ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
.
.

Mostrar mensagens com a etiqueta encerramento ERO. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta encerramento ERO. Mostrar todas as mensagens

Crónica de uma Morte Anunciada

por Isabel Xavier

A D. Dora, sentada num dos lugares da frente da “carrinha do colégio”, (na verdade um autocarro dos Claras fretado para transportar os alunos), debruçou-se para melhor observar um conjunto de estudantes que atravessava a praça da fruta, em direcção aos pavilhões do parque, onde funcionava o liceu. Voltou a sentar-se e disse com azedume: “parecem umas leiteirinhas!”. Referia-se às meninas cujas batas, por serem azuis, lhe pareciam mais adequadas ao exercício daquela profissão. Nós rimo-nos, talvez nervosamente, porque, pelo menos no meu caso, seria uma bata daquelas que viria a usar no ano lectivo seguinte (de “leiteirinha”, portanto), e estava bem consciente disso.


A questão das diferentes batas que as meninas das diferentes escolas da cidade tinham que usar constituía tema de muitas conversas e pretexto para insultos de vária ordem. As do colégio, por serem às riscas, faziam com que nos chamassem “zebras” – tinham a vantagem de podermos variar as cores das riscas –, as da escola técnica, brancas, conduziam directamente ao epíteto de “baleias brancas” e a D. Dora acabava de inventar a expressão “leiteirinhas” para designar as alunas do liceu. Penso que não “pegou”, não houve tempo para isso: no ano lectivo seguinte, 1973-1974, deu-se o 25 de Abril e um dos resultados da revolução foi deixarmos de usar bata.

Naquele ano (1972-1973), para além dos miúdos da primária e do Ciclo, nós éramos os últimos alunos do antigo curso dos liceus a frequentar o colégio. Havia uma única turma em funcionamento, a do quinto ano, após uma gradual implementação dos restantes níveis de escolaridade no liceu. Durante o Verão, tinha havido mesmo alguma preocupação por parte dos nossos pais, por temerem que o colégio optasse pelo funcionamento exclusivo da primária e Ciclo. Em minha casa chegou a colocar-se a hipótese de procurar integrar-me em algum colégio interno.

Assim se justifica o título desta crónica, evidente plágio do escritor Gabriel Garcia Marquez, que espero não me vir a trazer algum dissabor em termos judiciais.

Fui para o colégio logo na escola primária. O director era o Padre Albino (já não conheci o Padre António Emílio). Dele recordo essencialmente o medo que (eu) lhe tinha, os quistos que (ele) possuía na cabeça, a capacidade para influenciar rapazes para uma possível, mas muito improvável, carreira eclesiástica, tornando-os acólitos e levando-os a frequentar retiros em Penafirme. Recordo também os longos e impressionantes rituais que se realizavam, no seu tempo, e sob sua orientação, na Igreja de Nossa Sra. da Conceição, com abundantes encenações litúrgicas com muito incenso à mistura.



No seu tempo, no colégio, um rapaz e uma rapariga não podiam percorrer a ladeira de acesso à escola sozinhos, isto é, formando um par, ou pelo menos eram chamados à atenção por isso e instados a alargarem o tamanho do grupo em que se integravam. No seu tempo, o colégio possuía um sistema de som destinado a emitir música sinfónica durante os intervalos. Nesse tempo, o padre Albino escolheu a minha turma para dar aulas de Religião e Moral e nós passávamos essas aulas a ler os Evangelhos, de pé, cada um na sua vez, sem gaguejarmos e, depois, a comentá-los, ou melhor, a ouvir respeitosamente o seu comentário. Era um místico e acabou por ingressar num mosteiro de frades cartuchos, em Évora.

A nossa surpresa foi enorme, tal como a nossa alegria quando soubemos que ia ser substituído pelo Padre Xico (penso que ele assinava deste modo). A vinda do Padre Xico inaugurou um novo ciclo na vida do colégio, mais livre. A música passou a ser ligeira, os percursos a caminho da escola passaram a poder ser percorridos na companhia que mais nos agradasse, os professores contratados no seu tempo eram bastante diferentes do habitual, do púlpito cheguei a ouvi-lo questionar o celibato a que os sacerdotes estavam obrigados.




Era um padre moderno que modernizou a instituição. Na altura nunca isso me passou pela cabeça, mas hoje, com a distância e a lucidez que acredito que o tempo nos concede, é aqui que eu coloco o início do processo que levou o Externato Ramalho Ortigão à situação que dá título a esta crónica. Quando uma organização se moderniza dá o primeiro passo para o seu fim. Não por culpa do Padre Xico, ele limitou-se a ser uma das personagens necessárias a um fim que se preparava inexoravelmente e do qual a sua nomeação para o cargo de director foi apenas sinal premonitório.

