ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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O CALHAMBEQUE

por João Jales
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Nessa manhã de Primavera o Sol aquecia a fachada, virada a Sul, do Externato Ramalho Ortigão. Os estores da sala de professores estavam semi-cerrados de forma a impedir que ela aquecesse demasiado ao longo do dia. Mas talvez nem fosse necessário, a presença de alguns inesperados visitantes já tinha “arrefecido” a temperatura. Como acontecia com alguma regularidade naquele tempo, três funcionários superiores do Ministério da Educação tinham-se apresentado ao início do dia para realizar uma inspecção de rotina.
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Os Inspectores confirmavam nos serviços administrativos se tudo estava conforme a legislação em vigor, viam arquivos, livros de ponto, ficheiro de professores e também assistiam a aulas, consultavam cadernetas e viam enunciados de testes e pontos feitos pelos alunos. Analisavam, enfim, toda a actividade lectiva que se desenrolava no Colégio.

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Era pois bem diferente o clima naquela sala no início do intervalo da manhã, enquanto se aguardava o café que a D. Alda fazia diariamente no bico de Bunsen do anfiteatro. As conversas eram mais raras, e num tom mais baixo e menos descontraído do que habitualmente, já que todos estavam com especial atenção ao que os Inspectores perguntavam e comentavam. Havia sempre alguma tensão e apreensão nestas ocasiões, até porque se sabia que, além da avaliação didática, havia também uma componente de verificação dos conteúdos e actividades lectivas e da sua conformidade aos padrões e critérios do regime então vigente. O poder desconfiava das instituições que não controlava directamente, como fazia nos Liceus e Escolas Comerciais e Industriais. Uma censura preventiva...
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Neste ambiente foi mais fácil do que em circunstâncias habituais ouvir alguém que se aproximava da sala cantando alegremente:

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O Calhambeque, bip-bip
Quero buzinar o Calhambeque
Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!...

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A porta abriu-se e o “artista”, devido à penumbra provocada pelos estores corridos, não se apercebeu da presença de estranhos; dirigiu-se ao seu cacifo em “pas de valse”, estalando os dedos para marcar o ritmo, e continuou:
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E logo uma garota
Fez sinal para eu parar
E no meu Calhambeque
Fez questão de passear
No Calhambeque, bip-bip

Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!...


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Instalara-se na sala um silêncio absoluto, glacial e os inspectores olhavam para o professor, visivelmente admirados. Este acabou de arrumar os seus papéis enquanto entoava o último Bidhubidhu e voltou-se finalmente para os presentes, com uma elegante “demi-pirouette”, enquanto perguntava:

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- Estão todos bons? Parece-me que os acho hoje muito calados…

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JJ
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COMENTÁRIOS
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Isabel X disse...
Mais uma "traquinice" que vem reforçar a tese da boa disposição e do bom humor do Dr. Serafim. Isto presumindo ser ele o "artista" que tão bem entoava "O Calhambeque" (era bem giro esse tema do Roberto Carlos)na sala dos professores do ERO. Desta vez não estão em causa os alunos, mas os colegas e o ambiente soturno que qualquer inspecção provoca.
Também há boas histórias relacionadas com inspecções na Escola Secundária de Raul Proença, não é verdade Dr. Serafim?
O Jales, com a sua escrita muito viva, continua a encantar-nos a todos!
- Isabel Xavier -
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jorge disse...
suponho que a história divertida tenha verdadeiramente acontecido depois,o que o jj conta só a apresenta...a escolha dos passes de ballet para descrever os seus movimentos é muito boa ideia!!!
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João Ramos Franco disse...
A criatividade de imagens a partir de factos é uma das pertenças de quem descreve e conta. O que contamos pode até conter algo de ficção sobre a realidade do facto que o escritor conta, conter um pouco de sátira, em relação ao contexto. “ Três funcionários superiores do Ministério da Educação tinham-se apresentado ao início do dia para realizar uma inspecção de rotina”, até onde vai o “CALHAMBEQUE”, seja o Dr. Serafim a cantarola-lo ou não…
O João Jales escreveu e eu gostei do que li.Poderão dizer que a minha opinião é duvidosa, porque no meu Blog escrevi "Suas Exªs. Os Livros de um Estudante (ERO)", colocando (numa brincadeira aos personagens, Professores do ERO) os livros em primeiro e os professores em segundo lugar… A liberdade de escrever é absoluta. (não ofendendo, claro).
Parabéns João Jales.
Um abraço amigo
João Ramos Franco
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Luis disse:
Tem razão o anterior comentador na medida em que a pequena(em extensão!)sátira abrange muito mais do que a anedota que conta... sou habitualmente fã dos posts do JJ, mas acho este um admiravelmente rápido e certeiro tiro na mouche! LS

