ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
.
.

A MARAVILHOSA VIAGEM DO JOSÉ CARLOS FARIA

por Z C Faria
.
.
Pela leitura arruinei a vista!
.
Bem me avisavam que o nariz sempre a menos de um palmo das páginas sofregamente folheadas só podia dar mau resultado, mas eu persistia no vício daquela leitura, naquela postura, e daí ter ficado precocemente míope, a seguir estigmático, pitosga de 4 olhos desde logo - caixa d'óculos, em suma...
.
É que eu lia, lia muito, lia tudo, era mesmo leitor compulsivo, do melhor ao pior, desde a «Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson» de Selma Lagerlöf
até à pieguice insuportável do «Coração» de Edmundo de Amicis (nunca percebi como é que um conjunto de histórias deprimentes, a puxar à lágrima, inculcando falsos valores de «heroísmo», sacrifício e resignação na miséria, pode alguma vez ter passado por obra recomendável para um público infantil, mas enfim...). Um dia por semana, à saída da Escola e com o modesto lastro dos conhecimentos recentes, oriundos da decifração garrafal das primeiras letras, em manuais descaradamente propagandísticos das «virtudes» do regime (Lusitos! Lusitas! Viva Salazar! Viva Portugal!), corria-se para aquela carrinha Citröen de chapa ondulada cinzenta, estacionada no largo do chafariz das mulas, que transportava uma das muitas Bibliotecas Itinerantes da Fundação Gulbenkian (porventura o melhor, mais vasto e mais bem sucedido projecto de animação cultural jamais desenvolvido num país ainda hoje com uma taxa excessiva de analfabetismo integral, para já não falar do regressivo ou funcional). E assim fui sucessivamente ansiando por ser grumete na «Ilha do Tesouro», pioneiro e caçador por rios e montanhas com Daniel Boone, membro da expedição ao centro da terra, escudeiro medieval junto de «Ivanhoe», protagonista ficcionado (e fictício) em fabulosas aventuras...
.
Porém, se as escolhas dos livros são, com frequência geracionais, nomeio «O Velho e o Mar» de Hemingway (cuja edição portuguesa continha um prefácio de Jorge de Sena, de que só mais
tarde me aperceberia da sua importância) e a forte impressão que nos meus (para aí) 14 anos produziu a luta do velho Santiago pela sua dignidade e por recuperar o respeito da comunidade piscatória, a batalha desenfreada e astuciosa de dois dias e duas noites com um delfim de 6 metros de cabo a rabo, finalmente capturado, troféu a desvanecer-se aos poucos, engolido, até à revelação da espinha nua, pelas mordeduras vorazes dos tubarões e a incompreensão total dos turistas...
.
«Pode-se destruir um homem, mas não se pode vencê-lo»!
.
Os livros foram pois os primeiros a vir até mim, depois a música e por último, os filmes. Claro que me acompanha a recordação boa das gargalhadas puras da criança que eu era, suscitadas palas curtas-metragens de Chaplin, nas extraordinárias séries da Keystone, Mutual e da Essanay; No entanto, é-nos pedido aqui a indicação de um momento marcante e, neste particular, comigo ele aconteceu no Cine-Teatro Pinheiro Chagas (como é possível terem-no demolido? Como?), durante a projecção de «Os cavalos também se abatem» de Sidney Pollack, com uma notável interpretação de Jane Fonda.




