ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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PADRE ALBINO - Outras visões

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(Este é um email pessoal que recebi e que, com a devida autorização da autora, aqui reproduzo. É uma reflexão serena de uma comentadora "sábia".JJ)
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Foi bom ver temperada a opinião mainstream sobre o Director com o outro lado da moeda, pois aquele comentário da Júlia Ribeiro mostra, com grande coragem, o sentimento de gratidão que o Quim Oliveira guarda em relação ao Pe Albino.
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Como o JJ disse, também eu estava numa posição - enquanto testemunha da época e do homem - privilegiada se a compararmos com a dos alunos. Porque pertencia ao grupo dos professores e porque tinha talvez uma capacidade maior, pela idade e pela experiência de vida, de conseguir ver para lá da máscara do padre Albino. Li algures no blog, mas agora não consegui localizar, uma expressão de um Gama Vieira que quando chegou ao E.R.O. gostou do director. Gostou! Porque ele vinha do liceu de Faro, onde conheceu o reitor, esse sim, um verdadeiro terror! Senti-me perfeitamente identificada, pois foi sob esse 'verdugo' que vivi dos 9 aos 16 anos, e as marcas ficaram (como as dos escravos da roça...) por isso entendo bem os alunos.A comparação desse reitor com o padre Albino fazia deste um verdadeiro gentleman, imagine!
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Sob a ditadura os comportamentos sociais estavam altamente programados, quer para os ‘homens’ quer para as ‘senhoras’ e a gente aprendia que tinha que ler nas entrelinhas para achar as ‘bondades’ das pessoas. Excepcionalmente, como aconteceu com o Quim, ou então no convívio diário prolongado, descobriamos uma 'bondade' porque nos era dado ver o tirar da máscara. Era aí que Albino se reduzia à dimensão humana e 'descia' simplesmente à nossa escala.
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Um beijo
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Inês
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Júlia respondeu:
Inês
Desculpe tratá-la assim mas,pela sua maneira de escrever e comentar,não o consigo fazer de outro modo.Conheci-a nas fotos do P. Chico,ainda antes de chegar ao blog, até aí dizia Drª Inês....
Aprecio imenso os seus comentários ,é para mim sempre um prazer lê-los ,de tal maneira que me parece já conhecê-la!Como são as coisas,através de simples leituras termos a sensação que vamos conhecendo as pessoas.Permita-me que a "compare "a uma professora que já aqui foi bastante mencionada,a Drª Alda Lopes.O Jales,no almoço do blog disse que tinha pena de não ter tido a Drª Alda como professora e ,eu mesmo sem a conhecer pessoalmente,apenas do que se tem dito aqui e dos seus comentários digo:Se tivesse tido a Inês como professora teria provavelmente mais uma amiga agora.....
Muito obrigada pelas suas palavras,sempre de conforto, e um beijinho.
Espero ter o prazer de a conhecer no almoço de 14 de Novembro.
Júlia Ribeiro
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Isabel Caixinha
"The much loved Mr. Iceberg..."

O meu pai conta muita vez uma estória do Albino (ele que nunca foi muito de estórias). Como possivelmente podem imaginar, o meu pai tinha uma enorme admiração pelo Padre Albino. Era sempre com entusiasmo que glorificava os seus (a seu ver!) consequentes métodos de disciplina e a sua (ainda a seu ver!) exemplar integridade de carácter. Uma manhã fria e chuvosa de inverno o Director abordou o meu pai com a notícia do falecimento do seu pai. Seria necessário que ele o conduzisse nessa noite e, no dia seguinte, seria o funeral... mas que a notícia não se desse a conhecer, para evitar...aflições!
E assim foi...ainda hoje o meu pai elogia a sobrenatural capacidade do Director no domínio das profundas emoções próprias de tal acontecimento e a força para prosseguir corajosamente impávido e sereno com os encargos do dia! (A São e eu tínhamos a dúvida de qual dos pais do Padre Albino tinho sido o funeral de que o meu pai falava e assim hoje telefonei-lhe e confirmei que tinha sido do pai!).
Fiquei mesmo chocada ao saber do comportamento tão pedante e insensível do Padre Albino ! Incrível...Tão incoerente com a imagem que ele queria projectar...
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Emiliana Rego Filipe
A LARANJA
Vir substituir o Padre António temos que reconhecer que seria para qualquer um uma tarefa difícil! Ainda por cima de uma maneira tão abrupta e imprevisível.No entanto ao padre Albino parecia dar um certo gosto afirmar-se pela negativa.Foram tempos difíceis para nós! Posso mesmo confessar que o colégio, antes um lugar lindo,alegre e agradável tinha muitos dias que me parecia um outro lugar, escuro e triste.
Entre os poucos episódios que recordo vividos com o Padre Albino( eu por estratégia prefiro esquecer as memórias que me são desagradáveis) lembro-me de um que, na altura ,foi para mim muito embaraçoso mas que agora recordo com um sorriso divertido:
Cumprindo um programa bem organizado, tinhamos chegado a Sevilha.Nada conseguia beliscar o entusiasmo com que estávamos a viver a nossa viagem de finalistas a Ceuta. Havia no entanto para mim um senão, a comida espanhola que me ia fazendo acumular alguns dias de quase jejum.
Aquele hotel em Sevilha tinha um ar acolhedor.Vindo da cozinha espalhava-se um tentador cheirinho a carne guizada com esparguete,refeição ainda hoje das minhas preferidas. À hora de ser servido o jantar deixei que o meu prato ficasse substancialmente farto tal era a prespectiva de me deliciar com aquele apetitoso manjar.O Padre Albino, na mesa em frente,lançava-me um olhar reprovador...
Eis senão quando, logo à primeira garfada, eu solto um incontido vómito!...A massa tinha queijo e eu detesto comida com queijo! Gargalhadas soltas, alegres, dos meus companheiros de mesa continuavam a contrastar com o olhar do Padre Albino,agora agravado com um significativo abanar de cabeça.
Chegou por fim a hora da sobremesa. A fruta era laranja, lindas laranjas que me pareceram uma boa alternativa ao prato principal.O único senão desta vez é que teria de as descascar com faca e garfo, tarefa que, confesso,ainda hoje me deixa um pouco desconfortável.Bom,tinha mesmo que ser...e eu considero-me uma mulher corajosa nas grandes decisões. Mas a sorte não estava decididamente do meu lado naquele dia e, logo à primeira tentativa, a laranja resvala do meu pequeno prato e vai projectar-se sem mais nem menos em direcção...adivinhem de quem? Da mesa do Padre Albino!
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Júlia Ribeiro disse:
Estive a ler o blog. A Emiliana já me tinha lido ao telefone a história da laranja, a que achei muita piada e lhe disse que enviasse. Ainda bem que o fez! Júlia
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Luisa disse:
O olhar do Padre Albino,só de me lembrar até tenho calafrios.Reprovava as roupas,os sapatos,a forma de estar,sentar,andar,falar,comer,correr,sei lá,não fazíamos nada bem na opinião dele!Espero que a laranja lhe tenha caído no colo!!!L

