ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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"Don't Think Twice (It's Allright)" - FÉRIAS DA PÁSCOA

por João Jales

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- Embora também me chame Ana, nada tenho a ver com essa Karenina de que falas – disse despreocupadamente a garota, como se desconhecer Tolstoi fosse um assunto irrelevante – gostava era de saber o que é que vocês fazem por aqui na Páscoa? Disseram-me que o Casino nesta altura nem tem bailes!
Estavam realmente a começar as férias da Páscoa, que sempre foram, para mim, as mais desinteressantes. O Natal tinha festas e reencontros familiares (primos, tios, avós, gente que vivia longe), prendas, guloseimas doces e salgadas (sempre me perdi mais pelas últimas). O Carnaval era uma festa de cinco dias de bailes, máscaras, ausência de horários e, ao contrário do Natal, pouca ou nenhuma família… As férias de Verão (as Férias Grandes!) eram um sonho de todo o ano, uma miragem dos dias invernosos passados nas aulas subitamente transformada numa renovada promessa de todas as aventuras e felicidades (faço anos no fim de Junho, a minha festa de aniversário abria a temporada). A Páscoa eram apenas duas semanas em que eu ficava habitualmente nas Caldas, um cabrito era “sacrificado” no almoço de Domingo pelos comensais de todos os dias e na terça-feira havia aulas.
A minha conversa com a Ana caminhava no sentido de um lamento comum por uma quinzena pouco prometedora. Ela vivia e estudava em Lisboa e passava cá ocasionalmente duas ou três semanas na praia durante o Verão. Conhecíamo-nos bem, éramos da mesma idade, mas fazíamos parte de “grupos” diferentes, ela pertencia aos que moravam na Foz durante a época balnear. Mas esse grupo só existia no Verão, estávamos em Abril e ali estava ela sentada comigo numa mesa da Zaira. Eu esperava a minha namorada, a Luisa, ela esperava não sabia bem o quê…
- O Casino está aberto mas não há lá bailes nesta altura – expliquei-lhe – e o Ferro Velho está fechado, não sei quando reabre (só reabriria no Verão de 1972, com o Joca e o Pedro). Temos a Azenha, o “Much” da família Xavier e algumas casas de amigos onde se pode dançar, ouvir música e jogar cartas.
A Ana olhou demoradamente para mim, como se as minhas sugestões lhe tivessem aumentado o tédio, e respondeu:
- Logo vi que os meus pais deixarem-me com as minhas tias aqui nas Caldas, não era boa ideia. Agradeço-te a oferta dos livros e cassetes mas ainda não sei o que me apetece fazer … depois digo-te alguma coisa.
Tinha efectivamente posto à sua disposição os meus livros e referido a hipótese de irmos a minha casa gravar umas cassetes para ela ouvir enquanto cá estava. Pareceu mais interessada na música do que na literatura.
- Agora vou-me embora, antes que a tua Luísa fique com ciúmes! – disse, com inesperada vivacidade, e saiu.
A Luísa lá chegou, anunciando que ia passar a segunda semana de férias com os pais em casa da Avó, o que não melhorou nada a minha disposição. Demos uma volta pelos locais do costume, um passeio no Parque, gozando uma bela tarde de Primavera, lanche na esplanada, uma olhadela na R. das Montras e às sete horas levei-a a casa.
- Não posso sair à noite – disse-me à despedida – não estão cá os meus primos nem a Maria…
E era verdade, os pais dela não a deixavam sair só comigo, era necessário haver um pretexto e um grupo para a ir buscar. E estando ausentes alguns dos “cúmplices”, tudo era mais complicado. Havia uma conspiração contra as minhas férias da Páscoa!

- Falamos amanhã, talvez se organize alguma coisa no Much ou haja malta para ir ao cinema. Acho que passa o Easy Rider no Chagas, li no Rock & Folk que tem uma música fantástica! Embora o Ricardo me tenha dito que cá em Portugal o filme tem muitas cenas cortadas, deve valer a pena – respondi. E despedimo-nos com um discreto beijo, na esquina anterior à sua porta.
Jantei e saí para tomar um café e fumar um cigarro, o que ainda não me era autorizado fazer em casa. Entrei na Zaira que estava quase cheia, devido à noite primaveril e às férias. Quando me sentava na mesa de uns colegas ouvi:
- Não queres tomar um café connosco? – Era a D. Lurdes, uma das tias da Ana, velha amiga da minha mãe, que me convidava, inesperadamente, para a sua mesa. Aceitei e a Ana, conversando, aparentemente distraída, com a outra tia, só quando me sentei pareceu dar pela minha presença.
- Foi bom o passeio hoje? Ainda te vi na esplanada mas não me ligaste nenhuma – brincou ela.
- Não te vi, podias ter lanchado connosco!
- Deixa lá, não me pareceu que fizesse falta na mesa…
E a conversa continuou, neste tom irónico/amigável, até que a tia Fernanda interrompeu para me dizer:
- Em vez de estarem aí a embirrar um com o outro, devias ir apresentar uns amigos teus à Ana, ela não tem cá ninguém do grupo da Foz, eles só vêm no Verão… A tua namorada e a tua irmã também podem ajudar, conhecem toda a gente!
Prometi fazer o melhor possível para animar a estadia da sobrinha nas Caldas. E logo naquela noite ela foi ao casino jogar um King, acompanhando-nos depois ao Camaroeiro, onde escolheu uma Rical, por recomendação expressa do Mário, que lhe garantiu ser essa laranjada caldense a melhor do Mundo. Ela concordou, aceitando o excesso de gás e alguns grumos demasiado grandes de laranja como inegáveis vantagens do produto local sobre a Laranjina C… Pareceu-me sentir um tom de flirt, ou pelo menos de divertida provocação, da Ana em relação ao Mário. Tentei esclarecer isso quando fui levá-la a casa, um pouco depois da combinada meia-noite, mas ela respondeu com um evasivo – "Foi impressão tua!" – Despedi-me dela sob o olhar vigilante das tias, que nos esperavam à janela, despedindo-se de mim com sonoros – “Boa-noite e obrigada!” – mostrando assim à vizinhança a sua vigilância, e concordância, em relação à nossa chegada.
Fomo-nos encontrando cada vez com mais frequência, principalmente nas alturas em que eu não estava a namorar, durante essa primeira semana de férias. À noite era eu que a levava a casa, ela contestava perante as tias essa exigência, mas elas eram sempre inflexíveis: ou ia e vinha comigo ou não saía! À tarde, enquanto andava com a Luísa, via-a com frequência num grupo com o Mário e outros colegas e amigos, a quem a tinha apresentado. Como a nossa intimidade foi aumentando, sobretudo depois de um serão passado a escolher músicas para as tais cassetes que eu lhe tinha prometido, essa proximidade provocava-me inconfessáveis ciúmes. Uma noite em que os meus pais jantaram algures, enquanto ouvíamos em minha casa Dylan, Phil Ochs, Joan Baez, ela garantiu-me e mostrou-me que não havia qualquer motivo para isso...

