ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
.
.

UM AUSTIN 1100, UMA SANGRIA E UMA VIOLA

por João Jales
.
.
É sempre inexplicável porque é que determinadas recordações nos aparecem como a revisão de um filme bem conhecido e outras, contemporâneas ou posteriores, são nebulosas, reduzidas a instantâneos de meia dúzia de momentos. Algumas dessas fotos são esbatidas, mas outras são nítidas e contrastadas como se tivessem sido impressas ontem.
.
Vem isto a propósito do terceiro, e último, episódio que vivi e me propus aqui contar, relativo à utilização abusiva dos automóveis paternos por adolescentes sem carta (nem idade para a ter). Enquanto nos posts anteriores relatei dois filmes completos que tenho arquivados na memória, hoje vou tentar reconstruir um outro de que tenho apenas três fotos perfeitas: um Austin 1100, um balde de sangria e uma viola – o resto são algumas imagens difusas de pessoas e locais.





Deve ter começado na Cervejaria Camaroeiro, já que os intervenientes aí se reuniam diariamente nesse ano de 1970. Numa Sexta-Feira à noite, não longe das férias grandes (talvez Maio), o Flores e o Vítor Gil comunicaram que tinham sido convidados para cantar numa festa do primo de uma amiga da namorada do Zequinha Pereira da Silva – ou seria a namorada do primo de uma amiga do Zequinha? Para o caso não interessa, o que interessa é que a festa era numa vivenda perto de Salir do Porto e embora ninguém (excepto o tal primo … ou a amiga … ou a namorada…) conhecesse os donos da casa, estes, ao contratarem uma “banda”, ou um duo neste caso, esperavam certamente que ela se fizesse acompanhar de pessoal auxiliar para carregar o material, tratar da logística do espectáculo, garantir a segurança, enfim assegurar que as “estrelas” só se preocupavam com a música. Tudo isto perfazia oito pessoas, exactamente o número dos presentes.

O pior problema era o transporte, já que a festa era Sábado à noite e os amigos encartados, habitualmente “cravados” para o efeito, tinham já outros programas; por outro lado envolver os pais iria certamente antecipar desnecessariamente a hora do regresso, como era fácil prever…

Estar dependente de boleias num sítio desconhecido é sempre arriscado. Uns meses antes o nosso colega Rogério Teotónio tinha-nos convidado para um bailarico em Sta. Catarina, onde vivia, e nós tínhamos convencido o Neco (o João Paneiro) a ir lá levar-nos. Um mal entendido com uma questão de técnica de dança, envolvendo a colocação da mão do Tó Zé Hipólito, durante um slow mais sentido, numa zona aparentemente interdita pelos costumes locais, gerou um tarantantan de que nos livrámos com alguma dificuldade. Não querendo discutir a que distância do corpo deve estar a mão esquerda do dançarino quando nela repousa graciosamente a mão direita do seu par, tivemos que abandonar, com pouco aprumo e muita pressa, a casa onde se realizava o baile. Tendo o Neco entretanto regressado às Caldas, só duas horas depois do incidente ele nos foi buscar. E duas horas podem ser muito tempo!

Interessava pois garantir um transporte que regressasse quando quiséssemos. Julgo que foi o próprio Flores que se lembrou do tal Austin 1100 que estaria inutilmente parado no Sábado à noite ali na Capitão Filipe de Sousa, logo a seguir ao cruzamento da Garagem Caldas. Ora se os proprietários (e seus pais), o Sr. Antunes dos Santos e a esposa, não necessitavam dele naquele horário, porque não…


Dito e feito, um pouco depois do jantar de Sábado o automóvel foi empurrado durante uns metros até à esquina seguinte e aí acomodou sete ou oito entusiasmados adolescentes. O Flores era o indiscutido condutor e conseguiu levar-nos, sem problemas, até à morada que lhe tinham fornecido, onde já tocava um gira-discos na garagem. Abundavam os comes e os bebes, assavam-se febras e havia uma enorme taça de sangria que o dono da casa ia enchendo com uns garrafões de tinto, uma gasosa e umas frutas que tinha ao lado. O problema é que havia muitos garrafões, pouca gasosa e quase nenhuma fruta – e rapidamente a sangria ficou reduzida a tinto puro com uns quadrados de maçã a boiar….


