Quem perdeu o casamento, pode ser que vá à festa das bodas de ouro…

Manuela Gama Vieira disse...
Percebo agora os superlativos usados por um ex-aluno da Dr.ª Alda ao recordar a sua beleza. Que bonita, mesmo!
Reparei nas suas mãos, na fotografia do jantar, que paz e tranquilidade transmitem...Não admira, por isso, a calma com que se apresentou aos seus alunos depois de um telefonema que, afinal, não era do seu esforçado namorado.
Cabecinhas "traquinas", as das meninas...
Aproveito para saudar a Manuela, que mesmo loira...reconheci e a Isabel Vieira Pereira que está como há 40 anos atrás!
A todos, um abraço à ERO
!

Júlia Ribeiro disse:
Naquela tarde de Abril 2008,quando me desloquei ao Bombarral, para a dita" entrevista" à Dr.ª Alda, fui apresentada ao seu marido, Dr.Fernando Mouga. Quase, desde que me casei, ouço falar de tão ilustre médico do Bombarral mas não tinha tido ainda o prazer de o conhecer nem sequer sabia como seria o autor.... raptor.... responsável, do desaparecimento de uma grande professora tão amiga dos seus alunos. Pensei que o iria "trucidar" por tal "malvadez"!!!!!! NÂO, NUNCA, estou a brincar, pelo contrário, deparei-me com um cavalheiro extremamente simpático e com uma tal simplicidade que nesse mesmo dia começou a minha admiração por ele, que vai aumentando à medida que nos vamos reunindo nestes fabulosos encontros "surpresa" em que, como diz a São Cx, faço a festa, deito os foguetes , mas... ainda vou apanhar as canas!!!
Pegando na última quadra dos versos, e numa brilhante ideia do Jales, daqui a poucos anos teremos as bodas de ouro e terá que haver uma surpresa....deixo a dica!!!!
Peço desculpa ao Dr. Mouga por esta brincadeira que permita-me dizê-lo, é fruto do "à vontade" que provoca em mim.
Já agora, atrevo-me a perguntar aos colegas: Não fazem um belo par ?
Um beijinho
Júlia R

João Ramos Franco disse...
Continuo a ver com alegria o desfilar de Professores, que não foram os meus. Uma leve citação à Dra. Maria do Rosário Leal, de quem fui aluno e amigo (ainda de casa de seus Pais), fez-me ir ao passado e continuar a ler com atenção as palavras que dedicam aos Vossos Professores e agrada-me o valor que lhes dão.
João Ramos Franco

Guida Roberto Santos disse:
Olá João
Vocês são muito rápidos nestas coisas do blog e eu nem sempre venho aqui ao computador. Passam-se dias… Nem no blog da minha filha tenho entrado, mãe desnaturada. Só hoje me apercebi duma série de coisas e já nem encontro lá o link para por um comentário. Azar!
Mas podes sempre dizer tu, estás autorizado.
Já agora, Alda, até pareceria mal se eu tratasse uma companheira de piscina por Drª.
Um grande beijo
Guida Roberto Santos

JJ disse:
A excelente fotografia da Dr.ª Alda foi realmente enviada pela Guida Roberto, mas eu gostaria de saber em que circunstâncias lhe foi oferecida. Não há memória desse facto?

wicca disse...
A sério que gostaria de me lembrar em que circunstâncias a Alda me ofereceu essa fotografia religiosamente guardada no meu album. Tudo o que recordo, após todos estes anos, é que eu era boa aluna a a ciências e que gostava muito da professora que era muito jovem, bonita e meiga.Um grande abraço Guida


farofia disse...
Concordo com a Alda - desculpe faço parte do rol de ex-professores e conheci-a aqui no blog, muito prazer! - na abolição dos dr. que são fórmulas do passado bem-passado. Andar por aqui a passear numa boa fica 'complicado' com a formalidade de outrora. Então isto não é um blog de hoje?! Não ficámos conservados em formol que isto aqui não é museu arqueológico. OK?

Laura Morgado disse:
A Dra. Alda Lopes está linda na foto de 1963. Era assim a sua imagem na minha memória: bonita, simples e muito querida. Uma professora dedicada e sempre pronta para ajudar, o que a tornou inesquecível para os seus alunos.
Quando tive a sorte de ser convidada, pela Júlia, para aquele “Fim de Tarde em Óbidos” e reencontrei a Dra. Alda, fiquei feliz e perplexa! Feliz por poder estar com a minha professora querida e perplexa porque, passados tantos anos, encontrei uma pessoa com a mesma postura, serenidade e personalidade, tal como eu tinha conhecido há tantos anos.
Os meus colegas já disseram tudo o que poderia ser dito sobre a Dra. Alda Lopes.
A mim resta-me agradecer tudo o que me ensinou, incluindo ter sido com ela que aprendi a ler as linhas da palma da mão (não era bem a sina, mas era parecido…).
Dra. Alda para si um grande beijinho.
Laura

JJ disse:
Ler a palma das mãos? Mas, além de “enfeitiçar” os seus alunos, a Drª Alda lia a palma das mãos?