Enfeitiçado, apaixonado e aparentemente correspondido, eu não sabia bem o que fazer.
A Luísa, vendo sempre a Ana perto do Mário (chegámos a ir no mesmo grupo ao cinema ver o Easy Rider), nunca desconfiou de nada; nem a minha família nem as tias dela, que me chegaram até a perguntar se entre a Ana e o Mário se passava algo…
Mas um dia decidi assumir abertamente a minha nova paixão, passando por cima do receio de estar a agir sob um impulso de que me arrependeria mais tarde. Mas um problema se punha: e a Luísa, que partira na véspera, sem que eu lhe dissesse nada? Escrevi-lhe nessa noite e entreguei a missiva à Isabel, amiga comum e intermediária da nossa correspondência, para que a despachasse logo que possível. Era um rompimento um pouco cobarde, mas eu achava que não podia nem devia manter a situação mais tempo. Na manhã seguinte fui, feliz, contar à Ana (depois falaria com o Mário, não andasse ele com ideias…).
- Mas tu és louco, o que foste fazer? – explodiu, irritada, a Ana – estragaste tudo para todos! As minhas tias deixavam-me andar contigo à vontade porque sabiam do teu namoro com a Luísa e vigiavam-me desconfiadas apenas quando me sabiam com o Mário. Mal se saiba que rompeste com a Luísa nunca mais me deixam sair, principalmente contigo! Nunca mais elas ou a tua família nos deixam sozinhos em casa a ouvir música, ler ou jogar cartas; a Luísa vai ficar tristíssima, sem necessidade, e nós vamos ter a semana que nos restava juntos completamente estragada. Como vocês, rapazes, são burros!
Olhei para ela, admirado e confuso, sem saber o que responder. Ela tinha toda a razão, claro; na semana seguinte, quando a Luísa voltasse, já ela estaria em Lisboa e o Verão era um longínquo e incerto futuro... Ainda por cima a gloriosa semana pascal que eu antecipara parecia irremediavelmente arruinada! Saí a correr.
Ela ainda me gritou, do cimo das escadas:
- Onde é que vais?
Mas já nem a ouvi, corria desesperadamente, só com um pensamento: encontrar a Isabel a tempo de evitar que ela pusesse no correio o seu envelope com a minha fatídica carta …

João Jales
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COMENTÁRIOS
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Tina disse...


Muito divertida esta tua aventura pascal! Não conheci as Caldas da Rainha de então, pelo que não reconheço os locais, mas a descrição é fantástica. Até me senti a acompanhar in loco o jogo de sedução entre os dois adolescentes. Há sempre uma inocente Luísa que não se apercebe das cartas a serem dadas debaixo do seu nariz...
As férias da Páscoa, para mim, foram sempre interessantes como as outras, pois a prática religiosa reduzia-se à observância de não comer carne e fazer pouco barulho na sexta-feira, por imposição de umas tias, verdadeiras e por afinidade. Com seis irmãos e uma quantidade enorme de primos, era uma alegria!
Parabéns, JJ, pela vivacidade com que descreves as tuas recordações. E obrigada pela partilha.
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MPO disse...
Sempre engraçadas as suas memórias. Leio-as com um sorriso, mas deixa sempre o leitor em suspense - chegou a tempo ????? MPO
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João Ramos Franco disse...
Neste passear do João Jales nas memórias, vai-nos transportando ao viver de jovem numa Caldas da Rainha em determinada época.
Desta vez, coloca-nos na Páscoa, perante a sua evolvente, contrastando com os outros períodos de férias.
O que escreve consegue envolver-nos perante a realidade da sua juventude, ainda não pode fumar em casa (calculamos a idade), com os “flirts” naturais nas férias e a corrida final para não perder a namorada. Retrato com as normais condicionantes familiares (das duas partes), que acaba por transportar às nossas próprias memórias.
Mais, João, ficas bem nestes retratos…
Um abraço amigo
João Ramos Franco
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Luisa disse...
Uma delícia e um encantamento.
Mais uma história que nos mergulha num tempo e num local em que tudo era diferente ou em que nós víamos também as coisas de forma diferente...como se eu eu fosse a Peggy Sue do filme do Coppola!!!
Não sei bem se concordo com essa tua visão das meninas manipuladoras e calculistas que surgem na tua vida,mas não é isso que me retira o prazer de ler as tuas memórias. Parabéns e Obrigada!Boa Páscoa.Luisa
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Ana Carvalho disse:
Mais uma deliciosa história e que retrata muito bem aqueles tempos. Os Pais e as Tias sempre gostaram muito de ti e tinham imensa confiança no João, que era muito educado e muito ajuizado, enfim só coisas boas e verdadeiras claro! Eu tambem teria gostado muito de ter um "João" para tomar conta da minha filha aqui há uns anos.
Mas há outra coisa que eu tambem acredito,é que os nossos filhos teriam adorado ter umas férias da Páscoa como as nossas, com um Casino para passar tardes a jogar King, um Salão Ibéria e um Pinheiro Chagas para ver um qualquer filme, até podia ser o Easy Rider, com excelente música, ir a casa de alguem gravar umas cassetes...ir à Foz de bicicleta, tantas ciosas que nos divertiam imenso, flirts ...eu acho que eles nem sabem o que isso é, nem como se faz. Em relação às cassetes os nossos filhos talvez saibam o que é mas os nossos netos duvido, já estou a ver o meu Sebastião de olhos muito aberto a perguntar: - Titica o que é isso?
BOA PÁSCOA para todos. Bjs PP
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Isabel X disse...
Agrada-me este reconhecimento da superioridade feminina em medir o alcance exacto das situações. Então na adolescência isso é inevitavelmente assim. O pano de fundo da história, as Caldas daquele tempo, com "Much" e tudo, é-me bastante familiar.
Como já de outras vezes disse, mas nunca é de mais salientar, não é para todos saber recriar atmosferas, como o faz o JJ. Mais até do que contar histórias.
- Isabel Xavier -
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AntMor disse...
Tem razão a Isabel Xavier,é sempre credível e de acordo com as minhas recordações o ambiente em que decorriam estas iniciações sentimentais nestes escritos do Jales.
Esta história revela uma outra coisa,é que ele era habitualmente mais feliz nas suas aventuras do que os seus contos anteriores dão a entender......Penso que sei quem são a "Luisa" e o "Mário" mas não a Ana.Talvez num próximo almoço consiga descobrir,que é que achas?
O Faria propôs aqui editar um livro com um "Best Of" do blogue em que incluíria as caricaturas da São,eu acrescento os teus "Diários!!!
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São Caixinha disse:
Se não tivesses anunciado o autor do "Don't think twice, it's all right" eu tinha adivinhado que eras tu! Pela forma fluente e clara da escrita, pelo movimento e o enredo, entretanto tão caracteristicos das tuas estórias. Sabes transportar-nos aquele tempo com uma notável precisão! Volto a ver-te de calças à boca de sino, alto e elegante com o teu sedutor ar travesso a serpentear pelas ruas das Caldas!
Se a Luísa chegou a ler a carta suspeito que conseguiu perdoar-te!!!
Para todos, uma Pascoa Feliz!
Bjs, São
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António disse...
As férias da Páscoa,sem o ambiente do Natal nem o bom tempo do Verão eram sem dúvida as mais chochas...além de que se aproximava o final do ano,havia notas com que nos chateavam a cabeça,era preciso estudar...O triãngulo amoroso está muito bem descrito,o desenrolar do namoro é normalíssimo mas o final transforma os personagens e deixa o JJ tão admirado como os leitores da história!!!Mas eu sei que há mais histórias de onde esta veio,não é verdade? António