O liceu veio para as Caldas, no colégio ficou apenas uma turma no ano lectivo de 1972-1973 e deixou de haver qualquer turma, à excepção das da primária e Ciclo, no ano de 1973-1974. Não há aqui algo de simbólico?

Quando se deu o 25 de Abril, exactamente nesse ano, já nenhum de nós podia sequer frequentar o colégio, a pouco e pouco, todos fomos saindo, por termos terminado os estudos que lá se faziam ou por transitarmos para o liceu, onde participámos nas RGA’s e nas RGE’s próprias do período revolucionário. Alguém imagina RGA’s e RGE’s no colégio? Tudo estava certo porque tudo aconteceu no tempo próprio.

O colégio passou, entretanto, a Jardim-escola, com consequente desperdício de salas de aula, suponho eu. Actualmente é um pólo da Universidade Católica. A propósito, já viram como está bonito o colégio? Os tempos passam e a vida muda e nunca mais volta a ser como era. Outras coisas nascem e se desenvolvem.

Anos mais tarde, quando terminei o curso (1981) e fui apresentar-me como professora no “liceu” (ainda hoje os alunos lhe chamam assim, tal como chamam “técnica” à Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro), receberam-me os membros do Conselho Directivo. No respectivo gabinete estavam o Dr. Serafim de Físico-Química, o Padre Eduardo de Religião e Moral e Sra. D. Rosa de Educação Física. Adivinhem de onde é que eu já conhecia estes “colegas”…

- Isabel Xavier-
.................................................................................................................
COMENTÁRIOS
João B Serra disse:
Mesmo que a Isabel não assinasse, julgo que seria capaz de descobrir a autoria deste texto. É claro, preciso, arguto e salpicado de humor (mesmoquando esconde a ironia por detrás da mais objectiva das descrições). Mas como ela já aqui uma vez me chamou à condição de seu antigo professor,sinto-me autorizado a dizer-lhe que não me parece que se possa dizer que a modernização é o caminho para o fim das organizações e duvido que tenha sido o caso do ERO. A massificação do ensino secundário teria que passar em Portugal forçosamente pela acção do Estado. Quando este despertasse para a necessidade de qualificar os portugueses em níveis mais avançados do que a escolaridade primária e de ampliar o acesso ao ensino superior, o ensino particular passaria um momento difícil. Foi assim em todo o país, e não só nas Caldas. O ensino particular nos anos 70 foi deixando o campo do ensino secundário, ocupado cada vez mais pelo Estado, e procurando outros espaços de acção: o pré-primario e o primário, sobretudo. Este movimento começou antes do 25 de Abril. A revolução apenas o acelerou. O conceito dominante então, consagrado nas políticas de educação, era o de um ensino particular supletivo do oficial. Competindo ao Estado assegurar o acesso livre e gratuito à escolaridade obrigatória, ao ensino particular restaria preencheras falhas. Foi daqui que se evoluiu depois para o conceito de liberdade de opção, que é muito difícil de concretizar, pois a empresealização implica um fim lucrativo.
Em 1972, quando, depois de décadas de protesto e espera pelo ensino liceal,foi finalmente autorizada a criação de uma secção liceal nas Caldas, que poderia ter feito o Externato Ramalho Ortigão para sobreviver? Pouca coisa,certamente. Reter os melhores professores? Como, com que garantias? Baixar o valor das propinas? Seria sempre superior ao do liceu. Oferecer um ambiente escolar mais confiável? Mas como, se os liceus é que tinham o exclusivo daavaliação e da certificação?
Em suma: o elan reformador do Padre Xico estava certo e teria conduzido a organização a um patamar atractivo nos anos 70 se ela não tivesse sucumbido pelo movimento exterior. Morreu por algo que veio de fora e não por algo que veio de dentro.

