ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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UM ANGLIA EM ÓBIDOS

por Fernando Santa-Bárbara



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Ao dar volta ao meu sotão (leia-se caixa dos pirolitos), lembrei-me de uma história passada aí há uns 50 anos, comigo, João Ramos Franco (João Traga Balas) e o Clóvis Remígio de Sousa.
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Então foi assim (como agora se diz):
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Estávamos, uma bela noite e devia ser numas férias, pois eu só cá vinha de férias, a pensar o que iríamos fazer!

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Conversa para aqui, conversa para acolá, até que o João disse:

- " E se fôssemos dar uma volta no Anglia? " (O Anglia, era o carro do Pai - Dr. Ramos Franco, Médico-Veterinário em Caldas da Rainha).
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Claro que ninguém tinha carta, mas dissémos logo que sim! Fomos direito à garagem, que servia também de consultório, buscar o Anglia.
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Onde vamos, onde não vamos e lá fomos até Óbidos! Durante a viagem não houve qualquer problema. Chegados a Óbidos entrámos e fomos direitos ao Largo da Igreja de Santa Maria que, salvo erro, tinha umas escadas em vez de rampa.
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Aqui, eu e Clóvis saímos do carro, para o João mostrar os seus dotes de condutor! Arranca para a frente e resolve fazer de seguida marcha atrás, esquecendo-se que estava um "senhor plátano" nas suas traseiras! E zás, traulitada no plátano e pára-choques metido para dentro!
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Claro que nós dois partimo-nos a rir a ver a cena e a imaginar o momento em que o Dr. Ramos Franco visse o carro!

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Acabaram-se as habilidades e regressámos às Caldas. Depois foi só meter o carro na garagem mas de maneira que, quando o Pai entrasse, não desse com os estragos. E assim lá entrou de marcha atrás,o que não era habitual, pois o Pai metia-o sempre de frente!
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Para acabar a noite o João Traga Balas, ainda tentou endireitar o pára-choques com o cabo de uma vassoura a fazer de alavanca. Claro está que aquele se partiu e o bom do João bateu com os "costados" no chão!
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Imaginem esta cena e o que nós nos rímos!
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João, desculpa lá dar a conhecer esta História da Nossa Vida, mas nunca soube como foi o final, isto é, o que se passou a seguir?
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Com um abraço
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Fernando Santa-Bárbara


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Publicado em colaboração com o blogue Estar Presente (João Ramos Franco)
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C O M E N T Á R I O S
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João Ramos Franco respondeu:
A seguir a tu ires para casa, eu e o Clóvis (aluno da Escola Comercial), fomos até ao Marinto beber mais umas cervejas e jogar bilhar… sempre com ele a gozar comigo, cada vez que pegava no taco para dar uma carambola, ele dizia: vai mais uma volta do raly…
Esta e outras aventuras do João Traga-Balas, (João Ramos Franco) serão contadas, mas como não foram só vividas por mim, coloca-se o "conto eu, contas tu" e parece-me que dar a palavra aos amigos que também as viveram torna-as mais interessantes.
Obrigado, Fernando Santa-Bárbara!
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J J disse...
Este episódio, relatado pelo Fernando Santa-Bárbara, vem mostrar que diversas gerações de caldenses desviaram os carros familiares de forma a alargarem os seus horizontes e o seu campo de acção.
Uns mais discretamente do que outros...
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Julinha disse:
Se Óbidos "falasse" quantas estórias dos meninos do ERO teria para contar! Girissimos estes textos que nos contam estas aventuras.
Obrigada
Júlia R
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São Caixinha disse:
Divertidissimo...gostei muito!! ;))
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Isabel Esse disse...
Já repararam que nunca há raparigas convidadas para participar nestas aventuras?Porque será?
À parte isso a história é divertida,embora o João Ramos Franco não tenha respondido completamente à pergunta do escritor sobre o que se passou a seguir!IS
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Dalila Garcia disse:
Gostei do comentário da Isabel Esse, que até agora não teve resposta! :-)
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João Ramos Franco respondeu:
A Julinha disse que se Óbidos "falasse" quantas estórias dos meninos do ERO teria para contar! A resposta à Isabel Esse penso que está nas palavras da Julinha!?...
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M Rosário Pimentel disse:
O plátano no local errado e à hora errada e não teriamos mais uma estória divertida,por cujo final ficamos a aguardar com curiosidade...
MRosário Pimentel
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Fernando Santa-Bárbara disse...
Para responder à Isabel Esse, que não tenho o prazer de conhecer, só lhe quero dizer que, se as raparigas não faziam parte destas aventuras, a culpa não era nossa!
Já pensaram quais eram os Pais que, nos finais dos anos 50, as deixavam sair à noite, a não ser para irem ao Casino? Pois é, nós bem gostávamos de as ter como companheiras...
Bem, o João já contou o resto da estória!
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CORREDORA DE AUTOMÓVEIS

Este post é um comentário da Ana Lúcia, a que foram
acrescentadas duas imagens escolhidas pela autora.
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"O Peugeot da Avó" é uma fantástica narrativa. É um texto que deixa algumas saudades desses belos tempos de infância e, como alguém comentou, nos faz pensar que houve realmente gente que se divertiu à grande...