TEACHERS (Leonard Cohen)

A nova geração de professoras (1970/1972), por Isabel Xavier

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Em 1970 morreu António de Oliveira Salazar. Nesse mesmo ano o Papa Paulo VI recebeu os representantes dos Movimentos de Libertação das colónias portuguesas, houve manifestações contra a Guerra Colonial e foi criado o MRPP. No ano seguinte, 1971, as Universidades portuguesas contavam com a presença constante de forças policiais fardadas e à paisana. Em 1972, o estudante Ribeiro Santos foi morto a tiro pela DGS no interior das instalações da Universidade de Lisboa e foram presas cerca de 70 pessoas por se terem reunido na Capela do Rato em nome da Paz.

E no Externato Ramalho Ortigão, passar-se-ia algo de análogo? De que modo reflectiria esse “pequeno mundo” as transformações gerais que à sua volta, e designadamente no meio estudantil universitário, indiciavam o começo do fim da ditadura?

O director era o Padre Xico. As raparigas (e algumas professoras, segundo testemunhos prestados na primeira pessoa aqui no blogue) usavam mini-saia, maxi-saia ou calças; os rapazes deixavam crescer o cabelo e todos (menos eu) – rapazes e raparigas - fumavam desalmadamente, como se não houvesse amanhã, às escondidas, nas casas de banho do colégio. Mas, e este pormenor não é despiciendo, os rapazes mais velhos já eram autorizados a fazê-lo, durante os intervalos, fora das instalações do colégio. Vinham para junto do gradeamento do recreio das raparigas que se “penduravam”, conforme podiam, ao longo do dito (eu também).

Além das significativas mudanças já enunciadas, outro facto marcante dos novos tempos que se viviam no colégio, entre 1970 e 1972, foi a integração no seu Corpo Docente de uma nova geração de professoras, entre elas a Dra. Noémia e a Dra. Júlia, que leccionavam, aliás com competência inquestionável, respectivamente, as disciplinas de História e de Português.

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Cada uma à sua maneira, e por motivos distintos, se distinguiam dos professores a que estávamos habituados. Desde logo, pelo aspecto físico, a Dra. Noémia, que já tem aparecido em várias fotografias do blogue, tinha um ar arrapazado, andava sempre de calças; a Dra. Júlia usava brutas mini-saias, blusas decotadas e até mesmo de alças (ai se o Padre Albino visse...) e era um tanto “esgrouviada” de modos.



Depois, pelo modo como se relacionavam com os alunos. Mesmo eu, pouco dada a folias, me lembro de ter integrado um grande grupo responsável por um “assalto” de Carnaval a casa da Dra. Júlia. Dançámos, comemos, bebemos e lembro-me até de o Henrique Conceição, enquanto o Vasco Baptista se afastou por qualquer motivo, me ter vindo dizer com indiscutível convicção e uma voz algo arrastada: “Tu é que és boa rapariga, tu é que és mesmo boa rapariga!”. Valeu-me o Chico Carrilho que nos “separou”, ao mesmo tempo que dava razão ao Henrique. Fez bem, há certas ocasiões em que as pessoas não devem ser contrariadas, principalmente quando estão cobertas de razão.
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Já em casa da Dra. Noémia, a que também cheguei a ir com outros colegas, lembro-me de lá ouvir canções revolucionárias, as inconfundíveis músicas do cancioneiro anti-regime. Noutro registo, mas não menos interessante, lembro-me de ter sido aí que pela primeira vez ouvi Leonard Cohen, num disco levado pela Dra. Cármen, nossa professora de Inglês, deixando-me encantar (até hoje) pelos belíssimos poemas e melodias das suas baladas.

Alguém pensaria serem possíveis episódios destes em casa de professores do ERO? Sinais dos tempos!

