ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES

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Esta carta, escrita por uma garota após ter ido pela primeira vez ao cinema, é um documento precioso para esta série. Fiquem pois com as impressões da Aninhas sobre a Branca de Neve e os Sete Anões:

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Querida prima:

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Espero que te encontres bem na companhia dos teus pais. Não pergunto pelo teu irmão porque ele ainda não me pediu desculpa de me puxar as tranças na festa de Natal. Nós por cá todos bem.

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A minha mãe levou-nos ontem ao cinema. Eu e o meu irmão nunca tínhamos ido ao cinema e ela disse que era como uma televisão grande.

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Não era bem verdade porque as pessoas e os animais são a cores, a sala é MUITO maior que lá em casa, estava muita gente que eu não conhecia e eu apanhei um susto logo no princípio porque faltou a luz. A luz só apareceu outra vez a meio da história.
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Além do susto da luz detestámos tudo o resto. Imagina que a Branca de Neve era filha de uma bruxa horrível e andava toda contente vestida de trapos a varrer o jardim. Não sei porquê, mas estava tão alegre que até cantava e falava com os passarinhos. Se eu andasse toda rota e descalça não me apanhavam de certeza a cantar nem a falar com os passarinhos.

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A Rainha Má tinha um espelho falante que lhe dizia que ela não era a mais bonita do mundo. Não sei para que é que alguém quer um espelho falante que diz que há outras pessoas mais bonitas. Mais valia ser mudo, como o meu.

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A Rainha deixou-se convencer pelo espelho falante a matar a menina. Mas o motorista (ou jardineiro) teve pena dela e matou antes o Bambi. O meu irmão Luís desatou a chorar. Com razão, porque o bruto do homem matou o pobre bicho só para lhe tirar o coração. Ainda berrou mais quando a tal Branca de Neve fugiu e apareceram uma quantidade de monstros na floresta.

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Pior ainda foram os anões que andavam a cavar um buraco no chão para apanhar pedrinhas. Mais valia irem à Foz, sempre andavam ao Sol! Mesmo tendo aquele trabalho horrível, também cantavam muito. Lembraram-me logo os anões que eu vi a dar chapados uns nos outros no Circo e aí chorou o meu irmão e chorei eu, porque detestámos os anões do Circo! A minha mãe estava danada e também não parecia estar a gostar nada daquele Cinema. Acho que ela também não sabia bem ao que ia.

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As luzes acenderam-se e tivemos o melhor do Cinema: os caramelos que a minha mãe comprou para calar o meu irmão. Eu também comi, claro.

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Mas quando as luzes se apagaram a Madrasta (que é uma espécie de Mãe, mas ainda mais chata) deu uma maçã podre à Branca de Neve e ela morreu. Aí é que ninguém calava o meu irmão! E eu disse logo à minha mãe que nunca mais comia fruta, diga ela o que disser. A minha mãe ainda começou a discutir comigo mas não conseguiu porque entretanto zangou-se com as outras pessoas à nossa volta por causa da nossa conversa e da choradeira do Luis. Mas a culpa era da história, que só melhorou quando um senhor deu um beijinho na morta e ela ressuscitou. Eu já tinhas visto alguns meninos mais velhos andarem a ressuscitar as meninas mais velhas no Parque quando ando lá de bicicleta e espreito para a fonte junto ao Ténis.
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Acabou a história com mais uma cantoria. Muito se canta no cinema, é muito aborrecido. Salvaram-se os caramelos.

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A minha mãe prometeu:
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- NUNCA MAIS vêm comigo ao Cinema, o vosso paizinho, que queria tanto que vocês viessem, que vos traga para a próxima!

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Por isso acho que tão cedo não volto ao Cinema.

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Não te esqueças que faço anos no dia 10. No ano passado esqueceste-te e não recebi nenhuma prenda. Beijinhos da prima amiga


