Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
. JJ, Muito Bom + está, estão todos os participantes, de parabéns pelo encontro.
. People, people who need people Are the luckiest people in the world.
. e COM O MAR NOS OLHOS, título perfeito para essa noite mágica com fotos de céu e mar na Foz do Arelho, e de gente que vou reconhecendo um niquinho melhor. Consigo 'descascar' algumas camadas do tempo que passou e reencontrar os rostos de outrora com alguma nitidez. Esses rostos e as estórias do blog fazem lembrar os Peanuts... Beijo. Inês . .
. JJ respondeu:
. O seu a seu dono, COM O MAR NOS OLHOS é o título que Laurinda deu ao seu magnífico comentário, que merecerá aqui um dia uma resposta condigna. O Luis abordou a questão central mas num curto comentário não cabe tudo quanto há para dizer. Os Peanuts a que a Inês se refere são os do Charles M. Schulz, que eu sempre admirei e ainda hoje leio. Fiquei satisfeito por a Inês me ver como Linus e não como Charlie Brown...
. People, People who need people, Are the luckiest people in the world We're children, needing other children And yet letting a grownup pride Hide all the need inside Acting more like children than children Lovers are very special people They're the luckiest people in the world With one person one very special person A feeling deep in your soul Says you were half now you're whole No more hunger and thirst But first be a person who needs people People who need people Are the luckiest people in the world People, People who need people, Are the luckiest people in the world We're children, needing other children And yet letting a grownup pride Hide all the need inside Acting more like children than children Lovers are very special people They're the luckiest people in the world With one person one very special person A feeling deep in your soul Says you were half now you're whole No more hunger and thirst But first be a person who needs people People who need people Are the luckiest people in the world .
Um beijo para a Inês. JJ
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Fátima Clérigodisse:
Penso que a Laurinda não se importa se adoptarmos o seu título “ Com o Mar nos Olhos” para o Jantar do dia 7 de Agosto.
Tal como a Laurinda, não pertenci ao ERO e também comecei por “espreitar pelo buraco da fechadura” de uma “Magnífica Casa”, habitada por Gente Maravilhosa.Sinto-me agora uma privilegiada por começar a “conhecer a Casa” e a extraordinária “Família” que a “habita” e seriamente “contaminada” pelo “Vírus” a que a Laurinda se refere.
O Jantar do dia 7 de Agosto foi o “espelho” de tudo isso e efectivamente um Excelente momento de Convívio, “patrocinado”, como habitualmente e Bem, pelo João Jales, a quem agradeço mais uma vez o convite para estar presente.
Agradeço a Todos o Óptimo Acolhimento e as Bonitas palavras que algumas pessoas me dirigiram, em jeito de recepção, e a preocupação com a minha “integração”.Foi um enorme Prazer estar com Todos e, embora não os conhecendo, tive a sensação de já os conhecer há anos…
Lá está, a afinidade na “Essência”…Concordo em absoluto com a Laurinda, quando diz que entre perdas e ganhos, a “essência” permanece…
Saliento também o prazer de encontrar os “Amigos do Facebook”, a facilidade com que nos reconhecemos e a felicidade de nos encontramos.
Outra ideia genial do João!Muito obrigada a Todos e em particular ao João Jales por esta “Feliz Contaminação”.
Seguramente que não existe “anti-vírus” para “Isto”…
Bjs
Fátima Clérigo
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António José Neto disse:
O jantar de sexta feira mostrou à evidência que o "alumni network" do Ramalho Ortigão faz-nos sentir parte de uma família. São pessoas com as quais crescemos e que nos aceita como somos, independentemente do que temos ou fazemos. Família que, para os que têm raízes genéticas na região, o é também em sentido mais literal, pois basta recuar 3 gerações para aparecerem laços, como confirmei ao falar com as manas Nascimento, que me disseram que ainda erámos primos afastados, dando referências que encaixam nas que também tenho.
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Laurinda respondeu:
Sei que vou estar atenta e talvez voltar a escrever. De impulso, como sempre.
Considero extraordinário o que acontece no blog, e gostaria que perdurasse no tempo. É bom ter como referência o passado, para perceber com nos situamos no presente e entender o percurso que nos trouxe onde estamos.
As vossas memórias nem sempre são as minhas, mas fazem parte de uma realidade paralela que é interessante conhecer ,anos depois.Como um filme, ou melhor: um documentário. É de pessoas (e não personagens) que se trata, e é a vida que se retrata.
Obrigada pela delicadeza do caloroso acolhimento! Laurinda
É comovente como a vontade pode contaminar fazer algo de tão extraordinário!
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Estive a ver atentamente as fotos do vosso encontro na Foz e encontrei faces desconhecidas, com alguns laivos de familiaridade. Exceptuado a São e a Isabel Caixinha, que reconheceria sempre mesmo com milhares de anos de vida lavrados na face. E é lavrar a palavra exacta.
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Todos estes rostos carregam a vidas. Não são apenas imagens, ou gente anónima, mesmo que os não consiga identificar. Cada um trás inscrito em si a sua história. São traços de gente que viveu intensamente, e que ainda é capaz de um gesto de busca do outro, talvez para nele se encontrar. Creio que foi isso que fiz, com o meu “bisbilhotar”.
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Tenho lido os vossos textos deliciada, mas sinto-me sempre a espreitar o buraco da fechadura. Eu não pertenci ao ERO. Passados todos estes anos, continuo a sentir que as mudanças de espaço nem sempre são coerentes. No fundo, cada vez que vos leio, continuo a sentir que pertenço, ainda, ao outro lado da ponte, que divide a cidade, onde vi um comboio pela primeira vez, empoleirada no bico dos sapatos novos de verniz. No meio dos vossos rostos de festa, foi bom redescobrir a serenidade dos olhos São Caixinha.
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Há coisas que se perdem pelo caminho, outras que se ganham. Mas a essência permanece. É essa essência que leva à activação da vontade em actos concretos. Como este Blog. Como o vosso jantar de sábado. Que a contaminação não encontre anti-vírus!
Guida disse... Que tristeza! Entre tantas caras, lembro-me de meia dúzia...
João Ramos Franco disse... Ao ver todas fotografias, é uma carga emocional, para mim, que é difícil descrever.O passado no presente foram constantes e até de uma futura ida para as Caldas se falou…A recordação de cada momento do Encontro está tão viva que transportar para palavras o sentimento de alegria e amizade que ainda está presente é me impossível.
