ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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À JANELA DOS ANOS SESSENTA


Guida Carvalho da Silva
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ANOS SESSENTA (outros tempos)
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Quando eu tinha 15 anos, terminado o quinto ano, deixei o colégio e vim viver para Lisboa.
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O meu pai tinha tido um AVC, o meu irmão mais velho ia entrar na universidade e a minha mãe achou por bem agarrar nos trapos e voltar com todos nós para junto dos familiares.
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Não sei se terá sido uma decisão fácil para ela, eu não fui consultada, só sei que lá rumámos a Lisboa, onde eu vim terminar o liceu, num liceu só de raparigas, um liceu onde os rapazes estavam expressamente proibidos de entrar, ou mesmo de se aproximarem: menino que fosse buscar menina, tinha de a esperar pacientemente a mais de 50 metros da porta de entrada! Acabar o liceu e entrar na faculdade, com novos colegas, novas amizades, as festas dançantes nos sábados à tarde, as primeiras saídas à noite, as greves de estudantes com a consciencialização do Maio de 68 a chegar também às universidades portuguesas … “a pulga salta, a pulga grita, ora vai-te embora oh pulga fascista” ...


... o início do peace brother, peace e do flower power … os hippies com “if you’re going to S. Francisco, be sure to wear some flowers in your hair” …a partida do meu irmão Eduardo para Paris... os cursos de verão em Londres para aperfeiçoar o inglês... Para mim, a segunda metade dos anos sessenta foi um verdadeiro turbilhão de emoções, que acabou por apagar qualquer resto de saudade mais teimosa que eu pudesse ainda sentir por tudo e por todos os que tinham ficado para trás, em S Martinho do Porto ou nas Caldas da Rainha.
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Todos, sem excepção, acabaram guardados no fundo da minha memória, num canto meio desarrumado (e bem fechado à chave, por via das dúvidas!).
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E por lá teriam ficado para sempre bem guardados, não fosse o Blog do ERO , com os seus textos, fotos e links, ter começado a remexer nesse passado já tão esquecido!
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Oh maravilha das maravilhas…. aberta a caixa de Pandora., as recordações são mais que muitas a ficam cada vez mais claras: caras, lugares , situações, nomes e até cheiros e sabores de que nunca mais me tinha lembrado.

