ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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A Praia de Mira!

por Ana Braga


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Ao ler o post da minha irmã Isabel e o comentário de alguém que lamenta tão triste recordação de Mira, devo confessar que percebo e comungo desse sentimento que nos assaltou, quando mudámos, repentinamente de praia. Foi um sentimento avassalador, agora diluído no nevoeiro do tempo, nevoeiro quase tão espesso como o tal que se abatia todas as noites sobre aquela orla da costa, mas que ainda me permite vislumbrar algumas vivências dessa época.
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Todos sabemos qual a importância do grupo para qualquer adolescente, e a mudança da Figueira da Foz para aquela praia praticamente desconhecida, onde costumávamos ir fazer piqueniques em pequenos, embora muito bonita, com a sua mata fresca e a barrinha de águas mansas, não tinha os requisitos que nessa altura considerávamos fundamentais – faltava-nos a companhia dos amigos, e sem eles sentíamo-nos francamente desasadas.

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A inegável beleza natural do lugar, o ar saudável do pinhal que se estendia por quilómetros a acompanhar a beira mar, a extensão das dunas com a sua flora exótica e a sua mistura de odores quentes e almiscarados, a prática milenar do arrastar das redes carregadas de peixe, ao fim da tarde, numa árdua tarefa partilhada entre os bois e os pescadores, muitas vezes ajudados pelos veraneantes, os típicos “palheiros”, como se designavam as casas dos habitantes da aldeia - agora infelizmente, quase todos destruídos -, nada disso, à primeira vista, constituía qualquer atractivo para duas miúdas em plena “crise” da adolescência marcadas pela dependência de um bando de jovens como elas, habituados às mesmas rotinas, aos mesmos passatempos e à frequência de certos lugares divertidos e que estavam na moda.
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Através desse nevoeiro da distância, consigo agora perceber que nos assaltava, como acontece habitualmente com os jovens, um medo inconfessável de perdermos a ligação ao grupo se nos arredássemos deles nem que fosse por quinze dias. Ficaríamos, quem sabe, desactualizadas, deixaríamos de partilhar uma qualquer experiência marcante, o que nos afastaria definitivamente desse tronco!? E como sofríamos com tal insegurança!
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Mas cada uma aguentava à sua maneira e, enquanto eu sofria mais calada, a Isabel, a mais rebelde dos irmãos, manifestava-se ruidosamente, o que lhe valeu uma dose reforçada de castigos e tabefes.
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Eis-nos, pois, em Mira. Que fazer? Chorar e refilar todo o tempo ou procurar uma maneira airosa de nos safarmos? Depressa descobrimos novas companhias e formas divertidas de passar o tempo. Encontrámos colegas do Liceu, fizemos novos amigos, aprendemos os rudimentos da vela, frequentámos os bailes do Mirasol, uma espécie de terraço coberto de um restaurante, onde havia bailes todas as noites, namoriscámos…
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Foi por essa altura que tive um dos encontros mais bonitos da minha vida de adolescente, sem consequências no futuro, mas que me fez crescer e sentir importante. Foi esse rapaz que me deu a conhecer, entre outras obras de referência da época, o “Quarteto de Alexandria” de Lawrence Durrell, que eu li de um fôlego. Foi ele que me levou a procurar e a perceber algumas mensagens que se escondiam nas entrelinhas dos textos.
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Em Coimbra, além de estudar Direito, fazia parte de um dos grupos de teatro de então, e em Mira, declamava poesia para mim, na praia, ao pôr do sol, de livro em punho. Como eu gostava desses fins de tarde poéticos, mas a Isabel achava-o pedante e enterrava-lhe os livros de poesia na areia, quando o apanhava distraído.
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Foi ele que me fez sentir tão responsável e digna de confiança, a ponto de me comunicar o segredo da sua fuga para a Bélgica, antes que a guerra o levasse para outras paragens mais longínquas. Foi uma despedida à laia de “filme – que - não – acaba – bem”, no parque da cidade, em Coimbra, com o cair da folha, um chão atapetado de tons castanhos e vermelhos, em que jurámos uma amizade eterna e em que deixámos no ar a hipótese de um reencontro algures no mundo.
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Mira não se resume apenas a más recordações, não é, Isabel? A curta estadia do João Calheiros naquelas paragens, se bem me lembro, foi mais um contributo que ajudou a ultrapassar aquele sentimento de revolta que nos levava, inicialmente, a isolarmo-nos do resto do mundo, nessa fase em que íamos para a praia por atalhos, com caras de poucos amigos, um guarda sol, um transistor e os habituais livros policiais.
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Mas depois soubemos dar-lhe a volta e até nos tornámos mais independentes do grupo do costume – felizmente, nunca tivemos dificuldade em fazer amigos.
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Um beijo
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Ani

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C O M E N T Á R I O S
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Isabel Esse disse...



Só conheci a Praia de Mira de raspão nos anos 70.Lembro-me sobretudo da água fria,mas eu ia e regressava a casa dos meus avós,não conheci a "sociedade" local.


Bom texto como é habitual nos posts da Ana Braga.


Beijos,boas férias para todos e também para o JJ que tenho visto no Facebook em grande no algarve!!!IS
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Luis disse...


Tendo conhecido,por opção paterna,diversas praias do Oeste,desde Peniche até à Figueira sei bem o que é que a autora refere como um desenraizamento,já que em todas as povoações se criavam grupos de Verão constituídos por pessoas que se conheciam já de uns anos para os outros.E nem sempre era fácil entrar nesses grupos,até porque tínhamos saudades dos amigos do ano passado.


Não é fácil ser adolescente,ao contrário do que algumas crónicas aqui publicadas dizem.Gostei muito de ler e achei muito curiosa a fotografia.L
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J J disse...


Este post encerra uma série de excelentes textos da Ana e Isabel Braga sobre o Verão e alguns episódios de férias passados em diversos locais do País.Repõe também a "verdade" sobre a praia de Mira, anteriormente "vítima" do negativo estado de espírito da Ana que preferia, por motivos óbvios, passar o Verão na Figueira.
De realçar a descoberta da poesia, da prosa de Durrell,da realidade da Guerra Colonial... Passámos todos por aí.
Obrigado, Ana, vai aparecendo. JJ

O BORLÃO QUE VOCÊS NÃO CONHECERAM E OS COMENTÁRIOS AO BORLÃO QUE EU CONHECI...