..
Manuela Gama Vieira disse:
Não conheci esta fase conturbada do Colégio e o seu epílogo, muito bem descrita quer pelo Senhor P.e Naia, quer pela Isabel Xavier, uma rapariga mais nova que eu.Contudo, não resisto a partilhar convosco o que "guardei" de três personalidades do Colégio, aqui lembradas:
Senhor P.e Chico:
A primeira pessoa que encontrei quando, "esbaforida", no dia 25 de Abril de 1966, pelas 19h30, ia a entrar no Montepio, para visitar minha Mãe e meu irmão Luís Filipe, "acabado de nascer; ainda mal abria os olhos e já eram para ME ver"!!!, como diz o poeta; (o Senhor P.e Chico vinha a sair de uma visita a alguém doente e ali internado).Relembro ainda as suas magníficas aulas de Canto Coral, "passando" discos de vinil, explicando-nos peças clássicas, respectivos andamentos, biografia dos respectivos compositores. A par das sonoridades caseiras, contribuiu para ajudar a "educar" os meus gostos musicais, tal como contribuiu a música clássica (que, desculpem-me, não classifico de fúnebre) que se ouvia nos corredores do colégio do meu tempo. Esta uma particularidade muito positiva que recordo do Colégio.
Senhora D. Dora:
Não vou acrescentar muito...porque recordo pormenores engraçados, coincidentes com colegas que já os referiram:O bâton encarnado nos lábios e nos dentes....o cabelo, de tão ralo, parecia mesmo algodão doce; essa dos fósforos, oh Jales, que maldade....Lembro-me das enormes e bem cuidadas unhas encarnadas, e as sobrancelhas, quase inexistentes, desenhadas a lápis castanho.
Director do Colégio- Senhor P.e Albino:
Quanto o detestava! Não pelas protuberâncias que tinha na cabeça: a saúde ou a falta dela, de quem quer que seja, merecem-me o maior respeito.Contudo...estou ESQUECIDA da pessoa que era o Sr. Director, que se impunha não pelo respeito que inspirava, mas sim pelo "ambiente quase de terror" que queria...que se respirasse no colégio.
Já aqui contei que no tal dia 25 de Abril de 1966, eu estava a cumprir 1 dia de suspensão por me ter sentado na relva.
Um místico?....Acho que era tudo menos um místico.
De resto, penso que nem se "aguentou" muitos anos na Cartuxa de Évora, para onde se auto-exilou...e fez ele muito bem!!!!
UM ABRAÇO A TODOS! MANUELA GAMA VIEIRA
.
Ana Carvalho disse:
Isabel ainda bem que há pessoas que escrevem bem e passam para o papel, na perfeição, aquilo que sentem e conseguem fazer-nos voltar ao passado. A descrição do Padre Albino e Padre Chico está fantástica e parece que estou a ver a D. Dora no 1º baco da carrinha a fazer esse comentário e outros claro, só ela mesmo para chamar leiteirinhas às miudas do Liceu. E já agora a propósito da D. Dora o João fala no cabelo mas e o baton nos dentes? PP
.
Belão disse:
Tal como a Isabel, não sou do tempo do Pe António Emílio. Somos muito novinhas! Também, como todas as rapariguinhas da época, ia de carrinha para o Colégio e recordo-me perfeitamente da D.Dora sentada na frente, contabilzando quem faltava. Ousei uma vez fazê-lo e, ainda não tinham terminado as aulas da tarde, já a minha mãe sabia que eu tinha ido às aulas, mas me tinha baldado à carrinha! Deu castigo, é certo. Mas era tão mais divertido subir a ladeira em conversas típicas da "idade do armário"!Obrigada Isabel por nos avivares a memória!Bjo. Belão
.
Jorge disse:
entre o relato pessoal e a crónica histórica,este é um post de alguém que sabe o que quer dizer.suponho que seja a mais nova dos Xavier,certo?
a recordação do jales é uma maldade,mas suficientemente divertida para ninguém levar a mal.abraço.jorge
.
Isabel Caixinha disse:
Alguns comentários são mais dificeis de escrever que outros...Este texto da Isabel lembrou-me quão confusos foram estes dois anos lectivos!Ano lectivo de 72/73, o ultimo ano do Colégio, por todas as incertezas que o seu encerramento veio trazer, como tambem a tristeza do fim!O Ano Lectivo de 73/74 no liceu, por ser para mim uma escola nova e por ter acontecido o 25 de Abril durante o ano .A tristeza que eu senti pelo fim do ERO foi em breve substituída por alegria ao descobrir que o liceu me proporcionava as vivências próprias da idade, e a liberdade, que nunca até ali tinha conhecido no colégio...Pela primeira vez desde que tinha entrado para a escola, pude descer e subir a ladeira para ir para o Liceu!Um ano muito importante o do 25 de Abril!!Obrigada Isabel por trazeres de volta estas preciosas memórias, através do teu texto!Beijinhos Isabel Caixinha
.
João Jales disse:
Tenho que começar pela D. Dora e o seu fantástico penteado (era o que se chamava uma "permanente", julgo). Grande e almofadado como uma bola de algodão-doce, cabiam lá, sem a dona dar por isso, dezenas de fósforos, papelinhos, bilhetes usados e enrolados, enfim, tudo quanto a "carrinha" proporcionava aos entediados alunos que nela viajavam. A D. Dora ia sempre estrategicamente sentada no banco da frente, logo atrás do motorista. Os lugares imediatamente atrás eram rijamente disputados.
O texto da Isabel, embora omita este curioso passatempo, dá-nos uma concisa mas certeira caracterização do que foram os consulados dos padres directores. E descreve a "morte anunciada" do navio da perspectiva dos passageiros e não do comandante.
O esvaziamento do Colégio era inevitável perante a abertura do Liceu e todos o sabiam. Concordo com a Isabel, passo por ali com frequência e o edifício, entretanto ampliado, está muito bem conservado.
Penso que as contribuições da Isabel têm sido, na forma e no conteúdo, uma lufada de límpida prosa no Blog, não acham? JJ
.
Luísa disse:
Oh JJ tu tens que ser interdito ou interditado -já nem sei como se escreve -se continuas a lembrar-te e a divulgar estas histórias! Nunca mais me tinha lembrado da “permanente” da D Dora!!!O texto da Isabel lê-se,como dizes,com prazer e foi para mim uma revelação- desconhecia a existência desta “turma fantasma” no E.R.O.- enquanto todos os outros estavam já no Liceu. Mas não percebi bem porque é que isso aconteceu.As palavras sobre o Padre Xico são justas - e sobre o Padre Albino também,já agora!Bjs. L
.
Isabel Esse disse:
Já que agradeci ao Padre Naia o seu texto,tenho que fazer o mesmo à Isabel.
Eras uma garotita quando eu brincava com a tua irmã Lena,olha que bela escritora te tornaste,quem diria?Também não conheci o Padre António Emílio,só o Padre Xico(também gostava dele) e o Albino(Brrrrrrr!!!!pôe medo nisso).

