A vida das minhas canções ( Take 1)
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Ajustei as molas dos meus colarinhos. Naquela altura todos os meus amigos tinham aqueles colarinhos elegantes presos com botões. Eu não.
No sentido de pelo menos reproduzir a forma, tinha pedido à minha mãe que prendesse os colarinhos das minhas camisas com molas; pareciam, mas não eram, iguais aos dos meus amigos.
Um pullover conveniente, mas que deveria parecer ridiculo face à temperatura ambiente, compunha um pouco mais a coisa, escondendo da abastada curiosidade das minhas amigas o fole que a fralda exageradamente larga produzia; sem ele, eu estava muito longe da forma sensual que as camisas cintadas produziam nos troncos dos meus amigos; com ele, estava muito perto duma qualquer forma banal de palermice. Terá sido provávelmente por tudo isto que ainda hoje não nutro particular simpatia por estas peças de roupa ...
Mas o que eu queria mesmo era que as luzes, já que se não podiam apagar, se tornassem de alguma forma veladas (éramos na altura muito bons em conseguir assinaláveis reduções na luminosidade em todos os candeeiros que os valores maternais colocavam com profusão, quanto a nós excessiva, na sala do meu amigo Nandim), para discretamente poder tirar o tal pullover e ficar finalmente mais à vontade.
Sacudi o cabelo para o outro lado da testa, sem tirar os olhos dela.
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Em 1968 eu tinha imenso cabelo, e na época, desconhecendo o que o futuro me viria a reservar, desprezava-o com sobranceria e lamentava muitas vezes interiormente o incómodo que me provocava quando escorria desordenado e comprido, tapando-me parcialmente os olhos, obrigando-me de forma ciclica a proceder ao seu desvio para o lado oposto. Na altura considerava que não tinha tantos olhos como cabelo, mas mostrá-los, aos olhos, era absolutamente imperioso, fazia parte daquela impressão fosca que a luz velada podia transmitir de mim, e além disso eu achava que tudo podia ser importante para que ninguém se focasse muito nos meus colarinhos.
O Nandim começou a abrir o gira discos (era um belo exemplar, tipo mala, com o prato de um lado e o som a sair pela outra tampa), e, com a experiência adquirida em várias sessões anteriores, a dividir os discos em rápidos e lentos.
Nada podia ser deixado ao acaso, pensei eu enquanto o ajudava na tarefa, mantendo um olho nas capas dos singles que o pai do Nandim lhe trazia de Inglaterra, e que eu conhecia de trás para a frente das tardes passadas lá em casa, após uma gazeta ou outra às aulas da tarde do Camões, e o outro no outro lado da sala onde ela e as amigas falavam em voz baixa, olhando-nos de soslaio, achava eu, com demasiada insistência para os meus colarinhos out of fashion.
Para disfarçar arrancámos com qualquer coisa rápida. Era sempre assim, ficavamos a olhar uns para os outros com um ar vagamente apalermado, à época moderno, marcando o ritmo a tempo e destempo, provávelmente parecendo divertidos, se a memória me não atraiçoa. Eu, mantinha sempre que podia os olhos nela não fosse ela ainda não ter reparado nisso; contudo, os nossos olhares cruzavam-se com uma timidez deliciosamente inocente, acho eu agora, parecia que esvoaçavam ao acaso pela sala de forma desajeitada, até colidirem aqui e ali, ora em embates leves de passagem ora em colisões mais intensas, provocando danos colaterais mais importantes, acelerando ainda mais a música na minha cabeça, transtornando-me os sentidos com uma doçura subtil.
O meu mundo não era realmente aquele. Por mais que o Nandim me colocasse à vontade, e com ele eu estava absolutamente à vontade, afinal já tinha percebido nas nossas brincadeiras e gazetas que era feito da mesma massa que eu, mas enfrentar aquele numeroso circulo das suas relações intimidava-me. Intimidavam-me os nomes, os apelidos mais ou menos sonantes, as roupas caras, o cheiro etéreo que até enjoava por vezes, os relógios, os sapatos... era, confesso, um pouco constrangedor às vezes chamarem-me apenas pelo primeiro nome. Afinal ali ninguém se chamava só Silva.
Mas ao mesmo tempo havia ali um fascinio qualquer que me fazia sempre voltar. Havia e estava agora do outro lado da sala.
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A tarde entardecia e era urgente mudar de estratégia. A coragem afinal cresce com a escuridão.
Avancei determinado para a mala gira-discos e escolhi um; pedi ao Nandim para o pôr a seguir, ele assentiu...
Começaram uns acordes mornos de viola, olhei para ela do outro lado da sala. Cohen, mais rápido do que eu, começou a cantar mal me dando tempo para chegar ao meu objectivo; havia sempre uma espécie de jogo de desmarcações, múltiplos destinos cruzados e descruzados em meia dúzia de segundos, que me estorvaram o caminho mas lá cheguei ao meu destino.
Admito que, neste enquadramento, ela se devia chamar Suzana mas, como nem tudo é perfeito nesta história, não se chamava; aliás devo confessar que nem me consigo recordar do seu nome (afinal passaram-se quarenta e um anos), mas também não me parece particularmente importante.
Tinha a cintura dela na minha mão, e o seu cheiro embriagou-me ainda mais que a cor do cabelo, que de resto me roçava pelo nariz fazendo-mo franzir amiúde, balançando à beira do espirro por várias vezes. Não nos mexíamos muito porque não era preciso, eu trauteava muito baixinho as palavras da canção que sabia há muito de cor, sentia o cabelo dela no meu rosto e, claro, por momentos senti-me feliz.
