ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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À JANELA DO JOÃO CALHEIROS

O meu primeiro encontro com o João Calheiros Viegas, por Ana Braga
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O meu reencontro com o João Calheiros Viegas, no almoço dos antigos alunos do ERO, após longos anos sem o ver, chegando-me apenas notícias através de amigos comuns, levou-me a recordar outros tempos e confesso que me senti emocionada. No forte abraço que lhe dei perpassou toda a amizade que ligava os nossos pais, as vivências paternas, comuns e longínquas, que eu, na infância, apenas conhecia através dos relatos que ouvia lá em casa - os assanhados jogos de ténis entre o meu pai e o Dr. Calheiros Viegas, a que eu nunca assisti, as peripécias, os encontros na Zaira, a vida animada das Caldas da Rainha, os serões no Casino, a encenação de uma peça polémica... Fiquei a pensar com nostalgia no meu passado quando, ainda muito pequena, mas atenta e sensível, gostava de ouvir histórias felizes dos meus pais. E essas simples histórias familiares, passaram a fazer parte integrante de mim. Achei, por isso, curioso, recordar aqui como foi o meu primeiro encontro com o João.

Durante a minha infância e juventude vivíamos nos arredores de Coimbra, a cerca de oito quilómetros da cidade, numa pequena aldeia, implantada junto à linha de caminho de ferro do Norte, mas onde também circulavam os comboios da linha do Oeste, os que ligavam a cidade do Mondego à Figueira da Foz e até o Sud, esse comboio ultra rápido, para nós fascinante, capaz de um dia nos poder levar até longínquos países além fronteiras.

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Tanto eu como os meus irmãos frequentámos a escola primária na aldeia, o que nos permitiu usufruir de uma meninice absolutamente ímpar, pelo menos vista à distância, quando ainda se vivia ao sabor das estações do ano e o tempo que nos restava, uma vez concluídas as tarefas escolares, se esgotava em brincadeiras loucas, onde dominava a criatividade, longe ainda que estávamos da era do pronto a comer, do pronto a vestir e do pronto a brincar/estragar.

Mas chegada a altura de ir para o liceu, começavam as viagens diárias, e quase sempre, assaz atribuladas, entre a nossa aldeia e Coimbra, feitas em transportes públicos, já que nesse tempo os pais, por norma, não se davam ao trabalho de sacrificar uma horinha que fosse do seu precioso sono para levar os meninos à escola – fazia parte das normas e ajudava-nos a crescer. Pelo menos, o meu nunca o fez, e no único dos anos em que tive aulas de tarde e apenas precisava de ir para o liceu duas vezes por semana de manhã, num horário compatível com o do meu pai, ia reprovando por faltas a Canto Coral, graças aos habituais atrasos do meu progenitor. Pelo que, a partir desse dia fatídico, me recusei a aceitar as suas boleias, nem que ele me pedisse de joelhos. Ainda hoje estou convencida que este episódio contribuiu para que desde muito cedo tivesse lutado ferozmente pela minha autonomia e me habituasse a contar sobretudo comigo própria.

Como ia dizendo, aos dez ou aos onze anos passávamos a ser frequentadores diários dos transportes públicos, desde o comboio - mais caro e menos directo (tinha de ir primeiro à Estação Velha), aos dois tipos de autocarro: um camarário, amarelo, do género urbano, e outro do tipo “camioneta da carreira”, de uma empresa privada, onde o rádio estava invariavelmente ligado em altos berros, jorrando canções de gosto muito duvidoso, do reportório designado por “nacional cançonetismo”. Algumas dessas canções parecem ressoar ainda aos meus ouvidos, é o caso do “Ó tempo volta pra trás” ou de alguns fados da Hermínia Silva, muito do agrado de alguns utentes daquele transporte, nomeadamente uma corpulenta peixeira, de grandes argolas e cordão de ouro, com lugar reservado na primeira fila, logo atrás do motorista, e notória tendência para pontificar acerca dos mais diversos temas, enquanto fazia crochet.

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Outro dos suplícios dessas viagens matinais era o cheiro a “mata-ratos”, (para quem não saiba, era o nome que se dava a um tipo de cigarros baratuchos que se vendiam, salvo erro, em pacotes de riscas encarnadas e amarelas) – não nos esqueçamos que naquela época se fumava desalmadamente nos transportes públicos. Esse cheiro, entranhado na roupa, à mistura com a humidade dos dias de inverno, colava-se a nós de manhã à noite, o que me valeu algumas situações deveras humilhantes, sobretudo nas aulas de uma irónica professora de Geografia, que adorava tecer considerações jocosas acerca do estranho odor que de mim emanava, para gáudio do resto da turma.

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Era por motivos de peso, como este, que preferíamos, de longe, viajar de comboio. Mas essa alternativa, bem mais confortável, traduzia-se numa outra carga de trabalhos, pois a hora tardia a que chegava a Coimbra obrigava-nos a correrias absolutamente desvairadas, logo à saída da estação até ao Largo da Portagem, de modo a conseguirmos apanhar um trolley superlotado que nos depositasse à porta do liceu às 8h30 em ponto. Lembro-me que num desses trajectos de trolley viajei com a mão a segurar a pasta, do lado de fora da porta, que entretanto se fechara de supetão – só não me magoei porque havia umas borrachas a rodear a dita porta. Mas da risota dos transeuntes não me livrei eu. Pensando em tudo isto, agora, à distância, pergunto-me como conseguíamos, no meio desta turbulência matinal, ter sucesso escolar, embora nem sempre brilhante, convenhamos.

Mas, voltando ao comboio, isso é que era um luxo! Eu e a minha irmã Isabel, um pouco mais velha, minha companheira de infortúnio, arranjávamos por vezes, artimanhas de viajar, munidas de bilhetes de 2ª classe, em carruagem de 1ª, onde num determinado compartimento, sempre o mesmo, viajava um grupo de senhores que muito amavelmente nos guardavam lugar, mal nos viam entrar no comboio. Tratava-se de gente conhecida da família - todos eles ciosos funcionários públicos, como atestavam as gravatas, os bigodes bem aparados ou os cabelos penteados com brilhantina -, que nos achavam imensa piada, vá-se lá saber porquê?! Eram homens muito formais, pelo menos aparentemente, que faziam vagas reflexões acerca das condições atmosféricas e de outros temas pouco comprometedores, numa época em que havia agentes da PIDE infiltrados em todos os grupos. Para nós, filhas de um homem que era contra o regime vigente, habituadas a ouvir conversas sem rodeios, aquilo cheirava-nos um pouco a “conversa mole”, mas isso pouco interessava, o certo é que o ambiente da carruagem era acolhedor, estava quentinho, havia no ar um cheiro agradável a after shave, o tabaco deles não cheirava a “mata ratos” e, last but not the least , não se ouviam aquelas horrendas vozes esganiçadas a sair de roufenhas colunas de som.

O regresso a casa, ao fim do dia, era bastante mais tranquilo, fazia-se a maior parte das vezes de comboio, sem pressas. Desta feita, já não nos cruzávamos com os senhores enfarpelados, assim como nem sempre viajávamos juntas, eu e a minha irmã, pelo que as companhias variavam, sendo múltiplas as experiências que cada uma de nós colhia, a enriquecer o nosso quotidiano, o qual era muitas vezes esmiuçado, mais tarde, à mesa do jantar. Somos quatro filhos, embora não me tenha referido até agora a dois deles, a um, por ser rapaz e mais velho, o que o levava a afastar-se o mais possível de nós - às vezes julgo que até fazia de conta que não nos conhecia -, coisas próprias daquela idade parva; e a outra, por ser muito mais nova, encontrando-se, nessa altura ainda em estado de graça, no remanso do lar. Julgo que nos habituámos, os meus irmãos e eu, a estar muito atentos ao que nos rodeava, havendo em todos nós uma tendência para captar o lado caricato das situações – até hoje, quando nos costumamos encontrar soltamos umas boas gargalhadas.

Voltemos pois ao comboio, numa tarde de regresso a casa. Dessa vez, se bem me lembro, entrei num compartimento onde já se encontrava uma amiga nossa, uns bons anos mais velha do que eu, aluna da Faculdade de Letras, e um rapaz desconhecido, também ele aparentando ter mais idade. Lá começámos as duas a conversar, não me lembro se tentando, de certo modo, impressionar o desconhecido – pelo menos a minha amiga, segundo rezavam as crónicas, não se fazia rogada a impressionar conhecidos ou desconhecidos. Enfim, o certo é que não tardou muito e já o dito rapaz dava as suas sentenças, todo charmoso, enquanto a outra, mais à vontade, a enrolar uma madeixa rebelde com os dedos, num tique que lhe era característico, se sentia encorajada a fazer olhinhos – era ultra míope e recusava-se a usar óculos, o que lhe conferia um ar sui generis e enigmático. E eu, nos meus treze ou catorze anos, de lado, a topar tudo. Não me recordo do tema da conversa em que se entretinham - já lá vão tantos anos -, mas sei que a certa altura o rapaz referiu que tinha vindo a Coimbra, em cuja Faculdade de Direito estava a fazer umas cadeiras e que era das Caldas da Rainha.