.
Talvez não por acaso, apesar das oito nomeações em 1969, só viria a ganhar o Óscar para o chamado «Melhor Actor Secundário» (péssima tradução de Best Supporting Actor. É que não há actores secundários! Há-os apenas, melhores ou piores, todavia únicos e essenciais, em papéis maiores ou mais pequenos...). Adaptação do romance de Horace McCoy «They shoot horses, don't they?», a acção do filme desenrola-se no micro-cosmos fechado de um salão de uma Maratona de Dança, parábola da sociedade Americana da Grande Depressão, onde a cupidez de negócio do «show-biz» engendra a exploração aviltante e, em pleno desespero, a morte acaba por ser um acto de amor, escapatória (im)possível para uma liberdade humilhantemente negada. Naquela ocasião, nem os deliciosos rebuçados de fruta, comprados ao intervalo, embrulhados em lustroso papel de seda multicolor, a atafulhar bolsos, conseguíram atenuar a comoção angustiada, misto de um estranho amargo na boca e rude soco no estômago com que todos saímos do camarote (bilhetes de lote para um grupo acabavam por se tornar um pouco mais baratos).
.
Quanto à música, chegou pela rádio.
.
O irmão da minha professora da 1a classe era militar em Goa e a inquietação pelo seu destino após a entrada do exército da União Indiana, levava-a a uma audição intensiva (embora em volume sonoro reduzido) das notícias na fanhosa Emissora oficial, pontuadas pela difusão obsessiva, quase maníaca, do «Fado das Trincheiras», o qual, pela voz de Fernando Farinha, rejurava que se «morrer na batalha/ quero ter por mortalha/ a bandeira nacional». Tal patriotismo exacerbado deixava-me confuso, já que a imagem parecia um pouco chocante e de gosto duvidoso... Adiante...
.
As referências evoluiriam depois. A esplanada do Parque dispunha de uma magnífica «juke-box» Wurlitzer (marca que na época, tal como a Fender-Rhodes, tinha acabado de criar um mini-piano eléctrico de 3 oitavas, de imediato utilizado por Ray Charles). A selecção então existente dos sucessos do momento (e até de um pouco antes), seria hoje um rol de clássicos absolutos: para além de diversos temas dos Beatles, Rolling Stones, Kinks, (e também Sheiks, de produção lusa), havia à escolha, entre outros, Mamas & Papas com «Monday, Monday» e «California Dreamin'», Four Tops e «Reach Out, I'll Be There», «San Francisco» de Scott McKenzie (um hino do Flower Power), «When a Man Loves a Woman» por Percy Sledge e os um pouco mais antigos «Barbara Ann» dos Beach Boys, «Tutti Frutti» do Little Richard, «Love Me Tender» de Elvis Presley e por aí fora... um regalo, era o que era! Por uma simples moeda, o fascínio acontecia: marcado o código da canção pretendida, um braço mecânico, numa diligência exacta, retirava o disco da pilha, depositando-o no prato a girar, a agulha descia, precisa, nas espiras e, de súbito, (é um exemplo), enquanto a malta se refrescava com um gelado cassata e um pirolito Ginger Ale da Canada Dry ou da Schweppes, uma cadência de acordes arpejados soava e a voz de Eric Burdon, acompanhado pelos Animals, surgia nas colunas espalhadas pelas áleas: «There is a house in New Orleans, they call the Rising Sun...»
.
Feito o exame do 2º ano, recebi como prenda de aniversário um gira-discos Dual, mono, cuja tampa incorporava o altifalante. Já havia estereofonia mas aquele objecto era, de facto, um «mono» obsoleto, sobrante numa qualquer obscura prateleira empoeirada, cacaréu ainda com registo para as 78 voltinhas por minuto das grafonolas, imagine-se; sem dúvida melhor negócio para quem manhosamente o vendeu (vendo-se livre do traste) do que para a ingenuidade bem intencionada de quem o comprara e a quem eu, de todo o coração, só podia estar grato. Como as dimensões estavam formatadas para «singles» e EP's, o meu primeiro Long-Playing de 33 rotações (e um terço) demoraria - «Abbey Road» dos Beatles (fiquem sabendo que também já lá estive, na famosa passadeira da capa, o que é que vocelências julgam?). No duche matinal («She came in through the bathroom window»), ouvia o transistor a pilhas que o meu Pai entretanto ligava, sintonizado já nem sei em que estação, e que, com regularidade, debitava «Come Together», a primeira faixa do lado A. Aquela cadência de viola eléctrica com um ligeiro efeito de distorção durante o refrão, cá para mim era o máximo («Because»... Porque sim, pronto), e fez-me querer (muito!) ter o disco. Todo. («I want you», mas era «so heavy»...) Houve que poupar cada tostãozinho («You never give me your money»), sofrer com paciência («Carry that weight») até que, com um empurrão solidário da Avó («Oh Darling»!), a coisa (em forma de «Something») lá se deu. O LP era como uma luz viva («Here comes the sun») e a felicidade preenchia-me em suave embalo («Golden Slumbers»). «The End». Mas isto não ficou por aqui. A seguir viria a descoberta aprofundada do Zeca, do Brel e, para lá da «Banda» a passar, do Chico Buarque de «Construção», a paixão pelo Jazz e pelos Blues, o gosto certo pela Música Antiga e a certeza que se a Música um dia se acabar poderemos contar com um tempo bem mais escuro e para durar.
.
Ainda não sabia que livros, discos, filmes e quadros viriam a ser ferramentas do meu trabalho futuro, mas, passo a passo, ia intuindo e aprendendo que as Artes são algo de imprescindível, que nos torna melhores e melhor nos permite compreender a surpreendente dialéctica estabelecida entre a harmonia e as contradições do Mundo, da Vida, das coisas e das gentes (nós próprios, os Próximos e os Outros)...