PERSONALIDADES (4) - DR. LEONEL CARDOSO

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O Dr. Leonel Cardoso, que tive a honra e prazer de conhecer, era um artista multifacetado, um homem de muitos talentos e que deixou uma vasta obra nas áreas da cerâmica, caricatura, medalhística, pintura, ilustração, jornalismo, poesia (incluindo letras para composições musicais), eu sei lá o que mais!
Tenho usado no Blog várias das suas caricaturas publicadas na Gazeta das Caldas e hoje mostro aqui a sua caricatura... feita por ele próprio!
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Traçar o perfil de alguém,
Que não se conhece bem,
Pode dar triplo desgosto…
…Porém, se o “perfilvisado"
é um artista consumado
e um poeta predisposto,

sempre às Caldas atento.
Que usa, a todo o momento,
A pena ilustre empunhar,
Para “dibujar” ou escrever,
Com o fim de enaltecer
A terra que o viu brincar…

…Então, a coisa é diferente,
Pois ele tem o cuidado,
Que, à uma todos dirão:
- Ora aí está, mal traçado,
o perfil inacabado
do,,, Autor da Secção!

BAPTISTA MENDES


P’ra fazer este “perfil”
Há que ter cuidados mil!...
Vamos a ver se consigo,
Mas há que ser cauteloso,
porque este “rapaz idoso”
é o meu melhor Amigo.

Tem defeitos? Certamente!...
Como, aliás, toda a gente!
Mas também tem qualidades
E entre estas, sem favor,
A de ser trabalhador…
Em várias modalidades.

Há ditados que perduram:
“Todos falam e murmuram…”
foi um dos que aprendi!
Pois ele tem o cuidado
De desmentir o ditado,
Olhando também p’ra si!

LEONEL CARDOSO

PERSONALIDADES (3)

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Depois de vasculhar aqui uns jornais antigos, e a propósito do depoimento sobre o Externato Ramalho Ortigão na Miguel Bombarda, decidi mostrar mais uma caricatura do Dr. Leonel Cardoso, originalmente publicada em 1958.
Tal como há cinquenta anos, o nome é para os leitores adivinharem. Interrogo-me se será tão fácil hoje como era nessa altura, quando o Dr. Leonel dizia "Pois por todos é lembrado / O que fez p’la nossa terra!"...
Quem será esta figura
Que se impõe pelo seu passado,
Que tamanha obra encerra?
O mistério não perdura,
Pois por todos é lembrado
O que fez p’la nossa terra!

Sacrificou-lhe a saúde,
O seu tempo precioso
E…até os seus interesses…
Com esta grande virtude:
Nunca ter sido vaidoso…
Nem aspirando a “benesses”!

Neste “cantinho” pacato,
“O Caldense”, desta vez,
Pondo em destaque o labor
Deste homem bom e sensato,
Que p’las Caldas tanto fez…
Não lhe faz nenhum favor!


LEONEL CARDOSO

(O Caldense, 9 de Outubro de 1958)


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COMENTÁRIOS

jorge disse...
estou a ver que tens razão jj,ninguém consegue identificar o caricaturado....eu conheci-o mal mas quem viveu nas caldas antes de 1960 sabe que ele devia ser a pessoa mais importante da terra!
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Fernando Santos disse:
Não será o Dr. Júlio Lopes, que creio ter sido Presidente da Câmara na década de 50?Fernando Santos

António José Figueiredo Lopes (O Professor)




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O António José Figueiredo Lopes (aluno do ERO) escreveu o artigo anterior. Aproveito para relembrar que o Dr. António José Figueiredo Lopes (o professor) já foi aqui amplamente evocado no Blog a propósito da homenagem de que foi alvo pela Câmara Municipal de Caldas da Rainha em 15 de Maio de 2008 e do subsequente almoço de que foi "vítima", em Junho do mesmo ano, por parte um grupo de amigos e antigos alunos seus.