Alto aí, esta informação fez soar campainhas e resolvi tomar eu a palavra. Falei então das Caldas, não por conhecer a cidade, mas de tanto ouvir falar nela. Referi as belas recordações que os meus pais guardavam dessa terra, onde o meu pai dera aulas de Filosofia num colégio (por sinal, o Externato Ramalho Ortigão) e das saudades que eles tinham desses dias tão felizes. Falei daquele marco importante da história da família, de como o meu irmão aprendera a zurrar nas Caldas, mesmo antes de articular palavra, pois a casa onde viviam ficava perto do logradouro onde os burros estacionavam, enquanto os donos iam ao mercado. Falei-lhe de como eles falavam das idas ao casino, do são convívio, dos jogos de ténis com o grande amigo Calheiros Viegas adepto tão ferrenho daquele desporto como o meu pai…

- Será que o conhece? Acho que é uma família conhecida das Caldas – concluí eu.

Foi então que o desconhecido, em silêncio, se pôs de pé, para procurar a carteira e, num gesto teatral, abre-a e saca do B.I., para exibir o seu nome. Ali, bem escarrapachado, podia ler-se: João Manuel Quental Calheiros Viegas (se a memória não me falha).

Bem, fiquei sem fala! Exultámos, pois também ele sabia perfeitamente quem eram os meus pais. Também lá em casa se falava muito do Mário Braga e da Maria Isabel.
Cheguei a casa eufórica com tal novidade, e com muito para contar. Naquela noite, ao jantar, consegui ser o centro das atenções e logo a seguir houve conversas telefónicas entre os meus pais e os pais do João.
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Claro, que a partir daquele dia, sempre que o João vinha a Coimbra, aparecia lá em casa – e era sempre bem-vindo. Mais velho do que nós, sabia mais coisas e tinha muita piada a contar histórias, com aquela voz ligeiramente rouca, que lhe conferia um charme especial. Depois, também fomos às Caldas em passeio turístico, - para os meus pais, uma espécie de romagem de saudade -, viagem que para nós, adolescentes, teve o seu ponto alto, à noite, numa boite (como então se dizia), chamada o Inferno da Azenha.
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Ah, é verdade, o João e a minha irmã encantaram-se muito um com o outro e até encetaram um namoro que durou, pelo menos, aquele Verão.
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Ana Braga

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C O M E N T Á R I O S

Meus Sonhos disse...
O João Calheiros Viegas é aqui um pretexto para a descrição de uma infância invejável pela liberdade e imaginação que emana da sua recordação.

Extraordinários os diferentes cheiros e sons dos diversos meios de transporte,que ajudam a compor quadros por onde vamos passeando não só o olhar mas todos os sentidos.

São estes momentos,como já tinham sido o Borlão e a Rainha,que tornam este blogue uma visita obrigatória.Parabéns.

J.L. Reboleira Alexandre disse...
Ah, é verdade, o João e a minha irmã encantaram-se muito um com o outro e até encetaram um namoro que durou, pelo menos, aquele Verão, conta-nos Ana Braga. Como tudo seria diferente se este namoro continuasse....

Como muitos de nós que fizemos, fazemos ainda, no meu caso, a nossa vida activa bem longe desse pequeno cantinho, o que pensará o João ao ler este post de Ana Braga, que mais uma vez nos transporta de uma forma tão ligeira quanto agradável à sua meninice e adolescência.

Mais velho que a Ana, mais velho que eu, o João, que vinha da cidade e do ERO e eu que vinha do Chão Da Parada e da Bordalo foi, praticamente desde a minha chegada a estas nórdicas paragens um amigo e cliente da primeira hora. Através dele, conheci de forma mais intima o Dr Calheiros Viegas e a esposa, quando há cerca de 28 ou 29 anos o Miguel (adversário no ping-pong) e o meu Olivier eram apenas bebés.

Os anos passaram, nunca de forma igual para todos, mas continua a ser para mim um prazer imenso quando o telefone toca e do outro lado do oceano ouço a voz do João, talvez menos segura agora, mas ainda de timbre muito particular.

Obrigado Ana Braga por trazer esta pequena história do meu amigo João Viegas. E a ele cá o espero brevemente.

Abraço. Zé Luis

J J disse...
Não podia deixar de comentar este excelente texto, não pela sua (previsível) qualidade, nem pelo João Calheiros (que o "comentem" os contemporâneos) mas porque me diz respeito nalguns aspectos.

Os jogos de Ténis do Dr. Calheiros Viegas eram sempre "assanhados" (como escreve a Ana), incluindo os que o opunham ao filho; assisti e até arbitrei muitos, como já aqui descrevi numa crónica de Verão.

A vida cultural das Caldas era realmente naquela época, muito rica e variada, quando comparada com o panorama do resto do País. Hoje é ao contrário.

Estou de acordo que a criação de hábitos de autonomia nos jovens (como acontecia connosco) faz parte da educação dos jovens, mas penso que a nossa geração não fez o mesmo, fomos hiper-protectores... estarei errado?

Os "mata-ratos" chamavam-se Definitivos, Provisórios e Kentucky: eram cigarros sem filtro, mais finos (em espessura, não em qualidade!)e mais baratos do que os outros.

A passagem do pai da Ana pelo ERO já aqui foi referido numa crónica da nossa colega Mila Marques. Lembro que Mário Braga nos deu o prazer da sua presença no nosso Encontro de 2009.

Se o namoro do João com a irmã da Ana durou, pelo menos, aquele Verão foi, pelos standards do J P Belmondo caldense, quase um noivado, os seus romances eram abundantes mas breves (reza a lenda...).

Obrigado por estes deliciosos momentos a ler este post, daqui envio, para a Ana e o Virgílio Ruy, um abraço. JJ

jorge disse...
o joão calheiros(ou o joão paulo belomundo,segundo o jj)é mais velho do que eu mas lembro-me bem dele e do pai,jogador de ténis e ping-pong e entusiasta da ginástica e outras formas de cultura física.gostei muito do texto da ana braga que já anteriormente aqui nos tinha mostrado que sabe escrever.boas férias para todos.j
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Guida Sousa disse...
Este post deliciou-me porque conheço bem o João e estou mesmo a vê-lo no meio do comboio a exibir o seu BI.Nunca tinha ouvido essa do Jean Paul Belmondo caldense mas é bem achada!!!Uma perguntinha só:e a irmã não tem nada a dizer sobre o "assunto"?Gostaria de saber...!!!GSousa

.João Ramos Franco disse...

Gostei muito da história da Ana Braga,passada em Coimbra, bem escrita, aliás como sempre. O J.L. Reboleira Alexandre falou-nou do João Callheiros Viegas no Canadá, o J.J. recordou uma parte da juventude dele e disse que : "comentários, que o comentem os contemporâneos"; e eu, contemporâneo, digo-vos apenas o João é um amigo como um irmão.
Um abraço para todos os que escreveram sobre ele, do vosso amigo
João Ramos Franco