.
José Carlos Faria
.
_________________________________________________________________
C O M E N T Á R I O S
.
Guida disse...
De facto cada livro é uma verdadeira viagem, bem cedo aprendi isso.
Ser-se filho único é muito vantajoso nessa área. Muitas horas sózinho no sossego de um espaço que não se tem de partilhar com mais ninguém, a ausência do barulho e das solicitações dos irmãos, uma verdadeira maravilha.
Claro que também tem os seus contras. As brincadeiras têm de ser a solo ou com um amigo imaginário, por vezes uma certa solidão. Mas tudo acaba por ser compensado com a liberdade da leitura, horas a fio, noite dentro, até à última página de cada livro.
Claro, ficam as sequelas nos olhos cansados, gastos de tantas páginas de letra miudinha avidamente devoradas, por vezes à luz de uma pequena lanterna de pilhas, debaixo dos lençóis, para que a claridade não fosse detectada do lado de fora do quarto, evitando assim o ralhete merecido.
Mas não me arrependo. Fazia tudo outra vez.
.
Margarida Araújo disse.
O Zé Carlos Faria no seu melhor, poço de informações tão diversas como a música, a literatura, as artes plásticas, teatro, cinema e também um doutoramento em benfiquite aguda.
O Zé Carlos é míope? Os oftalmogistas e nós sabemos que sim. Mas em nada a sua míopia o toldou de ver, de ler, de escrever, de desenhar.
Obrigada.
Maria Guidó (como o próprio me chama)
.
Inês disse...
Zé Carlos, menino de olhar de Zeca, a descobrir mundos em tudo o que tinha folhas, nos bravos ‘Lusitos’ ou no deprimente ‘Coração’ («um livro que faz chorar sem entristecer» diz uma velha edição «particularmente dedicada a rapazes entre nove a treze anos»), ou ainda no banquete de cultura servido pela tal carrinha Citröen de chapa ondulada cinzenta…
Desta escrita-viagem maravilhosa apetece-me guardar tudo. Voltar a ler muitas vezes. Assentar num post-it «Pode-se destruir um homem, mas não se pode vencê-lo»!
.
São Caixinha disse:
Adorei esta "Maravilhosa Viagem" do José Carlos! Excelente exposição de deliciosos e menos deliciosos fragmentos do nosso passado comum; tanta história em tão pouco espaço, tão enternecedoramente pessoal, tão adulto e tão menino, tão sério e tão divertido, tão simplesmente Genial... como sempre!! Vou ler outra vez!
Bjs
.
João Ramos Franco disse:
Este texto do JOSÉ CARLOS FARIA, é na realidade Uma Maravilhosa Viagem…
Ele transporta-nos desde leitor compulsivo, ao momento em começamos a condicionar o que lemos. Do Ernest Hemingway o Velho e o Mar, que está em cima da secretária neste momento e começa assim, “O velho chamava-se Santiago. Dia após dia, tripulando uma canoa, ia pescar no Gulf Stream.” posso dizer que, entre muito que li também me marcou…
No cinema, «Os cavalos também se abatem» de Sidney Pollack, também vi e gostei, mas talvez por uma questão de geração, o cinema europeu, para mim, ainda mantinha a influência de ser o melhor que tinha visto…
Na música, apesar de conhecer quase tudo o que cita, ainda não havia «juke-box» na Esplanada do Parque, e estávamos limitados a uma que existia no Pão Ló em Alfeizerão, que não estava assim tão perto e a época também nos afasta nos seu gosto inicial, mas é compensada na “descoberta aprofundada" do Zeca, do Brel e, para lá da «Banda» a passar, do Chico Buarque de «Construção», a paixão pelo Jazz e pelos Blues, o gosto certo pela Música Antiga”.
Obrigado José, Uma Maravilhosa Viagem…
Um abraço amigo