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A casa na Rua do Cinema, em S Martinho do Porto, a pacata vila piscatória para onde nos tínhamos mudado em meados dos anos cinquenta, as casas vazias no inverno numa terra que todos os verões se travestia de estância balnear da moda, trazendo não só os banhistas alfacinhas e caldenses mas também (já nessa altura) os turistas estrangeiros. Todos tinham em comum o facto de me parecerem estar quase sempre alegres, despreocupados e espantosamente divertidos.
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Cada verão as esplanadas da rua dos cafés e a praia se animavam e se enchiam de vida e de cor e cada verão eu ia aprendendo a nadar melhor, a andar de bicicleta mais rápido e cada verão fazia passeatas no cais de S.Martinho, via os barcos, a baía, comprava os barquilhos , pevides, bolas de Berlim, entrava nos concursos das construções na areia e caminhava até Salir, com o Eduardo e
os amigos dele, só para os ver pescar taínhas.
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Eu, que jogava ao prego ou ao ringue na praia e nadava até à velha jangada de madeira (que parecia sempre ser longe como o diabo), eu, que descia a rebolar as dunas de Salir à velocidade da luz para vir aterrar cá em baixo na ribeira, mais nódoa negra, menos nódoa negra, eu, que sonhava acordada no quintal da casa da rua do Cinema e coleccionava as fotografias dos Beatles que vinham nas pastilhas elásticas e ouvia Les Chats Sauvages “quand viens la fin de l´eté sur la plage il faut alors se quitter”… Cliff Richards… The Shadows … Silvie Vartan… Françoise Hardy… e, claro está, The Beatles …”love, love me do… you know I love you”… ah, o meu querido gira discos portátil , um Philips azul e beije, prenda por ter concluído o meu segundo ou terceiro ano, já nem me lembrava dele, o que lhe terá acontecido? Em que sótão, em que casa, em que prateleira, terá ficado arrumado e esquecido…
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Lembro-me, isso sim, de surripiar sempre «O Cavaleir Andante» ao meu irmão Eduardo, para poder ler as aventuras do Príncipe Valente, lembro-me de ficar estendida na relva do jardim, ou no areal da praia, absorta na leitura dos livros que invariavelmente ou eram da «Biblioteca das Raparigas» ou da «Biblioteca dos Rapazes» geralmente oferecidos pela titi, ou pela vovó, eu que via sempre o «Ivanhoe», o «Robin Hood» ou o «Get Smart» na TV (a preto e branco, tudo a preto e branco) e imaginava cavaleiros andantes em terras exóticas, enquanto esperava sem pressas por cada regresso às aulas, antecipando o reencontro com as amigas e os amigos do colégio.
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Nessa época cada viagem no comboio da linha do Oeste era uma pequena aventura, todos os dias o mesmo grupo de adolescentes brincalhões e despreocupados viajava de S.Martinho do Porto às Caldas da Rainha, em menos de 15 minutos (com direito a paragem no Bouro).
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E eis que, sem ser convidadas, começam a chegar as memórias do colégio: desde as aulas de ginástica onde as meninas se pavoneavam naquelas inestéticas saias de sarja branca que éramos obrigadas a vestir por cima dos calções (coisas da época) até aos napperons em ponto cruz nas aulas de Lavores Femininos da Dona Dora …
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Ui, e tal qual coelho tirado da cartola, aparecem desordenadas imagens das aulas com o professor Azevedo, o terror da matemática, a Dra Maria do Rosário, que eu achava tão elegante com os seus lenços sobre os cabelos… a Dra Irene “quand trois poules vont aux champs, la premiere marche devant”.... os directores: o tolerante e sorridente Padre António Emílio e o sisudo e inflexível (ui, que medo… ) Padre Albino!
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O padre Renato, que logo no primeiro ano, para minha grande desilusão, teve a bondade de me informar que eu desafinava demais, por isso o melhor seria ficar de boca fechada nas suas aulas de Canto Coral! Foram cinco os anos que eu passei no ERO, do primeiro ao quinto, de sessenta a sessenta e cinco e a cada novo ano lectivo o padre Renato ,sem sucesso, a tentar hipnotizar -me durante o recreio (dizia ele que o insucesso era derivado ao facto das solas dos meus sapatos serem de borracha …) e a cada novo ano lectivo eu voltava a tentar cantar e voltava a ser devidamente informada que desafinava demais por isso tinha de ficar fora do coro!
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A amiga irreverente, a Lena Figueira, que um dia, sem pré aviso, de morena passou a loura amarelo palha, num abrir e fechar de olhos, escandalizando a moral caldense mais puritana da época, a Ana Nascimento e o Carrilho , que tinham sempre boas notas e sabiam a matéria toda na ponta da língua (a Ana menina sempre bem comportada, o Carrilho nem tanto) e, claro está, as minhas duas companheiras nas viagens de comboio a Isabel Veiga (a verdadeira espalha brasas... ) e a Graciete (tão Françoise Hardy!).
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O meu irmão mais velho, o Eduardo Artur (1948/2003) , com todos os seus colegas de turma e o fascínio que os mais velhos exerciam invariavelmente sobre os mais novos, os famosos passeios ao parque durante a hora do almoço, o subir bem devagar a ladeira até ao colégio em amenas cavaqueiras, entre risadas e brincadeiras, os recreios onde as miúdas saltavam à corda, jogavam à macaca e espreitavam timidamente para o recreio dos rapazes… os «flirts» à distância…
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Cada novo ano lectivo as melhores amigas se entretinham em novas confidências e mais zanga menos zanga, continuavam a ser as melhores amigas e os rapazes, ah les garçons, esses eram infalivelmente umas verdadeiras pestes, que durante as aulas de físico-química, no anfiteatro, sopravam pequenas bolas de papel pelos tubos vazios das esferográficas, na tentativa de as fazer aterrar nos cabelos das meninas.
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Foram anos muito bons , esses anos em que eu frequentei o ERO. E, de repente, ooopppsss, bate a saudade!
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Hoje, aqui e agora, penso com alguma tristeza na Nani, essa colega que recentemente foi ao encontro dos outros que entretanto também já nos deixaram.
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Tantos anos passados, tantos anos vividos, tão longe que estão as nossas adolescências e agora unidos por um blog!
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Guida CS