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À JANELA DO ARTUR

(Este texto foi o comentário que o Artur R. Gonçalves deixou em "À JANELA DA RAINHA" )
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A janela da minha casa de infância e juventude dava para a rua Capitão Filipe de Sousa. Para os frequentadores do ERO, este topónimo deve dizer alguma coisa. Se olhasse em frente, via um posto de gasolina que provavelmente até já terá sido desativado nos dias de hoje. O serviço era permanente e cada litro de combustível vendido era acompanhado de um tilintar de campainha muito particular. Era como se estivesse no campo a ouvir os trinados da passarada. A imaginação é muito fértil nestas efabulações. Se olhasse para o lado esquerdo, nessa tal janela da meninice, via a garagem caldas, logo ao lado do tal externato particular que todos nesta página conhecerão o nome. A visão alcançava uma dimensão mais abrangente quando subia até ao sótão e observava o chafariz d’el rei. É verdade que o original fora demolido no ano do meu nascimento e substituído por um outro de menor dimensão que teimou em manter o nome do anterior. Recordo-me da relativa imponência do legítimo fontanário régio através da fotografia mais antiga que me terão feito, precisamente à sua sombra. O dia do meu batizado terá sido um dos últimos do jorrador de água mandado construir pelo magnânimo, não sei se às suas expensas se das dos vilões locais. Desconfio, todavia, qual será a resposta. Dias depois, um dos irmãos do chafariz das cinco bicas, era riscado definitivamente da face da terra.
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Nunca fui muito frequentador de janelas. Preferi sempre as portas que me ligavam de um modo bem mais imediato com o mundo. Eu e os meninos da minha rua brincávamos no largo empedrado da Sangreman Henriques à volta do tal fonte com aspirações aristocratas de uma monarquia pretérita. As memórias desses tempos persistem em ficar gravadas no meu arquivo biológico povoado de células que os entendidos dizem ser cinzentas, a cor mais extraordinária que os olhos humanos podem registar, porque associam o branco que é tudo (vida) ao negro que é nada (morte).
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Recordo muitos episódios dessas manhãs e tardes despreocupadas dos verdes anos. Dispenso-me de os revelar aqui neste momento. Vou aproveitar-me da evocação da Isabel para revelar que há uns 50 anos atrás também tive a ocasião de morar durante pouco mais de um mês numa das tais casas fronteiras às costas da rainha. Visão altaneira que se podia observar da janela de um terceiro andar de um apartamento construído na parte mais alta da cidade. A dois passos da antiga praça do peixe. Na altura, não me senti minimamente desconsiderado por não ver o rosto da rainha. Sentias-me era um felizardo por observar toda aquela paisagem urbana que não podia observar da janela do meu sótão. Senti-me verdadeiramente importante. Depois a minha avó melhorou, a minha mãe regressou a casa e eu fui devolvido à procedência pelos amigos da família que me haviam acolhido.
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Voltei a ver a garagem caldas à minha frente e o prédio do colégio e o largo do chafariz de um rei que na altura nem sabia o nome.A minha aversão pela estátua da rainha das caldas é posterior. Sobre o assunto já teci alguns comentários no fb. Fi-lo numa fotografia em que fui marcado (gosto cada vez mais desta terminologia virtual) pelos «Antigos Alunos Ero» e que depois o JJ teve a amabilidade de transcrever neste espaço alguns parágrafos abaixo. A inexistência de uma única referência À JANELA DA RAINHA e à autora que só conheço destas paragens, levaram-me a compor uma nota explicativa na rede social e a compor o texto que agora vos deixo.
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Se a postagem da Isabel Xavier tivesse sido feita no tal «livro das caras», teria carregado com muito gosto na tal palavra mágica GOSTO e o dedinho voltado para cima lá ficaria a documentar esse meu gosto.
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Artur Gonçalves
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C O M E N T Á R I O S
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Mélita disse:
Felicito os três autores de tão maravilhosos posts.
O João Jales com uma escrita tão bem urdida que se lê de um fôlego, mais parecendo que estamos assistindo a uma curta, durante a qual vai desfilando quase meia-Caldas da época. De rua em rua, de prédio em prédio, andar a andar conseguimos quase vislumbrar os seus rostos à janela. Que fabulosa memória, JJ, nem faltou a Eunice Muñoz...
A Isabel e a sua janela, de cuja escrita se desprende uma certa magia que, de tão bem escrita, nos faz até sentir a aura de ternura que envolvia o romance/namoro da sua "rainha". Princesa à época, pois que, cá em baixo, de pescoço esticado, se encontrava o príncipe encantado... Outros tempos outras vontades...
Do Artur a sua bela evocação do chafariz e do prédio da frente que, por acaso, era onde funcionava o ERO... O célebre edifício da Crespo onde ainda fui aluna por um ano.Lembrar-se-á provavelmente da histórica passagem da Rainha Isabel II e seu séquito por tal rua, aquando duma sua visita a Portugal e de nós, miúdos, entusiasmados e excitados com tal visão real, a dar-lhe as boas vindas, gritando "God Save The Queen"... O ano de tal ocorrência não recordo mas o JJ vai de certeza ajudar-me...(ver NOTA)
Estão pois de parabéns estes autores e igualmente todos aqueles que nos têm vindo a brindar com seus fascinantes textos e estórias.
Amélia Teotónio
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NOTA: Isabel II visitou Portugal entre os dias 18 e 23 de Fevereiro de 1957, sendo recebida com grandes manifestações populares. O Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa possui algumas imagens associadas à visita de Estado da Rainha Isabel II de Inglaterra AQUI. JJ
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diz o que te vai na alma disse...
É sempre um prazer "viajar" por estas memórias descritas com mais ou menos emoção. Assim foi esta "espreitadela" à janela do Artur.
As janelas têm qualquer coisa de romântico, e achei imensa graça por o Artur as preterir relativamente ás portas! Sempre gostei de janelas, porque de lá a minha visão alcança até o infinito, mas esta preferência do Artur pelas portas, trouxe-me à lembrança uma frase que minha mãe me dizia assiduamente e que não resisto a transcrever:"Um dia fecho-te a porta. Só sais quando eu deixar! Tens medo que te caia o tecto na cabeça?"
Passados estes anos e depois desta leitura, tenho de concluir que apesar da magia das janelas, afinal prefiro a liberdade das portas.
Obrigado por partilharem recordações da vida.
Dalila Garcia
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Tina disse...
Vim debruçar-me à janela do Artur e, imperiosamente, tive de ir em seguida à da Isabel. Foi com prazer que li a estória linda do namoro dos seus pais e com um sorriso divertido que me inteirei da "má-criação" da Rainha, sempre de costas voltadas para a casa da Isabel e dos pais, lembrando-me que da mesma forma a gente fala da má-criação do Marquês de Pombal quando o saudamos e ele necas...
Da Janela do Artur, que preferia ir logo à descoberta do mundo à sua espera nas ruas, tive uma maior noção da localização dos lugares que dizem tanto ao coração dos que pertencem de direito a este blogue. Estive pela primeira vez nas Caldas há tantos anos que lhes perdi o número, mas tive a sorte de regressar à cidade para um jantar com ex-alunos do ERO e mais uns rusgas como eu. Como conheci o Artur no "livro das caras", como ele batiza (novo acordo ortográfico!) o FB, aproveito a sua boleia e clico virtualmente no "Gosto" para lhe agradecer as referências ao chafariz d’el rei, que vi a correr. E acrescento que é de certeza às suas células cinzentas (massa incluída) que ficámos a dever a capacidade extraordinária de interiorizar o que analisa neste mundo e nos transmite com um dom que ainda bem foi bem aproveitado para leccionar na área linguística.
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Gostei muito da maneira singela como o Artur descreve a sua juventude! Aliás, penso que embora não conheça o Artur pessoalmente, admiro a sua maneira de partilhar connosco as coisas belas que fotografa e pelos vistos escreve!
Na minha maneira simples de ver as coisas escrever é outra maneira de fotografar com a imaginação, bem haja!
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Isabel Esse disse...
Não conheci o Colégio neste local nem sabia que naquele local esteve um chafariz.Creio que hoje lá está um pequeno bebedouro,não é?
"A imaginação é muito fértil nestas efabulações" mas o autor parece preferir o rigor descritivo das suar recordações e nega-nos "os muitos episódios dessas manhãs e tardes despreocupadas dos verdes anos"...Talvez outro dia?Fico à espera,porque gostei muito.IS
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jorge disse...
julgo que o "livro das caras" seja o facebook onde ainda não navego.tenho que ganhar coragem e arranjar tempo e conhecer lá o artur que julgo não conhecer de outros carnavais.escrita magnífica de alguém que está certamente muito habituado a fazê-lo.abraço.j
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J L Reboleira Alexandre disse...
Sobre o Artur é o Jorge quem o diz e eu confirmo: «escrita de alguém que está habituado a fazê-lo». Todos nós escrevemos, mas como me repete constantemente uma velha colega do difícil mundo das viagens: a gente pode sempre juntar uns floreados. Só que algumas flores têm um aroma mais agradável que outras. Basta lermos os diferentes posts para sentirmos desde as primeiras linhas quem os escreve. O Artur faz parte do pequeno núcleo de colaboradores do blog que se distinguem pela fluidez e simplicidade das suas palavras. Em linguagem futebolistica, trata-se afinal da diferença entre Mourinho e o treinador de bancada.
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João Ramos Franco disse...
Há uma coisa que era comum ao Artur e a mim, é o gostar de estar à janela, ele gostava mais de sair porta fora e ir brincar com os amigos e eu também.
Toda a zona da cidade que nos descreve é, para mim, estudante no prédio do Crespo, completamente familiar e penso que está gravada na memória de todos os que frequentaram o ERO neste edifício.
Quanto “À JANELA DO ARTUR”, e à vida que ele dá ao texto transparece em tudo o poder descritivo, que quem o lê no Facebook já está habituado a contactar com o seu bem escrever e em poucas palavras.
Um abraço amigo
João Ramos Franco
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Cristina Ramos Horta disse:
Mais recordações de uma vivência que se torna cada mais real para mim. O Artur, com uma escrita limpida e perfeita traça-nos um pedaço de tempo vivido em Caldas.
Li duas vezes, sobretudo pelo pormenor da mudança do chafariz: pequenas realidades com mais impacto num testemunho do que em qualquer compêndio. E, de facto esse é o principal valor do testemunho. Os lugares ficam mais vivos, os prédios mais coloridos, as ruas mais definidas, porque descritos com o calor dos afectos.
Gostei muito de À Janela do Artur e fico á espera de espreitar por mais janelas.
Obrigada Artur.
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Isabel X disse...
É interessante notar o que os outros sentem após o que nós sentimos e dizemos. Várias reacções neste blogue me têm interpelado de modo diverso.
Pessoas que não conheço, mas que passei a conhecer, que reagiram ao que escrevi sobre a janela que de minha casa dava para a rainha. Nunca pensei nisso como um privilégio, apenas como uma condição. O que é maravilhoso é ver como o que escrevi, quase por brincadeira, teve tantas e tão belas reacções.
Desde logo a minha querida nórinha, a quem amo de paixão, Patrícia Baptista, assim mesmo, à moda antiga, adquirindo o nome do marido, meu querido filho Francisco.
Depois os meus amigos que nunca tinham vindo a este blogue e que provavelmente não voltarão: Nuno Valadas; Pedro Sinde; Pedro Martins; Ana Saudade e Silva; incondicionais... sempre... como sempre é a amizade verdadeira.
Ainda os "priminhos" mais novos, a Ana Azevedo Coelho e o Paulo Caiado, de cujos depoimentos tanto gostei, tão genuínos, tão sinceros...
O João (Serra) explicando aquilo que eu não vira no que fiz. Aquele amigo especial de quem sempre se esperam as palavras mais sábias, aquelas de onde nunca nos virá mal, só bem, porque só bem lhes é possível...
O Dr. Serafim, muito lá de casa... que me comoveu como mais ninguém. Testemunha da pessoa afortunada que sou por ser filha dos meus pais, neta dos meus avós e irmã dos meus irmãos (cinco e não quatro: falta o Tozé, mano mais novo, Benjamim, muito querido).
A Dra. Júlia, que tão bem me compreendeu, que fez ironia com a expressão "esgrouviada", forma que eu achei de a distinguir, com enorme ternura, do cinzentismo imperante no ERO de quando lá foi professora.
Os habituais, e por isso mesmo fundamentais, comentaristas do ERO, Dalila, Paulinha Pardal, Guida Sousa, Júlinha Ribeiro, etc., etc., que me "mimaram" com as suas palavras de incentivo, que tanto agradeço.
O João Ramos Franco, que considero uma das "oportunidades perdidas" por não o ter visto passar na Rainha, a quem tanto estimo.
E todos os outros, todos os outros que distinguiram com as suas palavras amigas, meigas, aquilo que escrevi como uma homenagem aos meus pais e à minha cidade.
O Joaquim, que sabe melhor do que eu quem vivia no Largo (só se enganou no nome da rua do meio: não é "Almirante Reis" mas "General Queirós". Almirante Reis é a Rua das Montras).
O JJ, a quem presto a minha humilde homenagem, tanto mais que julgo ser a primeira vez que não se sentiu na obrigação de comentar o post, o que muito me honra (!!!). Quanto ao resto - que é muito podem crer - foi incansável.
O Artur, que se lembra do Ramalho Ortigão do prédio dos Crespos (eu não) e que tão bem escreve sobre isso.
O Alfredo, cujo testemunho repôs aqui a "Mocidade Portuguesa" a que nunca pertenci e de que já não me lembro nas Festas do 15 de Maio.
O Luís Machado com saudades do "Much": eu também. Outra faceta muito peculiar da casa onde cresci.
A Cristina Horta com as suas pertinentes explicações sobre o monumento à rainha e a sua calorosa "adesão" ao ERO.
A todos, todos, agradeço.
- Isabel Xavier -
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Vanda disse:
Agradeço desde já a partilha através do Facebook do link que me trouxe "à janela do Artur"! Foi com enorme prazer que me debrucei à janela e por ela contemplei todas as paisagens descritas.
Confesso que nas Caldas só estive uma vez quando era adolescente e poucas recordações me foram possíveis trazer...No entanto deliciei-me aqui,solvendo a água de um chafariz que desconhecia e agora me parece tão próximo...Obrigada pela realeza das palavras simples,Artur! E obrigada,JJ, pela estrada que me fez entrar num lar com janelas tão escancaradas de vida.
Vanda Gomes
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À JANELA DA RAINHA