Ninguém tinha estranhado a numerosa comitiva dos “artistas” que, na altura do bolo e das velas, acompanharam o coro com mestria e eficácia. Cantaram mais duas ou três músicas e vieram obviamente retemperar forças com sangria. A festa continuou animada, mas a falta de hábito de beber vinho provocou numerosas baixas entre o nosso grupo, mormente o proprietário e condutor do automóvel que saiu da sala já não em duo, como actuara, mas em trio, com um amigo a ampará-lo de cada lado. Todos os presentes lamentaram não ouvir o resto do reportório (provavelmente inexistente) e vieram despedir-se ruidosamente de nós. Outro condutor foi nomeado, as violas voltaram para o porta-bagagens e regressámos a casa.


A viagem foi demorada, com muitas paragens para alívios vários - e não era fácil voltar a arrumar oito pessoas num carro daqueles após cada uma delas... Mas Deus é grande e protege os inconscientes: lá conseguimos parar à entrada das Caldas, deixar sair (ou cair) os mais etilizados e reunir o melhor dos nossos efectivos para levar o Flores e o carro a casa. Estacionado o Austin, havia vários problemas para resolver: pôr o dono na cama e devolver as chaves, tentando não acordar os pais, e arrumar a viola, que não podia ficar no carro já que o Sr. Antunes dos Santos desconfiaria se a visse lá na manhã seguinte. Mas juntar uma viola e um bêbado faz um barulho infernal e um idiota qualquer (que até posso ter sido eu) decidiu que, enquanto os dois restantes levavam o Flores para a cama, eu levaria a viola para casa e devolvê-la-ia no dia seguinte. Um plano perfeito, até ao momento em que cheguei a casa e verifiquei que o problema só tinha sido adiado: continuava a haver um adolescente etilizado e uma viola para arrumar em casa, só que era em minha casa!


Às três da manhã qualquer pequeno toque com aquele instrumento musical numa porta ou parede faz um barulho atroador (experimentem e verão). Claro que a presença da viola só serviu para acordar todo o prédio e, sabendo que nunca toquei uma nota de música na vida, transmitir à minha mãe a ideia de que, para aparecer com tal objecto, estava certamente num estado lastimável! Nunca a convenci do contrário e a senhora contou durante anos, e ainda hoje a minha irmã conta, a estória do dia em que eu estava tão mal, tão mal, que até trouxe uma viola para casa…
.

João Jales

C O M E N T Á R I O S

Belão disse...
Mais um capítulo fabuloso de uma adolescência divertida, magistralmente relatado pelo João. De facto, estes meninos rabinos eram terríveis, não só pelas alhadas em que se metiam, mas também e sobretudo, pela arte que revelavam a surripiar os carros aos papás.
Que estórias divertidas terão os adolescentes de hoje para contar amanhã? Tê-las-ão certamente, mas em nada comparáveis, dado que as facilidades com que são presenteados tornam tudo tão banal, que eu tenho dúvidas que se cheguem a divertir com algo.
Dois beijos. Um para o João e outro para o seu imenso talento, aqui tão bem expresso.
.
J.L. Reboleira Alexandre disse...
Parafraseando um dos meus ex-colegas da Bordalo que dizia aqui, há uns tempos, afinal hoje como ontem uns divertem-se mais que os outros. E eu aqui farei parte do grupo «dos outros».
O JJ delicia-nos com mais uma das suas inúmeras aventuras, mas nota-se uma certa nebulosidade relativamente aos locais e às pessoas. Essa vivenda ali para os lados de Salir, é muito vago...
Quanto ao bólide usado, o belo Austin 1100, de linhas puras, era um dos meus veículos «fétiche». Seria devido ao facto de uma das minhas mais belas conterrâneas da aldeia (não é Graciete ?) ter tido um muito cedo, exactamente da côr do da foto ?
Eu continuava nessa altura a andar, e durante alguns anos ainda, com a minha barulhenta motorisada Casal de 50 cc que tinha o mau hábito de emanar uns muito desagradáveis vapores, resultantes da mistura gasolina/diesel, muito modestamente equipada, mas que, quando atingia os 50Kms/h me fazia sentir, qual Giacomo Agostini, o grande campeão da nossa geração!
Abraço
.
António J H disse.
Só um pequeno apontamento em relação à fuga precipitada do "forró" em Sta. Catarina. A leve descrição feita pelo JJ corresponde a verdade, só que estava tudo a correr lindamente até que o Miguel BM, que deslizava na sala junto a mim, repara na actividade da dita mão e desata a gargalhada chamando a atenção de todos. Ora, apanhado de surpresa, não reagi com a imprescindível rapidez na recolocação da extremidade do meu braço esquerdo. Fui apanhado em flagrante deleite! Se o MBM tivesse sido mais discreto....
Por curiosidade e manifestamente demonstrativo que o mundo é muito pequeno, passados 34 anos o meu filho mais novo namorou com a irmã caçula do meu par.
Definitivamente as memórias surgem em catadupa, mas para não me alongar, quando surgir algum relato das actividades copofónicas da época, recordarei a frase do Flores: "o melhor gin que já bebi".
AH

Maria Do Rosário Pimentel disse (no Facebook):
Mais uma interessante e divertidíssima narrativa...do J.J. Parabéns!!!