ASSÉDIO FEMININO AO PADRE ALBINO

por António José Neto
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Cupido quis tentar o Padre Albino e disparou as suas setas sobre uma viúva das Caldas, de certo nível e fortuna, com familiares no ERO, a ponto de esta lhe escrever cartas apaixonadas. A posição social do director, os seus modos, a sua água de colónia de boa griffe, os seus “tours de force” como vigário surtiram efeitos indesejados.
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Tal importunava-o tremendamente, a ponto de um dia desabafar com alguns alunos, grupo em que eu fiquei incluído. Sabe-se lá porquê, estes não foram a correr contar aos colegas. Esta história verídica caiu num quase esquecimento, do qual a vou recuperar hoje, sem comprometer ninguém.
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Vou abreviar o nome e tratá-lo como seria proibido naquele tempo, mas se usa hoje tantas vezes em contextos profissionais, pelas iniciais, por PA.
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Que qualidades veria a senhora nele?O PA não se inibia transmitir a imagem de pessoa culta, fina e viajada. “Os meninos sabem, essa vossa viagem de finalistas… eu já visitei esses lugares muitas vezes; se for convosco é só para vos explicar, porque não vou ver nada de novo”.
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Num grupo restrito, ouvi-lhe uma vez esta perplexidade perante aquele texto que muitos cristãos e não-cristãos consideram a melhor síntese de justiça moral jamais escrita: o sermão da montanha. Comentava o PA: “Jesus disse : Bem aventurados os pobres de espírito. Pobres de espírito?! O senhor me perdoe, mas essa não!”
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Sobre o Rock'n Roll: “Quando vi dançar essa música pela primeira vez estava num cruzeiro. Havia um rapaz tolo, um atrasado mental. “Pois, a orquestra tocou e era só ele na pista. Os restantes passageiros educados não se levantaram das cadeiras. Aí eu disse para mim: Albino, aqui tens uma música que é para tolos e atrasados”.
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Um psicanalista poderia talvez encontrar por detrás da sua personalidade alguns traumas. Contou que sofreu muito com a morte da mãe. Ainda novinho, a mãe apareceu-lhe em sonhos, criando-lhe uma fé e esperança que encaminhou a sua vida para o seminário.
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Por vezes baixava as barreiras da auto-censura e deixava sair as suas ansiedades. “Tenho estado com uma ideia fixa de construir uma casa. Já fiz um plano mental das divisórias. Falei com o Padre Tal e com fulano que me disseram que isto é uma tendência altamente normal na minha idade. Tenho de estar preparado para lidar com ela”.
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Poderia este homem, como tantos padres, escorregar numa tentação do sexo oposto ? Alguém terá achado que sim, pois um dia, o PA, agastado com o assédio feminino de que estava a ser alvo, explodiu com 2 ou 3 de nós:
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- “A ________ “ (não, não era mãe) “de ____________ “ , (não, não era da nossa turma, era mais novo ou nova; eu sei mas não vou dizer, por isso não me perguntem) já me escreveu três cartas de amor. Primeiro pedia audiência para conselhos educacionais e agora são estas cartas descaradas. Diz que está apaixonada, que eu sou assim e mais assado…”
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O Padre Albino admitia que ela estava apaixonada. A senhora teve a ousadia de ver nele o homem ideal e nela própria a companhia de que ele precisava. Podemos apenas imaginar as complexas teias emocionais e dilemas de vida e aventura lançadas pelas cartas. Estavam destinadas ao fracasso.
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Agora não me venham dizer, “É pá, nós sabemos todos isso. Era a __________!”
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António José Neto - ERO(1964-1971)
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C O M E N T Á R I O S
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Isabel X disse...
Não faço a menor ideia de quem seria e, já agora, nem sequer gostaria de saber, quem era a pessoa em causa,cuja identidade é mantida secreta neste depoimento do Neto. O certo é que o autor deste texto aqui nos revela o lado mais humano(e mesmo assim nada bonito de conhecer - um cavalheiro nunca se gaba das mulheres que por ele se apaixonam, mesmo, ou principalmente - sendo padre) do Padre Albino. Afinal teve mãe e foi traumatizado por ela, afinal ele teve quem se apaixonasse por ele, por mais inverosímil que isso possa parecer - muito belos são os olhos de quem ama - e era vaidoso, gabava-se de viagens e incómodas apaixonadas junto de alguns dos seus alunos. Paz à sua alma!
- Isabel Xavier -
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João Jales disse:
Deixam-me algo perplexo estas conversas do Sr. Director, eu que só lhe ouvi palavras de recriminação, advertência e crítica, mas conhecendo o Neto como conheço, o relato é seguramente verídico.
Também eu não sei quem era a senhora que tal paixão nutria mas, ao contrário da Isabel, não desdenharia saber (para completar os arquivos históricos do ERO, claro).
Curiosamente conheço um episódio absolutamente idêntico em que o Padre Albino se queixou, não a um aluno mas a um professor do Colégio, do assédio a que era sujeito por uma outra senhora. Foi esse confidente, pessoa acima de qualquer suspeita, que me contou. Seriam verdadeiras estas estórias ou viveria o Sr. Padre, na sua enorme e evidente vaidade, na ilusão de ser um D. Juan?
Noutra coisa concordam as nossas memórias: os discos com que ele me via por vezes no Colégio eram sempre alvo de inspecções e duras apreciações (e só pelas capas, nem queria ouvir!). Tinha verdadeiro horror ao Rock, aos cabelos compridos e às roupas coloridas que se começavam a usar na década de sessenta.
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Miguel Bento Monteiro disse:
Esta história de amor comoveu-me. Quase não consigo balbuciar quanto mais verbalizar.Já agora,e por falar em paixão impossível, alguém me diz qual foi a razão que impeliu o Conde a encontrar refúgio na Cartuxa de Évora ?
MBM
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Isabel Esse disse...
Achei muita graça a esta história que desconhecia cmpletamente.Parabéns ao autor por ter conseguido tratar este assunto de forma tão delicada.
A pergunta do anterior comentador faz sentido porque se falava insistentemente do facto da ida do Padre A para a cartuxa tinha origem numa Love Story infeliz.Mas não parece ser esta.Já agora pergunto:o Padre A era Conde de quê?Nunca em tal ouvi falar!!!
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Miguel B M respondeu:
Esclarecimento à pergunta da Isabel Esse :
- Qual é o conde mais famoso da história ?
MBM
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João Ramos Franco disse...
Na História de Portugal parece-me que seja D. Afonso IV, Conde se Ourém , neto de D. João I e de D Nuno Alvares Pereira. Mas como não sei o sentido que o MBM pretende dar ao assunto poderá estar a referir-se ao Conde Drácula, Conde Andeiro ao ou até ao Conde de Monte Cristo.Mas talvez para neste assunto o MBM se refira ao Conde Drácula...
João Ramos Franco
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Isabel Esse disse...
O pai do actual rei de espanha era o Conde de Barcelona.Teria o Padre A conhecido esse senhor,que era muito religioso e viveu em Portugal?Ou estarão a brincar e é o Conde de Monte Cristo ou alguma coisa do género?
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António José Neto disse:
Os comentários da Isabel Xavier são pertinentes, designadamente a propósito do comportamento de um cavalheiro.
Deixem-me também esclarecer algo sobre a foto, que me foi tirada pelo Padre Chico no Bom Sucesso, por ocasião de um acampamento com alguns alunos que convidou. A minha pose foi uma brincadeira deliberada de imitação de um hipnotizador, que depois repeti para a câmara. Sempre tão humano e cordial o Padre Chico! E depois, como se diria de um "Businessman" na classe de inglês: "He could handle his affairs".
António José Neto
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Tó Quim disse:
O brilhante texto do Neto, para mim é uma das maiores surpresas desde os tempos do ERO.O Padre Albino com uma apaixonada e ainda por cima a verbalização que ele fazia disso?Estou de boca aberta.
Quantos de nós, no tempo em que ele estava no ERO, tínhamos um imenso receio das reprimendas dele, das longas lições de moral que levávamos?
Apesar dos meus anteriores comentários, o Padre Albino foi uma das grandes figuras que marcou a vida do ERO.Quem se lembra do carro que ele tinha?
António Fialho Marcelino
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Luis disse:
O carro do Padre A era um Volkswagen,conhecido na altura por "carocha",não era?

AULAS DE HISTÓRIA (?)

por João Jales

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A voz, monocórdica, enfadonha e enfadada, vai debitando uma lenga-lenga insípida sobre umas, noutras circunstâncias, empolgantes viagens dos fenícios, primeiro pelo Mediterrâneo, depois, ultrapassando Gibraltar, pelo Atlântico, chegando até às Ilhas Britânicas. Alguns dos ouvintes dormem; de olhos abertos claro, porque o perigo espreita e fechá-los “é a morte do artista”.

Algumas desgraçadas moscas saltitam pelo chão, tentando inutilmente voar. Um “biólogo amador” testa a sua capacidade de sobreviver sem asas e sonha com a possibilidade de domesticar uma delas. Algumas espectadoras encolhem-se, enojadas, já que as moscas-cobaias têm tendência a agarrar-se-lhes às pernas nuas... Eu observo, é de longe o mais interessante que se passa na sala, apesar de já ter visto esta experiência antes e saber que as moscas não aprendem a viver no solo nem se deixam domesticar.