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Ana


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C O M E N T Á R I O S
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Julinha disse:
Encantei-me-ao-ler-esta-carta!Levou-me-a-sentar-naquelas-carteiras-de-madeira-a-fazer-uma-redacção....deliciei-me!
Não-sei-quem-é-a-Ana-mas-queria-agradecer-lhe-este-momento-maravilhoso.
Tenho-um-problema:não-posso-comentar-porque-só-tenho-tracinhos-não-tenho-espaços!......desculpa-lá-acabar-com-a-tua-pachorra!!!!!!!!
Mais-uns-tracinhos-Bjs-Júlia
(NOTA-A Júlia tem mesmo uma avaria no teclado e este email NÃO era para publicar, claro)
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João Ramos Franco disse...
Já não me recordo das minhas redacções com esta idade, nem de ter escrito uma carta a alguém…Mas esta carta da Ana, 9 anos de idade, com o poder de descrição do real, transportado-nos ao filme e às reacções que a envolvem, “é de se lhe tirar o chapéu”…Se com aquela idade escrevia assim, como será agora?!…
João Ramos Franco
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Laura Morgado disse...
Quantos Professores de Português gostariam de ter uma aluna assim?
Partindo do pressuposto que a Ana era mesmo uma criança quando escreveu esta carta, era uma menina com capacidades intelectuais acima da média. Só assim, conseguiria descrever com tanta clareza o filme e toda a sua envolvente. Palpita-me que, no momento presente, seja uma excelente escritora.
Obrigada Ana pelo seu texto tão encantador e divertido.Espero que continue a presentear-nos com a sua escrita.
Laurinha
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António J M disse...
Este é um texto incrivelmente divertido,custa a crer que tenha sido guardado para o final da série já que uma carta destas teria que aparecer no blogue mal o JJ a visse.
Há aqui uma história para ser contada,fico a aguardar(e se houvesse mais cartas da Aninhas???). A
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Ana Carvalho disse:
Olá eu não sei quem é a Ana (será que não sei?), mas dou-lhe os parabéns por esta pequena grande história que me encantou, deliciou, fez rir, enfim divertiu-me imenso .
Obrigada. Bjs PP
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jorge disse...
como é que o comentador ramos franco sabe que a autora tem nove anos?há pelos vistos informações que não chegam a todos os leitores!
as observações são divertidissimas,a autora não pode ter nove anos!seja quem for,deve ter outros escritos que nós gostávamos de ler.jorge
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Luis disse...
(...)Quem será esta Aninhas,tão ladina e despachada e que tanto me divertiu?Fez passar o filme à minha frente de uma forma tão crítica que fico a pensar em que circunstâncias esta carta terá sido escrita... LF
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Isabel X disse...
Há um humorista brasileiro (peço desculpa, não me lembro do nome, o Vasco Baptista sabe quem é, talvez possa ajudar) que fez uma descrição do que viu e sentiu num jogo de futebol, a que assistiu sem saber ao que ia, sem saber sequer o que era isso de futebol, com a qual este pretensa carta de uma pretensa menina à sua prima tem inúmeras semelhanças.
A ideia é gira, concedo!
Mas...há algumas correcções a fazer:
- A rainha não se deixou convencer pelo espelho falante, mas pela sua própria inveja;
- Os espelhos limitam-se a dizer a verdade. Não há espelhos mudos;
- A parte dos anões concedo que tenha a sua razão de ser;
- Andar rota e descalça não será condição de cantar, mas de falar com os passarinhos é com certeza;
- A madrasta ser uma espécie de mãe, mas ianda mais chata, brada aos céus! Já não há nada de sagrado?
Conclusão: e o valor de fazer chegar tanto simbolismo até às crianças e jovens de tantas gerações, como o fez Walt Disney, onde é que fica?
Parabéns, JJ, assumiste esta personagem num dos teus melhores registos!
- Isabel Xavier -
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JJ respondeu:
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À Julinha, à Paulinha e à Laurinha - Obrigado pelos elogios, que transmitirei, e pelo constante apoio ao nosso Blog. Bjs.
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Ao Jorge - O João Ramos Franco não tem qualquer informação extra sobre a Aninhas, ele confundiu apenas o dia do aniversário (dia 10) com a sua idade. Esta carta não podia ser escrita por uma pessoa de nove anos, tem que ser alguém mais velho.