Fez-me perguntas dificeis, quem eu era, onde morava, se o meu pai trabalhava com o do Nandim, pedi-lhe para não interromper o Cohen, olhei-a com um ar vago e fiz de conta que me concentrava outra vez na canção.
“...and you want to travel with her, and you want to travel blind” cantámos, o Cohen e eu.
Apertou-me mais a mão, o que me apertou o coração. Que caminhos eram afinal aqueles que começava a percorrer ? E onde me iriam conduzir ? O Nandim enviou-me um sorriso malandro junto à mala do gira-discos. Fechei os olhos, ajustei-me à cintura dela e deixei-me sonhar.
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...”for she touched your perfect body with her mind.” terminou Cohen.
Despertei de repente para a canção da minha vida. Naquele dia, claro.
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Modigliani
27.06.2009
Adorei, adorei, adorei!!!
A facilidade que à primeira vista nos parece haver em tecer comentários a cada texto que nos aparece, neste capitulo do Blogue, desfaz-se ao pensarmos que do outro lado, quem os escreve, é alguém noutra geração e por consequência, outro enquadramento social.
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Não conheço a Suzana, que diz e repete, adorei, adorei. Mas «conheço» bem a história da Suzanne, senhora canadiana francesa que serviu de musa a esta obra magnifica de Leonard, que ouvimos pela primeira vez noutros tempos, noutros sítios, e continuamos a ouvir até à exaustão.
Cohen e Suzanne nunca tiveram qualquer relação amorosa porque, quando se conheceram, ele era um poeta obscuro e ela uma das mulheres mais ricas e glamorosas do Jet Set de Montreal na década de 60. Quando se reencontraram, trinta anos depois, Cohen era um dos mais respeitados artistas do final do séc. XX e ela uma sem-abrigo a dormir num automóvel abandonado em Venice (Califórnia), que ele não reconheceu…
Esta é uma das mais belas canções de amor que conheço, evocada num texto sem dúvida romântico e nostálgico, mas onde transparece uma realidade social estratificada e preconceituosa onde as aparências reinavam. Vivemos numa sociedade diferente quarenta anos depois?
JJ
beijinhos Isabel Cx
Só hoje li mas não queria deixar de dizer que gostei muito do ambiente em que se passa esta história.Muito romântico realmente.
SUZANNE
SUZANNE
Music & Lyrics - Leonard Cohen
(from the album 'SONGS OF LEONARD COHEN' - 1967)
Suzanne takes you down to her place near the river
You can hear the boats go by
You can spend the night beside her
And you know that she's half crazy
But that's why you want to be there
And she feeds you tea and oranges
That come all the way from China
And just when you mean to tell her
That you have no love to give her
Then she gets you on her wavelength
And she lets the river answer
That you've always been her lover
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For you've touched her perfect body with your mind.
And Jesus was a sailor
When he walked upon the water
And he spent a long time watching
From his lonely wooden tower
And when he knew for certain
Only drowning men could see him
He said "All men will be sailors then
Until the sea shall free them"
But he himself was broken
Long before the sky would open
Forsaken, almost human
He sank beneath your wisdom like a stone
And you want to travel with him
And you want to travel blind
And you think maybe you'll trust him
For he's touched your perfect body with his mind.
Now Suzanne takes your hand
And she leads you to the river
She is wearing rags and feathers
From Salvation Army counters
And the sun pours down like honey
On our lady of the harbour
And she shows you where to look
Among the garbage and the flowers
There are heroes in the seaweed
There are children in the morning
They are leaning out for love
And they will lean that way forever
While Suzanne holds the mirror
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that you can trust her
For she's touched your perfect body with her mind.
CANNES , JULHO DE 1969
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BREVES NOTAS
Malcom McDowell e Lindsay Anderson fariam em conjunto, depois deste magnífico e perturbante "If...", "Oh, Lucky Man" em 1973. Em 1971 Malcom seria o psicopata de "A Laranja Mecânica", de Stanley Kubrick, baseado numa novela de Anthony Burgess. É difícil imaginar um início de carreira mais auspicioso mas o actor desbarataria tudo isto não conseguindo mais nenhum grande papel. Acaba recordado pela novas gerações por ter representado o Dr. Tolian Soran e assassinado o Capitão Kirk num dos inúmeros Star Trek (em 1994). Não foi um Lucky Man...
Outro filme premiado foi "Z", uma alegoria à ditadura militar grega, do francês Costa Gravas que, com um cinema engagé, seria um dos nomes grandes da 7ª arte na década de setenta. Mas após "A Confissão"(1970), "Estado de Sítio"(1972)e "Missing" (1982) viu o seu empenhamento político sair dos favores do público e da crítica.
Vanessa Redgrave é outro caso. Apesar da sua pública militância trotskista, oposição à guerra do Vietnam e apoio à causa palestiniana (que a transformou num ódio de estimação dos sionistas), a sua carreira é artisticamente brilhante, sendo aqui recordada a sua participação em "Blow Up" de Antonioni, O Melhor Filme dos Anos 60 (votado por mim) e um dos grandes filmes do Séc. XX (votado por quase toda a gente). "Isadora Duncan" é um filme sobre a grande bailarina e valeu-lhe um prémio no Festival de Cannes, em 1977 Julia (com Jane Fonda) valeu-lhe o Oscar. Tem hoje 72 anos e continua a representar e a bater-se pelas suas convicções. Uma mulher notável.
Alguém quer acrescentar alguma coisa? JJ
Comentar os filmes do Festival de Cannes, Julho de 1969, é um pouco arriscado, apesar de ter visto os filmes mencionados no recorte jornal.
JJ, venho acrescentar links de 2009, para 'dar cor' ao recorte de 1969, esperando que funcione :)
YOU'VE GOT MANY FRIENDS...

Obrigado a todos
Isabel Cx
