VAMOS LEGENDAR AS FOTOS?
O ERO NA DÉCADA DE SESSENTA (Manuela Carvalheiro)
Para mim e para outros que iniciamos o colégio alguns anos mais tarde, na Rua do Jardim e depois nas novas instalações na Encosta do Sol, que fomos inaugurar, só alguns desses professores foram também nossos professores. Lembro-me da D. Dora, D. Anita, D. Rosa, Mme Irene Albuquerque, Dr. Azevedo, Dr. Jaime Umblino, Dr.ª Maria do Rosário Leal, Dr. Valente Sanches. Outros vieram, como a Dra Alda Mouga, Dr Caldas Lopes, Drª Cremilde, o então Padre Luís Moita, o Padre Renato, o Padre Xico e o Jaime Serafim nosso professor no 7º ano, entre outros.
Começaram também as excursões de finalistas. Era uma alegria. A preparação o entusiasmo, mas também a realidade chata das longas explicações históricas em cada monumento. Lembro-me muito bem da ida a Madrid, com alguns professores, entre eles a minha irmã Esperança, sob o comando do nosso Director o Padre Albino.
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Mas, também a transição se manifestou na relação professor/aluno. Refiro-me especialmente à Drª Alda e aos Padres Luís Moita (ex) e Padre Xico. Pela primeira vez a relação era diferente. Mais intima, com a Drª Alda, mais aberta e moderna na linguagem e no pensamento com o Luís Moita, mais amiga e fraterna com o Padre Xico. 
Outra mudança importante foi o local dos exames. Acabou a ida a Leiria, onde fomos mais ou menos felizes (eu fui feliz) e começou Leiria a vir a Caldas da Rainha. Sim, nós deixámos de nos deslocar e deslocavam-se os Professores de Leiria ao Colégio, para nos fazer os exames. Era mais cómodo, mas as regras continuavam diferentes das regras existentes nos Liceus. Não podíamos dispensar aos exames escritos, só às orais de acordo com as notas e tínhamos de continuar a ser examinados por Professores estranhos ao nosso quotidiano. Acabou-se a Pensão Central, vigorava a casa paterna.
Com certeza de muita coisa me esqueci. A minha memória é menos factual e picaresca que a do meu cunhado. Penso que
a lista dos nossos professores, já publicada pela minha contemporânea Júlia, complementa de certa forma este meu depoimento.Espero que a Laura, colega minha e da Júlia durante 7 anos no ERO, onde fomos todas muito felizes, esteja atenta e complete alguns aspectos deste período que terminou em 1965, marcando para sempre a nossa juventude
Manuela Carvalheiro
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Mas pergunto à Manela se, ao falar no Dr. Caldas Lopes, não quereria dizer Dr. Figueiredo Lopes? É que não me lembro do primeiro ser professor do Colégio.
Foram 7 anos óptimos, fomos companheiras de liceu sempre, até na baliza do campo de futebol da mata....reencontrámo-nos no blog...que maravilha !!!
Então, daqui da Holanda, mais precisamente de Haia, vai um grande beijinho para todos os colegas, muito especialmente para a Laura e Manela.
Júlia R
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Que mais poderei dizer depois da tua narrativa tão completa?
Já que estamos numa de recordações, vou lembrar que nessa época de mudança, começaram também os Bailes de Finalistas no ERO. O nosso foi na FNAT (agora INATEL) na Foz do Arelho, alguém se lembra?
Foram grandes os preparativos e preciosa a ajuda das mães de alguns de nós para que a noite do baile corresse muito bem. Este tinha por fim, além do divertimento, angariar algum dinheiro para ajudar as despesas da nossa viagem a Espanha.
O baile foi correndo o melhor que se possa imaginar mas, no pico do entusiasmo, e antes das 3 da manhã (se a memória não me falha), o Padre Albino subiu ao palco onde o conjunto estava a tocar e disse: “acabou o baile”. Foi como se desabasse o mundo sobre nós. Alguém tentou reclamar, mas o Sr. Director respondeu de imediato: “uma festa deve acabar no seu auge, pois assim será sempre recordada com saudade”. Ninguém conseguiu demover o Padre Albino, e fomos todos para casa muito tristes.
Enfim…épocas!!!!!
Realizou-se uma outra festa, no Ginásio do Colégio, organizada pela nossa turma de Finalistas com a ajuda dos professores, que teve também por fim arranjar um dinheirito para ajudar a fazer face às despesas da viagem a Madrid. Já vimos aqui no blog um convite dessa festa, guardado pelo Rodrigues Lobo. Faço-lhe aqui um desafio para, com um pequeno exercício de memória, nos contar como tudo aconteceu.
Juntando os lucros das festas à generosidade dos pais lá fomos na Viagem de Finalistas de que falas e que recordo com saudade, mas ainda vou sentindo as dores no pescoço de tanto olhar para os tectos dos monumentos…. Durante as explicações históricas valia-me o Padre Xico, que se punha à minha frente para eu poder comer um bocadinho de chocolate, sem que o Director visse.
