ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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P Á S C O A 2 0 0 9

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Podemos sempre seguir em frente, procurar novos rumos.

Algures pelo tempo continuaremos a
Sonhar e a acreditar, tornando mais
Colorida a nossa existência.
O destino é uma conquista feita passo a passo.
Acontece que todos temos ritmos diferentes.
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PÁSCOA
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é ser capaz de mudar,
é partilhar a vida na esperança,
é lutar para vencer
é dizer sim ao amor e à vida,
é investir na fraternidade,
é lutar por um mundo melhor,
é vivenciar a solidariedade.
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Páscoa é renascimento, é recomeço.
Partilhemos da mesma Páscoa e da mesma paz!
Para todos os Antigos Alunos do ERO
Uma Páscoa Feliz!!!!
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Maria Isabel Sousa

À Mesa dos Padres na Páscoa de 68


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Nesta quadra gostaria de partilhar convosco mais uma "estória" engraçada dos nossos tempos de meninice.
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No longínquo ano de 1968, provavelmente por insistência do Padre Albino, eu tinha passado de mero assistente das missas dominicais a acólito da celebração católica.
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Na Sexta Feira Santa à tarde, os acólitos (grupo que incluía como mais destacados o Aires, que mais tarde trabalhou nos Correios e o Brás, ligado ao desporto, mas também alguns colegas do colégio que me abstenho de enumerar directamente) fizeram o ensaio geral da importante cerimónia a ter lugar à noite com os fiéis Caldenses.
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Recorde-se que a Igreja celebra e contempla a paixão e morte de Cristo, pelo que é um dos raros dias em que não se celebra a Eucarístia. No entanto, mesmo sem a celebração da missa, tem lugar uma celebração litúrgica própria deste dia. O ritual que encenámos começava com a entrada em procissão dos celebrantes e acólitos pelas alas da Igreja, passava à leitura e aclamação do Evangelho da Paixão segundo João e adoração da Cruz, com homília e reflexão.
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Depois de um par de horas a ensaiar, alguns de nós fomos convidados pelo padre Albino a ir jantar nessa Sexta Feira Santa no andar da esquina para a praceta, do lado do tribunal, onde residiam os padres. Julgo que haveria uns três padres e cinco acólitos. Sentados à mesa, logo a empregada pôs água na mesa, serviu sopa e de seguida apresentou carne como prato principal.O Padre Albino ficou consternado. Em casa de ferreiro, espeto de pau? O pessoal negligenciava o jejum pascal e servia o pecado à mesa dos padres e convidados?Será que não havia um peixinho para substituir aqueles nacos de Chambão de Vitela?
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Da resposta das cozinheiras, concluíu-se que a verdade é que na prática se ignorava em casa dos padres a beata recomendação de não comer carne às sextas feiras. Cozinhavam o que muito bem entendiam. Sem censuras até à data, as pouco católicas cozinheiras tinham pensado em servir uma suculenta carne no dia da Paixão de Cristo, já que noitada de esforço para os ministros de culto naturalmente aconselhava um jantar revigorante. Nem se colocou a hipótese de que faziam jus ao ditado "Ninguém é perfeito para o seu empregado de quarto" e estavam a testar e até gozar os clérigos."Absolutamente mais nenhuma possibilidade", dizia a criada. Ou os Senhores Padres comiam carne ou teriam de fazer verdadeiro jejum, passando directamente a umas escassas peças de fruta.
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Sem pestanejar ou precisar de olhar uns para os outros, os religiosos não hesitaram e começaram a servir-se, enquanto a amena conversa os distraía da infracção.“Ai, se os paroquianos soubessem desta”, ainda terá murmurado o Padre Albino.Nunca souberam.
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Trata-se de uma história que não mais esqueci, mas que por uma qualquer razão nunca partilhei. Faço-o agora convosco, recordando esse personagem complexo que era o Director do colégio durante uma boa parte da nossa permanência lá.
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Notei que os ex-colegas se abstém de o louvar ou criticar, num quase pudor que é provavelmente a atitude mais apropriada.
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Mais tarde recebi uma das muitas e muitas cartas iguais que escreveu pelo seu punho, despedindo-se até à eternidade, quando ia ingressar na clausura do Convento da Cartuxa. Voltei a encontrá-lo brevemente em Campo de Ourique quando estava na faculdade e depois não tive mais notícias.
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António José Neto
Páscoa de 2009
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COMENTÁRIOS
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vasco disse...
Olá António, bem vindo ao clube e logo com um apontamento assim oportuno ;-). Como se dizia de frei Tomás faz o que ele diz e não o que ele faz.
Abraço. VB
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JJ disse:
Mais uma estreia, mais um colega da minha turma, mais um bom texto e uma boa estória. Só posso expressar a minha satisfação por tudo isto!
Um abraço. JJ
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Manuela Gama Vieira disse...
Provavelmente, assisti a muitas Missas acolitadas pelo António.
Quanto ao "resguardo" de comer carne à sexta feira, ao longo da Quaresma, ficava dele isentado quem adquirisse a "bula", mediante o pagamento de determinada quantia à Igreja.Talvez a governanta do Sr. Pe Albino tivesse providenciado nesse sentido e, afinal, ninguém "pecou"...
Votos de uma Páscoa Feliz para todos!
Manuela Gama Vieira