- Isabel Xavier -


= "TEACHERS" Leonard Cohen =









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COMENTÁRIOS
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JJ disse:
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Não queria terminar esta série sobre os Professores sem assinalar a chegada ao Colégio de uma geração de professoras de "tenra" idade e pouca experiência lectiva no final da década de 60. Na minha memória é a Inês a primeira, depois a Ermelinda, Helena, Ana V Lino (apenas um ano, julgo), a Carmen, a Noémia e a Júlia. Estas três últimas trazem uma nova forma de relacionamento com os seus alunos, mais informal e que se prolongava fora do espaço do Colégio. Em casa da Noémia e da Nani, ali junto à Ponte, jogavam-se cartas e ouvia-se música diariamente, organizavam-se jantares e festas quase todos os fins de semana.

A Júlia morava ao pé do Convívio e era frequente encontrá-la a lanchar e conversar num dos cafés da praça. Era uma pessoa divertida, desinibida e bem disposta que falava pelos cotovelos e ria com facilidade e frequência

Eu frequentava a alínea F, não fui aluno de nenhuma delas, mas mantive esta convivência, que se prolongou, para mim, entre 1970 e 1972.
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O texto da Isabel é excelente, enquadrando bem a época e as caricaturas da São Caixinha; talvez por ter destas duas senhoras uma memória mais recente e de quando ela própria era mais velha, estão, na minha opinião, entre as suas melhores ilustrações nesta série. Mas há mais....
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Gostaria de saber o que é feito da Ermelinda (uma das melhores professoras que tive no ERO), da Helena, da Noémia e da Júlia. Alguém sabe?
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Isabel X disse...
Só para corroborar o que diz o Jales: as caricaturas da São estão simplesmente notáveis! Enquanto estive na faculdade (acabei o curso em 81) ainda vi algumas vezes a Dra. Júlia por lá. Depois, nunca mais! Também já me tenho perguntado: que será feito destas professoras?
- Isabel Xavier -
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João B Serra disse:
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Em poucas palavras, uma evocação sugestiva de uma época, com as suas personagens, estilos de vida, formas de relação, e com os seus ambientes: é assim que escreve a Isabel Xavier (e reconstitui pelo desenho a São Caixinha). Claro que também fala de si própria, mas com a sobriedade própria de quem historia o que testemunhou.
Nada tendo a acrescentar, só posso corroborar: em 1970 ingressou no ensino público e particular uma nova geração de professores. Eles tinham obtido um grau académico passando por cima de colegas que entraram antes na Universidade, pois foi em 1968 que o Ministro José Hermano Saraiva criou nas Faculdades de Letras e de Ciências o grau de bacharel. Eram realmente mais novos – dois anos em média – que os seus colegas licenciados e tinham apanhado em cheio as movimentações estudantis de Lisboa (1968) e Coimbra (1969). A geração do “rock” tinha agora a responsabilidade de fazer diferente na escola que tanto contestara.
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Julinha disse:
O artigo da Isabel está muito engraçado, gostei e fez-me lembrar um dito muito conhecido "chegou uma lufada de ar fresco" ao Blog!
Quanto aos desenhos da São, eu que não conheci nenhuma destas senhoras, parece que as estou a ver tal como a Isabel as descreve.Parabéns às duas meninas.Beijinhos. Júlia R
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Isabel Esse disse...
Está muito bom o artigo,como tem sido uma constante com a Isabel Xavier.Os desenhos da São estão estupendos,tem razão o Jales ao dizer que são dos melhores que ela fez!Conheci a casa da Noémia(e da Nani),era um sítio divertido,em que todos estavam à vontade.Lembro-me de lá ver a Lena,irmã da Isabel,a Fani,a Teresa Miguéis,a Zé Pereira,mas não a Isabel,que era mais nova.Lembro-me também de uma festa de Carnaval em 71 ou 72com o Henrique,Nuno Mendes,Jales,Hipólito,não sei se será dessa que falas?Beijos.Isabel
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Ana Carvalho disse:
Olá João
Não se pode uma pessoa ausentar durante 2 ou 3 dias e aparecem logo 2 excelentes textos no nosso blog.
Como sempre as caricaturas da São estão fantásticas e o texto da Isabel como sempre muito bem escrito. A drª Noémia e a Drª Júlia... que professoras fantásticas e amigas até, belas tardes que passámos em casa da Drª Noémia e Nani a jogar às cartas, a ouvir musica, a conversar.
Também eu fui ao assalto de carnaval, uma maravilha. Gostava de saber o que foi feito delas, tal como a Drª Inês talvez aparecçam aqui um dia destes. Bjs PP
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José Carlos Faria disse:
Consultar o blog após um período de ausência é um prazer sempre renovado. Desde logo porque há surpresas à espreita.
Desta vez foram os textos do Dr. Serafim e da Isabel Xavier. Sobre este último, o cruzamento, tão bem urdido, das memórias pessoais com os dados históricos, levou-me uma vez mais a compreender que as grandes transformações decorrem de uma sucessão de pequenas mudanças, por vezes imperceptíveis, mas que vão lentamente infiltrando raízes, abrindo brechas naquilo tido por supostamente impenetrável, até brotar a subtil planta do Novo, algo de substancialmente diferente do até aí vivido.
Também foi assim connosco: O Colégio, apesar da tendência imobilista e conservadora em que muitas vezes esteve mergulhado, não era (nem podia ser) uma ampola que nos isolava do Mundo e nos tornaria imunes e insensíveis aos tempos e ao soprar dos seus ventos. Éramos muito jovens num tempo (ainda) muito velho. O que estava para vir seria aliciante e inesquecível....
Quanto às duas recentes caricaturas que nos são oferecidas pela São Caixinha confirmam (se preciso fosse) o talento certo da autora e sendo particularmente conseguidas, fazem sobressair ainda mais uma colecção de grande qualidade.
Este nosso blog, a meu ver, já tem conteúdo que justifica começar a pensar numa antologia editada em suporte papel. As caricaturas são, desde logo, material a seleccionar. Z C Faria
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São Caixinha disse:
O texto da Isabel X sobre a Dra. Noémia e a Dra. Júlia está muito interessante!! E que excelente memória também!
As caricaturas a enquadrar este tipo de textos ficam naturalmente muito enriquecidas! Obrigada de qualquer forma pelas simpáticas palavras! Sabem sempre bem os elogios, tenho que admitir!
Concordo com o JCF ao referir que há material de qualidade suficiente para uma publicação em papel...pela abundância creio que haverá até alguma dificuldade na selecção de textos e comentários! Fico a aguardar o final da série!!

