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Ouvi a porta da rua bater e acordei sobressaltado. O despertador indicava um pouco mais de oito horas, eu devia estar a sair de casa com a minha irmã para apanhar a carrinha do Colégio que fazia a sua primeira paragem no Borlão. Que se teria passado para não me acordarem? Subitamente lembrei-me, estávamos a 11 de Junho e as aulas tinham acabado! A minha irmã, ainda na Primária, teria aulas até ao fim do mês, bem como os que frequentavam anos de exame (2º, 5º e 7º), mas não era o meu caso… Espreguicei-me mais demoradamente do que era costume e deixei-me ficar um pouco mais na cama.
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À mesma hora dessa sexta-feira, em Albufeira, Paul McCartney levantava-se bem mais apressado, já que a viagem até Lisboa era longa, por uma estrada sinuosa e estreita, e ele tinha já combinado ir almoçar a Vila Franca de Xira. A sua bela e serena namorada, Jane Asher, estava já pronta e tomava o pequeno-almoço enquanto o motorista do Opel cinzento que os iria transportar tentava arrumar vários pacotes avulsos (incluindo uma caixa de vinho do Dão) que Paul e Jane tinham acrescentado às suas inúmeras malas, durante os quinze dias que tinham passado no Algarve.
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Eu deliciava-me entretanto com pão fresco com muita manteiga e uma enorme chávena de café com leite, os dois componentes imprescindíveis de um pequeno-almoço durante toda a minha vida. Ainda hoje uso uma chávena muito grande, mesmo que não a encha, continuo a preferir assim; o pão é que já não é “do Teixeira” nem o café é uma mistura “do Pena”, coada num saco, logo de manhã, para ir servindo para pequenos-almoços, lanches e refrescos durante o dia, nem o leite é fresco, vendido à porta de casa e bebido poucas horas depois de ser mungido.
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A manhã de Paul foi integralmente preenchida com a viagem Albufeira-Vila Franca, interrompida por algumas paragens para apreciar a paisagem, a serenidade e o silêncio do Alentejo, bem como o cheiro da vegetação, de que Paul nunca se fartava. Estava certamente feliz: Jane era uma companhia que ele apreciava e ia regressar a Inglaterra para receber uma das mais ambicionadas condecorações britânicas (M.B E.) ainda antes de completar vinte e três anos (o que aconteceria no próximo dia 18). O lançamento de Help - o single , o filme e a banda sonora - era minuciosamente preparado nessa altura e constituiria o acontecimentos artístico de 1965 com mais divulgação na imprensa mundial. Os sucessos musicais pareciam infindáveis, a Melody Maker e o Billboard desse dia 11 confirmavam que “Ticket To Ride” continuava, pela nona semana consecutiva, no Top Ten Britânico e Americano.
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Eu peguei na minha raquete de ténis e fui até ao Parque onde, por volta das dez horas, apareceriam alguns colegas que, como eu, tentavam aprender a jogar. Alguns tenistas mais velhos, entre os quais o Dr. Calheiros Viegas, o Zé Augusto (pai da Belão e do Zé Sancho) e o Dr. Henrique Mineiro davam-nos ocasionalmente umas “lições”, embora sempre condicionadas às suas actividades profissionais. Acabei a trocar umas bolas com dois ou três amigos; deles, só o Miguel Bento Monteiro faria deste desporto o centro da sua vida (exagero meu?). Mas não eu, só joguei regularmente até ter ido estudar para Lisboa.
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Almocei à uma hora em ponto (os horários das refeições eram sagrados em minha casa), mas Paul só chegou à Estalagem Gado Bravo por volta das catorze horas e trinta minutos. A História não registou o que almocei nesse dia mas está bem documentado que, no Gado Bravo, a refeição foi constituída por linguado à regional, escalopes de vitela e doce de ovos com amêndoa, tudo regado com muito e bom tinto. Sabemos isto porque Baptista Bastos (do Diário Popular) participou na refeição, ao contrário de Joaquim Letria (do Diário de Lisboa) que, no dia anterior, tinha recusado um convite do músico para jantar. A conta, cento e cinquenta escudos, foi considerada ridícula por Paul – e devia ser para um estrangeiro, já que o Diário de Lisboa desse dia relata que um operário sueco ganhava nessa altura quarenta e cinco escudos por hora. O mesmo jornal noticiava na primeira página que morrera o Almirante Mendes Cabeçada, político da Primeira República que, além de deputado, chegara a ser Primeiro-ministro e Presidente da República interino por um breve período em Junho de 1926 (precisamente trinta e nove anos antes). O meu pai deve ter lido todas estas notícias, já que nessa época comprava religiosamente o Primeiro de Janeiro, de manhã, e o Diário de Lisboa, à tarde.
