ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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ASSÉDIO FEMININO AO PADRE ALBINO

por António José Neto
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Cupido quis tentar o Padre Albino e disparou as suas setas sobre uma viúva das Caldas, de certo nível e fortuna, com familiares no ERO, a ponto de esta lhe escrever cartas apaixonadas. A posição social do director, os seus modos, a sua água de colónia de boa griffe, os seus “tours de force” como vigário surtiram efeitos indesejados.
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Tal importunava-o tremendamente, a ponto de um dia desabafar com alguns alunos, grupo em que eu fiquei incluído. Sabe-se lá porquê, estes não foram a correr contar aos colegas. Esta história verídica caiu num quase esquecimento, do qual a vou recuperar hoje, sem comprometer ninguém.
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Vou abreviar o nome e tratá-lo como seria proibido naquele tempo, mas se usa hoje tantas vezes em contextos profissionais, pelas iniciais, por PA.
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Que qualidades veria a senhora nele?O PA não se inibia transmitir a imagem de pessoa culta, fina e viajada. “Os meninos sabem, essa vossa viagem de finalistas… eu já visitei esses lugares muitas vezes; se for convosco é só para vos explicar, porque não vou ver nada de novo”.
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Num grupo restrito, ouvi-lhe uma vez esta perplexidade perante aquele texto que muitos cristãos e não-cristãos consideram a melhor síntese de justiça moral jamais escrita: o sermão da montanha. Comentava o PA: “Jesus disse : Bem aventurados os pobres de espírito. Pobres de espírito?! O senhor me perdoe, mas essa não!”
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Sobre o Rock'n Roll: “Quando vi dançar essa música pela primeira vez estava num cruzeiro. Havia um rapaz tolo, um atrasado mental. “Pois, a orquestra tocou e era só ele na pista. Os restantes passageiros educados não se levantaram das cadeiras. Aí eu disse para mim: Albino, aqui tens uma música que é para tolos e atrasados”.
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Um psicanalista poderia talvez encontrar por detrás da sua personalidade alguns traumas. Contou que sofreu muito com a morte da mãe. Ainda novinho, a mãe apareceu-lhe em sonhos, criando-lhe uma fé e esperança que encaminhou a sua vida para o seminário.
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Por vezes baixava as barreiras da auto-censura e deixava sair as suas ansiedades. “Tenho estado com uma ideia fixa de construir uma casa. Já fiz um plano mental das divisórias. Falei com o Padre Tal e com fulano que me disseram que isto é uma tendência altamente normal na minha idade. Tenho de estar preparado para lidar com ela”.
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Poderia este homem, como tantos padres, escorregar numa tentação do sexo oposto ? Alguém terá achado que sim, pois um dia, o PA, agastado com o assédio feminino de que estava a ser alvo, explodiu com 2 ou 3 de nós:
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- “A ________ “ (não, não era mãe) “de ____________ “ , (não, não era da nossa turma, era mais novo ou nova; eu sei mas não vou dizer, por isso não me perguntem) já me escreveu três cartas de amor. Primeiro pedia audiência para conselhos educacionais e agora são estas cartas descaradas. Diz que está apaixonada, que eu sou assim e mais assado…”
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O Padre Albino admitia que ela estava apaixonada. A senhora teve a ousadia de ver nele o homem ideal e nela própria a companhia de que ele precisava. Podemos apenas imaginar as complexas teias emocionais e dilemas de vida e aventura lançadas pelas cartas. Estavam destinadas ao fracasso.
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Agora não me venham dizer, “É pá, nós sabemos todos isso. Era a __________!”
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António José Neto - ERO(1964-1971)
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C O M E N T Á R I O S
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Isabel X disse...
Não faço a menor ideia de quem seria e, já agora, nem sequer gostaria de saber, quem era a pessoa em causa,cuja identidade é mantida secreta neste depoimento do Neto. O certo é que o autor deste texto aqui nos revela o lado mais humano(e mesmo assim nada bonito de conhecer - um cavalheiro nunca se gaba das mulheres que por ele se apaixonam, mesmo, ou principalmente - sendo padre) do Padre Albino. Afinal teve mãe e foi traumatizado por ela, afinal ele teve quem se apaixonasse por ele, por mais inverosímil que isso possa parecer - muito belos são os olhos de quem ama - e era vaidoso, gabava-se de viagens e incómodas apaixonadas junto de alguns dos seus alunos. Paz à sua alma!
- Isabel Xavier -
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João Jales disse:
Deixam-me algo perplexo estas conversas do Sr. Director, eu que só lhe ouvi palavras de recriminação, advertência e crítica, mas conhecendo o Neto como conheço, o relato é seguramente verídico.
Também eu não sei quem era a senhora que tal paixão nutria mas, ao contrário da Isabel, não desdenharia saber (para completar os arquivos históricos do ERO, claro).
Curiosamente conheço um episódio absolutamente idêntico em que o Padre Albino se queixou, não a um aluno mas a um professor do Colégio, do assédio a que era sujeito por uma outra senhora. Foi esse confidente, pessoa acima de qualquer suspeita, que me contou. Seriam verdadeiras estas estórias ou viveria o Sr. Padre, na sua enorme e evidente vaidade, na ilusão de ser um D. Juan?
Noutra coisa concordam as nossas memórias: os discos com que ele me via por vezes no Colégio eram sempre alvo de inspecções e duras apreciações (e só pelas capas, nem queria ouvir!). Tinha verdadeiro horror ao Rock, aos cabelos compridos e às roupas coloridas que se começavam a usar na década de sessenta.
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Miguel Bento Monteiro disse:
Esta história de amor comoveu-me. Quase não consigo balbuciar quanto mais verbalizar.Já agora,e por falar em paixão impossível, alguém me diz qual foi a razão que impeliu o Conde a encontrar refúgio na Cartuxa de Évora ?
MBM
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Isabel Esse disse...
Achei muita graça a esta história que desconhecia cmpletamente.Parabéns ao autor por ter conseguido tratar este assunto de forma tão delicada.
A pergunta do anterior comentador faz sentido porque se falava insistentemente do facto da ida do Padre A para a cartuxa tinha origem numa Love Story infeliz.Mas não parece ser esta.Já agora pergunto:o Padre A era Conde de quê?Nunca em tal ouvi falar!!!
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Miguel B M respondeu:
Esclarecimento à pergunta da Isabel Esse :
- Qual é o conde mais famoso da história ?
MBM
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João Ramos Franco disse...
Na História de Portugal parece-me que seja D. Afonso IV, Conde se Ourém , neto de D. João I e de D Nuno Alvares Pereira. Mas como não sei o sentido que o MBM pretende dar ao assunto poderá estar a referir-se ao Conde Drácula, Conde Andeiro ao ou até ao Conde de Monte Cristo.Mas talvez para neste assunto o MBM se refira ao Conde Drácula...
João Ramos Franco
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Isabel Esse disse...
O pai do actual rei de espanha era o Conde de Barcelona.Teria o Padre A conhecido esse senhor,que era muito religioso e viveu em Portugal?Ou estarão a brincar e é o Conde de Monte Cristo ou alguma coisa do género?
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António José Neto disse:
Os comentários da Isabel Xavier são pertinentes, designadamente a propósito do comportamento de um cavalheiro.
Deixem-me também esclarecer algo sobre a foto, que me foi tirada pelo Padre Chico no Bom Sucesso, por ocasião de um acampamento com alguns alunos que convidou. A minha pose foi uma brincadeira deliberada de imitação de um hipnotizador, que depois repeti para a câmara. Sempre tão humano e cordial o Padre Chico! E depois, como se diria de um "Businessman" na classe de inglês: "He could handle his affairs".
António José Neto
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Tó Quim disse:
O brilhante texto do Neto, para mim é uma das maiores surpresas desde os tempos do ERO.O Padre Albino com uma apaixonada e ainda por cima a verbalização que ele fazia disso?Estou de boca aberta.
Quantos de nós, no tempo em que ele estava no ERO, tínhamos um imenso receio das reprimendas dele, das longas lições de moral que levávamos?
Apesar dos meus anteriores comentários, o Padre Albino foi uma das grandes figuras que marcou a vida do ERO.Quem se lembra do carro que ele tinha?
António Fialho Marcelino
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Luis disse:
O carro do Padre A era um Volkswagen,conhecido na altura por "carocha",não era?