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Dantes as janelas eram molduras donde víamos o mundo e o mundo a nós. As vizinhas vinham às janelas conversarem umas com as outras, pediam-se mutuamente salsa, sal, essas coisas íntimas próprias de vizinhas às janelas. Espreitavam-se umas às outras, diziam ditos umas das outras. Trocavam ditos e salsas emprestadas, com outras vizinhas, noutras janelas da casa, as que ficassem mais a jeito, umas e outras.

Dantes colocavam-se colchas às janelas nos dias de festa; colchas cuidadosamente guardadas em arcas; colchas que jamais haviam sido postas sobre qualquer cama; exclusivamente destinadas àquele fim: enfeitar janelas quando passava o cortejo de oferendas ou quando se faziam as cerimónias de homenagem à rainha, no dia 15 de Maio. As casas da “Rainha” vestiam-se para ela, formavam o cenário adequado à qualidade da homenageada. Os habitantes dessas casas faziam parte da festa, proporcionavam-lhe belos e coloridos cenários, participavam da acção: não se limitavam a olhar.
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Dantes as janelas serviam para namorar. Sempre ouvi contar que as janelas lá de casa, uma delas em particular – de que logo passei a gostar mais - serviram para os meus pais namorarem.
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Morávamos na “Rainha”, a rainha sempre de costas para as janelas da nossa casa; aliás, ainda hoje teima em manter-se nessa posição tão pouco simpática. A minha mãe sempre se referiu a esse facto, e à desconsideração que em si mesmo comporta, com alguma ironia. E com toda a propriedade, ou não fosse ela a proprietária da casa em questão, e respectivas janelas, claro!

Mas voltando ao namoro há pouco interrompido. Os meus pais conheceram-se nos bailes de carnaval do casino, no longínquo ano de 1944. Começaram logo a namorar: a minha mãe à janela de casa dos meus avós, o segundo andar do número sete do Largo Conde de Fontalva (é este o verdadeiro nome da “Rainha”), o meu pai, estoicamente, de pé, no mesmo largo. Ouviam-se com dificuldade, ao meu pai doía-lhe o pescoço de tanto o virar para o alto. Deve ser pouco romântico namorar nestas circunstâncias, o esforço dispendido é excessivo quando comparado com as vantagens que proporciona. Da minha mãe apenas se vislumbrava uma vaga semelhança ao rosto dela, o mesmo acontecia quanto ao que à minha mãe era dado ver do meu pai.
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Condoídos com a situação, os meus avós permitiram um grande avanço, um passo decisivo no namoro: a minha mãe foi autorizada a descer o lanço de escadas que a levava do segundo para o primeiro andar, então devoluto, e de uma das suas janelas namorar bem mais “próxima” do meu pai. Eis a razão pela qual o namoro se fazia a partir de uma das janelas da nossa casa. É que foi nesse primeiro andar que os meus pais passaram a viver quando casaram.
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Não sei se fartos de janelas, por muito simbólicas que sejam talvez as janelas não constituam cómodos lugares de namoro, o certo é que os meus pais pensaram casar ainda esse ano. Mas quanto a essa hipótese tiveram menos sorte: aquele ano era bissexto e a minha avó profundamente supersticiosa (por causa dela ainda hoje não me sento a uma mesa de treze comensais!) e não houve maneira de obter o seu consentimento para o ansiado p
rojecto de casamento. Isto porque, segundo a minha avó, casamentos felizes não podiam, em caso algum, ocorrer num ano bissexto. E por isso é que os meus pais esperaram “pacientemente” que o ano terminasse, e casaram no dia 3 de Janeiro do ano seguinte: 1945!
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Eram outros os ritmos daqueles tempos, mais rápidos a tomar decisões. Tempos de maior obediência dos filhos em relação aos pais, pelo menos quando estes invocavam argumentos de peso, substantivos, como foi o caso.

Quanto a mim, nunca tive o hábito de estar às janelas que davam para a rainha, talvez por ela estar de costas voltadas… lembrei-me eu agora enquanto escrevo. Mas tenho a noção clara da perda que pode estar associada a esta minha opção. Nem quero pensar nas inúmeras oportunidades que perdi na vida devido à falta desse hábito!
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No entanto, sempre gostei de morar ali! A minha casa tinha um quintal e era para lá que dava a janela do meu quarto. Mais do quintal do que da janela (meio acanhada, sei lá, não me dava jeito!), é que eu observava todos os dias as estrelas, ou pelos menos sempre que elas ali me apareciam, e endereçava-lhes preces só minhas, recados que só eu sei! E à lua, claro, secretamente cúmplice desse outro tipo de namoro!
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E o cosmos inteiro morava ali comigo, ali mesmo ao pé de mim, ali no meu quintal para onde dava a janela do meu quarto!
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- Isabel Xavier -

C O M E N T Á R I O S

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Estes comentários referem-se ao post "À JANELA DA RAINHA", que deve ser lido antes. Basta clicar AQUI para o fazer.