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Estes são os comentários ao post A MINHA JANELA SOBRE O BORLÃO . Se ainda não o leu clique AQUI , se já o leu aprecie os comentários e as duas magníficas fotos do Borlão em duas épocas bem anteriores ao texto ...
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Júlia Ferreira disse...
Obrigada pelas fotografias de umas Caldas que eu também não conheci.
Tenho lido os «posts».
A crónica do João Serra é uma ternura. A narrativa de um episódio das tropelias do «suspeito do costume» mostra bem que, como diz algures o Drummond de Andrade, «mãe não tem limite». Boa escolha também da fotografia da janela, espaço de descoberta, espelhando nuvens, de onde o menino curioso espera «sinais».
Quanto à tua crónica sobre o Borlão (que memória e que boa escrita!), até a mim, que vivi tão pouco tempo nas Caldas, me trouxe memórias de alguns nomes e de alguns rostos conhecidos. Por isso, JJ, obrigada por me «presentificares» momentos da juventude!
Nesta «recherche du temps perdu», cada um escolheu a sua «madeleine» para ter o passado de volta.
Continuem a escrever, para me darem o prazer de boas leituras.
Júlia Ferreira
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Luis Machado disse:
Bolas, Jales, que memória. Lembro-me de quase toda a gente que falas.
Das escadas não te vou adiantar nada.
Mas recordo-me de um episódio, no Borlão, numa noite sem nada para fazer, eu, o João Lourenço e o Henrique Conceição.Andávamos às voltas à estátua do Carmona tecendo considerandos sobre as nossas colegas e amigas.Basicamente se nos tinham dado bola ou não.E a conversa lá se ia arrastando mais ou menos nesta base:
-É pá essa já andou com todos, só faltamos nós, e aqui o Carmona.
Acho que nós na altura curtíamos assim uma onda beat burguesa de esquerda folcloricó carnavalesca.E a ladainha lá continuava:
-É pá só faltamos nós e aqui o Carmona.
Até que se fala de uma bonita moçoila e o Henrique diz:
-Desculpem lá, mas agora ficam sozinhos com o Carmona...
Abraços
Luís Machado
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Inês disse:
JJ
Como não adorar este documento verdadeiramente histórico! Você é uma fonte a jorrar memórias dos que viveram nesta Praça do Areeiro das Caldas. Bebe-se cada gole desta sua fonte de águas santas e cristalinas que refresca saudades esquecidas. Humor, amor... reconstrução desse imaginário juvenil intocado. É um belo retrato do seu coração generoso guardador de pérolas.
Este não é mais um comentário, atenção. É apenas um beijo! De quem conheceu o Borlão quando você era ainda um bebé, e eu menina a olhar os presos que chegavam agrilhoados para construir o Tribunal, uma visão inédita. Agora entrei nos prédios em volta e conheci os inquilinos muitos dos quais revi com saudade e muitos sorrisos. Que belo, que divertido relato.
Agradeço-lhe por querer o meu nome na lista dos comentadores, e com vanitas!
Inês
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Luisa disse:
João,
Senti-me ao ler-te como que embalada por alguém que sabe tudo o que aconteceu e como tudo se passou.....no meio da confusão e do esquecimento há alguém que não está indiferente e traz de volta a nossa adolescência,como diz e bem a Isabel Xavier.Era assim que se afastavam os fantasmas e os medos quando éramos miúdos.
Só posso agradecer....e esperar por mais!!!
Beijos a todos.L
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Miguel Bento Monteiro disse:
Johny
A tua descrição é simplesmente magnífica e comovente, o que aliás se depreende dos diversos comentários já publicados.
Não me lembro de todo da observação feita pela minha mãe sobre o funcionamento dos intestinos da professora mas, por outro lado, lembro-me perfeitamente desse mesmo funcionamento,que era rítmico,regular e deveras oloroso. E para uma criança com a idade que eu tinha na altura, tornou-se quase uma vivência. Mas a verdadeira razão da minha ida para o ERO foi de ordem geográfica e, portanto, prática pois como disseste fui viver para muito próximo do ERO. Assim o meu pai não mais precisou de me ir buscar (?) à escola pois eu passei a regressar sozinho a casa. O (?) deve-se ao facto de ele se esquecer sistematicamente de mim e, na realidade, nunca me foi buscar, pois era sempre a minha mãe que acabava por passar a apanhar-me.
Mas seria também interessante entrar um pouco na residência Jales. Por exemplo, um dia fui lá jantar. Para além do arroz que a Maria Helena Jales fazia (eu trato-a aqui da mesma forma que o fazia directamente) e que era simplesmente divinal,fui servido de outro acepipe que de todo detestei,mas que degluti galhardamente. "Gostas?" pergunta a dona de casa, solícita. "Adorei" "Então toma lá mais"... bom,que remédio. Mas o pior ainda estava para vir,pois das vezes seguintes que lá fui jantar aguardou-me sempre o mesmo pitéu de que eu tanto tinha gostado,e com que a mãe Jales simpaticamente me presenteava.
Houve uma ocasião em que os pais do JJ se deslocaram por diversas vezes a Lisboa.Logo após a sua saída de casa tinham início umas batotadas (na altura era o king,o poker só surgiu mais tarde) mas o baralho utilizado tinha uma particularidade: os símbolos dos naipes e, em especial, as figuras eram nus femininos,o que baralhava completamente os jogadores.
Lembro-me ainda de ter ido à residência em questão buscar umas garrafas de vinho, isto porque o pessoal estava numa festa em casa do Rui Malaca,já bem bebidos,e por ser o único a não beber,fui nomeado voluntário para ir buscar os oxidrilos. Quando me viu de garrafas na mão,tipo saloon, o pai Jales ainda me mandou umas bocas no género "estás tocado"!,"andas nos copos a esta hora?",etc.
É claro que todas estas aventuras não passavam despercebidas, mas a Maria Helena apenas dizia fleumaticamente: "Espero, pelo menos, que ninguém vá dormir para a minha cama".
Um grande abraço para ti e muitos parabéns pelo texto.
Miguel B M
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Rosa disse:
Comecei a ler o teu texto sobre o Borlão e, efectivamente, tem um ritmo tal que não consegui parar senão mesmo no fim ... gostei muito.
E achei graça a uma referência que fizeste à família Pimenta de Castro, já que não imaginava que tinham vivido nas Caldas – se forem os mesmos que conheci, claro. Em Lisboa, na Escola Lusitânia (antiga escola tipica do Estado Novo, exclusivamente feminina, ao Arco-do-Cego, bem pertinho do Archote, lembras-te?), por volta de 1970, fui colega e amiga de uma Madalena Pimenta de Castro que morava em Cascais, salvo erro. Muito gira, alta, espertíssima... Vou procurar uma foto que suponho não ter ainda perdido, para veres se é mesmo ela (esperando que a possas reconhecer), feita numa excursão a Tânger.
Nunca mais soube dessas minhas colegas mas voltei a ver a Madalena há poucos anos, no Conservatório, enquanto esperávamos por audições das nossas crianças. Acho que tenho essas fotos nas Caldas. Faço um scan e mando-to, se a busca correr bem.
Bjs. Rosa
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Anabela disse:
Era muito miúda, mas recordo-me perfeitamente do descampado que era o Borlão e também da feira do 15 de Agosto ser lá realizada.Felizmente que se foi transformando, tornando-se numa zona habitável, senão não estaríamos a ler esta magnífica descrição feita através da janela do João, para não falar na sua incrível memória!!!
Olha meu querido João, quero-te dizer que aquela subida da rampa das Cinco Bicas foi feita a maioria das vezes a "butes".Aqui a tua memória falhou, desculpa lá… (Está bem, por vezes o meu Pai levava-me de carro, que não era azul, naquela altura seria talvez branco, mas era um Ford).
Fizeste-me recordar e com saudade as brincadeiras nas escadas de serviço do prédio dos Pimenta de Castro com a S.Luís e os seus irmãos, Fázinha e Jorge.
Confesso que sinto uma nostalgia quando passo pelo Borlão, pois já não é o Borlão da minha meninice…
Anabela Miguel
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Manuela disse...
Antes de mais, Jales, felicito-te pelo teu excelente texto, o Borlão, “visto” da tua Janela. Um perfeito documentário!
As palavras estão cá e elas próprias desencadeiam as imagens.Por momentos regressei à “minha” janela do Hemiciclo Frederico Ulrich. Vi as carinhas bonitas daqueles meninos que jogavam à bola atrás da Igreja e no descampado mesmo ao lado da "minha" casa. Percorri, tendo por guia a tua espantosa memória, todas aquelas ruas, até a toponímia me não escapou, já quanto aos andares e números de polícia das casas dos nossos colegas e Professores…A Benilde, a Anabela, a Mafalda, as colegas e amigas que me eram mais “próximas”. A a Benilde,"luminosa", como a definiste bem! Ainda hoje em dia mantém essa mesma "luminosidade".
"Há palavras que fazem bater mais depressa o coração…" disse Almada Negreiros.O meu bateu mais forte por não te teres esquecido de mim e dos meus irmãos e, muito especialmente, pelas palavras elogiosas com que te referes a meu Pai. A testemunha, com toda a certeza, não se sentia bem no “papel” de mentirosa. Quem pode gostar da mentira?
Manuela Gama Vieira
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SALETTE disse...
Olá,João
Que óptima memória e que descrição deliciosa!adorei rever o nosso querido Borlão...olha,quando da tua janela espreitavas a EngºDuarte Pacheco nunca avistaste o Nuno Mendes? Ele morava aí, no prédio em frente ao dos manos Hipólitos.
Eu,antes de morar no chamado prédio da Rocaltur, morei alguns anos na Duarte Pacheco,nº13, daí que recordo muito bem essa zona.Era emocionante a altura das feiras bem como a vinda ocasional de companhias de teatro que actuavam numa tenda junto á igreja.
Eu e a Benilde (que nessa altura era minha querida vizinha de prédio)chorámos baba e ranho a ver ''Amor de Perdição''.E as idas á Avenida da Estação para apanhar folhas para os nossos bichos da seda? Tantas memórias...
Beijinho
Salette
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Ana Luisa disse...Tanto ou mais do que a escrita admiro a tua memória. Por momentos lembrei um Borlão bem mais bonito do que estava na semana passada.
E da Ana Isabel por acaso sabes alguma coisa? Fomos muito amigas enquanto estive no ERO e claro também passávamos férias em S. Martinho, mas depois de alguns anos perdi o contacto.Algumas tardes ao lanchinho que a mãe dela nos preparava também íamos dando umas espreitadelas ao largo para "ver quem passava"...
Beijinhos
Ana Luisa
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Paulinha disse...
Olá João
Eu e a minha amiga Anabela Castro Afonso, inseparáveis como sempre, estamos a passar uns dias de férias aqui no Algarve e como habitualmente atentissimas ao nosso blog, lemos juntas mais um fantástico texto escrito por ti. Memória prodigiosa!!!! realmente brilhante como sempre, continuo a achar que devias escrever um livro...
Parabens João.