Aqui recordo a caricatura que a São Caixinha desenhou para a ocasião e deixo os Links para os diversos artigos e comentários que acompanharam esses acontecimentos.
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António José Figueiredo Lopes


ANTÓNIO JOSÉ FIGUEIREDO LOPES



ANTÓNIO JOSÉ FIGUEIREDO LOPES - 2



Mensagem de A J F Lopes



O almoço de homenagem e as fotografias



Já nesta série foi-lhe dedicado O PROFESSOR DE GEOGRAFIA

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OS PROFESSORES EM 1945-51 (Miguel Bombarda)

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por António José Figueiredo Lopes
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Caro J.J.




Falar sobre professores de outras eras, do meu tempo de muito jovem, não é fácil. Passaram-se muitos anos, a noite do tempo esbateu nomes e recordações e a minha idade também vai cobrando o seu tributo, apagando imagens e nomes que ainda ontem estavam mesmo ali.

Meditando sobre essas épocas, apercebo-me de que teria havido uma certa rotatividade dos docentes, sendo que alguns, terão passado pelas nossas vidas de jovens sem deixar qualquer lembrança ou marca que se tivesse mantido até hoje. Foram apenas mais um professor/a. Isto pelo menos no que me toca, outros haverá com quem estabeleceram alguma empatia e que ainda os conservam nas suas recordações.

Tentando corresponder ao pedido do J.J., vou citar alguns nomes, sem qualquer pretensão de ser exaustivo, nem menor consideração por outros. São simplesmente os que na altura em que escrevo me vieram à memória.

As minhas matemáticas liceais, se bem me lembro, tiveram o seu início com o Dr. Abrunhosa, que recordo como homem austero que tentava impor disciplina, a um grupo um tanto ou quanto avesso a semelhante coisa.

A Dra. Lídia que tudo fez para me ensinar Latim e Português. Terá tido um sucesso relativo no Português… mas no latim foi uma desgraça, não por ela, claro.

A Dra. Alda Lopes, que bem tentou, com uma dedicação e competência a toda a prova que eu aprendesse Inglês. Infelizmente não teve um grande sucesso, o aluno era uma catástrofe, mas anos mais tarde foi bem vingada, quando ao chegar ao Canadá aprendi em seis meses o dobro do que deveria ter aprendido em três anos. Claro que era uma questão de pura e simples sobrevivência, mas não só, uma das provas para entrada na universidade obviamente era … Inglês.

O Maestro Carlos Silva, pessoa de grande cultura e educação, com uma paciência sem limites para aturar todas as nossas brincadeiras. Colaborador incansável em tudo o que fosse preparação de grupo coral.

O Dr. Silveira, que não tinha grande jeito para manter alguma disciplina nas aulas.

O Tenente Alves, mais tarde major Alves, pessoa com quem contactei ainda por muitos anos, e a sua Geografia, matéria insípida, mas da qual, não sei bem como, nos conseguiu fazer aprender alguma coisa.

O Dr. Melo que na minha opinião não teria grande jeito para ensinar História e ainda menos para lidar connosco.

O Dr. L. M. Rosa Bruno, excelente professor, com um jeito muito especial para lidar com a malta, conseguindo simultaneamente camaradagem e disciplina, que me conseguiu ensinar matemática, física/química e desenho. Poeta. Um pouco controverso para as convenções sociais da época. Nunca me esquecerei da sua reacção, quando acabado de chegar ao Colégio, foi para o laboratório dar a sua primeira aula prática de química tentando impressionar os seus novos alunos. Claro que alguns (a minha modéstia impede-me de dizer quem foi) tinham conseguido acesso ao laboratório, (era fácil) e mudado os rótulos de diversos frascos com reagentes etc. Foi um fracasso total.

Encarou-nos a todos, riu com gosto e disse: óptimo, verifico que existe um grande interesse pela química e agora toca a emendar tudo, e não repitam, porque pode ser perigoso.

E por aqui termino em definitivo, desejando que isto sirva de arranque para outros dizerem de sua justiça, relembrando um passado já distante, mas que, para quem o viveu, é sempre agradável recordar.

