ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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UM CAVALO EM SERPA

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O meu texto sobre o João Calheiros suscitou alguns comentários elogiosos e muito simpáticos. Mas a palavra escrita é realmente traiçoeira e, por vezes, os relatos preto no branco tornam os acontecimentos que descrevem muito mais definitivos e sérios do que realmente foram. Assim, perante algumas observações que me pareceram atribuir uma dimensão exagerada ao caso, achei que devia reduzi-lo o caso às suas verdadeiras dimensões. Passo a explicar:
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O João Calheiros e a sua passagem pelas nossas vidas, minha e da Ani, foi um episódio, entre muitos, a marcar a nossa adolescência, e um mero pretexto para desfiar memórias felizes, algo que, admito, fazemos com facilidade. Crescemos num ambiente intelectualmente muito aberto, absorvíamos como esponjas as conversas dos mais velhos e tínhamos livros sem fim à disposição. Tudo isso fez de nós jovens bastante comunicativas e sociáveis - lembro-me que, num sábado, à hora de almoço, nos Casais, a casa dos arredores de Coimbra, onde vivíamos, depois de o telefone tocar vinte vezes e de a empregada vir, pela vigésima primeira vez, chamar uma de nós para atender, o meu pai deu um murro na mesa e mandou desligar o aparelho. Vários desses rapazes e raparigas estão, ainda hoje, de alguma forma, presentes nas nossas vidas e aqueles a quem perdemos o rasto não se ausentaram de todo das nossas memórias. É esse o caso do João Calheiros, no que me diz respeito. Relendo o que escrevi, e, como disse, para repor as coisas nas suas devidas proporções, queria explicar que ele até nem foi a única figura marcante da minha vida nesses verões de que falei. Posso até dizer que, nas férias que passei em Serpa, a figura masculina central não foi o João Calheiros, mas sim um cavalo preto, de raça lusitana.
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Chamava-se Alecrim, pertencia ao cavaleiro tauromáquico José Mestre Baptista, e estava a ser treinado pelo pai da amiga em casa de quem eu estava. O nosso quarto de dormir ficava por cima da cavalariça, na bela casa da família, em Serpa. E todas as noites eu adormecia a ouvir o Alecrim agitar-se e resfolgar de impaciéncia. Embora desejasse muito dar uma volta montada nele, estava formalmente proibida de me aproximar do bicho pelo pai da Ana, que não tinha, acertadamente, grande confiança nas minhas qualificações equestres. O que ele dizia sempre é que haveria de poder fazê-lo, um dia, que até iria levar para Coimbra uma foto a cavalo, vestida de sevilhana, mas só poderia fazê-lo quando o Alecrim estivesse cansado, ao fim de um dia de treino, e depois de galopar algum tempo em terra mole.
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Mas muita coisa acontecia sem que o dono da casa se apercebesse. E, naqueles dias calorentos e imóveis de Serpa, em que Salazar parecia instalado na cadeira para sempre, eu e um dos irmãos da minha amiga, que também dava pelo nome de João, e era, apesar dos seus 18 anos, um experiente cavaleiro, começámos a discutir política e a embirrar ferozmente um com o outro. Mas, perante os pais de ambos, disfarçávamos bem.
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Uma bela tarde, eu e a Ana saímos a passear na caleche puxada pelo burro chamado Zé Estrela e as nossas deambulações ociosas levaram-nos até uma bomba de gasolina que tinha um café ao ar livre, no meio do campo, nos arredores de Serpa. Ali, o João, irmão da Ana, tomava um refresco, acompanhado de outros rapazes, com o Alecrim pela arreata. Parecia que a minha oportunidade tinha chegado, o cavalo era fascinante, verdadeiramente poderoso, uma espécie de relâmpago negro. Engolindo o orgulho, fui humildemente perguntar ao João se podia montar um bocadinho, e, muito magnânimo, ele consentiu. O que ele tinha em mente, não sei, mas, relegadas para o fundo da minha mente, estavam as firmes proibições do pai.
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Nos primeiros minutos foi o deslumbramento, dei uma leve impulsão aos calcanhares e o bicho começou a trotar como um rei pela estrada de alcatrão que, no final, ia desembocar na nacional, que liga Serpa a Beja. Depois do trote, ensaiei o galope, e ao cabo de menos de um minuto, foi o princípio do fim. O Alecrim percebeu que levava no seu precioso lombo alguém totalmente incompetente e começou a dar cangochas violentas, tentando sacudi-lo.
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.Agarrei-me com unhas e dentes às crinas do bicho, quando ele começou num galope furioso pela estrada fora. Entrámos na estrada nacional, havia camiões a passar nos dois sentidos, e eu gritava pela minha mãe, num cavalo preto que, no meio do desenfreado galope, metia a cabeça para baixo e levantava os quartos traseiros, em coices desesperados.
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As minhas leituras de livros de cowboys salvaram-me a vida, ainda hoje estou convencida disso, lembrei-me de que muitas vezes as pessoas ficam presos pelos estribos, são arrastadas pelos cavalos e morrem. Tomada de terror absoluto, libertei as pernas, que tinha enfiadas nos estribos até aos joelhos, apesar das botas.
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A seguir, voei e não me lembro de mais nada, apenas de ter acordado na parte traseira de um jipe, com uns homens desconhecidos muito preocupados a fazer-me perguntas, e eu a gritar que havia um cavalo que valia milhares de contos em fuga, por amor de Deus, que o encontrassem. Os homens sossegaram-me, dizendo que o cavalo havia de aparecer, e, na verdade, pouco antes de chegarmos à vila, vimos o Alecrim a pastar sossegado num campo, uma visão inacreditável para mim, depois de ter experimentado a sua fúria.
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Voltei a casa numa lástima, com as calças de montar rasgadas de alto a baixo, imensas dores no peito e muitos arranhões, nada que dois dias de cama e caldos de galinha não curassem. À noite, quando ouvia o Alecrim a agitar-se na cavalariça, acordava empapada em suor.