Se já o leu, aprecie os comentários.
foto incluída na colecção online
Nuno Valadas disse...
Apesar de ser apenas filho adoptivo das Caldas não deixei de vibrar com este comentário da minha amiga Isabel pelo que tem de autenticidade e poesia. Os namoros de janela fazem parte também do meu imaginário juvenil e tornei a revivê-los. Brilhante!
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Júlia Ferreira disse:
Gostei muito do texto da Isabel nas referências à função das janelas no «dantes», e não pude deixar de sorrir com o ritual do namoro «de estaca» ou «de gargarejo», nas costas da Rainha, que mesmo passando do segundo para o primeiro andar teria ainda de obrigar a códigos de comunicação não-verbal. São apontamentos curiosos evocando a tradição feminina de espera e de reserva dentro do espaço doméstico, característico da burguesia urbana do Portugal dos «brandos costumes».

Mas a Isabel só não nos diz como era quando chovia. O namoro era interrompido, o enamorado (com torcicolo crónico...) aguentava ainda à janela estoicamente ensopadinho, correndo o risco de apanhar gripes e constipações ou passava-se só à troca de cartas «em papel perfumado»?

Também fui testemunha, nos meus tempos de «menina e moça», de namoros de janela. Só que as burguesinhas «do catolicismo» (como lhes chama Cesário) e os «burguesinhos» de uma vila pequena como a minha tinham mais sorte: nas moradias unifamiliares, a janela era no rés-do-chão, o que dispensava o recurso a técnicas sofisticadas de sinais e de alfabetos de gestos e permitia «outros abusos». E, neste campo, o meio rural ainda tinha mais sorte, com as idas à fonte e as desfolhadas nas eiras.

Sobre o título do «post», não tenho muito a dizer: no meu tempo de ave que arribou às Caldas e que depois migrou para outras paragens, nunca pude estar «à janela da Rainha», porque a minha janela, na rua da Alegria, dava para o comboio…. Mas lembro-me ainda de que Sua Majestade, apesar de me virar as costas quando eu saía da cidade, parecia acolher-me bem no regresso ao burgo.

Obrigada, Isabel, por este texto. Talvez não o tenha comentado como gostarias, mas… não podes esperar muito da escrita da pessoa «um tanto esgrouviada», que tens na memória…

Um beijinho e até breve,
Júlia Ferreira
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Pedro disse:
Isabel:
Que belo texto! Não é só poetisa (desculpe não dizer ‘poeta’, mas continuo a preferir distinguir o género!), é também “prosista”!
Parabéns e um abraço do
Pedro Sinde

Joaquim disse:

É a segunda vez que eu dou a minha opinião na "janela da rainha" e é com muito gosto que vejo que o prédio em que eu dizia que era de um granito esverdeado (o que parece ser) já lá vão 50 anos, era onde o Valente ia namorar a sua futura esposa. Eu mencionei pessoas que viviam naquele largo, porque não haveria janelas, se não houvessem pessoas.

As casas de um piso que estão no lado direito eram do Sr Joaquim Herculano, que eu tinha mencionado antes, que também tinha duas filhas que gostavam de estar à janela. Na casa dos "Samagaios" ( logo a seguir) ao prédio, eu falava muito com a Dona Margarida, porque ela adorava estar à janela assim como sua irmã e quando da minha chegada do ultramar ela foi das primeiras pessoas a ir a minha casa dar-me a boas vindasP.S..O cunhado da Isabel (o Valente) era muito popular "embora menino fino" juntava-se com colegas de várias camadas sociais da época e quando havia um jogo de bola lá estava ele "corria muito e tinha muita habilidade".

Joaquim

.Ana disse...
Adorei a leitura Isabel!Também eu, me revejo numa janela da Rainha...A casa das minhas Avós, Nia e São... e numa infância cheia de coisas boas.

O Quintal, com vista para a Rainha, os quinzes de Maio...claro! A ladeira, e as janelas...A da "casa da costura", da qual guardo memórias únicas, os primos, a infância, os Verões intermináveis e o cheiro dos bolos da Avó São.


Mas a "minha" janela...era a outra a seguir... a do quarto da minha Avó Nia! Ir dormir a casa da Avó era a melhor das experiências... o travesseiro a a almofada, o cheiro dos lençóis brancos e o barulho dos carros a passar mesmo ali ao lado...


Obrigada pela sua partilha, realmente os afectos que nos ligam a cada local desta cidade são comuns à nossa condição de Caldenses, que bom manter estas memórias tão vivas.

Ana Azevedo Coelho
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Alfredo disse...
A Janela da Rainha
Não vou comentar a janela da Isabel Xavier cujo texto é excelente e descritivo do Largo (embora da Rainha só possa descrever as costas) e arredores. Vou pegar na fotografia que nos mostra a pompa e circunstância das comemorações do 15 de Maio, dia da cidade. Não faço ideia se esta mesma fotografia foi tirada no ano que, resumidamente, vou evocar mas as semelhanças com o que presenciei na altura e que difusamente me vêm á memória são espantosamente iguais.

Saímos da Escola em formatura, era eu na altura um imberbe Chefe de Quina Arvorado, e fomos alinhar com a formatura do RI5 e a formatura dos Bombeiros Voluntários das Caldas da Rainha. Depois destas hostes terem recebido a instrução sobre o papel de cada uma no desfile e das honras a prestar, não só à Rainha mas também aos ilustres “casacas” convidados para a homenagem, lá seguimos marchando com o garbo e a altivez que o momento requeria: A Banda de música do RI5 na frente tocando uma marcha marcial qualquer marcando o passo dos mancebos, Bombeiros e Mocidade.

Embora tanto a Corporação de Bombeiros como o Corpo da Mocidade Portuguesa se tivessem apresentado com as suas respectivas caixas e clarins para marcarem o seu respectivo compasso, tanto estes como aqueles foram proibidos de tocar ficando a cadência entregue apenas à Banda do RI5. Disseram eles, os mandantes da altura, que era para não haver confusão com a mistura de toques. Acontece que a Mocidade encerrava o desfile, a vários metros de distância da Banda e o som chegava-nos difuso, baralhado e com eco, o que nos obrigava a, constantemente trocar o passo, na vã tentativa de acompanhar a cadência.Ao longo da rua, desde a Escola, passando pela Praça de Touros, topo da Rua das Montras e descer até ao Largo assistimos a uma mixórdia de desfile de passos trocados que faria corar o mais bem intencionado. A coisa só melhorou quando o Comandante de Grupo deu ordem aos Comandantes de Castelo para darem vozes de cadência… 1, 2, 1, 2… e aí as coisas entraram nos eixos.

Formados no Largo da Rainha (que afinal é o Largo Conde de Fontalva se bem me apercebi agora) ficamos à espera que as celebrações começassem. Só que neste tipo de eventos “os cães grandes”, nome que dávamos aos senhores de “casaca”, nunca chegam a horas e o tempo, longo tempo, de espera fez-nos suar “as estopinhas” provocando mal estar, dores de pernas e insolações inerentes.Por fim lá chegou o Almirante, sem barco, e ouviu-se o cornetim do RI5 a tocar o “firme”, “sentido”, “abrir fileiras”, “continência”, os Chefes e Comandantes saberiam este ritual, agora os jovens mancebos da hoste, de calções caqui e camisa verde com quinas ao peito não percebiam “patavina” do significado dos toques e foi a atrapalhação, bem disfarçada por sinal através das ordens de viva voz dos Comandantes.

Revista “às tropas em parada”, o Hino Nacional “a Portuguesa” tocado pela Banda e logo de seguida aguentámos estoicamente os discursos, a deposição das coroas e das flores aos pés da Rainha e o regresso, nós à Escola, os Bombeiros ao seu Quartel no final da Av. da Estação e os militares ao RI5.
Foi giro… tão giro que nos anos seguintes me esqueci de ir.
Um abraço
A.Justiça
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Júlia Ribeiro disse:
Um texto muito bem escrirto,muito agradável de ler,aliás, coisa a que a Isabel já nos vem habituando.....muitos parabéns e um beijinho.
Júlia R
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Luis disse:

Gostei do "romance" e da evocação da Rainha, embora o que eu recordo mesmo com saudade em relação a essa casa seja o "Much",várias vezes aqui referido.

Excelente post,na sequência de outros que também o foram,parabéns a todos.Abrç.L
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João B Serra disse:
O texto de memórias cruzadas da Isabel é um exercício sobre a metáfora da janela: um enquadramento da visão e dos afectos, uma silhueta onde se recortam rostos e paisagens.

Nas últimas décadas, a palavra foi popularizada pela informática e houve mesmo um sistema operativo que a tomou como designação. A janela passou a ser um dispositivo de organização que facilita o contacto entre o utilizador e o programa. A banalização da palavra fê-la entrar no sociologuês, surgindo em expressões de gosto tão duvidoso como "janela de oportunidade" e similares. A Isabel recuperou-a aqui para osentido original: abertura para o exterior, espaço através do qual se estabelece uma relação de duplo sentido de dentro para fora da casa.