ALMOÇO/CONVÍVIO ABRIL 2009


Agradeço à Guidó a colaboração neste post.
JJ








Realizou-se o habitual almoço das jovens reformadas do ERO.

Este ano teve a presença de um convidado especial, responsável por colocar este habitualmente discreto e íntimo repasto nas primeiras páginas da imprensa internacional.

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Dou a palavra à Júlia que participou e fez a cobertura do evento em exclusivo para o nosso Blog:

Da esqª para a dtª - Ana Nascimento, Laura Morgado, Júlia Ribeiro, Manela V.Pereira, Amélia Rodrigues (Bia), Isabel V.Pereira. Por trás está um "cavalheiro" que dispensa apresentações....
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Primeiro,tenho que informar que algumas meninas não estão ainda reformadas, são demasiado jovens......nós é que o intitulamos como tal porque quando começámos éramos 3 reformadas. De seguida, vai um raspanete para o menino Jales, porque este almoço era privado e os "media" não pediram licença para publicar, não sei mesmo se lhe irei pôr uma acção ...e pedir a indemnização correspondente !!!!
Já que foi divulgado, terei que dar conhecimento do ambiente em que decorreu esta importante reunião. O Sr. Presidente Obama é uma pessoa extremamente simpática e divertida, está muito satisfeito com o seu Bo, é um fiel amigo e companheiro das suas filhas, que estão já a ensinar-lhe algumas palavras em Inglês, que ele aprende com facilidade...
Falou-se da politica internacional, da situação da Europa e especialmente de Portugal, da crise dos "ricos". Aconselhou os portugueses a manterem a calma, que iria tomar medidas para a resolver, já estava com o seu Bo a planejar estratégias, embora concorde que se trata duma situação muito difícil....caso fosse dos necessitados, o problema contornar-se-ia melhor !!! É o velho problema....os pobres continuam pobres e os ricos cada vez mais ricos. Concluindo, o almoço foi muito produtivo, mas a balança (de pesar) mantém-se equilibrada.....
Falando agora a sério, encontramo-nos de 6/6 meses num almoço para cavaquearmos e enviei a foto ao Jales apenas para ele ver. Fez-me esta partida que eu, quando descobri, dei tantas gargalhadas que se devem ter ouvido no prédio e os vizinhos pensando que estaria aqui uma maluquinha....Faltam a Lisete Palma e a Mélita, que é "habitue", mas o seu filhote fazia anos e, por isso, nós perdoamos-lhe a ausência.
Convidamos quem quiser associar-se, as inscrições estão abertas para o próximo almoço que será daqui a 6 meses.
Agradeço também à Guidó o belo trabalho com que nos presenteou.
Um beijinho,Guidó.
Um Abraço para todos,bjs
Júlia R