.
João Ramos Franco disse:
Tu escreveste: "O estilo existencialista do texto de João Ramos Franco sobre a praça, que também é característico do tempo em que foi escrito".
A propósito do estilo com que escrevemos, e estando tu com "receio" da citação do Gabriel Garcia Marquez, eu vou acrescentar uma outra citação também sobre a morte anunciada: "Não são dores verdadeiras, é pior, são as dores que vou ter amanhã de manhã. E depois?". Jean Paul Sartre (O Muro)
Talvez seja bom sinal ter algum estilo, mostra que sempre ficou em nós algo do que lemos.
João Ramos Franco
.
Manuela G V disse:
Quanto à criação tardia, digo eu, do ensino liceal nas Caldas, não seriam alheias as "cumplicidades" entre Estado e Igreja! "Foi você que pediu justiça social"????

Resposta e comentário final da Isabel Xavier:

Eu não digo que a modernização foi um "caminho", mas sim um sinal, falo até em "sinal premonitório". Digo também que a nomeação do padre Xico (pelos seus superiores hierárquicos) é que indicia o fim que se aproximava inexoravelmente, sem que o padre Xico tivesse "culpa", portanto, sem ser devido à sua acção.
Mas concordo com o comentário do João Serra e agradeço as explicações que ele dá sobre o contexto histórico de tudo isto. Fá-lo na qualidade de meu antigo professor, aqui invocada por ele por eu já a ter invocado noutra ocasião. Nessa altura, eu disse também que ele era um grande amigo, e é. Por isso fez questão de realçar as características específicas da minha escrita, na sua opinião. Feliz de quem pode continuar a aprender pela vida fora com professores assim!
Aproveito para agradecer os outros comentários também. A Isabel Caixinha deve lembrar-se bem deste processo porque sempre fomos colegas de turma. Ela passou a percorrer a ladeira do colégio,mas no sentido inverso, quando nós deixámos de o fazer: é curioso!
O comentário do Jales é impagável! Coitada da D. Dora!... Já agora, o da Belão também.
Tudo isto é uma descoberta! "Vasculhando" o passado, reatando o que julgávamos perdido, descobrindo-nos a nós mesmos nas memórias uns dos outros!
É urgente que nos encontremos para sabermos como somos agora. Quase como aqueles casais de possíveis namorados que levam um sinal exterior para se reconhecerem no primeiro encontro, depois da comunicação escrita, quase como nos filmes.
-Isabel Xavier-

AO FECHAR DO PANO…

por Padre Naia


Estive ao serviço do Externato Ramalho Ortigão, nos últimos anos da sua longa existência, sendo eu, por isso, o último dos seus Directores. Infelizmente, não na época de esplendor e de papel relevante na vida da cidade de Caldas da Rainha, mas do seu definhamento progressivo. Em cada um dos quatro últimos anos, uma parcela foi amputada. É natural, pois, que a esmagadora maioria dos alunos, hoje dispersa pelos mais variados campos da vida, desconheçam o final da sua história.

Não terei sido certamente suficientemente cuidadoso em recolher por escrito dados que seriam úteis para este depoimento. Algumas fotografias e uns escassos registos foi o que restou. Mas confio em que a memória não me atraiçoe por completo!