Ana Braga disse...
Afinal, “as imagens difusas” referidas no início do post, vão adquirindo nitidez à medida que JJ desenrola a meada do “Austin da sangria e da viola”, e eis que surge mais uma estória em jeito de filme, onde as cenas aparecem à nossa frente, bem vivas, numa sucessão de peripécias irrepetíveis - porque só naquela idade se podiam viver tais coisas - relatadas com o humor e o ritmo habituais nos seus textos.

Nos recônditos da nossa memória, afinal, há sempre mais um tesouro guardado – e acho que isso acontece com todos nós. É por isso que, às vezes, dou por mim a pensar que o melhor filme da minha vida, se calhar, é “o filme da minha vida”, passando-se talvez o mesmo com as outras pessoas. Será?
.
Luisa disse...
Estas histórias do J.J.diga ele o que disser, são sempre meticulosas e cheias de pormenores deliciosos como se ele as tivesse escrito dias depois de elas acontecerem!Já são 3 ou 4 nesta série,todas divertidas e com finais felizes- (embora talvez mais para nós que lemos do que para quem as viveu?).

As raparigas infelizmente não participavam nestas excursões.L
.
Julinha disse...
Estou farta de rir ...! Um primo de uma amiga da namorada do Zequinha ...... namorada do primo de uma amiga do Zequinha !

Trocadilhos e mais trocadilhos,copos e mais copos, entrada e saída de oito meninos num Austin 1100 num estado...sabe-se lá como! Enfim oito criaturas a fazer diabruras, e quantas outras não teria havido, mas que os participantes estariam de tal maneira que não mais as vislumbraram nas suas mentes!!!

Mais uma estória relatada pelo João,o nosso amigo JJ, que me deliciou, não só pela estória em si,mas também pela maneira como a descreve. Embora já estejamos habituados,o facto, é que imagino-o com a "pena" a deslizar pelo papel(teclado),dum modo tão subtil que quase remontamos a essa época. Uma época que jamais se repete......e, sem entrar no saudosismo, imagino o que os autores se divertirão ao recordar todas essa aventuras, porque a mim divertiu-me à "grande e à......francesa".

Obrigada João por mais umas gargalhadas que fui "forçada" a dar...e que me souberam tão bem.

Bjs Júlia R

Ana Almeidasantos disse (no Facebook):

Isto é de mais... eu ainda não consegui parar de rir...

Obrigada JJ estava mesmo a precisar disto. :")))))))))

Nautilus disse...
Meu querido amigo

A vivacidade e a graça com que escreves dá mais cor às histórias.Parece que foi ontem e no entanto... esta é das que estão apagadas na minha memória mas vivemos tantas outras que dariam para um bom livro (evidentemente com personagens ficcionais...).

Ainda há pouco tempo, num jantar em casa da Guida Marques as aventuras explosivas (stritu sensu) das práticas de química, culinárias do café dos professores, canórico-anedóticas das aulas do Pe Renato e industriais (sabão Inácio) foram lembradas e invejei a memória da Guida (o que a Europa faz pelas pessoas!) para pormenores de que já não me lembrava .

Obrigado pela evocação (nem sei se nesta estava lá) e um abraço grande. Vitor


Libania disse...
Adoro as tuas histórias e a maneira de contá-las.O teu humor faz- me sempre rir.

You are quite a writer. :) Libania

Luis disse...
A festa foi em SALIR DE MATOS e não Salir do Porto.Um dia ainda conto como é que eu sei.

Fico admirado é como é que o JJ se lembra de alguma coisa,mas a chegada com a viola a casa é verdade e a família dele relata realmente essa desastrosa noite.

Grande post,grande blogue!L

Miguel BM disse...
Apenas me lembro que a festa referida neste post foi efectivamente em Salir de Matos e não em Salir do Porto.

Quanto ao percurso da mão do TZHipólito no bailarico em Sta Catarina, não posso acrescentar nada pois não me recordo de tal evento. MBM

Manuela Gama Vieira disse.