João Ramos Franco
.
António disse:
Excelente texto em que se evocam tantas das minhas memórias,incluindo o malfadado Coração!E os filmes e as músicas e os Beatles...
Toda a gente referiu o título,bem escolhido,mas nem todos a cuidadosa escolha das ilustrações e a sua distribuição no texto.Também aqui se vê a mão do artista que a Margarida refere.
Obrigado!Abraço.A
.
João Jales disse:
A imagem do Zé Carlos com um livro a um palmo dos olhos sobrepôe-se a todas as outras recordações que tenho dele...Mais uma deliciosa contribuição sua para o Blog, desta vez sobre a nossa viagem até à idade adulta. Também li o deprimente Coração, as maravilhosas estórias da Selma Lagerlof, frequentei o Pinheiro Chagas onde me apaixonei pelo Cinema (assisti depois ao crime da sua demolição) e tentei conhecer todos os singles da musicalmente prodigiosa década de sessenta.
Ouvimos os Beatles desde então até hoje, assistindo e participando nas novas formas de encarar a sua música ao longo de quarenta anos, descobrimos a música brasileira, a portuguesa (mais ele que eu), lemos e vimos mais cinema e teatro, continuámos vivos e atentos ao que se passa à nossa volta graças à permanente inquietação que nos deixou uma sôfrega adolescência. Felizmente.
JJ
.
Isabel Esse disse...
Li encantada a prosa do José Carlos Faria.Já não me lembrava das lendas nórdicas da Selma Lagerlof,tenho que ir ver se ainda tenho o livro,com uma capa igualzinha à que aqui está!As músicas e os filmes serão diferentes para cada um de nós,o Faria e o JJ lembra-se das canções todas!eu só me lembro quando as oiço.
Parabéns por esta maravilhosa viagem e por este maravilhoso blogue.IsabelS
.
Isabel X disse...
Três aspectos tornam este texto brilhante:
1) A referência ao Velho e o Mar e a como nessa obra magistral de Hemingway nos é dado a conhecer o valor da perseverança na luta, de um modo inigualável.
2) A descoberta que proporciona de não haver actores secundários ao analisar o filme "Os Cavalos também se abatem". Até no niilismo há esperança!
3) O intercalar dos nomes dos temas musicais ao longo da descrição das situações por que o autor do texto passou para os poder conhecer ou possuir.
Este último aspecto(3), então, é de génio! Porquê? Por se eximir ao tom moralista em que às vezes se cai ao avaliar o passado, mas de um modo cheio de ternura, que é em tudo diferente de lamechas.
Grande Zé, é assim mesmo!
- Isabel Xavier -
.
Artur R. Gonçalves disse...
A maravilhosa viagem do José Carlos Faria pelos livros, discos e filmes fez-me lembrar a minha própria travessia por essas décadas de cinquenta e sessenta passadas, com alguma permanência, nas CdR. É verdade que não li os mesmos textos, ouvi as mesmas músicas ou vi as mesmas películas, mas os dois processo de descoberta desse mundo fascinante da cultura mantêm entre si muitos pontos de contacto.
Seria incapaz de nomear muitas das obras que requisitei na Biblioteca Itinerante da Gulbenkian ou de acreditar a 100% na minha memória quando esta teima em me afirmar que a carrinha da Fundação estacionava na Praça da Fruta. Garanto, todavia, que a minha paixão pelos livros impressos a cheirar a tinta me vem dessa altura.