Na altura em que eu era miúda, e na aldeia onde passei o tempo que vivi em Portugal, os meus pais eram dos poucos que se davam ao luxo de ter carro. Assim sendo, como podem calcular, o trânsito era mínimo.
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Eu, apesar de ser filha única e rapariga, fugia um pouco à norma, apesar de muita
gente se lembrar de mim como muito bem comportada e calada.
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Enquanto cresci, o meu pai tentou sempre ensinar-me a ser auto-suficiente. Dizia ele muitas vezes: - "hoje em dia as raparigas têm que saber defender-se e, se conduzem um carro, têm que saber como se desenrascar se houver uma avaria", parece que o estou a ouvir... E para tal era imperativo saber mexer num carro, motor e tudo o mais. Às escondidas, e muito contra a vontade da minha mãe, que achava que carros eram coisa de rapazes, o meu pai ensinou-me a guiar tinha eu os meus 12 anos. Assim cresceu o meu gosto por carros. Naquela altura tentava competir com o meu tio, somente mais velho que eu uns quatro anos, em conhecimento automóvel, sobre as últimas novidades em modelos, etc.
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Um dia, entre o casal que nós tínhamos e a casa onde residíamos, o meu pai deixou o carro por minha conta. Fez isso muitas vezes, embora o percurso não fosse nada fácil. Uns 2 quilómetros em estrada de terra batida com uma ladeira que, nos melhores dias, exigia geralmente duas ou três tentativas para subir. Com cuidado e muitas dicas do meu pai lá fiz a ladeira na primeira tentativa e, como calculam, fiquei muito orgulhosa de tal feito. Como já referi a estrada era de
terra batida mas só dava para um veículo; carro, mota, bicicleta, carro de bois, carro de mão, cavalo, etc., e, para agravar a situação, se dum lado havia uma valeta do outro havia um morro. Calculo que já estejam a ver a cena, para um veículo ou animal passar, o outro teria de parar ou abrandar. O que eu não vos disse ainda é que o carro em questão era um Citroen Ami 8, o meu pai adorava Citroens.
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Para quem gosta de carros franceses, este carro tinha algo de especial. O Ami 8 veio substituir o Ami 6. O primeiro carro que eu conduzira tinha sido o Ami 6 e, como devem calcular, conduzir um carro novo era algo muito especial. O Ami 8, além de todos os melhoramentos, carroçaria redesenhada, etc., etc., era o primeiro carro francês que utilizava injecção electrónica. Que bomba!
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Como disse, a ladeira foi um sucesso mas, numa das
curvas, sem visibilidade e comigo a acelerar um pouco, deparei-me com uma mota vinda em sentido oposto. Não, não bati em ninguém, não danifiquei o carro, mas algo bem mais incrível aconteceu naquele momento. Se eu conseguira dominar aquela máquina, com certeza que não teria o menor problema a conduzir veículos de alta competição! De repente cresceu em mim o desejo de ser corredora de automóveis...
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Um sonho que não se tornou realidade.... O ano passado quase me inscrevi na semana de treino do Clube Touareg, só não o fiz porque o meu trabalho não mo permitiu, mas o próximo provavelmente não escapa.
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O meu pai teria feito o possível para que o meu desejo se tornasse realidade mas com a minha mãe a caso foi bem diferente... Eu conto noutra altura.
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Ana Lúcia
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C O M E N T Á R I O S
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JJ disse:
Passadas as Santas Festas, estava o Blog em sossego com um bom lote de fotografias muito bem arrumadas e prontas para publicação, quando subitamente irrompem, pela pena do João Serra, o Virgílio Rui, perdão, Virgílio Ruy e o Luís Pinto Ribeiro num Mini (gamado à mãe deste) em trânsito para o Aeroporto!
Desde aí instalou-se a bagunça e a despudorada apologia da transgressão neste espaço: conduz-se sem carta, rouba-se o carro à avó, partem-se semi-eixos e caixas de velocidade, há pais que ensinam meninos de dez e meninas de doze anos a conduzir, a Julinha trocou os pés (ou os pedais?) na aula de condução… que mais revelações e confissões escabrosas irão ainda surgir?
E, como mostra este excelente relato da Ana Lúcia, receio bem que isto ainda não tenha acabado…

