ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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MÁRIO BRAGA - O ALMOÇO (post 9)

Mário Braga com as filhas, Ana e Isabel
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por Isabel Braga


O meu Pai comemorou hoje 90 anos rodeado de amigos, num almoço no Círculo Eça de Queirós, no Chiado.
Eugénio Lisboa, antigo adido cultural da embaixada de Portugal em Londres e crítico literário, fez a surpresa de comparecer e teceu um rasgado elogio às qualidades do Pai, não só humanas como literárias, sublinhando a sobriedade e concisão exemplar dos seus contos, em que não há uma palavra a mais. Recordou também o contributo para a cultura portuguesa que ele deu enquanto editor na Vértice durante cerca de vinte anos. “Tentei escrever os nomes dos autores que colaboraram na revista, nesse período, mas vinte páginas não chegavam e desisti”.
Quando o Pai estava já colocado em Lisboa, como director-geral da Divulgação, e ele necessitava de material para as novas funções que se preparava para assumir, em Londres, foi pedir-lhe ajuda. “Não esqueci, até hoje, a forma como fui recebido. Não conhecia pessoalmente o Mário Braga, mas ele foi extraordinariamente cordial e generoso. Saí do Palácio Foz carregado de livros que me foram muito úteis”, recordou.
O meu Pai gostou muito de rever Eugénio Lisboa, que reconheceu de imediato, e agradeceu as suas palavras, fazendo votos para que voltassem a ver-se dentro de “dez anos”. “É muito atrevimento, não é? Devia ter dito só um ano”. Também gostou muito de ver a sua antiga secretária, hoje com 60 anos, que atravessou meia Lisboa para ir dar um beijo ao “melhor patrão que tive em toda a vida”.
 Os amigos que compareceram no almoço eram cerca de 30 e encheram o Pai de chocolates, bolachinhas para o chá, flores e sabonetes bem cheirosos.  Não houve presentes de livros, que ele certamente teria preferido, mas há mais de 15 anos que não consegue ler, por sofrer de graves problemas de visão. Apesar do confinamento intelectual a que está obrigado há tanto tempo, o seu raciocínio permanece arguto e o sentido de humor também. Continua ainda a ser o mesmo mandão de sempre. Estar com ele, conversar, ouvir as suas opiniões, são um prazer, a maior parte das vezes. Não sei que mais se pode desejar de um pai com 90 anos.
O dia de hoje foi feliz, para ele e para mim, que assisti a uma homenagem muito sincera ao meu Pai. No carro, a caminho de casa, ele reconheceu isso, mas nunca foi de grandes sentimentalismos. Por isso, comentava, com um sorriso malandro: “Que grande festa me fizeram. É obra! É que ninguém tinha nada a ganhar com isto”.
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Isabel Braga

MEU PAI - MENINO (post 5)

(pelos 90 anos do meu Pai - Ani Braga)
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MEU PAI – MENINO

Álbum da família Freitas Morna/Braga 
publicado por Ani Braga
(basta clicar AQUI)


Aquele menino de caracóis loiros com carinha de anjo,
tão meigo e diáfano, envergando um fato,
era o meu pai, em pequenino,
muito quieto, sentado num banco,
bem aconchegado, dentro de um retrato.

Colaram a imagem num grande papel,
com vidro por cima, moldura ao redor.
Não fosse o anjinho escapar e fazer disparate.
Com muito cuidado, num gesto de amor,
ali o puseram, bem manietado, no seu escaparate.

Mas um belo dia, o menino loiro, com cara de anjinho,
Saltou do retrato, começou a andar,
e mãos de mulher, logo se estenderam para o amparar.
Mãos de mãe, de avó, de tia, criada.
Depois…
de mulher, de amiga, de amante, de fada.

O infante fez-se homem, cresceu,
correu, desenhou e foi desportista,
alguém de talentos, com alma de artista.
Tornou-se escritor, foi pai, foi amigo,
foi   homem de letras, também professor.

Mas de vez em quando, ao longo da vida,
o menino loiro, com carinha de anjo,
salta lá de dentro, domina o adulto, consegue vencer.

E agora o meu pai, regressa ao passado,
assume a figura daquela criança
de caracóis loiros, sentada num banco
e retoma os gestos que outrora fazia,
procurando em vão
a mãe e a avó, a criada, a tia.

E ao ver, que esse grato mundo
já não mais existe,
lá torna o menino p’ra sua moldura,
tão quieto e triste.