A DRA. MARGARIDA E EU (Jaime Serafim)

.por Jaime Serafim
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Apesar de ter nascido em Lisboa, eu sou de famílias desde sempre ligadas ao mundo rural e foi numa aldeia perto das Caldas da Rainha que fui criado, brinquei e frequentei a escola primária.
Ainda hoje não sei a razão de, desde muito pequeno, apesar de não saber o que mais tarde queria ser, eu sabia que não queria ser agricultor. Será porque achava muito penosas as tarefas da agricultura? No entanto elas eram as minhas únicas referências, a não ser…
A não ser o que fazia o Sr. Francisco – ele tinha uma padaria, cozia um pão estaladiço, leve e cheiroso, andava sempre limpo, uma camisa branca impecável, cabelos lavados, levemente empoados de farinha….
Já sei! Quero ser padeiro!
Entretanto, com a entrada na escola, vi que a professora, uma senhora já bastante idosa, tinha uma vida limpa, interessante… e sabia tantas coisas! Eu achava que ela sabia tudo! Toda a gente a cumprimentava respeitosamente, com alguma cerimónia, e ela tinha sempre uma douta palavra, própria para cada momento.
Agora é que sei! Quero ser professor!
O problema é que, para ser professor, tinha que ter estudos para além da quarta classe. Nunca ninguém da minha família, nem naquela terra, tinha ido mais além nos estudos. Como havia de ser?
Na altura era impossível uma criança deslocar-se diariamente da aldeia para a cidade – em alguns dias de inverno, até de burro era quase impossível. Das conversas com os meus pais, a propósito da minha ambição, resultou que decidiram mudar de vida e passarem a residir em Caldas, onde o meu pai procurou trabalho, passando de proprietário, como na altura se dizia, a trabalhador por conta de outrem, como hoje se diz.
Fiz a admissão ao Liceu em Lisboa, no Liceu Camões e, em Outubro de 1953, mudámo-nos para Caldas e fui matriculado no Externato Ramalho Ortigão, a única instituição que ministrava o ensino liceal. As mensalidades eram caras para as nossas posses, mas com uma espantosa gestão dos meus pais, conseguiram uma harmoniosa tranquilidade e bem-estar familiar, onde os afectos estiveram sempre presentes, para que eu pudesse concretizar o meu intento. Tive os melhores pais do Mundo!
Nos dois primeiros anos, os estudos correram bem, dentro da normalidade, sem nada de especial a assinalar. Tive bons professores, muito empenhados, simpáticos e competentes. Apenas me vou referir, pela negativa, à professora de Português que tive no primeiro ano – a Dr.ª Lúcia. Muito competente certamente, mas muito ríspida e, quando se desagradava por algo menos bom, ela, que já não era bonita, fazia uma cara feia e franzia o lábio superior, acentuando ainda mais a negritude do generoso buço. Exibia um ar feroz e eu, coitado de mim, ficava secretamente horrorizado…
Mas foi a partir do 3.º ano que o meu futuro se começou a delinear mais claramente. A Dr.ª Margarida Ribeiro Rodrigues iniciou funções no Externato – estávamos em 1955. Por minha sorte, foi minha professora de Matemática, Físico-Químicas e Ciências Naturais. Naquele tempo era assim, os professores tinham que leccionar em áreas adjacentes à da sua formação.
Foi com o desenrolar das aulas da Dr.ª Margarida que eu comecei a aprender que o Mundo que me rodeava era muito mais rico e interessante do que eu alguma vez poderia imaginar. As transformações que se observavam, mesmo que simples, tinham a sua interpretação e explicação. Era possível relacionar fenómenos que aparentemente pareciam díspares… Descobri o fascínio do raciocínio matemático, que tão tranquilamente nos fornecia previsões, conhecimentos, ajudava a estabelecer relações e era, só por si, algo de maravilhoso.
Naqueles tempos, o estudo da Física e da Química era feito pelo livro, sem qualquer apoio experimental. Os ensaios práticos eram lidos ou explicados pelo professor. A Dr.ª Margarida, apesar do reduzido material de laboratório de que o Externato dispunha, sempre acompanhou as suas aulas com os ensaios experimentais possíveis de realizar. Eu vi e cheirei cloro, observei a sublimação do iodo, assisti ao precipitar do sulfato de bário, vi água a transformar-se em oxigénio e hidrogénio… experimentei tantas coisas, tantas… era um Mundo novo que se me abria!