Em Outubro de 1971, regressei às Caldas depois de uma estada de dois anos em Tomar. Por iniciativa do Director, Padre Francisco Duarte dos Santos, vim com a incumbência de apoiar as disciplinas de Português e Latim, assim como a catequese dos mais novos, de parceria com a Helena Vieira Pereira. No fim deste ano lectivo, devido à criação da Secção das Caldas do Liceu de Leiria, terminaria o Curso Complementar dos Liceus no Externato Ramalho Ortigão. Lembro-me que, nesse ano, nas férias da Páscoa, com o Director, as professoras Júlia e Cármen Nogueira e outros, realizámos uma agradável excursão ao Sul de Espanha de que guardo diversos registos fotográficos.

O meu segundo ano ao serviço do Colégio coincidiu com o último ano de Director do Padre Xico. Nesse ano, por solicitações várias, funcionou, à noite, um regime de aulas intensivas para adultos, o que se revelou de relevante utilidade social. Mas mais uma parcela não resistiu: o Curso Geral dos Liceus (3.º, 4.º e 5.º anos) passou a ser leccionado na Secção Liceal. Restava o Ciclo Preparatório (1.º e 2.º anos) e o Ensino Primário. No final deste ano, o Senhor Cardeal Patriarca deslocou o Padre Xico para a Paróquia da Ajuda, em Lisboa.

Em Outubro de 1973, depois de nomeado pelo Patriarcado, requeri ao Secretariado do Ensino Particular do Ministério da Educação Nacional o Diploma de Director. Soube, logo a seguir, que a PIDE teve o cuidado (!) de se informar junto de algumas entidades e pessoas da cidade sobre o novo Director. O resultado foi nunca me ter sido atribuído qualquer diploma. O Patriarcado deve ter mantido a sua decisão e julgo ter sido, até ao fim, um Director ilegal…

No início do meu mandato, convidei os últimos professores em funções no ano anterior para um almoço-convívio no edifício do Colégio, em que todos lamentaram o que estava a acontecer. Lembro-me do testemunho emotivo do professor Figueiredo Lopes em clima de confidência. Deu-se, depois, o 25 de Abril. Ainda foi leccionada a primeira aula da tarde desse dia, mas não mais, porque os familiares dos alunos vieram gradualmente buscar os seus filhos, assustados como estavam com a situação. Durante esse ano, na continuidade do que já se fazia anteriormente, promovemos, à noite, aulas de explicações intensivas de preparação dos exames do chamado curso propedêutico de entrada na Universidade. Esta iniciativa foi realmente considerada pela generalidade das pessoas como um bom serviço prestado a toda a região, que no ano seguinte – certamente devido à sua projecção social - havia de ser parcialmente boicotado por um grupo de professores do liceu, sob a liderança do dr. Perpétua, que ousou instalar, num estabelecimento de ensino público - que, por definição, é gratuito! - aulas à noite a expensas dos alunos… Tudo se permitia naquele tempo e com intenções óbvias…

O último dia de aulas do Ciclo Preparatório foi vivido normalmente, mas, ao terminar, lembrei-me de convidar alguns alunos para um breve passeio até junto de um moinho, no Chão da Parada, de que é testemunho uma fotografia que tive o cuidado de tirar sem que revelasse a ninguém as minhas intenções.



Só pouco antes do ano escolar seguinte é que convoquei os encarregados de educação para lhes dar contar da decisão de fechar o Ciclo. Todos deploraram a situação dada a conhecer às pessoas presentes, mas dessa reunião surgiram diversas sugestões sobre algumas actividades a desenvolver ao nível de tempos livres após as aulas na escola oficial.

Entretanto, na paróquia, procurava-se há algum tempo reactivar uma instituição denominada “Patronato de S. José” que funcionava num espaço hoje ocupado pelo Centro Social Paroquial, antiga residência do dr. Pires de Lima, há muito disponível apenas quanto ao seu usufruto. O pároco, o Padre José Guerra, promoveu a mudança do estatuto legal desta instituição para “Centro Social Paroquial” e pensou-se, então, na sua instalação no edifício do Colégio.

Em Outubro de 1974, restava apenas o ensino primário. Dei formalmente ao Patriarcado conta do que se adivinhava: o fecho definitivo do Externato no ano seguinte. Perante a situação, o Cardeal Ribeiro consultou a Congregação dos Salesianos para a continuidade deste estabelecimento de ensino. Por esse motivo, recebi uma delegação desta instituição que procurou informar-se sobre a situação, documentou-se com fotografias, abriu um “dossier”, mas nada mais eu soube sobre os seus contactos com o Patriarcado. Neste último ano, além ainda da manutenção do Ensino Primário, começou a funcionar o Jardim de Infância do Centro Social Paroquial. Foi extremamente oportuna esta instalação, para preservar o edifício, apesar de, nos primeiros anos, o Director do Centro, o Padre José Guerra, ser obrigado a admitir, na Direcção, elementos impostos pelas forças políticas vigentes na cidade. Com muito empenho, conseguiu manter a instituição sob a alçada da Igreja.