O irmão da minha amiga foi relegado para o colégio, nunca mais o vi, e recusei-me firmemente a tirar a foto vestida de sevilhana, montada no animal que eu via agora como a encarnação do Diabo. Terminou, pois, com pouca glória a minha passagem por Serpa, mas na origem dos meus tormentos esteve um cavalo lusitano, não o coitado do João Calheiros.
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Isabel
Braga
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C O M E N T Á R I O S
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 Guida Carvalho da Silva disse:
Muito bem contada esta aventura! Posso imaginar o susto valente que a Isabel apanhou quando o cavalo lhe fugiu a galope pela estrada nacional.... ui.... ui....

Anónimo disse...
Bonita história mas penso que deve haver uma pequena confusão pois o Mestre Baptista nunca viveu em Serpa.Essa história deve-se ter passado em Moura ou perto de Moura

Guida Sousa disse...
São sempre muito vivos estes relatos das manas Bragas,leio-os sempre com muito prazer.Já aqui escrevi que partilhamos as mesmas memórias apesar de termos vivido a adolescência em sítios diferentes mas não desta vez porque felizmente nunca me vi em assados destes!
Boas férias a todos!!!

Alfredo disse:
Excelente estória da Isabel Braga que divertiu e através da qual ficamos a saber que afinal o João Calheiros não foi a figura principal desses longínquos anos da juventude mas sim um outro ser de mais puro e nobre sangue lusitano, o Alecrim, preto, ainda a desbastar por completo, a fim de lhe retirar a mania de garanhão indomável que, não sei porquê, é um defeito que todos os machos têm, os latinos onde se incluem claro, os lusitanos, de a possuir mas que sempre a perdem, a mania claro, através de umas mãos femininas dispostas a desfazer essa virtude/defeito.