A nossa juventude foi já um pouco marcada pelo clima de mudança da década de 60, mas nós fomos felizes pela nossa convivência e amizade durante os 7 anos passados no ERO. E esta memória inclui a tua irmã Esperança que, apesar de ser um pouco mais velha, foi sempre nossa cúmplice.
De 1960 a 1962 (época em que ainda estou no ERO) existem, quase que com certeza, fotografias com rapazes e raparigas juntos. A sua publicação agora, penso que seria oportuna e actuaria como geradora para melhor reconstruir essa época.Principalmente aquela em o Padre António Emílio foi director.
Ora viva, Manela Carvalheiro!!!Não fora este blog e eu nunca mais falaria contigo...À data desta fotografias, eu já não estava no Colégio, já tinha vindo para Lisboa, mas ainda reconheço muitas das "meninas" dos grupos. Entre elas, encontro, por exemplo, as minhas irmãs mais novas.
O PROFESSOR
Conheci um episódio que mostra o que afirmo e de que, passados tantos anos, poucos se lembrarão. Estou por isso certo que nenhum dos intervenientes levará a mal a sua divulgação.
Um dos últimos sétimos anos do ERO teve como alunos o Manuel e a Teresa. Ambos bons alunos, com passagens pelo quadro de honra do Colégio, durante grande parte dos sete anos que o frequentaram. O Manuel, provavelmente pelas solicitações da idade e um espírito inquieto, começou mal esse ano, mais interessado nas matérias da boa vida que nas matérias de estudo… A Teresa esteve doente, não sei exactamente com quê, mas isso prejudicou-lhe o rendimento, principalmente nas cadeiras de Físico-Químicas e Matemática, em que a compreensão das matérias anteriores era fundamental para a evolução dos conhecimentos.
Os dois jovens tinham sido namorados no ano anterior, zangando-se no Verão por um daqueles motivos idiotas típicos da idade, sendo a simultaneidade dos maus resultados uma coincidência, já que não mantinham qualquer contacto (contam os colegas que nem se falavam!).
Nas disciplinas de Ciências Naturais, OPAN, Filosofia e Geometria Descritiva foi possível a ambos recuperar com mais ou menos dificuldade, estudando um pouco mais no segundo período, embora obtendo notas mais baixas do que o habitual.
O professor de Físico-Química e Matemática era o mesmo (Dr. Serafim) e teve com ambos uma longa conversa. Conhecendo-os bem, decidiu dar-lhes uma nota que lhes permitia ir a exame à primeira cadeira, baseado em que acreditava que com um pequeno esforço no terceiro período ficariam aptos; mas não a Matemática, em que ele achava não ser possível nenhum deles recuperar um atraso tão grande, já que tinham problemas para resolver noutras cadeiras. Tinham que anular a matrícula e pensar fazê-la na 2ª época, em Setembro.
Não sei bem o que aconteceu nessa Páscoa entre o Manuel e a Teresa mas o frio silêncio dos meses anteriores transformou-se, de novo, num apaixonado romance. Só eles saberão o turbilhão de palavras, sentimentos, recriminações, recordações e alegrias que foram essas férias. Todos (famílias, professores, colegas) se convenceram que esta relação iria arruinar definitivamente o ano escolar de ambos. E era natural que assim acontecesse, imaginem o impacto deste reencontro, após meses de afastamento e fingida (e sofrida) indiferença, tendo os intervenientes dezassete anos.
Mas, inesperadamente, talvez reencontrando um equilíbrio emocional que lhes faltava, o terceiro período correu-lhes bem e, embora não fazendo Matemática, ambos passaram às outras cinco disciplinas com boas notas, dispensando da quase totalidade das orais.
As famílias, apesar de tudo aliviadas, foram falar com o Dr. Serafim no sentido de garantir orientação no estudo de Matemática durante o Verão. Ele aceitou, mas não admitiu que esse trabalho fosse pago, e foi marcado um mapa com uma ou duas explicações semanais, ninguém recorda bem esse pormenor.
Mas o Manuel era um espírito inquieto,
como já disse, e o Verão trazia muitas tentações às Caldas e à Foz… Em relação a todo este caso o Dr. Serafim actuou bem para lá da sua obrigação, adaptando a sua capacidade pedagógica a circunstâncias que outros teriam ignorado. Ao longo do ano, incluindo as férias de Verão, teve razão em todas as análises, intuição para a melhor solução e capacidade e empenhamento para “obrigar” os alunos a adoptá-la.
Eu fui seu aluno sete anos e tive sempre boas notas nos exames das suas disciplinas (2º, 5º e 7º Ano). Mas não é por isso, e sim pelas qualidades de professor que lhe reconheço, e atrás afirmei, que decidi aqui recordar um episódio que as ilustra.
Ah, é verdade, esqueci-me da Teresa e do Manuel: reencontraram-se apenas em Leiria no exame de Matemática, em Setembro, obtendo ambos a mesma nota (catorze) e dispensando da oral. Rara e fugazmente se voltaram a ver ou falar durante os últimos quarenta anos.
A imagem que retratas do Dr. Jaime Serafim é-me grata em todas as vertentes que possas colocá-la,o meu colega, o homem e o teu Professor...