João Serra disse:
O fascínio pelas máquinas e pela partida (aeroportos, horizontes abertos, viagens reais ou imaginárias) é nos portugueses coisa antiga e transversal. Entretanto a senda do bom humor prossegue no blog. Vem aí o Carnaval. Que mais irá acontecer?
JS
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Maria Manuela Gama Vieira disse:
Abençoado o comentário do JJ ...é mesmo fantástico que "isto ainda não tenha acabado"!
:-)
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Luis disse:
Se "isto" é o blogue, nunca mais deve acabar! Gostei especialmente da sucessão de histórias que uma recordação gerou,um pouco como aquelas conversas que se diz que são como as cerejas...
Pelo que percebo das meias palavras do JJ-que nunca nos conta tudo,como já repararam-ainda vai haver mais posts sobre os malucos dos automóveis!Espero que sejam tão interessantes como esta aventura da Ana Lúcia,já imaginaram bem uma miúda de doze anos a conduzir uma Ami por um barranco de terra batida acima?
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Isabel Esse disse...
Recordo-me efectivamente do Dr. Serafim ter num comentário anterior descrito a Ana como calma e sossegada ou coisa do género.Mas é uma verdadeira maria rapaz que aqui aparece nesta verdadeira aventura.Qual é a verdadeira Ana Lucia?
Gostei muito de ler,claro.Beijo.IS
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M Rosário Pimentel disse:
Gostei imenso de saber que não só os rapazes mas também meninas,como a Ana Lúcia,foram tão precoces nas artes da condução automóvel.
Com ela,só tenho um ponto em comum - o privilégio de um Pai que, no seu zelo pelo futuro dos filhos,para além de um Curso Universitário eles teriam,também,de tirar a Carta de Condução.Os meus Pais consideravam o primeiro como fundamental e indiscutível mas a segunda era como que um complemento.
Assim,um Domingo à tarde,como habitualmente,meu Pai dirigiu-se à garagem e perguntando-lhe pela Mãe,ouvi surpresa:
-Hoje não vamos passear.Vou ensinar-te a conduzir!
Maria do Rosário Pimentel
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CAIXA DE QUATRO OU CINCO VELOCIDADES?


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Renault Dauphine

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No inicio dos anos 60 o meu pai resolveu comprar um carro. Entre o Renault Gordini (4 velocidades para a frente e uma para trás), e o Renault Dauphine (3 velocidades para a frente e uma para trás), optou pelo segundo.

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Aspecto exterior igual mas de preço e performance diferentes.

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Um dia deixou-me conduzir um pouco e lá segui para Caldas. Primeira… arranco, entro na estrada principal, por alturas da saída de S. Martinho meto a segunda… e vai de acelerar… meto a terceira, apanho a recta da Caldeira e perto deste edifício… bem lançado… meto a quarta e… era uma vez um carro!!! Não chegou a Alfeizerão...
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Um abraço
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A.Justiça
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C O M E N T Á R I O S
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M Rosário disse:
Concluo que o Pai fez a opção de compra certa...!
MRosário Pimentel
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Manuela Gama Vieira disse:
Eu bem dizia que este blog tinha futuro...
Não percebo nada de carros,mas lembro-me bem do fascínio que as "máquinas" e a sua condução suscitavam na juventude do nosso tempo,um sucesso!
Diverti-me imenso com as peripécias trabalhosas e arriscadas descritas pelo Jales em "O carro da Avó",tal como me diverti com o A.Justiça que descreve a sua "breve" viagem como se de uma aula de dança se tratasse...os passos foram substituídos pelas mudanças...
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Guida Sousa disse...
AH!AH!AH! gostei!
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Julinha disse:
Se era de quatro,foi o que foi.....imagino se fosse de cinco !!!!!!
Muito engraçada esta descrição da viagem do Renaut Dauphine.
Júlia R
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J.L. Reboleira Alexandre disse...
Não duvido que os carros tinham algumas mudanças para a frente, uns mais que outros, mas pelo menos tinham em comum uma mudança para trás. Nada mudou neste aspecto. Ficou bem explícito no texto.
Não nos diz nada é sobre as outras opções. Volante eléctrico, telescópico, e mais não sei quê. Assentos programáveis e aquecidos, com diversos graus de temperatura. Nem falo no A/C automático. Sistema de navegação. Nada sobre os pneus igualmente, ficamos sem saber se seriam de 13 ou 20 polegadas.
Quero com isto dizer que o Justiça faz uma descrição sumaríssima do seu primeiro, imagino, automóvel. A única razão para tanta falta de informação, deve-se sem dúvida à memória que apagou todos os outros detalhes do pópó, de certeza....
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Alfredo disse...
Ó Zé Luís
O que achas que aconteceu ao carro depois de, em velocidade, ter metido uma quarta num carro de três velocidades para a frente?É claro que foi a marcha-atrás que entrou e a caixa de velocidades ficou em "fanicos".
Um abraço
A.Justiça
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O PEUGEOT DA AVÓ

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Já algumas vezes me perguntaram quanto tempo demora uma viagem Foz do Arelho – Caldas a pé. É uma pergunta difícil mas diz-me a experiência, agora que o texto do João Serra sobre as noites do Virgílio Pestana me avivou a memória, que depende das circunstâncias, da hora do dia, das condições climatéricas e até da família do caminhante.
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Passo a explicar.