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COMENTÁRIOS
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Margarida Araújo disse:
De nada Júlia, eu só executei a ideia do João. Mas diverti-me muito.
Bom continuar com laços afectivos que a vida nos vai presenteando.
Um beijo a todas. Guidó
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Isabel V P disse:
João
Fiquei espantada com a rapidez com que estes acontecimentos chegam a todo o mundo!A Júlia telefonou-me depois do almoço a recomendar ver a fotografia. Como ela tinha dito que te ia mandar uma fotografia dizendo esperar que o cenário desta vez fosse o deserto, confesso que não esperava esta solução. Foi uma completa surpresa. Está genial! E o Barak está tão feliz e bem disposto!
Isabel
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Ana Nascimento disse:
Olha Isabel, pois eu foi mais depois do jantar que a menina Júlia me ligou . Disse-me para ir espreitar o blog pois estava lá uma coisa muito engraçada….eu bem lhe perguntei se era algum “escrito” dela mas a miúda aguentou-se e não me disse nada…
Dei uma gargalhada com gosto quando vi o friso das garotas “abrilhantado “ por tão famoso cavalheiro … já me constou que a Michele , ao abrir o jornal, lhe terá feito uma cena de ciúmes…
Bem João só tu com a ideia, a Guidó com a execução, não esquecendo a Julinha que descreveu o momento na perfeição…Beijinhos para este trio maravilha !!!!
Ana
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Mélita Teotónio disse:
Estou cheia de pena por não ter podido participar neste almoço,pois são sempre convívios muito simpáticos e as companhias muito agradáveis.Neste, em particular, o pesar é ainda maior porque... não é todos os dias que se tem a presença de pessoa de tão alto gabarito, a abrilhantar o evento....
Parabéns ao Jales e à Guidó pois a ilustração do momento não podia estar melhor !!!!!!!!!!!Um abraço a todos
Amélia Viana
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Laura disse:
João,
Espero que te interrogues com o nosso nível, pois não é para qualquer um participar num almoço de trabalho com o Presidente Obama.
Lastimo aparecer de olhos quase fechados, mas estava a interiorizar todos os Conselhos dados pelo Sr. Presidente.YES WE CAN!!! Para a próxima vez escolham uma foto minha de olhos abertos, isto deve ter sido uma gracinha da Júlia.
Obrigado ao João e à Guidó, o trabalho ficou excelente.
Beijos para todos
Laura
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JJ disse:
Laura
A Júlia garantiu-me que escolheu a fotografia em que tu tinhas ficado pior... (agora não vás dizer-lhe que eu te contei !). JJ

AULAS DE HISTÓRIA (?)

por João Jales

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A voz, monocórdica, enfadonha e enfadada, vai debitando uma lenga-lenga insípida sobre umas, noutras circunstâncias, empolgantes viagens dos fenícios, primeiro pelo Mediterrâneo, depois, ultrapassando Gibraltar, pelo Atlântico, chegando até às Ilhas Britânicas. Alguns dos ouvintes dormem; de olhos abertos claro, porque o perigo espreita e fechá-los “é a morte do artista”.

Algumas desgraçadas moscas saltitam pelo chão, tentando inutilmente voar. Um “biólogo amador” testa a sua capacidade de sobreviver sem asas e sonha com a possibilidade de domesticar uma delas. Algumas espectadoras encolhem-se, enojadas, já que as moscas-cobaias têm tendência a agarrar-se-lhes às pernas nuas... Eu observo, é de longe o mais interessante que se passa na sala, apesar de já ter visto esta experiência antes e saber que as moscas não aprendem a viver no solo nem se deixam domesticar.

A voz muda, há um ligeiro sobressalto entre os presentes, mas rapidamente o novo leitor se ajusta ao registo do anterior e tudo volta ao normal. O tédio respira-se, espesso, quase líquido, enchendo, avassalador, os pulmões, o cérebro, a alma destes pobres adolescentes.

Como é que é possível que uma matéria como a História Antiga, sobre a qual há livros e filmes formidáveis, seja transformada neste pesadelo? Há dois suspeitos… Mas quais suspeitos! São culpados e estão identificados, passo a nomeá-los para que conste: António Gonçalves Mattoso, advogado e professor de história natural de Leiria e Albino Cândido Lopes, Padre, Director do ERO e professor (falhado) de História Universal do 3º Ano do Liceu. O primeiro escreveu um intragável compêndio de História, o segundo convenceu-se que a melhor forma de o estudar é lê-lo, em voz alta, às segundas, quartas e sextas, durante cinquenta minutos.

O resultado? Alunos em coma tedioso, moscas sem asas e duas dúzias de adolescentes que odeiam a cadeira de História Universal.