Terei utilizado uma ou outra vez a tal «juke box» da Esplanada do Parque e de muitos outras espalhados um pouco por todo o lado, pelo que terei ouvido alguns dos singles elencados. Nem podia ser de outro modo. Quando a posse de um simples gira-discos era considerado na época como algo ainda de extraordinário, o recurso às máquinas de discos tornava-se imperioso. Assim houvesse a tal moedinha necessária à função ou usufruir da economia e dos gostos alheios.
Vi «Os cavalos também se abatem» em Lisboa, no Império. Ainda hoje recordo a sensação de desconforto que na altura aquela maratona de dança me causou. Mais tarde li o livro, publicado entre nós pelas Publicações Europa-América em tamanho de bolso, mas o impacte não foi nem de longe o mesmo. Lamentavelmente, o grande cinema da Alameda D. Afonso Henriques também sofreu a sua «demolição» simbólica, nem por isso mais feliz do que o velho Cine-Teatro Pinheiro Chagas da Praça do Peixe. Para mal dos nossos pecados, a realidade dura e crua é que com grandes ou pequenas depressões, os cinemas também se abatem. Pelo menos entre nós.
.
Belão disse...
O Zé Carlos é uma pessoa maravilhosa e escreve duma maneira tal, que ninguém tem dúvidas que de facto leu muito. Muito mesmo.
Esta viagem à volta dos seus livros, filmes e músicas encantou-me, como sempre que leio algo do Zé Carlos Faria. Tenho pena que apareça tão pouco no blog. Mas também sei que quando o faz é para nota máxima.
Um beijinho, Zé Carlos. Não nos deixes tanto tempo à tua espera!
.
Isabel Cx disse.
Li várias vezes o texto do Zé Carlos e de todas elas fiquei com pena que cheguei ao fim!Que memória... tão extraordináriamente proporcional ao talento do autor.
Também " O Velho e o Mar" e outros livros do escritor tiveram um lugar de destaque nas minhas leituras, e que melhor forma de o recordar que pela mão do José Carlos.
Também a atraente "Juke box" do Parque era a delicia de nós todos com as canções que felizmente nos marcaram até hoje.
Podia passar a noite a ler títulos de músicas inseridos no texto ..uma maravilha!!!...e é aqui que volto ao principio e recomeço a leitura!
Beijinho
Isabel Caixinha
.
Ana Carvalho disse:
O que o José Carlos Faria escreve merece sempre um comentário. Gostei imenso e deliciei-me a ler o texto,como já nos habituou é um excelente contador de histórias. Bjs
PP
.
José Carlos Faria respondeu:
Ainda me estragam com mimos... (depois queixem-se!). Tenho que agradecer, claro está, tanta boa vontade face ao meu mal amanhado escrito.
Permitam todavia que deixe aqui expresso um reconhecimento especial a duas pessoas:
À minha querida professora Drª Inês (Que bom lê-la! O Inglês que sei e que tão importante e útil me tem sido, a si lho devo. Isso e também a alegria indizível da primeira vez em que fui capaz de compreender uma frase na letra de uma cantiga) e (obviamente) ao João Jales, que, a meu pedido, inventou tão bem o título da croniqueta (só escusava de lá ter o meu nome, mas enfim...) e que depois, com o mérito do seu irrepreensível bom gosto, seleccionou a iconografia e respectiva articulação com o texto.
Apenas um esclarecimento:
O largo do chafariz das mulas a que me refiro quando da vinda da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, corresponde à Porta da Vila, em Óbidos.
Ósculos & amplexos!
.
vasco disse...
Grande Zé:
Excelentes as tuas sugestões.Deixo aqui, para quem quiser ver O VELHO E O MAR em animação, os respectivos links:
Divirtam-se e boas mto boas férias
VB
.
VT disse...
Uma palavra só e sentida: EXCELENTE.
Um grande abraço amistoso e de admiração ao José Carlos Faria que "cozinhou com todos os ingredientes".VT