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Ao António, ao João RF e ao Jorge - Não tenho mais nenhuma carta da Aninhas, anterior ou posterior a esta.
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À Laura - Não sei se algum professor gostaria de ter uma aluna destas. Hoje em dia não é preciso saber ler nem escrever, a Aninhas seria certamente um empecilho incómodo na sala de aulas!
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À Isabel - Julgo que o humorista que referes é o Millôr Fernandes, que o Diário Popular publicou num suplemento semanal durante anos.
O filme "Snow White and the 7 Dwarfs" que foi realizado em 1937 foi profundamente alterado para a edição em VHS nos anos 70, ainda mais para a primeira edição em DVD e novamente para a edição de 2006 actualmente à venda. Resultado:
- Não ficou uma única cena original das conversas da madrasta ao espelho nem da sua transformação na bruxa;
- Não ficou uma única cena dos anões dentro da mina;
- O beijo do principe, considerado demasiado hollyoodesco foi completamente re-desenhado.
- Idem para a morte da corça, contactos da Branca de Neve e os anões, etc.
Acrescento que:
- Todas as crianças acham as mães umas chatas, não há nada de sagrado nisso.
- Fica a sugestão aos ornitólogos para que se apresentem rotos e descalços perante os passarinhos.
Agradeço sempre os elogios, mas neste caso não sou eu quem assina a carta. Mas agradeço o excelente comentário, a que a nossa amizade me obrigou a responder.
Bjs. JJ
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Isabel X disse...
JJ
O registo do humorista a que me refiro é gravado e não é, quase de certeza, o que tu indicas. Só mesmo o Vasco Baptista para o identificar, ele é que tem o disco!
O facto de as mães serem chatas é uma verdade insofismável: eu que o diga! Aliás, é a sua obrigação. Compará-las a madrastas como a da Branca de Neve é que me parece algo sacrílego!
Bjs a todos,
- Isabel Xavier -
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vitor b disse...
Esta carta é de morrer a rir,lembrou-me umas redacções da Guidinha que o Diário Popular publicou em tempos e que eram escritas por um autor conhecido(mas que não me recordo o nome).
Ver este filme como um filme de terror é uma ideia bem esgalhada e a Aninhas conta-o com montes de piada.
Vitor
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Isabel X disse...
A Guidinha das redacções sem pontuação (foi aí que o Saramago se inspirou para algumas das suas obras, quem sabe?) era o Sttau Monteiro. Penso que não era o Diário Popular, mas o Diário de Lisboa.
- Isabel Xavier -
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JJ respondeu:
Tem no comentário anterior triplamente razão a Isabel:
- As redacções eram do Luis Sttau Monteiro
- Foram publucadas no Diário de Lisboa (1969-1971)
- Constituíram provavelmente a inspiração de Saramago...
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Guida disse...
Mas afinal quem é a Ana?
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João Gomes disse:
Pelo menos sabemos que usava tranças, que não é filha única e que faz anos a um dia 10.
Mas seja lá quem fôr gostei muito de ler a carta.
Bjs MJoãoGomes
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Manuela Gama Vieira disse:
A Aninhas podia ser qualquer um de nós…neste caso, uma de nós, usava tranças. Mas…esta carta também podia estar guardada no imaginário de um menino que puxasse as tranças à irmã, sabe-se lá. Embora tenha um dedo que adivinhe…não estou muito interessada em saberquem é a Ana.
O facto é que a Aninhas me avivou os filmes que vi na minha infância e os sentimentos tão diversos que me suscitavam, de acordo com o argumento das histórias. Quando comoventes, instalava-se-me um aperto na garganta, tal era a vontade de chorar...e quantas vezes não choreimesmo!
Quando a fantasia e o encantamento dominavam o filme, tinha pena que acabasse e logo me avisavam que nada do que tinha visto era verdade!
Quer num caso quer noutro, violência psicológica sobre crianças dir-se-ia hoje, vá-se lá saber.
«Os contos de fada, a meu ver, representam um perigo neste nosso mundo de hoje, tão realista. Prefiro predispor as crianças para a vida da luta que para o sonho e a idealidade abstracta, sem ramo em que a ave azul ponha o pé», disse Aquilino Ribeiro.E assim….”havia três dias e três noites que a Salta-Pocinhas- raposeta matreira, fagueira, lambisqueira…..”
Aninhas, sem desprimor para Aqulino, muitos parabéns!Manuela Gama Vieira
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WALT DISNEY