Há uns dias disse ao Jales que estas histórias me ficam na “retina” e se me lembro delas, até me rio sozinha…

“Ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo”, diz o aforismo. As vossas divertidas mas, convenhamos, arriscadas surtidas, à revelia dos Pais, nunca acabaram “mal”, felizmente. Que mão vos conduzia, não sei...o que interessa é que vos acompanhava!

Em comum há sempre um carro desviado, um bailarico, umas miúdas às vezes belgas, francesas (e ainda na Europa havia fronteiras…) e um grupo de adolescentes incon(s)cientes - assim auto denominado pelo narrador - que conduzem sem carta, “subtraem” as chaves do carro aos Pais, à Avó…verifico, contudo, que em todas há uma componente muito autêntica! A camaradagem, a cumplicidade e o espírito de entre ajuda entre todos, na medida do “estado” de cada um, atentas as circunstâncias etílicas…e outras, como ter de fugir à pressa de uma aldeia enfurecida com as “modernices” dos meninos vindos da cidade.

Há quanto tempo não ouvia falar de sangria ou de cup. Umas bebidas muito agradáveis e bem apaladadas, se bem confeccionadas. A que vos calhou, era um bocado feita a martelo….Este “espírito de corpo” mantém-se, a avaliar pelos comentários. Um não tem a certeza se lá estava, outro não viu mão nenhuma em lado nenhum (devo dizer que aquela da mão esquerda e da mão direita me obrigou a pensar, não estava a ver bem o filme…de quem era a mão esquerda, de quem era a direita…).

Penso que estas aventuras (e… desventuras, Jales, lá calhava a tua Mãe acordar) foram os elos que construíram as correntes de amizade que não se quebraram e vos mantêm unidos até aos dias de hoje.

Quanto aos teus dotes literários já nem digo nada, um quente e amigo aplauso!Obrigada, Jales.

MManuela

Laura Morgado disse (no Facebook):
Mais uma vez....Parabéns, João.És um bom contador de estórias.Adoro ler o que escreves. A tua escrita transmite alegria e isso é fantástico.

AS BOMBAS

.por Tó Zé Hipólito

.

.
Como complemento ao que aqui escrevi anteriormente, gostava de esclarecer que quem era um ás do volante, o melhor "maozunhas" comme il faut, era o Tomás, que passou dos treinos na 4L para o Cortina GT. Nesse carro chegou a ser confundido com os concorrentes do RALLY TAP, pois era prática corrente andarmos a ver os rallys seguindo duns troços para os outros, depois de passarem os primeiros pilotos que eram os mais rápidos, os que no fundo interessavam. Já que foram referidas várias "bombas" da altura não quero deixar de assinalar um magnifico Ami 6, com estofos de veludo e, pasmem, servo-freio, que só aparecia na época em grandes maquinas. Era meu.


Para avivar a memória dos conteporâneos aqui vão fotografias dos modelos em causa.

.


Espero, curioso, pelo Fangio e o Michel Vaillant.

A.H.

C O M E N T Á R I O S

.

Alfredo disse...
Só por curiosidade, lembram-se que na altura apelidámos o Ami 6 como "rais-ta-parta" só porque o vidro traseiro era inclinado para dentro, contrariamente aos outros modelos de "pó-pós".

A.Justiça
.
António J M disse...
Tenho ideia que o modelo Anglia Fascinant também foi designado por "ora bolas" devido ao facto de ser muito bem lançado quando visto pela frente e muito feio quando visto de lado e por trás.
O Cortina era efectivamente uma bomba,penso que a Super também tinha um,não tinha?
AJM

CONCERTO DE JAZZ SÁBADO NO MUSEU MALHOA



O Blog dos Antigos Alunos associa-se à divulgação de um evento musical a que está ligado um antigo aluno do ERO, que recentemente esteve no nosso Almoço/Encontro.
.
A Direcção da Liga dos Amigos do Museu José Malhoa organiza um Concerto de Jazz no próximo dia 27 de Fevereiro (Sábado) , pelas 16 horas, no Museu José Malhoa ( Parque D. Carlos I).
.
Os dois executantes são Vasco Henriques (piano) e Nuno Gonçalves (contrabaixo). O primeiro tem fortes ligações às Caldas da Rainha, onde estudou no Externato Ramalho Ortigão a partir dos 13 anos, tendo lições de piano com a professora D. Adelaide Pereira. Aos 19 anos, já no Porto, começou a interessar-se pelo Jazz, tendo participado em algumas “Jam Sessions” no Hot Club, em Lisboa, nos finais da década de 50. Nessa altura, começou igualmente a tocar flauta, que estava a ser usada cada vez mais no Jazz e para a qual havia um extenso reportório. Como pianista e membro de um trio, de que fazia parte Nuno Gonçalves, também participou durante três anos no Festival dos Capuchos. Foi professor de flauta na Escola de Jazz do Hot Club e, nos últimos anos, tem-se dedicado ao ensino de Jazz a jovens cantores. O segundo, músico de Jazz desde a década de setenta, foi director do Hot Club de Portugal durante um período. Autodidacta, tocou com vários músicos nacionais e estrangeiros em clubes, concertos e programas de televisão.