Bjs PP
jorge disse...a memória do jj é fantástica(ou eu estou muito mais senil do que julgava)mas o que mais me admirou foi a capacidade de transformar o que poderia parecer uma lista telefónica num documentário,como´disse a manuela.mas lembro-me também do nuno,do azevedo santos e da salette na duarte pacheco,quando estavam a ser construidos os prédios de que aqui se fala.
junto os meus parabéns aos muitos que já cá estão!j
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Isabel X disse...
Recém-construído e vaticinado para novo centro da cidade, era toda uma geração de colegas e amigos nossos que morava no Borlão e nas suas imediações.
A prodigosa memória do Jales e a forma quase fotográfica como descreve o que via, de umas e de outras janelas, com o pescoço mais ou menos esticado, fascinam-me!
A Paula Jales e a Tucha chegaram a ser minhas colegas no colégio, porque tiveram que repetir um ano; a Ana Salgado não, porque, em condições idênticas às das colegas, foi mandada para o Colégio Andaluz de Santarém, pelos pais.Lembro-me bem de frequentar a casa da Paula e a da Ana. Belas festas de aniversário!
A amiga da minha geração que mais cedo "me morreu", a Isabel Reis Vieira, também morava no Borlão e uma outra amiga da primária, a Célia, de quem nunca mais soube nada.
Não fazia a menor ideia de que a Eunice Muñoz tinha morado nas Caldas, mas achei graça. Pena nunca me ter apercebido...
Tal como o Xavier e a Mafalda Serrano, também o João Jales e a Ana Paula Gouveia continuam "vizinhos" hoje em dia, mas com o o importante "pormenor" de ser no mesmo bairro da adolescência. "O bom filho à casa torna" ou será antes "os bons filhos que tornam a casa?"
Muito gratificante encontrar este retrato tão vivo dos amigos antigos. Até parece que voltamos à adolescência.
Parabéns, JJ!
- Isabel Xavier -
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Luis Abel disse :
Vivi no Borlão desde 1964, conheci bem o autor da prosa meia dúzia de anos depois quando me tornei pau-de-cabeleira para que pudesse mamoriscar a minha irmã Paula e ainda melhor quando, muitos anos depois, se tornou meu cunhado oficial.
Por isso, não é para mim novidade nenhuma a sua impressionante capacidade de memorizar factos e de os relatar. Já a minha...enfim, acho que nunca me contaste que a Eunice Munoz vivia por cima de ti, essa foi nova para mim!
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Alfredo disse...
A sorte que o fotógrafo teve de apanhar apenas um carro estacionado frente ao Tribunal (ironia)!Se calhar era dos noivos!
Nesta data passava por aqui todos os dias rumo á Escola Comercial e Industrial, ía saír por um portão de ferro frente á Praça de Touros. Às segundas feiras havia um mercado de cebôlo e outros artigos de horta, ao longo da avenida que começava no Largo da Estação e se prolongava até ao Quartel dos Bombeiros.
Joaquim disse:
João, na segunda destas duas fotos mais antigas, olhando de frente está a igreja e já se vê no meio a "rotunda". Mais para a direita está uma velha arrecadação que julgo pertencia à Câmara e que permaneceu lá durante muitos anos.
Na Rua Fonte do Pinheiro, que fazia parte desse Largo do Borlão, havia um muro "cor avinhada" que se alongava talvez até à Rua do Jasmim, com umas "humildes" casas de rés do chão e nelas moravam duas figuras simples e populares da nossa pequena cidade: eram o nosso " Ti'Pacheco" dos gelados e das quentinhas e boas e o Ti'Sebastião que era o "bagageiro" de serviço das Caldas, que percorria a cidade com a sua carroça e a sua esposa ao lado para dar uma ajuda se tal fosse necessário Quaisquer comerciante da época e não só...se lembrarão deles.
Bem hajam
Joaquim
(Estou fora do nosso país há mais de quatro décadas ,o quer dizer posso estar a ver o filme um pouco mal focado. Espero que não)
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Meus Sonhos disse...
O centro das Caldas continuou a ser a Praça da Fruta,o Borlão era as Avenidas Novas ou o Arieiro das Caldas como diz o JJ.
A memória do autor é realmente invulgar e o seu relato um testemhnho único de um tempo que não volta.Ninguém referiu ainda a conclusão final,em que se diz que as famílias com crianças foram substituídas por escritórios e serviços,desertificando o centro da cidade.Isso é verdade em quase todas as cidades portuguesas.
Grande post.
Parabéns, Jales!
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Não vos dou a certeza do ano em que fui habitar no “Borlão”, mas parece-me foi em 1959, para a rua Coronel Santos Costa, que à data nem estava alcatroada.
Esta mudança de residência deveu-se ao detectar do problema cardíaco do meu Pai, e aos médicos o mandarem evitar todos os esforços, até subir escadas; devido a isso fomos habitar um prédio com elevador.
A Laura tem toda razão em eu me recordar de ser ali o recinto da feira, o primeiro ano que eu habito lá, é precisamente o último das feiras no “Borlão”, tudo o resto coincide com o que eu me recordo.
Pouco tempo habitei na R. Coronel Santos Costa, logo que os prédios dos Capristanos estão construídos, vou residir para lá.
“A MINHA JANELA SOBRE O BORLÃO”, aproveitando as palavras do João Jales, apenas a ocupei quatro anos, em 1963 o serviço militar colocou-me perante outras janelas.
João Ramos Franco
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Benilde disse...
Olá João,
Que memória prodigiosa...
Gostei muito!
Bjs
Benilde
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João Joaquim disse...
Boa memória a do João, saber aqueles nomes todos é de apreciar.
Antes do João por ali morar, eu deslocava-me muitas vezes à Rua das Flores, onde o meu pai tinha uma pequena oficina de serralharia com o Constantino (pai do conhecido ceramista Constantino ) e então corria toda aquela área para brincar e jogar à bola com a "malta" do Bairro do Viola.
Dizia-se que nas traseiras dos armazéns de ferro do T. dos Santos(Rua 31 de Janeiro) teriam sido ali fuzilados alguns locais que se teriam revoltado contra as forças francesas. Toda aquela área era de terra batida e ali, no Largo do Borlão, se fizeram as melhores feiras anuais que as Caldas conheceram, a do São João e logo a seguir a do 15 de Agosto. Depois veio o progresso e tudo isso desapareceu, a Igreja e esses prédios, alguns sem classe alguma (os primeiros, vá lá, vá lá, depois os outros foram apenas construção e mais construção) .
O João apesar de mais novo uns anitos ainda tem a visão de tudo que existia por detrás da igreja e que se manteve durante muitos anos. Não sei ao certo o que havia de verdade nisto mas dizia-se que para tirar o tráfego desde a Rainha à Praça da Fruta, a calçada 5 de Outubro seria alargada, desde o Largo C. de Fontalva, passava no lado esquerdo da antiga Praça do Peixe , até à presente rua Padre A. Emílio e por ai fora.... Seria ideias dos arquitectos de obras feitas (opiniões), ou seriam planos da Câmara de então?