A. J. F. Lopes


ERO Miguel Bombarda 1948/49 - Da esquerda para a direita:
Dr. Bruno, Mário Braga,D. Anita,Dra. Lídia,Dra. Alda Lopes e Dr. Azevedo.
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COMENTÁRIOS
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Nani Barosa disse:
Gostei muito de ler o artigo do Dr. Lopes. O meu professor favorito era não só um bom educador, como também um homem bonito!
Ele tinha o dom de trazer a irreverência para a sala de aula de tal forma que toda a irreverência dos alunos se tornava irrelevante! Ele também sabia ser "duro" e sarcástico, mas isso era um mal necessário...
Investia dedicadamente nos seus alunos, a sua presença era muito positiva e transmitia sabedoria duma maneira que seduzia. Não, não estava apaixonada por ele... era mais uma espécie de ídolo! E nem sequer ensinou as minhas disciplinas favoritas, pelo contrário, nunca fui boa a desenho e muito menos a matemática. Imaginem se todos os professores tivessem sido como ele?
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Luis disse:
Há aí pelo meio deste depoimento algumas travessuras e indisciplina, pareceu-me... como é que uma dúzia de anos depois andava este senhor a impôr disciplina e a mandar calar os seus alunos? Ele devia ser pior comportado do que a maioria dos alunos que teve, confesse...
Tenho muitas saudades das aulas e do convívio com o Dr. Lopes!!! Daqui envio um abraço. Luis M
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Júlia Ribeiro disse:
Que delícia ler este artigo do Dr. Lopes !Reviver a sua época de estudante, e os seus professores, gostei particularmente da maneira como a descreve.Que delícia ver fotos do ano em que eu era um bébé ...que ainda usava fraldas e continuei a usar.....de pessoas que seriam mais tarde meus professores também(estou a referir-me à D. Anita,ao Dr. Lopes e ao Dr. Azevedo). Em 1964/65 , estava eu quase a sair, mas o destino estava marcado, encontrámo-nos todos no ERO. Eu, aluna, com 3 professores e 3 grandes Amigos.
Não posso deixar de fazer aqui um reparo.Conheci o Dr. Azevedo em 1958 e nunca imaginei como seria ele 10 anos mais cedo. Que engraçado... tão diferente! A postura,a toilette ... e o cabelo para onde teria ido??
Ao meu querido Professor e Amigo Dr.Lopes um muito obrigado e um grande beijinho. Júlia R
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João Jales disse:
Tem razão o Luis, há realmente um "cheiro" de irreverência, um travo de rebeldia e não-conformismo, neste aluno António José que explicam muita da cumplicidade que caracterizou o professor Dr. Lopes. Muito do humor e da ironia que me lembro de serem típicos nele, tiveram origem no facto de, ao contrário de outros, quando foi colocado "do outro lado da sala", ainda não se ter completamente esquecido do que era estar "do lado de cá".
Hoje temos o depoimento do aluno mas já, em devido tempo, muitos aqui recordaram o professor. Vou recuperar alguns desses testemunhos para integrar nesta série.
Hoje é ao nosso colega António José Figueiredo Lopes que deixo um grande abraço. JJ
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João Ramos Franco disse...
A minha memória ERO Miguel Bombarda não é uma realidade vivida, mas contada pelos mais velhos, vindos das antigas instalações e que comigo no ERO “prédio do Crespo”, situado no nº 91 da R. Capitão Filipe de Sousa, conviveram.
Dos professores mencionados só o Maestro Carlos Silva foi meu professor. Conheci o Dr. L. M. Rosa Bruno e Dra. Alda Lopes, mas não como professores.
É bastante provável que conheça António José Figueiredo Lopes mas se te disser que neste momento não estou a ligar o nome à pessoa, é uma realidade.Todas as palavras dos que passaram pelo ERO são bem vindas, mas os do meu tempo continuam sem dar noticias fazendo com que seja mais difícil recordá-lo. João Ramos Franco
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Isabel Esse disse...
Este aluno é a mesma pessoa bem disposta e jovial que me deu aulas vinte anos depois. Está "muy guapo" na fotografia o nosso António José, também deve ter destroçado uns corações naquele tempo. Mas ele disso não fala... Isabel S
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