Como não podia deixar de ser, eu, como bimbo habitante de aldeia, também passei por uma situação idêntica com uma ligeira diferença, até porque a classe social era outra, o meu lusitano de puro sangue era uma linda mula de cor indefinida, por já velha mas que em tempos idos teria sido castanha.

Era eu uma criança de instrução primária, aracnídeo devido a altura que já atirava, só pernas, mas não demasiado magro, gordo muito menos, enfim estão a ver, mais assim para o bem constituído, mas pernalta, tipo Bugs Bunny, e que um dia lhe foi proporcionado passar uns dias de férias num lugar chamado Sapeiros, ali para os lados do Casal Pardo.

Um belo dia fui autorizado a montar a mula e com ela dar um passeio equestre apreciando a paisagem composta por terras aráveis e remansos de pinheiros e eucaliptos. Só que ninguém se prontificou a selar a mula e coube-me a mim fazer essa tarefa. Peguei na sela, mais não era que uma albarda e vai de albardar a mula à vontade do dono, isto é, na minha fé de cristão crente por imposição familiar, que não queriam ouvir o rezinga do padre se assim não fosse, não apertei em demasia as cilhas deixando-as folgadas a fim de não ferirem a barriguita, mais barrigona, da mula.

Acabada essa tarefa, o meu olhar era triunfal vendo o trabalho feito pela primeira vez na vida, moço inteligente, vai de pé esquerdo no estribo, o direito no chão, os saltitos com este e… upa, no mais puro estilo a perna direita eleva-se, roda por cima do dorso da mula e… já está, eis-me muito direito sentado na albarda e as mãos no arção, até parecia que tinha engolido uma colher de pau tal era a postura de cavaleiro, qual D. Quixote qual quê, ele se quisesse viesse aprender. Durante toda estas operações a mula não tugia nem mugia e muito menos mexia, ela bem reconheceu a classe de cavaleiro que lhe tinha subido para a garupa.

Estava pronto para o meu trote matinal mas… qual seria a password para o animal se mexer?… dou-lhe um toque com as pernas, isto é, bato-lhe com as pernas em forma de tesoura na barriga, ouço um som escapulir pelo escape, a barriga devia ter encolhido, as cilhas já por si mal apertadas, vão deslizando rodando muito lentamente, vejo-me, como se de um filme em câmara lenta se tratasse, na posição horizontal em relação ao chão, e num repente encontro-me sentado muito direito na albarda, pernas bem apertadas em torno da barriga da mula, mas de cabeça para baixo.

Olho em frente e a mula de cabeça baixa a olhar para mim mostrando-me um sorriso pepsodente de dentes grandes e amarelos, aqueles grandes lábios, made in Moura Guedes, como que a gozar o panorama.

E depois, depois não gostei nada que ela se pusesse a zurrar feita mula a gozar com este garboso cavaleiro, mas ainda bem que não era maldosa, continuou quieta, sem se mexer. Se ela se põe a trotar e galopar imaginem as cabeçadas que eu daria no chão.

Pois é, em vez de um cavalo em Serpa esta minha estória seria mais, uma mula ranhosa nos Sapeiros.

Um abraço
A.Justiça
Obs: A estória é verdadeira, passou-se mesmo, só que sem tantos floreados descritivos. Mas que fiquei a saber a constituição do bojo de uma mula, fiquei. Barriga tipo balão cheio, quatro pernas articuladas e desprovida de perna flexível.

Cardeal Patriarca no ERO

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Chegou ao Blog uma colecção de fotografias que documentam a visita do Cardeal Patriarca ao Externato Ramalho Ortigão (1961?1962?). Esta é a primeira que divulgamos, com a legendagem do João Serra.
Mas ainda há duas caras sem nome...