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Passei essa tarde no Parque, satisfeito com a perspectiva de umas longas férias sem preocupações escolares – e alheio e desconhecedor do que se passava no Mundo. Saberia pouco depois que precisamente nesse dia os Rolling Stones lançaram o seu primeiro disco ao vivo, “Got Live If You Want It”, mas só muito depois que Paula Rego pintava, também em Londres nessa tarde igualmente soalheira, dois dos quadros com que satirizou e condenou os regimes políticos ibéricos: “Retrato de Grimau” e “Manifesto Por Uma Causa Perdida” (série iniciada com “Salazar Vomita O País” em 1961). Nesse dia 11 de Junho de 1965 a Alemanha Ocidental aderiu à NATO, perante a desaprovação da França, que abandonaria o Conselho Executivo da Organização. “Repulsa” de Roman Polanski, com Catherine Deneuve mas rodado em Inglaterra, estreia também nesse mesmo dia na capital inglesa. O centro do Mundo mudava de Paris para Londres (claro que a capital artística de então era já Nova Iorque, mas a música, a moda e a vivência da Swinging London eram claramente mais atractivas para a geração jovem, incluindo a norte-americana).
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Paul McCartney, findo o almoço, continuou a beber vinho verde gelado e assistiu a um festival taurino na praça adjacente ao Gado Bravo, isto depois de autografar um postal onde a Estalagem era retratada; Jane Asher assinaria também, depois da inscrição da data: 11 de Junho de 1965. Assinou, ajeitou o cabelo graciosamente atrás da orelha e comentou “the best time of my life, these days I spent in Portugal”.
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Ao fim da tarde tentei ler um álbum do Tintin, com que os meu pais tentavam estimular o meu ainda incipiente francês, ouvindo alguns discos da pequena colecção de EPs que possuía. She Loves You, que me tinha sido oferecido no Natal anterior, I Feel Fine (o último EP dos Beatles editado em Portugal), Apache dos Shadows, Tell Me dos Stones e Cuore da Rita Pavone (que ainda hoje não ouço com indiferença, devido à paixão que tinha pela cantora italiana nessa altura!). A televisão começava às sete horas da tarde (apenas um canal…), mas raramente tinha programas para jovens. Eu preferia a recém descoberta frequência modulada, ouvia o Em Órbita no Rádio Clube Português das 19 às 21 horas.
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À hora que eu comecei a jantar, Paul e Jane embarcaram num Caravelle da TAP com destino a Londres, com escala no Porto. Paul pensava na condecoração que ia receber e nos milhões, de espectadores e libras, que esperavam os Beatles em todo o mundo (em Itália, dias depois, o deputado Mário Quintieri interpelaria no Parlamento o Ministro das Finanças sobre as verbas e os valores dos impostos que envolviam a digressão dos Beatles àquele país!). O músico garantiu a todos, ao despedir-se, que regressaria a Portugal, apesar de ter dito a Letria que o que o mais impressionara no nosso país fora "o olhar triste da maioria dos portugueses". Cumpriu a promessa três anos depois, só que na companhia da sua futura mulher, Linda Eastman, já não com a doce Jane Asher...
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Eu entretanto fora para a cama, não sonhando certamente que quarenta e seis anos depois estaria aqui a recordar esse dia olhando para o postal que Paul McCartney e Jane Asher tinham autografado a pedido do Sr. José Carlos Baptista, gerente do Gado Bravo, e que o seu filho, o meu amigo Victor, me ofereceu há dias.
JJ
C O M E N T Á R I O S
Inês F disse:
Olá JJ
Adorei o post!
Não me surpreendeu a qualidade da escrita que admiro em si, desde que o leio. O João sabe que me encanta a aparente simplicidade das suas 'histórias'.
Desta vez encontro, julgo que encontro, uma arte nova. Uma construção paralela de dois tempos simultâneos de ficção que se cruzam na frente e verso de um postal ilustrado. O coleccionador apaixonado, criador da realidade, o film-maker.
Um dia destes, espero vê-lo como realizador...
Bj
Inês
Fantástico! Gostei mesmo muito deste cruzamento e devo dizer-te que o teu dia foi muito mais divertido que o do Paul McCartney, mas não tanto quão o bocadinho em que estive absorvida nesta leitura.
JJ no seu melhor.
Bjo