O aniversário da Dadinha

por João B Serra
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O topo da sala, preenchido com sofás e cadeirões, estava literalmente ocupado por senhoras. A conversa ia animada, naquele tricô interminável que individualizava a cavaqueira feminina das Caldas, mas nenhuma das intervenientes dispensava um olhar de relance pelo resto da sala. Eram as nossas mães. Vigiavam a mesa das comidas e bebidas, o comportamento dos filhos e filhas (e, acima de tudo, dos colegas e das colegas de cada um), tentavam adivinhar as conversas e interpretar os olhares trocados entre uns e outros, interpelando-os por vezes.
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Na parede fronteira à janela, sentavam-se os convidados da Guida, a irmã mais velha da aniversariante. Tinham 3 ou 4 anos mais do que nós, já andavam na Faculdade, formavam um grupo à parte. Os rapazes, em maioria, espreitavam com interesse mal disfarçado para as raparigas mais novas, avaliando as suas possibilidades de serem bem sucedidos quando chegasse a altura de as abordar. Tentando ignorá-los, a sua presença causava-nos a nós, rapazes mais novos, apreensão e suspeita. Percebiamos a impaciência dos seus gestos e olhares. Há muito que a conversação se esgotara entre eles, decorridas que eram mais de duas horas desde a sua chegada.
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Numa mesinha de canto uma pilha de discos, LP’s e 45’ e o respectivo gira-discos aguardavam o momento de entrarem em acção. Vários candidatos se prestavam a essa tarefa, mas a autorização para o início da dança não viera ainda.
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Aquele era o momento pelo qual todos ansiavam. Os que namoravam e os que tinham esperança numa oportunidade para começar a namorar, os que gostavam de dançar e os que, gostando menos, apreciavam aquele jogo de contacto físico permitido. Os que vibravam com a música e os que, apesar de menos sensíveis aos acordes tiravam prazer da convivência algo ruidosa, mais livre e menos formal daquelas alturas. Nos aniversários, era o ponto culminante da festa, esperado para depois do jantar.
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Mas naquele as coisas decorreram de modo diferente. A sequência habitual foi interrompida por uma imposição oriunda do grupo das mães. Era Sábado de Aleluia: dançar não era permitido.
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Para a Dadinha e seus pais, aquele interdito era completamente desconhecido. O pouco contacto com os preceitos da Igreja explicavam a imprevidência: celebrar um aniversário no Sábado de Aleluia.
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A Dadinha parecia desolada. Os pais, preocupados, hesitavam sobre a forma de lidar com a situação: ceder à imposição das mães ou forçar as coisas. Alguém, creio que um dos amigos da Guida, teve uma ideia sensata: negociar. Às 11h30 dirigiu-se triunfante à mesa dos discos e pôs um 45’ a rodar. Toda a gente bateu palmas. Tínhamos entrado adiantados no Domingo de Páscoa.
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João Serra
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c o m e n t á r i o s
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João Ramos Franco disse...
Como já nos vem habituando, o João Serra, apresenta-nos um bom conto. Ele coloca os personagens na Páscoa, em determinada época e os condicionalismos sociais da data.
Criando uma imagem a quem lê, de uma simples festa de anos, com todos os ingredientes normais na sociedade Caldense.Vejamos, temos uma sala, com mães vigilantes, a juventude com a sua normal impaciência e a data a estragar a festa, por a família da aniversariante não estar muito ligada aos costumes e preconceitos locais.
As horas a passar e o esperar do passar de Sábado de Aleluia, para Domingo de Páscoa, mostram-nos a realidade dos preceitos da Igreja, que regiam a moralidade e a imoralidade, na época.
João Ramos Franco
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Isabel X disse...
Particularmente bem conseguida a descrição dos vários grupos, respectivos territórios e códigos de relacionamento mútuo. A expectativa do baile, que durante algum tempo parece gorada, acaba por conduzir a um final feliz. O leitor vai seguindo o desenrolar da história com crescente interesse, para o qual contribui decisivamente o ritmo da narrativa. Em mim, no entanto, subsistem dúvidas: terá o tão esperado baile durado apenas meia hora para que esse adiantamento do Domingo de Páscoa merecesse palmas? Ou será que as negociações incluiram também o prolongamento da festa de aniversário para além da meia-noite? Espero que assim tenha acontecido e que às mães vigilantes
(e beatas) tenha, entretanto, dado o sono.
- Isabel Xavier -
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João Jales disse:
Apesar do "happy end" não tenho a certeza de não estarmos perante mais um triunfo das "conveniências" sobre as convicções. E nem a meia hora ganha nas negociações me convence do contrário...
No meu tempo as mães já não iam às festas de aniversário e os adultos eram apenas momentânea e ocasionalmente tolerados nos recintos de dança destas festas particulares.
O episódio é relatado com muitos pormenores e poucas palavras,com a habitual mestria do autor (como a Isabel já fez notar). JJ