A voz muda, há um ligeiro sobressalto entre os presentes, mas rapidamente o novo leitor se ajusta ao registo do anterior e tudo volta ao normal. O tédio respira-se, espesso, quase líquido, enchendo, avassalador, os pulmões, o cérebro, a alma destes pobres adolescentes.

Como é que é possível que uma matéria como a História Antiga, sobre a qual há livros e filmes formidáveis, seja transformada neste pesadelo? Há dois suspeitos… Mas quais suspeitos! São culpados e estão identificados, passo a nomeá-los para que conste: António Gonçalves Mattoso, advogado e professor de história natural de Leiria e Albino Cândido Lopes, Padre, Director do ERO e professor (falhado) de História Universal do 3º Ano do Liceu. O primeiro escreveu um intragável compêndio de História, o segundo convenceu-se que a melhor forma de o estudar é lê-lo, em voz alta, às segundas, quartas e sextas, durante cinquenta minutos.

O resultado? Alunos em coma tedioso, moscas sem asas e duas dúzias de adolescentes que odeiam a cadeira de História Universal.

Mas o “combate” contra a situação começará cedo, mal se apercebem as vítimas do que as espera durante um ano. Quando a leitura começa, no primeiro aluno da fila lateral e continuando por ordem, a zona contrária da sala, longe de “entrar em acção”, inicia imediatamente as hostilidades: batalha naval, duelos de Bics Boomerangs, azucrinar a cabeça do colega da frente com picadelas de objectos vários, escrever-lhe no pescoço, fazer-lhe cócegas… Há até um jogo em que se aperta lentamente a cadeira e carteira de um colega que, empurrado por trás e pela frente, fica “esmagado” entre os dois objectos. Enfim, tudo o que permite alegrar um pouco uma aula interminável.

O padre Albino é um professor inexperiente mas um homem inteligente, rapidamente se apercebe que a turma está descontrolada. Só ouvem a matéria os dois ou três próximos leitores, o resto dorme, sonha e brinca. E ele ainda tem que ter atenção ao livro porque, se não, alguns artistas mais expeditos saltam linhas para terminar mais rapidamente a sua quota parte.

Na fase seguinte ele sai do estrado e encosta-se à parede traseira, um olho no burro outro no cigano, neste caso tentando ler o manual e ver o que os alunos fazem. A ordem de leitura passa a ser aleatória, determinada no momento pelo Padre, que com uma das famosas canas da Índia dá um pequeno toque nas costas do que deve parar e outro nas costas do próximo a ler. Não pode chamar os alunos pelo nome porque provoca respostas de “Sim, Sr. Padre”, “Diga.Sr. Padre”, com o nomeado a fitá-lo candidamente nos olhos, alegando depois que essa distracção o impede de saber exactamente onde vai a leitura da matéria…

Resultou numa aula, ou talvez duas. Depois, quando o professor muda o leitor, meia-dúzia de fora-da-lei, sempre atentos aos seus gestos pelo canto do olho, batem nas costas do colega da frente e meia dúzia de enganados começam, com ritmos diferentes e por vezes em pontos diferentes do livro, uma nova leitura. Um caos.

Curiosamente o Padre Albino era muito menos disciplinador na sala de aulas do que fora dela, e até menos soturno. Nestas aulas houve “perseguições” a alunos que fugiam por baixo das carteiras dos colegas, em cenas que nenhum outro professor permitiria. O Antero, pequeno e ginasticado, sempre muito falador, era exímio e frequente actor destas “touradas”, impensáveis em qualquer outra aula e nada coerentes com a filosofia que a mesma pessoa impunha no ERO. Só tenho para isso um explicação, o Director só sabia manter a disciplina recorrendo à rigidez extrema e exagerada que lhe era familiar, fora disso era um homem perdido.

A única coisa que o punha realmente fora de si eram as “dúvidas”. Lembro-me do Miguel BM, certamente influenciado pelo pai (esse sim, professor de História), perguntar um dia “O Sr. Padre concorda que a guerra é a higiene do Mundo?”. Perante a descontrolada resposta, apareceram depois outras perguntas, sobre a democracia grega, os nomes dos generais de Aníbal (que o mesmo Miguel nomeava, ou inventava, nunca percebi), os amores de Júlio César e Cleópatra, tudo questões que ficaram sempre sem resposta…

Nunca aprendemos nada, mas as notas lá foram aparecendo, sempre mais ou menos de acordo com a média de cada um. Houve colegas que nunca recuperaram deste trauma e odiaram História para sempre. Eu reconciliei-me, pela admiração que tive pela Ermelinda, a (excelente) professora da disciplina que esteve no ERO nos dois anos seguintes.