Laura Morgado respondeu:
A Alda Lopes um dia foi com as raparigas da minha turma para a mata, onde só podíamos ir acompanhadas de um professor.
Contou-nos coisas da Faculdade e ensinou-nos a distinguir e interpretar as linhas das mãos. Ensinou-nos quais eram as linhas da vida, da saúde, do amor, dos filhos e coisas afins…se morríamos cedo, se tínhamos muitos filhos, etc. Isto para uma jovem de 14 anos foi uma delícia!!!
Quando passados tantos anos estive com ela, este Verão, em casa da Júlia em Óbidos, falei-lhe nisso, mas ela diz que não se lembra. Mesmo sem ela se lembrar achei que devia escrever sobre o assunto no blog.
Isto e outras coisas que ela dizia marcaram-me, fiquei até admirada quando com a sua simplicidade me disse: “ah…não me lembro nada”.
Penso que já falei nisto à Júlia, que também não se lembra. Tudo me leva a concluir que fui a única a quem o assunto interessou.
Bjs
Laura

DRA. MARIA ALDA DA SILVA LOPES

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Como há concidências! Há uns anos, a Júlia soube do paradeiro da Dra. Alda Lopes, através de uma sua colega familiar do Oliveira e, por acréscimo, também da Júlia.
Esta, algures em Abril deste ano, marcou uma “entrevista” com a nossa antiga professora.
O encontro decorreu em casa dela, no Bombarral, num ambiente muito descontraído e familiar ― até deu para conhecer aqule que causou um célebre telefonema durante uma aula (e que será tema da próxima crónica).
Desta conversa, resultaram informações nunca dantes imaginadas.
Natural de Martim Joanes, Cadaval, fez o liceu em Santarém e licenciou-se em Ciências Biológicas em Lisboa em 1961.
Acabada de licenciar, com 22 anos, foi para o Colégio, levada pela Dra. Maria do Rosário Leal (no momento não lhe ocorrem os pormenores), onde permaneceu 2 anos lectivos, 1961/62 e 1962/63, tendo saído «para se casar e ser mãe a tempo inteiro».
Leccionou Geografia às turmas do 3º ao 7º ano. Para dar Geografia aos 6º e 7º da alínea G (Económicas e Financeiras), ia para Lisboa à sexta-feira e enfiava-se na Biblioteca da Faculdade de Ciências para se preparar, sobretudo para «aquela maldita Astronomia». Não tem recordação de nenhum percalço, mas os que a tiveram como professora que o digam!
Também leccionou Ciências Naturais ao 3º e 4º anos e deu Desenho a uma turma do 3º ou 4º ano (não se lembra bem).
Logo no início da sua permanência no Colégio, foi criada uma disciplina de Moral Feminina, por iniciativa do Pe. António Emílio, para as raparigas dos 3º, 4º e 5º anos. De que se falava nessas aulas? Ninguém se lembra de programa nenhum. Falava-se de tudo: das relações rapazes-raparigas, de moda, etc., etc. A verdade é que, de parte a parte, todas sentíamos que era muito bom. Estas aulas eram dadas nas escadinhas do lado de fora do fim do corredor do rés-do-chão (ver fotografia de abertura do blog) ou, muitas vezes, na mata. Se calhar, quando chovia, seriam dadas no interior, mas não nos lembramos disso; por que será?
A Dra. Alda confessou-nos a sua estratégia para se aproximar dos alunos, fosse em que disciplina fosse: começou por dar as aulas sentada atrás da secretária; depois, no estrado, fora da secretária e, finalmente, aventurou-se a «sair do pedestal» e descer ao nosso nível. A sensação era bem diferente!
E as nossas memórias de alunas?
A Dra. Alda era uma pessoa completamente diferente que aparecia no Colégio. Era alta, elegante, gira, descontraída e tinha duas coisas que nos encantavam: os mocassins e o seu inesquecível Triumph cinzento. Além disso, tinha uma forma muito peculiar de entrelaçar as pernas quando se sentava e até quando andava naquele corredor das salas de aula.


Recém-licenciada, veio directamente para as Caldas, onde exerceu uma actividade que a marcou muito positivamente e lhe deixou muitas e boas recordações, que não escaparam às comparações quando, mais tade, foi leccionar noutras paragens.
A Dra. Alda refere que, antes de começar a leccionar, tinha lido o Diário de Sebastião da Gama, que a motivou com esta frase: «Sebastião, tens muito que fazer?» ― «Não, tenho muito que amar». E foi isto mesmo o que sentiu durante os 2 anos que passou entre nós: Amou e foi Amada.

Conclusão:
Foi professora a tempo inteiro.
Casou e foi mãe a tempo inteiro.
Reformou-se para ser esposa e avó a tempo inteiro.

QUE MULHER EXTRAORDINÁRIA!!!!!