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Olhando um pouco para trás, para o tempo em que fomos meninos no Externato Ramalho Ortigão, penso que será difícil encontrar um criador mais popular do que Walt Disney. Desde Mickey à Bela Adormecida, de Donald a Bambi, dos filmes aos “quadradinhos”, ninguém deve ter passado a sua infância e juventude longe do fascínio das suas criações.

A sua história pessoal confunde-se com a história do cinema, começando com curtas-metragens, que já antecediam a projecção dos filmes nos anos vinte. A grande aventura, entre 1934 e 1937, foi a realização de Branca de Neve, que quase arruínou a produtora. Mas a atribuição de um Óscar (e sete miniaturas…) consagrou a visão e a ambição de Walt Disney e, a partir daí, o sucesso comercial, artístico e financeiro estava garantido.

A Fantasia (de 1940), “ilustrando” música de Bach, Tchaikovsky, Igor Stravinsky, Beethoven, Amilcare Ponchielli, Mussorgsky e Schubert, apesar de mal recebida pela crítica norte-americana da época, viu o seu estatuto crescer ao longo dos anos e transformar-se numa das obras-primas do cinema de animação.

Além das imagens do vídeo acima, acrescentei uma lista datada das longas-metragens de Disney até ao encerramento do ERO.

Comentários?