Numa das últimas tentativas de dar uma aula diferente, julgo que no terceiro período, o Padre Albino trouxe um dia uns vidros fenícios para mostrar à turma. Eram pequenos fragmentos, pareciam os restos de um colar. Correram toda a turma, ordenadamente, de carteira em carteira até que o último aluno os depositou cuidadosamente em cima da secretária do professor. Ele olhou-os longamente, depois olhou para a turma e, demonstrando um conhecimento dos alunos melhor do que era esperado, disse ”Flores, dá cá os vidros!”. O Luís Filipe Flores Antunes dos Santos levantou-se do seu lugar e entregou-lhe os verdadeiros vidros fenícios, que tinha no bolso, não se esquecendo de reaver os berlindes pelos quais os tinha substituído, na sua vez de os examinar...
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JJ
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COMENTÁRIOS
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jorge disse...
há aqui uma observação que me impressionou logo à primeira leitura:"o Director só sabia manter a disciplina recorrendo à rigidez extrema e exagerada que lhe era familiar, fora disso era um homem perdido". eu nunca tinha pensado nisso mas é verdade,quando não era o todo-poderoso director do colégio o p albino não sabia falar nem brincar com os alunos.não me lembro nunca dele como uma pessoa normal,como me lembro de professores com quem falava fora das aulas.
gostei dos dois relatos da mesma história,mas nota-se que o jales estava lá!
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farofia disse...
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JJ, fascinante, genial! hilariante!
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Que filme! não, nenhum filme conseguia passar esta história de modo mais convincente do que esta escrita. Estas aulas de História ultrapassam a própria História, os heróis no livro a sucumbir desinteressantes vencidos pelos heróis na sala, vivíssimos de sangue na guelra.
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As armas, as estratégias, as técnicas, as tácticas! Uma delícia! A maestria com que os alunos driblam o enjoo e o (co)matoso e o professor!
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Fantástico! apetece aplaudir a equipa e agitar os cachecóis! “Jales, Jales, Jales! Antero, Antero, Antero! Miguel Miguel Miguel! Flores, Flores, Flores! Jales, Jales, Jales! EEERO! ”
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Isabel X disse...
Subscrevo inteiramente o que diz a Farófia (nunca me passou pela cabeça vir a chamar assim à Dra. Inês!). Há palavras que fazem ver mais do que as imagens. É desse modo que se atinge o Princípio da Imaginação. Parabéns JJ, muito sinceramente!.
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Luis disse...
Os episódios são mais ou menos verídicos,embora talvez as acções não fossem tão organizadas com o João apresenta.
Começando na descrição do tédio como um nevoeiro que invadia a sala vamos até à mais delirante subversão,num texto que é empolgante e com muito humor.E o Albino,quando não podia ser um ditador não sabia mesmo o que fazer,bem observado.
Quem era o biólogo que arrancava as asas às moscas?L
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A.J.Neto disse:
Caro João Jales,
O teu texto sobre as aulas de história como o Padre Albino está fabuloso.Envio também um sobre as tentações amorosas do Padre...
Abraço
António José Neto
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Jaime Serafim disse:
Olá Jales
Parabéns pelo seu texto, que eu já conhecia, mas que uma vez publicado no blogue me pareceu ainda mais bem conseguido, dando um retrato autêntico e muito fiel, porque vivido, dos tormentos porque passavam alguns alunos naqueles tempos e das estratégias que engendravam para tornar menos monótono o fluir do tempo.
Um abraço
Jaime Serafim
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João Jales disse:
Aproveito a intervenção do Dr. Serafim, que era mais uma mensagem do que um comentário, para esclarecer que a publicação sucessiva dos dois textos que referem o mesmo episódio (o colar fenício) foi propositada, já que ambos foram escritos sem que qualquer dos autores conhecesse o outro relato. Pareceu-nos pois esta a forma ideal de os apresentar, com as diferenças de pormenor naturais em crónicas de factos com mais de 40 anos e escritos de perspectivas diferentes, o que é sempre enriquecedor para o Blog.
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João Ramos Franco disse...
Toda a prepotência desse director que li em "O princípio da revolta (J B Serra)", leva-me, apesar de gostar do que escreves e do modo como relatas as aulas de História, a um sentir ainda mais negativo do personagem questão.
João Ramos Franco
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Anabela Miguel disse:
João, o teu relato das aulas de História do Padre Albino foi tão extraordinário e pormenorizado que conseguiste transportar-me àquela época. Que esforço eu fazia para estar atenta e não adormecer nas suas enfadonhas aulas que, se não fossem algumas brincadeiras entre os alunos, seriam de uma completa monotonia.
Ana Miguel
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Luisa disse:
Morria-se de aborrecimento naquelas aulas,não era possível gostar de História assim. Alguém falou de exageros aqui nos comentários,mas a tua descrição não tem nenhum exagero-aquilo era uma chatice tal e qual tu descreves!E que bem descreves,os teus textos são de um realismo incrível e parecem um filme tal como diz a dra Inês.L
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Miguel BM disse:
O tema "História" sempre me agradou e muito graças aos ensinamentos do meu Pai.Falado de modo simples mas vivo,com hipótese de diálogo,discussão e troca de ideias, é sem dúvida um assunto fascinante.Ou seja,precisamente o inverso do que eram as execráveis aulas dadas pelo Conde.
O texto do superbloguista JJ é uma verdadeira aula ao vivo.Não me lembro rigorosamente dos nomes dos generais de Aníbal nem sequer de os saber,e ainda menos da pergunta que me é atribuída pelo autor, o que é natural,pois no final da cada aula era preciso esquecê-la rapidamente.
E se o professor,ou lá o que era aquilo, tivesse resolvido dar matemática ou física ?MBM
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Flores disse:
Depois de ler estes dois textos magníficos, entrei numa espécie de letargia que me impediu de reagir imediatamente ao ritmo das emoções que me provocaram.Ainda agora não me ocorre uma forma que julgue à altura do estilo rigoroso e divertido dos seus autores.
Todos sabemos que a memória é selectiva e eu, em particular, considero a minha excessiva nesse atributo.Embora me lembrasse bem o episódio das pedras fenícias, ocasionalmente recuperado em tertúlias familiares ou de amigos mais próximos, confesso que não esperava mergulhar tão intensamente no ambiente das aulas daquele tempo, numa profusão de detalhes, alguns que julgaria perdidos para sempre.A melhor forma de corroborar o tédio e a irrelevância daquelas aulas de História é talvez reconhecer que, para além da memória do episódio, tudo o resto se me tinha varrido da consciência.
Passados tantos anos é um prazer recordar, através de duas prosas vivas, juntas num cânone tão harmonioso, um dos tantos momentos hilariantes que vivemos juntos. Mas é sobretudo um privilégio, quando elas brotam em sintonia das penas de um colega e de um professor, sem desprimor para os outros, de absoluta eleição!
Abraço
Luís Filipe Santos
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António disse:
Não sei se estava um ou dois anos à frente do autor mas também tive direito a aulas destas.O Albino era um péssimo professor de história,sem qualquer preparação,vocação e imaginação para dar aulas.Até as aulas de moral dele eram chatas!!!
A descrição está muito bem conseguida e o episódio do colar é muito engraçado.Mais engraçado é que eu já o tinha ouvido a outro colega com outro protagonista e noutra turma!Mas os testemunhos do Dr serafim,JJ e Flores são todos coincidentes e não me deixam dúvidas.

O princípio da revolta (J B Serra)

por João Bonifácio Serra
Sugestão para audição:


Não sou, nem nunca fui, um rebelde. Mesmo nos momentos mais afirmativos do protesto adolescente, e, em geral, da autonomia juvenil, não vivi nenhuma crise prolongada de relação com o meio familiar ou escolar. Se fiz rupturas, como toda a gente, foram cumulativas e as inquietações não passaram disso mesmo: estados de alma que, acredito, foram quase sempre criadores.

Uma situação houve no entanto em que julgo ter estado próximo da fronteira que acabo de negar ter passado. Foi o Padre Albino que a originou. Passo a contar.

Em 1964 comecei a enviar pequenos textos de índole literária para jornais e rádios. Alguns foram publicados, estimulando a continuidade e a ambição do escrevinhador. A Gazeta das Caldas tornou-se naturalmente um alvo preferencial dessa investida. Em princípios de 1965, a Gazeta concedeu-me mesmo o título de redactor, um cartão assinado pelo Director, cuja utilidade, não sendo muito clara, para além de uma ocasionais entradas gratuitas no Salão Ibéria, me pareceu uma singular distinção.

Na Gazeta eu fazia um pouco de tudo: desde as inevitáveis tentativas literárias (que se outro mérito não tiveram, pelo menos me permitiram concluir cedo que o melhor era não ir por aí…) a reportagens dos mais variados acontecimentos, críticas de livros, entrevistas, etc.

Num dos primeiros dias de Março de 1965, quando saí da carrinha que me trazia do Carvalhal Benfeito, o Sr. Ulisses deu-me o recado: que o Senhor Director me esperava no seu Gabinete. Como em regra a chamada a este Gabinete trazia agarrada um encargo ou observação desagradável, lá me dirigi, apreensivo, ao encontro do Padre Albino. O que ele tinha para me dizer apanhou-me completamente desprevenido. Tive até alguma dificuldade em descortinar o sentido da questão. Mas, por fim, lá o entendi: ele estava pura e simplesmente a ordenar-me que submetesse à sua apreciação prévia todo e qualquer texto destinado a publicação. Olhei-o atónito. Nunca tinha lidado com uma situação deste tipo e comecei por argumentar sobre a exequibilidade da medida. Expliquei ao Director como é que o jornal era composto (nessa altura ele era feito numa tipografia tradicional pertencente à própria empresa da Gazeta, na Rua do Montepio), apostado em fazê-lo compreender que no caso das reportagens eu as tinha de escrever muitas vezes no próprio dia do acontecimento narrado. Foi intransigente: eu tinha que lhe entregar os textos, ponto. Ele demoraria os dias que fossem precisos a ler e a emendar, ponto. A emendar? - perguntei incrédulo. Sim, isso mesmo, ponto.

No dia seguinte, na vitrina do átrio, lá estava um aviso. Invocando o estatuto do ensino particular determinava que todos os textos da autoria de alunos e destinados a publicação teriam de obter a prévia concordância do Director do Externato. Que eu soubesse, esse aviso só a mim dizia respeito. Não havia nessa altura mais ninguém que escrevesse regularmente para jornais.

Poucos dias depois, fui entregar no gabinete do Director um primeiro texto, de acordo com as novas regras. Tratava-se de um artigo de opinião intitulado “Homenagem a Calouste Gulbenkian”. Nele comentava uma proposta defendida por António Pedro (pintor, dramaturgo) no sentido de homenagear Calouste Gulbenkian, erguendo-lhe um monumento em Lisboa. Aplaudindo a ideia, eu sugeria que nas Caldas se desse o nome de Calouste Gulbenkian a uma rua da cidade.

A obra da fundação que patrocinara justificava-o amplamente. Não haverá, argumentava eu, parte alguma do território português aonde não tenham chegado os dedos da sua obra. “E quando – rematava eu – actualmente se promovem homenagens (… e tantas são!) cuja oportunidade nem sempre será indiscutível, quão maior é a pertinência desta, em memória do Príncipe dos Beneméritos do País”.