A MÚSICA DOS DELINQUENTES (a propósito de 1955)

.
.









C O M E N T Á R I O S
.
Manuela Gama Vieira disse...
A música dos delinquentes,dos báquicos,inspirada nos "pretos"...e sei lá que mais.Mas...a música e a sua história,aos melómanos!
Esta evocação da música e da dança, fez-me recordar outros posts anteriores.As malogradas...mas divertidísssimas aulas de dança do João Serra,descritas em "As aulas do meu Tio" e a estrondosa notícia de um jovem campeão de Hula-Hoop,que esteve "três horas a dar aos quadris"-Vasco Trancoso.
Manuela Gama Vieira
.
João Ramos Franco disse...
Venho a descobrir por estas notícias que era delinquente em 1955. Mas só fui apanhado em flagrante delito no ENCONTRO DE VERÃO 2009…
João Ramos Franco

TRÊS NASCIMENTOS E UMA MARGARIDA

.
.
.




Ora aqui estão 4 convictas adeptas da Foz do Arelho. A fotografia, tirada novamente pela minha mãe, no Parque de Campismo da Foz do Arelho, deve ser do ano do artigo da Lena Arroz : CAMPISMO, VERÃO DE 1965

Eu na cadeira de lona, ainda sem conseguir pôr os pés no chão, novamente, e como sempre, a rir. Do lado direito o "trio Nascimento": a Ana, parece nossa mãe (hoje já não se nota a diferença), a Luisa, com uns lindos caracóis e a Margarida ao colo da Ana. Em comum as havainas, que voltaram a estar na moda, o que é um sinal de que estamos todas velhas.
.
E a tenda?
.
A Ivone Nascimento tem tudo num primor. Flores por todo o lado, tapetes, cortinas. Lembro-me deste dia como fosse hoje. Assim: ontem ali! A nossa amizade continuou inalterável até hoje.
.
Um beijo grande para elas e para todos os por aqui vão passando... e são muitos.
.
Margarida Araújo
.
João Ramos Franco disse...
Tens razão, ao recordar estes tempos e dizer que “hoje já não se nota a diferença”, entre vocês. É verdade, e tenho-me apercebido disso nestes últimos encontros, vocês tomaram elixir da juventude e nós em rapazes umas cervejas. A diferença é só aparente, todos temos na memória os locais da nossa juventude e os vamos recordando neste espaço de são convívio.
João Ramos Franco
.
Júlia R disse:
Que meninas tão lindas !Que quarteto tão simpático!Que titulo tão engraçado!E agora que somos todas da mesma idade.....Um beijinho para as quatro!
Julinha

O CONDE DE ABRANHOS






por Manuela Gama Vieira






















Eça de Queirós foi um dos autores que li na minha juventude.Que Eça é intemporal, é indiscutível. Relê-lo, ainda hoje, me dá imenso gosto.
.
Poderia recordar aqui qualquer outra obra mas, se a memória não me falha, “O Conde de Abranhos” foi um dos seus primeiros livros que li e revelou-se-me uma aventura, “abrindo-me os olhos” para o mundo da hipocrisia que grassa em certos meios, designadamente o da política.Com efeito, o Conde de Abranhos afigura-se como o arquétipo daquele outro nobre titulado que, em “Os Maias”, continuaria a sátira acutilante de Eça sobre os políticos seus contemporâneos - o Conde de Gouvarinho.
.
Nascido numa família humilde, que à primeira oportunidade renega por já não se de adequar à sua elevada condição, Alipinho vai construindo um “cursus honorum” que não deixa de ser comum a todos os caciques da época com igual sorte.Entre muitas peripécias que se contam neste livro, recordo com especial prazer dois ou três episódios, aqui brevemente resumidos: Alípio Abranhos pouco versado em quase tudo o que é necessário a um servidor da res publica, afirma que se Moçambique fica na Costa Oriental de África ou na Costa Ocidental, isso pouco interessa, pois não diminui a sua dedicação em levar o progresso para tais paragens, com Portugal sempre orientado no sentido da civilização e da evangelização dos povos nativos que aí habitam sob domínio luso.
.
E como Portugal não pudesse abandonar a dianteira das nações civilizadas da Europa, promove, como seu primeiro acto de governação como Ministro da Marinha, uma expedição ao Pólo Norte.
.
Tudo isto a apimentar a imagem de um homem capcioso que consegue sempre perceber, por via de um instinto prático, mesquinho e arrivista, para onde sopram os ventos da Câmara dos Pares e, em última medida, de um Império que, para todos os efeitos, se deixou adormecer à sombra de uma visão pacóvia e pequena do Mundo, como se o mesmo se pudesse resumir ao pequeno círculo eleitoral de Freixo-de-Espada-à-Cinta, por onde Abranhos foi eleito sem nunca lá ter ido…em jeito de campanha eleitoral….
.
Encontrar paralelismos entre o Portugal de hoje e o de oitocentos é, de facto, pura coincidência… ou a maior delícia?
.
.
.
Manuela Gama Vieira

.
.
.
___________________________________________________________________
C O M E N T Á R I O S
.