Parabéns
João Joaquim
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Isabel X disse...
Houve mesmo fuzilamentos na cerca do Borlão, no período das Invasões Francesas. Eu já escrevi sobre isso para a Gazeta, mas o que é realmente relevante é saber que há lá um "monumento" de homenagem aos fuzilados que é da autoria do "nosso" Zéquinha Pereira da Silva!
E esta... ein? Uma "caixinha de surpresas", o Zéquinha!...
- Isabel Xavier -
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J.L. Reboleira Alexandre disse...
O João diz que escreveu isto de chofre e nós até acreditamos. A verve dele está toda aqui.
Afinal Caldas, cidade, nesta altura não se distinguia muito das aldeias circundantes, no que à vivência da miudagem diz respeito. A maioria dos garotos jogava a bola e só se distraia quando aparecia à janela uma daquelas «princesas» que alteravam o ritmo cardiaco daqueles.
Lá na minha aldeia tudo se passava da mesma forma, a única diferença estaria na mudança da identificação dos progenitores para:
- os filhos do Zé Mau, do Zé Sapateiro (da familia da avó dos meus netos Antoine e Coralie), do Zé Rato, do Zé da Quinta (pai daquele que segundo o nosso amigo Sanches, e eu concordo, era na altura o conterrâneo mais ilustre da terra) «et ainsi de suite».
Belo retrato de uma época.
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Isabel disse...
Olá Colegas,
Adorei ver o Borlão como ele era nos meus tempos de miúda. Quem disse algum dia que não vivemos de recordações? Eu prezo as minhas como se petiscos fossem!
Saudades dos outros tempos em todos nós tínhamos uma vidinha estudantil mais apetecível. Abençoados todos vocês que colocam fotos inexcedíveis no Blog do meu Colégio de excelência...
Mil abraços de Óbidos,
Isabel de Azevedo Noronha
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Alberto Pereira disse:
Um texto bem giro; lembro-me de ir à caça das rãs que existiam nos charcos de água que se formavam atrás do Tribunal ainda não havia prédios por lá.
Também me recordo do circo que se instalava no local onde agora é a Câmara; uma noite o urso fugiu pela R.Engº Duarte Pacheco e, partindo as vidraças, entrou na Mercearia Simão; os meus Pais chamaram a Polícia pensando tratar-se de um assalto e imaginem os guardas quando lá chegaram e viram que o assaltante era um urso que estava calma e tranquilamente a comer todos os rebuçados que o Sr. Simão tinha em stock.
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Belão disse...
Mas que memória, João!Ler o teu texto foi um mais um regresso ao passado e que me trouxe à memória tantos episódios...Éramos tantos e todos vizinhos!
Lembrei-me das brincadeiras nas escadas do tribunal enquanto esperávamos a carrinha do ERO, logo pela manhã.
Também me lembro da cena do urso, que o meu vizinho do 1º andar(o Alberto) aqui conta e que deixou sem palavras os clientes mais notívagos do Avenida, um deles, segundo consta, não sei se anestesiado pela cerveja,pensou tratar-se de uma senhora pela rua de casaco de peles.
Adorei.
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Antonio Hipolito disse:
Um pequeno apontamento que a prosa do JJ me atiçou a fazer, provocado talvez por ainda hoje lamentar não ter continuado a aprendizagem do piano, por a madame Palavicini se ter ido embora das Caldas ... sim eu tambem era uma daquelas crianças.
Falta na lista de nomes apresentada, quer pelo autor como pelos comentadores, e atendendo que se chegou práticamente à estação da então CP, em frente ao Zé Neto, na esquina do outro lado da avenida morava a nossa colega Cristina Rolim e o mano.
Abraço do Tózé H.
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Inês disse:
Parabéns, JJ. Como você escreve bem!
Inês
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Manuel Agudo disse:
Obrigado J Jales, por me ter recordado os tempos de miúdo. De facto naquele bairro habitacional vivíamos muitos colegas do ERO, dos quais o JJ tem uma lista quase completa. Se me recordar de mais alguns digo! Apenas para recordar que entre mim e a minha irmã Ana Luísa, há um outro irmão do ERO (Zé) e recordo-me também de a minha irmã ter uma colega - Ana Isabel que morava no quarteirão mais próximo do Tribunal .Parabéns pela recordação da "Burlópole"
Manuel Agudo
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JJ respondeu:
Faltava realmente o vosso irmão Zé, mas a Ana Isabel está no texto.
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Laura disse...
João,os meus parabéns, está um texto muito bom e elucidativo!As coisas que eu aprendo com as publicações deste blog! Adorei mesmo...
Por seres muito novinho não te lembras das feiras, que também poderias ver da tua Janela! Mas o João Ramos Franco deve lembrar-se...pois não foge muito da minha geração.Eram muito engraçadas as feiras do São João e do 15 de Agosto no largo do "Borlão".
Retenho na minha memória uma pombinha de madeira...que ao ser empurrada batia as asas...uma delicia!!! Coisas de criança...e prendas de um avô!!
Laura Morgado
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Luis disse...
Para completistas - Faltam que me lembre a Célia, Maine,Guilherme, Domingos Afonso (filho de sub-gerente do BES), Carlos e irmãos (filhos do juíz) no hemiciclo; Graciano e irmãos (da Sapataria Mário), na avenida; Meirim na transversal da av.; Luís Brito e João Pedro (família Correia), Paulo Moreira, Pedro Mil-Homens, na Eng. Duarte Pacheco. Eu e a família Castro, vizinhos na Heróis da Grande Guerra e com passagem pedonal das traseiras para o Hemiciclo, zona das oficinas do A. Flores. Há mais...
Luís Lamy
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Luis disse...E faltam tb os irmão Santos (filhos do chefe dos CTT), na Eng. Duarte Pacheco - Luís Lamy
PS: Põe o Manique na Eng. Duarte Pacheco - Lamy
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Artur Henrique Ribeiro Gonçalves no Facebook:Uma evocação muito viva do Borlão que eu ainda conheci, um pouco de raspão...
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Paulo Caiado no Facebook:Tantos nomes que me são próximos!
Faltam os da minha geração claro, como as manas Velhinho, Cristina Caramelo, Paula Melo, Bandeira Duarte, Tomás Marques, Costa Faro, os Ruas também conhecidos pelos ''Torralta'' (Sónia, Luis e Paulo) o Luis Correia (filho do Dr. João Correia) e mais tarde os Morgado (Nuno, Vasco e Marcelo), Rosário (Pedro e Sandra), os meus primos do outro lado da Praça, a Rosarinho Moreira, a Paula do tribunal , os Cabrais (Manuela, João Paulo e Tiago) e outra familia que viviam no prédio da Telstar (Manuela e dois rapazes, um já falecido) e toda a troupe da Raul Proença que são tantos que encheriam o blog!
(Na sua maioria todos os ''habitantes do Borlão e Avenida e perpendiculares'' dos anos 70 estão enunciados na crónica ''Cruzando os Anos em Poucos Dias - Diário de um Estudante''.)Paulo Caiado (Facebook)