   
Ana Braga
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COMENTÁRIOS 
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Isabel Vieira Pereira disse...
Não tenho o gosto nem a honra de conhecer essa ilustre figura que é Mário Braga, nem sequer as suas filhas, mas, depois de ler o poema "Meu Pai – Menino", não resisto a cumprimentá-lo pelos seus 90 anos, embora com um dia de atraso (mas que é um dia em 90 anos?). 
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Parabéns à autora do poema; comoveu-me até às lágrimas. Agora sei de onde lhe vem a arte dos seus escritos que leio neste espaço.  Isabel V. P. 
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Muito Bonita esta Homenagem ao Vosso Professor de Filosofia, Dr. Mário Braga. 
É sempre um gosto ler, seguir e Sentir as Vossas Memórias e o Vosso extraordinário blogue. Bjs a Todos. 
:)

Mário Braga e o ensaísmo literário (post 10)

 por Júlia Ferreira
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Para além de dar os parabéns ao Dr. Mário Braga e de lhe desejar muitas felicidades junto da família e dos amigos neste «14 juillet» (dia bonito para festejar aniversário…), gostaria de o homenagear, contribuindo para a divulgação do seu trabalho literário. Nesse sentido, transcrevo um excelente texto de Serafim Ferreira sobre a obra do aniversariante, juntamente com o desejo de a ver reeditada e acessível ao conhecimento das gerações mais jovens.Júlia Ferreira
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Mário Braga e o ensaísmo literário
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 Ligado ao movimento neo-realista que despontou em Coimbra nos anos 40 e 50, e depois de ter sido editor e secretário de redacção da revista Vértice entre 1946 e 1965, Mário Braga tem uma obra que se reparte pelo conto e novela, ensaio crítico e literário, crónica e ainda no domínio do diário. Na verdade, não podia deixar de ser influenciado pelo ambiente ou posição assumida por aquela revista, que foi o órgão tutelar do movimento neo-realista, mas não espanta nada que o seu livro de estreia Nevoeiro (1944) trouxesse consigo a visão de um mundo rural e pequeno-burguês que devia transformar-se, na consabida razão de saber, como havia de proclamar no prefácio de As Ideias e a Vida (1958), que «a matéria-prima do escritor de ficção é naturalmente o homem e a realidade concreta onde este se insere vivendo», para logo acrescentar que «a arte pela arte não passa de uma utopia».
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Portanto, a partir de Nevoeiro, saudado em termos entusiásticos por Jaime Brasil, crítico literário de O Primeiro de Janeiro, que logo considerou Mário Braga como um autor que «revelava, poderosamente, a garra dos verdadeiros novelistas», ficava traçado o percurso de quem seria, na soma de muitos livros e num trajecto que pôde percorrer ao longo de cinquenta anos de constante actividade criadora, um admirável contista, que nunca enjeitara, por exemplo, a lição exemplar de Tchekov ou de Maupassant, e consolidou uma obra literária importante dentro da corrente neo-realista, onde sobressaem Serranos, Quatro Reis ou Histórias da Vila, cuja temática se pôde em grande parte confinar ao universo real e a cenários geográficos de uma Beira Litoral de profundos contrastes humanos e sociais de que sempre soube valorizar, em termos literários muito simples, a imagem mais fiel dentro dos cânones de um realismo psicológico esquemático, é certo, mas que acabaria por derivar para um plano «simbólico», como acontecera em Antes do Dilúvio ou O Reino Circular.
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Nunca deixando de intervir na vida política e cultural, como ficou bem patente nos dois volumes de As Ideias e a Vida (1965), Mário Braga tem reafirmado o seu empenho na defesa de uma literatura que apenas deve ser concebida na relação directa com a própria realidade social e económica, e no plano da crónica política, literária ou social encontrou, na última fase da obra literária, a forma mais próxima e directa de um diálogo com os seus leitores, porque no imediatismo da escrita e da publicação nas colunas do jornal o que se filtra nesse modo de comunicação é ainda esse seu propositado sentido de apontar, denunciar, testemunhar ou proclamar o que se defende, se pensa ou se combate.
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Ora, ao publicar agora Momentos Doutrinais, em que pôde seleccionar alguns dos ensaios literários antes incluídos em As Ideias e a Vida, o autor do Livro das Sombras explica que, «quanto ao título do livro, quero somente dizer que o termo “doutrinal”, que nele utilizo, não se deve tomar, de modo algum, no sentido de defesa de um conjunto de princípios em que se fundamenta qualquer sistema, seja ele religioso, político ou mesmo, sequer, filosófico. Empreguei essa palavra, tão-só, na mera acepção de um conjunto de “opiniões” a respeito de vários factos, ideias, pessoas ou obras literárias que, desde muito novo, passaram a interessar-me como estudante, escritor ou cidadão». E assim é, realmente, porque no conjunto dos textos agora reeditados sobressai essa visão pessoal de Mário Braga entender a literatura como expressão maior do que foi o seu trajecto literário e a abordagem que nunca deixou de fazer de temas e problemas para dar corpo a um conjunto de «ideias» em torno de Camilo e do realismo, das origens do romance policial, as relações entre a arte e o progresso técnico, da literatura e do cinema, mesmo das várias metamorfoses literárias, passando pelo diagnóstico do conto, que foi o modo singular e talvez o mais elevado da sua manifestação literária.
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A profunda reflexão feita em redor de temas que sempre o interessaram ou na forma pessoal de inquirir das várias razões que para Mário Braga se constituíram como «sistema» na compreensão do fenómeno literário, faz-nos reler muitos destes ensaios como a atitude coerente de quem sempre esteve na literatura sem se importar muito com as trombetas da fama, fez a sua travessia ou suportou a indiferença e o silêncio dos leitores em largos anos em que a sua obra de ficção esteve esquecida ou não foi reeditada, para a caminho dos oitenta anos de vida e mais de cinquenta como criador literário Mário Braga ter plena consciência do que vale essa obra e, na revisitação da velha questão académica de 1907 e do «reino cadaveroso», com que fecha Momentos Doutrinais, saber ainda que certas «aves de arribação, vira-casacas ou pescadores de águas turvas» permitem evocar um tempo português que, tantos anos passados sobre Abril, exige ainda uma mudança de mentalidade ou de atitude perante a vida e o mundo. Mas, sem estar a pregar no deserto, o autor deSerranos exprime de modo claro o seu exemplo de pelos caminhos da escrita utilizar a sua reflexão crítica e ensaística para uma reabilitação ou redescoberta diante dos leitores de ontem e de hoje.
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«Mário Braga e o ensaísmo literário», de Serafim Ferreira, publicado em Junho de 1988, em A Página da Educação, n.º 70 (disponível em www.apagina.pt)