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UMA JANELA SOBRE O MAR

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Madrugada. A Nascente o Sol desponta e espreita timidamente por sobre os picos mais altos da Serra de Aire. No céu pequenos nimbos de nuvens sob um azul claro e vivo de luminosidade prenunciam uma manhã calma e amena. As águas da baía vão formando pequenas ondas a um ritmo certo, que vêm rebentar sobre o areal e nele espairecerem numa monotonia melódica neste despontar do dia e ouve-se imperceptivelmente o marejare o pipilar dos pássaros, ao longe, nas árvores do largo, como que dando alegremente bênçãos ao céu numa ininterrupta dança sem rumo e uma cantilena que, por serem aos milhares, quase se torna, quando ouvidos mais de perto, ensurdecedora.
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O cais dos pescadores, de embarque e desembarque para os barcos,pequenas chavascas a remos, feitas de madeira, pesados e de fundo chato com saliências para melhor equilíbrio e evitar o desgaste docasco quando arrastadas pela areia, vai-se compondo de vida e azáfama preparando-se para mais um dia de faina. Os pescadores caminham ao longo e para o fim do cais transportandoconsigo as canas de pesca, o balde e a sacola com os parcos mantimentos que irão digerir durante o dia em pleno mar alto e que, na maioria das vezes, não passa de um naco de pão cozido na véspera ou, antes disso, umas postas de peixe frito e azeitonas, bem como uma garrafinha de vinho tinto, ideal para amenizar os enjoos, aquecer as entranhas e alegrar um pouco a vida soturna e áspera que levam consigo, e uma garrafa de água para mitigar a sede.Os rostos sulcados por profundas rugas em pele dura e áspera ganhas não só pela idade mas, e principalmente, pelo bater da brisa ou venton orte e frio que corta com dor, juntamente com o sol abrasador que,e spelhado pela água do oceano, se intensifica, fere os olhos e seca o sal, não só do mar como também do suor. Roupas grossas - o que tapa o frio tapa o calor - retesadas pela água e pelo sol, cinzentas, como cinzenta é a vida deles, e que ferem ac arne do corpo devido ao roçar e ao suor. Na cabeça um chapéu de pala em pano, estilo francês, comprado numa qualquer feira de uma qualquer aldeia dos arredores que de tanto servirem para limpar o suor dorosto, pescoço e testa, adquiriu uma cor indefinida.Mãos calejadas, grossas e com feridas do passado recente que o tempo ajudou a sarar, unhas grossas e cinzentas sem corte definido mas desbastadas pelas grossas cordas de cânhamo da amarração das embarcações às poitas ou ferros de ancoragem. Caminham apressados pois não querem perder a maré e ei-los que embarcam e com vigorosas braçadas remam rumo á barra e ao mar aberto.
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O sol já desce para poente e de repente um bando de numerosas gaivotas, como que vindas do nada, esvoaçam por sobre as águas da baía. Voam em círculos com esporádicos pousos sobre a água e sobre o areal de um amarelo dourado e areias finas. A ondulação na baía tornou-se mais forte e as ondas mais altaneiras e barulhentas. A preia-mar está no seu auge e a água já beija a superfície do cais. Pela barra nota-se, no horizonte longínquo, a formação de nuvens negras que rapidamente caminham para terra. Vem aí borrasca e da grossa e elas, as gaivotas, são as primeiras a saberem e, por isso, recolhem a terra muito antes do homem sequer desconfiar desta mudança repentina da atmosfera. Os barcos vão entrando na baía já com alguma dificuldade para vencerem as ondas da barra.