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Título em português (Título original) Data de lançamento
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1 Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs)
21 de Dezembro de 1937
2 Pinóquio (Pinocchio) 7 de Fevereiro de 1940
3 Fantasia (Fantasia) 13 de Novembro de 1940
4 Dumbo (Dumbo) 23 de Outubro de 1941
5 Bambi (Bambi) 13 de Agosto de 1942
6 Olá, Amigos ( Saludos Amigos) 6 de Fevereiro de 1943
7 A Caixinha de Surpresas ( The Three Caballeros) 3 de Fevereiro de 1945
8 Música, Maestro! (Make Mine Music) 20 de Abril de 1946
9 Batalha de Gigantes ( Fun and Fancy Free) 27 de Setembro de 1947
10 Tempo de Melodia (Melody Time) 27 de Maio de 1948
11 As Aventuras de Ichabod e o Sr. Toad (The Adventures of Ichabod and Mr. Toad)
5 de Outubro de 1949
12 Cinderela (Cinderella) 15 de Fevereiro de 1950
13 Alice No País das Maravilhas (Alice in Wonderland) 28 de Julho de 1951
14 As Aventuras de Peter Pan ( Peter Pan) 5 de Fevereiro de 1953
15 A Dama e o Vagabundo (Lady and the Tramp) 16 de Junho de 1955
16 A Bela Adormecida (Sleeping Beauty) 29 de Janeiro de 1959
17 Os 101 Dálmatas (One Hundred and One Dalmatians) 25 de Janeiro de 1961
18 A Espada Era a Lei (The Sword in the Stone) 25 de Dezembro de 1963
19 O Livro da Selva (The Jungle Book) 18 de Outubro de 1967
20 Os Aristogatos (The Aristocats) 24 de Dezembro de 1970
21 Robin dos Bosques (Robin Hood) 8 de Novembro de 1973
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C O M E N T Á R I O S
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Cecilia Travanca disse:
E como nos sentiamos bem com esse mundo de fantasia apesar de, mais tarde, se falar muito na "violência" dos desenhos... Se vissem alguns de agora...
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Luis disse:
Não posso dizer que tenha sido uma admiração que me tenha acompanhado ao longo da vida,mas as minhas primeiras recordações de cinema e leitura estão realmente ligadas a Walt Disney.E não sei se musicais,com as canções dos filmes...
Mas ao contrário de outros autores que reencontrei com prazer ao acompanhar as novas gerações não me aconteceu isso com a obra deste homem.Tenho que rever a Fantasia,ver se é como dizes...
Abraço.L
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Belão disse...
Vi todos! Em pequena, mais tarde com os meus filhos e há pouco tempo com o meu neto. As cores, a música, o movimento... nada tem a ver com o que hoje a criançada devora.
Mas os meus desenhos animados preferidos eram os do coiote e do Beep Beep, que até nem são da autoria de Walt Disney.
Quanto aos "quadradinhos", a minha preferência ia sem dúvida para o pato Donald.
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João Ramos Franco disse...
Apesar de ter visto algumas longas-metragens de WALT DISNEY, o que mais recordo da juventude são as curtas-metragens que passavam antes da projecção do filme principal. Na realidade o momento de boa disposição provocado pelos desenhos animados era, para mim, quase que imprescindível.
João Ramos Franco

PAU DE CABELEIRA (Everybody's Talking)

por José Manuel Franco



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-Não vou !-disse eu.
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-Oh Zé,vem lá.Se tu não fores também não me deixam ir.Vais ver que vais gostar.O Casino é divertido,devem lá estar os teus amigos das Caldas,raparigas da tua idade e podes estar atrás do palco a ver os músicos e a apreciar os truques do conjunto -argumentou a minha irmã,tentando convencer-me.

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Estávamos no Verão de 1970,como de costume eu passava parte das férias grandes em casa dos meus avós,em Alcobaça.Era a grande reunião familiar que se completava com aqueles que,por razões profissionais ou outras,só ao fim de semana se juntavam –pais,tios,irmã.

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A grande novidade desse Verão era o namoro da minha irmã.O jovem “chevalier servant” era um leiriense de mil ofícios e sete instrumentos,que por essa altura oficiava como instalador de equipamentos,técnico de som e o mais que aparecesse ,junto da banda residente (o conjunto ,como então se dizia) do Casino das Caldas da Raínha: a Xaranga Beat.

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Ora,ia ter lugar um baile especial ,não me perguntem porquê que eu não me lembro(seria o Baile do 15 de Agosto?),ao qual ,obviamente, o meu futuro cunhado queria levar a Teresa e esta estava desertinha por ir.Não só para estar com o namorado,mas também para fugir ao tédio das noites alcobacenses que pouca animação tinham para oferecer a uma jovem da sua idade.

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E aqui é que surgia o grande problema para cuja resolução a minha contribuição era indispensável-nem pensar em deixar uma rapariga de boas famílias ir de Alcobaça para as Caldas da Raínha,à noite,para um baile, em companhia de rapazes,um dos quais seu namorado,ainda por cima!

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Depois de muita argumentação e algumas ameaças veladas quanto a futuras trocas de favores,lá me deixei convencer e anuí a fazer aquela triste figura com a qual os meus amigos e eu tanto gozávamos a propósito dos desgraçados que se viam obrigados a emparelhar com as irmãs em festas,bailes,convívios e outras ocasiões onde a virtude e, sobretudo, a reputação das donzelas pudesse perigar-o Pau de Cabeleira.

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E foi assim que,na noite do grande acontecimento, o Luís Maduro que ,além de guitarrista do conjunto(o que “desabonava” a sua situação ), era também amigo de infância e tinha sido colega de escola da minha irmã,para lá de ser filho de amigos e colegas dos meus pais( o que abonava a seu favor),se apresentou em nossa casa pronto para nos transportar até esse sítio desconhecido e vagamente transgressor ,onde ,dizia-se,além de se dançar,se jogava às cartas e ,imagine-se, as mulheres fumavam.