Três dias depois, o Padre Albino devolvia-me a crónica. Mas este último parágrafo, em que aludia a homenagens discutíveis, estava assinalado com uma cruz. A sua publicação não era permitida, informou-me, sem mais explicações.

Desta vez encarei o Director com outra determinação. Como era possível que aquela inofensiva afirmação merecesse ser cortada? Foi então que se me fez luz: o que o Padre Albino estava a praticar comigo era Censura. CENSURA! A famosa Censura, aquela que de que toda a gente se queixava surdamente no jornal, que obrigava a mandar os textos a Leiria, um a um, antes de serem publicados, e de onde vinham autorizados, autorizados com cortes ou pura e simplesmente recusados. E agora ela estava ali diante de mim, pronta a usar, antes mesmo da outra, o seu severo lápis azul. Achei que não, que não podia pactuar com tal iniquidade.

Copiei numa folha o conteúdo do aviso e nesse mesmo dia dirigi-me, ao fim da tarde, ao consultório do advogado e director da Gazeta, Carlos Manuel Saudade e Silva, um primeiro andar de um pequeno prédio da praça, perto da livraria Silva Santos. Contei-lhe o que se passara e entreguei-lhe a cópia do aviso e o original do artigo sobre Gulbenkian. - Não há nenhum artigo no Estatuto do Ensino Particular que imponha esse princípio. Você não deve cumprir essa ordem. E o artigo vai ser publicado assim mesmo no jornal. - E se ele me ameaçar? – perguntei. - Deixe isso comigo - respondeu.

De facto, na sua edição de 27 de Março de 1965, a Gazeta publicou na primeira página o meu artigo. Ignoro o que se passou entre o Director do jornal e o Director do colégio. Passados uns dias o aviso desapareceu. Nunca mais ouvi falar no assunto.

A atitude do Padre Albino não bastou, até porque, como se viu, foi improcedente, para fazer de mim um rebelde. Mas permitiu-me enfrentar relativamente cedo o autoritarismo, a intolerância, a arbitrariedade censória. O máximo responsável pela instituição onde eu aprendia não queria estimular a criatividade dos seus alunos, mas vigiá-la, submetê-la a controlo. O Padre Albino permitiu-me clarificar que havia uma fronteira da liberdade, e que de um dos lados eu, definitivamente, não queria estar. No momento em que ele me mostrou o texto censurado experimentei, pela primeira vez, a revolta contra a arrogância do poder. Graças ao Padre Albino percebi isso, em experiência directa, percebendo também contra o quê e quem é que eu me iria identificar.

É isto que de importante lhe devo. Não fez de mim um rebelde, mas graças a ele compreendi o sentido da revolta.

João Serra

PROFISSÃO DE FÉ



Este é um grupo para recordar, estão aqui muitos dos elementos da grande colheita de 1954, ano em que nasceram grandes "artistas" do ERO, como todos sabem (eu sei que há alguns retardatários de 53, mas são poucos). Estão aqui na ritual Profissão de Fé, em Novembro de 1965. Como tem sido habitual nas fotografias vou deixar a legendagem para os comentadores.
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Adianto desde já que há um elemento que nem eu (que estava lá) consigo reconhecer: a jovem imediatamente à frente do Padre Albino (e não sou o único). É estranho como num grupo tão pequeno é possível ninguém se lembrar, ou até haver identificações erradas. Se os testemunhos de participantes e intérpretes das situações têm erros e omissões destas passados poucos anos (só 42!), como será com testemunhos mais antigos ou quando não há testemunhos directos ? Dá que pensar...

A foto tem uma dedicatória, que todos podem ler, do Padre Xico para o Miguel B M, que a guardou cuidadosamente todos estes anos.

Os jovens alternam entre o laço e a gravata, elas parecem ter ido todas ao mesmo pronto a vestir.

Aguardo as identificações e aproveito para perguntar: alguém sabe da Isabel Videira que está aqui ao meio na primeira fila? É rapariga que não vejo para aí há 40 anos, gostaria de a convidar para o próximo encontro.





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Comentários

2008-02-24
Zé Luís Azevedo disse:
A propósito da foto, eu também lá estava! O jovem do canto superior esquerdo é sem dúvida o EDUARDO, irmão da MERCÊS. A menina penso que seja a LUISA PINHEIRO. Reconheço todos os outros figurantes mas os 300 caracteres do comentário não permitem nomeá-los aqui. Abraço para ti/todos Zé Luis

2008-02-25
Luísa Pinheiro disse:
Olá meninos!
Na verdade eu tambem fiz a Profissãode Fé, sou de 1954, mas não me lembro em que ano foi. E a da foto não sou eu. Eu sempre tive o cabelo comprido, lembram-se?
Beijocas para todos
Luísa

2008-02-25
Miguel B M disse:
Legendagem: Cima para baixo, esquerda para a direita 1-Eduardo,D.Esperança, D. Dora 2-JJ, Granja, F Castro, Nunes, Manuel Teixeira 3-Antero, Tó Morgado, MBM, JLAzevedo, P Chico 4-Fátima Angélico ,P Albino 5- São Moreira, Lena Norte,? 6-Cristina Rolim ,Isabel Videira, Lena Xavier / Se conseguires saber o nome da menina que falta diz-me pois estou cheio de curosidade em saber quem é. Um abraço. M

2008-02-26
Ana Nascimento disse;
Será que a menina que falta é a Lóló Costa ?

2008-02-26
JJ disse:
Parece, mas a Lhó Lhó está noutra Profissão de Fé posterior. Só se a fez duas vezes o que, mesmo sendo a família muito religiosa, não me parece provável. Talvez a irmã, a Manuela...

2008-02-26
Miguel Bento Monteiro disse:
A hipótese Costa é pertinente,pois a Manuela deve ser da nossa idade e como era de uma família muito crente e praticante as coisas batem certo.

UM EMAIL QUE, DIZEM, É UMA ESPÉCIE DE CRÓNICA ...

O que se segue não foi escrito como uma crónica, é um email que eu enviei ao Zé Carlos Faria (daí o título) a propósito do texto por ele aqui publicado há 3 dias, que considerei uma visão bem estruturada, mas sombria, do ERO. Ele respondeu: "Agradeço-te de coração o teu escrito. Acho sinceramente que convertido em formato de artigo seria muito interessante no blogue". E eu faço-lhe a vontade, mas sem conversão.
Peço a todos os nomeados na conversa que considerem acrescentados os devidos Srs, Drs. e outros títulos a que têm direito, porque em conversas entre colegas essas coisas, às vezes, desaparecem...JJ

Olá Zé Carlos
Não há razão para quaisquer justificações da tua parte e eu publiquei a crónica porque achei que devia ser publicada. As minhas reticências tinham a ver com o tamanho do texto, um pouco extenso demais para o habitual neste espaço.

Não pensamos de forma diferente em relação ao Padre Albino e aceito mais ou menos por inteiro os factos como os referes, mas não me revejo no Colégio que descreveste. Circunstâncias pessoais e familiares diferentes, formas de pensar e agir distintas, fazem-nos ter imagens e emoções diferentes na sua evocação. Eu nunca fui, por exemplo, fisicamente castigado por ninguém, Albino incluído.

Tenho, das regras que descreves, a recordação da permanente transgressão: namorei abertamente meia-dúzia de colegas a partir do 3º ano, ladeira abaixo e acima, mais dissimuladamente no Anfiteatro e na Biblioteca (tantas vezes aberta e sem ninguém a tomar conta,deviam pensar que ninguém lá ia...), até no confessionário nos intervalos em que não havia missa. Fui sujeito a um processo disciplinar por ser visto a sair da Mata à hora de almoço com uma colega e a única coisa que obtiveram foi a afirmação do meu Pai que ficava satisfeito por me saber um adolescente normal. Eu e outros fumámos nas casas de banho, no recreio e a meio dos corta-matos do sempre entusiástico Silva Bastos, enquanto os "atletas" subiam a Rua dos Loureiros. O Flores chegou a fumar dentro da sala de aula, acredita, enquanto o Miguel travava verdadeiros combates de luta livre com os colegas sentados na carteira à sua frente (desgraçados Silvestre e Rui Malaca). O Manuel Nunes ouvia relatos de futebol com um rádio portátil e auscultadores (caro o pagou depois...). Era uma festa.