"Don't Think Twice (It's Allright)" - FÉRIAS DA PÁSCOA

por João Jales

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- Embora também me chame Ana, nada tenho a ver com essa Karenina de que falas – disse despreocupadamente a garota, como se desconhecer Tolstoi fosse um assunto irrelevante – gostava era de saber o que é que vocês fazem por aqui na Páscoa? Disseram-me que o Casino nesta altura nem tem bailes!
Estavam realmente a começar as férias da Páscoa, que sempre foram, para mim, as mais desinteressantes. O Natal tinha festas e reencontros familiares (primos, tios, avós, gente que vivia longe), prendas, guloseimas doces e salgadas (sempre me perdi mais pelas últimas). O Carnaval era uma festa de cinco dias de bailes, máscaras, ausência de horários e, ao contrário do Natal, pouca ou nenhuma família… As férias de Verão (as Férias Grandes!) eram um sonho de todo o ano, uma miragem dos dias invernosos passados nas aulas subitamente transformada numa renovada promessa de todas as aventuras e felicidades (faço anos no fim de Junho, a minha festa de aniversário abria a temporada). A Páscoa eram apenas duas semanas em que eu ficava habitualmente nas Caldas, um cabrito era “sacrificado” no almoço de Domingo pelos comensais de todos os dias e na terça-feira havia aulas.
A minha conversa com a Ana caminhava no sentido de um lamento comum por uma quinzena pouco prometedora. Ela vivia e estudava em Lisboa e passava cá ocasionalmente duas ou três semanas na praia durante o Verão. Conhecíamo-nos bem, éramos da mesma idade, mas fazíamos parte de “grupos” diferentes, ela pertencia aos que moravam na Foz durante a época balnear. Mas esse grupo só existia no Verão, estávamos em Abril e ali estava ela sentada comigo numa mesa da Zaira. Eu esperava a minha namorada, a Luisa, ela esperava não sabia bem o quê…
- O Casino está aberto mas não há lá bailes nesta altura – expliquei-lhe – e o Ferro Velho está fechado, não sei quando reabre (só reabriria no Verão de 1972, com o Joca e o Pedro). Temos a Azenha, o “Much” da família Xavier e algumas casas de amigos onde se pode dançar, ouvir música e jogar cartas.
A Ana olhou demoradamente para mim, como se as minhas sugestões lhe tivessem aumentado o tédio, e respondeu:
- Logo vi que os meus pais deixarem-me com as minhas tias aqui nas Caldas, não era boa ideia. Agradeço-te a oferta dos livros e cassetes mas ainda não sei o que me apetece fazer … depois digo-te alguma coisa.
Tinha efectivamente posto à sua disposição os meus livros e referido a hipótese de irmos a minha casa gravar umas cassetes para ela ouvir enquanto cá estava. Pareceu mais interessada na música do que na literatura.
- Agora vou-me embora, antes que a tua Luísa fique com ciúmes! – disse, com inesperada vivacidade, e saiu.
A Luísa lá chegou, anunciando que ia passar a segunda semana de férias com os pais em casa da Avó, o que não melhorou nada a minha disposição. Demos uma volta pelos locais do costume, um passeio no Parque, gozando uma bela tarde de Primavera, lanche na esplanada, uma olhadela na R. das Montras e às sete horas levei-a a casa.
- Não posso sair à noite – disse-me à despedida – não estão cá os meus primos nem a Maria…
E era verdade, os pais dela não a deixavam sair só comigo, era necessário haver um pretexto e um grupo para a ir buscar. E estando ausentes alguns dos “cúmplices”, tudo era mais complicado. Havia uma conspiração contra as minhas férias da Páscoa!