Mais tarde, reconheci que, em qualquer destas disciplinas, há temas pesados e difíceis, mas enquanto as aulas foram dadas pela Dr.ª Margarida, não dei por isso. Era tudo tão bonito e fácil!
Provavelmente, por imperativos de distribuição de serviço, no 5.º ano, em Ciências Naturais, a Dr.ª Margarida foi substituída por outro professor. Esta disciplina perdeu o encanto, tornou-se difícil e muito maçadora. Mas, felizmente, a nossa turma continuou a ter aulas de Matemática e de Físico-Químicas com a mesma professora.
Agora sei! Quero ser professor de Físico-Químicas! Ou de Matemática?
Infelizmente para nós, a Dr.ª Margarida deixou-nos no final do 5.º ano (1958). Decidiu, e muito bem, enveredar pelo ensino oficial.
Nos 6.º e 7.º anos tive outro professor de Físico-Químicas e outro de Matemática. A diferença era abissal. O empenhamento, a alegria da leccionação e a força que a Dr.ª Margarida imprimia na dinâmica de uma aula foram substituídos por matéria dada a velocidade de tartaruga, num caso e a velocidade da luz, no outro. Foi um desconsolo.
Mas não importa, o gosto pelo conhecimento, a beleza da Ciência e o tornar acessível o que parecia difícil, já estavam interiorizados – a Dr.ª Margarida tinha-me marcado para sempre! Restava-me, quase sozinho, dar conta do recado. E dei!
Terminado o 7.º ano, fui ver os elencos das cadeiras dos cursos entre os quais hesitava. Verifiquei que em Ciências Matemáticas apenas tinha uma cadeira de Física e outra de Química, mas em Ciências Físico-Químicas tinha muitas cadeiras de Matemática, para além das muitas de Física e de Química.
Então, finalmente, decidi: Quero ser professor de Físico-Químicas!
Anos depois, estreei-me, como professor, no Externato Ramalho Ortigão. Eu, que apenas tinha frequentado, como aluno, o Externato no “prédio do Crespo”, encontrei no novo edifício excelentes salas de aula, laboratórios muito mais bem equipados e uma confortável sala de professores. O ambiente também já era outro – tudo era muito mais organizado, aprumado e formal, direi mesmo requintado para a época. Eu tinha 21 anos, era um rapazeco, sentia-me um pouco constrangido, mas fui sempre muito bem tratado e respeitado por todos: Director, colegas, empregados, alunos e pais.
Foram-me atribuídos 5 níveis para leccionar. Tive de trabalhar muito. Na preparação das lições, procurando qual seria a melhor estratégia para a leccionação de cada tema, quantas vezes recorri ao que vi a Dr.ª Margarida fazer nas aulas. Recordava-me perfeitamente da forma como a Dr.ª tinha leccionado, das estratégias que tinha usado, e tentava seguir-lhe as pisadas. Foi, sem que o soubesse, a minha primeira metodóloga.
Como se pode perceber, eu não podia deixar passar a excelente oportunidade que este maravilhoso blogue me dá, para prestar um preito de homenagem a esta QUERIDA SENHORA que tanto me marcou e influenciou tão positivamente toda a minha vida. Bem-haja Dr.ª Margarida Ribeiro!
Era (e ainda é) uma senhora de apresentação sempre muito bem cuidada, bem penteada, saltos altos e que deixava à sua volta um perfume que nunca esqueço – quente e suave. Usava sempre a mesma marca (Boalis). Um dia perdeu uma luva e, quem a encontrou, foi devolver-lha, porque de imediato reconheceu, pelo perfume, a quem pertencia.
Em 1970 (ou 71?) Dr.ª Margarida, agora docente do quadro da Escola Secundária de Rafael Bordalo Pinheiro, voltou ao Externato para leccionar, em regime de acumulação, algumas turmas de Matemática. Imagine-se a minha honra, alegria e satisfação em poder ter a meu lado uma pessoa que tanto admiro.




Falámos ao telefone há uns dias. Fiquei feliz por saber que se encontra bem, mantendo o mesmo espírito elevado e alegre, tão característico das pessoas inteligentes e boas, que sabem dar tanto e tanto têm para dar.
Para si, Dr.ª Margarida, um beijinho de muita amizade e gratidão e um abraço do tamanho do Mundo.
Ah, é verdade… essa ideia de ser padeiro nunca me abandonou de todo. Ainda hoje sinto um fascínio enorme perante um forno de lenha a arder. Não é, Manela?