.Os pescadores, um a um, põem os pés em terra e ali ficam a ver os outros chegarem. O alerta soa nas mentes de cada um. Falta o barco doti’Joaquim.

- Quem estava com ele? - perguntam uns para os outros.
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-Estavamo ti’Toino e ti’João e deviam estar com sorte pois notava-se o carrego do barco. Deviam estar a fazer uma bela pescaria.
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Alguns em passo apressado resolvem subir a escadaria que os leva ao farol e à capelinha e de lá avistam o barco do ti’Joaquim tentando uma aberta para entrar. São várias as tentativas e desistências e o mar de minuto a minuto mais se encrespava e no lago já as ondas se enrolavam e rebentavam. No cais as ondas já o varriam em todo o seu comprimento e vinham bater com força nos quebra mar que protegiam as casas. A água já entrava pelos quintais e invadia os jardins frontais. Espuma amarelada de barrenta ficava depositada na terra. Quem diria que numa manhã tão calma o dia se transformaria assim de um momento para o outro?
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Homens e mulheres, alheios ao perigo corriam para chegar aos Socorros a Náufragos na tentativa de ajudar fosse no que fosse. Ao largo o ti’Joaquim faz a derradeira tentativa para entrar na baía. Acontecesse o que acontecesse, ali não podiam ficar e aconteceu o pior, o mar parecia estar desejoso por saborear carne viva e palpitante de vida, medo, terror e ansiedade, atira-se encarniçadamente contra o bote, envolvendo-o, partindo-o em estilhaços, enrolando-o num abraço fatal atirando para a morte os seus ocupantes. Luta-se com todas as forças que o desespero dispensa aos homens na sua ânsia de viver mas os esforços são diminutos contra a atroz força das águas enraivecidas e leva-os para o fundo. O resto do barco acaba por embater com extremaviolência contra as rochas do penedo e ti’Joaquim, ti’Toino e ti’João não mais são vistos.
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Nesse resto de tarde, noite e seguintes dias, a praia é calcorreada pelas pessoas da aldeia, pescadores e outros, todos se solidarizam nas buscas e vigília, na esperança de que, pelo menos, o mar devolva os corpos para que se pudesse dar-lhes o eterno descanso. As mulheres choram um pranto sonoro com gritos de desesperança, lamentos, pragas, injúrias contra o mar que lhes tinha roubado os entes queridos e as tinha atirado para as incertezas do futuro com a falta daqueles que lhes punham o pão nosso de cada dia na mesa. Mas o mar, soberbo e altivo guarda-os só para ele e não os devolve.
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Hoje apenas são recordados e servem de alerta para os actuais espíritos mais aventureiros fazendo-os recuar nos seus intuitos de saírem a barra com condições de tempo adversas ou simplesmente incertas.
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Mas da minha janela também se vêem coisas lindas e outras deslumbrantes… principalmente no Verão.
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A.Justiça
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C O M E N T Á R I O S
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Isabel X disse...
Comovente este testemunho trazido pelo Justiça, bem como o modo como o conta neste texto. Lembro-me do Justiça, de quando éramos mais novos, de S. Martinho, mas nessa altura só o conhecia "de vista" (como se costuma dizer). Mais tarde vim a conhecê-lo como colega na Escola onde ainda lecciono e da qual o Justiça já se aposentou.
Mas, reconheço, não o conhecia... Não imaginei nele esta rara capacidade de descrição do sofrimento, com dignidade, com humanidade. Gosto de conhecê-lo deste modo novo.
O caso de vida que o Justiça aqui traz faz-me lembrar uma canção de Patxi Andion, belíssima, cheia de força, cujo nome não me ocorre, que fala de um "marino", a quem foram morrendo todos os companheiros da faina, e que se refugia na bebida. Termina a canção, referindo-se-lhe como "un marino", "un borracho com toda la mar detrás".
Muito grata!
- Isabel Xavier -
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Júlia disse...