Júlia Ribeiro
Isabel V. P.
Mélita Teotónio

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COMENTÁRIOS

João B Serra disse:
Agradeço às meninas que aqui trouxeram esta bela memória de uma professora que não esqueci.
Fui aluno da Dr.ª Alda no meu 3º ou 4º ano, a Ciências Naturais. A imagem que guardo da professora desse tempo corresponde por inteiro à que foi traçada pela Júlia, pela Isabel e pela Mélita: dedicação e competência, entusiasmo e alegria. Gostaria de sublinhar este aspecto: a Dr.ª Alda era uma professora que sorria. E que o fazia com a mesma naturalidade com que se sentava no tampo da secretária, entrava e saía do seu Triumph.
A figura, que as autoras do post definem como "alta, elegante, gira" não diz, no meu modo de recordar, tudo. Para quem, como eu, tivesse 13 ou 14 anos, a Dr.ª Alda era "altíssima, elegantíssima e giríssima". Não creio que nenhum rapazito da minha turma se não aplicasse, daquela forma "discreta" e "ajeitada" que caracteriza o comportamento dos adolescentes, e competindo duramente para tal, em "chamar a atenção" da Dr.ª Alda.
Vim a encontrá-la, muito mais tarde, nos finais da década de 70, no Bombarral, onde exercia funções directivas numa escola secundária. Foi também esse um acontecimento que retive. A memória que guardara da antiga professora ajustava-se perfeitamente à da pessoa que inesperadamente revia 17 ou 18 anos depois.
Hoje sou colega das suas duas filhas, Teresa e Maria da Graça, amigo e também colega do seu genro João. Estas continuidades testemunham e dão sentido ao novelo cuja ponta começou a ser desenrolada vai (quase) para meio século!
J. Serra ( O João tem também um post a propósito da Dr.ª Alda no seu blogue em http://oqueeuandei.blogspot.com/2009/02/professora-alda.html ).

farofia disse...

amo,amas,amare,amavi,amatum(?!). Estas são memórias de afectos que nos põem perante o que não envelhece dentro de cada homem, a anima. Esta capacidade de o 'ontem' ser 'hoje'. Sem stress, receita o João Jales. thanks!

João Jales disse:

Tive o privilégio de conhecer a Dr.ª Alda no Verão passado, numa destas "organizações surpresa" da Júlia, em Óbidos. Está documentado esse encontro em FIM DE TARDE COM A DRA. ALDA LOPES (ÓBIDOS, 26-07-2008)
Não fui seu aluno, mas não precisava de ler o comentário do João Serra para o lamentar, bastou-me essa deliciosa tarde em casa da Júlia para me render aos encantos vários desta Senhora. Já tinha o prazer de conhecer o seu marido, o verdadeiro "gentleman" que é o Dr. Mouga, desde o início da década de oitenta. Esta é pois uma evocação merecida, e claramente sentida, dos seus antigos alunos.
Obrigado às “meninas”, como diz o João, por mais este artigo para uma série de que o Trio Maravilha (é este o nome?) tem sido um dos grandes dinamizadores. Como eu disse à minha amiga Dra. Inês, e ela não esqueceu, tudo isto feito “sem stress”, por puro prazer, sem obrigações nem outras intenções.

Manuela Gama Vieira disse:
Bem, Jales, este blog atingiu velocidade de cruzeiro! Não conheci a Drª Alda Lopes, contudo, as fotos confirmam que a beleza e a elegância não têm idade.
Gostaria de voltar atrás, não para ficar mais nova(….) mas para conhecer facetas dos nossos Professores, que há 40 anos me passaram totalmente despercebidas: as cumplicidades - o arabês- e o sentido de humor que havia entre eles, num Colégio onde o Director (P.e Albino) fazia questão de tornar o ar pesado.
Drª Inês, nem sabe quanto o poema que me dedica me tocou, agradeço-lhe imenso.
Todos os Professores nos deixaram lembranças, outros deixaram-nos recordações e estas ficam perenemente guardadas no coração. Manuela Gama Vieira

Manuela Carvalheiro disse...
Caros amigos:

Rever a Drª Alda no jantar da passada semana em Lisboa, conjuntamente com um grupo de colegas, Júlia, Laura, Isabel Vieira Pereira; Melita e Quim(novamente por mão da Júlia) foi de uma emoção extraordinária.Nâo só porque voltamos atrás nas nossas vidas, mas porque em simultâneo e de novo conseguimos reencontrar-nos no presente.

A ternura, a emoção à flor da pele, o abraço amigo que se estendia no olhar, nas palavras e no sentir, estava de novo presente. Foi díficil separar a memória da Drª Alda professora de ciências da Drª Alda uma amiga e de novo confidente das nossas vidas. A partilha dos afectos e a proximidade, eram entre muitas algumas das suas grandes qualidades. Foi essa diferença que fez dela uma professora diferente, que nos (me)marcou de forma especial.

Vi com alegria que se mantinha apesar da idade (afinal só mais 10 anos que nós. O que é isso agora?)feliz e segura partilhando as alegrias e preocupações. Uma palavra especial para o seu companheiro de toda a vida (o tal do telefonema) o Dr Mouga. Não o conheciamos bem da altura do colégio mas passados anos reencontrei-o em Coimbra. Estava no Internto Complementar de Cirurgia e eu era uma recém-formada. Não convivemos muito na altura. mas deu para agora recordar com ternura

Um abraço a todos. Manuela Carvalheiro

O CALHAMBEQUE

por João Jales
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Nessa manhã de Primavera o Sol aquecia a fachada, virada a Sul, do Externato Ramalho Ortigão. Os estores da sala de professores estavam semi-cerrados de forma a impedir que ela aquecesse demasiado ao longo do dia. Mas talvez nem fosse necessário, a presença de alguns inesperados visitantes já tinha “arrefecido” a temperatura. Como acontecia com alguma regularidade naquele tempo, três funcionários superiores do Ministério da Educação tinham-se apresentado ao início do dia para realizar uma inspecção de rotina.
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Os Inspectores confirmavam nos serviços administrativos se tudo estava conforme a legislação em vigor, viam arquivos, livros de ponto, ficheiro de professores e também assistiam a aulas, consultavam cadernetas e viam enunciados de testes e pontos feitos pelos alunos. Analisavam, enfim, toda a actividade lectiva que se desenrolava no Colégio.