1-Gonçalves Cerejeira, Cardeal Patriarca de Lisboa
2-Amália Maria da Conceição Simões (Mami)
3-Efigénia
4-Edviges
5-José Manuel da Silva Pais
6-João Rosado Lourenço
7-João Bonifácio Serra
8-Jorge Teixeira (falecido)
9- Nicolau
10-Julio Santos

(Legendagem de J B Serra)
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C O M E N T Á R I O S
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Ana Nascimento disse...
mais uma achega... por trás do Nicolau é o Pedro Alegre, o último não consigo lembrar-me mas penso que algures já existe uma foto onde ele está identificado.
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jorge disse...
isto passa-se no primeiro ano de funcionamento do colégio novo,portanto no ano lectivo de 61/62.é notável a memória dos colegas ao reconhecerem todos os garotos.já passou tanto tempo...abraço.j

A Janela do Café Bocage (Montra da direita)

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Transportemo-nos a 4 de Outubro de 1960, os alunos do ERO do prédio do Crespo mudam para as novas instalações num edifício construído de raiz, ao cimo da R. Diário de Notícias. Entre alguns hábitos nossos que mudam, um deles é o ponto de encontro antes de ir para as aulas, depois de almoço.
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O Café Bocage ficava-nos em caminho, e a sua montra era um ponto de obse
rvação, já nesse tempo usado pela rapaziada da Escola Comercial e Industrial , o Rodolfo, o Leiria, o Clóvis, o Malhoa, o Amadeu, aos quais se foram juntar o Rainho, o Zé Carlos Nogueira, o João Calheiros Viegas e eu, do ERO; e é provável que me faltem alguns nomes.
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Esta rapaziada tem toda uma coisa em comum, a idade, andam entre os 17 e 18 anos , uns são repetentes outros não, mas estão para acabar os Cursos da Escola ou do ERO e eram já bastante unidos pelo companheirismo e amizade.
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Se vos disser que este local de reunião tinha como principal objectivo observar a passagem das raparigas tanto da Escola como do ERO não vos minto, o tempo de reunião era pouco, devido aos horários das aulas, mas ainda dava para fazermos das nossas – como quando entrava no Café o bufo da PIDE e Fiscal das Licenças de Isqueiro, conhecido por a alcunha do Miau, a malta começar a imitar um gato a miar e assanhado, era vê-lo sair porta fora…
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Muita coisa se passou na naquele ponto de encontro, ali conhecemos o Montez e a D. Corália, sua esposa. Começámos a beber a ginja em casa deles, em Óbidos e depois mudámos para o bar que ele abriu, o "Ibn Errick Rex".
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João Ramos Franco
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C O M E N T Á R I O S
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Artur disse...
A janela do café Bocage é ampla do tamanho de uma montra que se deixa ver por quem passa e ponto de observação estratégico para quem fica a olhar os que passam.Vantagens de quem quer contemplar a vida sentado à mesa de um café central com nome de poeta boémio e protagonista de histórias que os outros inventaram a seu respeito. A poética dos sentidos, todavia, fica empobrecida neste espaço de aromas quentes e cavaqueiras escaldantes. É que entre o interior e exterior do botequim de esquina há uma espessa vidraça que impede uma comunicação profícua entre quem esguarda e é esguardado. Nesse início de década de 60 de finais do 2.º milénio, era muito difícil ultrapassar os limites convencionais da linguagem dos olhares...
Artur Henrique Ribeiro Gonçalves ‎.
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J J disse...
Este é mais um post em colaboração com Estar Presente, o blogue do nosso colega e amigo João Ramos Franco.
A imagem do Café Bocage, dos anos 30, está incluída no livro de outro habitual colaborador deste espaço:
Vasco Trancoso - "Caldas da Rainha: um contributo iconográfico através do Bilhete Postal Ilustrado editado até meados do século XX", Lisboa, Elo, 1999.
Obrigado João, um abraço.
JJ

UMA FOTOGRAFIA A PROPÓSITO...