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A garagem ficava ali no primeiro quarteirão da Rua da Fonte do Pinheiro, uma transversal à Av. Primeiro de Maio, muito perto de onde vivo ainda hoje. Ao lado havia uma pequena taberna, local de encontro de vizinhos e amigos, hoje desaparecida. Para quem conhece as Caldas, ficava mesmo por trás da actual Farmácia Rosa. A rua é estreita, qualquer carro que ali passava era ouvido pelos moradores, que na altura eram mais que hoje e se conheciam melhor. Esse era o problema! Porque dentro da garagem estava o automóvel da avó do João Hespanhol que significava a possibilidade de uma viagem às inúmeras atracções oferecidas pelas povoações próximas das Caldas e que seriam de outra forma inacessíveis. E eram tantas … Foz e S. Martinho eram irresistíveis no Verão, Alfeizerão e Óbidos todo o ano, Bombarral, Vermelha e Cadaval tinham magníficos bailes das Vindimas, lembro-me de locais inesperados como o Campo, a Sancheira, o Painho, Salir, etc, terem festas e bailaricos de dimensões surpreendentes, comiam-se umas bifanas inesquecíveis na Matoeira e nas Gaeiras… Claro que a maioria dos frequentadores e residentes desses locais suspiravam por vir às Caldas ao Casino, ao Ferro Velho ou à Azenha e percebiam mal como é que alguém fazia o trajecto inverso, mas suponho que esse seja um eterno mistério do comportamento humano.

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Mas, com tudo isto, esqueci-me do Peugeot 203 que estava dentro da garagem.

Como eu estava a explicar, não era possível retirar a viatura com o motor a trabalhar porque isso atrairia a atenção dos vizinhos e, principalmente, da sua proprietária, a avó do meu amigo que vivia mesmo por cima. O facto de nem ele nem nós, os seus companheiros de viagens, possuirmos carta de condução contribuía fortemente para a relutância da senhora em emprestar o tão desejado meio de transporte. Era pois necessário abrir o portão e empurrar o carro à mão, só usando a ignição depois de virar a esquina da Avenida. A partir daí, era sempre a abrir! Os viajantes (aventureiros) e os locais de destino foram variando ao longo do tempo.
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Foi o último baile da época balnear na FNAT que nos atraiu nessa noite para a Foz: eu, o Miguel Bento Monteiro, o João Hespanhol (conhecido pelo Spa) e o Santiago Freitas (o Freitax). Juntámos oito paus para dois litros de gasolina, que metemos na bomba frente ao Quartel, e lá fomos. Tivemos a habitual dificuldade para entrar, penso que os bailes eram reservados aos residentes e meia-dúzia de habitués, e a enorme decepção de verificar que o último turno de veraneantes era constituído só por adultos, muitos já idosos, não incluindo as formosas donzelas com que sonháramos ao idealizar a viagem.

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Foram pois quatro desiludidos adolescentes que, à uma da manhã, decidiram voltar para as Caldas. Uma última tentativa de ir beber uma cerveja ao Hotel do Facho esbarrou no silêncio e escuridão do edifício onde os hóspedes já dormiam não havendo, neste final de Setembro, forasteiros que mantivessem o bar aberto até estas horas, como acontecia frequentemente em Julho e Agosto…O condutor deu a volta e quis aproveitar a luz dos faróis para ver o mar mas, quando travou, ouvimos um barulho de metal a ceder e a parte de trás do automóvel assentou no chão! Saímos todos e, embora desconhecendo os princípios básicos do funcionamento de um Peugeot 203 (ou de qualquer outra viatura motorizada) percebi, pelo tom de voz com que o diagnóstico foi pronunciado, que era certamente grave:

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-Partiu-se o semi-eixo!

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Era mesmo grave; fiquei a saber que, naquelas circunstâncias, a imobilidade do veículo é tão irresolúvel como a do mais teimoso dos burros. As rodas traseiras faziam um ângulo de 45º com o solo, os guarda-lamas estavam amolgados, as portas abriram mas já não fecharam convenientemente… um cenário de verdadeira catástrofe.