Mas o “combate” contra a situação começará cedo, mal se apercebem as vítimas do que as espera durante um ano. Quando a leitura começa, no primeiro aluno da fila lateral e continuando por ordem, a zona contrária da sala, longe de “entrar em acção”, inicia imediatamente as hostilidades: batalha naval, duelos de Bics Boomerangs, azucrinar a cabeça do colega da frente com picadelas de objectos vários, escrever-lhe no pescoço, fazer-lhe cócegas… Há até um jogo em que se aperta lentamente a cadeira e carteira de um colega que, empurrado por trás e pela frente, fica “esmagado” entre os dois objectos. Enfim, tudo o que permite alegrar um pouco uma aula interminável.

O padre Albino é um professor inexperiente mas um homem inteligente, rapidamente se apercebe que a turma está descontrolada. Só ouvem a matéria os dois ou três próximos leitores, o resto dorme, sonha e brinca. E ele ainda tem que ter atenção ao livro porque, se não, alguns artistas mais expeditos saltam linhas para terminar mais rapidamente a sua quota parte.

Na fase seguinte ele sai do estrado e encosta-se à parede traseira, um olho no burro outro no cigano, neste caso tentando ler o manual e ver o que os alunos fazem. A ordem de leitura passa a ser aleatória, determinada no momento pelo Padre, que com uma das famosas canas da Índia dá um pequeno toque nas costas do que deve parar e outro nas costas do próximo a ler. Não pode chamar os alunos pelo nome porque provoca respostas de “Sim, Sr. Padre”, “Diga.Sr. Padre”, com o nomeado a fitá-lo candidamente nos olhos, alegando depois que essa distracção o impede de saber exactamente onde vai a leitura da matéria…

Resultou numa aula, ou talvez duas. Depois, quando o professor muda o leitor, meia-dúzia de fora-da-lei, sempre atentos aos seus gestos pelo canto do olho, batem nas costas do colega da frente e meia dúzia de enganados começam, com ritmos diferentes e por vezes em pontos diferentes do livro, uma nova leitura. Um caos.

Curiosamente o Padre Albino era muito menos disciplinador na sala de aulas do que fora dela, e até menos soturno. Nestas aulas houve “perseguições” a alunos que fugiam por baixo das carteiras dos colegas, em cenas que nenhum outro professor permitiria. O Antero, pequeno e ginasticado, sempre muito falador, era exímio e frequente actor destas “touradas”, impensáveis em qualquer outra aula e nada coerentes com a filosofia que a mesma pessoa impunha no ERO. Só tenho para isso um explicação, o Director só sabia manter a disciplina recorrendo à rigidez extrema e exagerada que lhe era familiar, fora disso era um homem perdido.

A única coisa que o punha realmente fora de si eram as “dúvidas”. Lembro-me do Miguel BM, certamente influenciado pelo pai (esse sim, professor de História), perguntar um dia “O Sr. Padre concorda que a guerra é a higiene do Mundo?”. Perante a descontrolada resposta, apareceram depois outras perguntas, sobre a democracia grega, os nomes dos generais de Aníbal (que o mesmo Miguel nomeava, ou inventava, nunca percebi), os amores de Júlio César e Cleópatra, tudo questões que ficaram sempre sem resposta…

Nunca aprendemos nada, mas as notas lá foram aparecendo, sempre mais ou menos de acordo com a média de cada um. Houve colegas que nunca recuperaram deste trauma e odiaram História para sempre. Eu reconciliei-me, pela admiração que tive pela Ermelinda, a (excelente) professora da disciplina que esteve no ERO nos dois anos seguintes.