- Falamos amanhã, talvez se organize alguma coisa no Much ou haja malta para ir ao cinema. Acho que passa o Easy Rider no Chagas, li no Rock & Folk que tem uma música fantástica! Embora o Ricardo me tenha dito que cá em Portugal o filme tem muitas cenas cortadas, deve valer a pena – respondi. E despedimo-nos com um discreto beijo, na esquina anterior à sua porta.
Jantei e saí para tomar um café e fumar um cigarro, o que ainda não me era autorizado fazer em casa. Entrei na Zaira que estava quase cheia, devido à noite primaveril e às férias. Quando me sentava na mesa de uns colegas ouvi:
- Não queres tomar um café connosco? – Era a D. Lurdes, uma das tias da Ana, velha amiga da minha mãe, que me convidava, inesperadamente, para a sua mesa. Aceitei e a Ana, conversando, aparentemente distraída, com a outra tia, só quando me sentei pareceu dar pela minha presença.
- Foi bom o passeio hoje? Ainda te vi na esplanada mas não me ligaste nenhuma – brincou ela.
- Não te vi, podias ter lanchado connosco!
- Deixa lá, não me pareceu que fizesse falta na mesa…
E a conversa continuou, neste tom irónico/amigável, até que a tia Fernanda interrompeu para me dizer:
- Em vez de estarem aí a embirrar um com o outro, devias ir apresentar uns amigos teus à Ana, ela não tem cá ninguém do grupo da Foz, eles só vêm no Verão… A tua namorada e a tua irmã também podem ajudar, conhecem toda a gente!
Prometi fazer o melhor possível para animar a estadia da sobrinha nas Caldas. E logo naquela noite ela foi ao casino jogar um King, acompanhando-nos depois ao Camaroeiro, onde escolheu uma Rical, por recomendação expressa do Mário, que lhe garantiu ser essa laranjada caldense a melhor do Mundo. Ela concordou, aceitando o excesso de gás e alguns grumos demasiado grandes de laranja como inegáveis vantagens do produto local sobre a Laranjina C… Pareceu-me sentir um tom de flirt, ou pelo menos de divertida provocação, da Ana em relação ao Mário. Tentei esclarecer isso quando fui levá-la a casa, um pouco depois da combinada meia-noite, mas ela respondeu com um evasivo – "Foi impressão tua!" – Despedi-me dela sob o olhar vigilante das tias, que nos esperavam à janela, despedindo-se de mim com sonoros – “Boa-noite e obrigada!” – mostrando assim à vizinhança a sua vigilância, e concordância, em relação à nossa chegada.
Fomo-nos encontrando cada vez com mais frequência, principalmente nas alturas em que eu não estava a namorar, durante essa primeira semana de férias. À noite era eu que a levava a casa, ela contestava perante as tias essa exigência, mas elas eram sempre inflexíveis: ou ia e vinha comigo ou não saía! À tarde, enquanto andava com a Luísa, via-a com frequência num grupo com o Mário e outros colegas e amigos, a quem a tinha apresentado. Como a nossa intimidade foi aumentando, sobretudo depois de um serão passado a escolher músicas para as tais cassetes que eu lhe tinha prometido, essa proximidade provocava-me inconfessáveis ciúmes. Uma noite em que os meus pais jantaram algures, enquanto ouvíamos em minha casa Dylan, Phil Ochs, Joan Baez, ela garantiu-me e mostrou-me que não havia qualquer motivo para isso...