Saí todos os anos no intervalo grande da manhã, sob pretextos vários, como ir buscar livros e cadernos esquecidos em casa, para me ir empanturrar de pastéis de nata quentes "cravados" à minha Mãe e às amigas que tomavam, a essa hora, café na Zaira. Lembro-me do Tó Zé Hipólito como companheiro entusiasta dessas excursões.

O meu cabelo e o do Rui Ferreira da Silva eram um alvo constante da atenção do Director. E acumulavam-se as desculpas para não o cortar, falta de tempo por ter muito que estudar, os pais não terem dado dinheiro para o efeito, barbearias muito cheias, "se o Sr Padre quiser eu vou hoje, mas tenho que faltar à aula de Ciências…". Era um jogo de gato e rato em que o gato ganhava sempre mas o rato tinha os seus momentos! E havia sempre as camisas às flores e com folhos, o lenço colorido atado ao pescoço (eu e o Rui, sempre os mesmos), os colarinhos à Mao, as camisolas cor–de-rosa, às riscas e com desenhos, tudo transgressões (?) que deixavam o homem à beira de um ataque de nervos. Do outro lado do muro a Anabela travava a mesma batalha, mas com o comprimento das saias e, ou a idade já me atraiçoa ou não me lembro de as ver com saias compridas... Emoção a rodos em embates desiguais, mas em que vendemos sempre cara a derrota.

Dos contínuos e das suas queixas resultou um dos três dias de suspensão a que tive direito. Por descobrir um método para fechar as portas das retretes por fora não ficando ninguém lá dentro, vê lá o crime! Eram uns pobres diabos, não lhes guardo qualquer rancor.

Não tenho idéia de sentir qualquer terror nas aulas do Azevedo, mas admito que era bom aluno e visita assídua de casa dele. Talvez por isso, sofria mais o filho dele e meu colega de turma, o Zé Luis, do que eu. E lembro-me com carinho do Padre Renato(Português, Canto Coral e Desenho) um dos melhores homens que conheci e que há 40 anos nos deixava fazer pequenos teatros no meio das suas aulas(eu, o Zequinha e o Flores); a surpresa das aulas informais do Lopes (Matemática, Geometria Descritiva e Geografia, ainda um dia hei-de falar dessas aulas de Geografia), do entusiasmo contagiante da Ermelinda (será este o nome?) que no 4º e 5º Ano me fez apaixonar pela História e me tentou ensinar a fazer uma composição, começando logo por me dar Medíocre num exercício piegas e lastimável que eu fiz sobre (imagina!)"A Saudade". Tinha a mania que sabia escrever… fez-me bem! (se ela me lesse agora, classificar-me-ia na mesma?). A dedicação e o empenho do Serafim(Matemática e Fisico-Química), grande professor, e a absoluta inabilidade da nossa querida Super para dar Filosofia, ela gostava era de História, com terra nas mãos e nas botas (e de um bom petisco ao almoço). Devo o que sei de Francês à Cândida e de Inglês ao marido, o Luis ; um pouco também à Inês, de quem tenho uma foto num magusto e uma boa recordação , apesar da injusta expulsão de uma aula dela me ter valido também outro dia de suspensão. Foi uma espécie de acumulação de "cartões amarelos", tendo sido corrido de quatro das seis aulas a que assisti numa malvada quinta-feira de Abril. Como nos corria quente e rápido o sangue nessa altura do ano, éramos certamente insuportáveis!

Mas estas doces recordações não tornam menos abominável a Madame Inc.(lembras-te da Cristina? essa sim, merecia uma crónica de terror), menos monótonas as aulas da Nicole e do Albino (quem lhes disse que podiam ser professores?), nem me recordam outras eventuais nulidades que já esqueci.

Lembro-me de um tempo em que fui feliz, de Invernos com poucas preocupações e muitos amigos, festas, namoradas, música (todo o dinheiro que arranjava era para LPs na Tália), futebol, fins de tarde na Zaira, Camaroeiro ou esplanada do Parque, serões loucos a “estudar” em casa dos que tinham sótãos ou caves mais reservados (lerpa, king, algum álcool e os primeiros cigarros), matraquilhos na Floresta e bilhar no Central. E, a seguir, 3 meses com os gostos e desgostos dos amores de Verão, praia de manhã, ténis ou cartas à tarde e Casino ou Ferro Velho à noite. Há lá Albino que estrague isto?

Os nossos quadros têm os mesmos motivos mas as cores são diferentes.... Quem tem razão? Os dois, claro. E é por isso que ambos os testemunhos fazem falta no Blog.

Um abraço

JJ

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comentários:

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11Dezembro , 2007

Alguém disse :
Classificação: Muito Bom

Guidó

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11 Dezembro, 2007

JJ disse:

Na ausência da Dra. Ermelinda, vou usar a tua classificação. Mas ela não seria tão complacente, tenho a certeza.

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11 Dezembro, 2007

Filipe disse...
Desculpem a intromissão de alguém que não andou no Ramalho Ortigão mas sim na Escola Industrial e Comercial, escola esta que fez muito mais do que que propiciar a possibilidade de honradamente os seus alunos terem emprego.Sendo o vosso blog público não levarão seguramente a mal o meu comentário.Nao vivi o ambiente do colégio mas convivi com alguns alunos ao tempo, e sinceramente nunca me apercebi de uma imagem tão negativa como o Faria transmite no seu texto. Talvez não seja essa a sua intenção nem o seu sentimento, mas parece-me existir alguma mágoa interiorizada a que ainda não conseguiu fugir.Revejo-me muito mais na imagem que o Jales transmite.

O v/blog está excelente, os meus parabéns.

Filipe Domingos

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11 Dezembro, 2007

E.R.O. disse:

É com ENORME prazer que acolhemos este comentário de um aluno de uma Escola onde sempre tivemos muitos amigos , apesar da existência de uma saudável rivalidade. E os magustos e festas da Escola Comercial, podemos reconhecê-lo hoje, eram muito mais divertidos que os do Colégio!

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12 Dezembro, 2007

Miguel B M disse:

Uma palavra sobre o comentário feito pelo aluno da escola.E é bom que elementos estranhos ao ERO mas nosos contemporâneos e com quem convivemos dêem a sua visão sobre aqueles tempos.É claro que nada transparecia para o exterior.Mas nós éramos jovens, despreocupados, visionários, e vivíamos a vida intensa e alegremente. E a rivalidade que havia com a escola era só nas diversas competições desportivas.Quanto ao mais apreciávamos imenso o convívio com os colegas da escola e especialmente com os borrachos que eram muitos e muito simpáticos.

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Dezembro 13, 2007

Alguém disse:

…..este texto é doce como hidromel, viciante como ópio e tóxico como absinto …. não sei se continue a ler a noite toda ou se deixe de vir ao blogue antes que fique dependente ….. Luisa

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Dezembro 13, 2007

JJ disse:

Se não desconfiasse que esta Luisa é um Luis travestido, ainda lhe dava o meu nº de telefone. Mas vivemos tempos duvidosos ...

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Dezembro 13, 2007

Miguel B Monteiro disse:

Em relação ao artigo do JJ subescrevo-o na totalidade.Felizmente a maioria das coisas que aconteceram foram boas e devemos recordá-las.Ainda para mais o JJ escreve cheio de nostalgia a que não posso ficar indiferente,senão sensibilizado.

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E.R.O. , por José Carlos Faria

Recebemos por email este artigo do José Carlos Faria. Pedida a opinião a um dos editores, ele escreveu:

O artigo está muito bem escrito, apesar de pessoalmente não subscrever algumas partes da visão que ele transmite. Mas as visões são mesmo assim, pessoais e com doses de subjectividade variáveis segundo os autores.
Interrogo-me também sobre a sua extensão, parecendo-me que este meio pode não conviver muito bem com artigos demasiado longos...
Em todo o caso, é seguramente mais um contributo para o enriquecimento do Blog e para o sucesso da iniciativa.

Aqui está, à vossa disposição para ler e comentar.