Luis disse...
A imagem que eu tenho do Dr. Serafim corresponde ao que é aqui descrito.Sem datas é difícil saber mais sobre esta história,só provavelmente os colegas de turma poderão identificar o casal de namorados.Os namoros desta altura eram feitos de encontros,desencontros e reencontros.
tenho que começar pelo postal da foz que é muito bonito e me deixou a olhar para ele montes de tempo antes de começar a ler...a história mostra um professor interessado nos seus alunos,que eu conheci também assim,mas mostra outra coisa que ninguem ainda comentou:a vida que a proximidade das praias e os veraneantes que elas atraíam traziam à nossa cidade.não havia namoro caldense que aguentasse a concorrência!são estes pormenores dos contos do jj que têm sempre o condão de nos fazer regressar à época.jorge
Olá João Jales
Obrigado por tudo o que escreveu sobre mim. Sei que em boa parte é justificado pela sua simpatia e pela boa empatia que sempre tivemos um pelo outro. Nunca convivemos muito, mas mantivemos sempre um sentimento mútuo de respeito e de boa amizade.
Mas mais uma vez – e vou repetir-me – verifico que não só o Jales, como muitos outros alunos que tive, reconhecem o meu esforço e empenhamento sincero que sempre tentei pôr nas minhas actividades lectivas. Tudo o que se relacionasse com educação foi (e é) para mim um prazer. Eu sinto que nunca trabalhei, mas que a minha vida foi sempre uma sucessão de hobbies, por isso, e apesar dos muitos revezes que tive, ainda me considero uma pessoa feliz e de bem com a vida. E são testemunhos, como os seus, da Júlia, da Laura, da Manuela, da Paulinha, da Isabel, da Ana, do Jorge, do Flores e tantos, tantos mais, não esquecendo a nossa farófia (a querida Inês Querido), que me ajudam a sentir vivo e com vontade de viver.
Mas tenho ainda de lhe dizer que é um prazer enorme ler os seus textos. Muito vivos e expressivos, usando uma linguagem ricamente adjectivada, mas sem recorrer ao pretensioso, são uma leitura que nos transporta logo para cenas ao vivo com cenários e personagens a representarem para nós.
E a propósito de personagens… Eu identifiquei a Teresa e o Manuel. Só que a Teresa não se chama Teresa, nem o Manuel se chama Manuel, mas foi uma maneira inteligente de, sem se comprometer, relatar vivências juvenis daqueles tempos, que, no fundo, não são assim tão diferentes das vivências de tempos mais recentes e também de tempos mais antigos, mas têm sempre um cunho muito próprio da época e que, para os dessa idade, sabe sempre bem recordar, especialmente se essa recordação for evocada de forma tão brilhante.
Obrigado e parabéns, Jales!
Jaime Serafim
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OS PROFESSORES DO ERO - 1953/60
Iniciei as aulas no Externato Ramalho Ortigão no dia 1 de Outubro de 1953 – o Director era o Dr. Manuel de Oliveira Perpétua. Eu, um rapazeco vindo da aldeia, tímido e envergonhado, achava-me inferior aos meninos finos da cidade, muito mais espertos que eu. Conheciam muitas coisas e tinham vivências em muitos aspectos diferentes das minhas. Achava-me um pobre de Cristo. Assim, procurei ficar sempre sereno, não dar nas vistas e alinhar, mais ou menos discretamente, no que sabia e podia. E não levou muito tempo para que me sentisse confortável e estimado naquela turma.
E os meninos finos eram: o João Calheiros Viegas, o João Manuel Coutinho, o Alberto Barbosa, o Mário Isaac, o José Maria Sales Henriques, o Adérito Hernani, o António José Valente (meu colega de carteira), o Carlos João Simões, o Emídio Couto… As meninas finas eram: a Dulce Rosa, a Casimira Barros, a Teresa Caldeira, a Maria do Rosário Gil…
Ao longo dos anos, como num comboio, foram entrando mais uns e saindo outros. No 2.º ano entrou a Auta Amélia Cordeiro (Tamé), a Ilda Fortunato… No 3.º a Maria Helena Capristano, a Lucinda o António José Ventura Figueiredo… No 4.º a Maria João e o Virtudes. No 5.º a Celeste Samagaio, a Noélia, a Esperança, a Laura, o Cipriano, o Capataz Franco, o Freire, o Carlos Honório…
Provavelmente esqueci alguns, a eles peço desculpa, mas já foi há quase 500 anos e a minha memória já não é o que era.
1.º ano - 1953/54
No primeiro ano tivemos como professores: Dr.ª Lúcia em Português, Mme. Irene Albuquerque em Francês, Dr.ª Maria Luísa Luz em Matemática e Ciências Naturais, Esc. Macário Diniz em Desenho, Sr. Carlos Silva em Canto Coral, o Capitão Hipólito a Educação Física e o Padre Tobias em Religião e Moral. As meninas tinham Lavoures com a D. Anita.