Bela história a da negociação entre namorados e cúmplices que permitiu, num primeiro momento, aproximar a janela da função e, num segundo momento,conduzir quem estava no exterior para o lado de dentro da janela.
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Pedro disse...
Belíssima, esta sua evocação, Isabel! Perdeu-se, na verdade, este hábito antigo de falar à janela, como se perderam tantas outras coisas, que a Isabel agora resgata com a ternura da Saudade!

Um beijinho
Pedro
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Jaime Serafim disse...
Ler um texto da Isabel é sempre um prazer enorme, mas este tocou-me especialmente.

Conheci a casa da Isabel. Ia lá semanalmente dar explicações à Lena. Naquele tempo era frequente os explicadores deslocarem-se a casa dos explicandos. Era uma casa onde se respirava o conceito de família na mais plena acepção da palavra. A Avó era uma senhora de forte personalidade, supervisora dos netos, em especial da Helena que, talvez por ser a mais tímida, requeria uma atenção mais dedicada. A Mãe da Isabel e de mais quatro irmãos, uma mãe serena, atenta, cuidadora, carinhosa, sempre com um sorriso no rosto, era, e consta que ainda é, uma senhora linda, elegante, sempre muito cuidada, perfumada e bem vestida. Uma casa cheia de gente jovem, mas de uma alegria tranquila onde sempre fui muito bem recebido e sentia os elos de carinho, de amor e de amizade que enlaçavam todos os seus componentes.

Mas os meus contactos com elementos desta Família também existiram fora daquela casa. A Irmã mais velha da Isabel, a Gracinha, foi minha colega no Externato e casou com o Tozé Valente, que foi o meu colega de carteira, também no Externato. São meus compadres - sou padrinho do segundo filho.

Fui professor do Luís, da Lena, da Isabel e do Mário.Mais tarde fui colega da Isabel. Embora de grupos disciplinares algo afastados, fizemos muitos trabalhos em comum, sempre com grande cumplicidade, muita amizade e admiração mútua.

Às vezes encontro a Lena – fazemos sempre uma grande festa. A amizade é forte e recíproca.

Também o texto da Isabel me recordou o que eu ouvia dizer do namoro no tempo dos nossos pais, sempre com muito recato e distância. Trouxe-me à lembrança uma cançoneta cantada naquele tempo pela voz fresca de uma cançonetista, como na altura se designava:

Ir à baixa de trem é o que convém e que mais realça.

E tocar todo o ano, no meu piano, a mesma valsa.

E poder namorar no meu quarto andar, com grande alvoroço…

E o rapaz lá na rua, a olhar p’ra Lua, com dor no pescoço.

Beijinhos, Isabel

Jaime Serafim
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Paulinha disse...
Olá Isabel
Que maravilha de texto, adorei, realmente aqui aparecem muitos talentos.
Escreve mais!
Bjs
PP
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dalila disse...
Excelente texto. Continuo a gostar de janelas, ainda que não veja nem rainha nem rei!Têm algo de mágico e romântico.

Como o texto que acabei de ler.
Dalila Garcia
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Artur Henrique Ribeiro Gonçalves comentou no Facebook:
Nunca apreciei muito particularmente a estátua estadonovista da rainha das caldas, Dona Leonor de Lancastre ou de Viseu ou de Avis, Infanta e Rainha de Portugal, criadora das misericórdias e do hospital termal da vila/cidade que passou a ser a sua, mecenas, princesa perfeitíssima, mulher do renascimento, inventora, sem o saber, da arte manuelina, que celebraria o nome do irmão e monarca afortunado, protetora de mestre Gil Vicente, a rainha velha dos autos, inflexível nas suas decisões, mão do infortunado príncipe D. Afonso e madrasta do infante bastardo D. Jorge. Ainda hoje há quem se pergunte se o marido e primo terá morrido de morte natural ou matada. Ainda hoje há quem se pergunte sobre o papel que a refugiada na Madre de Deus terá tido no desaparecimento do marido. Ainda hoje há quem se pergunte se alguma vez houve nestes reinos tornados república alguma governanta como ela...
Gosto de a ver representada

AQUI e


P.S. As minhas palavras acima referem-se exclusivamente, à foto que me enviaram. Tal como a Cris, não fui aluno do ERO, mas já tenho contribuído pontualmente com alguns pequenos comentários.

Gostei particularmente do texto da Isabel Xavier (que só conheço destas paragens), mas não tive oportunidade de compor umas palavras adequadas à postagem e nada me garante que o consiga em tempo útil. Este impedimento aplica-se a muitos outros textos publicados no Blog, que leio sempre com muito prazer, apesar do meu silêncio ser mais fruto das circunstâncias apontadas do que de uma falta de vontade de dar uma opiniãio através da escrita...
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Guida Sousa disse...
Belísima hstória, contada com mestria e carinho e lindissimas fotografias.Tanto quanto julgo saber a autora não perdeu nada por não estar à janela,já que casou cedo!!!Bonita evocação familiar em que se lembram as Caldas de outros tempos,enriquecendo este blogue.
Parabéns.GS
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Ana Saudade e Silva disse...
Isabel,Gostei muito da sua história. De facto a beleza das tradições de antigamente, e os sentimentos deixam saudade... A beleza dos sentimentos...
Beijinho
Ana Saudade e Silva
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Patrícia disse...
Já sabe, Isabel, que não resisto a estes textos que escreve.Também este me tem cativa pela forma e pelo conteúdo.
Acho adorável a forma como conta o namoro dos seus pais à janela e a ironia com que descreve a utilização da janela.
Não sei se é fidedigno que a sua mãe se tenha referido à desconsideração da Rainha por estar de costas para a vossa janela, mas parece que a oiço dizer as palavras!
Mais uma vez, no fim, a singularidade da menina que foge à norma e que prefere as janelas do quintal do que as que dão para a rainha. Umas oportunidades podem ter sido perdidas, mas outras terão certamente sido ganhas!!
beijo
Patrícia Baptista
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Paulo Caiado disse...
Fascinante Isabel.

A tua escrita, mas também a forma como começamos a dispensar afectos a locais, edificios e até a estátuas! E o amor pela cidade faz-se assim, pelo amor por cada um dos elementos que a integra. Por isso nos revoltamos quando algo que faz parte de nós , da nossa identidade, se pretende destruido, a troco de uma modernidade que ninguém compreende. Já bastam os dois mamarrachos da Praça. E ligados aos lugares estão as pessoas, que somos todos nós. E nós somos a cidade. Somos nós, que cá vivemos ou que por cá passámos, nós que amamos esta cidade e que mantemos a sua identidade viva e impedimos que se torne um dormitório da grande cidade, sem alma e sem afectos, somos nós que somos as Caldas!
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João Ramos Franco disse...
Nascido uns anos antes da Isabel Xavier, num prédio com janela para o chafariz, no inicio da estrada para a Foz do Arelho, a minha passagem diária pelo “Largo da Rainha” era obrigatória e ao qual dediquei um post no meu blogue com o nome “Exatidão”e do qual fazia parte o poema de Jorge de Sena que trancrevo.


Exactidão

Levam as frases sentido
que uma cadência lhes dá:
sentido do não-vivido
a que fica reduzido


o que, escolhido, não há.
Do imo do poder ser,
Onde o não-sido se arrasta,
Ouvi cadências crescer:
vaga música de ter,
na vida, quanto não basta

- quanto um sentido se entenda,
que nem verdade ou mentira.
(Que o que dele se aprenda
é como cobarde venda
para que a luz nos não fira.
Luz sem luz, brilho da treva
que tudo no fundo é;
e a certeza que se eleva
do fundo da própria treva,
de exacta que seja, é.)

Levam justiça consigo

as palavras que dissermos.
Por quanto sentido antigo,
nelas ficou por castigo

o futuro que tivermos.

Levam as frases sentido
que uma cadência lhes dá.
É justo, injusto - o escolhido?
Como quereis que, vivido,
ele não seja o que será?

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'

Sob o post e o local a Isabel X. escreveu as palavras que transcrevo:
"Isabel X disse...Pois fique sabendo, João Ramos Franco, que o "local de passagem diário" da sua juventude, ali mesmo por trás da estátua da rainha, foi o local onde eu nasci (1957), vivi até aos dezoito anos, e ainda vivo, até certo ponto, sempre que lá vou, pois a minha mãe continua a morar na mesma casa.Largo Conde de Fontalva, nº 7.

Não me estou a enganar! O Largo da Rainha D. Leonor é o do Hospital Termal, antigo Largo da Copa!

