ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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EU FUI À FEIRA DO LIVRO !

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Os livros são uma memória e um tesouro colectivo e pessoal,  mas nos nossos tempos de adolescência muitos livros e autores foram também muitas vezes um denominador comum em "sociedades secretas" , como se a sua descoberta fosse uma senha de entrada num mundo mágico e exclusivo.... O mesmo se passava talvez com músicos, LPs e canções, mas tenho hoje a ideia que os livros são mais perenes  (embora goste tanto de Música como de Literatura). 

Fui no Domingo ao último dia da Feira do Livro, onde revi com alguma emoção os livros de Júlio Verne, Enid Blyton, Emilio Salgari, até alguns velhos exemplares da Marabu Junior, Mundo de Aventuras, Cavaleiro Andante, etc, que povoaram a nossa imaginação quando frequentámos o ERO. Mas era de outros livros que eu ia à procura... 
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Vem isto a propósito de um pequeno comentário que publiquei no Facebook sobre o assunto e que alguns amigos e colegas sugerira que publicasse neste Blog. Se têm ou não razão, deixo ao vosso juízo, pedindo desculpa se acharem que perderam tempo com estas linhas.

Entrei na Feira e descobri imediatamente a Relógio de Água, que vendia livros entre 3 e 7 Euros. Edna O’Brien, Stephen Jay Gould, Oliver Sachs, Mishima, Hélia Correia
, Maria Gabriela Llansol… tudo coisas que eu compraria mais tarde ou mais cedo, mesmo a preço normal. Claro que fui logo “abandonado” pela família, que planeava estadias menos prolongadas nos stands.

Decidi que, a partir dali tinha que me apressar mas, logo a seguir, uns álbuns de fotografias, cinema e Jazz tinham 75% de
desconto … Nos primeiros dez metros da feira já tinha três sacos com livros - péssimo começo! Fiz uma revisão do plano inicial e só parei nas editoras onde os descontos eram pelo menos de 50% ou havia “livros a escolher” até 5€. Vocês acreditam que, mesmo com este critério, foi possível comprar quase todos os livros do que levava numa pequena “lista de compras” para completar colecções? John Updike, Lawrence Durrell, Maalouf, Eco, Duras , Yourcenar , Erico Veríssimo, David Leavitt, Conrad, Gore Vidal, Don Dellilo , Coetzze, le Clezio, Julian Barnes, Cela,  da minha lista só Philip Roth (faltam-me 4 ou 5 livros dele) e Salman Rushdie estavam ausentes das promoções (suponho que nunca se “saldam” os próximos Nobel).

É claro que ainda não foi desta vez que completei Vargas Llosa e Erico Veríssimo, por mais que me esforce faltam-me sempre alguns dos seus títulos - desconfio até que o brasileiro escreve e edita directamente do Além mais livros do que os que eu consigo comprar! Uma paixão que me acompanhou toda a vida, desde que li O Tempo e o Vento.
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Uma colecção do Círculo de Leitores (com a clara indicação só é permitida a venda a Sócios) era oferecida a 2 livros=5€ . Muitos eram interessantes (embora não novidades) comprei vários, de que destaco dois de Mário Braga, um dos grandes autores do neo-realismo português e que foi professor do “meu” Externato Ramalho Ortigão. É pai da minha amiga Ani e tive o prazer de o conhecer pessoalmente no último almoço/convívio do Colégio.

De Roberto Bolano já tenho todos (estava lá, a preço “normal”), de Murakami já tenho livros demais (quando lemos “O Pássaro de Corda” e “Kafka à Beira Mar” , descobrimos que já lemos todos), de novas traduções de Sebald não vi sinal (e ele é um dos mais entusiasmantes dos escritores que ninguém leu - morreu há dez anos e nem tudo está publicado em português), Flannery O’Connor tinha lá os livros a 7,5€ (valem facilmente 1000 cada um, mas ela escreveu infelizmente pouco...) . Do que comprei de biografias( Lou Reed, Nick Cave, Patty Smith, Fred “sonic” Smith, Miles Davies, Coltrane, Peter Hammill, etc), bem como de ilustrações de capas de discos, falamos noutro dia.