Um conjunto de professores simpáticos e muito empenhados. Já me referi em outro texto ao pavor que eu tinha da D. Lúcia, que eu achava ter um ar feroz e se atiraria a mim a qualquer momento, mas isso não chegou a acontecer. Acho que foi o único professor que me meteu medo – devia ser impressão minha, mas nunca se sabe…
A Dr.ª Maria Luísa só esteve no Externato neste ano. Creio que tinha o curso de Agente Técnico de Engenharia. Ensinava bem, com muita serenidade e sempre com um leve sorriso.
A Mme Irene Albuquerque já foi referida por vários bloguistas e por mim também. Sempre impecável na sua forma de estar, de ensinar, de incentivar…
Numa das primeiras aulas de Francês, a Mme Albuquerque fez um ditado. (Naquele tempo faziam-se ditados!)
As palavras eram as aprendidas na aula anterior e que tinham a particularidade de formarem o plural com um “x”. A Mme ditou pausadamente “bijou, chou, hibou, genou… “ sublinhando sempre “virgule” entre as palavras.
Eu escrevi “bijou virgule chou virgule hibou virgule genou virgule…” e ia pensando: que raio de coisa esta de os franceses escreverem tantas vezes a palavra “virgule”!
Só mesmo no fim, e estafado de tanto escrever “virgule”, descobri a minha palermice e risquei todas as “virgules” e substituí por “,” ainda a tempo de entregar o ditado, para correcção. Uf!
2.º ano – 1954/55
No segundo ano, passámos a ter Português com o Dr. Perpétua. A Dr.ª Lúcia, para meu descanso, tinha ido trabalhar para Lisboa, no Colégio Moderno. A Ciências Naturais tivemos a Dr.ª Teresa, a Matemática, o Dr. Azevedo e a Desenho e Educação Física, o Capitão Hipólito.
As aulas de Canto Coral eram dadas em conjunto - primeiro e segundo anos. O facto de ser uma turma enorme e uma disciplina não sujeita a classificação, fazia com que as aulas se desenrolassem num ambiente turbulento, muito embora o Sr. Carlos Silva fosse um senhor de elevada competência, muito educado, tentava ensinar um pouco de música, mas naquele ambiente era difícil. (Mesmo assim, ainda consegui aprender alguma coisa). Cantávamos (?) a “Pêra Verde “ e “Portugal é Lindo” – sempre as mesmas, ao longo dos 5 anos em que tivemos Canto Coral.
Pedro Albuquerque – Oh Sr. Carlos Silva, porque há uma nota chamada “sol” e não há uma chamada “lua”?
Sr. Carlos Silva – Sabe porquê? Porque para isso teria de haver também uma nota chamada “parvinho” e outra chamada “doidinho”, percebe?
No fim do ano fomos fazer exame ao Liceu de Santarém. Ficávamos lá durante as provas escritas. Todos os dias estava presente, para apoio, um professor do Externato, mais ou menos de acordo com a disciplina visada no exame desse dia. Como éramos ainda uns garotos, as nossas mães também iam connosco. Era um período muito agradável, de grande convívio entre nós e também entre as nossas mães. Cimentaram-se aí muitas amizades.
3.ª ano – 1955/56
Agora Já no 2.º Ciclo, como se dizia na altura, passávamos a ter 9 disciplinas para classificação e mais três ou quatro de complemento, digamos assim. Era pesadote!
Tivemos a Português a D. Maria Xavier, a Francês e a Inglês a Mme Irene Albuquerque, a História e a Geografia o Dr. Manuel Perpétua, a Ciências Naturais, Físico-Químicas e Matemática, a Dr.ª Margarida Ribeiro, a Desenho e Educação Física, o Capitão Hipólito (penso que já era Major), a Canto Coral, o Sr. Carlos Silva, a Religião e Moral, o Padre Covões, mais conhecido pelo Sr. Vigário. As meninas, claro, continuaram a ter Lavoures com a D. Anita e Educação Física com a D. Rosa.
A Educação Física das meninas era dada num salão de rés-do-chão de um prédio na Rua Sangreman Henriques, onde hoje está uma Farmácia. Foi nesse salão que, por mais que uma vez, a nossa turma levou à cena peças de teatro, encenadas e montadas por nós.
Num texto que escrevi anteriormente , já me referi à importância que teve para mim a entrada da Dr.ª Margarida. Para não alongar este, não vou fazer mais alguma referência a esta grande Senhora, muito embora houvesse ainda muito mais de bom para dizer.
A Sr.ª D. Maria Xavier era uma senhora já com alguma idade e era considerada a maior sumidade, em Caldas, em Português, Latim e Grego. Mesmo os mais ilustrados da cidade, quando tinham dúvidas sobre a forma de escrever ou interpretar uma palavra, um texto, uma declinação… era consultada a D. Maria Xavier. Nunca consentiu que a tratássemos por Dr.ª. Era meiga e afável, tratava-nos por meus amores, minhas flores, ou meus filhos… Mas era muito exigente – ensinava muito bem, mas exigia muito – não era fácil, era mesmo impossível, com ela obter uma nota alta. Mas foi a melhor professora de Português que tive. Se não aprendi mais, foi porque não teria aptidões para tal, mas lá que me ensinou muito, ensinou.