Enfeitiçado, apaixonado e aparentemente correspondido, eu não sabia bem o que fazer.
A Luísa, vendo sempre a Ana perto do Mário (chegámos a ir no mesmo grupo ao cinema ver o Easy Rider), nunca desconfiou de nada; nem a minha família nem as tias dela, que me chegaram até a perguntar se entre a Ana e o Mário se passava algo…
Mas um dia decidi assumir abertamente a minha nova paixão, passando por cima do receio de estar a agir sob um impulso de que me arrependeria mais tarde. Mas um problema se punha: e a Luísa, que partira na véspera, sem que eu lhe dissesse nada? Escrevi-lhe nessa noite e entreguei a missiva à Isabel, amiga comum e intermediária da nossa correspondência, para que a despachasse logo que possível. Era um rompimento um pouco cobarde, mas eu achava que não podia nem devia manter a situação mais tempo. Na manhã seguinte fui, feliz, contar à Ana (depois falaria com o Mário, não andasse ele com ideias…).
- Mas tu és louco, o que foste fazer? – explodiu, irritada, a Ana – estragaste tudo para todos! As minhas tias deixavam-me andar contigo à vontade porque sabiam do teu namoro com a Luísa e vigiavam-me desconfiadas apenas quando me sabiam com o Mário. Mal se saiba que rompeste com a Luísa nunca mais me deixam sair, principalmente contigo! Nunca mais elas ou a tua família nos deixam sozinhos em casa a ouvir música, ler ou jogar cartas; a Luísa vai ficar tristíssima, sem necessidade, e nós vamos ter a semana que nos restava juntos completamente estragada. Como vocês, rapazes, são burros!
Olhei para ela, admirado e confuso, sem saber o que responder. Ela tinha toda a razão, claro; na semana seguinte, quando a Luísa voltasse, já ela estaria em Lisboa e o Verão era um longínquo e incerto futuro... Ainda por cima a gloriosa semana pascal que eu antecipara parecia irremediavelmente arruinada! Saí a correr.
Ela ainda me gritou, do cimo das escadas:
- Onde é que vais?
Mas já nem a ouvi, corria desesperadamente, só com um pensamento: encontrar a Isabel a tempo de evitar que ela pusesse no correio o seu envelope com a minha fatídica carta …

João Jales
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COMENTÁRIOS
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Tina disse...