Um texto muito bonito, mas triste, aquele que o Alfredo Justiça nos traz aqui. Descreve a vida árdua de homens que lutam pela sobrevivência,que se fazem ao mar....um mar, por vezes traiçoeiro, que vai acabando com a vida de muitos seres humanos.
Estes homens sofrem e lutam pelo sustento da mulher, dos filhos que aguardam pelo seu regresso,e é uma vida inteira assim.
É triste, por vezes! Quantos ti'Joaquins, ti'Toinos neste nosso País tão pequenino, partiram com a esperança de voltarem e por lá ficaram.
Obrigada, Alfredo Justiça.
Júlia R
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diz o que te vai na alma disse...
Outros tempos. As mesmas incertezas e angústias. Vidas difíceis que o tempo não apaga. Muito belo e triste.
Dalila Garcia
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Alfredo disse...
Isabel Xavier
O nome não me é totalmente estranho pois de algum modo está ligado a recordações instaladas no meu cérebro que o relacionam com S. Martinho e ao tempo de Escola nas Caldas embora, lamentavelmente para mim, não o consigo ligar com a sua fisionomia de então e, claro, muito menos com a de agora, passados mais de 45 anos. Isto tudo para que não fiquem personalidades trocadas sobre o Alfredo Justiça, eu, e o Justiça, seu colega professor da Proença, meu irmão, ligeiramente mais novo.
Agradeço-lhe as palavras simpáticas a propósito do texto que escrevi sobre o tema "das Janelas" e só a última parte do seu comentário me levou a escrever este esclarecimento para reposição da verdade. No entanto, ainda assim, atrevo-me a dizer, e desde já peço desculpa se assim não fôr, que este relacionamento do seu nome está também ligado á Isabel Veiga, Monserrate, Magda e outras meninas dos anos 60 e naturais, ou pelo menos residentes, em S. Martinho.
Uma vez mais, grato pela atenção que dispensou ao meu escrito e ao comentário que teve a amabilidade de lhe dispensar.
A. Justiça
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Isabel X disse...
Peço desculpa pela troca de "Justiças", altamente injusta aliás, que aqui fiz. Logo que vi que a Júlia se referia ao autor do texto chamando-lhe Alfredo, vi que me enganara.
Do Alfredo, a quem de facto se referem as minhas palavras, não me lembro. Mesmo o "outro" Justiça é mais velho do que eu. Lamento, mas as pessoas a quem me relaciona, Alfredo, são-me completamente estranhas. Nasci em Dezembro de 1957.
Desde que nasci, e até casar, em 1976, quando ainda tinha dezoito anos, fui sempre passar os verões a S. Martinho . (Já agora, divorciei-me aos trinta e seis, estado civil de que sou fervorosamente militante)
Sem desprimor para o próprio, não podia ser mesmo o "Justiça" que eu conhecia. Há aqui um travo feliz de verdade reposta e, por isso, de justiça reposta também.
Parabéns pelo seu texto, Alfredo Justiça. Gostava muito de o conhecer. Peço-lhe desculpa.
- Isabel Xavier -
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J L Reboleira Alexandre disse...
O Alfredo traz-nos, com uma sensibilidade que lhe é própria, mais uma bela narrativa da praia que foi a dele e de muitos de nós.
A minha atenção foi no entanto desviada para a segunda fotografia. Quantos momentos inesquecíveis passou o autor, passàmos todos nós, que frequentàvamos a baia, naquele local, há já tantos anos. Sobretudo no Verão!
Hoje em nome duma massificação do turismo, lá estão todos aqueles blocos de cimento, bem em frente à areia da praia, no género do que pior se faz em muitos outros locais da nossa costa e de outras costas afinal.
Obrigado meu caro.
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Maria João disse...
Boa tarde, Papá!Este texto é muito bonito! Apesar de "nascida e criada" em São Martinho, nunca vejo da minha janela estas histórias que no fundo marcam quem as Gentes são.Obrigada por esta visão :)
Beijos muito doces!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
MJ
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João Ramos Franco disse...
A janela de que olhamos traz-nos por vezes as realidades tristes, aquelas que existem mas que nós não gostamos de aceitar que façam parte do nosso arquivo… Para bem, ou mal, não as conseguimos apagar e elas perpetuam o nosso consciente.
Parabéns, A. Justiça, por este retrato da vida…
Um abraço amigo.