Numa das últimas tentativas de dar uma aula diferente, julgo que no terceiro período, o Padre Albino trouxe um dia uns vidros fenícios para mostrar à turma. Eram pequenos fragmentos, pareciam os restos de um colar. Correram toda a turma, ordenadamente, de carteira em carteira até que o último aluno os depositou cuidadosamente em cima da secretária do professor. Ele olhou-os longamente, depois olhou para a turma e, demonstrando um conhecimento dos alunos melhor do que era esperado, disse ”Flores, dá cá os vidros!”. O Luís Filipe Flores Antunes dos Santos levantou-se do seu lugar e entregou-lhe os verdadeiros vidros fenícios, que tinha no bolso, não se esquecendo de reaver os berlindes pelos quais os tinha substituído, na sua vez de os examinar...
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JJ
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COMENTÁRIOS
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jorge disse...
há aqui uma observação que me impressionou logo à primeira leitura:"o Director só sabia manter a disciplina recorrendo à rigidez extrema e exagerada que lhe era familiar, fora disso era um homem perdido". eu nunca tinha pensado nisso mas é verdade,quando não era o todo-poderoso director do colégio o p albino não sabia falar nem brincar com os alunos.não me lembro nunca dele como uma pessoa normal,como me lembro de professores com quem falava fora das aulas.
gostei dos dois relatos da mesma história,mas nota-se que o jales estava lá!
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farofia disse...
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JJ, fascinante, genial! hilariante!
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Que filme! não, nenhum filme conseguia passar esta história de modo mais convincente do que esta escrita. Estas aulas de História ultrapassam a própria História, os heróis no livro a sucumbir desinteressantes vencidos pelos heróis na sala, vivíssimos de sangue na guelra.
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As armas, as estratégias, as técnicas, as tácticas! Uma delícia! A maestria com que os alunos driblam o enjoo e o (co)matoso e o professor!
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Fantástico! apetece aplaudir a equipa e agitar os cachecóis! “Jales, Jales, Jales! Antero, Antero, Antero! Miguel Miguel Miguel! Flores, Flores, Flores! Jales, Jales, Jales! EEERO! ”
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Isabel X disse...
Subscrevo inteiramente o que diz a Farófia (nunca me passou pela cabeça vir a chamar assim à Dra. Inês!). Há palavras que fazem ver mais do que as imagens. É desse modo que se atinge o Princípio da Imaginação. Parabéns JJ, muito sinceramente!.
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Luis disse...
Os episódios são mais ou menos verídicos,embora talvez as acções não fossem tão organizadas com o João apresenta.
Começando na descrição do tédio como um nevoeiro que invadia a sala vamos até à mais delirante subversão,num texto que é empolgante e com muito humor.E o Albino,quando não podia ser um ditador não sabia mesmo o que fazer,bem observado.
Quem era o biólogo que arrancava as asas às moscas?L
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A.J.Neto disse:
Caro João Jales,
O teu texto sobre as aulas de história como o Padre Albino está fabuloso.Envio também um sobre as tentações amorosas do Padre...
Abraço
António José Neto
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Jaime Serafim disse:
Olá Jales
Parabéns pelo seu texto, que eu já conhecia, mas que uma vez publicado no blogue me pareceu ainda mais bem conseguido, dando um retrato autêntico e muito fiel, porque vivido, dos tormentos porque passavam alguns alunos naqueles tempos e das estratégias que engendravam para tornar menos monótono o fluir do tempo.
Um abraço
Jaime Serafim
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João Jales disse:
Aproveito a intervenção do Dr. Serafim, que era mais uma mensagem do que um comentário, para esclarecer que a publicação sucessiva dos dois textos que referem o mesmo episódio (o colar fenício) foi propositada, já que ambos foram escritos sem que qualquer dos autores conhecesse o outro relato. Pareceu-nos pois esta a forma ideal de os apresentar, com as diferenças de pormenor naturais em crónicas de factos com mais de 40 anos e escritos de perspectivas diferentes, o que é sempre enriquecedor para o Blog.
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João Ramos Franco disse...
Toda a prepotência desse director que li em "O princípio da revolta (J B Serra)", leva-me, apesar de gostar do que escreves e do modo como relatas as aulas de História, a um sentir ainda mais negativo do personagem questão.
João Ramos Franco
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Anabela Miguel disse:
João, o teu relato das aulas de História do Padre Albino foi tão extraordinário e pormenorizado que conseguiste transportar-me àquela época. Que esforço eu fazia para estar atenta e não adormecer nas suas enfadonhas aulas que, se não fossem algumas brincadeiras entre os alunos, seriam de uma completa monotonia.
Ana Miguel
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Luisa disse:
Morria-se de aborrecimento naquelas aulas,não era possível gostar de História assim. Alguém falou de exageros aqui nos comentários,mas a tua descrição não tem nenhum exagero-aquilo era uma chatice tal e qual tu descreves!E que bem descreves,os teus textos são de um realismo incrível e parecem um filme tal como diz a dra Inês.L
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Miguel BM disse:
O tema "História" sempre me agradou e muito graças aos ensinamentos do meu Pai.Falado de modo simples mas vivo,com hipótese de diálogo,discussão e troca de ideias, é sem dúvida um assunto fascinante.Ou seja,precisamente o inverso do que eram as execráveis aulas dadas pelo Conde.
O texto do superbloguista JJ é uma verdadeira aula ao vivo.Não me lembro rigorosamente dos nomes dos generais de Aníbal nem sequer de os saber,e ainda menos da pergunta que me é atribuída pelo autor, o que é natural,pois no final da cada aula era preciso esquecê-la rapidamente.
E se o professor,ou lá o que era aquilo, tivesse resolvido dar matemática ou física ?MBM
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Flores disse:
Depois de ler estes dois textos magníficos, entrei numa espécie de letargia que me impediu de reagir imediatamente ao ritmo das emoções que me provocaram.Ainda agora não me ocorre uma forma que julgue à altura do estilo rigoroso e divertido dos seus autores.
Todos sabemos que a memória é selectiva e eu, em particular, considero a minha excessiva nesse atributo.Embora me lembrasse bem o episódio das pedras fenícias, ocasionalmente recuperado em tertúlias familiares ou de amigos mais próximos, confesso que não esperava mergulhar tão intensamente no ambiente das aulas daquele tempo, numa profusão de detalhes, alguns que julgaria perdidos para sempre.A melhor forma de corroborar o tédio e a irrelevância daquelas aulas de História é talvez reconhecer que, para além da memória do episódio, tudo o resto se me tinha varrido da consciência.
Passados tantos anos é um prazer recordar, através de duas prosas vivas, juntas num cânone tão harmonioso, um dos tantos momentos hilariantes que vivemos juntos. Mas é sobretudo um privilégio, quando elas brotam em sintonia das penas de um colega e de um professor, sem desprimor para os outros, de absoluta eleição!
Abraço
Luís Filipe Santos
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António disse:
Não sei se estava um ou dois anos à frente do autor mas também tive direito a aulas destas.O Albino era um péssimo professor de história,sem qualquer preparação,vocação e imaginação para dar aulas.Até as aulas de moral dele eram chatas!!!
A descrição está muito bem conseguida e o episódio do colar é muito engraçado.Mais engraçado é que eu já o tinha ouvido a outro colega com outro protagonista e noutra turma!Mas os testemunhos do Dr serafim,JJ e Flores são todos coincidentes e não me deixam dúvidas.