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Era pois bem diferente o clima naquela sala no início do intervalo da manhã, enquanto se aguardava o café que a D. Alda fazia diariamente no bico de Bunsen do anfiteatro. As conversas eram mais raras, e num tom mais baixo e menos descontraído do que habitualmente, já que todos estavam com especial atenção ao que os Inspectores perguntavam e comentavam. Havia sempre alguma tensão e apreensão nestas ocasiões, até porque se sabia que, além da avaliação didática, havia também uma componente de verificação dos conteúdos e actividades lectivas e da sua conformidade aos padrões e critérios do regime então vigente. O poder desconfiava das instituições que não controlava directamente, como fazia nos Liceus e Escolas Comerciais e Industriais. Uma censura preventiva...
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Neste ambiente foi mais fácil do que em circunstâncias habituais ouvir alguém que se aproximava da sala cantando alegremente:

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O Calhambeque, bip-bip
Quero buzinar o Calhambeque
Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!...

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A porta abriu-se e o “artista”, devido à penumbra provocada pelos estores corridos, não se apercebeu da presença de estranhos; dirigiu-se ao seu cacifo em “pas de valse”, estalando os dedos para marcar o ritmo, e continuou:
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E logo uma garota
Fez sinal para eu parar
E no meu Calhambeque
Fez questão de passear
No Calhambeque, bip-bip

Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!...


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Instalara-se na sala um silêncio absoluto, glacial e os inspectores olhavam para o professor, visivelmente admirados. Este acabou de arrumar os seus papéis enquanto entoava o último Bidhubidhu e voltou-se finalmente para os presentes, com uma elegante “demi-pirouette”, enquanto perguntava:

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- Estão todos bons? Parece-me que os acho hoje muito calados…

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JJ
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COMENTÁRIOS
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Isabel X disse...
Mais uma "traquinice" que vem reforçar a tese da boa disposição e do bom humor do Dr. Serafim. Isto presumindo ser ele o "artista" que tão bem entoava "O Calhambeque" (era bem giro esse tema do Roberto Carlos)na sala dos professores do ERO. Desta vez não estão em causa os alunos, mas os colegas e o ambiente soturno que qualquer inspecção provoca.
Também há boas histórias relacionadas com inspecções na Escola Secundária de Raul Proença, não é verdade Dr. Serafim?
O Jales, com a sua escrita muito viva, continua a encantar-nos a todos!
- Isabel Xavier -
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jorge disse...
suponho que a história divertida tenha verdadeiramente acontecido depois,o que o jj conta só a apresenta...a escolha dos passes de ballet para descrever os seus movimentos é muito boa ideia!!!
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João Ramos Franco disse...
A criatividade de imagens a partir de factos é uma das pertenças de quem descreve e conta. O que contamos pode até conter algo de ficção sobre a realidade do facto que o escritor conta, conter um pouco de sátira, em relação ao contexto. “ Três funcionários superiores do Ministério da Educação tinham-se apresentado ao início do dia para realizar uma inspecção de rotina”, até onde vai o “CALHAMBEQUE”, seja o Dr. Serafim a cantarola-lo ou não…
O João Jales escreveu e eu gostei do que li.Poderão dizer que a minha opinião é duvidosa, porque no meu Blog escrevi "Suas Exªs. Os Livros de um Estudante (ERO)", colocando (numa brincadeira aos personagens, Professores do ERO) os livros em primeiro e os professores em segundo lugar… A liberdade de escrever é absoluta. (não ofendendo, claro).
Parabéns João Jales.
Um abraço amigo
João Ramos Franco
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Luis disse:
Tem razão o anterior comentador na medida em que a pequena(em extensão!)sátira abrange muito mais do que a anedota que conta... sou habitualmente fã dos posts do JJ, mas acho este um admiravelmente rápido e certeiro tiro na mouche! LS

MADAME INC

por José Carlos Faria


Desenho: São Caixinha



Volta e meia, meia volta, a coisa dava-se.

Tocava para a aula de Ciências e de súbito, desentranhava-se, do mais fundo de nós, uma inquietação gelada feita pressentimento sombrio. Ia-se em desalento tal como o rebanho de almas penadas na porta do Inferno de Dante: «Deixai toda a esperança, oh vós que entrais». E assim era de facto...

Com o ânimo escorraçado a errar lá fora pelos corredores desertos, os piores receios confirmavam-se - A Drª Cristina, temida por muitos, execrada por tantos mais (feitios!), fazia a sua entrada triunfal ao compasso tronitruante dos saltos altos e, camuflada por detrás do fumo de cigarro empunhado, encarava a turma expectante, numa antecipação do gozo (dela) iminente, qual caçador furtivo perante presa à mercê. Abria o livro de ponto com delongas estudadas de Diva e, talvez por «spleen», para espantar a modorra (sabe-se lá!), proferia a mais áspera e indesejada sentença:

- Chamadas!

(Era assim mesmo, duro e cru, sem quaisquer eufemismos didácticos de «revisão da matéria dada» ou veleidades pedagógicas de «experiências laboratoriais», aliás raras, com esta protagonista).