Um abraço amigo para todos. João Ramos Franco
Luís disse: Pelo que percebi este foi um encontro aberto a banhistas do nosso tempo e não apenas a antigos alunos do Colégio.Foi um prazer ver as fotografias embora tenha ficado um pouco confuso em relação a algumas caras:não os reconheço ou não as conheço?Não haverá hipótese de legendar as fotografias? O texto da Laurinda(quem é?)é excelente e retrata uma divisão social e económica que existia nas Caldas efectivamente e que aqui tem aparecido sempre de uma forma um pouco ambígua…. Sem querer com isto abrir qualquer polémica!LS
Fernando Santos disse (em SMS):
(…) Já vi as fotografias do jantar no Blogue. Estão todos muito bem, contudo A Isabel Cx e a Júlia Ribeiro são as mais fotogénicas! Um abraço Fernando Santos
João Jales disse: O comentário do Fernando Santos chegou em SMS e eu decidi publicá-lo esperando que o autor não se zangue com isso… As duas meninas citadas não se zangarão seguramente e, em relação às outras, esclareço o Fernando que são todas mais bonitas e simpáticas do que parecem nas fotos; convido-o desde já a comprovar isso comparecendo pessoalmente ao próximo encontro! Um abraço. JJ
Ana Carvalho disse: Olá João só agora vi as fotos, estão lindas, e cheguei a uma conclusão: " Eu não fico mal nas fotos, sou mesmo assim....não tens foto-shop?" Bjs PP
JJ respondeu: Se perguntares aos colegas do ERO todos dirão que és uma das pessoas mais bonitas que conhecemos na nossa vida: photoshop para quê? (não mostres isto ao Cajó…). Bjs. JJ
Fernando Santos disse: Olá! Confesso que não esperava ver o meu SMS publicado no blog mas claro que não fiquei zangado. Porém sinto-me na obrigação de pedir perdão às restantes senhoras que estiveram presentes. Tal como o J.J. refere, todas são simpáticas e bonitas. Quando citei apenas duas, penso que foi pelo facto de já as conhecer através de anteriores fotografias e também devido às suas constantes presenças no blog. Um abraço para todos, e um até breve.
Julinha disse: Começo por fazer um comentário ao "Comentário" da Laurinda que não conheço e que não foi aluna do ERO mas teve a gentileza de nos escrever estas palavras tão amáveis. Sim, realmente, o nosso blog está extraordinário e os encontros que tivemos têm decorrido sempre muito bem e muito divertidos.....Começámos por reencontrar colegas que não víamos desde os tempos de estudante, conhecer outros...,mais velhos....mais novos (naquela altura), agora somos todos da mesma idade ...e tem sido um convívio maravilhoso ! Um muito obrigada à Laurinda. Quanto aos outros colegas que se sentem "tristes" ao ver as fotos e não conhecerem muitas caras faço um apelo, um convite......venham ao próximo encontro ! Eu também conhecia poucos colegas no início, nem o nosso "Dinamizador Mor" JJ me tinha, alguma vez, sido apresentado, mas à medida que o tempo decorre, vamos convivendo, fazendo almoçaradas, jantaradas.....algumas a prolongarem-se até um pouquinho mais tarde !!!!!.... E assim se vai reconstituindo a Família ERO ! Portanto, meninas e meninos, senhoras e senhores...venham ao nosso próximo Encontro de Antigos Alunos do ERO que é já a 14 /11/2009...registem já na vossa agenda e verão que se não arrependerão ! Um Abraço a todos. Júlia R
Manuela Gama Vieira disse: O local, sobranceiro ao mar, muito bem escolhido! Tão bem, que inspirou o Jales intitulando a (numerosa) série de fotografias- "Com o Mar nos Olhos". A boa disposição e a alegria do reencontro estão bem patentes nos sorrisos dos convivas do ERO. Os rapazes muito charmosos, as raparigas muito giras e chiques. Muito obrigada pelas excelentes fotografias. MV
NOTA: "Com o mar nos olhos" é o magnífico título que Laurinda deu ao seu comentário, não é meu. JJ
RP disse... Vi e revi as fotografias do jantar no Inatel.Do meu tempo reconheci três colegas...de entre tantos jovens...! RP
JJ respondeu: RP, pelas minha contas. deve ter nascido em 52/53. Serão seus contemporâneos no Colégio os nascidos entre 51 e 54 (da sua idade ou com um máximo de um ano de diferença), certo? Estavam as manas Nascimento, a Benilde, eu, o Zequinha, o Miguel BM, a Amélia Monteiro, o Neto, a Aida Mesquita, a Anabela Castro, o Carlos Branco, a Paulinha Pardal, uma dúzia se pessoas à vontade…. Receito-lhe aqui uma inscrição para o jantar anual no dia 14 de Novembro, vai ver que isso melhora! Espero que continue a “aparecer” por aqui. JJ
RP disse... JJ,agradeço o convite para o jantar a 14 de Novembro próximo.Irrecusável,até pela forma original de prescrição médica.Porém,há um grande impedimento...o de já me ter proposto estar presente,no mesmo dia e local para um almoço!Estou certa que compreende...RP
Maria João disse: "Tenho pena de não ter ido ao encontro de verão ...........rever e reviver....."
São Caixinha disse:
Desta vez é mesmo verdade! Por mais que me esforçe não consigo encontrar as palavras que expressem o que senti ao participar neste encontro d...e verão! Direi então simplesmente que me deu muito prazer reencontrá-los a todos!! Adorei rever os nossos queridos professores, os amigos de sempre, os amigos novos...e saber dos que não poderam estar presentes! Sei que irei muitas vezes voltar a ver as fotografias e recordar todos os momentos...sei que renovadamente se me enternecerá o coração! Sei que a serenidade que a Laurinda viu nos meus olhos é a mesma que lhe vai na alma! Sei que sem ter regressado...voltei a casa!