O mistério do colar fenício (Uma estória na aula de História)

por Jaime Serafim

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Estávamos em 1965 ou 66. O contracto com um professor de História tinha-se gorado. Então o Director, Sr. Padre Albino Cândido Lopes, decidiu ser ele próprio a tomar conta de algumas turmas dessa disciplina. Não era licenciado em História, mas tinha uma vasta cultura geral e era pessoa muito viajada, tendo visitado muitos locais que se celebrizaram pelos acontecimentos histórico relevantes que ali tiveram lugar. Possuía mesmo alguns pequenos objectos que teriam pertencido a civilizações remotas, sendo, portanto, de valor inestimável.
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Numa aula, creio que do 3.º ano, o tema era a civilização fenícia. Certamente é referida a aptidão natural que os fenícios tinham para o comércio marítimo, tendo chegado a comerciar em paragem bem longínquas para a época. Desenvolveram técnicas de navegação e de fabricação de barcos, de tecidos, de vidro…

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- A propósito, tenho aqui uma conta de um colar fenício. É autêntica! Reparem na qualidade do vidro que os fenícios já fabricavam. Reparem que está um pouco desgastada pelo tempo. A civilização fenícia era florescente 1 000 anos antes de Cristo. Para melhor observarem, vou dar a conta ao aluno da primeira carteira. Depois de a observar passará ao seguinte e assim sucessivamente.

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E a conta lá foi passando de mão em mão, depois de cada um a observar respeitosa e religiosamente, como se de uma relíquia santa se tratasse.

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Passado um tempo, há um aluno que, algo envergonhado e a medo, tem coragem para dizer:

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- Mas isto é um berlinde, como aqueles com que brincamos!

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- Oh rapaz, tu não sabes distinguir um objecto tão valioso como esse, de um berlinde vulgar, de vidro ordinário?

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- Desculpe, mas isto é um berlinde!

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Gerou-se uma certa tensão na sala. Como se atreve este aluno a afrontar um professor? E, ainda por cima, é mesmo o Director!

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- Dá cá a conta, para eu te mostrar que…

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- Ohhh, mas é mesmo um berlinde! Que aconteceu à minha conta de vidro fenício, que se transformou num berlinde? Não pode ser!

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O Director ficou a olhar a sala, sem saber o que pensar, nem vislumbrar como explicar um acontecimento tão inesperado, como insólito. Como teria sido possível que a valiosa conta seja agora um berlinde como os que se vendem numa qualquer loja de esquina? Na busca de uma urgente explicação para este mistério, foi olhando para cada um dos presentes, que, também eles, mostravam uma certa incredulidade perante o que tinha acontecido.

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Um dos alunos, por onde a conta tinha passado, exibia um riso/sorriso mal contido, um ar malandreco e um olhar brilhante, que não passou despercebido ao professor…

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- Foste tu, meu malandro! Tenho a certeza! Ora confessa lá o que fizeste!

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Realmente tinha sido ele. Casualmente tinha um berlinde no bolso e, quando a conta lhe chegou às mãos, meteu-a no bolso e de lá tirou o berlinde que passou calmamente ao colega seguinte. A conta andou por várias mãos, que a identificaram como um autêntico vidro fenício, até chegar às do denunciante, que se recusou a aceitar o possível embuste.

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Esta estória foi-me contada, com muita graça, pelo próprio Sr. Padre Albino, que a achou extremamente divertida e bem conseguida, reconhecendo que só um aluno inteligente, com sentido da oportunidade e com um humor bem requintado, o poderia fazer.

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E sabem quem era o aluno malandreco a quem ele se referia?


L.F.F.A.S.