Muito divertida esta tua aventura pascal! Não conheci as Caldas da Rainha de então, pelo que não reconheço os locais, mas a descrição é fantástica. Até me senti a acompanhar in loco o jogo de sedução entre os dois adolescentes. Há sempre uma inocente Luísa que não se apercebe das cartas a serem dadas debaixo do seu nariz...
As férias da Páscoa, para mim, foram sempre interessantes como as outras, pois a prática religiosa reduzia-se à observância de não comer carne e fazer pouco barulho na sexta-feira, por imposição de umas tias, verdadeiras e por afinidade. Com seis irmãos e uma quantidade enorme de primos, era uma alegria!
Parabéns, JJ, pela vivacidade com que descreves as tuas recordações. E obrigada pela partilha.
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MPO disse...
Sempre engraçadas as suas memórias. Leio-as com um sorriso, mas deixa sempre o leitor em suspense - chegou a tempo ????? MPO
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João Ramos Franco disse...
Neste passear do João Jales nas memórias, vai-nos transportando ao viver de jovem numa Caldas da Rainha em determinada época.
Desta vez, coloca-nos na Páscoa, perante a sua evolvente, contrastando com os outros períodos de férias.
O que escreve consegue envolver-nos perante a realidade da sua juventude, ainda não pode fumar em casa (calculamos a idade), com os “flirts” naturais nas férias e a corrida final para não perder a namorada. Retrato com as normais condicionantes familiares (das duas partes), que acaba por transportar às nossas próprias memórias.
Mais, João, ficas bem nestes retratos…
Um abraço amigo
João Ramos Franco
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Luisa disse...
Uma delícia e um encantamento.
Mais uma história que nos mergulha num tempo e num local em que tudo era diferente ou em que nós víamos também as coisas de forma diferente...como se eu eu fosse a Peggy Sue do filme do Coppola!!!
Não sei bem se concordo com essa tua visão das meninas manipuladoras e calculistas que surgem na tua vida,mas não é isso que me retira o prazer de ler as tuas memórias. Parabéns e Obrigada!Boa Páscoa.Luisa
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Ana Carvalho disse:
Mais uma deliciosa história e que retrata muito bem aqueles tempos. Os Pais e as Tias sempre gostaram muito de ti e tinham imensa confiança no João, que era muito educado e muito ajuizado, enfim só coisas boas e verdadeiras claro! Eu tambem teria gostado muito de ter um "João" para tomar conta da minha filha aqui há uns anos.
Mas há outra coisa que eu tambem acredito,é que os nossos filhos teriam adorado ter umas férias da Páscoa como as nossas, com um Casino para passar tardes a jogar King, um Salão Ibéria e um Pinheiro Chagas para ver um qualquer filme, até podia ser o Easy Rider, com excelente música, ir a casa de alguem gravar umas cassetes...ir à Foz de bicicleta, tantas ciosas que nos divertiam imenso, flirts ...eu acho que eles nem sabem o que isso é, nem como se faz. Em relação às cassetes os nossos filhos talvez saibam o que é mas os nossos netos duvido, já estou a ver o meu Sebastião de olhos muito aberto a perguntar: - Titica o que é isso?
BOA PÁSCOA para todos. Bjs PP
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Isabel X disse...
Agrada-me este reconhecimento da superioridade feminina em medir o alcance exacto das situações. Então na adolescência isso é inevitavelmente assim. O pano de fundo da história, as Caldas daquele tempo, com "Much" e tudo, é-me bastante familiar.
Como já de outras vezes disse, mas nunca é de mais salientar, não é para todos saber recriar atmosferas, como o faz o JJ. Mais até do que contar histórias.
- Isabel Xavier -
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AntMor disse...
Tem razão a Isabel Xavier,é sempre credível e de acordo com as minhas recordações o ambiente em que decorriam estas iniciações sentimentais nestes escritos do Jales.
Esta história revela uma outra coisa,é que ele era habitualmente mais feliz nas suas aventuras do que os seus contos anteriores dão a entender......Penso que sei quem são a "Luisa" e o "Mário" mas não a Ana.Talvez num próximo almoço consiga descobrir,que é que achas?
O Faria propôs aqui editar um livro com um "Best Of" do blogue em que incluíria as caricaturas da São,eu acrescento os teus "Diários!!!
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São Caixinha disse:
Se não tivesses anunciado o autor do "Don't think twice, it's all right" eu tinha adivinhado que eras tu! Pela forma fluente e clara da escrita, pelo movimento e o enredo, entretanto tão caracteristicos das tuas estórias. Sabes transportar-nos aquele tempo com uma notável precisão! Volto a ver-te de calças à boca de sino, alto e elegante com o teu sedutor ar travesso a serpentear pelas ruas das Caldas!
Se a Luísa chegou a ler a carta suspeito que conseguiu perdoar-te!!!
Para todos, uma Pascoa Feliz!
Bjs, São
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António disse...
As férias da Páscoa,sem o ambiente do Natal nem o bom tempo do Verão eram sem dúvida as mais chochas...além de que se aproximava o final do ano,havia notas com que nos chateavam a cabeça,era preciso estudar...O triãngulo amoroso está muito bem descrito,o desenrolar do namoro é normalíssimo mas o final transforma os personagens e deixa o JJ tão admirado como os leitores da história!!!Mas eu sei que há mais histórias de onde esta veio,não é verdade? António

TEACHERS (Leonard Cohen)

A nova geração de professoras (1970/1972), por Isabel Xavier

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Em 1970 morreu António de Oliveira Salazar. Nesse mesmo ano o Papa Paulo VI recebeu os representantes dos Movimentos de Libertação das colónias portuguesas, houve manifestações contra a Guerra Colonial e foi criado o MRPP. No ano seguinte, 1971, as Universidades portuguesas contavam com a presença constante de forças policiais fardadas e à paisana. Em 1972, o estudante Ribeiro Santos foi morto a tiro pela DGS no interior das instalações da Universidade de Lisboa e foram presas cerca de 70 pessoas por se terem reunido na Capela do Rato em nome da Paz.

E no Externato Ramalho Ortigão, passar-se-ia algo de análogo? De que modo reflectiria esse “pequeno mundo” as transformações gerais que à sua volta, e designadamente no meio estudantil universitário, indiciavam o começo do fim da ditadura?

O director era o Padre Xico. As raparigas (e algumas professoras, segundo testemunhos prestados na primeira pessoa aqui no blogue) usavam mini-saia, maxi-saia ou calças; os rapazes deixavam crescer o cabelo e todos (menos eu) – rapazes e raparigas - fumavam desalmadamente, como se não houvesse amanhã, às escondidas, nas casas de banho do colégio. Mas, e este pormenor não é despiciendo, os rapazes mais velhos já eram autorizados a fazê-lo, durante os intervalos, fora das instalações do colégio. Vinham para junto do gradeamento do recreio das raparigas que se “penduravam”, conforme podiam, ao longo do dito (eu também).