- Chamadas!

Pronto! Aí estava a condenação, sem apelo possível, apenas a perspectiva de um agravo implacável a pairar, inquietante e ameaçador, sobre as cabeças de todos, irmanados na desolação. A partir dali, a Vida jogava-se inteirinha nos três quartos-de-hora seguintes, numa prova de fogo levada ao limite e donde ninguém sairia incólume.

Começava então um longo ritual de sádicos preliminares. De caderneta em riste, folheava as fichas individuais abrilhantadas com o registo de cada um, mais a respectiva fotografia cadastral. A angústia e a ansiedade aumentavam progressivamente à medida do voltear de páginas, enquanto a contagem mental colectiva dos números identificadores acompanhava os avanços e recuos. Sim, porque a consulta não era linear: Os dedinhos sapudos iam marcando a sina de presumíveis vítimas, desde logo ali suspensas numa tortura prolongada e num desejo absurdo de asas para uma evasão impossível. Os que viam a sua posição ultrapassada, encontravam, por um momento, um ligeiro alívio. Ilusório engano! Uma inesperada inversão de sentido ou um qualquer inopinado retorno, voltava, de imediato, a colocá-los em risco.

As paredes estreitavam-se, opressivas. Névoa. O ar denso, irrespirável. Têmporas a latejar. Socorro!...

Aquela metade heróica que não há quem não tenha, incitava a uma loucura de gesta, um gesto temerário de ousar um grito de denúncia contra a prática do terror psicológico e, em paralelo, o lado sensato e racional (leia-se: acobardado) a sobrepor-se: «Está quieto, minha besta! Vê lá mas é se te fazes invisível». Qual o quê! O relógio parece imobilizado. Sufoca-se! As unhas ainda lá estão, de fora, a intercalar folhas, entretanto já com mais outros pressentidos para a tosquia; enquadrando a busca, abre-se uma careta sardónica, desenhada a bâton, quase parecida com um sorriso, mau, mau, os signos do verniz e bâton conjugados em acorde cromático com tons pálidos de rosa-anémica-desmaiada (ousar o rubi poderia ser demasiado escandaloso), constituem, nesta conjuntura, um alarmante sinal de perigo, ai, ai, tirem-me daqui, por favor... antes a morte que tal sorte. O revolver das folhas soava como um afiar de cutelos para a degola dos inocentes e a classe aguardava, de cerviz baixa, numa impotência resignada.

E num ímpeto, a escolha abatia-se, fulminante, sobre um qualquer, ao acaso, e podia até não recair em nenhum dos previamente seleccionados. O tal verniz apontava agora, ofuscante, para um/a desgraçado/a, o dedo curvado em anzol a acenar silencioso convite obrigatório de «vem cá, anda»! E a gente ia, que remédio, como um penitente arrastado, ainda vivos mas já arrolados nas baixas em acção, levando nas costas a compaixão solidária dos colegas, semelhante à piedade muda dos olhos das rezes no açougue. O abate era o destino inexorável e o estrado, o altar de sacrifícios onde aconteceria a imolação.

Tinha início nessa altura uma segunda etapa: a desmontagem por peças da criatura na berlinda.
Era colocada sobre a secretária uma caixinha de esmalte a servir de cinzeiro. O pequeno clic metálico de abertura da tampa ressoava como o gongo de assalto dum ringue de boxe, no qual só um dos contendores apanhava uma sova. Baforadas espessas de tabaco. Em frente estava um dragão, de perna traçada, exalando fumo pelas narinas. As chamas chegariam quando abrisse a boca para as primeiras perguntas. A Esfinge devorava quem não lhe soubesse responder. Aqui também e não havia S. Jorge que valesse. Nesta fase, a salvação era uma miragem remota. Onde o torcionário recorria às sevícias, a Drª Cristina usava as chamadas. Coincidiam ambos na eficácia do método utilizado e na peculiar curiosidade interrogatória sobre os mais ínfimos detalhes. O stress traumático aumentava com as gargalhadas de mofa e os comentários chocarreiros a propósito da inevitável e crescente falta de fiabilidade das respostas. Nada servia. Tudo era insuficiente. Houve até quem, em total desespero, tivesse empinado páginas e capítulos inteiros do Compêndio, debitando-as na perfeição. Nem mesmo assim conseguíam satisfazer. A perturbação provocada pela Grande Inquisidora, causava-lhe indesmentível prazer. Nos olhitos piscos vislumbravam-se cintilações deleitosas tão intensas que nem as lentes grossas e fumadas disfarçavam. O resultado final estava traçado há muito: Quase sempre um M a vermelho, não de Magnífico mas de Mau, nódoa infamante no caderno diário, que teria depois ser apresentado com a assinatura do encarregado de educação. Uma encrenca!...

Na correcção dos testes, a margem branca vinha crivada de encarnadas siglas - M. INC - (abreviatura de «Muito Incompleto»). Isto valeu uma alcunha: Madame Inc. E, desculpará, mas alcunha é nome de guerra, ganho no campo de batalha da sala de aula, cognome glorioso a garantir a imortalidade.