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Jaime Serafim
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COMENTÁRIOS
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Júlia Ribeiro disse:
Mas que mauzinhos! Conseguiram baralhar o Sr. Padre Albino Cândido Lopes.....afinal ele também se divertia e tinha algum sentido de humor, pelo que nos relata o Dr. Serafim.No fundo,há sempre uma pequenina coisa que desconhecemos num ser humano .
E assim vai o blog...vamos sabendo sempre mais estórias que se passaram dentro daquelas paredes que a todos nós nos albergaram e que cada vez mais nos vão unindo. Obrigado ao João e Dr. Serafim.
Beijinhos
Júlia R
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Isabel X disse...
Isto não é um comentário, é um desabafo! Já viram que em História todos se julgam capazes de "dar uma perninha"? Basta possuir um berlinde fenício, ter viajado a alguns lugares (supondo que não se trata de um destino turístico indiscriminado)e saber ler o Mattoso, em voz alta, durante as aulas, e já o "professor" se sente "habilitado" para leccionar a referida disciplina. Já se fosse Física, Química, Biologia, Matemática, "outro galo cantaria!"
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Jaime Serafim disse:
A Isabel tem toda a razão no seu desabafo, quando refere “que em História todos se julgam capazes de "dar uma perninha". No entanto, quando afirma que se fosse Física, Química, Biologia, Matemática, "outro galo cantaria!", provavelmente por desconhecimento, deixa de ter razão.
Conheci pessoalmente muitos casos concretos de “professores” destas disciplinas - Física, Química, Biologia, Matemática - que nem o sétimo ano dos liceus tinham completado e outros, que tendo frequentado faculdade, não tinham obtido, na altura, aprovação em qualquer cadeira referente à(s) disciplina(s) que leccionava(m). Só não digo nomes de alguns deles, porque a situação felizmente foi alterada e, neste momento, não interessa a ninguém.
Pois, Isabel, nesses anos, em anos anteriores e também em anos seguintes, não era só a História que era “leccionada” numa quase ausência de habilitações, mas isso era um mal que. na altura, se espalhava por quase todas as disciplinas, quer no ensino particular, quer no oficial.
Mas os seus comentários e/ou desabafos são sempre estimulantes e pertinentes – a Isabel está sempre presente e atenta – um beijo com toda a amizade e admiração que sabe que tenho por si.
Jaime Serafim
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Isabel X disse:
Claro que nunca poria em dúvida a nossa amizade e mútua admiração por ficar a conhecer que eu não tinha inteira razão e que a situação a que o meu desabafo alude era, afinal, extensiva a todas as disciplinas. Antes não fosse! Pelo contrário, agradeço-lhe esse esclarecimento. Um beijinho e muitas saudades.
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farofia disse...
Serafim, oh memória preciosa! Ainda mais valiosa (e Albino me perdoe) do que a pedra/berlinde fenícia. Você é um ‘must’, enquanto guardião dos tesouros daquele templo sagrado (esta é um bocadito ‘coiso’, saiu-me… ).
Você conheceu tudo e recorda-se de tudo (benza-o Deus!) com a objectividade madura de quem estava uns degraus acima da plebe.
Directamente do padre Albino você escutou a história do rapaz que ‘enrolou’ o mestre, e o mestre apreciou-lhe o engenho e arte. E assim … tanananan!... ei-lo, o artista!
A foto dir-se-ia instantânea e à la minute, se não fora não ser!
Agora sim, Serafim, agora é que faziam jeito uns intervalos grandes para gozar da sua graciosa companhia e rir, rir, rir, até mais não poder. :)))
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Flores disse:
Depois de ler estes dois textos magníficos, entrei numa espécie de letargia que me impediu de reagir imediatamente ao ritmo das emoções que me provocaram.Ainda agora não me ocorre uma forma que julgue à altura do estilo rigoroso e divertido dos seus autores.
Todos sabemos que a memória é selectiva e eu, em particular, considero a minha excessiva nesse atributo.Embora me lembrasse bem do episódio das pedras fenícias, ocasionalmente recuperado em tertúlias familiares ou de amigos mais próximos, confesso que não esperava mergulhar tão intensamente no ambiente das aulas daquele tempo, numa profusão de detalhes, alguns que julgaria perdidos para sempre.A melhor forma de corroborar o tédio e a irrelevância daquelas aulas de História é talvez reconhecer que, para além da memória do episódio, tudo o resto se me tinha varrido da consciência.
Passados tantos anos é um prazer recordar, através de duas prosas vivas, juntas num cânone tão harmonioso, um dos tantos momentos hilariantes que vivemos juntos. Mas é sobretudo um privilégio, quando elas brotam em sintonia das penas de um colega e de um professor, sem desprimor para os outros, de absoluta eleição!
Abraço
Luís Filipe Santos
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Fátima G V disse:
Só hoje tive oportunidade de ler tudo.
Adorei entretanto rever o Flores, sempre meigo e simpático, amigo do seu amigo , ao pé dele as tristezas esfumavam-se, aprendi com ele que a nossa alegria depende das alegrias que transmitimos uns aos outros. A careta que nos faz sorrir, a gargalhada espontânea, a canção fazendo brotar na nossa voz a dádiva na amizade. José Cid cantou "Música, eu nasci para a música”, mas nem todos nascemos…
A Professora que mais me marcou a História também foi a Dra. Ermelinda, e com ela descobri o Renascimento.
Fáfá

O princípio da revolta (J B Serra)

por João Bonifácio Serra
Sugestão para audição:


Não sou, nem nunca fui, um rebelde. Mesmo nos momentos mais afirmativos do protesto adolescente, e, em geral, da autonomia juvenil, não vivi nenhuma crise prolongada de relação com o meio familiar ou escolar. Se fiz rupturas, como toda a gente, foram cumulativas e as inquietações não passaram disso mesmo: estados de alma que, acredito, foram quase sempre criadores.

Uma situação houve no entanto em que julgo ter estado próximo da fronteira que acabo de negar ter passado. Foi o Padre Albino que a originou. Passo a contar.

Em 1964 comecei a enviar pequenos textos de índole literária para jornais e rádios. Alguns foram publicados, estimulando a continuidade e a ambição do escrevinhador. A Gazeta das Caldas tornou-se naturalmente um alvo preferencial dessa investida. Em princípios de 1965, a Gazeta concedeu-me mesmo o título de redactor, um cartão assinado pelo Director, cuja utilidade, não sendo muito clara, para além de uma ocasionais entradas gratuitas no Salão Ibéria, me pareceu uma singular distinção.

Na Gazeta eu fazia um pouco de tudo: desde as inevitáveis tentativas literárias (que se outro mérito não tiveram, pelo menos me permitiram concluir cedo que o melhor era não ir por aí…) a reportagens dos mais variados acontecimentos, críticas de livros, entrevistas, etc.