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Olá,
Eu sou a Carla Rainho, filha do Fernando Rainho. Envio esta foto para publicarem se tiverem interesse. Têm que a comentar porque eu só identifico o meu Pai.
Depois enviarei mais.
Obrigada,
Carla Rainho
C O M E N T Á R I O S
João Ramos Franco disse...
Da esquerda para a direita: 1 – Artur Capristano, 2 – João Ramos Franco(?), 3 – João Caheiros Viegas, 4 – (?) 5 – Fernando Rainho
O local onde foi tirada a fotografia não me é estranho, mas não me recordo do nome.Um abraçoJoão Ramos Franco
Santa-Bárbara disse...
Ó João não és nada tu, os outros sim.Mas aposto que não és tu!AbraçosFernando Santa-Bárbara

J J disse...
Bom, esta identificação ficou subitamente mais complicada e interessante... Quem é que pode ajudar?

João Ramos Franco disse...
O 5º elemento é o Fernando Rainho, o 3º está repetido e o que falta é o nome do 4º elemento. Desculpem o engano.João Ramos Franco
Artur Capristano disse:
1- Artur Capristano ; 2 - conheço mas não me lembro do nome ? ; 3 - João Calheiros Viegas ; 4 - Velez ? ; 5 - Fernando Rainho
Artur Capristano
Frederico MonizGalvão disse...
A propósito que é feito do Rainho?
Cada vez acho mais graça a este blog.Como já expliquei, nunca andei no ERO,mas isso não impedeque por aqui passe a parte mais"suculenta" da minha juventude.
Olá Artur, tambem me lembro de quem esta ao teu lado, mas eu para nomes......?! O Velez lembro-me bem o Pai dele tinha uma loj grande de fazendas á entrada da rua da Madalena do lado esquerdo do lado da praça da Figueira.Vão continuando a dizer e mostrar coisas da nossa época de ouro!
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Artur Capristano disse...
Da esquerda para a direita : Artur Capristano, António Morais (já falecido), João Calheiros Viegas, Rui Velez, Fernando Rainho.
O Morais e o Velez não foram alunos do ERO, eram "colegas" do pano verde.
Artur Capristano

À Janela do João Calheiros - 3 (comentário de A Justiça)


Pela mão da Ana Braga abri e li, fechei e reabri a janela do João e li, de ambas as vezes, de um só fôlego o relato de uma “caldista” de coração, sem corpo presente, pois na altura a sua cidade era Coimbra.Um texto soberbo que relata a sua vivência infantil, escola primária, e juvenil, escola secundária, as viagens de camioneta e comboio, de e para as escolas, e a feliz coincidência do primeiro encontro com o João comprovando que afinal o nosso País é uma grande Aldeia.
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O seu comentário sobre o “nacional cançonetismo” referindo o António Mafra, Hermínia Silva e as suas canções deixaram-me, a princípio,desiludido mas depois fiz um exame retrospectivo… espera lá… naquela idade e situação pensavas da mesma maneira, ou até nem pensavas, simplesmente, este tipo de canções não te dizia nada, quando o rádio a pilhas as transmitia mudavas de estação, querias era Adamo, Beatles,Johnny Hallyday e tantos outros, Françoise Hardy, France Gall, Dalida...e só lá longe, a milhares de kilómetros do ninho, anos mais tarde,quando a saudade atacou forte e feio, quando o segundo seguinte da tua vida era incerto no teu quotidiano, quando tinhas o medo por companhiae por vezes as lágrimas à flor dos olhos, quando os nervos e a ansiedade tomava conta do teu ser, começaste a apreciar o que afinal era teu, nosso, e nos anos seguintes, cada vez mais passaste arespeitar o que por cá era feito.Depois deste exame, sorri, fiquei melhor comigo mesmo.
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Não há dúvida que só se pode sentir este sentimento estranho, saudade, aquando da ausência das coisas.Não devo ter conhecido alguma vez a Ana ou o João mas conheci bem o Prof. Calheiros Viegas, por quem tive a honra e o prazer de ser chamado amigo, principalmente quando em 1966, sob a sua sábia e inteligente orientação, eu os meus colegas de equipa lhe demos o primeiro lugar e respectiva taça do torneio inter-turmas em andebol da Escola Comercial e Industrial de Caldas da Rainha.Guardo religiosamente a fotografia tirada nesse ano pois foi, para nós, um marco histórico.