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O Casino tinha uma entrada que, para um rapaz da minha idade,causava uma forte impressão.As portas corta vento de madeira dando acesso ao corredor de pé muito alto,encimado por um tecto em vidro curvado suportado numa armação em ferro forjado( o céu de vidro), ligando ao parque, o salão de jogo de um lado,continuado pelo bar, o qual por sua vez desembocava no salão de baile.Este desenvolvia-se perpendicularmente ao corredor ,era amplo e com várias portadas dando para o Parque D.Carlos.Alinhada junto a estas portadas uma fila de cadeiras,estrategicamente colocadas, para as senhoras,as quais assim não só beneficiavam do fresco do parque mas também controlavam as movimentaçãos das respectivas filhas ,das outras raparigas e lhes permitia ter uma visão próxima de quem dançava com quem,quem bebia demais e das toilletes de damas e cavalheiros.Não havia o perigo de falta de assunto, na Zaira, no dia seguinte!

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Ultrapassado este primeiro deslumbramento com a arquitectura,o ambiente e o”beautiful people” que ainda antes do baile começar já circulava pelo Casino,fui “ajudar” a montar e afinar os equipamentos e instrumentos da banda.

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Foi assim que conheci o Carlos Velez,guitarrista exímio,cuja interpretação do “Tico-tico no fubá “ainda hoje recordo, impressionado pela destreza das suas mãos,o António Achega, viola baixo e cantor,o Carlos Alberto ,teclista discreto e eficaz,o Rui Venâncio,baterista de batida forte e disposição festeira,o Carlos Cavalheiro que cantava tudo o que fosse preciso ,desde os Deep Purple até Bossa Nova,com garbo e distinção.Além ,claro, do já citado Luís Maduro cujo desempenho na viola ritmo ,sendo discreto,não deixava de ser importante .

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Está claro que ,apesar de amigos e companheiros de muitas noites e viagens,os músicos mantinham uma relação pautada por alguma tensão e rivalidade-aquela causada sobretudo por motivos relacionados com a incerteza quanto ao futuro,a guerra colonial estava no auge,a música era uma actividade adicional para alguns e única para outros, e esta por questões de saias.

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Com este enquadramento,as piadas,anedotas e partidas eram o pão nosso de cada dia.

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Não sei se foi nesta noite ou em qualquer outra semelhante que ,para se vingar de alguma sacanice,para ganhar uma aposta ou pura e simplesmente por gozo,o meu futuro cunhado desligou a viola ao Luís Maduro deixando-o a tocar a seco toda a santa noite sem que este desse por nada.

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A música era variada permitindo assim satisfazer as várias camadas etárias que acorriam ao Casino para conviver ,dançar e, no caso do pessoal adolescente, sacudir a ossatura e encostar às garotas com quem se tinham trocado olhares langorosos.

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Houve uma música em particular que me deixou forte impressão e ainda hoje, passados quase quarenta anos,recordo com nitidez o Achega cantando,magro ,alto,bigode negro,olhar de ave de rapina adejando sobre as raparigas que dançavam ou simplesmente assistiam,as mães alvoroçadas ,os pais encostados ao bar,discutindo tudo e nada,os jogadores na sala ao lado e o mundo, todo um novo mundo que eu estava a descobrir e que passaria a frequentar assídua e prazenteirosamente ,concentrado naquela sala e naquela canção:
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“Everybody’s talkin’ at me
I don’t hear a word their sayin’
Only the echoes of my mind…”