(ES)QUINAS



(Es)quinas





O chamamento, num tom ansioso, chegava-me cada vez mais distintamente. – “João José? Filho? João José?”. Agora percebia que era a voz da minha mãe. Tentei abrir os olhos, mas as pálpebras pesavam-me. Procurei levantar-me, mas o corpo não obedecia. Mexi os lábios, mas não consegui articular qualquer palavra.

Ergui o braço que logo voltou a cair. A minha mãe continuava a pronunciar o meu nome. A sua voz estava agora muito perto. Estremeci, agitado. “Oh, graças a Deus!” – disse ela, num tom que me sossegou. “Não deve ser grave”, pensei, tentando perceber se a aflição em redor podia ter sido ocasionada por mim. No meu quotidiano o síndrome de “suspeito do costume” era tão frequentemente activado que me treinara a descortinar todas as escapatórias. E ali, na solicitude inquieta da minha mãe, eu podia adivinhar uma folga oportuna. Fosse o que fosse que tivesse acontecido, não parecia ter sido culpa minha. De modo que me atrevi a perguntar: - “Que foi, mãe?” - e, desta vez, a minha voz, embora trémula, soou-me clara.

– “Consegues levantar-te?” Só então percebi que estava deitado no chão, meio torcido sobre mim próprio, uma perna e um braço dobrados e a cabeça muito demasiado perto do tamborete que suportava o pote antigo das azeitonas. Fiz um esforço e consegui sentar-me. Não me doía nada, outra conclusão desafiadora, pois era sabido que um extenso cardápio de pequenas dores faz parte das atribulações do dia a dia de um miúdo irrequieto. Confiante, tentei pôr-me de pé, mas sem o auxílio da minha mãe, provavelmente teria voltado ingloriamente ao chão. Sentia-me um pouco zonzo, mas estranhamente feliz, como se tivesse regressado à vida, sentindo pouco a pouco o corpo readquirir equilíbrio e as sensações reconfortantes do espaço e do tempo.

Não me lembrava do que sucedera. A última sensação que retivera era do mundo a rodopiar à minha volta e da queda iminente. – “Perdeste os sentidos, meu filho.“ A expressão era nova para mim, tentei absorver o significado das palavras: - “Perdi os sentidos?” - repeti em voz alta. – “E agora, mãe, já apareceram?” – “Ouvi um grito teu, seguido de um estrondo e vim a correr. Estavas caído no chão e não me ouvias. Que aconteceu? Porque gritaste”?

Parca em novidades, a pequena aldeia fez do acontecimento tema de comentários no dia seguinte.

- “O menino teve um desmaio”, contou a Francelina. - “A mãe não o deixou sair toda a tarde, coitadito”. -“Foi um grande susto”, rematou o Tóino. -“Aquilo passou-se quando ele estava à janela”. – “Muito gosta ele de ir para aquela janela!” – observou o Rosinda. – “Põe-se ali a ver os animais que passam no carreiro, os pássaros que se empoleiram na árvore. Às vezes cola papéis com palavras nos vidros. E desenhos. Fotografias. Bocados de jornais. Outras vezes, abre-a para ouvir melhor”. – “Oh, é para escutar o ruído dos carros e das camionetas que passam além, na estrada de macdam”. – “Põe-se a olhar para os montes e para as nuvens como se dali viessem sinais”. - “Foi o que aconteceu ontem. Ao abrir a janela bateu com o cotovelo na quina”. – “Até me faz impressão só de pensar. Dizem que é uma dor horrível”. – “Quina contra quina – quina do braço contra quina da janela”.
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João B Serra
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C O M E N T Á R I O S
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Isabel disse:
Até parece que sentimos a aflição da mãe, ansiosa por que o filho recobre os sentidos. Até parece que sentimos a estranheza e o alívio do filho quando, aospoucos, se sente voltar a si. Naquele dia o protagonista do acidente foi o centro das atenções, dos cuidados, das conversas de todos(eu lembro-me de em criança, quando fazia um disparate, me esconder e desejar ardentemente que me acontecesse qualquer coisa de mal para, em vez do merecido castigo que me aguardava, passar a ser alvo do carinho de todos).
Eis revelado (julgo) o motivo original da paixão do João por janelas! Curioso do que o rodeava, debruçou-se tanto, que caíu da janela abaixo: uma atracção que lhe ia sendo fatal e que lhe deixou sequelas... sentimentais. Quina contra quina (da janela, do autor), no título subtilmente transformadas em es(quinas), outra grande afeição do João, também dá que pensar! É que há uma lição de vida a retirar deste caso: quem se apaixona por janelas é porque em algum momento sofreu por elas, ou caíu delas abaixo. Como em tudo na vida, aliás.
Belíssima narrativa! Viva, expressiva, cheia de simbolismo! Gostei imenso!
- Isabel Xavier -
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Isabel Esse disse...
Um menino irrequieto e curioso teve um acidente invulgar e,pelos vistos,muito doloroso -resultado um post muito engraçado,irrequieto como deve ter sido o seu autor.
É sempre um prazer ler a prosa de João Serra!!!IS
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J J disse...
Interrogo-me muitas vezes sobre os motivos que levam a que determinados episódios do nosso passado fiquem tão nítidos na nossa memória, enquanto outros, aparentemente de igual (ou até maior) importância, se esfumam sem rasto...
Este parece ser um episódio marcante na vida do autor, mas porquê? Pela dor, pela perca dos sentidos, pela preocupação materna, pelos comentários dos outros ou porque lho relataram ou referiram posteriormente com frequência?
Não tive aqui resposta para a minha interrogação, confesso, mas é sempre com gosto que vejo um retrato "pintado" desta forma, com lápis fino e economia de traços.
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João Ramos Franco disse...
Ler esta narrativa de um episódio, do então menino João Serra, tem uma certa piada.
Ao dizer “No meu quotidiano o síndrome de “suspeito do costume” (visto pela Mãe) “, ou até como é visto pelos outros: “Põe-se a olhar para os montes e para as nuvens como se dali viessem sinais”. - “Foi o que aconteceu ontem. Ao abrir a janela bateu com o cotovelo na quina”.
Visto agora e rebuscando todos os relatos que tenho lido, encontro o João Serra que conheço e de quem me tornei amigo.
Um abraço amigo do
João Ramos Franco
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jorge disse...
histórias em estilo telegráfico,muita uva e pouca parra...muito bom,como de costume,o post do j s,levando-nos não só ao tempo mas ao local da sua infância.optimo.j
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Belão disse...
Se eu não estava nada a ver o João como um rapazinho irrequieto ao ponto de o "síndrome de suspeito do costume" ser tão "frequentemente activado"? Não foi uma surpresa, de facto. Os miúdos reguilas têm sempre muito mais para contar. E o João fá-lo como ninguém.
Um beijo ao meu amigo JS.
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Alfredo disse...
(Es)quinas
(“Não deve ser grave”, pensei, tentando perceber se a aflição em redor podia ter sido ocasionada por mim. No meu quotidiano o síndrome de “suspeito do costume” era tão frequentemente activado que me treinara a descortinar todas as escapatórias. E ali, na solicitude inquieta da minha mãe, eu podia adivinhar uma folga oportuna. Fosse o que fosse que tivesse acontecido, não parecia ter sido culpa minha.)
-O conto que o João Serra nos traz, para além de uma prosa excelente, a que já estamos habituados a ler, traz-nos também que, já ao tempo, uma rara subtileza política, o que me leva a crer que se tivesse seguido esta carreira, talvez, se tivesse saído vitorioso, senão vejamos: já tinha o espírito treinado para descortinar todas as escapatórias para possíveis erros cometidos, e fosse qual fosse o acontecido a culpa seria sempre de terceiros e nunca dele.Será que isto nos faz lembrar os políticos de hoje ou é somente impressão minha? Até parece o outro a dizer que o Governo não mentiu (TVI). Pois não. A acusação também não diz que foi o Governo, foi ele.
Um abraço
A.Justiça
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Joaquim disse...
Eu gosto muito dos contos do João Serra e neste está um pouco da criancice de todos nós "uns mais traquinas que outros e lá íamos causando sarilhos aos pais, mas por vezes pagávamos pela fama (bicho carpinteiro), mas sempre com o amor deles".
A minha estória de verdade, não era uma quina ou esquina, talvez... a quina partida de um tronco de árvore e um sexto sentido ou preocupação de uma mãe. Quem conhece as Caldas e em particular a área da antiga praça do peixe até ao Largo da Feira Velha, conhece as duas ruas que se unem, apenas divididas pela Calçada 5 de Outubro. Elas são a Rua das Vacarias e a Rua da Ilha. A das Vacarias era uma dum antigo calcetado,uma espécie de paralelepípedos toscos. A Rua da Ilha era de terra solta e argilosa. Elas eram um mundo rural dentro da cidade, pois nelas haviam currais para bovinos, estábulos para cavalos, cocheiras para burros e outros animais. A meio da Rua da Ilha existia a casa e o quintal do Zé Martins (latoeiro bem conhecido dessa época) da família dos Clérigos, conhecido empresário com um estabelecimento de ferragens e torrefacção de café na Rua H. da Grande Guerra em frente aos Caldeanos. Essa propriedade na dita Rua da Ilha tinha a casa para a rua e o quintal ìa até ao chafariz na estrada da Foz, mesmo em frente da antiga casa do João Franco (veterinário), dos Paramos e depois o mui conhecido Zé de Sousa.
Em Setembro era uma alegria, havia o chegar das uvas que vinham das vindimas, pois nessa casa havia um grande lagar e com a azafama da entrega das mesmas sempre havia um cacho ou dois que conseguíamos "desviar". Ora para fazer a estória mais curta; nesse quintal havia uma serie de árvores de fruta, o que quer dizer "a good supply" de sobrevivência Entre essas árvores de fruta havia uma grande nespereira. E como tal, mesmo contra a lei lá íamos "roubar" esses deliciosos frutos,até que um belo dia, eu ao ouvir o alarme de um dos "fora da lei"... vem aí o dono (mentira), ao tentar fugir fiquei preso num tronco da árvore, quase de cabeça para baixo sem conseguir sair dele. Eu lembro-me que a minha mãe que era costureira de calças tinha-me feito uns calções de alças que não tinham botões para que eu não os pudesse arrancar para o jogo do "botão" por isso eu não conseguia sair daquela aflita situação. Tanto, tanto gritei que a minha saudosa mãe, de quem se dizia que tinha ouvidos de "tuberculosa",disse à Josefa (sogra do Mário Lino): -o meu filho está a gritar - e lá foram em meu salvamento.
Moral da estória: o meu pai soube do sucedido e lá vai o então "chá de pau de marmeleiro". Para quem não saiba o significado desse tal chá . é que o tronco do marmeleiro é cheio de nós e quando bate nas costas faz mesmo mossa
Eu menciono nomes e ruas como eram nos anos 50 para que não se percam na história e que certamente a fizeram na nossa cidade, mesmo pequeno que fosse esse contributo.....
Joaquim
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Manuela disse:
Tudo tem uma explicação. A Francelina e o Tónio, carinhosamente, na posse de alguns indícios - os momentos passados à janela, os papéis com “dizeres” nela colados, a falta de autorização para sair de casa - logo se apressaram a encontrar a razão de tamanha dor. Dor de juventude. Sequiosa, sonhadora, inquieta, arrojada. Só não souberam identificá-la. Os sinais, esses, reconheceram-nos com notável sensibilidade.
Que bonita a troca de afectos entre Mãe e filho, entre “palavras” de despertar da perda de sentidos.Linda homenagem que o João aqui presta a sua Mãe e às pessoas simples da sua terra.
O que as (es)quinas de uma janela e de um cotovelo podem ocasionar e revelar!
Manuela Gama Vieira
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Júlia Ferreira disse...
A crónica do João Serra é uma ternura. A narrativa de um episódio das tropelias do «suspeito do costume» mostra bem que, como diz algures o Drummond de Andrade, «mãe não tem limite». Boa escolha também da fotografia da janela, espaço de descoberta, espelhando nuvens, de onde o menino curioso espera «sinais».
Júlia Ferreira
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UMA JANELA SOBRE O MAR