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Jaime Serafim




C O M E N T Á R I O S

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Isabel X disse...
Também fui aluna da Dra. Margarida e concordo plenamente com o Dr. Serafim. Aliás, a minha turma dividia-se, para as aulas de Matemática, em dois grupos: os repetentes, que eram da matemática antiga, tinham aulas com o Dr. Serafim e os da Matemática moderna, que era o meu caso, tinham aulas com a Dra. Margarida. Sempre fui mais das letras do que das ciências, embora aprendesse todas as disciplinas com gosto. Do que melhor me lembro das aulas da Dra. Margarida era a constante disponibilidade para voltar a explicar alguma questão mais obscura. Quando eu lhe dizia que não tinha compreendido qualquer exercício que tentara resolver em casa, a Dra. Margarida respondia: "Isso é porque escreveste a preto sobre branco. Vem aqui ao quadro e verás que percebes logo tudo quando escreveres a branco sobre preto!" E não é que assim acontecia? Um beijinho para a Dra. Margarida. Fico feliz por saber que está bem. Há muito tempo já que não a vejo!
- Isabel Xavier -
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Júlia disse:
Não resisti a ler e reler o artigo do Dr. Serafim .Deliciei-me! Estou fascinada pela maneira como escreve, ao correr da pena, como conta aqui todo o seu percurso escolar e a difícil tarefa da escolha da profissão que tão bem, e com tanto entusiasmo, viria a exercer. Isto fez-me reflectir o porquê de haver tão bons e tão maus professores. Estes últimos não souberam escolher ou não tiveram a oportunidade de trabalhar na arte que verdadeiramente gostavam.
O Dr. Serafim, como professor, inspirou-se na Drª Margarida, que conheci embora não tivesse sido sua aluna e de quem tive sempre as melhores referências. Aprendeu com certeza graças aos seus pais que, como os meus (desculpem repetir-me), se sacrificaram para que a filha estudasse. Graças a eles somos hoje o que somos.
Entretanto ficámos a conhecer mais uma das especialidades do autor pois, pela leitura, parece-me que também faz "pão caseiro". Será verdade? Ai que bom, a sair do forno quentinho, com a manteiga a escorregar pelas mãos....inscrevo-me já, até prefiro às filhoses!!! O que virá a seguir??? Aguardamos...
Um Grande Beijinho
Júlia R.
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LFS disse...
Há quem diga que o problema nº 1 do país é a Justiça. Outros preferem acentuar que é a Educação, a Economia ou até mesmo a Saúde. Pela minha parte, se ainda estivesse na fase de selecção, optaria imediatamente pela Educação depois de ler este belo testemunho do Dr Serafim.
É claro que a experiência extraordinária de um professor marcante é multiplicativa.
Não tivemos nós, meia geração depois, os ecos desse modelo competente e cativante de ensinar da drª Margarida (que não conheci), nas lições e na amizade que recebemos do nosso professor Jaime Serafim? Não andamos aqui há dois anos neste blog a reflectir o que éramos e no que nos transformámos, em resultado da gratificante influência daquela fase crucial da nossa formação?
Desejarei apenas que eu próprio possa não desmerecer, na quota parte de responsabilidade que me cabe de humilde influência noutros mais novos, o património herdado dos meus melhores professores, na primeira linha dos quais figura desde sempre o próprio Dr Serafim.
LFS
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João Ramos Franco disse...
Se permite, meu caro Jaime Serafim, entrou para o ERO na mesma época que eu, também fui aluno da Dr.ª Margarida Ribeiro Rodrigues a Físico-Químicas e Ciências Naturais, mas a mim tocou-me mais o Dr. Azevedo porque, como sabe, davam as mesmas disciplinas.
Mas o que ainda hoje ando a pensar, desde do dia do almoço, é como a cara de um colega se apagou assim na minha memória!...Bem, eu sei que pertencia ao grupo da malta mais irreverente, mas sinto que passar-me assim o nome e cara de um colega. é uma falta minha grave. Peço que me desculpe.
Sempre amigo. João Ramos Franco
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farofia disse...
Vinha comentar que o Serafim não mudou nada, que a agilidade e a graça do seu contar encantam como há 40 anos. Que a eterna paixão pelos afectos é a mesma marca de água.Mas eu só o conhecia de ouvido nesse tempo de palavras leva-as o vento.
Leio agora a sua ‘autobiografia’ com o mesmo encantamento e com uma imensa admiração pelo autor.
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Laura disse:
Não fui aluna da Dra. Margarida Ribeiro, mas sempre ouvi os alunos da Escola Industrial dizerem muito bem das suas aulas.
A clareza do texto do meu querido professor de Fisico-Quimica, deixa perceber que as aulas da sua “musa inspiradora” eram de excelência.
A partir de agora comece a tomar nota, para não se esquecer, pois fica-nos a dever duas lições: a das filhós, já prometida, e agora a “arte de fazer pão caseiro.”
Dr. Serafim, deve continuar as suas colaborações, pois o texto está uma perfeição, é muito agradável ler o que escreve.
Um beijinho com muita amizade para si.
Laura
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Manuela Gama Vieira disse:
Os excelentes textos do Dr. Jaime Serafim nesta nossa "sala de estar", confirmam a recordação que guardo dele: inteligente, generoso, amigo, paciente, bem-humorado e de espírito jovem.
Gostei muito, mais uma vez, da clareza, vivacidade e simplicidade com que partilhou connosco as suas memórias de infância e juventude. Que delícia...como descreve a sua Professora, a Drª Margarida, ao ponto de se lembrar do seu perfume...fantástico!
Quanto ao seu sonho...ser padeiro, não se esqueça do que dizia António Gedeão- "eles não sabem que o sonho/é vinho, é espuma, é fermento,/bichinho álacre e sedento,/de focinho pontiagudo,/que fossa através de tudo/num perpétuo movimento"!
Manuela Gama Vieira
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wicca disse...
Fui aluna do Dr. Serafim a Físico-Química (assim se chamava naquele tempo). Ouvi-o contar algumas histórias interessantes para criar um certo ambiente na aula. Mas, sinceramente, não fazia ideia que ele fosse tão bom cozinheiro. (E essas filhós, "stôr", quando é que vêm à prova?) Muito menos que tivesse esse desejo de ser padeiro. Sobretudo acho que escreve melhor ainda do que falava. Já agora .... quando é que sai esse livro para nos deliciar?
Guida Santos
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Ana Carvalho disse:
Eu não fui aluna da Drª Margarida mas depois de ler o texto do Dr Serafim tenho alguma pena. Eu conheço a Dta Margarida, da Maratona, e sempre me pareceu uma pessoa muito simpática. Quanto ao Dr Serafim acredito que tenha aprendido muito com ela mas o mérito é muito dele. Sempre foi um excelente professor de fisico-quima, com ele aprendia-se imenso e ficou para o resto da vida, quem pode esquecer aqules apontamentos que ele nos dava e que quase bastavam para se saber o que era necessário.
O Carlos diz muitas vezes que foi o melhor professor que teve e do qual guarda muito boas recordações. Obrigado Dr. Serafim... ah é verdade continuamos à espera das filhós, das Fatias de Resende e agora do pãozinho...quentinho...com manteiga.
Paulinha Pardal
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São Caixinha disse:
Deliciei-me com o texto do Drs. Serafim sobre a Dra. Margarida, que fiquei a conhecer melhor visto que não a tive como professora. A descrição corresponde certamente á ideia que fazia dela pois sempre me pareceu uma senhora muito simpática e alegre. As memórias de momentos importantes da sua vida, conta-as como sempre, de uma forma tão enternecedora quanto divertida. Que preciosa participação!!
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RockyBalbino disse...
Passei por aqui e vi as fotografias do meu antigo professor de Ciências Físico-Químicas, Jaime dos Reis Serafim, que não teve culpa nenhuma de eu ter sido sempre um nabo nessa disciplina :)Um abraço para si, estimado Professor. Sempre simpático, sempre aprumadinho, e sempre engraçado, até quando perdia a calma (e com muita razão!) por alguns alunos lhe entregarem os testes feitos em folhas soltas.Espero é que já tenha deixado de fumar, pela sua saúde! :)

DO YOU SPEAK ENGLISH?

por Luis Flores Santos

Flores e Zé Neto



Estou simplesmente fascinado com o magnífico artigo do Luís Marcelino!

Não podia imaginar que quarenta anos depois, através de um retrato tão preciso e sensível, se tornaria presente a imagem da Drª Cândida num testemunho tão genuíno quanto impressivo do nosso amigo Luís António.

Subscrevo a substância e admiro a forma como ele me fez regressar de novo a uma época tão marcante para todos nós. Estimulado pela evocação do Dr Luís, não resisto a contar uma experiência surpreendente que vivi no início das férias grandes seguintes à conclusão do 3º ano.

Estávamos por isso em 1967 e o nosso inglês tinha os pilares assentes numas centenas de tiras de papel com cinco frases, cortadas artesanalmente de folhas A4, distribuídas em cada aula ao longo do primeiro ano da disciplina.