.

Espera-se a presença dos muitos amantes de música caldense e dos amigos de Vasco Henriques, que não perderão certamente a oportunidade de o ouvir e cumprimentar .
.
PROGRAMA
.
I can’t get started – RODGERS/HART
My Romance – RICHARD RODGERS
Misty – ERROL GARDNER
Stella by Starlight – J. VAN HEUSEN
Very early – BILL EVAN
Never let me go – JAY LIVINGSTON
If I should loose you – RALPH RAINGER
Dolphin Dance – HERBIE HANKOCK
I should care – PAUL WESTON
.
.

UMA NOITE DESASTROSA

.

por Isabel Braga

.







Foi numa noite quente de Setembro de 1970 que, pela primeira vez, surripiei da garagem o carro do meu pai. Pela hora da ocorrência, a seguir ao jantar, posso deduzir que o dono da viatura se encontraria ausente, pois não me arriscaria, caso contrário, a desencadear a sua fúria homérica. Há que dizer, sem rancores, que o meu pai era alguém que, em público, socialmente e por escrito, em contos, novelas e romances, defendia todas as liberdades, mas, em privado, sob muitos aspectos, se revelava algo tirânico.
.
A data do “crime” está gravada a fogo na minha memória, por muitos motivos. Estava-se no rescaldo da crise académica de 1969, que abalou a universidade portuguesa e tivera início em Coimbra em 17 de Abril desse ano. O ano lectivo seguinte foi muito conturbado nesta academia, com constantes confrontos entre estudantes e polícia de choque, que eu vivera intensamente na minha qualidade de “caloira” do curso de filosofia e esquerdista dos quatro costados, daquelas que viam em Trostky o verdadeiro e único seguidor das teses de Marx.

.
Tudo fora excitante e assustador para mim, nesse ano lectivo: havia muitos dias em que éramos aconselhados, em reuniões de alunos, a usar sapatilhas no dia seguinte, para fugir à polícia de choque, que muitas vezes, de manhã cedo, já se encontrava em formação cerrada, de escudos e bastões em punho, oculta nas sombras do gigantesco estaleiro da futura faculdade de química, quase em frente da faculdade de letras, que eu frequentava. Ficava de cabelos em pé e com as pernas a tremer, mas lá seguia, de nariz no ar, pronta para o pior.
.
Além de fugir à polícia e das noites passadas em reuniões secretas a discutir política – durante as quais, envolta num nevoeiro teorético, eu tentava distinguir a custo a justeza das distinções subtis entre actuações certas e erradas, do ponto de vista da doutrina –, eu vivia o meu primeiro namoro a sério. Foi uma época agridoce, em termos de experiências, mais acre do que doce, em Setembro de 1970, pois acabara de perder o namorado e muitos quilos, devido ao desgosto.
.
No meio de tantos acontecimentos, eu tinha tirado a carta. Para conveniência do papá, pois então, e explico brevemente porquê: vivíamos, nós, a família nuclear, pai, mãe e irmãos, com a avó e várias tias avós muito idosas, numa enorme casa de família, a poucos quilómetros de Coimbra. Uma das tias estava acamada e, a acompanhá-la, durante a noite, havia sempre uma freira que era preciso ir buscar e devolver ao convento, na cidade, todos os dias, respectivamente à hora do jantar e pelas seis da manhã seguinte. Quem havia de se encarregar de tal penosa tarefa, uma vez que o meu irmão mais velho já não vivia em casa? Não o nosso pai, sempre demasiado atarefado para se ocupar de assuntos domésticos. Restava eu, a filha que já tinha mais de 18 anos. E, assim, por causa da tia e da freira, tirei a carta, para grande conveniência não só minha como da minha irmã Ana, a Ani, um ano mais nova, pois tal significava mais liberdade de movimentos.

.
Regresso, por fim, à noite de Setembro de 1970, a noite do dia em eu ficara aprovada no exame de condução. Parado, na garagem, uma tentação irresistível: o dois cavalos do meu pai, a que chamávamos Lélé, pois a matrícula começava por LE, tal como a do automóvel mais potente, mais utilizado por ele.