Aula de entrega de pontos corrigidos (testes, como se diz à moderna)
D. Maria Xavier – Mário Isaac, meu filho, fizeste muitos progressos, estás a melhorar muito, este ponto está bem melhor que o anterior…
Mário Isaac – (glup!), (!!!...), (rsrsrs…), (wow!!!)…
D. Maria Xavier, concluindo – tens sete!
Mário Isaac – (glup!), (???...), (grrrr…) (piiiiiii!!!)…
4.º Ano – 1956/57
O elenco de professores manteve-se, apenas com uma alteração: a Geografia passou a ser dada pelo Dr. Azevedo.
O Dr. Manuel de Oliveira Perpétua, licenciado em Histórico-Filosóficas, foi nosso professor de História nos 3.º, 4.º e 5.º anos. Era o director e também leccionava Filosofia e O.P.A.N. (Organização Política e Administrativa da Nação) aos 6.º e 7.º anos.
Expunha os conhecimentos de História com entusiasmo, muito saber e muita graça. Eu assistia às aulas de História encantado e com muito interesse, como se de uma telenovela se tratasse (a TV só apareceu no ano seguinte). Ainda hoje sou um apaixonado por História – normalmente tenho à cabeceira livros de História. Quando viajo e me deparo com certos locais e monumentos, ainda hoje me vem à lembrança o grande professor que tive. A Acrópole de Atenas, o Palácio de Knossos, o Templo de Karnak, o templo da Rainha Hatshepsut, o túmulo do Rei Midas, o Coliseu de Roma… e tantos, tantos mais, eu já tinha na memória mesmo antes de os ter visitado. Tudo isto me ficou das maravilhosas aulas de História que tive deste professor.
Dr. Perpétua – Sumário: chamadas. (abre a caderneta) Ora vejamos… Barbosa!
Barbosa - (Valha-me Deus!) Oh Sr. Dr., ontem, quando ia para casa, atravessei o Borlão e o livro de História caiu numa poça. Agora está molhado, a secar, e eu não pude estudar…
Dr. Perpétua – Bem… vou acreditar. Por hoje passas…
Barbosa – (uf!...lá me safei!)
Aula seguinte:
Dr. Perpétua – Sumário: chamadas. (abre a caderneta) Ah pois… Barbosa!
Barbosa - (Valha-me Nossa Senhora!) Oh Sr. Dr., eu bem queria estudar, mas as folhas do livro ainda estão tão molhada, que nem lhe posso pegar…
Dr. Perpétua – Então como é? Trata lá de secar as folhas do livro. Isto assim não pode ser, mas vá lá…
Barbosa – Eu vou tratar disso, Sr. Dr. (Que alívio!...)
Aula seguinte:
Dr. Perpétua – Sumário: chamadas. (nem abre a caderneta) Barbosa!
Barbosa - (Valham-me Todos os Santos!) Oh Sr. Dr., acredite que o livro está a desconjuntar-se e…
Dr. Perpétua – Sabes que mais? Isso é tão verdade, como estar aqui alguém nascido em… em… em…S. Sebastião da Pedreira!
Eu – Sr. Dr., eu nasci em S. Sebastião da Pedreira!
Dr. Perpétua – Serafim, tu nasceste em S. Gregório! A tua família é de lá!
Eu – A minha família sim, mas eu nasci, de facto, em S. Sebastião da Pedreira, na Maternidade Alfredo da Costa.
Dr. Perpétua – sendo assim, Barbosa, por hoje, mas só por hoje, passas…
Barbosa – (Nem quero acreditar nesta sorte inesperada!)
5.º ano – 1957/58
Continuámos a ter aulas com a maioria dos professores do ano anterior, mas com algumas modificações. A D. Maria Xavier passou a dar aulas exclusivamente na Bordalo Pinheiro, sendo substituída pelo Dr. Oliveira. O Dr. Azevedo deixou a Geografia e passou a dar Ciências Naturais. O Desenho pelo Eng.º Cabral. A Geografia, em regime de acumulação, por uma professora da Bordalo Pinheiro, a Dr.ª Natividade. Era esposa do Dr. Oliveira. Uma senhora muito serena, de voz mansa, mas que logo na primeira aula se impôs pela qualidade da exposição que nos estava a apresentar. A Geografia, pela primeira vez, passou a ser uma disciplina interessante e fácil.
No final do ano, fomos para Leiria fazer os exames. Eram dez provas escritas, duas por dia, de segunda a sexta, e o recurso a uma segunda chamada era quase impossível. Cada prova versava o conteúdo dos três anos do ciclo. Não era nada fácil. Dizia-se que o 5.º ano não era para se fazer, mas sim para se ir fazendo…
Apesar de tudo, essa semana em Leiria era, para nós, um tempo de convívio, que era só nosso. Íamos quase todos para a mesma pensão, a Pensão Central, mais tarde Hotel Central, que foi destruído por um incêndio. Mas, como diria o Malato, fui muito feliz em Leiria…
6.º ano – 1958/59
Neste ano, ocorreram algumas transformações no Externato. Provavelmente devido ao aumento do número de alunos, passou a funcionar em dois locais: o “prédio do Crespo” e uma secção em parte de um edifício que fazia esquina entre as ruas do Jardim e Heróis da Grande Guerra. Tinha sido recentemente adquirido pelo Patriarcado de Lisboa e o novo Director era o Padre António Emílio, que passou a ser o nosso professor de Moral e Religião – uma excelente pessoa e um excelente professor.