. . - Não vejo porque é que não havemos de ir para a frente com o passeio e o piquenique só porque não vêm uns gajos que eu nem conheço de lado nenhum – disse o Mário. . - A verdade é que eu até já tenho autorização para passar a tarde fora nesse dia, seria pena não aproveitar… – respondeu a Luísa. . Eu ouvira, durante todos estes anos no Externato Ramalho Ortigão, relatos de inúmeros piqueniques organizados a propósito dos mais variados acontecimentos, caminhadas até locais paradisíacos onde se comia ambrósia e se bebia hidromel. Mas eu fiquei-me sempre pelas caseiras sandes de carne assada ou ovo, comidas no recreio nos dias em que as aulas acabavam mais tarde. E a primeira oportunidade para essa experiência parecia não se ir concretizar! . - Mal se saiba que os tais escuteiros, ou lá o que são, não vêm, os nossos pais não nos deixam ir a lado nenhum – sentenciou a Ana Margarida. . Éramos quase todos alunos do quinto ano, embora dois ou três colegas mais velhos estivessem presentes. O professor encarregado desta organização acabava de abandonar a sala de estudo, onde nos comunicara que o passeio com piquenique estava anulado, já que os jovens cuja visita suscitava a sua realização não podiam vir. . – Hoje é quarta-feira, até Sábado dá para ter tudo pronto – disse o Mário. . – Mas tudo pronto como, se foi desconvocado o passeio!? – perguntou a Ana Margarida. – Sem os professores não podemos ir a lado nenhum. . – Isso é sempre relativo – respondeu o Mário, misterioso como sempre – depende da forma como fizermos as coisas… De quem souber o quê… . A malta presente, que tinha ficado desiludida, estava agora curiosa. Aparentemente alguém estava a ver uma oportunidade onde outros só viam uma decepção. O Mário continuou: . - É uma tarde de Sábado, os rapazes poderiam sempre sair, a questão são as meninas que tinham “ordem de soltura” e poderiam ir connosco a um sítio diferente, e agora não podem. Suponhamos que se esqueciam de dizer em casa que foi tudo anulado e apareciam às duas horas no local combinado com os comes, nós levávamos as bebidas, o que é que pode correr mal? . - Eu posso começar? Há montes de coisas que podem correr mal! Por exemplo… – começou o Jorge, um dos mais velhos, mas o Mário interrompeu: . - Esquece isso! Música, como é que há música num piquenique? . - A minha irmã tem um gira-discos portátil, que também funciona a pilhas. Mas mesmo com pilhas novas não aguenta muito tempo – respondi-lhe. Não sabia bem como é que ia subtrair o referido objecto à minha irmã durante uma tarde inteira, mas isso era um problema posterior. – Conta com a música! . - Estão a falar a sério? Fazer de conta que os escuteiros vêm e fazermos um piquenique só nós, com música e tudo? – perguntou a Luísa, olhando para mim. . E olhando para mim porque, desde que eu me lembrava, tinha havido sempre entre nós um sentimento permanente, que originava uma relação com altos e baixos, habitualmente tumultuosa mas que estava, nesse momento, muito morna… . - Claro que sim, não se pode perder uma oportunidade destas – respondi, encerrando a discussão. . E assim se combinou um encontro no Parque das Merendas da Mata às duas e meia e se decidiu quem é que levaria o quê. Também se concordou que todos agiriam em casa como se a organização do ERO se mantivesse. Os anos envolvidos eram o 5º e o 6º, mas os mais velhos, principalmente os rapazes, pareciam menos entusiasmados com o projecto, já gozavam de mais liberdade e não precisavam destes pretextos. Uma das mais interessadas era a minha vizinha Ana Margarida, que tinha pelo Jorge um indisfarçável “fraquinho”. . Viemos todos ladeira abaixo nessa tarde a pesar os riscos do que tencionávamos fazer. Eram insignificantes, perante outras aventuras em que nos envolvíamos, só às meninas um baile na mata poderia trazer sarilhos. A Ana Margarida despediu-se aliciando-me: . - Vê lá se convences o Jorge a ir e eu empresto-te aqueles discos do meu irmão que tu tanto queres ouvir. Nem sei porquê, tens lá tantos… . Eu também tinha realmente alguns, lembro-me bem do prazer que era, quando ia a Lisboa, com 14, 15 anos, escolher um disco para comprar. Enquanto a família lanchava calmamente na Ferrari, eu engolia apressadamente um galão, uma torrada e um duchaise e corria para a porta ao lado, a entrada da Valentim de Carvalho. O meu pai ia lá ter e acabava por acrescentar sempre um disco para mim às suas compras de música clássica. Mas o irmão da Ana tinha discos que não chegavam a Portugal, trazidos pelo pai que ia regularmente ao estrangeiro, e que ele não partilhava com ninguém. E se eu não os encontrava na Valentim, ainda menos os via na Tália, onde a oferta era mais reduzida. Poder gravá-los no “bobines” do meu pai era aliciante! . - Se depender de mim, claro que vai. Mas mais depressa o convences tu que eu –respondi. . - Pois, tu nem queres saber, já estás de olho outra vez na Luisinha! Olha lá, vocês não se enjoam um do outro? . É claro que a Luísa era sempre um reencontro desejado, mas nem lhe respondi, porque estava a pensar se haveria algo que eu pudesse fazer para pôr as mãos nos tais discos…. . Nesta segunda metade da década de sessenta a música Rock assumiu-se como a forma definitiva da cultura de massas. Eu gostava de ler e de ver cinema, mas esses eram gostos minoritários, poucos apreciavam e mesmo esses não conheciam nem gostavam dos mesmos produtos; a verdadeira demonstração de pertencer a uma elite cultural reconhecida era possuir os LPs dos Beatles, Dylan, Stones, Hendrix, ouvir e gravar o "Em Órbita", no Rádio Clube em Frequência Modulada. Eram populares e atraíam visitas a casa aqueles que possuíam os discos e as gravações. A audição nocturna das "Radio Caroline" e "Radio Luxemburg", com o consequente conhecimento das últimas produções dos Pink Floyd, Procol Harum, Pretty Things, Move, Donovan, etc., garantiam um estatuto de indiscutível autoridade no que era realmente importante nessa época: a música. . Não estava a ver o que é que eu poderia dizer ou fazer para entusiasmar o Jorge a juntar-se a nós no Sábado, ele era aplicado e bem comportado, tímido e caseiro, incapaz de “pisar o risco” em quaisquer circunstâncias. Não tínhamos muito em comum, a minha estratégia passou por falar com ele à porta da Tália na Sexta-Feira à tarde, aproveitando a presença da Luísa e outras colegas que, esperava eu, lhe tornasse mais difícil recusar. Fiz-lhe ver as vantagens de um convívio e baile, ao ar livre, sem adultos a vigiar, com toda a gente mais desinibida, principalmente a Ana Margarida, linda rapariga, elegante, uma das pérolas do Colégio. Uma oportunidade única! Ele falou pouco, pareceu algo intimidado mas também tentado, acabando por dizer que ia fazer o possível, o que me pareceu prometedor. . Estudei um pouco à noite, relembrando assim aos meus surpreendidos pais que não o poderia fazer no dia seguinte, que estava destinado a aulas de manhã e actividades circum-escolares à tarde …. . O dia amanheceu magnífico, com temperatura primaveril e cheio de sol, os deuses estavam connosco! A manhã durou uma eternidade e ninguém, excepto por significativos olhares, se referiu ao programa da tarde. Ainda por cima separados das nossas colegas, já que elas tinham Lavores e nós íamos para a Mata em duas horas híbridas e mal definidas de escutismo, mocidade portuguesa e desporto. . Tomei banho e almocei num piscar de olhos, empacotando depois umas sandes e um sumo, supostamente para os “escuteiros visitantes”, num embrulho onde consegui incluir o pick-up portátil da minha irmã e umas pilhas sobressalentes, roubadas de uma lanterna que o meu pai mantinha devido aos constantes cortes de luz caldenses. O meu esmero na escolha da roupa causou alguma estranheza: . - Mas isso é um passeio ou uma festa de gala? – brincou a minha mãe. . Claro que tudo se saberia: que não havia escuteiros, que o gira-discos e as pilhas tinham desaparecido, mas isso seria amanhã. E "amanhã" (particularmente se um amanhã sombrio) é algo que não existe aos quinze anos! . Encontrei a Ana Margarida ao sair de casa, que me perguntou logo se o Jorge ia. Respondi-lhe: . - A minha estratégia de o “picar” um pouco em frente às raparigas, ontem à tarde, foi certamente infalível. Podes estar descansada! – respondi. . Ela seguiu, satisfeita, para se ir encontrar com mais colegas e recomendando-me, meio a sério, meio a brincar, que não perdesse tempo nos matraquilhos ou outras diversões do género. . Rumei a casa do Mário, onde seria o encontro. Estavam lá alguns dos meus amigos e esperámos mais um pouco pelos eternos retardatários. Pouco depois da hora combinada, estávamos no local da festa. Ainda éramos poucos, vi logo que a Luísa, a Ana Margarida e o Jorge ainda não tinham chegado. . Montámos o pick-up, espalhámos os comes e bebes numa das mesas de pedra, ignorámos uma família que, noutra mesa, terminava a sua refeição enquanto nos lançava olhares incomodados, e iniciámos a festa. . O Paulo tomou conta das operações e percebeu-se, embora mal, que já tocava o magnífico “Paper Sun”, dos Traffic.