A compra mais curiosa aconteceu num alfarrabista: faltavam dois livros para completar o número que tínhamos combinado para ele me fazer um preço unitário mais baixo do que o anunciado na banca. Quando já não tinha mais para escolher, e ia refazer o negócio, o vendedor apresenta-me um saco com uma dúzia de livros que alguém tinha reservado mas não tinha ido buscar. Com a feira a acabar, se eu quisesse algum, ele já não se sentia na obrigação de manter a reserva. Entre livros do Paul Auster , Yourcenar, John Heller, Susan Sontag, Martin Amis, Ian Mcewan (alguns eu já tinha, outros não, mas o cliente tinha bom-gosto!) descobri “Beloved”, de Toni Morrison, que tinha inutilmente procurado em vários locais desde que soube que integrava todas as listas dos melhores livros anglo-saxónicos dos últimos tempos. Os livros estavam todos como novos e acabei por os pagar a 3€ cada. Foi então que descobri que já não conseguia transportar tudo o que tinha comprado, pelo que enviei um SOS à família que me ajudou a transportar os sacos para o carro e me acompanhou num retemperador jantar na Isaura (ali na Av. de Paris, para quem não conhece um dos “emblemas“ da gastronomia lisboeta e uma das melhores garrafeiras nacionais. Morei ali perto, quando fui para Lisboa em 1971, sou portanto cliente há ... mais de quarenta anos!).




Soube durante esse jantar que tinha perdido o convívio com muitos dos escritores presentes quando a minha filha exibiu o último Mia Couto autografado. Nunca há tempo para tudo...
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Adeus, vou tentar, como me ordenaram quando cheguei a casa, “arrumar os livros nas prateleiras”. Mas sobram os primeiros e faltam as segundas … nenhuma mulher quer entender isto…

JJ

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C O M E N T Á R I O S 

Anónimo disse...
  Está fantástico como sempre!Ainda um dia havemos de ir todos à Feira do Livro comprar um livro com as tuas crónicas. Fico à espera....parabéns
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Guida Sousa disse...
Já te disse anteriormente que o futuro do Blogue passa por aqui,pela tuas crónicas e não por memórias que não são infinitas,poucos têm uma memória como tu.Ninguém perdeu tempo a ler este briefing sobre literatura contemporânea,só se não gostar de ler!Brilhante. 


Li o post todinho e com um sorriso. Obrigado João.


  • Carlos Geraldo Eu ainda tenho aqui uns espaços vagos nas estantes - é que nem tempo tenho para ir à F. do Livro (teria que ir ao Porto...) Por isso, se precisares...
5/16/2012
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Blogger vitor be disse...
O post está como sempre bem escrito mas tenho duas ressalvas a fazer:1-não encontro referências a literatura portuguesa,já que estes escrevem quase todos em Inglês 2-gostaria de saber um pouco mais sobre a tua preferência por estes e não outros autores,alguns dos quais nunca li.
Concluiria dizendo que,embora formalmente bom e até divertido,o texto se dirige apenas a quem partilha os gostos de quem o escreveu.Não será?

  • Parabéns pelas aquisições.
    Parabéns por não teres que... (esconder as etiquetas dos preços).
    Parabéns pelo socorro pedido e atendido pela família.
    Parabéns pelo jantar retemperador e gostosamente "regado".
    Parabéns por concluíres que PPC não é NINGUÉM,comparado com as tuas companhias de ontem.
    Parabéns por teres mulheres na tua vida que (não) compreendem que "sobram os primeiros e faltam as segundas".
    Parabéns por,quando queres,lhes dares razão....a elas,claro!:-))))))))


  • Resumindo, vais mudar para uma casa maior.....olha a viscondessa morreu, aluga-lhe o palacete, ficas com vistas para a lagoa; imenso espaço, salas , salinhas e salões e é um belíssimo sítio para fazer uns jantares com os amigos...pensa nisso. ;)
      
    Júlia Ribeiro 
    • Um dia cheio :Família, cultura e, para terminar, comidinha na Isaura ! Boa escolha!! Parabéns

  • Os livros são bons e baratos. O tempo para os ler é que não se compra tão barato assim.


  • Um comprador compulsivo de livros tem sempre justificação se for acompanhado igualmente dum leitor compulsivo de livros. O tempo para os ler e o espaço para os arrumar é que se torna problemático nos dias que contam. José Saramago confidenciou-nos uma vez como resolvia o aasunto. Só lia um livro uma vez e assim que tinha a casa cheia de livros oferecia-os a uma qualquer biblioteca para voltar a organizar uma outra pessoal com um stoque completamente renovado. Como também foi informando, tinha feito isso várias vezes

  • Desta vez não tive oportunidade de ir á feira. Disseram-me, e posso ver que houve grandes oportunidades... Gostei muigto do texto, e também porque adoro ler... Só não li mais toda a minha vida, porque para mim o acesso á leitura era restrito... Agora, ando é preguiçosa! Mas quando um livro me agrada, não leio, devoro-o!... Depois quando acaba, fico com um vazio dificil de explicar... Beijinho e vê lá se começas a arrumar os livros como deve ser..