Além das significativas mudanças já enunciadas, outro facto marcante dos novos tempos que se viviam no colégio, entre 1970 e 1972, foi a integração no seu Corpo Docente de uma nova geração de professoras, entre elas a Dra. Noémia e a Dra. Júlia, que leccionavam, aliás com competência inquestionável, respectivamente, as disciplinas de História e de Português.

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Cada uma à sua maneira, e por motivos distintos, se distinguiam dos professores a que estávamos habituados. Desde logo, pelo aspecto físico, a Dra. Noémia, que já tem aparecido em várias fotografias do blogue, tinha um ar arrapazado, andava sempre de calças; a Dra. Júlia usava brutas mini-saias, blusas decotadas e até mesmo de alças (ai se o Padre Albino visse...) e era um tanto “esgrouviada” de modos.



Depois, pelo modo como se relacionavam com os alunos. Mesmo eu, pouco dada a folias, me lembro de ter integrado um grande grupo responsável por um “assalto” de Carnaval a casa da Dra. Júlia. Dançámos, comemos, bebemos e lembro-me até de o Henrique Conceição, enquanto o Vasco Baptista se afastou por qualquer motivo, me ter vindo dizer com indiscutível convicção e uma voz algo arrastada: “Tu é que és boa rapariga, tu é que és mesmo boa rapariga!”. Valeu-me o Chico Carrilho que nos “separou”, ao mesmo tempo que dava razão ao Henrique. Fez bem, há certas ocasiões em que as pessoas não devem ser contrariadas, principalmente quando estão cobertas de razão.
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Já em casa da Dra. Noémia, a que também cheguei a ir com outros colegas, lembro-me de lá ouvir canções revolucionárias, as inconfundíveis músicas do cancioneiro anti-regime. Noutro registo, mas não menos interessante, lembro-me de ter sido aí que pela primeira vez ouvi Leonard Cohen, num disco levado pela Dra. Cármen, nossa professora de Inglês, deixando-me encantar (até hoje) pelos belíssimos poemas e melodias das suas baladas.

Alguém pensaria serem possíveis episódios destes em casa de professores do ERO? Sinais dos tempos!

- Isabel Xavier -


= "TEACHERS" Leonard Cohen =









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COMENTÁRIOS
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JJ disse:
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Não queria terminar esta série sobre os Professores sem assinalar a chegada ao Colégio de uma geração de professoras de "tenra" idade e pouca experiência lectiva no final da década de 60. Na minha memória é a Inês a primeira, depois a Ermelinda, Helena, Ana V Lino (apenas um ano, julgo), a Carmen, a Noémia e a Júlia. Estas três últimas trazem uma nova forma de relacionamento com os seus alunos, mais informal e que se prolongava fora do espaço do Colégio. Em casa da Noémia e da Nani, ali junto à Ponte, jogavam-se cartas e ouvia-se música diariamente, organizavam-se jantares e festas quase todos os fins de semana.

A Júlia morava ao pé do Convívio e era frequente encontrá-la a lanchar e conversar num dos cafés da praça. Era uma pessoa divertida, desinibida e bem disposta que falava pelos cotovelos e ria com facilidade e frequência