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Com tudo isto eram duas da manhã, as Caldas estavam a dez quilómetros e rapidamente verificámos que nenhum veículo (principalmente o nosso) iria percorrê-los antes da manhã seguinte. Restava-nos regressar “à pata”… em ocasiões anteriores (poucas e, ao contrário desta, voluntárias) tínhamos efectuado dessa forma o trajecto em pouco menos de duas horas. Mas foi aqui que dois poderosos factores motivadores entraram em cena: além de estar frio e vestirmos apenas camisas e t-shirts, não estava certamente nos planos dos nossos pais a chegada a casa por volta das quatro da manhã dos seus filhos. Foi pois num passo muito acelerado que bati o record dos 10.000 m (o meu, pelo menos, gastando cerca de 40 minutos), sempre acompanhado pelos outros atletas, que enfrentavam problemas semelhantes.

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Claro que havia ainda a questão de informar a proprietária do Peugeot da sua má sorte, como se foi tristemente lamentando o João Hespanhol durante todo o trajecto, enquanto arfava audivelmente. O Miguel, atleta consciencioso e pessoa de temperamento optimista, foi-lhe respondendo:

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- Não fales, que só te cansas mais. E pode ser que o carro não tenha nada, que esteja só alguma coisa desencaixada….

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João Jales
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C O M E N T Á R I O S
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António J M disse...
Deve haver muitas histórias destas por aí,a paixão da malta nova pelos automóveis é de sempre e é imparável!Não há é muitos que tenham a capacidade de a contar com este humor e mestria.Parabens JJ!AJM
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jorge disse...
"obrigam-me" a comentar duas vezes na mesma semana mas depois do mini do pestana que ia ao aeroporto não podia deixar de elogiar esta história tão real que nos leva à foz.tambem voltei mais de uma vez de lá a pé,não por avaria mas por falta de boleia...magnífico escrito.j
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Artur Henrique Ribeiro Gonçalves disse:
Ao ler histórias de proveito e exemplo como esta é que me apercebo como foi pacata a minha passagem pelas CdR...
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João Serra disse:
Curioso. De repente, surgiu aqui um filão de memórias que tem a ver com automóveis, numa época em que eles eram acessíveis apenas a um segmento restrito da sociedade, depois de termos aqui evocado a magia do aeroporto,num tempo em que saír de Portugal era também uma prática incomum.
Julgo que antes tinhamos também abordado ­- ou estarei a fazer confusão? - o surto das motoretas que alterou a relação da periferia rural com a cidade.Em todos estes domínios, lembro-me de episódios curiosos, significativos,que ajudam a evocar e matizar um tempo que morreu.
Os comentários e textos magníficos que aqui vão surgindo, cruzando trajectos e reminiscências pessoais e de geração distintas, emprestam um novo elan a este blogue.
Obrigado, João Jales, pelo sugestivo texto que nos oferece e pela sábia gestão diária deste blogue.
João Serra
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Ana Braga disse:

Gostei muito da estória do "Peugeot da Avó", como aliás tenho gostado de todas as que tenho lido do João Jales, neste blog onde agora me iniciei. São textos muito bem escritos, vivos e cheios de humor, que retratam primorosamente as vivências juvenis que, afinal, são de todos nós. Acho imensa piada quando dou por mim, divertidíssima, a ler textos sobre pessoas que não conheço, mas que,no entanto, viveram situações com as quais me identifico perfeitamente - basta sermos da mesma geração! Os acontecimentos, as peripécias não diferem muito, vivessemos nós nas Caldas, em Coimbra ou noutra qualquer cidadezinha de província, naquele Portugal dos anos 60/70. Este texto, assim como um anterior do João Bonifácio Serra, sobre as misteriosas saídas nocturnas do Virgílio, são a prova evidente de que era habitual os rapazes, de um modo geral, saberem conduzir antes de terem idade para tirar a carta. E quem é que os ensinava a guiar? Nos casos que eu conheço, eram os próprios pais ou os avós que faziam essa iniciação, ensinando os meninos com todo o afinco, para depois de concluída a tarefa, os proibirem de o fazer. Contradições!Deviam achar que isso fazia parte da educação masculina, como era noutros tempos o saber andar a cavalo ou conhecer as artes da guerra?!Lá em casa, pelo menos foi assim, julgo que o meu irmão já sabia guiar automóvel antes dos 10 anos e gabava-se, não sei se foi verdade, que o nosso avô o tinha deixado conduzir com essa idade, o seu Citroen "arrastadeira" no trajecto entre Mangualde e Nelas!?
Pelo contrário, a maior parte das raparigas do meu tempo só começava a aprender a guiar na primeira lição de condução - pelo menos foi o que aconteceu comigo - daí talvez o mito de que as mulheres conduzem pessimamente(ideia com a qual não estou nada de acordo, devo dizer). E já eu levava uma boa dúzia de lições, quando ousei pedir ao meu pai se podia dar uma volta no carro dele ao que o senhor lá acedeu, não sei se por influência da minha mãe, o certo é que durante todo o trajecto, numa estrada secundária, reparei que ele ía muito apreensivo, não sei se por temer pela vida, se apenas com medo que eu lhe desse cabo do veículo. E a discriminação não se limitava a essa fase pré carta, digamos, pois lembro-me de que já a minha irmã tinha carta e ainda nos aconteceu sair de noite às escondidas, utilizando a técnica do empurrão para fora da garagem e ao longo do jardim. Felizmente, tratava-se de um automóvel pequeno, caso contrário as duas, sendo mulheres, não conseguiriamos empurrar o carro. Se calhar era por isso que não nos ensinavam a guiar mais cedo - se nos metessemos em sarilhos, não teríamos força para empurrar. Bem vistas as coisas...
Ana Braga
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Fátima Clérigo disse...
Recordam-se Vocês do Bom Tempo d'Outrora