  • Parabéns pelas compras e pelos bons hábitos de leitura.Bjs



  • E viva a leitura!! Bem me perco ai tb.. 




    • Isabel Trüninger de Albuquerque
      Mas que delícia, e o remate no Isaura ...bem podias ter comido um prosaico leite creme, quase melhor do que o meu, soberbo...mas não, ainda lhe faltam uns segredos. Da M.Youcenar compraste o quê? Só para saber se me vou irritar com algum livro que não tivesse visto!! Andei por lá acompanhada para um primeiro reconhecimento do território, com a intenção de lá voltar sózinha. Ainda espreitei se via algum da M.Yourcenar que não tivesse, mas nada. A seguir fui para o Algarve e acabou-se a feira...Que bela colheita a tua de 2012 !!! Assim vale pena :-))

    António J M disse...
    Uma crónica muito informativa,humorada e que se lê sem dar por isso.Fizeste-me ter pena de não ter lá ido,se havia pechinchas como descreves.Para a Isaura podes convidar-me sempre porque não vou lá há vinte anos!!!Podes publicar muitas crónicas destas,todos têm certamente interesse em ler.Abraço
    Isabel Esse disse...
    Gostei muito e acho que este blogue não tem que ser preenchido só com recordações,este post está aqui muito bem.Só tive pena que não escrevesses algo mais sobre os autores que referes porque não conheço alguns mas andei a vasculhar pelo google e já sei que ando a perder umas pérolas literárias.Só por isso valeu a pena.Escreve mais!IS 

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SIXTY YEARS ON ...

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Uma fotografia repetida sessenta anos depois, com as mesmas pessoas no mesmo local, é certamente motivo de celebração. Sem mais comentários, que espero da parte dos visitantes, aqui estão as duas imagens em questão:

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C O M E N T Á R I O S


  •  Felizes reencontros...


  • as duas fotos são notáveis porque permitem constatar a grande evolução do Fernando ao longo dos anos passados....na primeira foto, as meninas estão agarradas ao menino encolhidinho.....na segunda é o menino que agarra as meninas...(mas parece que o carinho mútuo se terá mantido)...










    Santa-Bárbara deixou um novo comentário :
      Ó Zéquinha, tens toda a razão. O tempo foi passando e eu fui-me "desinibindo",mas a amizade não se perdeu!
    Ao certo, entre uma e outra, há uma "distância" de 65 anos!
    Daqui a 65 anos, vamos tirar outra!


João Jales disse:

Cinco de Março de 1966


Alice Ventura


 
Apenas sei que esta foto foi tirada nas bancadas do

campo de futebol (Mata)no dia 5 de Março de 66 .

Não sei quem foi o "autor", nem em que circunstâncias ocorreu.





    • ‎1º  à esqª na 1ªfila o Rui Silva, a 4ª Natália Girão. Numa das filas de trás o Rolim e o Filipe. Conheço outras caras mas infelizmente não me recordo dos nomes. 
      Deixei o ERO após ter feito o 4º ano e fui para Leiria para o Colégio N.S.de Fátima. Passei dos Padres para as Freiras.
       
      Lembro algumas caras mas não relaciono com os nomes

        •  
          Onde foi esta que não me chamaram?Muito lindos.

        • Apenas sei que foi nas bancadas do campo de futebol (Mata)no dia 5 de Março de 66 .Não sei quem foi o "autor", nem em que circunstâncias ocorreu.
           