Outros discos iam sendo manuseados e sugeridos pelos presentes, cada um querendo que os seus hits favoritos tocassem primeiro, e mais vezes. Ninguém parecia preocupado, mas o som era péssimo, aquele portátil não tinha sido concebido para ser ouvido nem ao ar livre nem a mais de dois metros… . Entretanto eu já tinha recebido duas más notícias: o Jorge, claramente intimidado pelas minhas promessas de uma tarde inesquecível nos braços da Ana Margarida, não vinha. O seu orgulho masculino não vencera a sua timidez…. A Luísa, que tinha ouvido essa mesma conversa na véspera, mandara-me um curto bilhete dizendo que a presença de “uma pérola” que merecia da minha parte tão entusiásticos elogios tornava certamente desnecessária a sua presença! . Indisfarçavelmente desiludida, a recém-chegada Ana Margarida roía triste e distraidamente uma unha. Lamentei por momentos os resultados do meu “plano infalível” e o desmoronar de tantas expectativas... . Mas percebi que não valia a pena chorar sobre o leite derramado quando a Ana Margarida, esquecendo a unha que roía, me agarrou a mão (eu nem reagi, olhei apenas para ela, admirado) e me disse: . - E se dançássemos esta, enquanto as pilhas do pick-up não acabam?
Debrucei-me "À Janela do ERO" e avistei um excelente texto da autoria do João Jales. Claro que comecei a lê-lo pelo "princípio"...e assisti, lá da minha Janela,ao filme "Paper Sun" com um guião e um enredo muito engraçados e uns personagens do melhor que podia haver,não fossem eles(as) alunos(as) do ERO.
Das "mentiras piedosas" estudadas ao pormenor, com planos A e B para que nada falhasse ante os olhos dos Pais, o "surripiar" do gira-discos à irmã, as pilhas ao Pai - ai, a isso é que eu não me atrevia...- e depois..."logo se vê" (o plano C pode esperar...com uma irmã sempre é menos difícil,especialmente se não for queixinhas...),as secretas cumplicidades inter pares para dar um empurrãozinho...aos amores platónicos dos(as) amigos(as)...Afinal, no dia do piquenique, tudo era importante,o futuro era já hoje,naquele dia.
Não sei se consegui transmitir o quanto apreciei o texto,o retrato daqueles anos,o bom senso,a alegria e a irreverência da nossa Juventude,contra tudo e contra todos(as deliciosas "mentiras piedosas"de que o P.e Renato,com um sorriso cúmplice,não deixaria de nos mandar penitenciar...) não sei mesmo! É que...quando escrevi estas linhas,já tinha LIDO e VISTO o final do texto do João Jales!
Nesse momento, aqui "À Janela do ERO", avistei a paisagem da SOLIDARIEDADE,e aí, os meus OLHOS avistaram a grandiosidade deste texto assinado pelo espírito nobre,sensível e generoso do João Jales,dedicando-o ao Pedro Nobre!!!
A emoção tomou conta de mim! Quarenta e tantos anos volvidos,há laços inquebrantáveis,há um espírito,há uma corrente,há,enfim,como dizia Luís de Camões,"...um não sei quê, que nasce não sei onde...",que não me permite dizer mais nada,senão:
-Pedro,estimo muito sinceramente as sua rápidas melhoras!Jales...sem o dizer,já disse TUDO!
Manuela Gama Vieira
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Isabel S disse... Sou uma fã incondicional deste teu diário recuperado ou reinventado,não interessa para o caso,não deixo nunca de me surpreender como é que ainda tens guardados tantos acontecimentos,com todos os detalhes e pormenores,para nos contares.
Está lá tudo -os amores,os planos para escapar à disciplina dura,a importância da música,a nossa vida,enfim- de uma forma como só tu sabes escrever.
E até eu pareço escrever com mais facilidade a falar de uma coisa que gostei tanto!IS
PS-As melhoras e um bj para o Pedro,também!!!
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Júlia Ribeiro disse: O João habituou-nos às delicias dos seus textos,mas à medida que sai um,mais me delicio a ler...
Como descreve um dia,um piquenique,que se tornou numa verdadeira aventura! Conseguio,e de um modo tão fácil,levar-me àquele estabelecimento de ensino chamado ERO,e avaliar,mais uma vez,o convívio,a camaradagem,a cumplicidade,as atitudes irreverentes dos jovens àquela época e muito mais....enfim,os bons anos do Ramalho Ortigão.Sinceramente gostei!
Está quase a fazer 2 anos que te conheci (17/11/07),mas deu para me aperceber da pessoa que és...... Assim como a ti,e que admirei muito,dedico umas palavras ao Pedro:
Persistência...Força....Coragem...essa vontade de Viver Vamos em frente....e uma rápida recuperação! Um Abraço para o João e o Pedro Júlia R
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Isabel Knaff disse:
Que maravilha de texto...e de piquenique!Excitantes todas as peripécias que antecedem o acontecimento, e que ansiedade vai no ar!
Pergunto-me se os nomes destes personagens serão fictícios...
Que simplicidade de solucão e tão directa para uma situação à partida um pouco complexa...mesmo próprio da idade
Tudo fica bem quando acaba bem. Ate á próxima
beijinhos
. PS Que boa ideia do João dedicar este texto ao Pedro!