No anexo passaram a ter aulas os alunos da primária, leccionada pela D. Manuela, e os alunos dos 1.º e 2.º anos. Foi neste ano que a D. Dora entrou para o serviço do Externato, ficando responsável pela disciplina e pelas condições de funcionamento na extensão agora criada, para além de dar Lavores às meninas que ali tinham aulas.
Houve também uma profunda remodelação no corpo docente. Penso que apenas ficaram a D. Anita, a D. Rosa, a Mme Irene Albuquerque e o Dr. Azevedo.
Entrou o Dr. Jaime Umblino, licenciado em Filologia Românica, leccionava Português e Francês. Era muito bem-disposto, sorridente e muito camarada com os alunos. Adorava brejeirices… Não foi meu professor, porque, ao ter optado pelas Ciências, deixei de ter estas disciplinas.
Para Ciências Naturais, veio a Dr.ª Maria do Carmo. Era o seu primeiro ano de ensino. Muito nova e bonita, tímida e reservada, notava-se que trabalhava muito. O primeiro ano para um professor, num pequeno colégio, é muito pesado. Leccionamos muitos níveis pela primeira vez e, só quem passa por isso, pode avaliar.
A Filosofia foi dada por um professor, acabadinho de licenciar em Salamanca. Lamento, mas não consegui lembrar o seu nome. Também leccionava História e Português, pelo menos aos primeiros anos. Pode ser que alguém se lembre do seu nome. Era muito simpático e procurava apresentar um trabalho sério e bem preparado. Casado há pouco tempo, tinha uma bebezinha de colo, que era o seu orgulho. Quase no final do ano, andava muito cansado, e até teve dificuldade em dar as últimas aulas. Faleceu pouco depois. Disseram-nos que tinha lúpus disseminado no sangue. Para nós, foi uma perda muito sentida.
O Dr. Azevedo leccionou-nos Matemática e Desenho (Geometria Descritiva). Pessoa já com grande experiência, muito saber e competência, mas com falta de paciência (rimei sem querer, mas é verdade!). Talvez porque para ele tudo era simples e evidente, a matéria foi dada com uma rapidez fantástica, muitas vezes lida à pressa pelo livro. Terminámos os programas cedíssimo, mas, pelo menos eu, sentia-me muito inseguro em quase todos os temas. No entanto, qualquer dúvida que lhe fosse posta, se o apanhasse bem-disposto, a explicação era magistral. Pena que não acontecesse com mais frequência.
Para leccionar Físico-Químicas foi contratado um professor, já de certa idade, que, logo de início, passou a ser conhecido pelo “Serôdio”. Constou que este epíteto lhe foi posto pelo António Samagaio, mas o facto é que pegou de imediato e quase ninguém sabia que se chamava Carlos Coelho. Não sei qual era a sua formação académica, mas não gostava que lhe chamassem Dr., mas sim Sr. Tenente. Referia-se amiudadamente ao desempenho de tarefas na tropa e mesmo em situações de guerra. Tinha uma linguagem um tanto livre para a época, estilo caserna, mas sabia ser delicado e gentil quando a ocasião o merecia. Falava com pronúncia do norte, trocando os “vv” pelos “bb” e tinha um apurado sentido de humor.
Sr. Tenente – (ditando um problema) Um comboio que pesa 400 gramas…
António Alberto (Tobé) – Oh Sr. Tenente, como pode um comboio pesar só 400 gramas?
Sr. Tenente – Entõe, tu num bês que bai bazio?
Fumava muito, quase sem precisar de fósforos ou isqueiro – acendia os cigarros, sem filtro, uns nos outros e deixava a cinza cair por todo o lado. Nem no laboratório parava de fumar. Por isso também era conhecido pelo “Beatas”. A matéria era dada com uma lentidão exasperante. Um problema levava por vezes várias aulas a resolver, tudo com muito pormenor e minúcia. Resultado: Chegámos ao fim do ano muito longe de acabar a Física e sem sequer ter entrado na Química.
Tínhamos a disciplina, O.P.A.N. (Organização Política e Administrativa da Nação), que era considerada a menos importante, quer pelo conteúdo, quer pela pequena extensão programática. Era leccionada apenas com uma aula por semana. Esta disciplina passou a ser dada por um magistrado do Tribunal da Comarca – o Dr. Fontinha. Dava uma dignidade tão grande à leccionação, com exposições muito cuidadas, trabalhadas e rigorosas, mas agradáveis, que a disciplina passou a ter um estatuto elevado e em nada inferior ao das restantes. Cada aula era um prazer.
Penso que foi neste ano que a Dr.ª Elvira Bento Monteiro leccionou, em acumulação, Latim e/ou Grego. Não foi minha professora. Era uma senhora muito elegante, competente, e sempre muito simpática.