        • Tanta gente conhecida, da minha turma! Não sei onde estaria eu... Rui Silva, Olga. Natália, tu Alice Ventura, a querida Nani, o Zé Filipe, o Nuno, o Rolim, a Ramira, etc, etc, etc. Que preciosidade! Esta não tenho...
        • Eu penso que estás atrás da Natália e ao lado do Zé Filipe.Estão aqui também o João Paulo, o Miguel, a Anabela Ferreira, o Carrilho (de boné), a Umbelina e alguns que já não consigo identificar.
        • Acho que não sou eu, Alice, mas não estou certa...
        •   Olá Alice, atrás da Natália estou eu. Também tenho esta foto. Foi num domingo que fomos ver um jogo de futebol dos rapazes!
        • Também me lembro muito bem,e já viram como iamos tão bem vestidinhas (os) para vermos o jogo?.Belos tempos.
        • Olga Pereira Estão também,oGilberto ,Maria João, Alvaro Pimeta de Castro,o Quim q julgo que era do Bombarral,e penso que o de boné é o Manuel Branco.
        • Alice Ventura Meninas, como a vossa memória visual é prodigiosa!...estou agora a relembrar o Branco que me parecia ser o Carrilho, o Quim do Bombarral (que era muito irrequieto)e o Gilberto ( que mora perto de mim).Como íamos giras ,de malinha, como se de uma festa se tratasse!...que saudades!...
        • Olga Pereira Está ao lado do Branco, o Pires.Não sei quem é ao lado do Pires,sabem?
       

VILAR DE MOUROS , 1971 - AS FOTOS

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O António João Freitas, conforme referi no post anterior, também esteve presente em Vilar de Mouros. Em vez de uma máquina de filmar, tinha com ele uma máquina fotográfica e decidiu mostrar-me as imagens que fez do Festival e que, curiosamente , eu nunca tinha visto.
Imagens que me despertaram muitas emoções e que retratam um evento único. Obrigado ao fotógrafo (que, entretanto, se tornou músico).






Todas as fotografias são da autoria do António João Freitas.

VILAR DE MOUROS, 1971 - O FILME

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O Festival de Vilar de Mouros foi uma ideia do médico António Augusto Barge, com o objectivo final de transformar Vilar de Mouros num destino turístico. A partir de 1965  aí se divulgou a música popular do Alto Minho e Galiza.
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Com o apoio e o incentivo dos filhos, o organizador decidiu, depois da edição de 1968, transformar o Festival, integrando música Pop e Rock, chegando a contactar Beatles, Rolling Stones, Moody Blues e Pink Floyd para ali actuarem. As dificuldades eram muitas, incluindo a oposição do regime e da Igreja, mas finalmente, em 1971, foi possível contratar Manfred Mann e Elton John bem como a maioria das melhores bandas portuguesas da época : Quarteto 1111, Pentágono, Sindikato, Chinchilas, Contacto, Objectivo, Bridge, Beartnicks, Psico, Mini-Pop, Pop Five Music Incorporated, Celos... Foram fixados os dias 7 e 8 de Agosto para este evento.
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Num país estagnado e isolado como era Portugal nessa altura, um fim de semana de música interpretada pelos nomes anunciados, num ambiente idílico e longe das famílias, era um atractivo irrecusável para todos os jovens portugueses. Lembro-me de pensar organizar uma excursão e saber até o preço de uma camioneta alugada especialmente para o efeito, que nos levaria na sexta-feira e nos traria no domingo à noite. Nunca pensei que o grupo inicial de dezenas de entusiastas fosse reduzido pelas reticências familiares a três pessoas : eu, o Pedro Nobre e o Nuno Mendes .

"A PIDE e um pelotão de 45 homens da GNR do Porto estiveram presentes no festival, mas numa atitude discreta.  Ao contrário das forças policias, a Igreja posicionou-se contra o evento e pedia aos pais que não deixassem os seus filhos ir ao festival por ser organizado por "pessoas de leste". A família Barge acabou inclusivamente por ser excomungada”. (Alexandra Sumares - RTP)

 Acabei por ir de comboio, gastando um dia inteiro no percurso (o que na altura era normal para atravessar metade do país). Mas no sábado lá estávamos, num dia de sol magnífico, com mais quatro ou cinco mil jovens como nós . Menos do que a organização esperava - tal como o Woodstock, o Vilar de Mouros acabou também em grande prejuízo para a organização (cerca de 1000 contos). Só Elton John recebeu 600 contos, uma fortuna para a altura. O único subsídio que existiu foi dado pelo Secretariado Nacional de Informação (30 contos).Os outros patrocínios prometidos falharam. Ao todo foram gastos cerca de 2500 contos, pagos pela família Barge.
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Os concertos decorreram Sábado e Domingo , começando às cinco da tarde e prolongando-se pela madrugada do dia seguinte. Os Manfred Mann encerraram o primeiro dia e Elton John o segundo. Eu tinha dezassete anos, feitos um mês antes; independentemente de algumas falhas de som e muitas demoras entre actuações, o convívio, a liberdade, as novas experiências, tornaram aqueles dias inesquecíveis para mim (e julgo que para a maioria dos outros presentes).