Se este episódio tivesse acontecido e ele lá estivesse, optimista como sempre, possivelmente a estória poderia ter outro fim!
Continuação de umas óptimas melhoras e um Feliz regresso a casa!
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Ana Carvalho disse:
Mais uma vez se confirma o que eu venho dizendo desde o 1º texto, o JJ é um excelente escritor, fecho os olhos e consigo imaginar tudo o que o João escreveu, até me parece que ouço a musica a tocar...de certeza que o Pedro tambem vai adorar. Para ele, as melhoras
Bjs
PP.
Quando é o lançamento do teu livro João?
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Luisa disse:
Parabéns pela tua "estória",como tu dizes,que mais uma vez me encantou e me pôs a reviver uma época feliz,com banda sonora a condizer.
Tenho ideia que este piquenique não é tão virtual como pareces querer dizer na dedicatória ao Pedro e até me parece que (.......................), mas tu é que sabes!
Achei bem dedicares o escrito ao Pedro,espero que ele já o possa ler,seria sinal que estava realmente melhor,o que eu desejo. L
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jorge disse... não vale a pena repetir o que já aqui foi dito,apenas acrescentar que a mescla de informação e divertimento que constituem estes contos são muito bem escritos.tem razão a ana carvalho ao sugerir que passes a uma obra de maior folego.o final é bom,mas gostei muito das considerações sobre a importância de conhecer a música e ter os discos como forma de prestígio entre jovens.jorge
Enganava-me quando no início de 1955 julgava que iria ser um ano sem diferenças significativas dos imediatamente anteriores.
. No reino de Salazar tinha tomado posse, como Chefe do Estado, o General Craveiro Lopes - após a morte (1951) do General Carmona. Os lares modernizavam-se com o plástico - que iniciava aqui a sua invasão pelo mundo. Desde a “fórmica” laminada e colorida para todo o mobiliário até aos gira-discos, gravadores, electrodomésticos ou adereços de moda – tudo se começou a plastificar. Não existia a consciência das consequências ambientais que acabariam por se verificar na actualidade. .
Por outro lado desenvolvia-se um novo tipo de consumismo: o dos electrodomésticos. Sucediam-se as campanhas publicitárias de máquinas de lavar ou encerar, para fazer sumos de frutas (substituindo os manuais “passe-vite”), de frigoríficos ou de rádios “com “nova onda de FM”. A publicidade começou a tornar-se mais competitiva e com novas regras de “marketing” adoptadas pelas marcas de então: Frigidaire, Philco, Philips, Nordmende, Hoover, etc. Esta publicidade era patente nos órgãos de comunicação existentes: a rádio e os jornais.
. Na imprensa diária existiam: o Século, o Diário de Notícias e a Vida Mundial. Mas publicavam-se ainda: a “Modas e Bordados” para as senhoras (às 4as Feiras); a “Plateia” com notícias sobre filmes – que os espectadores podiam apreciar, desde 1950, com projecção em Cinemascópio; a revista brasileira para as senhoras “Capricho”, desde 1952, com histórias, contadas com sequências de desenhos e mais tarde de fotos, e Corin Tellado era a rainha das novelas (faleceu este ano em Abril com 81 anos). Semanalmente saíam: ao sábado o “Século Ilustrado” e a “Flama” (com uma secção infantil denominada “Papagaio”), ambas revistas de actualidade nacional e internacional – recheadas de fotografias. Os jovens aguardavam sofregamente o aparecimento do “PIm-Pam-Pum” e do “Mundo de Aventuras” às 5as Feiras (Agência Portuguesa de Revistas), e do “Cavaleiro Andante” ao sábado (dirigido por Adolfo Simões Muller).
. No Cavaleiro Andante eram lidas avidamente as aventuras de Tarzan, do Tintim e do Professor Mortimer (sobretudo a sua luta contra o “Marca Amarela”) enquanto no M. Aventuras acompanhávamos o Flash Gordon, o Príncipe Valente (uma das BDs mais bem executadas de sempre – por Harold Foster que estudava o traje medieval antes de o desenhar), Mandrake, Serafim e Malacueco, Johnny Hazard, Brick Bradford, o Fantasma, Cisco Kid, Luis Euripo, etc.
. Claro que se fazia sentir o “filtro” da Censura de então que, em relação aos jovens, elogiava os “bons costumes caseiros” em vez da moda dos “Teddy Boys que surgira em Londres, porque estes dançavam o “creep” e eram acusados de delinquência. Na banda desenhada ia-se ao ponto de alterar a história e os personagens (Luis Euripo boxeur português era na história original Big Ben Bolt e americano).
. Ao espreitarmos as páginas do Século Ilustrado e da Flama davamos conta, através dos anúncios, que: .
Pitralon e Acqua Velva eram essenciais para quem fazia a barba com Gillete Azul. As senhoras deviam usar produtos Ponds ou Tokalon, depilar-se com Taky e frequentar os salões de Madame Campos ou Semedo para manterem a beleza, até porque o Tide lavava e as donas descansavam enquanto o Omo lavava mais branco. Aliás as senhoras eram certamente todas elegantes porque a obesidade parecia ter os dias contados com Obesyl, apesar das sopas Maggi e Knorr terem sido apresentadas como novidade e das Margarinas Vaqueiro e Chefe começarem a fazer parte da culinária dos portugueses onde pontuava a 35ª edição do Livro de Pantagruel.
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As ceras Johnnson e Galo deixavam os soalhos perfumados e a fragrância mais vendida, para senhora, era Femme de Marcel Rochas – que morre nesse ano aos 53 anos.
. Para os dentes a pasta medicinal Couto, Kolynos e Gibbs com clorofila eram as marcas mais citadas.
. O Creme Nívea e o Talco Ausónia faziam parte das casas de banho modernas onde tinham lugar os sabonetes: Feno de Portugal, Musgo Real, Patti e Lux (1 de cada 10 estrelas usavam), enquanto se afugentavam resfriados com pastilhas Aspro ou Mentholatum, as doenças de estômago não existiam com Magnésia Bisurada e Pó Maclean, os pés cansados beneficiavam com Saltratos, os sais de frutos Eno curavam tudo e o Fósforo Ferrero resolvia o problema a qualquer candidato a Alzheimer. Rejuvenescia-se com Histodine ou Apiserum e Kiniol resolvia as quedas de cabelo (pintados com Syrial) mais renitentes.
. Aprendíamos que os adultos deviam beber vermute Cinzano ou Martini e ainda Chá Natterman ou Nescafé sem cafeína para dormirem suavemente em colchões Dunlopillo, e as crianças só teriam um crescimento saudável com Milo, Toddy, Ovomaltine, Leite em pó Nido ou farinhas Amparo e Predilecta. Salsichas da Aveirense ou pudim Royal também eram opção e a Larangina C e a Compal começavam a competir para nos refrescar.