Externato Ramalho Ortigão

por José Carlos Faria

A «Ramalhal Figura» (como Eça lhe chamava) era o patrono tutelar. Da sua fina ironia e das «Farpas» de crítica mordaz, pouco ouvimos falar. Talvez o facto de, perante a Mofina, ter renegado a condição de ateu confesso e anticlerical impenitente, indo desta para pior confortado com a extrema-unção e os sacramentos da Santa Madre, acabasse por justificar, para cónegos, bispos e cardeais, o seu nome em relevo no frontão duma entidade pertencente ao Patriarcado.
Liceu era uma via aberta que conduzia directamente à Universidade, mas só existia nas capitais de distrito. Nas pequenas terras de província restava como alternativa o ensino particular ou as Escolas Industriais e Comerciais, formatadas para propiciar honradamente um emprego, ponto final. Para quem delas viesse e quisesse continuar os estudos, tinha pela frente um calvário tortuoso, que, aos mais persistentes e só a esses, conferiria enfim o direito a integrar o número dos «happy few» universitários. E cara alegre, já que o entendimento dominante num país com bem mais de um terço de analfabetos confinava-se ao ler, escrever e saber as quatro operações. E não para todos, claro!
O Colégio, portanto. Aliás, Externato: o E.R.O.

Em Outubro de 1965, o Benfica de Costa Pereira, Coluna, José Augusto, Torres, Simões e do número De(u)z Eusébio, ganhava campeonatos em séries de três, os Beatles estavam à beira de editar «Rubber Soul» com «Girl» e «Michelle», e eu, de alma amortalhada na borracha duma gabardina nova dum escuríssimo castanho, comprida e com capuz (quase um hábito fradesco) a qual, como de costume e para desespero do meu casal progenitor, viria a perder rapidamente, dava entrada (bicho pequeno assustado) no ginásio/salão de festas do E.R.O. para a sessão de boas vindas do novo ano lectivo.
«Não há bons alunos nem maus alunos. Há tão só alunos que estudam mais e os que estudam menos», perorou o Director. Pertencendo eu arreigadamente ao segundo grupo, durante os anos que se seguiram tive de ouvir o meu pai repetir até à náusea tão douta máxima.
Para um novato caloiro, a guerra colonial em três frentes, que barrava o horizonte, era, naquela altura, apenas as imagens do «nós por cá todos bem /adeus até ao meu regresso» a zumbir na televisão e o eco longínquo, infiltrado na sala de aula, das explosões de obus e tiros de G-3 no campo de treino
militar. Ao fim da tarde, entre mornos pastéis de nata da "Frami"
e a consulta gulosa dos discos da "Tália", podia-se assistir ao desfile extenuado de magotes enlameados dos magalas do RI5, em camuflado, a marcar com os pés no chão, em cadência marcial, a rota batida para o «Ingola é nossa». Aqueles rebanhos de desgraçados em fardeta, vindos da instrução de armas, marchavam perante o bando de basbaques que formávamos no passeio e que, a curto prazo, intuiria ser uma outra Instrução um recurso precioso para fintar sina tão mal fadada.
No E.R.O., louvados sejam os Deuses, não existia Mocidade Portuguesa. Dela restavam uns tristes trastes num canto esconso da arrecadação e dois tambores esventrados, despojos empoeirados de defuntas glórias e dos «clamores sem fim» do «Lá vamos cantando e rindo, levados, levados, sim». Sobravam, no entanto, propósitos blasonados de brio e aprumo. Com Mãe e Avó, 2-familiares-2 como docentes no Colégio, era suposto dar exemplo. O meu, foi sempre, na medida do possível, o da irreverência e da insubmissão, porque contra contínuos, «profes» e sanções paternas, tinha uma reputação para defender na selva do recreio. Nada de cedências, mesmo (ou sobretudo), afectado, como tantos outros, pelo sindroma inculcado dos três P’s: Pais, Padres e Professores. Era pois, por vocação, um desalinhado (no corpo e no espírito). Para não tão poucos assim, o Quadro de Honra era uma infâmia, edital aviltante afixado no átrio. Orgulhosamente na corda bamba feita fio da navalha, entre o alfa e ómega do 9 e do 12 (chegava e era óptimo), não ignorávamos que a fama de melhor instituição de ensino do distrito de Leiria ditava a subavaliação interna e rendia o proveito de, pelo menos, dois a três valores suplementares nos exames: suficiente transmutava-se em bom!


Num universo concentracionário de portões fechados a cadeado e corrente, pátios e escadarias separadas para gineceu e androceu, o ritual de passagem acontecia no 5º ano, com o cartão que facultava, nos intervalos maiores, sair, para tirar umas passas (não, ainda não eram cigarrinhos de fazer rir), às escondidas do senhor Caria, ex-polícia reformado, de feitio cariado pelo serviço na Corporação e, («ordes» são «ordes»), oficial a tempo inteiro do santo ofício de apontar nomes para minudentes relatórios ao Padre Albino. O todo poderoso Padre Albino! As protuberâncias quistosas na calva deste espectro em perpétuo negro, vértice da hierarquia e de medíocre magistério, surgiam como uma crista ruim, signo cruel da maldição violácea que o coroava e cujos efeitos sofríamos em metódica repressão, quase como se procurasse alívio nas humilhações que espalhava a eito. O focar dos olhos azul-aço, por detrás da fronteira gélida das lentes, era já uma devassa impiedosa. Os tufos de pelos nas orelhas de abade Camiliano, brotavam de igual modo nas falanges, falanginhas (não sei se nas falangetas) dos dedos grossos, diligentes em ocasionais e viscosas festas nas nucas duns infelizes, desconsolados eleitos, ou em mais frequentes e enérgicos puxões de orelhas, (engalanados pelo requinte da garra adunca do polegar cravada no lóbulo), quando não em girândola de bofetões estrepitosos (e bofetões havia-os de quase todos os tipos e para todos os perfis; os didáctico-pedagógicos eram a especialidade do Dr. Azevedo nas aulas de Matemática, distribuídos em relação directamente proporcional aos erros cometidos. À minha condição «caixad’óculos» era concedido o privilégio de aviso prévio. No final, estava-se apto a extrair raízes quadradas e as raízes dos molares…).
A ladeira das 5 Bicas perfilava-se como uma via rigorosamente vigiada pelos zeladores da Moral, sempre dispostos a identificar onde quer que fosse a horrenda fisionomia do pecado, almejando sexos em forma de cruz e de pias de água benta. Contrariando ingénuos (e incipientes) amores adolescentes, preconizava-se lados distintos da estrada para rapazes e raparigas (norma ostensivamente ignorada), sim, que a canga da suprema disciplina (ler diciplina) estendia-se até casa.
Pontificavam as rusgas e inspecções minuciosas ao tamanho das guedelhas masculinas (cuidadosamente dissimuladas no esconderijo pouco fiável do colarinho) ou para avaliar o grau de pureza do comprimento das bainhas das saias, escondidas sob o uniforme multicolor das batas às riscas. Emprestávamos medo e t(r)emor sob a aparência de respeito e recebíamos cautela. Cautela com tudo! Diga-se que por vezes rasgada em pedaços de gáudio descarado, como quando o Canhão, obrigado a cortar a grenha, ousou afrontar a intimação com uma esplêndida e radical ida à máquina zero, conquistando, em simultâneo, a admiração geral e uns dias de suspensão; ou quando uma tropa fandanga, de para aí uma centena de moços, miúdos e graúdos irmanados, decidia vingar-se e achincalhava, em coro uníssono, os contínuos, pobres homens, encarregues de serem os primeiros vigilantes da Ordem e da Autoridade, contestada ali pela insolência, espontânea, instintiva e inconsciente da pandilha em turbamulta…
E assim fomos, pouco a pouco, crescendo e perdendo a inocência, entre muros, onde, apesar de tudo, conseguíamos a bênção e a proeza duma alegria sadiamente estouvada.