7.º ano – 1959/60
No início do ano, tivemos alteração de professores em duas disciplinas – Ciências Naturais e Filosofia.
A Dr.ª Maria de Carmo foi substituída pela Dr.ª Maria do Rosário Leal. A nova docente era muito alegre, muito competente, de personalidade forte, imprimia um bom ritmo no desenrolar das actividades da aula. Aprendia-se muito e tudo era muito interessante.
Em Filosofia tivemos o Dr. Valente Sanches. Licenciado em Direito, era administrador do Hospital e passou a leccionar no Externato, em acumulação. O Dr. Sanches é uma pessoa de enorme cultura, fino trato, competentíssimo e, ao mesmo tempo, uma pessoa afável e de grande simplicidade. Passámos a gostar muito de Filosofia e a perceber quão importantes eram os conceitos sobre os quais esta matéria se debruçava. Também leccionou a disciplina de História, ao que parece, com muito agrado dos seus alunos.
Um ou dois anos mais tarde, o Externato passou a ministrar também o Magistério Primário, no qual o Dr. Sanches leccionou várias cadeiras. A sua forma de estar, de lidar com as alunas, a força, competência que transpareciam do seu trabalho sério e valioso, fez com que as suas alunas o admirassem e o tomassem como um verdadeiro e grande amigo. A minha mulher, que foi uma das alunas, já cá não está para confirmar o que acabo de escrever, mas foi através dela que esta mensagem me chegou, e sei, sem hesitações, que foi este o professor que a marcou para sempre.
E as aulas de Físico-Químicas continuavam a passo de caracol. Fomos falar com o Director, manifestando a nossa apreensão pela impossibilidade manifesta de ser cumprida nem metade do programa. O Sr. Padre António Emílio compreendeu as nossas apreensões e mandou duplicar o número de aulas semanais. Na aula seguinte, o Sr. Tenente Carlos Coelho, entrou radiante, dizendo-nos, com grande satisfação, que agora já podia dar as aulas mais devagar, porque até ali eram um sufoco, com falta de tempo. Claro que passámos a dar a matéria ainda mais lentamente, para desespero de todos (menos dele).
Um dia, estando o Sr. Tenente a dar uma aula ao 7.º ano, um aluno de outra turma, cujo nome vou omitir, batia à porta. O professor foi abrir e não estava ninguém. A cena repetiu-se. O Professor, furioso, deixou-se ficar junto à porta, do lado de dentro e mal o aluno voltou a bater, abriu a porta e ainda o viu a fugir. Exaltado como estava, perdeu a compostura e ralhou-lhe:
Oh seu filho da p…! Vou fazer queixa de ti e vais ser expulso!
No dia seguinte, apareceu na aula para nos dizer adeus. Tinha sido despedido. O aluno ter-se-ia antecipado e foi dizer à sua mãe que o professor se tinha referido a ela como sendo uma p… Parece que a senhora teria reagido da pior forma…
Disse, entre lágrimas, que gostava de nós, que tinha muita pena de nos deixar, mas que o Externato não o tinha prejudicado monetariamente, porque lhe pagara o vencimento completo, até ao fim do contrato. Foi um dia triste para todos nós. Apesar de tudo, tínhamos um certo carinho e amizade pelo Sr. Tenente.
O Dr. Azevedo passou a tomar conta das Físico-Químicas do 7.º ano e foi contratado o Dr. André Gonçalves para os restantes anos. Era um rapaz novo, licenciado em Ciências Geológicas, um pouco tímido, mas muito consciencioso no trabalho. Continuou no Externato durante mais três anos. Não foi meu professor, portanto não o fiquei a conhecer muito bem. Passados mais de trinta anos, voltamo-nos a encontrar, mas já em funções muito diferentes.
E, mais uma vez, fomos para Leiria fazer os exames. Como seria de esperar, fui muito feliz em Leiria…
Não gostava de terminar sem fazer referência a duas pessoas que também nos acompanharam neste percurso e por quem todos tínhamos uma amizade e um carinho especiais – a menina Albertina e o Sr. Madeira.
A menina Albertina (era assim que a chamávamos) era a única contínua do “prédio do Crespo”. Era ela quem tomava conta dos alunos no primeiro andar, das raparigas na respectiva sala, dos toques da campainha, pelo que tinha de estar sempre atenta ao relógio e era ela também que limpava todo o Externato, mantendo-o sempre encerado, limpo e brilhante. Nunca casou, vivia para o Externato e para os seus meninos. Era muito nossa amiga.
O Sr. Madeira, reformado da GNR, tomava conta do segundo andar e dos rapazes, na respectiva sala, Procurava manter a possível disciplina, era muito educado e responsável. Sabia como lidar com os alunos mais rebeldes e dar-lhes conselhos adequados. Era um homem bom, de muito respeito, tolerante, compreensivo e amigo de todos nós.
Voltei ao Externato quatro anos depois – encontrei tudo mudado, até as instalações. Dos professores do meu tempo, só restavam o Dr. Azevedo, a D. Rosa, a D. Anita, a D. Dora e o Dr. Sanches, que apenas leccionava uma horinha semanal de O.P.A.N. ao 6.º ano e outra ao 7.º ano.