Num dos primeiros dias de Março de 1965, quando saí da carrinha que me trazia do Carvalhal Benfeito, o Sr. Ulisses deu-me o recado: que o Senhor Director me esperava no seu Gabinete. Como em regra a chamada a este Gabinete trazia agarrada um encargo ou observação desagradável, lá me dirigi, apreensivo, ao encontro do Padre Albino. O que ele tinha para me dizer apanhou-me completamente desprevenido. Tive até alguma dificuldade em descortinar o sentido da questão. Mas, por fim, lá o entendi: ele estava pura e simplesmente a ordenar-me que submetesse à sua apreciação prévia todo e qualquer texto destinado a publicação. Olhei-o atónito. Nunca tinha lidado com uma situação deste tipo e comecei por argumentar sobre a exequibilidade da medida. Expliquei ao Director como é que o jornal era composto (nessa altura ele era feito numa tipografia tradicional pertencente à própria empresa da Gazeta, na Rua do Montepio), apostado em fazê-lo compreender que no caso das reportagens eu as tinha de escrever muitas vezes no próprio dia do acontecimento narrado. Foi intransigente: eu tinha que lhe entregar os textos, ponto. Ele demoraria os dias que fossem precisos a ler e a emendar, ponto. A emendar? - perguntei incrédulo. Sim, isso mesmo, ponto.

No dia seguinte, na vitrina do átrio, lá estava um aviso. Invocando o estatuto do ensino particular determinava que todos os textos da autoria de alunos e destinados a publicação teriam de obter a prévia concordância do Director do Externato. Que eu soubesse, esse aviso só a mim dizia respeito. Não havia nessa altura mais ninguém que escrevesse regularmente para jornais.

Poucos dias depois, fui entregar no gabinete do Director um primeiro texto, de acordo com as novas regras. Tratava-se de um artigo de opinião intitulado “Homenagem a Calouste Gulbenkian”. Nele comentava uma proposta defendida por António Pedro (pintor, dramaturgo) no sentido de homenagear Calouste Gulbenkian, erguendo-lhe um monumento em Lisboa. Aplaudindo a ideia, eu sugeria que nas Caldas se desse o nome de Calouste Gulbenkian a uma rua da cidade.

A obra da fundação que patrocinara justificava-o amplamente. Não haverá, argumentava eu, parte alguma do território português aonde não tenham chegado os dedos da sua obra. “E quando – rematava eu – actualmente se promovem homenagens (… e tantas são!) cuja oportunidade nem sempre será indiscutível, quão maior é a pertinência desta, em memória do Príncipe dos Beneméritos do País”.

Três dias depois, o Padre Albino devolvia-me a crónica. Mas este último parágrafo, em que aludia a homenagens discutíveis, estava assinalado com uma cruz. A sua publicação não era permitida, informou-me, sem mais explicações.

Desta vez encarei o Director com outra determinação. Como era possível que aquela inofensiva afirmação merecesse ser cortada? Foi então que se me fez luz: o que o Padre Albino estava a praticar comigo era Censura. CENSURA! A famosa Censura, aquela que de que toda a gente se queixava surdamente no jornal, que obrigava a mandar os textos a Leiria, um a um, antes de serem publicados, e de onde vinham autorizados, autorizados com cortes ou pura e simplesmente recusados. E agora ela estava ali diante de mim, pronta a usar, antes mesmo da outra, o seu severo lápis azul. Achei que não, que não podia pactuar com tal iniquidade.

Copiei numa folha o conteúdo do aviso e nesse mesmo dia dirigi-me, ao fim da tarde, ao consultório do advogado e director da Gazeta, Carlos Manuel Saudade e Silva, um primeiro andar de um pequeno prédio da praça, perto da livraria Silva Santos. Contei-lhe o que se passara e entreguei-lhe a cópia do aviso e o original do artigo sobre Gulbenkian. - Não há nenhum artigo no Estatuto do Ensino Particular que imponha esse princípio. Você não deve cumprir essa ordem. E o artigo vai ser publicado assim mesmo no jornal. - E se ele me ameaçar? – perguntei. - Deixe isso comigo - respondeu.

De facto, na sua edição de 27 de Março de 1965, a Gazeta publicou na primeira página o meu artigo. Ignoro o que se passou entre o Director do jornal e o Director do colégio. Passados uns dias o aviso desapareceu. Nunca mais ouvi falar no assunto.

A atitude do Padre Albino não bastou, até porque, como se viu, foi improcedente, para fazer de mim um rebelde. Mas permitiu-me enfrentar relativamente cedo o autoritarismo, a intolerância, a arbitrariedade censória. O máximo responsável pela instituição onde eu aprendia não queria estimular a criatividade dos seus alunos, mas vigiá-la, submetê-la a controlo. O Padre Albino permitiu-me clarificar que havia uma fronteira da liberdade, e que de um dos lados eu, definitivamente, não queria estar. No momento em que ele me mostrou o texto censurado experimentei, pela primeira vez, a revolta contra a arrogância do poder. Graças ao Padre Albino percebi isso, em experiência directa, percebendo também contra o quê e quem é que eu me iria identificar.

É isto que de importante lhe devo. Não fez de mim um rebelde, mas graças a ele compreendi o sentido da revolta.

João Serra