No prédio contíguo à casa dos meus pais existia ainda o Museu de equitação e toureio Joaquim Alves, obra notável do saudoso Dr Paulino Montez que com tenaz dedicação o manteve vivo até ao limite das suas forças. Segundo creio, o espólio acabou por ser doado à autarquia, tendo-se-lhe perdido o rasto!

A este propósito, devo dizer que não sou apreciador da arte e tenho mesmo algumas reservas em relação a certos valores que lhe estão subjacentes. Mas o Museu Joaquim Alves tinha um acervo vasto e valioso, reunido ao longo de décadas com laborioso empenho do seu promotor, não deixando de ser, à sua escala, um espaço de cultura que merecia ser preservado. Talvez esteja mal informado, ou mesmo a conjecturar injustamente, mas tudo me leva a crer que os esforços que o Dr Paulino Montez fez em vida para que não se perdesse o seu trabalho foram totalmente inúteis e manifestamente incompreendidos.

Mas voltando ao tema, numa tarde de um Sábado soalheiro quando saía de casa, deparo-me com uma figura de um homem estranhamente alto, cuja atitude identifiquei de imediato como mais um dos forasteiros que, com frequência, rondava a zona procurando o museu que em geral estava fechado. Nesses casos costumávamos tentar contactar o Dr Paulino Montez que comparecia, passados poucos minutos, para iniciar mais uma viagem pelas memórias do tempo tauromáquico, expostas ao longo das cerca de 8 salas totalmente repletas de cartazes, fotografias, vestuário, farpas, capotes, muletas e centenas de outros objectos, cada um com a sua mensagem precisa, premiando o esforço de quem procurara a visita.

“Do you speak english”? Ouço numa pronúncia inovadora, mas que me impeliu mecanicamente a responder: “Yes, I do”! Mal eu sabia que ia ser confrontado com a maior prova da competência de um professor que alguma vez tinha experimentado!
Richard Earl Perry Cone, mais tarde simplesmente o meu amigo Dick Cone, era um americano de Los Angeles que já visitara Portugal outras vezes, procurando desta feita visitar o museu do qual ouvira falar não sei como. Na excitação dos meus 13 anos e imbuído da natureza prestável atribuída aos portugueses, ainda por cima podendo exercitar o meu incipiente inglês, apressei-me a encontrar o Dr Paulino Montez que, como de costume, compareceu prontamente para novo périplo taurino.
Julgava aí terminada a minha missão, mas enganava-me. Creio que o Dr Montez não dominava a língua (à distância de quatro décadas é pelo menos essa a justificação que me satisfaz) e vejo-me então catapultado para guia de língua inglesa num museu de equitação e toureio, tema associado a um léxico técnico de grande extensão, àcerca do qual o meu conhecimento era rigorosamente nulo!

Ainda hoje não sei como circulei por aquele espaço hermético, exprimindo-me com desinibida desfaçatez, “traduzindo” as dicas que o Dr Paulino me transmitia em frases construídas a partir do vocabulário adquirido ao longo de um ano nos recortes de cinco frases do Dr Luís. Sei apenas que o Dick manifestava assertiva compreensão pelo meu esforço e o feito mereceu destaque no meu curriculum durante muitos anos, até se instalar no baú das memórias de infância como uma das glórias mais nobres de aluno do Ramalho Ortigão.

Nesse dia compreendi que, para além do prazer da aprendizagem que aquele professor tinha trazido para as nossas aulas com o seu método revolucionário e a sua técnica para estimular uma saudável competição entre nós todos, ele nos estava sobretudo a preparar para a vida.

Durante vários anos troquei correspondência com Dick Cone que me enviava regularmente informação em inglês sobre os mais variados temas. Chegou a oferecer-me uma assinatura da saudosa revista “Life”, até que as voltas da vida acabaram por me fazer perder o seu contacto, o que lamentei especialmente quando tive oportunidade de visitar Los Angeles e não o soube encontrar.

Obrigado Dr Luís por nos ter dado a oportunidade de aprendermos consigo.

Obrigado Luís António por me teres estimulado o despertar dessa agradável memória.


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LFS
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As fotografias são da colecção do Padre Xico
e escolhidas por mim para ilustrar o artigo. JJ
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COMENTÁRIOS
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Ana Carvalho disse:
Que rapazinhos tão jeitosos que estão na foto, uns autenticos galãs! Ainda não existia a Coca-Cola em Portugal senão decerto que os contratava para um anúncio! Flores, que texto excelente, tu sempre escreveste bem, se bem me recordo. Volta sempre, é um prazer ler o que escreves.
Aparece mais vezes.Bjs PP
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Flores disse:
Creio que nunca tinha visto estas fotografias, que se referem ao nosso primeiro acampamento no Bom Sucesso, com o Padre Xico.
Talvez venha a ser também um tema para evocar em ocasião com mais tempo.
Abraço
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Luisa disse:
Como já disse antes fui aluna do Luis que considerei um excelente professor. Considero estes dois textos excelentes testemunhos e uma confirmação da minha opinião. Aproveito para cumprimentar os dois autores(só me lembro do Flores)porque estão ambos escritos de forma a enaltecer o Colégio onde estudaram!
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AntMor disse...
As fotografias são fantásticas,o Flores e o Malinha escrevem muito bem,onde vai parar este blogue???E o que é feito do Tó Zé Neto que parece uma estrela do surf dos anos 60???O Luis e a Cândida eram Grandes professores,assino essa declaração.
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João Jales disse:
A grande qualidade dos textos do Flores ficou bem patente nas suas colaborações iniciais neste Blog, lembro-me bem que ele foi um dos primeiros a não "recear" partilhar as suas memórias e a fazê-lo de uma forma muito original.
Além de todos os méritos que lhe apontei, o depoimento anterior do Luis António teve também o de provocar esta resposta, além de um comentário do também "reaparecido" Tó Zé Hipólito.
Como se vê, se a "malinha" do Luis António tem muito que contar, o Flores não tem menos "contas" no seu rosário (a seu tempo saberão ao que me refiro).
Um abraço aos dois Luises . JJ