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Ainda hoje recordo o seu semblante, transbordando alegria e felicidade com o triunfo alcançado e a gratidão sentida quando lhe oferecemos a taça para que a guardasse na sua sala de troféus.
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A primeira fotografia é bem representativa porque, apesar da rivalidade desportiva que reinou ao longo desse ano de jogos de competição, ao ser convidado para ficar na fotografia dos campeões o Prof. Silva Bastos não se fez rogado em aceitar e posou connosco. Dois grandes Senhores que muito saber nos transmitiram, não só no desporto, mas no convívio, camaradagem, sacrifício e espírito de equipa.
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Ao Prof. Calheiros Viegas, um senhor… um GRANDE SENHOR.
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Um abraço
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A. Justiça
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C O M E N T Á R I O S
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Guida Carvalho da Silva
Janelas que se v
ão abrindo... uma a uma, devagarinho, sem pressas, janelas que se abrem para o passado de cada um de nós e que nos vão trazendo tantas recordações fantásticas.
Janelas que nos encantam a todos e que me deixam a mim, completamente admirada com tanta gente a escrever tão bem!!!! Que bom que é poder recordar, que bom que é poder ir espreitar a cada uma dessas janelas e através dos olhos e da memória de cada um, reviver tantos momentos únicos de um tempo que não voltaria mais, se não fossem essas janelas mágicas, abertas de par em par, para nos transmitirem a frescura dessa nossa juventude perdida que se recorda e reencontra em cada janela que se abre.
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Ana Braga disse:
Fiquei muito contente por saber que o meu post despertou no Alfredo Justiça memórias tão gratas da sua juventude. Este folhear sereno dos nossos álbuns de recordações é saudável e leva-nos a trazer à luz do dia pessoas e factos que não seria justo esquecer. Neste caso, a tão merecida homenagem ao Dr. Calheiros Viegas, não esquecendo, evidentemente as equipas de jovens que ele treinava.
Quanto ao “nacional cançonetismo” a que me referi, acho que o Alfredo percebeu bem, mas devo reforçar essa ideia, confirmando que naquela altura, e naquela idade não apreciávamos de todo a música que por cá se fazia, preferindo, de longe, o que nos chegava do estrangeiro, sobretudo tendo em conta que se tratou de uma época especialmente rica em produções musicais de grande qualidade.
Havendo pouco acesso aos discos, que demoravam a chegar a Portugal, lembro-me que os meus irmãos e eu nos mantínhamos informados, escutando atenta e diariamente a Radio Caroline, famosa rádio pirata, que transmitia de um navio fundeado ao largo de Inglaterra, através de uma galena, que o meu irmão construira sozinho, com o material que vinha incluído num curso de electricidade por correspondência. E, pasme-se: o invólucro desse pequeno rádio era uma singela caixa de charutos que ele encontrou perdida lá por casa!
Foi através desse objecto mágico, feito pelo Zé, que padecia de “engenheirite” aguda e congénita, que no dia 22 de Novembro de 1963 ouvimos a notícia da morte de J.F.Kennedy, tinha eu 11 anos e a equipa de Alfredo Justiça, “sob a sábia e inteligente orientação do Dr. Calheiros Viegas”, vencia o torneio inter-turmas em andebol da Escola Comercial e Industrial das Caldas da Rainha.
Nota: Devo acrescentar que eu sentia essa galena um pouco como obra minha, e apregoava isso descaradamente, aos quatro ventos, pois ajudara o meu irmão, segurando, atenta, no ferro de soldar.
Ana Braga
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Luis disse:
Não param as memórias,que são aqui como as cerejas.Lembro-me bem do pai do João e do seu contagiante amor pelo desporto(vários).É justa a homenagem e a evocação.
