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Em plena adolescência, o Verão era passado entre a Praia de Mira, combatendo as suas ondas telúricas e os olhos postos na prancha de saltos da Barrinha, e os dias quentes vividos no campo, perto de Miranda do Corvo, acompanhando os ciclos das culturas do milho, da apanha da fruta e, apoteoticamente, das vindimas. Era tempo de “vadiar”, no sentido que lhe dava Agostinho da Silva, dias intermináveis de felicidade pelas brincadeiras incansáveis e pelas amizades incondicionais.
O cinema já era uma paixão, vivendo em Coimbra, não havia semana que não peregrinasse ao Tivoli, ou ao Gil Vicente ou, por vezes, o arriscar no Sousa Bastos um filme mais “marginal”.
Em Miranda não havia cinema, o mais próximo ficava a 8 km, na Lousã, pelo que aos domingos à tarde pegava-se na bicicleta e, em pelotão, lá rumávamos nós ao cinema ver o que estivesse em cartaz.
Um filme teve em nós um efeito muito especial porque ficou associado a brincadeiras que haveriam de nos fazer rir até às lágrimas. O filme foi o “Há Festa na Aldeia”, de Jacques Tati, o qual contem uma sequência verdadeiramente delirante, precisamente aquela em que o carteiro corre a aldeia, numa viagem vertiginosa de bicicleta, sequência essa que nos faz suster a respiração de tanto rirmos, a qual haveria de se tornar fonte de inspiração e imitação para os nossos passeios e ousadias velocipédicas.

É claro que a plateia acalmou, mas não o seu efeito e as repercussões no estilo e na forma como, no próprio dia e nas semanas seguintes, haveríamos de encarar e utilizar a bicicleta, companheira inseparável de todas as férias.
Nas descidas era ver-nos, a toda a velocidade possível, com o torso muito aprumado, a cabeça bem levantada, pedalando desenfreadamente e gritando: “cuidado que lá vem o carteiro da Lousã!”. Confesso que o estilo não se impôs, rapidamente se regressando à expressão de “sapateiro da Lousã”, por força e vontade do filme seguinte, e dos outros que se lhe seguiram.
Os filmes do realizador, e também actor, Jacques Tati haveriam de voltar a cruzarem-se comigo ao longo dos anos seguintes, por via dos ciclos de cinema temáticos que o Gil Vicente organizava frequentemente, registando a cinematografia de Tati como uma das mais decisivas na consolidação da paixão pelo cinema, confirmada também por via de alguns grandes amigos admiradores confessos do cinema inconfundível de JT, dos quais saliento o José Alemão.
Quanto ao “Há Festa na Aldeia”, eis alguns dados que podemos partilhar, disponíveis ao alcance de um click:
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Há Festa na Aldeia
Jour de FêteCady Films / Panoramic FilmsFr., 1949, 76m (versão 1949) / 70m (versão 1995) , comédiaRealizador: Jacques TatiArgumento: Jacques Tati, Henri Marquet e René WheelerActores: Jacques Tati, Guy Decomble, Paul Frankeur, Santa Relli, Maine Vallée, Delcassan, Roger Rafal.

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A primeira longa-metragem de Jacques Tati é uma deliciosa comédia que abre caminho para o percurso que o realizador veio a desenvolver ao longo da sua carreira e onde é possível identificar as raízes da sua mais famosa personagem: Mr. Hulot. Tendo como ponto de partida a curta-metragem L’École des Facteurs, realizada por Tati dois anos antes, Há Festa na Aldeia é muito mais do que um simples remake: é uma verdadeira homenagem a uma época cinematográfica distante, que tinha na comédia física e na pantomima as bases do humor e que mostra o porque de Jacques Tati ser uns dos mais geniais cómicos franceses.
A intenção do realizador era a de rodar o filme integralmente a cores, utilizando, o então experimental processo Thomson-Color. Mas devido à incerteza da viabilidade do processo, Tati resolveu filmar, ao mesmo tempo e utilizando uma segunda câmara, uma versão a preto e branco. Embora a rodagem tenha corrido sem problemas, a revelação da película a cores verificou-se impossível devido a problemas técnicos e o filme foi estreado na sua versão a preto e branco, que é a mais conhecida do público.
Em meados da década de 60, Jacques Tati decide realizar uma nova versão de Há Festa na Aldeia à qual acrescentou uma nova banda sonora, novas cenas (filmadas de propósito e onde surge, pela primeira vez, a personagem do pintor) e coloriu algumas cenas do filme. Esta nova versão, que manteve o mesmo tempo de duração, substituiu a anterior a preto e branco nas salas de cinema.
Em 1987, a filha de Tati, Sophie Tatischeff, e o director de fotografia François Ede iniciaram o restauro do filme original a cores e a nova versão estreou em 1995, que é a que actualmente é exibida no cinema e na televisão. Esta versão permite ver melhor, e em todo o seu esplendor, o trabalho de Tati e a atenção que o realizador dava ao aspecto visual. Os poucos diálogos e música que existem no filme e que é uma característica que Tati utilizou e dominou como poucos ao longo da sua carreira, ajudam apenas a reforçar a mensagem visual.
O apelo universal da linguagem desenvolvida por Jacques Tati é de tal maneira forte que o realizador se tornou numa referência do cinema francês, influenciando gerações de realizadores, como os arquitectos da Nouvelle Vague, e que ainda hoje torna os seus filmes bastante populares em todo o mundo. Há Festa na Aldeia é um excelente exemplo disso mesmo.
NB
Colorida descrição Nicolau Borges, gostei muito, fez-me até, uma vez mais ter pena de não ter aprendido a andar de bicicleta. Valeu pelo que me despertou pelo Jacques Tati.
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Laura Morgado disse...
Adorei esta "Festa na Aldeia".
Que saudável "vadiagem" e passeios pelo "Há Festa Na Aldeia".
Eis um texto à altura do realizador que referencia: Jacques Tati! É evidente quanto o seu autor se revê no estilo inconfundível do cineasta francês.
Também me lembro muito bem do meu querido antigo aluno, que há-de continuar a sê-lo sempre um pouco, pelo menos para mim, giríssimo e muito divertido, o "Bolos"! Era esta a alcunha do filho da Belão, minha antiga colega do ERO, que também o é agora de profissão e de blogue.
O "Há Festa na Aldeia" que li com muito agrado,fez-me lembrar não as minhas "viagens vertiginosas de bicicleta",mas a mimha aprendizagem a andar de bicicleta.Joelhos esmurrados,de vez em quando,mas nada mais do que isso,a não ser saber andar de bicicleta!