MÁRIO BRAGA - 90 ANOS (post 8)

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Ao nosso Professor de Filosofia (1948/1949)
   Foi no dia 7 de Outubro de 1948 que os alunos de Filosofia do Externato Ramalho Ortigão, ficaram a conhecer o seu novo Professor, o Dr. Mário Braga. À sua primeira aula de apresentação, logo se sucederam aquelas em que nos ensinou a história da Filosofia, desde o tempo mais remoto, quando a palavra abrangia o conhecimento, no seu sentido mais lato. Na oitava lição, aprendíamos sobre a Psicologia, a” ciência do espírito”, com referência à Psicologia racional e à Psicologia experimental…  
   Prosseguimos assim a aprendizagem ao longo de um ano lectivo, no decorrer do qual reconhecemos sempre a competência do Professor para o ensino de uma disciplina cuja exigência se nos revelava em cada lição, criando-nos dificuldades apenas atenuadas pela sua capacidade pedagógica: à clareza de exposição, ao método e ao rigor que demonstrava nas suas aulas, acrescia o companheirismo, próprio do jovem Professor que era apenas um pouco mais velho do que os seus alunos. Não admira assim que nos tenha acompanhado em momentos de convívio, caso da excursão a Évora, promovida pelo Externato, em Maio de 1949. 
   As qualidades pessoais e pedagógicas do Dr. Mário Braga, deixaram marca perene na memória dos seus alunos. Guardei, com sincera estima, alguns dos apontamentos que tomei nas suas aulas, assim como os exercícios de Filosofia, devidamente corrigidos e rubricados, validando com justos suficiente, as respectivas classificações.
   No decurso deste ano lectivo, não interiorizei o facto de o nosso estimado Professor de Filosofia, ser, desde 1944, o editor da prestigiada revista Vértice e o de ser reconhecido, aos vinte e oito anos de idade, como um talentoso escritor, que se afirmava como lídimo representante de uma corrente literária da qual viria a ser o grande expoente, conforme a sua vasta bibliografia documenta e as doutas apreciações críticas sobremaneira confirmam. O Dr. Mário Augusto de Almeida Braga está, por mérito próprio, no Quadro de Honra dos Escritores Portugueses.
   Na circunstância, recuando no tempo, sentimos que 1948 constitui um ano memorável para um núcleo de alunos do Externato Ramalho Ortigão, que foram privilegiados por terem tido como seu Professor de Filosofia, o Dr. Mário Braga, que então iniciou nas Caldas da Rainha, uma das suas primeiras experiências de ensino, senão mesmo a primeira. No mesmo ano de 1948, depois de ter publicado em 1944 o seu primeiro livro de contos,Nevoeiro, publicou os segundo e terceiro livros, Caminhos sem Sol e Serranos, dando continuidade ao tão inspirado percurso de escritor, criativo, sempre coerente com os valores e os princípios que o nortearam.
   Conjugam-se os dados que me permitem sentir que, decorridos sessenta e dois anos, persistem vivas as memórias que nos ligam a pessoas, às circunstâncias e aos lugares, razão de conforto e dos afectos que, solidariamente, nos apraz cultivar.   
   Na comemoração do seu 90º aniversário, também eu, já octogenário, quero manifestar ao nosso Professor de Filosofia e ao Escritor emérito, o meu sincero respeito e a maior admiração, dedicados à exemplaridade de uma Vida e de uma Obra que tanto enobrece a literatura portuguesa.
   Honra ao Dr. Mário Braga !
   Com o abraço amigo de parabéns, do seu ex-aluno
   Mário Gualdino Gonçalves
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MÁRIO BRAGA - 90 ANOS ( post 7 )