Nós, os filhos dilectos da pequena burguesia, impropriamente tomados por elite (as propinas eram caras e o esforço familiar considerável), com todas as naturais diferenças de percurso, de visão do mundo e de opções de vida, fomos capazes de encontrar um caminho norteado pela honradez e dimensão ética. Sem isso não há qualquer sucesso nem qualificação profissional que valham. E este é porventura o maior elogio que se pode fazer ao E.R.O.
Há quem se vanglorie dos homens de Estado formados numa dada escola, à laia de atestado da sua presumível excelência. Não é esse o nosso caso, felizmente!
Tal como escreveu Su-Tung P’o, poeta chinês do século XI, citado por Bertolt Brecht:

As famílias quando lhes nasce um filho
Desejam-no inteligente.
Eu, que pela inteligência
Arruinei toda a minha vida,
Só tenho a esperança de que o meu filho
Venha a sair
Ignorante e tardo no pensar.
Então terá vida tranquila
Como ministro no Gabinete

Saímos todos, sem excepção, um pouco mais espertos, graças sejam dadas…


José Carlos Faria

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comentários:
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Dezembro 12, 2007-12-12
Miguel B M disse:
Comentário ao artigo do Faria
Na minha opinião o artigo do ZCF pode ser analisado de duas maneiras. Do ponto de vista literário trata-se de uma escrita densa e que precisa de ser lida atentamente. O autor revela uma erudição assinalável e facilidade de expressão. mas o conteúdo peca por defeito. Embora eu não concorde com as observações em relação ao dr AJAzevedo, pois ele não era como a fama que o precedia fazia crer, e no dia a dia até era uma pessoa agradável e afável,quanto ao resto eu teria sido mais duro que o autor. E poderia acrescentar mais meia dúzia de situações inenarráveis, espiões, delatores, coacções, perseguições, castigos e proibições injustas e desajustadas. Tivémos profs magníficos como a Super de boa memória ou o dr Tó Zé Lopes,mas também tivémos docentes execráveis. Vivemos agora um período particularmente agradável graças ao almoço e especialmente ao blogue,que nos permite fazer uma viagem no tempo sempre que o queiramos. Temos a ponderação que os cabelos brancos proporcionam e que nos permite analisar (julgar?) os factos que ocorreram há muito tempo. Mas não podemos esquecer esses mesmos factos porque vivemos coisas muito desagradáveis,perfeitamente evitáveis e desnecessárias. E isso molda-nos em termos de futuro. Eu dou apenas um exemplo: tenho as minhas convicções cristãs e acredito na maioria dos dogmas da religião,no entanto sou profundamente anti-clerical. Mas esta conversa levava-nos muito longe
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A fotografia oficial (?)

NOTA: Para melhor visionamento clique na imagem e obtenha-a numa janela isolada.


Este blog estimulante continua a ajudar-nos a desenrolar o ténue fio da memória, permitindo-nos reviver momentos incontornáveis da nossa história comum.

Acabo de descobrir a mais que provável fotografia oficial da Turma, seguramente tirada com a intenção de servir a posteridade com a magnífica colheita de 70-71!

O quadro não poderia ser mais fiel à memória daquele tempo em que o austero Padre Albino, ocupando o lugar central de grande educador, temperado na forja da ortodoxia cristã, velava pela prudente separação dos sexos, qual intrépido curador da castidade adolescente.

Por descobrir, a não ser que alguns dos próprios tenham agora a ousadia de desclassificar tal segredo, fica o critério de selecção dos sortudos instalados logo atrás do friso escaldante das nossas queridas colegas.

É fácil imaginar a excitação com que aqueles olhares conspícuos percorreram os pescoços torneados à distância de dois curtos palmos da vista; que movimentos aleatórios desenharam aquelas mãos irrequietas ajeitando a posição do corpo em frente, em benefício do enquadramento ideal; que piropos cirúrgicos terão brotado da imaginação momentânea em busca de um sinal de adesão na projecção do futuro...

E eu, pobre de mim, entalado entre o poder e os proscritos da sorte, estava longe de imaginar que, 36 anos depois, viria a ter o papel de editor daquele momento fugaz, mas tão simbolicamente captado.
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comentários
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Victor disse...
Luis
Penso que deve tratar-se do 6º ano 1969-1970 pois em 70-71 eu já não estava no ERO. Para obviar as traições da mamória(...) teria piada legendar a foto com referência aos artistas.
VG
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JJ disse :
Essa legendagem já está solicitada ao Miguel BM, que tem um disco rígido fiável e de grande capacidade. Esperamos que chova, para que um intervalo no ténis permita o serviço.
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Miguel BM disse:
Atrás,da esq. para a drt: J Jales, Rogério, Malinha, Tó Zé Hipólito , Miguel BM , Henrique, Nobre, Zeca, Guerra, Fialho, Zé Alberto, Rui Pila, Tomás e Semilha. Fila da frente - Luísa N, São M, Ofélia Patriarca, Anabela Garcia, Lena, Ana Isabel, Dália, Guida, Flores, Gil, Neto, Malaca e Matias.
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JJ disse:
1 -O ano da foto tem que ser necessáriamente 1969/70 mas tens razão, juntamente com a do baile de Finalistas, esta é a imagem mais completa da grande colheita de 1971 .
2- Estando eu "logo atrás do friso escaldante" tenho que perguntar à Luisa e à São, que estão à minha frente, se se lembram dos meus "olhares conspícuos, movimentos aleatórios ou piropos cirúrgicos" porque, se aconteceu como dizes (e acredito que sim!), a Alzheimer varreu-me tudo da memória...
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8 Dezembro, 2007
Miguel B M diz:
"O jogador"
O futebol,como fenómeno sociológico que é, não deixa ninguém indiferente ,quer se goste ou não. É um jogo delicado,praticado por rapazes bem formados que evitam a todo o custo tocar no adversário e que até chegam a equipar de cor de rosa. Pois eu tive o grande prazer de jogar com o jogador mais duro que encontrei.Este jogador costumava acabar os diversos verões de canadianas devido a uma sucessão de fracturas nos dedos dos pés provocadas por entradas pouco ortodoxas sobre as canelas dos adversários.Um dia fomos jogar pela turma do 7ºano ao Entroncamento contra o colégio local.Eu era o guarda-redes e durante o jogo levei um toque no braço perfeitamente normal.Nessa altura o protagonista da história disse-me com ar soturno " eu trato dele ".E então seguiu-se uma torrente vertiginosa de golpes de karaté,pontapés de kick boxing,golpes altos e baixos que terminaram com a impossibilidade do outro jogador comparecer no tradicional lanche de convívio inter turmas. Adivinhem de quem se trata.Era um jogador a sério.R:selaJ oãoJ
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Guida disse:
Que diabo de ideia essa! Não tens uma fotografia de grupo sem o "simpático" que está ao meio?
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Miguel B M disse:
Johny: O photoshop não consegue retocar a foto,de acordo com o comentário da Guida? Já o Estaline ia eliminando os seus inimigos das fotografias à medida que os eliminava na realidade ( porque será que me lembrei do Estaline ?) MBM
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Zé Carlos Faria disse: A foto, com o seu colorido «retro» de quase meio século, gera uma certa nostalgia. Pena é o borrão preto, mesmo ao meio... (ficava muito melhor sem ele!).
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Alfredo disse... Bonita fotografia da primeira metade da década de 60 do século XX. Bem vincada a separação entre rapazes e raparigas na chamada educação politicamente correcta de então. E para que isso não suscitasse dúvidas lá está o separador austero e rígido.
A.Justiça
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Guida Sousa disse...
Esta fotografia é um exemplo feliz (simbolicamente falando)do Externato Ramalho Ortigão numa época e num momento.É solene(e divertida) a pose de TODOS os fotografados. Proponho um jogo: onde está o JJ? Abraço a todos!
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Laura M disse:
Tenho pena que a foto da camioneta com colegas da minha turma tenha saído do blog tão rapidamente. Mas gosto muito desta e vou entrar no jogo proposto pela Guida Sousa. O JJ é o primeiro jovem que está atrás da irmã da Ana Nascimento (da esquerda para a direita). Bjs Laurinha
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Luisa disse:
O JJ é o primeiro à esquerda atrás!
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Luis A disse:
Bela fotografia! E que saudades... LA
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