Eu frequentava a alínea F, não fui aluno de nenhuma delas, mas mantive esta convivência, que se prolongou, para mim, entre 1970 e 1972.
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O texto da Isabel é excelente, enquadrando bem a época e as caricaturas da São Caixinha; talvez por ter destas duas senhoras uma memória mais recente e de quando ela própria era mais velha, estão, na minha opinião, entre as suas melhores ilustrações nesta série. Mas há mais....
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Gostaria de saber o que é feito da Ermelinda (uma das melhores professoras que tive no ERO), da Helena, da Noémia e da Júlia. Alguém sabe?
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Isabel X disse...
Só para corroborar o que diz o Jales: as caricaturas da São estão simplesmente notáveis! Enquanto estive na faculdade (acabei o curso em 81) ainda vi algumas vezes a Dra. Júlia por lá. Depois, nunca mais! Também já me tenho perguntado: que será feito destas professoras?
- Isabel Xavier -
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João B Serra disse:
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Em poucas palavras, uma evocação sugestiva de uma época, com as suas personagens, estilos de vida, formas de relação, e com os seus ambientes: é assim que escreve a Isabel Xavier (e reconstitui pelo desenho a São Caixinha). Claro que também fala de si própria, mas com a sobriedade própria de quem historia o que testemunhou.
Nada tendo a acrescentar, só posso corroborar: em 1970 ingressou no ensino público e particular uma nova geração de professores. Eles tinham obtido um grau académico passando por cima de colegas que entraram antes na Universidade, pois foi em 1968 que o Ministro José Hermano Saraiva criou nas Faculdades de Letras e de Ciências o grau de bacharel. Eram realmente mais novos – dois anos em média – que os seus colegas licenciados e tinham apanhado em cheio as movimentações estudantis de Lisboa (1968) e Coimbra (1969). A geração do “rock” tinha agora a responsabilidade de fazer diferente na escola que tanto contestara.
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Julinha disse:
O artigo da Isabel está muito engraçado, gostei e fez-me lembrar um dito muito conhecido "chegou uma lufada de ar fresco" ao Blog!
Quanto aos desenhos da São, eu que não conheci nenhuma destas senhoras, parece que as estou a ver tal como a Isabel as descreve.Parabéns às duas meninas.Beijinhos. Júlia R
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Isabel Esse disse...
Está muito bom o artigo,como tem sido uma constante com a Isabel Xavier.Os desenhos da São estão estupendos,tem razão o Jales ao dizer que são dos melhores que ela fez!Conheci a casa da Noémia(e da Nani),era um sítio divertido,em que todos estavam à vontade.Lembro-me de lá ver a Lena,irmã da Isabel,a Fani,a Teresa Miguéis,a Zé Pereira,mas não a Isabel,que era mais nova.Lembro-me também de uma festa de Carnaval em 71 ou 72com o Henrique,Nuno Mendes,Jales,Hipólito,não sei se será dessa que falas?Beijos.Isabel
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Ana Carvalho disse:
Olá João
Não se pode uma pessoa ausentar durante 2 ou 3 dias e aparecem logo 2 excelentes textos no nosso blog.
Como sempre as caricaturas da São estão fantásticas e o texto da Isabel como sempre muito bem escrito. A drª Noémia e a Drª Júlia... que professoras fantásticas e amigas até, belas tardes que passámos em casa da Drª Noémia e Nani a jogar às cartas, a ouvir musica, a conversar.
Também eu fui ao assalto de carnaval, uma maravilha. Gostava de saber o que foi feito delas, tal como a Drª Inês talvez aparecçam aqui um dia destes. Bjs PP
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José Carlos Faria disse:
Consultar o blog após um período de ausência é um prazer sempre renovado. Desde logo porque há surpresas à espreita.
Desta vez foram os textos do Dr. Serafim e da Isabel Xavier. Sobre este último, o cruzamento, tão bem urdido, das memórias pessoais com os dados históricos, levou-me uma vez mais a compreender que as grandes transformações decorrem de uma sucessão de pequenas mudanças, por vezes imperceptíveis, mas que vão lentamente infiltrando raízes, abrindo brechas naquilo tido por supostamente impenetrável, até brotar a subtil planta do Novo, algo de substancialmente diferente do até aí vivido.
Também foi assim connosco: O Colégio, apesar da tendência imobilista e conservadora em que muitas vezes esteve mergulhado, não era (nem podia ser) uma ampola que nos isolava do Mundo e nos tornaria imunes e insensíveis aos tempos e ao soprar dos seus ventos. Éramos muito jovens num tempo (ainda) muito velho. O que estava para vir seria aliciante e inesquecível....
Quanto às duas recentes caricaturas que nos são oferecidas pela São Caixinha confirmam (se preciso fosse) o talento certo da autora e sendo particularmente conseguidas, fazem sobressair ainda mais uma colecção de grande qualidade.
Este nosso blog, a meu ver, já tem conteúdo que justifica começar a pensar numa antologia editada em suporte papel. As caricaturas são, desde logo, material a seleccionar. Z C Faria
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São Caixinha disse:
O texto da Isabel X sobre a Dra. Noémia e a Dra. Júlia está muito interessante!! E que excelente memória também!
As caricaturas a enquadrar este tipo de textos ficam naturalmente muito enriquecidas! Obrigada de qualquer forma pelas simpáticas palavras! Sabem sempre bem os elogios, tenho que admitir!
Concordo com o JCF ao referir que há material de qualidade suficiente para uma publicação em papel...pela abundância creio que haverá até alguma dificuldade na selecção de textos e comentários! Fico a aguardar o final da série!!