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António José Lopes disse:

É muito bom, depois de termos ultrapassado os 80, ter ainda vivo, com a bonita idade de 90 anos um professor que em tempos que recordamos com saudade nos tentou ensinar filosofia. Óptimo professor com um convívio excelente com todos nós e que nos compreendia como ninguém.

Pouco dado que era às filosofias, devo ter-lhe dado algumas, se calhar muitas, dores de cabeça. Por isso mesmo e com os meus parabéns e votos de felicidades… as minhas desculpas. 

A. J. F. Lopes  



Nos 90 anos de Mário Braga fica a marca de um homem que se bateu contra as plumas servis (de autores de baixa cerviz), por uma Literatura decente e asseada, imune ao bedum rançoso que, num país parado no tempo, vinha lá da sarjeta de fundo do quintal do século XIX.
Que o ERO tenha sido prestigiado por contar com a sua presença no quadro docente é privilégio de todos nós (e os Parabéns que daqui lhe enviamos apenas uma modesta forma de o demonstrar).
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João Jales disse :


Foi com especial empenho, e prazer, que procurei ter hoje aqui no Blog uma saudação ao nonagésimo aniversário de Mário Braga. Não com a intenção de prestar ao escritor a homenagem que ele merece, não tenho para isso engenho nem arte, nem este Blog tem dimensão para tal. Esse reconhecimento teve lugar no Museu do Neo Realismo em Vila Franca de Xira, conforme aqui relatou a nossa colega Mila; a intenção hoje foi relembrar que da história do ERO faz parte um ilustre intelectual, que recorda com saudade o ano que aqui passou, pai de duas amigas e valiosas colaboradoras do Blog e sogro de um antigo colega nosso. 
Um homem notável que comemora noventa anos, rodeado do afecto de familiares, amigos e antigos alunos, e é dessa história que este Blog trata .
Parabéns a Mário Braga e a toda a sua família .
JJ  
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Luisa disse:

Não foi no meu tempo que o Dr. Mário Braga foi professor no Colégio.Mas é sempre um motivo de orgulho saber que um tão insigne Homem de Letras tenha feito parte do ERO.A ele e a toda a Família envio parabéns e o desejo de muitas felicidades!L
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Manuela Gama Vieira disse...
Imagino os sentimentos que "percorrem" a Ani pela passagem dos 90 anos de seu Pai-tantos quantos o meu Pai perfará em Abril próximo.Deduzo,por isso,que tenham sido contemporâneos em Coimbra,embora em cursos diferentes. Tenho para mim,que há vozes que nunca deveriam calar-se! Ani,neste dia tão significante para si e sua Família,ofereço-lhe estas "Capas Velhinhas".  As nossas capas
Canto d'Alma 

  • Mário Braga, um dos sobreviventes da geração neo-realista, faz hoje 90 anos. Na sua obra soube aliar uma problemática social com uma vocação de cariz existencialista, pelo que a dissecação do eu, embora normalmente alicerçada numa contextualização social, ganha autonomia e encaminha-nos, por vezes, para os temas da incomunicabilidade e do absurdo. Um autor injustamente hoje pouco lido, embora a sua obra tenha uma dimensão actual.
    Ao escritor e sobretudo ao grande amigo, um abraço de parabéns.
    • São de intensa felicidade, para todos que amam a leitura, estes 90 anos de Mário Braga.
      É a casa Neo-Realista ainda de mais vivo olhar quando a recordação perdura. Parabéns e longevidade.