Não sei como consegui convencer o meu pai a emprestar-me a sua máquina de filmar de 8mm (infelizmente sem som)  para poder gravar as imagens do acontecimento mas o que é um facto é que o filme (que eu julgava perdido) reapareceu agora e aqui está para testemunhar o que foi o Festival de Vilar de Mouros de 1971 e a nossa passagem por lá. As imagens originais estão bastante degradadas, embora eu pense que seja possível talvez obter um filme digital um pouco melhor do que este que coloquei no Youtube com o inestimável colaboração do Vasco Baptista . Não se esqueçam que o filme é originalmente mudo, por isso não filmei os músicos mas a assistência . Além dos três alunos do ERO referidos estava lá (e está no filme) o Dr. Custódio Maldonado Freitas e a família, vejam com atenção...
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Por curiosidade acrescentei, no final do post, o relatório da PIDE sobre os dois dias do Festival. Uma pérola...


(NOTA : o filme teve 1150 visionamentos completos 
no YouTube, no espaço de um mês)

ANEXO
Relatório PIDE/DGS Vilar de Mouros '71
Assunto: Festival de música “Pop” em Vilar de Mouros

A seguir se transcreve o texto de uma informação redigida por um nosso elemento informativo que assistiu ao “festival” em questão, que teve lugar nos dias 7 e 8 do corrente, a qual se reproduz na íntegra, para não alterar os detalhes que foram alvo do seu espírito de observação:

“Dias antes do festival, foram distribuídos, nas estradas do País e nas estradas espanholas de passagem de França para Portugal, panfletos pedindo aos automobilistas que dessem boleias aos indivíduos que iam ver o festival.

No 1º dia, o espectáculo começou às 18h00 e prolongou-se até às 4 da manhã.
Ao anoitecer, o organizador, um tal Barge, anunciou que tinham sido vendidos 20 mil bilhetes (a 50$00 cada).
Esperavam vender 50 mil bilhetes para cobrir as despesas, que seriam aproximadamente a 2.500 contos.
Diziam que tiveram de mandar vir o conjunto Manfred Mann de Inglaterra, mas parece que estava no Algarve, e por isso, a despesa com eles não foi tão grande como parecia.

Um dos cantores, Elton John, causou desde o começo má impressão, com os seus modos soberbos e as suas exigências: carro de luxo para as deslocações, quartos de luxo para os acompanhantes e guarda-costas, etc.
O recinto do festival era uma clareira cercada de eucaliptos, com um taipal à volta e uma grade de arame do lado do ribeiro.

Na noite de 7 estavam muitos milhares de pessoas e muita gente dormiu ali mesmo, embrulhada em cobertores e na maior promiscuidade.
Entre outros havia:
crianças de olhar parado indiferentes a tudo
grupos de homens, de mão na mão, a dançar de roda
um rapaz deitado, com as calças abaixadas no trazeiro
um sujeito tão drogado que teve de ser levado em braços, com rigidez nos músculos
relações sexuais entre 2 pares, todos debaixo do mesmo cobertor na zona mais iluminada
sujeitos que corriam aos gritos para todos os lados
bichas enormes a comprar laranjadas e esperando a vez nas retretes (havia 7 ou 8 provisórias) mas apesar disso, houve quem se aliviasse no recinto do espectáculo.
porcaria de todo o género no chão (restos de comida, lama, urina) e pessoas deitadas nas proximidades

Viam-se algumas bandeiras. Uma vermelha com uma mão amarela aberta no meio (um dos símbolos usados na América pelos anarquistas); outra branca, com a inscrição “somos do Porto” com raios a vermelho e uma estrela preta.

A população da aldeia, e de toda a região, até Viana do Castelo, a uns 30 km de distância, estava revoltada contra os “cabeludos” e alguns até gritavam de longe ao passar “vai trabalhar”. Foram vistos alguns a comer com as mãos e a limparem os dedos à cabeleira.
Viam-se cenas indecentes na via pública, atrás dos arbustos e à beira da estrada.

Em Viana do Castelo dizia-se que os “hippies” tinham comprado agulhas e seringas nas farmácias da cidade.
Havia muitos estudantes de Coimbra, e outros que talvez fossem de Lisboa ou do Porto. Alguns passaram a noite em Viana do Castelo em pensões, e viam-se alguns de muito mau aspecto, parece que vindos de Lisboa, que ficaram numa pensão.