. Ficávamos seduzidos com os novos modelos: Consul, Zephyr, Anglia Prefect, Taunus 15M e Vedette Versailles da Ford e os novos Fiat 600 e 1100, ao mesmo tempo que desejávamos escrever com a nova Parker 51 (com tinta Quink) enquanto a Robbialac pintava por todo o país. Surgiam também muitos anúncios com cursos por correspondência (Rádio, Mecânica Automóvel, Línguas, etc). No entanto espantávamo-nos com o do Charles Atlas que prometia, gratuitamente, transformar o corpo de um magricela num super musculado (como o dele) atleta, com o seu método de “tensão dinâmica”. Divertiam-nos, ainda, as caricaturas do Amigo da Onça executadas, no “Cruzeiro”, por Millor Fernandes (com pseudónimo de Vão Gogo) e íamo-nos inteirando, pelos jornais, de alguns eventos mais relevantes. .
Assim, Craveiro Lopes para além de inaugurar a estátua de Malhoa nas Caldas, visitou a Rainha de Inglaterra e viajou também para a Guiné e Cabo Verde onde se sentia já algum vento de revolta, não conseguindo evitar, porém, uma primeira tentativa de invasão de Goa, Damão e Diu pelos “Satyagrha”, que os jornais portugueses apelidavam de selvagens, nem os acontecimentos nas ex-colónias que surgiriam em 1961. Salazar faz uma remodelação ministerial colocando o Professor Marcelo Caetano como novo Ministro da Presidência.
. Paralelamente organizavam-se festas elegantes na “boite” Tágide em Lisboa (abrilhantadas pelo cantor brasileiro Odille Odilon) ou no Casino Estoril, e a Feira Popular continuava a realizar-se em Palhavã (hoje jardins da F, Gulbenkian) onde apresentava a novidade do poço centrífugo e se faziam fotos de família com máquinas Kodak Brownie ou Retina.
. Sabíamos que as experiências atómicas americanas continuavam apesar do anúncio de que a “guerra fria” acabara após mais um encontro dos “4 grandes” representados por Einsenhower, Faure, Eden e Bulganin. Churchill pedia a demissão aos 80 anos, Péron era deposto na Argentina, Kubitschek subia ao poder no Brasil e o Dalai Lama estava há 4 anos no exílio.
. Mas distraíamo-nos lendo o que acontecia às estrelas de cinema: Zsa Zsa Gabor ia a caminho do 4º casamento, Debbie Reynolds casava com Eddie Fisher, Lucia Bosé dava o nó com o toureiro Dominguin, Gordon Scott era o novo Tarzan da tela, Amália interpretava A Severa no Monumental e, apesar da beleza de Gina Lollobrigída e de Sofia Loren os olhares voltavam-se para uma nova “star” europeia que dava os primeiros passos no cinema e que iria influenciar a moda: Brigitte Bardot. Nesse ano o filme “Marty” ganhava a Palma de Ouro em Cannes, Pablito Calvo comovia-nos com o filme “Marcelino Pão e Vinho” e as vozes de Alberto Ribeiro e Luis Piçarra continuavam a encantar o público feminino.
. O mundo seguia também com atenção os amores impossíveis da Princesa Margarida com o coronel Townsend (porque este era divorciado) e o drama da princesa Soraya que não conseguia dar um herdeiro ao Xá da Pérsia.
. Manuel dos Santos e Diamantino Viseu faziam a felicidade dos aficcionados, o pugilista Rocky Marciano conquistava o título mundial de pesados e Portugal ganhava mais uma vez o Torneio de Hoquei em patins de Montreux. No automobilismo Stirling Moss atacava o reinado de Juan Manuel Fangio e Alves Barbosa empurrado por populares perdia para Ribeiro da Silva, a volta a Portugal em bicicleta.
. Nesse ano, em que se comemorou na Sociedade Nacional de Belas Artes, o centenário de Malhoa, morriam: Carmen Miranda (41 anos), Calouste Gulbenkian, Thomas Mann, Einstein aos 76 anos, Flemming (73 anos) e anunciava-se a vacina contra a Poliomielite.
. Os cientistas erravam, em 1955, quando previam que o homem pusesse o pé na lua, pela 1ª vez, em 1977 e que as calotes polares estariam totalmente derretidas, com o aquecimento global, dentro de 500 anos. . Mas um dos eventos mais importantes do ano, sobretudo analisado agora, foi o aparecimento da televisão em Portugal com as primeiras experiências nas Feiras Populares (Lisboa e Porto) e a criação da RTP (as emissões regulares só se iniciariam dois anos depois). Como todos sabemos agora a televisão viria alterar muito os nossos hábitos com consequências sociológicas inimagináveis naquele ano de 1955. As pessoas passaram a telesintonizarem-se e a telesonharem. A convivialidade diminuiu, bem como a ida ao Cinema e Teatro, a publicidade tornou-se ainda mais invasiva e condicionante, e os Bancos começaram a substituir os cafés tradicionais. Uma nova ordem bancária começava o seu caminho para o “Crash”. . A outra situação importante viveu-se a nível musical em consequência de vários factores: As Sociedades de Recreio despertavam e animavam-se com um maior número de “bailes” devido ao aparecimento de uma grande novidade. O disco de 45 rotações que permitia o acesso mais democrático aos êxitos musicais.
. Ao mesmo tempo os jovens seguiam a moda ditada por figuras como Marlon Brando com casaco de cabedal e de James Dean com óculos Ray-Ban e jeans (morre nesse ano depois de fazer a Este do Paraíso, ao volante do seu Porche) e começam a ouvir uma música marcada por um ritmo novo: o Rock´n Roll.
. Num ano em que faziam êxito canções calmas e românticas como: A Blossom Fell (Nat King Cole), Only You e Great Pretender (Platters) e It´s Magic (Doris Day) … Surgiu o contraste “explosivo” de… Rock Around the Clock interpretado por Bill Halley. Canção composta por Max Freedman e James Myers, em 1952, foi gravada por Bil Halley em Abril de 1954 e publicada como lado B de um 1º disco, pretendendo integrar a banda sonora de um filme com o mesmo nome. No entanto torna-se emblemática no filme de 1955: “Blackboard Jungle” intitulado, não por acaso, pela Censura portuguesa como “Sementes de Violência”.
. Os jornais portugueses classificam o Rock´n Roll como dança “animalesca” e procuram conotar a música com uma “Juventude delinquente, transviada e rebelde”, fazendo ao mesmo tempo a apologia das virtudes da valsa ou do pasodoble… Foi mais uma batalha perdida pelo regime salazarista, tendo sido entendida por muitos como conflito de gerações.