João Ramos Franco
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Guida C.S. disse...
A belíssima descrição do Alfredo sobre o drama dos pescadores levou-me a mim também a esse passado já tão longe, mas estranhamente as fotos insistem em me fazer regressar ao presente... a última vez que estive em S Martinho (e já foi há mais de 40 anos) as urbanizações ainda não estavam lá!
É mega surrealista estar a ver uma imagem completamente diferente da que temos na memória quando lemos uma estória que aí se encaixa perfeitamente!
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Joaquim disse...
Justiça, gosto das estórias que tu contas, tanto do tempo do serviço militar como a mostrar o teu mundo e como o vias.
Apesar de não ser de "São Martelo", nome dado pela malta dos anos 50s, quando havia uns trocados ia até lá na automotora e gostava de atravessar o túnel com os colegas (agora é perigoso), alguns de São Martinho e de Salir, e ver como alguns deles ganhavam uns "cobres" na faina de apanhar o limo, que segundo se dizia era para fins medicinais.
Talvez te encontre no almoço da Foz, que para mim continua a ser "a minha praia".
Joaquim
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Alfredo disse...
As janelas
Caros amigos e amigas de eterna juventude, que recordaram e nos transmitiram recordações de outrora e julgadas esquecidas, mas que afinal apenas estavam arquivadas e adormecidas nesta indecifrável, complexa e, por vezes, inexplicável memória que com extrema facilidade guardou lembranças de um passado já longínquo e por outras esquece as de ontem.
Li e reli, por diversas vezes, os posts e respectivos comentários sobre as janelas que o Vasco Trancoso nos “obrigou” a abrir com a sua “janela”.Vou ousar, e perdoem-me a ousadia, eleger o post que mais me impressionou e ao qual nem me atrevi a comentar pois entendi que quaisquer palavras seriam muito pobres perante a franqueza e verdades simples nele retratado.Todos os posts estão soberbos e, perdoem a imodéstia, o meu também pois retrata um acontecimento verídico do inicio dos anos 50 embora os nomes dos intervenientes sejam forjados porque ainda são vivos os descendentes directos da estória trágico-marítima contada e seria impensável trazer-lhes à memória tamanha tragédia.
O texto que mais me marcou foi o da São Caixinha. Humilde e modesto, sonhador e real, genuíno e puro, descrito com força e descritivo da simplicidade que o nosso mundo de então estava impregnado.Foi realmente a janela que, mesmo difícil de abrir, mais revelou a ternura e emoções sentidas na descoberta do espaço exterior pejado, bem sei, de agruras, e não da beleza pueril visto pelos olhos de uma criança, mas que gostaríamos que assim continuasse a ser por todo o nosso sempre.
Parabéns a todos. Foi um dos momentos mais altos e dignos do blog, repletos de ternura e de recordações de uma época, locais e vivências, demonstrativos de pertencermos à última geração de românticos (ousada esta afirmação? Talvez! Mas atendendo ao que nos rodeia…).
Abraços amistosos.
A.Justiça
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Tó Quim disse:
O maravilhoso texto de Justiça, ao mesmo tempo com pedaços de tristeza, faz com que a minha memória me traga à luz alguns momentos passados em São Martinho.
Nos pequenos momentos em que podia ir para São Martinho, sempre de comboio do Paul (Bombarral) ia para casa da minha tia que era, na altura a governanta da casa do sr. Engenheiro, que é hoje a casa de chá e o hotel situado na marginal.
Lembro-me de querer brincar com os “meninos” desta casa apalaçada e só podia ver. Eu pertencia ao povo e o povo não podia brincar com estes “meninos” Refira-se que tinham a mesma idade que eu.
Também me vem à memória a minha tia, juntamente com as criadas, levar o chá e uns bolinhos às senhoras que estavam nas barracas da praia.São momentos que nunca nos esqueceremos e que marcam o nosso saber para o resto da vida.
Agora, a fotografia do café do facho lembra-me já outros tempos, os finais de tarde com aquele poderoso pôr do sol...
Mais uma vez um grande abraço ao pai deste blog pela vontade de ele existir e a todos aqueles que o alimentam com grandes textos.
António Fialho Marcelino (Tó-Quim)