José Manuel Franco
2009.08.18
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C O M E N T Á R I O S
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Belão disse...
Para mim é sempre com muita saudade que recordo os tempos do Casino e do Xaranga Beat.
Achei imensa piada ao post do Franco e dei comigo a pensar na sorte que eu tive por não ter o problema da Teresa. Morava em frente do casino e não precisava do meu irmão para ir ao bailarico. Também se precisasse, bem podia esperar sentada, que ele não iria, nem com um favorzito para a troca. A queda para a dança veio toda para mim!
Não sei se o Franco não estará enganado no ano, pois penso que o Xaranga chegou no Verão de 1970, mas com Rui Burguete e Porfírio. Cavalheiro, Achega e Carlos Alberto são posteriores.Contudo, recordo também com nitidez a música a quem todos ligamos o Achega e que tão bem a interpretava.
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João Ramos Franco disse...
Falar do Casino é sempre do meu agrado. Mas vou retirar o ano de que Zé Franco nos fala, pela a simples razão de que nada sei das personagens de que fala. Nesta época já vivo em Lisboa.
Para quem o enfrenta pela primeira vez, faz nos uma boa descrição do interior do Casino dando-lhe vida, descrevendo a arquitectura e o ambiente que social com que se deparou.Um retrato com a vida do nosso Casino, do qual gosto do que me dá a ver…
Um abraço amigo
João Ramos Franco
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Margarida Santos disse...
Lindo, o velho céu de vidro! Esta aproximação que lá puseram agora não tem nada a ver. Que tristeza! Se o rei cá voltasse e visse aquela "coisa" nem precisava de levar um tiro para morrer outra vez!
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Isabel Esse disse...
Será que a malta nova ainda sabe o que é um pau-de-cabeleira?Julgo que não,mas posso estar enganada.
Já no ano passado se tinha aqui falado do Casino,mas esta história está bem contada e o casino bem descrito.
Julgo que a Belão tem razão,o Xaranga em 1970 ainda tinha o Rui Burguete como vocalista e não o Cavalheiro.
Gostei muito,espero que o autor tenha mais memórias e canções para nós.IS
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João Jales disse:
Bom conto do meu amigo J M Franco, com uma evocação colorida e animada de um tempo e um local que marcou uma geração. Os paus de cabeleira não eram um papel simpático de representar mas tinham que existir para que as garotas também se divertissem… Calhou a todos!
Espero que o autor, também um melómano conhecedor, regresse a este blogue onde tem lugar reservado sempre que quiser.
E agora, posso falar um bocadinho de Everybody’s Talking?
Nilsson é um excelente compositor e músico, sendo responsável por dezenas de grandes álbuns e canções mas, ironicamente, os dois grandes êxitos que teve eram versões de outros : “Without You” (dos Badfinger) e este “Everybody’s Talking” (de Fred Neil).
Fred Neil é um dos maiores músicos de que vocês nunca ouviram falar. Compositor profissional no início da década de 60 (interpretado por Roy Orbison, Buddy Holly, Bobby Darin, Tim Hardin, Lovin’ Spoonfull, Jefferson Airplane, Nilsson, etc), venerado por David Crosby, Richie Havens e Tim Buckley, e uma influência sempre citada por Stephen Stills, David Crosby, Joni Mitchell, The Holy Modal Rounders, John Sebastian, Jerry Jeff Walker, Karen Dalton, Tim Hardin, Dino Valenti, Peter Paul And Mary… Ajudou a tornar conhecido um tal Bob Dylan, deixando-o tocar harmónica e cantar algumas das suas composições nos seus espectáculos em Greenwich Village em 1961.
Retirou-se da música em 1975 para se dedicar à preservação dos golfinhos durante o resto da sua vida. The Dolphins, uma composição sua de 1973, conheceu dezenas de versões (procurem no Youtube - se possível a de Tim Buckley ).
JJ
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Isabel X disse...
Bem interessante esta perspectiva de José Manuel Franco, vindo de Alcobaça, sobre o casino. Lembro-me muito bem destes bailes e de como as músicas eram tão bem tocadas pelos Xaranga Beat. Acorriam pessoas de outros locais, além das Caldenses e de quem passava férias nas Caldas, com destaque para S. Martinho. Quem ganhava sempre o título de miss casino, e com toda a justiça, era a Ana Vieira Lino.
Lembro-me da Isabel Marçal (de Lisboa) me contar mais tarde quanto estranhava ver nesses bailes miúdas de quinze anos de vestidos compridos... Aquilo era giro, mas uma espécie de "ilha", na qual sobreviviam práticas algo invulgares para quem vinha de fora.
Muito úteis as explicações do JJ, que contribuiram para esclarecer a importância destas músicas, praticamente geracionais.
O vidro do actual "céu de vidro" nada tem com o que nós conhecemos, de facto, penso que já nem se fabrica nada de semelhante...
- Isabel Xavier -
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Ana Carvalho
disse...
Zé (posso tratar-te assim?), sê muito benvindo ao nosso querido blogue. Adorei o texto voltei aos tempos de verão do Casino, de que tenho imensas saudades e relembrei aquela famosa banda, "Xaranga Beat", que nos divertia imenso.
Até assistiamos aos ensaios, que eram à 2ª feira, salvo erro, e nos quais colaborávamos bastante, havia quem cantasse, quem tocasse bateria...enfim uma noite bem passada; só até à meia noite, claro, porque as meninas eram bem comportadas e deitavam-se cedo!!!
Que saudades, tempos bons esses. Bjs PP
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Miguel Cruz Gomes disse...
Olá Franco
Daqui um S. Martinhense convicto, mas de uma geração mais abaixo. Os meus anos já não são do Casino das Caldas, mas sim do "Ferro Velho" e posteriormente dos 1ºs anos do "Green Hill".
No meu caso não tive irmãs, mas afianço-te que o denominado "Pau de Cabeleira" ainda existia. Era passsageiro e só durava o tempo que levava a rapariga ou a contestar os pais, ou como aconteceu em todas as gerações, a dizer ao irmão, ou irmã, que fosse dar uma curva (nada que os mesmos não estivessem desejantes).
O que eu estou a descobrir, com os meus sobrinhos, é que hoje em dia estes paus de cabeleira podem estar muito diluídos, mas que existe agora uma figura nova: Um pai (menos vezes uma mãe, mas já vai existindo) sentado no carro à porta da Discoteca (com um ar "muita chateado") por volta das 4 da manhã, para ir buscar os crianços
.Algumas destas novas personagens, as que têm sorte, têm permissão dos "meninos" para entrar e esperar lá dentro, outras nem tanto.
Um abraço amigo (de um pai que daqui a uns anitos deverá estar nestas andanças)
Miguel Cruz Gomes
P.S.: Como era dito num dos comentários, ficamos á espera de mais...
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Pedro Santos disse...
Gostei de ler a novela,embora a irmã do autor e o namorado tenham ficado esquecidos a meio,no que devia ter sido um final feliz(ou infeliz,como nos amores do João Jales!).Mas isso é um pormenor,concordo com os restantes comentadores que este é um bom retrato de um local que eu,que sou mais novo,não conheci tão bem.
Os comentários do JJ sobre música são sempre curtos e informativos,mas discordo da Isabel quando ela diz que estas músicas são apenas desta geração,muitas delas continuam a ser boas apesar da idade e esta canção que conheci num filme é um exemplo.
A minha geração aparece pouco aqui no blogue,só vi alguns mais novos quando publicaram a fotografia da D. Clarisse,mas sou um fã incondicional!P
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Isabel X disse...
Claro que o valor das músicas não está em causa! Digo "praticamente geracionais" porque marcam uma geração. Há modas nas músicas, como em tudo o resto, mas muitas delas (como é o caso) nunca esquecem. O que disse foi para reforçar a pertinência dos esclarecimentos do Jales, pois muitos de nós (eu por exemplo) não sabemos nem uma pequena parcela do que ele sabe sobre música. Mais úteis se tornam as explicações dadas por ele quando pode haver quem não conheça tão bem as músicas por pertencer a outra geração.
- Isabel Xavier -