Entretanto, emergia a convulsão social no país. Grassava a era das “ocupações”. Foi neste contexto que tive de enfrentar duas “delegações” no sentido de “ocuparem” o Colégio. A primeira soube que a tinha de receber por parte do pároco da cidade a quem o sr. Artur Capristano comunicara a pretensão do Ministério. Foi então que tive de acolher na sala dos docentes do Colégio um conjunto de professoras do Ciclo Preparatório (actuais 5.º e 6.º anos), de que me lembro fazerem parte, além de um representante do Ministério, a professora Ana Luísa, esposa do Mestre Mateus da Escola Industrial. Informei sobre o reduzido número de salas disponíveis perante a instalação recente do Jardim de Infância do Centro Social Paroquial. Pareceu-me terem saído convencidos, o que mais tarde não me foi confirmado, nem ocasionalmente pela professora Margarida Ribeiro, nem, depois, pelo bispo auxiliar de Lisboa, D. António Marcelino, a quem foi feito um reparo por parte do Ministério. A outra delegação foi recebida, não por mim, mas pelo Presidente Velhinho, no edifício da antiga Câmara Municipal. Além do Presidente (da Comissão Administrativa da Câmara?) e de mim próprio, estiveram presentes Marcelo Morgado, José Luís Lalanda Ribeiro e os professores Mário Tavares e Norte. Estes dois últimos propunham a entrega do Colégio, ao que me opus dizendo que, se a revolução de Abril era pela liberdade, tinha também de se preservar o ensino livre fora do âmbito do Estado. Mário Tavares respondeu-me dizendo não compreender onde eu queria chegar com esse tal “ensino livre”. No entanto, esta opinião era corroborada pelo professor Norte. Tomou, depois, a palavra Marcelo Morgado que afirmou desejar que os seus filhos fossem educados num ensino livre como, por exemplo, no da Igreja, de preferência ao do Estado. E assumiu essa posição afincadamente, o que não deixei de sublinhar mais tarde quando presidi às suas exéquias. A certa altura, o Presidente abandonou a reunião, julgo que propositadamente por não concordar com a “ocupação” do edifício do Colégio. Sinceramente não me lembro como acabou a reunião, mas nada de relevante ficou decidido.

Os anos após o encerramento do ensino foram de aproveitamento do espaço pelo Centro Social, embora muita coisa estivesse ainda ao meu cuidado, nomeadamente algum recheio que passava a ser requerido por estabelecimentos de ensino do Patriarcado e outros como o Colégio do Planalto, de Lisboa, pertencente à Prelatura do Opus Dei, que passou a utilizar parte dos laboratórios. Lembro-me ter sido este Externato que levou o célebre esqueleto… Mas garantiram que ofereceriam um outro completamente novo, se o Colégio Ramalho Ortigão reabrisse.

Começou, depois, a surgir, a ideia da instalação da Universidade Católica. E diga-se com toda a justiça, graças à insistência, e talvez à teimosia, do pároco, Cónego José Guerra, apoiado pelo Presidente da Câmara. Cheguei a pertencer a uma incipiente Comissão Instaladora, de que faziam parte o Pároco, o Presidente da Câmara e o dr. Rogério Caiado e não me lembro de quem mais. Nesta qualidade, chegámos a ser recebidos, em Lisboa, por D. José Policarpo, na altura bispo auxiliar de Lisboa e Reitor da Universidade Católica. Da minha parte, além de outros trabalhos pastorais, passei a dar aulas na Secção Liceal, para logo me afastar e enveredar pela carreira universitária, em Lisboa.


PADRE MANUEL AUGUSTO NAIA DA SILVA

.............................................................................................................................

COMENTÁRIOS

João Jales disse:
É um privilégio ter aqui este último capítulo da história do Colégio narrado pelo seu Director na altura. Como o próprio reconhece, este é um período mal conhecido e sobre o qual nenhum elemento tinha ainda surgido aqui no Blog. Completa, e corrige, a breve história do ERO que aqui publicámos em Janeiro
Coincide com um período conturbado da nossa História recente, com alguns actores muito conhecidos, a maioria felizmente vivos. Mas é de notar que o fim do Colégio como estabelecimento de Ensino Liceal é anterior ao 25 de Abril, motivado pela abertura do Liceu nas Caldas da Rainha e não pela Revolução.
Gostaria de ver aqui comentários de alunos desta época, algum deles visita o Blog? E tem memórias desta época? Fico a aguardar.
Teremos aqui a seguir o outro depoimento de uma aluna desta época, mas que não constitui um comentário, já que os dois textos foram escritos em simultâneo e sem mútuo conhecimento.