Também não morria de amores pelo nacional-cançonetismo e preferia ouvir alguns dos nomes que o Justiça refere.Embora ache graça,devido ao distanciamento,a algumas canções portuguesas daquela época ainda hoje é evidente que nunca se produziu cá nada ao nível de nenhum dos grandes nomes internacionais,até porque não havia condições para isso.
Nunca mais acabam as Janelas!Ainda Bem...L
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jorge disse...
é pena o joão calheiros viegas não responder a tudo o que aqui tem sido escrito,especialmente sobre o seu pai como acontece neste texto do alfredo j.o autor tem sempre uma perspectiva muito pessoal de todos os acontecimentos,o que é enriquecedor para o blogue!abraço.j
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J.L. Reboleira Alexandre disse...
Na altura em que o Alfredo andava a defender o império estava eu, parafraseando a Ana Braga, a tentar decifrar se o Kerensky fora ou não um traidor do proletariado, ou mais, um miserável renegado! Nenhum de nós o conheceu mas, quem não se lembra do renegado Kerensky?
Como me dão vontade de rir estas nossas preocupações quando tinhamos 20 anos. Mas enfim, foi o somatório de tudo isto que deu o resultado do que somos hoje.Agora podemos fazer o balanço, e realizar que o saldo é positivo.
Lanço também daqui o desafio ao João, para abrir algumas das infinitas janelas que tem para nos abrir. Não sei se caberão num pequeno espaço como este, mas vá lá meu amigo, pega na caneta e mãos à obra.
Abraço
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J J disse...
Apreciei o post do Alfredo pela "reflexão musical", pela evocação de uma figura caldense que conheci bem e com quem convivi muito (não no andebol, mas no ténis) e pelo facto de, como fez notar o Jorge, haver sempre uma grande carga pessoal na sua escrita que a torna única.
O professor Silva Bastos foi também meu professor no ERO (as nossas memórias acabam sempre por se cruzar) e esteve presente no nosso último Encontro.
Um abraço
JJ
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Alfredo disse...
Aprofundar a janela do João Calheiros
Estive a reler pela enésima vez os comentários ao meu comentário sobre a Janela do João Calheiros e, não sei porquê, a minha consciência tocou uma pequena campainha, já antes tinha acontecido e perguntava-me porquê, e, agora, mais a frio vi onde estava a falha, ou melhor dizendo a falta.
Seria deselegante e principalmente injusto, tanto para mim como, e principalmente, para com o Sr. Prof. Silva Bastos omitir o seu papel no triunfo do 3º. Ano dos Serralheiros nesse, para nós, ano de 1966 e da conquista do Campeonato Inter-Turmas. Salvo erro, desde o 1º. Ano do Ciclo (1960/1961), e isto carece de confirmação, que o nosso Prof. De Educação Física foi o Prof. Silva Bastos, e perdoem-me a teimosia de continuar a referir-me a Prof. e não a Doutor mas naquele tempo Dr.s só os médicos.
Naquele ano lectivo 65/66 e penso que também o anterior 64/65, este último não tenho a certeza, a nossa turma passou a ter como educador o Prof. Calheiros Viegas. Sendo assim fácil é descortinar que esta classe de campeões foi “desbastada e limada” pelo Prof. Silva Bastos e “aperfeiçoada e entrosada” com o requinte do Prof. Calheiros Viegas.Foi ainda com o Prof. Silva Bastos que uma Selecção da Escola, da qual também fiz parte, foi disputar o Campeonato Distrital de Andebol em Leiria.Dessa Selecção fizeram parte os melhores, passo a imodéstia, jogadores da Escola onde se incluíram alunos, tanto do Comércio como da Industria. Foi nesse ano que algumas regras, a nível nacional, do jogo foram alteradas e a nossa participação foi fraca, senão desastrosa, pois comparecemos a jogo com regras em desuso.
Quis com este exame ao subconsciente referir e realçar a importância que ambos estes Senhores tiveram na nossa formação.
Um abraço
A.Justiça
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Alfredo disse...