Ele há-os p'r'aí cada «princês» de quem se diz serem tão ruins que nem a dormir são bons. Não é o caso! Esta caríssima Dama devia ter uma ternura de soninhos encantadores, na plenitude da paz dos anjos (assexuados, 'taditos, mas também ninguém é perfeito, não é?). E que não haja a este propósito qualquer mal-entendido: Isto aqui é um sítio sério e de muito respeito. Não se querem cá poucas vergonhas e muito menos se pratica a calúnia moral nem a demolição de carácter. Admitamo-lo pois frontalmente: A boa da nossa Professora teria decerto as suas virtudes e qualidades, a querida Senhora. Eu é que agora (defeito meu, sem dúvida), assim de repente, não sou capaz de me lembrar de nenhuma, já viram?



José Carlos Faria
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C O M E N T Á R I O S
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oscoliv disse:
Num breve comentário, apenas quero dizer que me parece que a realidade ainda era bastante mais funesta do que a excelente prosa do Zé Carlos Faria conseguiu transmitir.A Dama em causa, como o ZCF lhe chama, ostenta a medalha de me ter dado um dos dois Maus que tive em chamadas nos sete anos de colégio (o outro foi bem merecido e foi com a Madame Nicole no "Au claire de la lune").Mas o Mau de Ciências começou com uma pergunta que eu verifiquei depois que tinha acertado, embora a resposta da inquisidora tivesse sido breve e directa: Está mal! Foi o princípio do descalabro daquela manhã.Reconheço não ter sido muito massacrado pela dita, mas sempre me custou ver o que alguns dos meus colegas sofriam.
Enfim, todos ao longo das nossas vidas nos cruzámos com outras Cristinas, embora dificilmente nas mesmas condições de subalternidade. Oscar
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Isabel X disse:
Momento altíssimo do blog ERO! Eu não vos avisei do talento do Zé Carlos Faria? Aqui muito bem acompanhado do igualmente altíssimo talento da São Caixinha: viram o ar sádico que ela tão subtilmente confere à Dra. Cristina? Era mesmo assim, não há como dizer bem.
Confirmo a impossibilidade já manifestada pelo Zé Carlos. A mim, antes das aulas da senhora, davam-me constantes e arrasadores ataques de catolicismo e ia, sistematicamente, rezar, cheia de devoção, para a capela do colégio. Eventualmente, não sendo chamada, ia depois agradecer a graça obtida. Mesmo eu que me esforçava por ser boa aluna, fui chamada, obtive má classificação e fui acusada de "ter passado pela matéria como gato pelas brasas!".
Num ano em que tivemos a desdita de ter a Dra. Cristina como directora de turma, ela destituiu-me de "chefe de turma", cargo para que havia sido democraticamente eleita pelos meus colegas (era sempre) porque, nas suas palavras, "era ainda pior do que os outros". Mas não era, juro que não era! Só me recusava a "entregar" os colegas que se portavam mal quando os professores nos deixavam a sós nas aulas!
Não me lembro de ela explicar qualquer matéria, apenas de ter que a estudar sozinha para me preparar para as suas "chamadas", método muito próprio de pôr os alunos a estudar! "Ganda" Zé, é assim mesmo! Muito grata!
- Isabel Xavier -
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Luisa disse:
Fantástico, era mesmo assim como o Zé Carlos descreve!!! E o desenho fica aqui a matar, grande artista é a São!!!
Parabéns, Zé Carlos, os teus posts são realmente muito engraçados. Luisa
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Manuel Agudo disse:
Brilhante... a caricatura da São Caixinha e a narração do Zé Carlos. Tenho lido alguns comentários sobre as diversas presonalidades ligadas ao ERO, mas como não o frequentei muitos anos, não me recordo muito delas, mas esta efectivamente avivou-me muito a memória.
A imagem de firmeza, do cigarro e dos óculos na caricatura está de facto a dar os pontos essenciais da Drª Cristina, mas a descrição/narração de uma aula tipo com "sumário-chamadas" e o silêncio dramático a preceder o encontro com a "tirana", é uma pequena obra d'arte litetrária!
Espero que recriem outros professores já que não me recordo da maior parte deles.
Continuem com essa veia, que ler isto ao fim do dia é bem melhor que as notícias da crise!Manuel Agudo
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João Jales disse:
Este filme de terror, que o Zé Carlos transformou numa comédia negra, é realmente um dos pontos altos deste Blog. Mas nem o humor do autor conseguiu evitar-me um estremecimento de medo, um arrepio na espinha, ao relembrar a tortura a que éramos sujeitos. A excelente ilustração da São ainda "piorou" esta sensação!
Quem não tenha, como eu, sofrido sete anos deste tratamento pensará que há aqui exagero, teatralização, liberdade artística. Nada disso, o clima era o descrito, mas sem o distanciamento humorístico que os anos tornaram possível. E eu ainda tive três anos (ou dois e meio) de Geografia, o que perfaz dez anos de "galés", não havia por onde fugir. Tenebroso.
O texto é magnífico, muito divertido, e obriga o autor a regressar, o Blog não seria o mesmo sem as contribuições do Z C Faria! Idem para o desenho da São Caixinha, felizmente temos já garantidas mais ilustrações dela para esta série. JJ
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João B Serra disse:
A descrição em cores fortes que o José Carlos faz desta personagem e o desenho impressivo que dela faz a São surgem tão vivos que eu, por momentos, senti uma espécie de ilusão de reconhecimento. Os traços desta professora – que julgo não ter conhecido – pareceram-me absolutamente familiares, o que, não correspondendo à realidade, ilustra bem a capacidade evocativa dos dois autores. Escrever e desenhar bem é afinal isto: tornar real uma personagem que se esbateu no tempo e é apenas agora um retrato feito de memórias. Se me permitem, fazendo minhas as palavras entusiasmadas dos leitores anteriores, bato palmas e não tenciono parar enquanto não nos prometerem ambos um (para já) “encore”.
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São Caixinha disse:
Que honra o meu desenho poder acompanhar este magnífico texto do JCF! E...oh...as memórias das chamadas da Dra. Cristina... que eu com tanto esforço consegui selpultar na cova mais funda do cemitério do esquecimento! Apanhou-me de surpresa a ressureição destes momentos que o JCF consegue descrever atenta e minuciosamente com extraordinário humor. Que talento!! Simplesmente sublime...parabéns José Carlos!!
Um beijinho, São
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Miguel B M disse:
Impecável texto do ZCFaria bem dentro do que já nos habituou.Mas mais uma vez peca por defeito e excesso de decoro.Ensinaram-me desde criança que não se deve dizer mal dos que já partiram e sendo assim vou ser comedido em relação a uma megera que nos infernizou durante sete anos a fio.Se a dita criatura ainda estivesse entre nós eu, pessoalmente, tinha motivos para a arrasar embora nunca tivesse sido lixado por ela pois nunca o conseguiu,embora levasse anos a tentar fazê-lo.
Não há dúvida que na vida surgem pessoas boas e más.Esta professora era o que se pode classificar como o exemplo bem conseguido de uma pessoa má .Creio que a história dos "inc" era exactamente prova disso mesmo,ou seja,mesmo que a resposta estivesse absolutamente correcta ela arranjava sempre maneira de nos prejudicar.Era uma questão de postura,o estatuto dos alunos era serem pura e simplesmente massacrados sob todas as formas possíveis.E nem sequer penso que fosse daqueles professores que gostavam de "achincalhar" os alunos.Eu dou alguns exemplos.O Zé Guerra foi impedido por ela de ir a exame no 7ºano, oficialmente via ERO,em Naturais (como ela própria designava a cadeira). Foi individualmente e dispensou da oral. A Cristina em pessoa foi dar-lhe os parabéns (ficámos incrédulos) o que seria improvável para um ser que não fosse apenas mau. A resposta foi ao nível "-ora,eu sabia aquilo tudo".Por outras palavras,"tentaste mas não conseguiste tramar-me". Outro exemplo. Quando distribuia os pontos, após a respectiva correcção, as negativas eram anunciadas com ênfase e especial prazer.Nessa mesma hora começavam as famosas chamadas.O que não fazia sentido nenhum era serem chamados os alunos que tinham tido as piores notas,os "mau".É claro que quem tinha tido "mau" no ponto voltava a ter outro "mau" dois dias depois.E assim,alegremente,o referido aluno levava para casa,para o pai assinar,dois "mau"seguidos e a certeza que a positiva no final do período já era.
As Ciências Naturais eram a minha cadeira preferida, e aquela de que eu mais sabia,estando de acordo com a minha vocação académica.Na hora da verdade,no exame do 5º ano e particularmente no 7º (em que precisava da nota para dispensar do exame da aptidão à Fac.), já não me lembro dos valores,mas ainda sei que foram altíssimos.No entanto durante o ERO cheguei a ter negas nos pontos e nas famosas chamadas nunca passei do "bom -". MBM
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jorge disse:
a cristina foi,pessoal e pedagogicamente,o pior professor que tive no colágio.não parece possível o serra não a conhecer,ela entrou seguramente bem antes dele sair.diziam alguns que as suas atitudes se deviam à sua infeliz vida pessoal e à sua falta de qualificações para dar aulas já que tinha estudado pouco mais do que o 7º ano.alguém sabe se é verdade?excelente texto do zcfaria com belo desenho da são caixinha-de ambos,só me lembro dos pais...jorge
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Ana Carvalho disse:
Olá Zé Carlos
Por momentos, ao ler o teu texto, achei que tinha voltado aos meus tempos de Colégio e senti um aperto no peito tal como acontecia há ...muitos anos, é melhor não dizer quantos, felizmente era mentira! Boa ZCF, excelente texto. Bjs PP
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António disse:
Há momentos neste blogue-e tem sido inesperadamente abundantes!-que são verdadeiras pérolas.Esta conjugação do retrato da São com o texto do Zé Carlos é sem dúvida um deles.Muito divertido e muito verdadeiro.Já alguém disse que queremos mais, não foi?Queremos mesmo.abraço,Tó
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Júlia Ribeiro e Joaquim Oliveira disseram:
Começamos por dar os parabéns à São pela caricatura da Drª Cristina que dá imediatamente a imagem dela! O cigarro...as unhas...a sua postura...
A Drª Cristina foi para o colégio a meio do ano lectivo de 63/64,após a saída do Dr. Nunes,portanto foi nossa professora durante algum tempo no 6º e no 7ºanos.Realmente não foi uma professora,ao contrário de outros,que nos marcasse tanto pela positiva,mas também não temos uma ideia tão negativa da senhora.Será que mudou?Piorou ao longo dos anos?Pomos francamente essa hipótese.