Eu não estava calma, é o mínimo que posso dizer, nessa transgressora viagem inaugural: nunca tinha guiado sem o instrutor ao lado, não tinha comigo nenhum documento comprovativo de que passara no exame de condução e vivia, como já disse atrás, o meu primeiro desgosto de amor.
.
O nosso objectivo, nessa noite, era, obviamente, ir ao encontro dos amigos, que se reuniam, na época, no café Moçambique, na Praça da República, mesmo em frente de uma das portas da Associação Académica, encerrada pela polícia.
.
Quando chegámos junto à esplanada do café, vimos que havia um lugar vago de estacionamento. Com o coração aos pulos, iniciei a manobra, ao som de palmas e assobios dos amigos presentes, entre os quais se encontrava a fonte da minha perturbação sentimental.
.
Os nervos eram muitos e, como seria de esperar, a coisa não correu bem. Após a terceira ou quarta tentaviva desesperada para encaixar o Lélé no espaço disponível, desisti, e arranquei dali para fora, humilhada e furiosa, entre os uivos de rapazes e meninas perante os quais não dar parte de fraca era, para mim, na altura, quase uma questão de vida ou de morte.

.
Para cúmulo dos azares, quando guinei para a faixa de rodagem, ia a passar um táxi, um forte Mercedes preto e verde, contra o qual fui bater, causando o riso dos basbaques que tinham assistido, divertidos, às minhas tentativas de estacionamento. Mas não eram eles os únicos espectadores da infeliz manobra: a ver tudo, do outro lado da rua, estavam os dois polícias que montavam guarda à porta da Associação Académica. Não se pode dizer que tenha sido a melhor noite da minha vida.
..
Um dos polícias materializou-se de imediato ao meu lado, a pedir-me os documentos que eu não tinha. Ao mesmo tempo, o motorista do táxi reclamava, mentindo com todos os dentes, que eu lhe tinha amachucado a porta do carro, na qual não se via um único risco. Devo dizer, em abono da verdade, que o odiado agente da autoridade não se portou excessivamente mal. Ouviu as minhas atabalhoadas explicações sobre a ausência de documentos e disse que não tomaria nota da ocorrência caso eu me entendesse com o motorista do táxi e este não apresentasse queixa.

.
O taxista – honroso profissional – não se fez rogado. Ao perceber que eu me encontrava numa posição muito desconfortável, exigiu 300 escudos para desistir da queixa. Trezentos escudos eram uma fortuna, na época, para duas miúdas como eu e a minha irmã, filhas de alguém pouco sensível às nossas necessidades, sendo isto um eufemismo. Barafustei, tentei que ele me indicasse onde estava o estrago no seu Mercedes, uma vez que o pobre Lélé, de fraca chapa, não apresentava uma beliscadura, mas foi em vão.

.
Os 300 escudos foram pagos, graças ao empréstimo de uma simpática prima, a Teresa. E, durante algum tempo, não ousei roubar o carro ao meu pai. Mas em breve reincidi. De toda esta história, quem saiu, portanto, feito numa bola de trapos foi o meu orgulho, não qualquer dos automóveis envolvidos. Mas tudo tem as suas vantagens: tornei-me exímia a estacionar automóveis e o meu ex-namorado, que se mostrou divertido com o incidente, passou a ocupar muito menos os meus pensamentos.

.
Isabel Braga

.