- Isabel Xavier -" 17 de Outubro de 2009 19:44
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Uma verdade, somos amigos, os 15 anos de idade que não nos separam…

Adorei ler “À JANELA DA RAINHA”, por acaso não me viu passar no Largo!?…

Um abraço amigo do

João Ramos Franco
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Joaquim disse.
Leitura muito agradável e um muito bem escrever da I.Xavier, a dizer-nos o que realmente se passava em tempos já lá idos e não "antigos", assim evito dizer "nos tempos de antigamente".
Vou tentar descrever o Largo M. de Fontalva (largo da Rainha) como ainda hoje o vejo mas, talvez com alguns enganos. Começando com a Rua de Camões (Rua do Parque) e a Almirante Reis (Rua do Felizardo), havia na junção "tipo vértice" das duas com o largo, um restaurante (hoje um estabelecimento de faianças artisticas ) do Sr. Mendes. Na junção Alm. Reis e a H. da Grande Guerra viviam os Parreiras. Contornando o largo era a taberna do Joaquim Herculano, depois se tornou também faianças e hoje...?

Caminhando um pouco mais, um prédio de granito esverdeado onde o Valente "aluno do Liceu" da família dos Natários e, segundo a minha memória me diz, uma vez candidato à presidência da Câmara Municipal, ia namorar "ele na rua, ela à janela". Depois um pequeno café (o Café do Rocha) e logo a seguir os "Samagaios" com a Senhora Margarida e a irmã sempre à janela, o irmão Zé Samagaio (pai), os filhos Augusto, o Toino (aluno do liceu) e a irmã. Havia um outro Samagaio (o Fernando) que tinha uma filha que casou com um sueco e por lá ficou. Nota curiosa: a esposa do F. Samagaio teve a sorte de ser contemplada com 200 contos na lotaria e na semana seguinte o marido com 1.000 (segundo constou), o que era uma quantia avultada para a época.
Continuando a caminhar era a loja do Joaquim Claro (J. Charuto), como era conhecido. No primeiro andar morava o Dr. Carvalho e a família. Do outro lado da Calçada era o Quintal do Charuto .onde moravam os Pereiras e toda a família "Charuto". Linda propriedade mas que foi dada ao abandono.

Do outro lado da estrada da Foz, era a oficina do Adelino Ferrador, que mais tarde se tornou no "Pinto das Bicicletas". Presentemente na esquina "sentido Lisbonense", o café do Amadeu Rosa que possivelmente trocou de nome.
Outra curiosidade: em frente à oficina dos Samagaios havia uma bomba de gasolina, talvez a mais antiga das Caldas. O Toino Samagaio como aluno do Liceu que apareça a dizer algo.
Joaquim
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Cristina comentou no Facebook:
Obrigada por divulgarem esta foto. A nossa rainha representada de forma muito académica por Francisco Franco. Rigidez própria da época e também de qualquer regime, pois os regimes gostam do que se enquadra em parâmetros muito fixos e dentro da sua época. Maravilhosas obras ficaram fora de concursos, de qualquer tipo de aceitação, apenas por estarem fora do seu tempo.
Mas do que eu gosto, ainda mais do que a famosa rainha com quem quase todos os dias me cruzo, é da história/lembranças da Isabel no blog do EROS. Através dela conheci uma vivência que não vivi, mas da qual agora, também, de certo modo faço parte. Não tendo partilhado essas histórias gosto de fazer parte do vosso/nosso mundo e quando leio o que escrevem, sinto que de certo modo passei por aqui "naquele tempo". Porque as histórias da nossa juventude são todas únicas, mas contudo são tão parecidas.
Obrigada Isabel pela partilha. Um beijinho para ti e para os antigos alunos de uma "velha aluna" que entrou agora para os bancos do colégio.
Cristina Ramos Horta .

A MINHA JANELA SOBRE O BORLÃO

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Ouvi bater palmas e alguém chamar –Paula! - muito perto da minha janela. Mesmo estando num terceiro andar não me admirei, a janela da Tucha, no prédio ao lado, ficava muito perto da minha, ali a dois metros, se tanto. Larguei o meu livro e fui lá dizer-lhe que a minha irmã não estava… que tinha saído…mas ela já entrava pela porta do meu quarto, entusiasmada com a perspectiva de dois dedos de conversa (se se pode chamar conversa a algum “corte e costura” na toilette de umas amigas e umas vagas insinuações sobre uns problemas de coração…). A minha esperança para recuperar o sossego era que a Ana Salgado, moradora no 3º andar seguinte, as ouvisse e viesse exigir que passassem para as janelas das traseiras, onde a ausência do ruído da rua (e dos ouvidos dos transeuntes) lhe permitia também participar.
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Exceptuando nestes momentos, sempre gostara do meu quarto e da vista que usufruía sobre o Largo do Borlão, desde que a minha família viera inaugurar um dos andares dos três prédios que os Capristanos aqui tinham construído no início da década de sessenta. A casa era boa, o meu quarto parecia-me enorme e a Praça Oliveira Salazar/antigo Burlão (como se escrevia na correspondência postal, para mais fácil localização) além de espaçosa “cheirava a novo”, já que todas as construções eram recentes.

No meu prédio morava inicialmente no 1º andar a família do Dr. Ramos Franco, veterinário municipal, com dois filhos, o João e o Rui, infelizmente bem mais velhos que eu, o que nunca favoreceu qualquer convívio. No 2º andar habitava um casal, eram ambos muito simpáticos, não sei o nome, lembro-me apenas que ele era médico ortopedista. No 4º andar vivia uma conhecida actriz de teatro, Eunice Muñoz , que nos suscitava enorme curiosidade porque aparecia nalgumas Noites de Teatro da RTP. Mas só muito mais tarde tive noção da sua importância artística, na altura interessava-me mais saber que ali habitavam três garotos da nossa idade, numa casa com pouca mobília, onde eram possíveis, por isso, algumas brincadeiras proibidas no 3º andar.

Da minha janela via os dois outros prédios, arquitectonicamente iguais. No seguinte, também no 3º andar, como já disse, morava a Fátima Vasconcelos (Tucha) e os pais - o Sr. Vasconcelos era o gerente do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa, ali na esquina.

No 2º andar morava o casal Álvares Pereira com os seus três filhos. A irmã ainda lá mora, por cima do Maratona, na casa onde o seu irmão João morreu num trágico acidente anos mais tarde, mas nunca mais vi o Nuno ou, se o vi, não o reconheci.

Os primeiros andares destes três prédios acabaram unidos e habitados pelo futuro Presidente da Câmara, Engº Luís Paiva e Sousa, a mulher (Gininha) e os dois filhos (Teresinha e Luis). Todo este espaço era importante para tornar possíveis as suas magníficas festas nos anos sessenta, de que nos lembramos bem, eu e certamente todos os outros convidados que as frequentaram.

.A minha irmã Paula e a Tucha eram inseparáveis e tinham, no 3º andar seguinte, outra amiga, como elas nascida em 1956, a Ana, filha mais nova da família Saez Salgado. Os irmãos mais velhos eram o Xavier, o Carlos e o Jaime. O seu pai era o engenheiro Jaime Buceta, responsável pela famosa fábrica de sabão na estrada da Foz (ainda hoje lá está), que mais tarde fabricaria os conhecidos produtos Lander. Uma das sócias dessa fábrica viria ocupar, com a sua filha Pilar, o 2º andar do nosso prédio. A proximidade permitiu que a Sr.ª D. Maria Luísa Paneiro Amate me ensinasse a jogar Canasta e, um dia em que falei sobre um jogo a que assistia, ensinou-me também que “nos jogos de cartas os mirones são de gesso, quando falam são de merda”. Disse isto placidamente, enquanto chupava uma passa de um dos incontáveis cigarros Monserrat que queimava constantemente. Fiquei chocado, mas a minha mãe não pestanejou, a casa não caiu e eu aprendi uma lição para a vida.

Da minha janela via todas estas pessoas passarem, entrando e saindo de casa. Por cima dos Saez Salgado, no 4º andar, morava o dono da fábrica de móveis, o Sr. Serrano, a D. Luisa e os seus filhos, o Zé e a Mafalda; esta última manteve até hoje a vizinhança com o Xavier Salgado.

Na varanda do 2º andar viam-se, nas noites mais amenas, o Sr. Arquimedes, a esposa e as suas duas vistosas filhas.

Da minha janela via também o Padre Albino, o Padre Xico e o Sr. Dario saírem do prédio da esquina oposta para se deslocarem para o ERO no VW carocha azul claro – seria mesmo azul, ou sou traído pela memória? Ainda hoje mora nesse Lote 42 o Dario, que encontro quase diariamente. Da mesma porta saíam também a filha do dono do prédio, a Benilde Saramago, sempre luminosa, mesmo nos dias mais cinzento (quem a conhece, sabe que era assim) e a Nô e a Té, que eu já conhecia por termos sido vizinhos na Rua Dr. Leão Azedo. Eram filhas do Sr. Albertino, que possuía uma fábrica de garrafões para o lado do Avenal (frente ao quartel), e tinham duas cadelas pretas (uma chamava-se Chinha) que eu muito invejava, porque nunca tive um cão.