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Madrugada. A Nascente o Sol desponta e espreita timidamente por sobre os picos mais altos da Serra de Aire. No céu pequenos nimbos de nuvens sob um azul claro e vivo de luminosidade prenunciam uma manhã calma e amena. As águas da baía vão formando pequenas ondas a um ritmo certo, que vêm rebentar sobre o areal e nele espairecerem numa monotonia melódica neste despontar do dia e ouve-se imperceptivelmente o marejare o pipilar dos pássaros, ao longe, nas árvores do largo, como que dando alegremente bênçãos ao céu numa ininterrupta dança sem rumo e uma cantilena que, por serem aos milhares, quase se torna, quando ouvidos mais de perto, ensurdecedora.
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O cais dos pescadores, de embarque e desembarque para os barcos,pequenas chavascas a remos, feitas de madeira, pesados e de fundo chato com saliências para melhor equilíbrio e evitar o desgaste docasco quando arrastadas pela areia, vai-se compondo de vida e azáfama preparando-se para mais um dia de faina. Os pescadores caminham ao longo e para o fim do cais transportandoconsigo as canas de pesca, o balde e a sacola com os parcos mantimentos que irão digerir durante o dia em pleno mar alto e que, na maioria das vezes, não passa de um naco de pão cozido na véspera ou, antes disso, umas postas de peixe frito e azeitonas, bem como uma garrafinha de vinho tinto, ideal para amenizar os enjoos, aquecer as entranhas e alegrar um pouco a vida soturna e áspera que levam consigo, e uma garrafa de água para mitigar a sede.Os rostos sulcados por profundas rugas em pele dura e áspera ganhas não só pela idade mas, e principalmente, pelo bater da brisa ou venton orte e frio que corta com dor, juntamente com o sol abrasador que,e spelhado pela água do oceano, se intensifica, fere os olhos e seca o sal, não só do mar como também do suor. Roupas grossas - o que tapa o frio tapa o calor - retesadas pela água e pelo sol, cinzentas, como cinzenta é a vida deles, e que ferem ac arne do corpo devido ao roçar e ao suor. Na cabeça um chapéu de pala em pano, estilo francês, comprado numa qualquer feira de uma qualquer aldeia dos arredores que de tanto servirem para limpar o suor dorosto, pescoço e testa, adquiriu uma cor indefinida.Mãos calejadas, grossas e com feridas do passado recente que o tempo ajudou a sarar, unhas grossas e cinzentas sem corte definido mas desbastadas pelas grossas cordas de cânhamo da amarração das embarcações às poitas ou ferros de ancoragem. Caminham apressados pois não querem perder a maré e ei-los que embarcam e com vigorosas braçadas remam rumo á barra e ao mar aberto.
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O sol já desce para poente e de repente um bando de numerosas gaivotas, como que vindas do nada, esvoaçam por sobre as águas da baía. Voam em círculos com esporádicos pousos sobre a água e sobre o areal de um amarelo dourado e areias finas. A ondulação na baía tornou-se mais forte e as ondas mais altaneiras e barulhentas. A preia-mar está no seu auge e a água já beija a superfície do cais. Pela barra nota-se, no horizonte longínquo, a formação de nuvens negras que rapidamente caminham para terra. Vem aí borrasca e da grossa e elas, as gaivotas, são as primeiras a saberem e, por isso, recolhem a terra muito antes do homem sequer desconfiar desta mudança repentina da atmosfera. Os barcos vão entrando na baía já com alguma dificuldade para vencerem as ondas da barra.


.Os pescadores, um a um, põem os pés em terra e ali ficam a ver os outros chegarem. O alerta soa nas mentes de cada um. Falta o barco doti’Joaquim.