Jaime Serafim
Só para eu me esclarecer nos anos: No teu 1º ano não estão também o Pedro Albuquerque, o António Samagaio, o Adalberto Caldeira, o José Saudade e Silva, o Edegar(tocava acordeon e violino) e a Maria da Madre Deus Monte Pereira?É que tudo bate certo na tua descrição, mas eu ou estou no mesmo ano ou um à frente ou atrás?A sala de aulas não é a 1ª porta à esquerda no piso seguinte ao pátio?
Verdadeiramente, Jaime Serafim, é você O de Boa Memória (com a devida vénia a el-rei D. João I) e felizmente de boas memórias. Estou aqui mortinha de rir. Com estas: ahahah!!!
Dr.Serafim !
Conheci e fui aluna de alguns dos professores que descreve, pois frequentámos o ERO simultaneamente nos seus 2 últimos anos, embora em edifícios diferentes.Que bela e salutar relação entre alunos e professores.....virgule...virgule....virgule....e o Dr.Umbelino não poderia vir todos os dias, de Torres Vedras no comboio dos 400gr...ele era pequenino.mas não tanto...
Fala dos exames em Leiria,cruzámo-nos na Pensão Central em 1960, eu a fazer o 2º ano e o Dr.Serafim o 7º.Belos tempos !!!De manhã íamos ao Liceu cumprir a nossa "obrigação " (o examezito) à tarde convivíamos e não tínhamos necessidade de estar a estudar á última da hora para o dia seguinte. Como era possível????
E a Menina Albertina e o Sr. Madeira,que admiráveis pessoas !
Um Abraço
Júlia R
É inacreditável haver alguém que tantos anos depois se lembra de tantos nomes de colegas,professores e contínuos do colégio.E ainda das histórias,dos diálogos,das notas e sei lá que mais!!!Está escrito,como das vezes anteriores de uma forma muito divertida,embora parecesse muito longo quando vi,acabei de ler de uma vez e com pena de não haver mais!!!Parabéns Dr. Serafim,espero que tenha mais coisas para nos contar e parabéns ao Jales por ter conseguido mais este colaborador para o blogue.
Estes anos nada têm a ver com a minha frequência do Externato Ramalho Ortigão mas são descritos com uma quantidade de pormenores e detalhes seguramente impossível de reproduzir pelos alunos da década seguinte,com menos dez anos de idade e com menos dez anos de afastamento dos scontecimentos.
PADRE ALBINO - Outras visões
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Como o JJ disse, também eu estava numa posição - enquanto testemunha da época e do homem - privilegiada se a compararmos com a dos alunos. Porque pertencia ao grupo dos professores e porque tinha talvez uma capacidade maior, pela idade e pela experiência de vida, de conseguir ver para lá da máscara do padre Albino. Li algures no blog, mas agora não consegui localizar, uma expressão de um Gama Vieira que quando chegou ao E.R.O. gostou do director. Gostou! Porque ele vinha do liceu de Faro, onde conheceu o reitor, esse sim, um verdadeiro terror! Senti-me perfeitamente identificada, pois foi sob esse 'verdugo' que vivi dos 9 aos 16 anos, e as marcas ficaram (como as dos escravos da roça...) por isso entendo bem os alunos.A comparação desse reitor com o padre Albino fazia deste um verdadeiro gentleman, imagine!
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Sob a ditadura os comportamentos sociais estavam altamente programados, quer para os ‘homens’ quer para as ‘senhoras’ e a gente aprendia que tinha que ler nas entrelinhas para achar as ‘bondades’ das pessoas. Excepcionalmente, como aconteceu com o Quim, ou então no convívio diário prolongado, descobriamos uma 'bondade' porque nos era dado ver o tirar da máscara. Era aí que Albino se reduzia à dimensão humana e 'descia' simplesmente à nossa escala.
Um beijo
O meu pai conta muita vez uma estória do Albino (ele que nunca foi muito de estórias). Como possivelmente podem imaginar, o meu pai tinha uma enorme admiração pelo Padre Albino. Era sempre com entusiasmo que glorificava os seus (a seu ver!) consequentes métodos de disciplina e a sua (ainda a seu ver!) exemplar integridade de carácter. Uma manhã fria e chuvosa de inverno o Director abordou o meu pai com a notícia do falecimento do seu pai. Seria necessário que ele o conduzisse nessa noite e, no dia seguinte, seria o funeral... mas que a notícia não se desse a conhecer, para evitar...aflições!
E assim foi...ainda hoje o meu pai elogia a sobrenatural capacidade do Director no domínio das profundas emoções próprias de tal acontecimento e a força para prosseguir corajosamente impávido e sereno com os encargos do dia! (A São e eu tínhamos a dúvida de qual dos pais do Padre Albino tinho sido o funeral de que o meu pai falava e assim hoje telefonei-lhe e confirmei que tinha sido do pai!).
Fiquei mesmo chocada ao saber do comportamento tão pedante e insensível do Padre Albino ! Incrível...Tão incoerente com a imagem que ele queria projectar...