. Sendo certo que o Rock´n Roll não começou com Rock Around the Clock, pois as suas raízes remontam a anos antes - no fermento do Rythm and Blues (e essa é outra história interessante que já não cabe aqui), foi no entanto esta canção que estabeleceu o contacto definitivo do Rock´n Roll com a Juventude, despertando-a não só para um ritmo que não conhecia, mas também para trilhar, eventualmente, caminhos mais libertários. De facto o Rock´n Roll acabava por ser uma maneira de contestar “o mundo injusto que os mais crescidos criavam”.
. Embora não sabendo ainda que não conseguiria modificar o mundo, nesse Verão, de 1955, tentei compor o cabelo com Brylcreem e usei a minha primeira água-de-colónia (antes só sabonetes): Lavanda Ach. Brito (em 1958 iria ser destronada pelo Tabac da Fabergé e hoje é uma péssima imitação do original) e fui ouvir o disco do Bill Halley, a uma festa, com um grupo de amigos, dado que um deles tinha conseguido trazê-lo dos EUA (só chegaria a Portugal, uma 1ª remessa de apenas 25, em Janeiro de 1956).
. Ia com estrelas no olhar e um sorriso mágico. Acreditava que era o 1º dia de um novo mundo melhor que começava. . Vasco Trancoso
Como se de uma aguarela se tratasse, não há “sentidos” que não estejam presentes nesta excelente retrospectiva do nosso “mundo”…de há 54 anos.
Do Portugal cinzentão que os nossos políticos pintavam, aos ventos de mudança que começaram a soprar vindos de fora, à música, aos hábitos alimentares e de higiene objecto de publicidade, aos avanços na Medicina, nada escapa nesta excelente síntese- “precisa, concisa e objectiva”- assim a classificaria o P.e Renato (atributos que ele achava essenciais para um bom texto).
Permitiu-me recordar com imenso agrado não a primeira emissão televisiva em Portugal, mas a memória que tenho da primeira vez que tive contacto com aquela “caixa mágica”; as papas que a minha Mãe, pacientemente, todas as manhãs se esforçava para que eu e os meus irmãos engolíssemos; o “Cavaleiro Andante”, o “Príncipe Valente” e as “Aventuras do Tintim” que o meu irmão João lia e coleccionava ciosamente e…às escondidas dele…eu ia ler, num ápice; os primeiros sinais de revolta nos territórios portugueses além-mar de que as estações de rádio davam notícias, iniciadas com uma voz masculina grave-que me aterrorizava-e dizia: “Os sinos da velha Goa e as bombardas de Diu serão sempre portuguesas!”; as revistas penso que se dividiam entre as que as senhoras e as que as empregadas domésticas liam; nem o cheiro de um perfume aqui faltou para recordar - “Femme”…acho que a minha pituitária nunca o esqueceu!Eu bem digo que quem diz que não tem memória das suas memórias…é porque mente!
Termino, dizendo-lhe que foi “com estrelas no olhar e um sorriso mágico” que li e reli o seu magnífico texto!
Manuela Gama Vieira
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João Ramos Franco disse... Quero agradecer ao Vasco Trancoso este retrato fiel de um tempo que vivi. Transportar-me a este passado com a descrição de pequenos pormenores que estão no armário dos esquecidos e fazer-me recorda-los como uma realidade, eles faziam parte do meu quotidiano, é de alguém nada perdeu do dia a dia da sua vida.
Até na música somos coincidentes, foi o Bill Halley, ainda num disco de 78 rotações, que quebrou o meu modo estar perante os sons do bolero, tango, cha-cha-cha, valsa ou do pasodoble, etc.
Muito teríamos para conversar sobre esta época…
O sempre amigo
João Ramos Franco
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Júlia R disse:
Vasco,tive a sensação de ter percorrido estes anos todos e com velocidade atroz ! Achei girissimo o texto e a maneira como descreveste. Senti-me a correr e até a usar o Brylcreem (já nem me lembrava como se escrevia,tirava-lhe o "r") como pasta de dentes.....e depois as consequentes dores de barriga !
Parabéns e obrigada por mais este pedaço de juventude.
Um abraço
Júlia R
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São Caixinha disse:
Eu tinha apenas 1 ano de idade em 1955, mas este texto dá-nos uma imagem tão completa e fiel do que acontecia, que surpreendemente consigo encontrar-me nesse passado longinquo! A vida seria obviamente muito simples...bebia o leite...sim...num copinho de plástico côr de laranja com bolinhas brancas... Ovomaltine, claro...e a mãe corria a aumentar o som do rádio quando ouvia os primeiros acordes daquela canção...Marcelino pão e vinho...que não sei se me assustava ou me fazia feliz,mas que de algum modo me tocava!
Excelente narrativa repleta de deliciosas particularidades!
Obrigado Vasco!
São Caixinha
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RP disse... Em 1955 o meu mundo era ainda a casa de meus Pais e a minha vida feita de brincadeira com bonecas e jogos.
Hoje,ao terminar a leitura deste texto extraordinário,dei conta de ter revivido,quase num ápice,a minha juventude.Foi,para mim,tão engraçado recordar o leite com Ovomaltine,o Pim Pam Pum,as latinhas do creme Nivea,o livro Marcelino.Com emoção,revivi os pacatos serões familiares,ouvindo se rádio e lendo se o jornal diário.
Poderia continuar,entusiasticamente, a enumerar outros factos mas concluo que Vasco Trancoso apresentou o retrato completo e fiel da minha geração.
Muito obrigada.
RP
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J.L. Reboleira Alexandredisse... O Dr Vasco Trancoso, que não tenho o prazer de conhecer, dá-nos aqui em poucas linhas, a história toda daqueles anos cinzentos, que o establishement da época teimava em manter durante tanto tempo quanto possível. O pormenor de, nas histórias aos quadradinhos, até o herói ter de ser português, ou pelo menos luso-qualquer coisa, dá para entender melhor o ambiente em que se vivia. No Cavaleiro Andante havia por exemplo uma série, em que o melhor piloto de automóveis do mundo na altura era luso-britânico.
Nota-se ainda, pela leitura do texto, cuidado e cronologicamente exacto, que o autor deverá estar nesta altura com mais tempo para estas coisas da escrita do que teria noutras épocas. Enfim, quero com isto dizer que a cidade ficou a perder no campo da medicina, mas ganhou noutros, e nós agradecemos.
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João Jales disse:
O mais notável deste texto é ele conseguir transmitir o optimismo e a esperança no futuro que se vivia naquele ano de 1955. As inovações técnicas iam transformar o mundo, resolver os seus problemas e tornar as pessoas felizes. E o Rock era a banda sonora desse "filme". É isso que transpira das palavras, dos nomes dos produtos (fantásticos!) e dos anúncios que os promovem.
Quero agradecer ao Vasco a sua disponibilidade para nos oferecer um artigo que ultrapassou, em todos os aspectos, a minha expectativa. E a dos outros bloguistas, a julgar pelos comentários que continuam a chegar. Quem quiser mais pode consultar o seu blogue.