Recordam-se vocês do bom tempo d'outrora,
Dum tempo que passou e que não volta mais,
Quando íamos a rir pela existência fora
Alegres como em Junho os bandos dos pardais?
C'roava-nos a fronte um diadema d'aurora,
E o nosso coração vestido de esplendor
Era um divino Abril radiante, onde as abelhas
Vinham sugar o mel na balsâmina em flor.
Que doiradas canções nossas bocas vermelhas
Não lançaram então perdidas pelo ar!...
Mil quimeras de glória e mil sonhos dispersos,
Canções feitas sem versos (…)
E que nós, (,,,) havemos “de continuar” a cantar!

Por isso, quando o Sol da vida já declina,
Mostrando-nos ao longe as sombras do poente,
É-nos doce parar na encosta da colina
E volver para trás o nosso olhar plangente,
Para trás, para trás, para os tempos remotos
Tão cheios de canções, tão cheios de embriaguez,
Porque, ai! A juventude é como a flor do lótus,
Que em cem anos floresce apenas uma vez.
(…)
Assim, Amigos meus, eu vou sobre um tesouro,
(…)
Desprender, desfolhar estas canções sem nexo,
Estas pobres canções, tão simples, tão banais,
Mas onde existe ainda um “vivo” reflexo
Do tempo que passou, e que não volta mais.

Poema de Guerra Junqueiro, in 'A Musa em Férias', ligeiramente adaptado por mim, nas palavras entre aspas.

Um tempo que volta sempre, essencialmente pela forma, que tão vivamente aqui o recordam.
Duplamente Parabéns JJ, pelo excelente e expressivo texto e por persistir na “sobrevida” deste Blogue, que é sempre um verdadeiro Prazer acompanhar.

Bjs

Fátima
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Julia R disse:
Mais uma estória fascinante do amigo Jales! Isso é que foi bater o record...e porque não tentares outro?
Realmente recordo que os rapazes eram muito precoces na aprendizagem da condução - mal sabiam os papázinhos o que daí viria !
Vou contar-vos a minha "odisseia" quando tirei a carta. Chego à escola de condução e o Sr. Capela (o instrutor) interroga-me sobre algumas questões a que vou respondendo naturalmente... a certa altura diz-me: agora vamos pôr o pé direito no pedal do acelerador e eis a minha 1ª grande dúvida! Não a do pé... mas a identificação dos pedais!
Este post sugeriu-me uma ideia: que tal organizar uma maratona do ERO das Caldas à Foz ? Considera-me inscrita...
Obrigada João por me proporcionares mais uns momentos agradáveis no nosso blog.
Júlia R
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M do Rosário disse...
Parabéns,João Jales,por esta deliciosa narrativa num estilo tão realista e bem humorado.
Lembro-me bem da importãncia,na época, da condução precoce e do que representava o automóvel para a juventude masculina. Por isso,sorri durante toda a leitura desta excelente estória que,agradavelmente me fez recuar no tempo. Porém,terminada a leitura,ficou-me uma curiosidade-e a AVÓ?
MRosário Pimentel
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Ana Lúcia disse:
Fantástica narrativa.
É uma passagem que deixa algumas saudades desses belos tempos de infância e, como alguém comentou, nos faz pensar que houve realmente gente que se divertiu a grande... (...)
Ana Lúcia

De como o ípsilon do Ruy morreu nas Finanças às mãos implacáveis de um funcionário zeloso.