Como professora não teria sido das melhores,mas também não foi das piores.Fazia as ditas chamadas,como todos os professores que tivemos do 1º ao 7º ano,era um dos métodos de avaliação usados na altura e lembro-me dos cadernos diários das várias disciplinas cujo sumário muitas vezes era :Chamadas. Estas ditas chamadas realmente punham-nos em sobressalto ao vermos as folhas da caderneta para a frente e para trás e lá calhava a um desgraçado.....
Dela,ficaram-nos no ouvido aqueles gritos "estridentes" a mandar calar, por vezes a barulheira era tanta que dava cada grito que quase nos ensurdecia....mas havia alguns colegas que a tiravam do sério,como a outros professores,só que a atitude destes era diferente.
Com este comentário quisemos apenas tansmitir uma opinião porventura diferente da dos colegas mais novos, do que foi para nós a Drª Cristina.
Júlia R e Joaquim Oliveira
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Luis disse:
Tenho lido o blog, mas não tenho participado, quase sempre por preguiça mental. Desta vez não pude resistir a comentar esta peça deliciosa que o Zé Carlos aqui deixou com o seu habitual humor e talento literário. Texto absolutamente fabuloso!
Também fui chamuscado pelas chamas do dragão e por isso posso testemunhar a fidelidade e até alguma complacência com que descreve a barbaridade do acto. A tensão era tal que mesmo os sabichões pareciam ignorantes disléxicos. Estão ainda por apurar as consequências psicológicas daquela experiência. Sejamos benevolentes! Talvez a intenção fosse a de nos deixar mentalmente mais preparados para resistir às agruras da guerra colonial.
Parabéns Zé Carlos. Por favor continua a desenvolver o tema que sei que ainda tens muito para lhe dar e para nos divertires. Claro que também gostei do excelente desenho da São.
Luis Gouveia
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Laura Morgado disse:
Depois de tudo o que li sobre a Dr.ª Cristina, quero dizer aos meus colegas mais novos que a professora deve ter mudado muito ao longo dos tempos.E, como em tudo na vida (salvo raras excepções), a mudança é sempre para pior...
Tento perceber a razão dos vossos textos, faz-se um relato de uma professora completamente diferente daquela que eu conheci nos dois últimos anos do curso complementar.
Quanto às chamadas, éramos habituados às ditas cujas desde o 1º ano, era um dos métodos de avaliação usado por todos os professores.Pode-se questionar a pedagogia desse método, pois deixava-nos sempre com o coração nas mãos, o que era péssimo.Como professora que sou, não posso deixar de dizer que, por estranho que pareça, ainda se usa o inc.O que não me parece muito mal, pois o aluno sabe que aquela resposta, não está totalmente completa; e para qualquer um mais interessado é um alerta para, quando da correcção, tomar nota do que lhe falta. Laura
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Pedro disse:
O texto de Zé Carlos está bem escrito, como é hábito, mas eu também fui aluno da Dra. Cristina, do 1º ao 5º ano e devo dizer, em abono da verdade, que não guardei dela uma memória tão negativa como a da maioria dos outros comentadores, quer porque gostasse de Ciências ou porque tivesse caído nas suas "boas graças" o facto é que nunca me senti "torturado" ou fui para a aula com um "nó na garganta".
Também não tenho, de todo, a ideia de que fosse uma professora que não ensinasse (quanto a professores que não ensinavam lembro-me, isso sim, de uma professora de História que passava as aulas a fazer ditados...)Pedro Bandeira
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Manuela Gama Vieira disse:
O excelente texto e o não menos excelente desenho/caricatura da São Caixinha trouxeram-me à memória o que recordo da Dr.ª Cristina Marques.
Oh Zé Carlos Faria, a Drª Cristina não tinha as mãos “sapudas”, ao contrário, umas mãos lindíssimas, dedos esguios, nos anelares, anéis de muito bom gosto, unhas impecavelmente bem arranjadas. E o cabelo, lembram-se? Artisticamente “apanhado”, penteado pelas mãos de M.me Vasquez.
Quanto aos seus dotes de “tortura”…como era possível, a par do seu sentido estético, um interior tão inestético…para nós…as vítimas?!
Os capítulos de “a próxima vítima” estão tão bem descritos pelos meus colegas, que até senti um arrepio, como se tivesse regressado aos meus verdes 13, 14 e 15 anos…os que andei nas “unhas” da Drª Cristina.

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M.Fátima Gama Vieira disse...
Cheguei à nossa bela cidade com a minha família decorria o ano 1965, deixando a cidade de Faro e o Liceu onde completei o 1º ano. Não posso esquecer o dia da sessão solene que dava início do ano lectivo.A certo momento fomos informados que nos devíamos dirigir às nossas salas,todos correspondemos ao solicitado.Todos nós do 2ºano entramos na nossa sala de aula e fomo-nos sentando nas carteiras, eis que entra a nossa Directora de Turma a Dra.Cristina Marques e dá dois gritos que me assustaram deveras -" Quem vos mandou sentar?"-"Levantem-se imediatamente e encostem-se ao quadro".Silenciosamente obedecemos, uma colega olhou para mim reparou na minha expressão e tentou tranqilizar-me, segredou ao meu ouvido "não ligues que ela é sempre assim...".Acompanhou-me até ao 7ºano, pois segui a alínea F, e estou certa que o gosto pelas ciências foi muito importante.