C O M E N T Á R I O S


Manuela Gama Vieira disse...
A engraçada história que a Isabel aqui traz,reporta a Coimbra e evoca locais e ambientes que também frequentei,vivi e conheci.
O inesquecível Moçambique! Lembra-se do carismático dono?O célebre Fontes!!! Uma inteligência, quadrada, de quem se contavam as mais hilariantes "anedotas" saídas da sua brilhante cabeça pensante... afinal,ele convivia com os "doutores",é bom que se note...
O triângulo,Moçambique,Piolho e Tropical não há quem não conheça,os da nossa geração,claro. Personalidades ilustres, de várias áreas da nosso actual "mundo" político e cultural, muitas vezes jogaram matraquilhos no Moçambique.Por acréscimo,vêm-me à memória o Teixeira,o Tatonas, figuras típicas da Praça da República.Imagino a sua atrapalhação,logo ali,onde se juntava a "malta"...
Quanto às "fúrias homéricas" de seu Pai, uma qualidade de todos os Pais da nossa geração....Talvez essa particularidade singular emprestasse mais adrenalina (como se diria naquele tempo?) a estas verdadeiras aventuras.Não sou saudosista...mas diga-me lá se, in illo tempore, Coimbra não tinha mais encanto?
Dou-lhe os meus parabéns,Isabel,pela sua brilhante estreia no nosso brilhante blogue, regido pela batuta do não menos brilhante João Jales!
Manuela Gama Vieira
.
J L Reboleira Alexandre disse...
Magnífico artigo com tanta coisa em tão poucas palavras.
As lutas estudantis (isto, está visto, era tudo gente MRPP), e os sonhos de uma época com tanta mudança. As vivências, cito, numa enorme casa de familia (até tinha um chefe como se impunha...)e a malvadez indisfarçada dos colegas, que nem carta tinham, mas deliraram com os problemas da autora.
E no fim os 300 paus para regularizar a situação. Pudera, o taxista viu ali uma forma de ganhar a semana. Era mesmo muito dinheiro, metade de quanto me custava um mês de aluguer do quarto em Lisboa, na altura, com direito a dois duches semanais!

Julinha disse...
Acabo de ler a estória narrada pela Isabel Braga e gostei muito,pois a maneira como descreve é muito agradável de ler e aquela noite desastrosa divertiu-me imenso! Imagino a "coitada" da Isabel a fazer manobras e manobras para arrumar o Lelé e a sua fúria perante tamanha assistência (mas que mauzinhos!).
Enfim, são coisas que acontecem a recentes "encartados"...Mas tudo acabou em bem!
Isto leva-me a contar algo que me aconteceu, também comigo recentemente encartada.Estava eu a tentar arrumar o meu Mini na Av.F.Pereira de Melo,em pleno centro de Lisboa,e a roda de trás sempre a bater no lancil do passeio.Fazia,desfazia,volante para um lado, volante para o outro, e o resultado sempre o mesmo,mas...tive mais sorte,ao contrário da Ana, apareceu um senhor muito simpático que passava por ali e me deu todas as indicações para que "o desgraçado" do pneu não mais fosse bater no passeio. Ainda hoje,quando isso me acontece (raramente!)lá faço todas as manobras que aprendi naquele dia.
Obrigada Isabel, julgo não ser ex-aluna do ERO mas é uma grande aquisição para o nosso blog.Júlia R
.
Guida Sousa disse...
Os primeiros estacionamentos entre dois carros são sempre complicados e muitas vezes se não vai à primeira nunca mais vai!
Que saudades dos dois cavalos,fiquei a olhar para a fotografia.
Excelente artigo que,se a Isabel é quem eu penso,não é para admirar porque ela é uma conhecida jornalista.
.
Luisa disse:
História maravilhosamente contada,incluindo as formas de ser e pensar da época.O ambiente em Coimbra,embora eu não conhecesse,dizia-se ser diferente,com mais solidariedade entre as pessoas que se conheciam todas.Mas não foi o caso aqui!
Deduzo que a Isabel seja irmã da Ana e filha do Dr. Mário Braga que esteve no último almoço mas faltou aqui uma palavra do JJ a elucidar os leitores.
Esperamos por mais colaborações suas,que enriquecem o blogue como diz a Julia.
beijinhos.L
.
J J disse...
Não ter "apresentado" a Isabel aos leitores habituais do Blog foi deliberado. Este texto fala por si e a sua autora, dispensando apresentações. Cuidadoso retrato de época (familiar, social e político), consegue simultaneamente ir mantendo os leitores em sobressalto em relação à sorte do automóvel, da condutora e do seu coração...
Mas para quem aprecia biografias, a Isabel é realmente a irmã mais velha da Ana Braga e uma conhecida jornalista que, como já foi referido, é um prazer ter como colaboradora (digo eu...) neste Blog.
Obrigado Isabel, espero que haja mais.
JJ
.
jorge disse...
excelente post,embora talvez algo injusto para os taxistas,classe profissional que se faz estimar pouco,porque será?de resto,nada a acrescentar aos merecidos elogios dos outros comentadores,a escrita da Isabel lê-se de um folego!
e que saudades de ter um 2cv!j
.
João Ramos Franco disse...
Lendo este interessante relato e vendo o “LéLé” como uma personagem de aventura onde toda a realidade da vida académica da época se incorpora, metendo a policia, penso que a noite podia ter sido mais desastrosa… talvez um pouco de sorte com os policias…
Um abraço amigo
João Ramos Franco
.