por Ana Braga













Quando conheci o Virgílio, já iam bem distantes esses tempos da sua juventude, penso que caracterizada por uma rebeldia vivida com alguma moderação - secretas escapadelas nocturnas e congeminações de programas de fim de semana, cujo objectivo seria, inevitavelmente, o de se divertir à grande, longe da vista e da alçada parental, sempre atenta, expectante e ansiosa, dado tratar-se de um filho único, muito protegido e em relação ao qual se iam tecendo grandes e pesadas expectativas.
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Naquela época, com aquela idade, “divertir-se à grande” era, se bem me lembro, dado ser da mesma geração, estar com um punhado de amigos - e de miúdas -, impressionar pela palavra, com uma ou outra consideração filosófica pelo meio ou sentar-se ao volante de um carro, ouvir música e dançar, fazer umas quantas tropelias à socapa, jogar às cartas, pondo à prova a sua perspicácia, provocar situações divertidas insólitas ou caricatas, sempre com o riso a estalar, numa alegria transbordante de quem tem uma vida pela frente e se sente imortal. Imagino que tudo isto o Virgílio fazia em doses reforçadas, de certo mais interessado no convívio do que em “levantar as notas”.
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Ao ler a belíssima crónica do João Bonifácio Serra onde tão bem caracteriza essas vivências juvenis, reconheci um Virgílio que eu não tive ocasião de conhecer, o Virgílio quando jovem. Esse eu só conheci mais tarde através dos seus próprios relatos, das recordações partilhadas com amigos, em encontros esporádicos e das fotografias a preto e branco que há lá por casa, em que ele aparece de fato e gravata, com um ar discreto de menino exemplar - mas que a mim não me engana. Enfim, o Virgílio, esse mesmo: o Virgílio Ruy com ípsilon.
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Conhecemo-nos aos trinta e tal anos, numa fase do nosso percurso em que já tínhamos percebido há muito que não éramos imortais. No entanto, nessa altura, as circunstâncias da nossa situação profissional, uma vez que nos encontrávamos destacados, numa espécie de licença sabática, a frequentar uma pós graduação, transformou-nos de novo em estudantes, integrados numa turma de outros colegas de profissão, com direito a saídas em grupo, almoços no Bairro Alto, idas ao cinema e ao teatro, intermináveis conversas e serões dançantes nos lugares mais in da capital, alguns dos quais bastante exóticos e divertidos, lá para os lados de S. Paulo, num antigo palacete a cair de velho, onde se viviam agitadas noites crioulas. Foi esse Virgílio simpático, excelente comunicador, afável, de trato fácil e muito bem disposto a que o João se refere no seu divertido texto, que eu conheci nos anos oitenta e cujas características, as já referidas e mais umas quantas, me cativaram. O facto é que vim a casar com ele em 1989. Na altura, todos nós, seus colegas, achámos curioso o pormenor do “y” no seu segundo nome, provável resquício de algum traço conservador de família, pensávamos…
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Vim a saber mais tarde que os nomes próprios que o identificam, nem sequer foram escolhidos pelos pais, que à data do seu nascimento eram muito novos, tendo-se submetido à escolha feita pelos padrinhos da criança. Desconfio até que nem seria esse o nome da preferência deles e, muito menos do próprio rapaz, mas isso é uma outra história e o facto é que assim foi registado: Virgílio Ruy Rodrigues Pestana, sendo este o nome que figura no seu arquivo de nascimento, como eu própria posso testemunhar.
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Estou convencida de que mesmo quando não gostamos do nosso próprio nome, acabamos por assumi-lo, a ponto de o sentirmos como a nossa segunda pele. Julgo que tal aconteceu com o Virgílio e aquele “y” no Ruy passou a ser a sua imagem de marca, uma espécie de impressão digital que ele habituou a identificar na infância, logo que aprendeu a ler e verificou que os outros Ruis eram diferentes.
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Ora, depois de tantos anos com esse nome, aqui há tempos o Virgílio chegou a casa possesso. Um funcionário da repartição de Finanças da nossa área de residência, pura e simplesmente, confiscou-lhe o cartão de contribuinte. E qual o motivo? Alegando que Rui não se pode escrever com y. Onde já se viu? Tem de ser com i.
Pobre Virgílio, de nada lhe valeu o seu poder de argumentação, nem os anos de treino de bom comunicador, nem a argúcia, nem a exibição da própria certidão de nascimento, ali, preto no branco. A decisão do funcionário foi irrevogável – confiscou-lhe o cartão e mandou fazer outro. No entanto, condescendente, lá admitiu:
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- O Senhor pode continuar a assinar com y, se quiser. Mas para efeitos fiscais o seu segundo nome passa a ser Rui.
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- É de bradar aos céus – lamentava-se o Virgílio. – Com tantos nomes disparatados que hoje em dia se vêem por aí, como: Cléber, Bryan, Sandokan, Vanessa, Mikael, ou Vânia, que no nosso tempo era nome próprio de homem nos romances Russos e logo aquele ignorante resolveu embirrar com o meu nome.
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E assim se constata o poder que detém hoje em dia um obscuro funcionário de uma Repartição de Finanças. De repente, quando menos se esperava, saiu da obscuridade para aniquilar aquele “enigmático” ípsilon que ali se mantivera dignamente durante tantos anos, tendo até sido considerado como um “vestígio aristocrático” nos tempos do colégio.
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Escusado será dizer que o Virgílio continua a assinar Ruy, com muito orgulho.