Manuela Gama Vieira disse:
Li com muito interesse este artigo.
Apesar de ter ingressado na Faculdade em 1969/1970,o meu irmão mais novo frequentou uma parte da "Instrução Primária" no ERO; até 1975,se não estou em erro,ano em que fomos residir para Coimbra.

Isabel Esse disse:
Bom,este depoimento é sem dúvida uma honra para o nosso blogue,já que quem melhor que o Director para contar o que se passou?
Eu até julgava que o Colégio tinha acabado em 1972,como o Jales dizia na sua crónica.
As peripécias de 1975 são típicas da época!
Obrigada,PadreNaia.

Ana Carvalho disse:
Olá
Eu, nesta altura já não estava no ERO. Já li o que o Padre Naia escreveu e com muito prazer, mas eu já não passei por estes anos de transição do Colégio para o Liceu .
Eu saí do Colégio para Leiria em 69 ou 70, já não me lembro bem, e nesta altura já estava em Lisboa. Bjs PP

Luís disse:
Toda esta história é um bocado triste,realmente.Mas ainda bem que é contada na primeira pessoa,assim sabemos exactamente como aconteceu.Durou trinta anos o colégio como tal,antes de passar a infantário.Para o próximo Almoço devias juntar tudo o que foi escrito e editar(em papel) a HISTÓRIA DO ERO!Guarda-me um exemplar.Abraço.Luis M

João Ramos Franco disse:
Com o devido respeito pelo sentir do Padre Naia e de todos os colegas que viveram este momento da história do Colégio narrado pelo seu Director na altura, está presente em mim que foi aí no ERO que estudei Camões e dele retiro estas palavras, que penso serem válidas neste contexto:
“Mudam-se os tempos
Mudam-se as vontades
Todo o mundo é composto de mudanças…”

AS ÚLTIMAS FÉRIAS DO E.R.O. ( Junho de 1974)

.
.
Chão da Parada , Junho de 1974


"O último dia de aulas do Ciclo Preparatório foi vivido normalmente, mas, ao terminar, lembrei-me de convidar alguns alunos para um breve passeio até junto de um moinho, no Chão da Parada, de que é testemunho uma fotografia que tive o cuidado de tirar sem que revelasse a ninguém as minhas intenções. Só pouco antes do ano escolar seguinte é que convoquei os encarregados de educação para lhes dar contar da decisão de fechar o Ciclo. Todos deploraram a situação ...."


PADRE MANUEL AUGUSTO NAIA DA SILVA


. . . . . . . . . . .

Este é um excerto de um importante, e muito interessante, texto inédito do Sr. Padre Naia sobre o final do ERO como estabelecimento de ensino Liceal. Decidimos adiar a sua publicação integral para Setembro devido à sua relevância, não o incluindo numa altura em que as FÉRIAS! ocupam o espírito de todos.
Mas queria desde já dar conta da sua existência e da sua próxima aparição neste Blog.

JJ
. . . . . . . . . . . . . . . . . . .



Padre Renato com uma das últimas alunas (não identificada) do Externato Ramalho Ortigão,

no início das Férias de 1974, último ano de funcionamento do Colégio.


....................................................................................................................................................
COMENTÁRIOS
.
Manuela Gama Vieira disse:
Que saudades me deixou o P.e Renato!!! As suas inesquecíveis aulas de Latim,a sua sabedoria,o seu humor muito especial e inteligente! Quantas vezes me tenho lembrado dele! Claro que as aulas eram animadas pelo Zé Carlos Sanches!!!!
.
Fáfá disse:
Não esquecendo o "Desenho à Vista", "Canto Coral" e o "Orfeon" excepcional.Recordo que numa aula do 1º Tempo da tarde nos contar que tinha tocado orgão numa Igreja em Óbidos, a convite de um grupo de japoneses.Este grupo esteve a realizar um documentário sobre Óbidos e convidaram o nosso Mestre, de quem ainda hoje guardo as mensagens e admiro o saber e a Arte. Genial .

MENSAGEM DO PADRE XICO





Padre Francisco Duarte dos Santos
.
.
.
.
.
.
.

Bom amigo Figueiredo Lopes
e todos os Amigos das Caldas
(em especial ex-alunos do ERO)

Antes de mais as minhas melhores saudações para si, Figueiredo Lopes, pelos justíssimos louvores que os Caldenses lhe prestaram. Associo-me de todo o coração, por todas as razões e pela velhíssima amizade que nos une. Tive muita pena de não estar presente nesse almoço, mas as actividades ao sábado ou ao domingo para os padres são fatais, nunca dá, estamos sempre presos. Mas tenho esperança que um dia mais livre destes compromissos possa satisfazer esta sede de vos abraçar.