Artur R. Gonçalves disse...
A excelência literária de Eça de Queirós mede-se, de certo modo, pela capacidade que tinha em criar grandes e pequenas obras-primas, de as tornar imunes à voragem do tempo, de as encaminhar à presença do leitor com toda a frescura de um fruto acabado de colher. «O Conde d’Abranhos. Apontamentos biográficos e reminiscências íntimas por Z. Zagallo, seu secretário particular» cabe, perfeitamente, nesta classe de obras: pequena em tamanho, grande em qualidade. Escrita a lápis em Dinan, uma das mais aristocráticas cidades balneárias da Bretanha, corria o ano de 1879, o manuscrito manteve-se inédito até 1925, quando é encontrado no Rio de Janeiro, entre uns papéis de Ramalho Ortigão. Esse mesmo. As informações são da responsabilidade de José Maria d’Eça de Queirós, filho do romancista, que de imediato o transcreve (como sabia, podia ou queria) e o publica nos prelos da Lello & Irmão Editores, do Porto, com um nota introdutória.
A designação genérica de «romance realista» cabe à perfeição para definir o teor do livro, não só por ter sido composto por um dos inventores/introdutores dessa estética narrativa entre nós, mas por ser um digno herdeiro da «Vida de Lazarillo de Tormes y de sus fortunas y adversidades» (1554), dessa outra pequena/grande obra-prima, onde cabe a sátira social de toda uma época, dando origem a uma das séries mais bem sucedidas da primeira modernidade e que a posteridade baptizará de «novela picaresca».
Sem entrar em pormenores de categorização genérica, digamos que Alípio Abranhos não é um anti-herói pícaro, uma vez que o regime absoluto do renascimento-barroco, ao transformar-se no regime constitucional do romantismo-realismo, viabilizara a entrada na História e na Literatura de uma nova entidade social, o «barão», disfarçado, como é o caso, de Conde d’Abranhos. Neste sentido, Z. Zagallo teria poucos argumentos para nos apresentar o ilustre biografado como um mero e mísero «pícaro» do ancien régime, um perdedor nato, um ser desonrado desde o berço até à tumba. É que o «barão» do liberalismo será sempre (e por definição) um vencedor nato, um ser sem o menor sentido de honra, mas, na aparência, o mais honrado dos cidadãos.
Os paralelismos entre os políticos corruptos de ontem e de hoje são fáceis de detectar. Basta ler com atenção os textos de sátira literária compostos em todos os idiomas, desde a mais remota antiguidade até à actualidade. Não é aí que reside o problema. A dificuldade, nos nossos dias, é saber onde param os pícaros-barões da pós-modernidade, os condes d’abranhos do terceiro milénio. Bem vistas as coisas, talvez até nem seja um exercício muito difícil de realizar e a solução de encontrar. Basta estar minimamente atento.
.
J.L. Reboleira Alexandre disse...
Depois do comentário do meu amigo Artur G, que finalmente decidiu aparecer por aqui, que poderemos nós acrescentar sobre a obra de Eça? Nada.Afinal, cada vez mais, este blog deixou de ser um blog dos antigos alunos do ERO, para se tornar um blog dos jovens caldenses, onde quer que hoje se encontrem, da nossa juventude.Abraço
.