Ana Braga
A autora com o pai, Mário Braga,antigo professor do ERO,durante o
almoço dos Ex-ERO em 2009. Entre eles está a Mila Marques.
C O M E N T Á R I O S
J.L. Reboleira Alexandre disse...
Há precisamente 40 anos, na minha turma do 1º ano em Lisboa, lá na Rua do Chagas, havia uma bela colega Caboverdiana, que tinha um problema similar ao do Ruy. No entanto como era mulatchinha, nunca ninguém pensou dar-lhe ascendência aristocrática. Pudera!
O seu nome próprio era Geny (assim mesmo com um N e Y, e não 2 NNs, diminutivo de Jennifer). Era vê-la em luta diária com alguns professores, para escreverem o nome «comme il faut». O novo acordo ortográfico tem pelo menos a vantagem, de resolver estes pequenos, grandes problemas.
Julinha disse...
Muito interessante este testemunho da Ana Braga, que me fez ter vontade de a conhecer melhor num próximo Almoço.
Se a narrativa do João Serra me divertiu, então a estória do Ipsilon é deliciosa!
Agora a morte da "impressão digital duma criança" por um poderoso funcionário das Finanças foi certamente muito traumatizante para o coitado do RuY !Infelizmente já não são de estranhar estas coisas, se um juiz não tem consideração por uma criança, como poderá um funcionário de Finanças ter consideração por um adulto...
Obrigada Ana por ter partilhado este episódio connosco no blog do ERO.Júlia R
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Isabel Esse
disse...
A prepotência e a arbitariedade são uma presença constante nos nossos serviços públicos(mas pouco...)infelizmente.
A história do Ruy é muito divertida e está aqui muito bem contada.Faz-me desejar que esta não seja a única intervenção da Ana Braga no nosso blogue!!!
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J J
disse...
O episódio aqui descrito pela Ana é realmente muito curioso (e lusitano...). Está muito bem escrito (não consigo evitar o lugar comum "filha de peixe sabe nadar") e com inegável humor, próprio de quem, mesmo vivendo as situações, é capaz de as ver "por fora".
Conforme lhe comuniquei está desde já contratada como redactora e colaboradora do Blog, com todas as regalias inerentes. Pode ser que haja outra surpresa um dia destes, quem sabe?
Um abraço ao Virgílio e à Ana, bem-vindos ao Blog!JJ
João Serra disse:
Obrigado, Ana, por esse inestimável complemento da minha pequena narrativa.A nova história, que, de alguma forma, é também a história da sua vida com o Virgílio, presta uma homenagem muito bonita ao jovem que eu conheci aos 17/18 anos e que reencontrei em Novembro. O Ruy, hoje zelosamente,burocraticamente Rui, está a rir, encantado, na plateia. Merece. Diga-me por favor se bateu palmas.João
Luisa disse:
Estas histórias que se completam e encaixam como um puzzle ajudam-nos a refazer a imagem de um tempo que sem este blogue já teria passado.Assim está ainda presente nas nossas vidas.
A autora escreve muito bem,sei que é filha de um antigo professor do colégio que é um dos mais importantes escritores neo-realistas portugueses,por isso o JJ fala de ser filha de peixe.Beijos.L 
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esds disse...
Rui ou Ruy não interessa. Sabemos, isso sim, que no início da década de 80, havia um tal Professor Vergílio Pestana que chegava à Escola Secundária Domingos Sequeira, em Leiria, no seu Citroën azul, de matrícula BU-??-??, para dar a conhecer o ABC da contabilidade a cerca de 50 futuros génios e actuais quarentões / quarentonas. Da sondagem efectuada concluímos que todos guardam esse Professor na memória. Os adjectivos hoje ouvidos só podem envolver saudade e carinho. Se este Professor Pestana é o mesmo, informamos que estamos a procurar arranjar uma forma de nos revermos. Para tal, criámos um mail: esds.outrora@gmail.com e uma página no Facebook: Esds Leiria Outrora. Caso estas palavras encontrem o tal Professor Pestana, ficamos à espera de um olá. Em nome dos antigos alunos, um Bem-Haja, Jorge Agostinho