- Quem estava com ele? - perguntam uns para os outros.
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-Estavamo ti’Toino e ti’João e deviam estar com sorte pois notava-se o carrego do barco. Deviam estar a fazer uma bela pescaria.
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Alguns em passo apressado resolvem subir a escadaria que os leva ao farol e à capelinha e de lá avistam o barco do ti’Joaquim tentando uma aberta para entrar. São várias as tentativas e desistências e o mar de minuto a minuto mais se encrespava e no lago já as ondas se enrolavam e rebentavam. No cais as ondas já o varriam em todo o seu comprimento e vinham bater com força nos quebra mar que protegiam as casas. A água já entrava pelos quintais e invadia os jardins frontais. Espuma amarelada de barrenta ficava depositada na terra. Quem diria que numa manhã tão calma o dia se transformaria assim de um momento para o outro?
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Homens e mulheres, alheios ao perigo corriam para chegar aos Socorros a Náufragos na tentativa de ajudar fosse no que fosse. Ao largo o ti’Joaquim faz a derradeira tentativa para entrar na baía. Acontecesse o que acontecesse, ali não podiam ficar e aconteceu o pior, o mar parecia estar desejoso por saborear carne viva e palpitante de vida, medo, terror e ansiedade, atira-se encarniçadamente contra o bote, envolvendo-o, partindo-o em estilhaços, enrolando-o num abraço fatal atirando para a morte os seus ocupantes. Luta-se com todas as forças que o desespero dispensa aos homens na sua ânsia de viver mas os esforços são diminutos contra a atroz força das águas enraivecidas e leva-os para o fundo. O resto do barco acaba por embater com extremaviolência contra as rochas do penedo e ti’Joaquim, ti’Toino e ti’João não mais são vistos.
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Nesse resto de tarde, noite e seguintes dias, a praia é calcorreada pelas pessoas da aldeia, pescadores e outros, todos se solidarizam nas buscas e vigília, na esperança de que, pelo menos, o mar devolva os corpos para que se pudesse dar-lhes o eterno descanso. As mulheres choram um pranto sonoro com gritos de desesperança, lamentos, pragas, injúrias contra o mar que lhes tinha roubado os entes queridos e as tinha atirado para as incertezas do futuro com a falta daqueles que lhes punham o pão nosso de cada dia na mesa. Mas o mar, soberbo e altivo guarda-os só para ele e não os devolve.
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Hoje apenas são recordados e servem de alerta para os actuais espíritos mais aventureiros fazendo-os recuar nos seus intuitos de saírem a barra com condições de tempo adversas ou simplesmente incertas.
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Mas da minha janela também se vêem coisas lindas e outras deslumbrantes… principalmente no Verão.
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A.Justiça
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C O M E N T Á R I O S
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Isabel X disse...
Comovente este testemunho trazido pelo Justiça, bem como o modo como o conta neste texto. Lembro-me do Justiça, de quando éramos mais novos, de S. Martinho, mas nessa altura só o conhecia "de vista" (como se costuma dizer). Mais tarde vim a conhecê-lo como colega na Escola onde ainda lecciono e da qual o Justiça já se aposentou.
Mas, reconheço, não o conhecia... Não imaginei nele esta rara capacidade de descrição do sofrimento, com dignidade, com humanidade. Gosto de conhecê-lo deste modo novo.
O caso de vida que o Justiça aqui traz faz-me lembrar uma canção de Patxi Andion, belíssima, cheia de força, cujo nome não me ocorre, que fala de um "marino", a quem foram morrendo todos os companheiros da faina, e que se refugia na bebida. Termina a canção, referindo-se-lhe como "un marino", "un borracho com toda la mar detrás".
Muito grata!
- Isabel Xavier -
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Júlia disse...
Um texto muito bonito, mas triste, aquele que o Alfredo Justiça nos traz aqui. Descreve a vida árdua de homens que lutam pela sobrevivência,que se fazem ao mar....um mar, por vezes traiçoeiro, que vai acabando com a vida de muitos seres humanos.
Estes homens sofrem e lutam pelo sustento da mulher, dos filhos que aguardam pelo seu regresso,e é uma vida inteira assim.
É triste, por vezes! Quantos ti'Joaquins, ti'Toinos neste nosso País tão pequenino, partiram com a esperança de voltarem e por lá ficaram.
Obrigada, Alfredo Justiça.
Júlia R
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diz o que te vai na alma disse...
Outros tempos. As mesmas incertezas e angústias. Vidas difíceis que o tempo não apaga. Muito belo e triste.
Dalila Garcia
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Alfredo disse...
Isabel Xavier
O nome não me é totalmente estranho pois de algum modo está ligado a recordações instaladas no meu cérebro que o relacionam com S. Martinho e ao tempo de Escola nas Caldas embora, lamentavelmente para mim, não o consigo ligar com a sua fisionomia de então e, claro, muito menos com a de agora, passados mais de 45 anos. Isto tudo para que não fiquem personalidades trocadas sobre o Alfredo Justiça, eu, e o Justiça, seu colega professor da Proença, meu irmão, ligeiramente mais novo.
Agradeço-lhe as palavras simpáticas a propósito do texto que escrevi sobre o tema "das Janelas" e só a última parte do seu comentário me levou a escrever este esclarecimento para reposição da verdade. No entanto, ainda assim, atrevo-me a dizer, e desde já peço desculpa se assim não fôr, que este relacionamento do seu nome está também ligado á Isabel Veiga, Monserrate, Magda e outras meninas dos anos 60 e naturais, ou pelo menos residentes, em S. Martinho.
Uma vez mais, grato pela atenção que dispensou ao meu escrito e ao comentário que teve a amabilidade de lhe dispensar.
A. Justiça
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Isabel X disse...
Peço desculpa pela troca de "Justiças", altamente injusta aliás, que aqui fiz. Logo que vi que a Júlia se referia ao autor do texto chamando-lhe Alfredo, vi que me enganara.
Do Alfredo, a quem de facto se referem as minhas palavras, não me lembro. Mesmo o "outro" Justiça é mais velho do que eu. Lamento, mas as pessoas a quem me relaciona, Alfredo, são-me completamente estranhas. Nasci em Dezembro de 1957.
Desde que nasci, e até casar, em 1976, quando ainda tinha dezoito anos, fui sempre passar os verões a S. Martinho . (Já agora, divorciei-me aos trinta e seis, estado civil de que sou fervorosamente militante)
Sem desprimor para o próprio, não podia ser mesmo o "Justiça" que eu conhecia. Há aqui um travo feliz de verdade reposta e, por isso, de justiça reposta também.
Parabéns pelo seu texto, Alfredo Justiça. Gostava muito de o conhecer. Peço-lhe desculpa.
- Isabel Xavier -
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J L Reboleira Alexandre disse...
O Alfredo traz-nos, com uma sensibilidade que lhe é própria, mais uma bela narrativa da praia que foi a dele e de muitos de nós.
A minha atenção foi no entanto desviada para a segunda fotografia. Quantos momentos inesquecíveis passou o autor, passàmos todos nós, que frequentàvamos a baia, naquele local, há já tantos anos. Sobretudo no Verão!
Hoje em nome duma massificação do turismo, lá estão todos aqueles blocos de cimento, bem em frente à areia da praia, no género do que pior se faz em muitos outros locais da nossa costa e de outras costas afinal.
Obrigado meu caro.
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Maria João disse...
Boa tarde, Papá!Este texto é muito bonito! Apesar de "nascida e criada" em São Martinho, nunca vejo da minha janela estas histórias que no fundo marcam quem as Gentes são.Obrigada por esta visão :)
Beijos muito doces!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
MJ
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João Ramos Franco disse...
A janela de que olhamos traz-nos por vezes as realidades tristes, aquelas que existem mas que nós não gostamos de aceitar que façam parte do nosso arquivo… Para bem, ou mal, não as conseguimos apagar e elas perpetuam o nosso consciente.
Parabéns, A. Justiça, por este retrato da vida…
Um abraço amigo.
João Ramos Franco
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Guida C.S. disse...
A belíssima descrição do Alfredo sobre o drama dos pescadores levou-me a mim também a esse passado já tão longe, mas estranhamente as fotos insistem em me fazer regressar ao presente... a última vez que estive em S Martinho (e já foi há mais de 40 anos) as urbanizações ainda não estavam lá!
É mega surrealista estar a ver uma imagem completamente diferente da que temos na memória quando lemos uma estória que aí se encaixa perfeitamente!
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Joaquim disse...
Justiça, gosto das estórias que tu contas, tanto do tempo do serviço militar como a mostrar o teu mundo e como o vias.
Apesar de não ser de "São Martelo", nome dado pela malta dos anos 50s, quando havia uns trocados ia até lá na automotora e gostava de atravessar o túnel com os colegas (agora é perigoso), alguns de São Martinho e de Salir, e ver como alguns deles ganhavam uns "cobres" na faina de apanhar o limo, que segundo se dizia era para fins medicinais.
Talvez te encontre no almoço da Foz, que para mim continua a ser "a minha praia".
Joaquim
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Alfredo disse...
As janelas
Caros amigos e amigas de eterna juventude, que recordaram e nos transmitiram recordações de outrora e julgadas esquecidas, mas que afinal apenas estavam arquivadas e adormecidas nesta indecifrável, complexa e, por vezes, inexplicável memória que com extrema facilidade guardou lembranças de um passado já longínquo e por outras esquece as de ontem.
Li e reli, por diversas vezes, os posts e respectivos comentários sobre as janelas que o Vasco Trancoso nos “obrigou” a abrir com a sua “janela”.Vou ousar, e perdoem-me a ousadia, eleger o post que mais me impressionou e ao qual nem me atrevi a comentar pois entendi que quaisquer palavras seriam muito pobres perante a franqueza e verdades simples nele retratado.Todos os posts estão soberbos e, perdoem a imodéstia, o meu também pois retrata um acontecimento verídico do inicio dos anos 50 embora os nomes dos intervenientes sejam forjados porque ainda são vivos os descendentes directos da estória trágico-marítima contada e seria impensável trazer-lhes à memória tamanha tragédia.
O texto que mais me marcou foi o da São Caixinha. Humilde e modesto, sonhador e real, genuíno e puro, descrito com força e descritivo da simplicidade que o nosso mundo de então estava impregnado.Foi realmente a janela que, mesmo difícil de abrir, mais revelou a ternura e emoções sentidas na descoberta do espaço exterior pejado, bem sei, de agruras, e não da beleza pueril visto pelos olhos de uma criança, mas que gostaríamos que assim continuasse a ser por todo o nosso sempre.
Parabéns a todos. Foi um dos momentos mais altos e dignos do blog, repletos de ternura e de recordações de uma época, locais e vivências, demonstrativos de pertencermos à última geração de românticos (ousada esta afirmação? Talvez! Mas atendendo ao que nos rodeia…).
Abraços amistosos.
A.Justiça
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Tó Quim disse:
O maravilhoso texto de Justiça, ao mesmo tempo com pedaços de tristeza, faz com que a minha memória me traga à luz alguns momentos passados em São Martinho.
Nos pequenos momentos em que podia ir para São Martinho, sempre de comboio do Paul (Bombarral) ia para casa da minha tia que era, na altura a governanta da casa do sr. Engenheiro, que é hoje a casa de chá e o hotel situado na marginal.
Lembro-me de querer brincar com os “meninos” desta casa apalaçada e só podia ver. Eu pertencia ao povo e o povo não podia brincar com estes “meninos” Refira-se que tinham a mesma idade que eu.
Também me vem à memória a minha tia, juntamente com as criadas, levar o chá e uns bolinhos às senhoras que estavam nas barracas da praia.São momentos que nunca nos esqueceremos e que marcam o nosso saber para o resto da vida.
Agora, a fotografia do café do facho lembra-me já outros tempos, os finais de tarde com aquele poderoso pôr do sol...
Mais uma vez um grande abraço ao pai deste blog pela vontade de ele existir e a todos aqueles que o alimentam com grandes textos.
António Fialho Marcelino (Tó-Quim)