09/09/09

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Quarenta anos depois da última gravação dos Beatles como grupo, precisamente em Setembro de 1969, vamos poder usufruir finalmente de todas as gravações oficiais do grupo em formato digital, na melhor qualidade que é possível com a tecnologia de que dispomos hoje.
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Os CDs dos Beatles disponíveis no mercado até hoje eram puras transcrições feitas a partir da mistura final de estúdio e não a partir das gravações originais. Daí que a grande maioria dos amantes da sua música preferissem sempre ouvi-los, com melhor qualidade, nas edições originais em vinil. É este o motivo, para quem não sabia, do enorme entusiasmo e excitação que rodeiam este lançamento, que não é uma simples reedição.
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A música dos Beatles faz parte integrante da vida de todas gerações da segunda metade do século XX, independentemente do gosto pessoal de cada um.
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Isto porque nunca mais o mundo parou à espera de um disco, nunca mais a gravação de uma canção foi televisionada para o mundo inteiro (e hoje seria fácil fazê-lo), nunca mais uma afirmação de popularidade de um músico (“we’re more popular than Jesus” – e eram) incendiou os E.U.A. e motivou autos de fé, nunca mais o FBI contratou Elvis Presley para espiar quatro adolescentes, nunca mais uma canção teve mais de quatro mil versões gravadas, nunca mais nenhum grupo vendeu tantos discos , nunca mais nenhuma geração ouviu o que um bando de adolescentes tinha para dizer sobre a guerra, a humanidade e o futuro (e eles pouco sabiam sobre tudo isso…), nunca mais um Presidente telefonou dezenas de vezes ao seu director nacional de segurança perguntando se um músico já tinha sido expulso do seu país (e não foi, Nixon também não teve essa satisfação), nunca mais outra banda teve sistematicamente os seus discos em todas as votações da melhor música do século XX (vejam a última lista da Rolling Stone), nunca mais se mantiveram durante anos estações de rádio (não digitais) só com as canções de um grupo.
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E a música, alguém ainda quer saber da música? Eu espero ansiosamente a caixa com 14 CDs que encomendei há semanas numa loja online, como se a fosse ouvir pela primeira vez. V
em aí aquela que é verdadeiramente a Banda Sonora da Minha Vida.
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JJ
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COMENTÁRIOS
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Artur R. Gonçalves disse...
Sempre tive uma certa dificuldade em eleger a música, o livro e o filme da minha vida. Prefiro falar das músicas, dos livros e dos filmes que marcaram momentos importantes da minha vida. Limitar o leque de preferências a um caso singular em cada género incomoda-me um pouco. É como se estivesse a pôr o derradeiro ponto final num testamento que não me sinto ainda preparado para assinar. Entretanto, vou exercitando os sentidos para captar o belo à medida que ele vai surgindo.
Os Beatles não é a Banda Sonora da Minha Vida. É uma das bandas que ouvi com muito prazer ao longo da minha vida e espero continuar a ouvir na companhia de outras. Dispor de 14 CD's em formato digital é um privilégio que só a tecnologia actual tornou possível. Ironicamente, é um prazer que só poderá ser usufruído por 50% dos elementos que compuseram o agrupamento. Nós ainda teremos a oportunidade de ouvir todas essas gravações. Nalguns casos pela enésima vez. O pior é quando a nossa audição já não ouve com o mesmo desembaraço como o fazia há quarenta anos atrás. É como se dispuséssemos da obra completa de Shakespeare e não conhecêssemos suficientemente o inglês isabelino para prescindir de uma qualquer tradução.
Mas isto são divagações pessoais sem grande sentido para todos aqueles para quem o 09/09/09 passará a constituir, porventura, a Capicua da Sua Vida. Esperemos pelas novidades que nos trará 10/10/10. É já daqui a 13 meses.
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J J disse...
Obrigado ao Artur pela sua pertinente reflexão.
Já uma vez com uma comentadora deste Blog tive oportunidade de discutir esta questão, a propósito do lançamento desta série. Não será possível que ainda esteja por ler, ouvir ou ver o Livro, o Disco ou o Filme da nossa vida? Penso que o Artur, como a referida amiga, defende que sim.
Eu julgo sinceramente que não, não só pelas condições de produção artísticas actuais como pela minha incapacidade de constituir hoje um terreno tão impressionável como era na minha adolescência e juventude. Realço que falo por mim, não defendo que seja assim com toda a gente, gostaria de ouvir outras opiniões e tenciono voltar brevemente a este tema.
Mas a minha audição, que é para mim um instrumento de trabalho, está óptima, foi medida há pouco tempo e vou portanto poder usufruir das melhorias sonoras incluídas nestes CDs.
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Fernando disse...
Se havia um "fanático" dos Beatles era o JJ!O fantástico texto que escreveu neste blogue sobre o Srgt Peppers demonstrou-o amplamente a todos o que ainda o ignoravam.
Eu concordo com tudo o que é aqui factualmente referido mas o meu coração musical balança por aqui mas também por outros lados...
Esperemos pela continuação. Fernando
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J.L. Reboleira Alexandre disse...
A situação do Artur é talvez aquela que assenta melhor à maioria de nós.
Já quanto à dúvida que levanta, sobre se ainda está para aparecer a música da vida dele, aí não entendo. É que se em termos de audição, e depois de recente limpeza geral, também não estou muito mal, já o facto de não estar mais disponível para fazer 1400 Kms de carro em 2 dias, para ver o «meu grupo preferido», como o fez o meu descendente mais jovem (21 anos, idade linda)no último fim de semana, quer dizer muito.
Por isso, I will give up, e considero um facto adquirido que por muito boa vontade que possa ter, a música, ou as músicas da minha vida já estão todas cá fora, e infelizmente a maioria dos autores já nem andam entre nós.
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Isabel X disse...
A tolerância é a única atitude razoável porque nos é vedado viver a vida dos outros, experienciar as suas experiências. Mesmo que isso fosse possível, como cada um de nós é um ser único e irrepetível, senti-las-íamos de um modo diferente, e seria diferente o efeito que em cada um de nós causariam.
Penso (tenho quase a certeza) ser eu a amiga a quem o amigo João Jales se refere e em conversas que mantivemos, estivemos de acordo pelo menos num ponto: é que a recordação que vamos tendo do passado vai mudando ao longo do tempo e é em cada momento o resultado da reconstrução mental que nos faculta uma memória que é activa, e ainda bem. O que me faz impressão não é descrer da capacidade de agora se criar algo superior ao que criaram os Beatles, ou a quem quer que nos tenha emocionado na adolescência; o que me parece incompreensível é assegurar de antemão que já não se possui a capacidade de emoção comparável à desse tempo só porque se é mais velho. Parece-me uma estratégia de defesa que se coloca à vida e à urgência de vivê-la plenamente ao longo de todo o seu tamanho. É alguém condenar-se a viver de um modo um pouco menor, um pouco amputado, faz-me pena.
Diz-se que "recordar é viver", mas essa frase para mim é de questionar quando acontece fixarmo-nos ao passado com tanto afinco. Quando eu digo que não me lembro do passado, algo que tem sido contestado por alguns dos meus colegas comentadores, digo-o também um pouco por provocação, para fazer pensar. Mas, de facto, tenho que me esforçar por recordar coisas em que nunca mais havia pensado, talvez porque não considero os episódios desse tempo mais marcantes dos que vivi num passado mais recente, dos que vivo agora e, espero, dos que viverei no futuro!
-Isabel Xavier -
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António J M disse...
Comentou-se muito mas ainda ninguém disse que:
1.Este texto tem muito "coração", reflecte muitas emoções de quem o escreve.
2.Este texto tem muita "informação",gostava de saber melhor alguns dos temas que aqui se abordam.Saberá o Fernando que há uma continuação?
3.Este texto tem muita "paixão" porque só quem tem um lugar muito grande na sua vida para a músuca escreve omo o autor escreve(hoje e anteriormente).
4.Quem sabe se a recordação será ou não mais forte que a próxima emoção que vai sentir?Aqui não concordo com o JJ.
5.Depois de ler este texto reli o do Sargent Peppers e digo:é ainda melhor que este,experimentem relê-lo.
Abraço.AJM