A PROPÓSITO DE UMA VIAGEM À NAZARÉ

.
Este texto é um comentário a O Peugeot do Pai ,
em que o Alberto Reis Pereira aparecia na Nazaré.
.
.
.
Eram muitos os alunos do E.R.O. que passavam as férias de verão na Nazaré; todos os anos, de 1 de Julho a 30 de Setembro, o "grupo" (era assim que nos designávamos) juntava-se para mais umas férias; não vou dizer os nomes, de propósito, para que cada um possa aqui vir dizer das suas memórias e identificar-se. À malta das Caldas juntavam-se outros amigos feitos em cada ano que passava e que, por sua vez, traziam outros amigos para as nossas paródias. Como curiosidade, em alguns desses verões, até o Rui Veloso por lá se juntou conosco.
.
Jogava-se ténis e ping-pong, sueca, king e, mais tarde, póker com as caricas a servirem de fichas. Mas também Monopólio e Fórmula 1, que me recorde; por vezes levava-se um gira-discos portátil para a praia e ouviam-se os 45 rotações que cada um tinha.
.
Também se faziam expedições de um dia ao Monte S.Bartolomeu, a pé, e que envolvia a tremenda subida até ao topo, e à Praia do Norte, na qual se dizia existirem areias movediças; o perigo era e ainda é um grande aliciante.
.
Mais tarde começaram as idas às matinés de uma pequena discoteca situada na cave de um prédio a caminho do restaurante S.Miguel; o nome da dita cuja é que se me varreu.
.
Para a rapaziada, um dos grandes atractivos da Nazaré eram as estrangeiras que por lá passavam nas excursões. Mas atenção, nórdicas não, francesas é que eram mais que muitas.
.
A pouco e pouco o "grupo" foi perdendo gente e praticamente acabou em 76; depois começou a ida para o Algarve e para Espanha.

No verão de 77, eu, o Rui Hipólito, o Eurico Figueiredo e o Tozé Monteiro metemo-nos também num Peugeot, mas uma carrinha 204 (que se andasse a mais de 90 Km/h corria o risco de rebentar o motor) e partimos para Andorra, Loret del Mar (que ainda era pouco conhecido dos Portugueses nessa época), Benidorm e Torremolinos. Grande paródia, como se pode calcular, mas que ficará, talvez, para uma outra ocasião.

.
O texto vai bem mais longo do que eu pensava, mas ainda quero aqui relatar que um certo Datsun 1200 e uma carrinha Citroen Ami 6, azul bébé, conhecida pela "bomba azul", também se deslocaram à socapa a alguns bailaricos das aldeias próximas, bem carregados de pessoal. Outras histórias, quem sabe!
.
Um abraço
.
Alberto Reis Pereira






.

.

.

.

.

.

C O M E N T Á R I O S

Rui Hipólito disse...
O episódio mais bizarro desta viagem deu-se em Benidorm. Ao chegarmos, em pleno mês de Agosto, deparámos-nos com os parques de campismo completamente cheios. Resolvemos ir à procura de um Hotel, mas estavam todos cheios. Nesta demanda fomos parar à zona antiga, que divide a praia do levante da do poente, onde encontrámos um pequeno hotel que, embora cheio, tinha um quarto em que o turista ocupante tinha sido internado no hospital, pelo que o recepcionista nos alugava o quarto por três ou quatro noites. Assim lá arranjamos pernoita num quarto com duas camas e dois colchões no chão.
Rui

jorge disse...
é impressão minha ou o alberto deixou as melhores histórias para contar depois?gostei de ler sobre a nazaré,passei lá dois anos e era mesmo assim,mas nada que chegasse aos dias na foz e as noites nas caldas!j

Alberto Pereira disse...
Relativamente ao que o Rui contou há que acrescentar que quando chegámos a Benidorm, vindos de Lloret del Mar (a uma distância significativa),e nos apercebemos que nem no campismo conseguiríamos dormir fomos à procura duns colegas meus do Técnico que eu sabia que tinham um T1 alugado (onde "só" pernoitavam oito pessoas) num edificio chamado Torre Colon. Depois de muito perguntar, da Torre Colon nada se conseguiu descobrir e, porque já era bem de noite e o cansaço da viagem era grande, fomos dormir no carro junto à vedação de um dos parques de campismo. Quando o sol se levantou e bateu em cheio no pára brisas eu, que tinha dormido ao volante, abro os olhos e quando consigo fixar qualquer coisinha a primeira coisa que vi foi "Torre Colon" escrito na vertical da empena do edifício mesmo em frente, do outro lado da rua. Foi mazinha esta...
Alberto Reis Pereira