Tenho seguido, diariamente, a abundante e variada conversa que o Blog nos envia. É fantástico como estas técnicas permitem uma tão fácil e rápida comunicação. Já não nos podemos lamentar da distância ou do isolamento. Tem sido para mim um extraordinário recordar de velhos tempos. Tenho pena de já não me lembrar de muitos nomes, e muitas caras-- como estão mudadas!-- também já não as identifico. A memória começa a fraquejar muito cedo e os anos de separação já são muitos. Deixei-vos há 35 anos.

Tenho tido vontade de também partilhar convosco algumas das minhas memórias desse tempo, mas o vagar tem sido pouco, e o que mais vos queria contar não é para mim muito agradável --- o fim do colégio que era o que faltava às vossas histórias. Foi o pior que tive de suportar nos 9 anos que aí estive. Nos últimos três anos muito lutei com outros responsáveis do Ensino particular para que este tivesse outro contexto no panorama do ensino em Portugal. A sua subalternização era humilhante, injusta e desumana. Essa mudança só veio a acontecer depois do 25 de Abril. Não podendo fazer nada, apesar das promessas de Veiga Simão que nunca se chegaram a concretizar, a vinda do Ensino Oficial para as Caldas era, na altura, a melhor solução para os alunos e para as famílias. Dei todo o meu apoio para que os alunos pudessem passar, sem prejuízo, para a Secção do Liceu de Leiria nas Caldas. Mas isso seria, inevitavelmente, a sangria do Ramalho Ortigão. E assim foi. Por isso, e só por isso, dolorosamente, pedi para sair das Caldas. Era um funeral que eu não queria fazer. Vim para Lisboa, para a Ajuda, onde ainda estou. Como gostava de ensinar, e tinha tempo para isso, fui para o Ensino Oficial como fizeram todos os colegas que leccionavam no Colégio. Mas a primeira Escola -- o ERO-- ficou sempre gravada.

Muitas coisas podia ainda contar, mas não vos quero massacrar.

Quero, finalmente, agradecer as mensagens de parabéns pelos meus 70 anos que tiveram a amabilidade de me enviar com o apoio do Blog. A todos um grande abraço de muitas felicidades.

P. Xico
-----------------------------------------------------------------------------------------------
C O M E N T Á R I O S

Saúdo a primeira mensagem que o Blog recebe do último Director do Externato Ramalho Ortigão. Não poderia haver melhor tema para estas primeiras palavras do que a figura do nosso professor António José Lopes.
Fico, no entanto, com a curiosidade desperta para saber mais sobre estes três últimos anos do ERO, um capítulo que está em falta na nossa história do Colégio. E quem melhor para a contar do que o Padre Xico?
Sei que o nosso antigo Director tem muitas fotografias desse tempo, já que era das poucas pessoas da época que se fazia acompanhar regularmente de uma máquina. Se em relação a um texto sobre os últimos dias do Colégio compreendo que as tarefas do dia-a-dia o tenham atrasado, em relação a essas imagens ofereço-me desde já para as ir buscar ao local e à hora que o Padre Xico indicar. Sei que o prazer de as partilhar com centenas de antigos alunos através do Blog justificará o seu esforço para as disponibilizar. Nós trataremos da sua digitalização.
Obrigado pela sua intervenção neste espaço. Um abraço.

JJ

16-06-08
João Ramos Franco disse:
Penso que não me competiria ser o comentador da sua mensagem, já que não era aluno na sua época, mas as suas palavras amigas tocaram-me e o final do ERO é uma dor comum e a sua vontade de partilhar velhas histórias é um modo de dizer que está presente.
Sou Antigo Aluno ERO, faço 66 este ano, tendo para mim que toda a história do Externato Ramalho Ortigão é do interesse de todos. Li nas suas palavras: “Foi o pior que tive de suportar nos 9 anos que aí estive”, que gostaria de ler no Blog a realidade de quem os viveu.
Sei Padre Xico quanto é difícil falar daquilo nos dói mas penso que muitas vezes temos que nos sacrificar em prole do conhecimento. Se a partilharmos a dor, ela torna-se mais leve. João Ramos Franco

16-08-2008
Vasco disse:
Obrigado Pe Xico pela primeira (de muitas, espero) intervenções no nosso blog. Partilho com o João a vontade de "tratar" as fotos que tiver a amabilidade de disponibilizar para que avivem memórias e relembrem estórias que provavelmente estão esquecidas. Quando o João se disponibilizou para ir buscar as fotos esqueceu-se de se disponibilizar para as devolver, por isso posso assegurar desde já a sua devolução :-)
Mais uma vez agradeço o contributo, que muito me alegrou, aguardando ansiosamente por novos episódios. Um grande abraço VB