Uma pequena nota para saudar a chegada de mais uma comentadora, RP, uma ex-aluna do ERO que se estreou neste post. Espero que continue a visitar-nos e a colaborar neste Blog. Respeitarei as iniciais enquanto a própria o deseje.
E agora vou ver se consigo ainda comprar um produto milagroso para a queda do cabelo que descobri ao folhear umas revistas de 1955 em busca de imagens para este texto...
JJ
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Isabel Knaff disse:
Embora eu tivesse nascido um pouco mais tarde cresci a ouvir e usar todos estes nomes e artigos.Adorei voltar a revê-los, e muitos há, que quase consigo provar o sabor ou sentir o aroma..
Que extraordinária memória a do Vasco, que conseguiu lembrar-se de todos os artigos, estacões de rádio, fragâncias, revistas...eu sei lá ..de tudo enfim, que tornava as nossas vidas tão mais agradaveis e confortáveis !
Um Obrigado ao Vasco por esta maravilhosa regressão ao passado.
BjsIsabel Cx
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Zé Carlos Faria disse:
55 é, de facto, uma boa colheita! A comprová-lo está o meu nascimento e de muitos dos meus melhores amigos (como exercício de modéstia também não está mal, pois não?).
Excelente escrito do Vasco Trancoso, revelando os sinais de um tempo onde a ditadura do publicitário começava a alargar os passos, a caminho desta «sociedade do espectáculo» propagandística com que estamos confrontados. Faltou apenas os spots radiofónicos dos candeeiros bem bonitos, modernos, originais, lá na rua da Vitória e do Formitrol, o melhor preventivo contra chuva, frio ou sol (o senhor está constipado/ e ficou mal de repente/ porque não teve cuidado/ porque foi imprevidente...). Ou então o fantástico rótulo da garrafa de «Águas das Pedras» que, em plena era atómica, garantia, impante de orgulho, «águas poderosamente radioactivas»...
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Belão disse... Que maravilha viajar no tempo, guiados desta forma, pelo Vasco.Eu não sou de 55, como muitos amigos, mas sou de 57, o ano do nascimento das emissões regulares na televisão portuguesa. Portanto, lembro-me também e bem, de muito do que o Vasco aqui refere.
Encontrei alguma antiga publicidade televisiva no youtube e deixo-vos esta. Quem se lembra?
Em primeiro lugar gostaria de felicitar Vasco Trancoso pelo excelente texto, que nos revela um ano de Viragem e Mudança na Sociedade Portuguesa.Não me surpreende a qualidade da escrita, o rigor descritivo, a criatividade e o relato multidimensional de uma época, como que a devolver-nos em "efeito de espelho" a sua Imagem.
Se o texto não se dever simplesmente à memória de VT, deve-se seguramente a uma exaustiva pesquisa, em busca do "Retrato Perfeito".Tendo eu nascido 10 anos após 1955, beneficiei desta diversidade de produtos (à época), de cuja maioria me recordo. Há dois especiais na minha memória: O Gibbs que aveludava e perfumava o rosto do meu pai e o Tokalon, o da minha mãe, em momentos de troca de mimos.
Este relato conduziu-me também à reflexão de quão raras as vezes valorizamos o cenário de hoje de "ter quase tudo" em contraponto com o de "ter quase nada". Aliás, se hoje relatarmos estes acontecimentos aos nossos filhos e/ou a outos jovens, arriscamo-nos no mínimo à titularidade do "discurso do Cota" e à sua desvalorização, uma vez que lhes apresentamos a "Obra Feita", com os mais diversos "materiais de construção".
Agradeço assim a Vasco Trancoso esta notável memória de todos estes factos, tão sábiamente aqui impressa.
Bjs Fátima
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VT disse... Agradeço as palavras muito, muito simpáticas em todos os comentários. Foi para mim um grande prazer escrever (e reviver) aquela época que afinal se viria a revelar mais significativa do que eu julgava no momento em que a atravessava e foi muito bom saber que gostaram.
Deixo alguns links em baixo, que me parecem deliciosos e que incluem a Aguarela do Brasil com o Zé Carioca.
Escreva um nome ou tema relacionado com o Externato Ramalho Ortigão na caixa de busca abaixo e visite os posts que foram publicados no Blog sobre esse tema.
. . . Uma viagem… . É difícil calcular a data da partida, sabemos a data de nascimento, mas o conhecimento de tudo o que nos envolve re...
NOVIDADES E REEDIÇÕES
O Blog não é apenas constituído pelos últimos posts, mas por todos os textos e fotos que podem continuar a ser visitados e comentados por todos: os que nos seguem desde o início e, principalmente, os que só o conheceram recentemente.
A "Breve História do Colégio" é um exemplo, uma série de três posts sobre a história do ERO que está constantemente na lista dos "mais visitados".
DIÁRIO - 9 DE JUNHO , certamente pela coincidência do mês, tem sido alvo de muitas visitas e até de novos comentários.
O Blog é para visitar ... e revisitar!
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O Facebook é hoje já a 2ª maior "porta de entrada" no Blog dos Antigos Alunos do ERO, logo a seguir ao Google.
A presença nesta rede social tem cumprido a sua função de divulgar e dinamizar o Blog, esperamos que todos os colegas que estão no Facebook nos visitem e divulguem a página.
. "Martel tratava de recuperar o passado tal como tinha sido, sem as desfigurações da memória. Sabia que o passado se mantém intacto em algum lado, em forma não de presente mas de eternidade: o que foi e continua a ser ainda será o mesmo amanhã, tipo a ideia primordial de Platão ou os cristais do tempo de Bergson…." …
"Nunca deixou de pensar, disse-me Alcira, que o passado estava intacto nalgum sítio , talvez não na memória das pessoas , como poderíamos supor , mas fora de nós, num lugar impreciso da realidade."
Há álbuns diferentes porque cada fotógrafo publicou o seu .
A Guidó, habitual cronista pictórica destes encontros, faltou desta vez.
JANTAR DOS AMIGOS DA FOZ DO ARELHO
A HISTÓRIA DO ERO
Vários visitantes têm mostrado interesse em ler a história do Externato Ramalho Ortigão que o Blog publicou mas revelam dificuldade em encontrar os artigos.
Relembramos que temos uma caixa de busca onde podem escrever o que procuram mas aqui estão, por ordem cronológica, os três posts que procuram.
Nem sempre é fácil perceber a lógica de funcionamento de um Blog. Vamos tentar ajudar. 1-Os artigos estão colocados por ordem cronológica invertida, sendo o 1º artigo que aparece o mais recente. Se houver artigos que "respondem" a outros, é preciso começar a ler de baixo para cima para seguir a sua sequência.
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