Houve gritos de Angola é… (qualquer coisa) durante a actuação do conjunto Manfred Mann (de que faz parte um comunista declarado, crê-se que chamado Hugg).
Fora do recinto, junto do rio e de uma capela, havia muitas tendas montadas e gente a dormir encostada a árvores ou muros e embrulhada em cobertores.
Houve grande confusão junto às portas de entrada.
Havia quatro bilheteiras em funcionamento permanente e muito trânsito.

Toda aquela multidão de famintos, sem recursos para adquirir géneros alimentícios indispensáveis, como se de uma praga de gafanhotos se tratasse, se lançou sobre as hortas próximas colhendo batatas e outros produtos hortícolas, causando assim, grandes contrariedades aos seus proprietários, muitos deles de débeis recursos económicos.
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comentários: 

 



Cesar Pratas
Excelente ideia a de publicar o texto promiscuo do promiscuo informador da PIDE. Ajuda à interpretação do que foi a ditadura.
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José Carlos Faria   

A prestimosa organização sempre presente: O seu relatório dá bem a dimensão da tacanhez e da mentalidade daquela gente. Pobre país...

Guida Sousa disse...
Não sei se gostei mais do filme,do texto e da excomunhão da família Barge ou do Relatório da PIDE!Genial!
É bom ver o blogue reanimado porque fico triste quando o vejo parado.
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IsabelS disse
Grandes recordações!

sixtiesjoe disse
Lembrei-me mais uma vez de quanto gostaria de lá ter estado.Mas o preço do bilhete,dos transportes e da estadia estava para lá das minhas possibilidades e os meus pais não ajudaram porque não queriam que eu fosse.Há poucos filmes deste Festival,ainda bem que este aqui apareceu!
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Victor disse:
É pena não ter som, mas como mostra o recinto e a assistência é um precioso documento de época, como já alguém escreveu. Gostei e recomendei a outros amigos.

Artur disse:
Não estive presente, era longe e caro ir a Vilar de Mouros.O ambiente mostrado no filme é realmente parecido com o que tenho visto em relação a Woodstock que foi dois anos antes.Gostei muito de ver o filme e ouvir o Mighty Quinn.
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Luis Santos disse:
 Foi em 1971 que, e apesar da ditadura, se produziu em Portugal a 1ª grande edição do Festival Vilar de Mouros,o maior festival de sempre no país. O clima de paz, amor e liberdade fez com o que o Vilar de Mouros de 71 fosse considerado, nacional e internacionalmente, como o Woodstock português. Elton John e Manfred Mann actuaram no fim-de-semana de 7 e 8 Agosto,com Quarteto 1111, Pentágono, Sindikato, Chinchilas, Contacto, Objectivo, Bridge, Beartnicks, Psico, Pop Five Music Incorporated,etc.

Luisa disse
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José Manuel disse:
Não conheço realmente nenhum filme a cores de Vilar de Mouros.Só filmes a preto & branco com escassos segundos de actuações de algumas bandas. Porque é que este filme esteve escondido tanto tempo? É um documento único!!!
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Inês disse:
Muito giro!
Parabéns ao amador pela realização impecável. Um documento de época, bem interessante!
vicmanval disse :
Também estive em Vilar de Mouros em 1971 e este filme é um documento extraordinário para a história da música e dos seus festivais e para a compreensão de uma geração, ainda debaixo do regime fascista. Obrigado por esta fantástica memória.
Seaman disse:
Ehehehehehehehehe isto ficou mesmo bom !
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Anónimo deixou um novo comentário:
Nice post! I love your blog.

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 Anónimo disse...
Acho estranho que depois de tanto sucesso na era da "ditadura" o Festival não existir na "democracia" dando lugar a outros festivais que anularam aquele,com tantas "pides" que há agora, porquê?
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Resposta a "Anónimo":

1 - Lamento sempre que as pessoas não assinem os comentários que escrevem;
2 - O Festival de Vilar de Mouros teve várias edições depois do 25 de Abril. Assisti também à de 1982, que  foi um enorme sucesso, mas houve mais posteriormente. Nunca foi "anulado";

3 - Penso ter ficado claro no texto do post que foi maior a oposição da Igreja do que a do regime à realização do Festival;
4 - A Pide não proibia nem autorizava espectáculos, limitava-se a impedi-los ou vigiá-los, conforme as ordens que recebia do Governo;
5 - Conheço vários casos de serviços de informação que são utilizados abusivamente hoje para fins ilícitos, mas desconheço que haja "tantas pides" agora. Esclareça-me.