CAROCHINHAS À JANELA

por M Rosário Pimentel




- Novamente as tagarelas! -exclamava, em voz sonora, a Maria, que acabara de abrir a janela da casa da sua patroa, a fim de implicar com as "lourinhas", como costumava dizer quando se referia a nós. Afinal, que vinha ela fazer para a janela se não tinha brinquedos para mostrar? Tagarelar....
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Nesse dia, estávamos atarefadas a colocar as mobílias das nossas bonecas sobre os parapeitos das respectivas janelas. A seguir à secretária, estante e cadeirão do escritório, continuei a dispor a mesa da sala de jantar com as cadeiras ao redor, o aparador, lareira e candeeiro de pé alto, quando lançando o olhar para a janela oposta, me senti fascinada pela linda mobília de quarto e, para melhor a visualizar, coloquei-me em bicos de pés!...catrapus!
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Um automóvel parou bruscamente e o condutor saiu, apanhando, na estreita rua central dessa vila do Oeste, um par de cadeiras em madeira, por sinal pouco danificadas. Desci as escadas a correr, receando que o senhor batesse à porta, denunciando o que acabara de acontecer. Na véspera, ao ouvir o meu Pai regressar a casa, correra a contar-lhe as grandes novidades, mas ele disse que a Carochinha é que se põe à janela....
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Desde que a Balbina fora ao mercado, como era hábito, e regressara com os géneros alimentícios e as notícias frescas e, nesse dia, muito interessantes para mim, que eu não parara de bambear as cortinas das janelas, para grande arrelia da minha Mãe, a fim de observar a casa em frente.
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A Teresa, recém-chegada de Lisboa, não conheceria outras crianças e, sendo filha única teria que brincar sozinha, tal como eu! Mas os nossos Pais nunca se tinham encontrado e os adultos são muito complicados!
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- Dois tostões de rebuçados. - pedi a um dos empregados da mercearia da minha rua.Com a recomendação materna de não me demorar, saía apressadamente do estabelecimento quando reparei na Teresa à porta de sua casa ,na companhia da empregada. Impulsivamente, corri a oferecer-lhe alguns dos meus rebuçados. Ambas sorrimos e trocamos os nossos nomes.
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No dia seguinte, as nossas janelas abriram-se pela primeira vez. Aos cinco anos, não podia saber que seria o primeiro passo para a futura construção do maravilhoso pilar da AMIZADE.
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Maria do Rosário Pimentel
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C O M E N T Á R I O S
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São Caixinha disse.
Assistimos ao desenrolar de um emaranhado de enternecedores acontecimentos, que nos fazem regressar á essência de ser criança! E que gratificante reencontro!!
Encantadora a sua Janela, os meus parabéns Maria do Rosário!
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Infância
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Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor de lume:
o teu perfume,
lenha
da melancolia
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Carlos de Oliveira in "Cantata"
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São Caixinha
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Alfredo disse...
Enlevo.
É o que sinto ao ler esta descrição da “lourinha” apesar do súbito “catrapus” que me levou a ler mais depressa e em diagonal pensando que a “carochinha” tinha caído, mas afinal tinham caído apenas as cadeiras, obrigando-me a voltar atrás e recomeçar.
Até o pormenor da “galinha da minha vizinha é melhor que a minha” na descrição do fascínio sentido quando viu a mobília da amiga e a complicação dos adultos em entenderem o pensamento e desejos de uma criança.Os dois tostões de rebuçados comprados na mercearia fizeram-me recuar aos que outrora também comprava, na taberna da “gorda”… e que saborosos eram. Eram diferente nessa altura e nessa idade e não mais comi outros assim.
Sim… sem o sabermos na altura, muitas amizades começaram assim e perduram para o resto da vida sem que as janelas se fechem.
A.Justiça
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Filha disse...
Gostei muito, Mãe! Aqui está uma outra área por onde poderias enveredar... relatar as memórias passadas...
Nunca é tarde para nos descobrirmos a nós próprios. Espero um dia também o conseguir.
Continua.
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jorge disse...
delicioso.enternecedor.
é mesmo assim a infância e não é fácil um adulto retratá-la.
só não fiquei a saber onde é esta casa,tão tradicional.
parabéns.j
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Isabel disse:
Reza a história, bem velhinha,
que havia uma Carochinha,
que por ser engraçadinha,
teimou que haveria de casar.
Certo dia, quando estava a varrer a cozinha,
encontrou uma moeda de cinco réis
e correu para ir dizer à vizinha que já não tinha de esperar.
Felizmente,e apesar do acidente das cadeiras,esta nossa "carochinha" acabou a história em beleza,ou melhor,em amizade.
Muito bonita a casa e a fotografia.Onde é?
Bj. IS
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Artur disse...
As grandes histórias contam-se com palavras singelas, como é o caso desta carochinha revisitada e adaptada a uma situação de infância, simultaneamente distante e contígua...
Artur Henrique Ribeiro Gonçalves
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Cristina disse...
Que lindo edificio, bela arquitectura portuguesa e que mundo, história e vidas devem ter existido no seu interior!
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Júlia Ribeiro disse...
Que linda esta História da Carochina ! E assim se constrói uma AMIZADE...
Retratei-me aqui porque fui filha única até aos 8 anos. Umas férias conheci a Balia na Nazaré,tínhamos 6 anos e não mais nos vimos até ao dia em que nos reencontramos no mesmo local. Tinham passado 6 anos e a partir daí algo foi crescendo... uma Amizade muito forte, que se mantém .
Obrigada Maria do Rosário e Parabéns.
Um beijinho
Júlia R
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Manuela disse:
Admirável,a sensibilidade criativa das Carochinhas!Não se enfeitaram para ir para a janela, nem procuravam o joão ratão…mas uma "irmã".
O olhar ditou a empatia, os brinquedos a linguagem, as mobílias estateladas na rua despertaram o carinho de quem passava e os cinco“réis” concretizaram o doce sentimento da partilha. Que delicioso rebuçado!
As crianças são simples, não calculam os seus gestos, não têm artimanhas, buscam tesouros…intangíveis!
A Maria do Rosário leu-nos a história que ela própria e a Teresa umdia escreveram.Gostei muito de vos ouvir "tagarelar”....
As crianças não sabem ESCREVER histórias?
Manuela Gama Vieira