Da porta do prédio seguinte, já junto ao Tribunal, abria entretanto a porta a Ana Isabel, excelente aluna e minha colega de turma. Como a Mafalda e eu, ela também casou com um colega do colégio, o Zé Sancho. Namoriscou em certa altura um outro nosso colega, o Pedro Nobre, que geralmente me esperava no carro que o pai, trabalhador dos CTT, estacionava às 7h 55m em frente à Igreja. Eu debruçava-me um pouco e via-o aproveitando aqueles minutos até eu sair para completar algum trabalho de casa atrasado ou estudar mais um pouco para um ponto (havia “pontos” e não “testes” nessa altura). Quando eu descia ele fechava o carro e lá íamos a discutir música, que era (é) uma paixão comum.

No vértice oposto do Borlão, à direita do tribunal, a porta da rua abria-se também às oito e um quarto para a saída da Mercês e do Eduardo, os dois irmãos que ali moravam e também frequentavam o Externato, respectivamente três anos e um ano à minha frente.

Vinham da Coronel Santos Costa (hoje Raul Proença) os irmãos Noronha, o Jorge e a Isabel, os Agudos (a Ana Luísa que foi sempre minha colega, e o mais novo, o Manuel) e o Raul Curado e o Manuel Lino; aí viriam a morar, no final da década, o Dr. Jaime Serafim e a D. Esperança. Da esquina dessa Rua com a Avenida, apareciam de um lado (Lote 40) a Ana Clara Andrade e Sousa e o Luís Filipe Vasconcelos e, do outro (nº 18) , a Salette e os Gouveias (Ana Paula, Luís Abel e Cláudia, todos passaram pelo ERO). Já na Avenida moravam o João Mário e a Pilar (Lote 41) e, em frente, a Mami (Marta Figueiredo) e a Élia Mendonça (numa porta que, em vez de nº, exibe ainda hoje,estranhamente, “MOF”). Lá mais do fundo, de perto da estação da CP, vinham os Netos (Tó Zé, meu colega de turma, e o Jaime, mais novo). Uns passavam e seguiam a pé, outros paravam debaixo das arcadas da “casa dos padres”, onde esperavam a “carrinha” (uma camioneta dos Capristanos alugada para transportar alunos e professores para o Colégio).

Esticando um pouco o pescoço via da minha janela as traseiras do primeiro prédio da Rua Duarte Pacheco, onde moravam os meus colegas e amigos Zé Luís Azevedo (em casa do conhecido professor), Belica e Aida Mesquita, Zé Sancho e Belão, Tó Zé e Rui Hipólito, Alberto R. Pereira , Rui Malaca e Miguel Bento Monteiro; este último depressa se mudaria para a Diário de Notícias, trocando a instrução primária da D. Rosa pela do ERO. Eu iria atrás, convencidos os meus pais pela colorida argumentação da Elvira Bento Monteiro (nunca a tratei por Dona!) de que “os rapazes estão melhor a correr naquele recreio ao ar livre, do que a respirar as bufas da D. Rosa!” – lembro-me da frase, que me escandalizou (um pouco) e divertiu (muito), com se a tivesse ouvido hoje. Foi em 1962 e eu tinha oito anos. Referia-se à D. Rosa Magina, professora reformada, já com 80 anos nessa altura, que nos dava aulas em sua casa, na Duarte Pacheco 16 R/C-Esq., com o auxílio da filha, a D. Alice.

De uma das janelas desse prédios saía frequentemente o som de um piano, hesitante e engasgado, enquanto a Madame Palavicini tentava transformar num pianista uma criança que provavelmente preferiria jogar futebol ou ao ringue… hoje lamento não ter sido uma delas, mas na altura nem quis ouvir falar nisso.

Da minha janela não via o Hemiciclo Frederico Ulrich (depois Guiné-Cabo Verde, depois João Paulo II …), a rua em forma de U que rodeia a igreja. Sempre tive enormes dificuldades burocráticas com meu nome e morada, nenhum funcionário da administração deste país foi jamais capaz de escrever, correcta e simultaneamente, “Jales” e “Hemiciclo” sem variadas explicações e múltiplas tentativas e erros…. Bom, mas voltando ao Hemiciclo, para o ver precisava de vir às janelas das salas viradas à Igreja e aí já avistava o prédio a seguir ao nosso, onde morava o nosso professor de Ginástica Silva Bastos, a família do Zé Mário Rego e a do Dr. Palma. Este último viria a mudar-se, com a esposa Maria Helena e os quatro filhos (Ana Margarida, João Paulo, Cristina e Alexandra) para o andar por cima de nós, enquanto a Eunice Muñoz rumava a Lisboa e à justa consagração - seria no final da década de sessenta a mais bem paga actriz portuguesa, ganhando trinta contos por mês! Tudo isto sem prejudicar a sua carreira paralela de mãe, já que teve um total de seis filhos.

Onde hoje é a R. Padre António Emílio havia um descampado em que se brincava e jogava à bola (foto anexa). Vinham ali ter connosco os ocupantes do prédio da Miguel Bombarda cujas traseiras confinavam com esse terreno: o Jorge Pedro (que cedo partiria para Leiria) e também o Baltazar Lourenço, irmão mais novo da Ilda e do João (de quem só me tornei íntimo muito mais tarde), os três filhos do Dr. Rosado Lourenço. Aí moravam também o Luis e a Teresa Machado, cujo pai também é médico e foi director do Termal. Mais tarde conheci lá a Anabela (também minha colega) e o seu irmão Zé Garcia. As escadas daquele prédio têm estórias fabulosas para contar, se um dia o quiserem fazer (as escadas, não eu!).

Depois desse terreno baldio (foto anexa) havia “a casa dos Juízes” onde habitaram o João Licínio, a Manuela , a Fáfá (minha colega) e o Luís Filipe Gama Vieira (ainda hoje um “puto”, só nasceu em 1966, nem devia ter direito a menção aqui no Blog, mas enfim…). O pai era um juiz austero e severo, uma reputação que não melhorou quando uma testemunha faleceu durante uma inquirição dirigida por ele; apesar da culpa não ser obviamente sua, constava que ninguém se atrevia a mentir ao Sr. Dr. Juiz Gama Vieira!

No Castelo Encantado a seguir vivia a Princesa, que eu via fugazmente entre as ameias do 2º Dtº ; lembro-me pouco de a ver ir “a butes” com a plebe, tenho ideia que o Coronel Miguel a transportava habitualmente no seu coche (um Ford azul?) para o Colégio. Já sei que a Anabela Miguel vai responder que ia pé quase todos os dias, mas é assim que eu me lembro…

Era muito povoado de EROs o edifício seguinte (por cima do actual Viveiro): no 3º os Gomes, Mena e Ruca (os pais tiveram ali no R/C a primeira loja Traviata, que depois mudou para a Heróis da Grande Guerra), no 2º andar os manos Pereira Fernandes (S. Luís, Fátima e Jorge) e no 1º andar os Pimenta de Castro. Destes recordo o Raul, a Madalena e a Conchita, mas penso que havia mais. Lembro-me melhor da Conchita por dois motivos: era da nossa idade, apenas um ano mais nova, e fazia bater mais depressa os adolescentes corações masculinos de todo o quarteirão, mas especialmente o do meu amigo Miguel, que desesperava na inútil busca pela atenção dos seus enormes e belos olhos castanhos… Aconteceu em 1965 ou 1966, tínhamos, nessa altura, onze ou doze anos.

No prédio de esquina, que completa o Hemiciclo, habitavam (e habitam) o Rogério e a Milena Caiado e, nessa altura, os seus quatro filhos (Paulo, Xinha, Teresa e Alexandra). A família detinha a Frami, importante fábrica de sumos e conservas ali em Tornada.


Ainda hoje vivemos nesta Praça do Estado Novo, uma espécie de Praça do Areeiro das Caldas, eu e uma outra colega do ERO que eu via passar sob a minha janela, com curiosidade, no longínquo ano de 1971… Mas isso é outra estória, hoje queria apenas terminar dizendo que nas casas das três dúzias de adolescentes e jovens que aqui moravam, e que aqui recordei (que me desculpem os que esqueci), se instalaram entretanto escritórios de advogados e meia-dúzia de imobiliárias. Já não há aqui nesta zona sítios para brincar ou jogar à bola, mas não fazem falta, porque já não vivem miúdos no Borlão…

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João Jales
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NOTAS:
1 -Escrevi este texto mais ou menos de chofre, de uma só vez e sem quase trocar impressões com mais ninguém. A minha memória falhou certamente, agradeço as correcções.
2 - Usei as duas imagens do Borlão que tinha à mão. A primeira foi roubada no livro "50 Fotografias dos Anos Cinquenta" que me foi oferecido pela autora (Isabel Xavier) e a segunda é uma foto tirada por mim. O problema é que o meu texto se refere ao início da década de 60 e as imagens são, respectivamente, dos anos 50 e 70. Talvez alguém tenha a foto certa para este texto, fico a aguardar. A terceira fotografia é de 1964 e já a usei aqui, mas vinha a propósito, é exactamente da época e desta vez está legendada.
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C O M E N T Á R I O S