Ainda a Janela da Ana Braga e João Calheiros

As conversas são como as cerejas, e se há ditados certos este é sem dúvida um dos mais acertados.

Conforme se vão desenvolvendo as estórias sobre as janelas outras janelas se vão abrindo e até receio que já vamos empurrando os postigos também. A Ana Braga ao falar da “sua” Rádio “escutando atenta e diariamente a Radio Caroline” recordou-me uma fase da minha vivência desses tempos, não ouvindo esta Rádio, mas outras de ondas curtas que nos traziam noticias das embarcações que navegavam ao largo e muito particularmente uma que começava a transmitir à meia-noite.

Éramos um grupelho de amigos, estudantes finalistas da Escola de Caldas que nas noites de fim de semana, depois do jantar, se juntavam numa esplanada de café em S. Martinho e depois do grupo estar completo, cinco ou seis, não recordo bem a quantidade, mas claro que os amigos eram muitos mais mas, havia alguns que era mais aconselhável não nos acompanharem no périplo que se seguiria, ou pelo menos na segunda parte da reunião. Da esplanada e depois das chamadas conversas de “chacha”, que se podiam desenvolver nas esplanadas de café, os ouvidos eram muitos e… nunca se sabia se eram ouvidos “de tísicos”, saíamos dali e íamos até ao Clube Recreativo fazer uma “jogatana” de bilhar, snooker ou ping-pong para, não só nos distrair-mos mas também para passar o tempo.

Quando o relógio e os seus ponteiros avançavam para depois das 11h00 da noite saíamos do Clube e lá nos íamos encaminhando para o Cais falando e brincando de algumas jogadas feitas, ou mal feitas, a conversa, alta e sonora, servia para distracção, gozando com uma ou outra azelhice praticada por este ou por aquele, e servia principalmente para que os ouvidos indiscretos resolvessem que aquele grupo era um inocente grupelho de rapaziada com sangue na guelra e que dali não viria “mal ao mundo”.

Chegados ao final, perscrutado o cais em toda a sua extensão, o grupo já se tinha dividido em dois ou três, uns mais á frente, outros mais atrás, a uma distância razoável precavendo assim prováveis abelhudos “pidescos”, retirávamos o “tijolo” AM e LM, o FM ainda era um sonho, ou talvez nem isso, procurávamos o posto desejado e esperávamos até ouvir “Aqui BBC, Rádio Moscovo não fala verdade”. A partir daqui, ouvidos bem abertos, olhos pequeninos postos no infinito até onde alcançavam por aquele cais afora.

Depois era o regresso só que desta vez “bichanando” baixinho, com olhares cúmplices, ar inocente e cândido… isto será verdade? Argel fez isso? É pá, esta história de Konacri está mal contada! Que diabo aquilo lá pela África está feio. Queres ver que ainda vamos bater com “os cornos” nesta m…*. Bem que o meu amigo Coronel me disse que ainda havíamos de ir defender os interesses de uma série de pulhas.

Este meu amigo militar tinha sido reformado compulsivamente devido ás suas ideias menos conformes com o regime de então. O tal de Santa Comba mandou-o chatear outro e ele continuava nessa situação embora a cadeira já tivesse mudado de dono á pouco tempo.

E lá íamos fazendo desta forma a nossa conspiraçãozinha. Mas o engraçado é que nos sentíamos bem, eu pelo menos, e creio que os outros também, após estes “pecadozitos”. Pelo menos serviu, e muito, para não irmos com os olhos tapados defender o Império… ou terá sido defender os tais pulhas?

Seja como for o certo é que depois vieram outros pulhas, e estes sem vergonha alguma, e entregaram aquilo que tanto sangue custou e até se esqueceram que, lá para os lados da Ásia, tínhamos um quintalzinho.

Um abraço

A.Justiça