João Ramos Franco disse...
Na medida em que publiquei no meu blogue, VIAGEM À RODA DA PARVÓNIA, um retrato dado por Guerra Junqueiro e Guilherme de Azevedo - (Comendador Gil Vaz) na mesma época em que O CONDE DE ABRANHOS é escrito por Eça de Queirós, coloco as duas obras em paralelo sobre o mesmo assunto, “encontrar paralelismos entre o Portugal de hoje e o de oitocentos é, de facto, pura coincidência…”
Um abraço,
João Ramos Franco
.
Luisa disse:
A ideia da Manuela de escrever sobre Eça resultou num bom texto em que a "actualidade" do retrato de um político continua a ser uma realidade. Mérito do Eça e da Manuela, ao escolher o tema.
Veio depois muito a propósito o comentário do Artur que gostei muito de ler. São momentos destes e não só os momentos das recordções do nosso tempo que fazem valer a pena vir regularmente ao Blogue. BJS L
.
luisfilipe_vieira disse...
Excelente texto da minha irmã Maria Manuela, cirurgicamente apontado aos numerosos condes de Abranhos (mais "de Abrunhos") que, de forma transversal a todas as classes, posses, importâncias e diplomas, tornam o nosso País um dos campeões da pacovice, inveja e hipocrisia ("prepotente para baixo, subserviente para cima").
Apesar disso, por muitas outras razões (essas, das boas), o único a ter sabido inventar a palavra SAUDADE.
Luis Filipe Gama Vieira
.
Manuela Gama Vieira disse...
Agradeço imenso todos os comentários.Cá de longe permito-me abraçar,de forma muito especial,o meu irmão Luís Filipe- Caldense,de nascimento-e dizer-lhe o quanto gostei da forma tão sentida como disse a palavra, SAUDADE!
Manuela Gama Vieira
.
jorge disse:
num momento em que estamos fartos de abranhos(e abrunhos,é verdade!)esta evocação faz realmente sentido.
os bons textos provocam bons comentários,realço o do artur que não conheço embora sejamos da mesma idade.
abraços,boas férias,parabens pelo nivel do blogue.
jorge
.
VT disse...
A Manuela está de parabéns por nos trazer um texto muito interessante sobre a actualidade de obras anteriores de autores nacionais (neste caso Eça) sobre uma das características negativas deste povo de pobres com manias de ricos (como dizia Eduardo Lourenço).
Muitos destes “maus costumes” serão talvez fruto de uma das Inquisições mais duradouras da História. De facto, talvez tenha sido durante o século XVI, com a instauração da Inquisição, em 1536, que foram nascendo as raízes principais do que viria a ser esta " esta estranha forma de vida".
Para sobreviver no reino da injustiça, o povo português respeitou, num primeiro momento, o jogo das aparências, como defesa.
Mais tarde, após séculos de assimilação, a aceitação de simulacros e simulações, como se da realidade se tratasse, passou a padrão comportamental assumido na rotina diária – mesmo sem necessidade de qualquer tipo de autoprotecção. Essas características principais foram agravadas pelos governos monárquicos que vigoraram após a abolição de 1821 da Inquisição, mantidas na 1ª Republica, aprofundadas durante a ditadura do Estado Novo e desenvolvidas, com maior sofisticação, após o 25 de Abril de 1974.
É muito oportuno o texto da Manuela, porquanto verificamos, nos tempos que hoje sopram pelo país, que quer a hipocrisia quer a corruptela quer a conquista do Poder pelo Poder por influência partidária ou de “amigos” sem ser credibilizada pela competência qb, quer ainda outros defeitos que Bordalo Pinheiro tão bem caricaturou... e que sempre existiram, estão em alta, tendo crescido exponencialmente nos últimos anos.
A principal “batalha” em Portugal continua a ser a da mudança de mentalidades.
Obrigado e um abraço para a Manuela.
Vasco Trancoso
.
Maria do Rosário disse:
Parabéns,Amiga,por tão bem teres sabido falar-nos de uma obra,em que EÇA faz,porventura,uma das mais impiedosas caricaturas literárias dos costumes políticos portugueses da sua época.Da sua actualidade,já falaram os bons e merecidos comentários anteriores.
Um abraço de saudade,Luis Filipe,mas quanto a abrunhos...aprecio muito esse tipo de ameixa!
Felicito,também,João Jales, pelo bom nível deste Blogue.
MRosário Pimentel
.
Ocean disse...
Parabéns, Manuela, por esta singular revisitação de uma das mais marcantes obras de Eça.
Depois de todos os comentários que me antecedem, pouco há -naturalmente - a acrescentar sobre o brilhantismo da escrita queirosiana ou sobre os incontornáveis paralelismos com o contexto actual.Mas para não deixar de responder ao simpático desafio/repto/estímulo da autora do texto, acrescentaria apenas - e talvez em jeito de complemento às valorosas palavras do Luís Filipe - que este povo luso sempre envolto em costumes de corrupções e hipocrisias (são as "abranhices" das quais não consegue nem parece que alguma vez conseguirá libertar-se: dirão "é cultural", "é nosso") ainda consegue surpreender-nos a cada dia que passa com coisas fantásticas, com pessoas cheias de qualidade, que infelizmente continuamos a não ser capazes de valorizar devidamente (são as "abranhices" das quais não consegue nem parece que alguma vez conseguirá libertar-se: dirão "é cultural", "é nosso").Para quando um verdadeiro CHOQUE DE CIDADANIA?
Não queria concluir a primeira participação activa de um fiel seguidor das passadas deste espaço sem deixar de dar os mais sinceros parabéns a TODOS os que fazem deste blogue (como é que eu costumo dizer?) uma "experiência sociológica única", mesmo para um puto de vinte e tal anos sem ligação às Caldas... Bem, sem ligação agora já não direi...
Obrigado, ERO.
Ricardo