CONSTRUÇÕES NA AREIA, por Isabel Xavier










O meu irmão Tozé chamou-me a atenção para uma enorme lacuna no meu texto a respeito do cinema de S. Martinho. É que um dos momentos altos vivido naquele espaço durante o Verão, era a entrega dos prémios do Concurso de Construções na Areia, promovido pelo Diário de Notícias, se não estou em erro.

Este lapso da minha parte deve ser tudo menos inocente, tem até muito de freudiano, com certeza. É que eu e a minha irmã Helena tínhamos a fatalidade de ganhar sempre prémios de consolação, enquanto os nossos irmãos ganhavam prémios de primeira categoria. Só a Gracinha, a mais velha, ganhou três bicicletas (1º prémio) e os outros: Luís, Mário e Tozé ganhavam, normalmente, ou um ou outro, ou todos ao mesmo tempo em categorias diferentes, segundos, terceiros e quartos prémios. Houve uma época que a minha família era conhecida em S. Martinho devido a essa capacidade.



Uma vez, a minha mãe caiu e feriu-se com alguma gravidade, quando se dirigia aos correios para telefonar ao meu pai, a informá-lo dos bons resultados dos "rebentos". Tal era o entusiasmo da senhora!

A minha sorte em tudo isto é que passava verões muito mais livres do que os meus irmãos porque não sofria as pressões familiares - já ninguém dava nada por mim e deixavam-me em autogestão - para fazer boa figura no concurso. E, principalmente, livrava-me das horas e horas de treinos e da disciplina que o meu pai impunha "àquela gente toda" para se prepararem com antecedência. Até chegaram a levar areia para casa, para treinarem com mais afinco. No quintal, claro...

Isabel Xavier

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C O M E N T Á R I O S
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Jorge disse:
Nunca houve construções na areia na Foz, pois não?um ponto para S. Martinho!
Xavier lembro-me do Luis, um ano ou dois mais velho que eu, depois havia um bando de garotos, suponho que a Isabel seja um deles. Dotada para a escrita, os seus textos são bem escritos e sentidos,nota-se.
acabaram as férias?pudera,já estamos no outono!jorge
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João Jales disse:
Já andava a tentar "contratar" a Isabel Xavier há algum tempo, parece que foi desta! O talento que lhe faltou nas esculturas balneares, sobra-lhe na escrita. E a sua colaboração vai continuar, não é preciso esperar muito.
A Isabel é muito mais nova que nós,era uma garota quando eu saí do ERO, por isso o Jorge não se lembra dela. Ao dizer que ninguém dava por ela e que andava em "auto-gestão" mostra bem que pertencia a uma família numerosa e não era a mais nova nem a mais velha dos irmãos.
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AnaLuisa disse...
As construções na areia eram efectivamente uma organização do Diário de Notícias.Estas recordações dos Xavieres (como diz o J.J.)transpiram a nostalgia de tempos felizes.Pela minha parte,obrigado.
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Fialho Marcelino disse:
Tenho lido ao longo de todo este verão as sensacionais reportagens sobre a Foz do Arelho e São Martinho. Tenho acompanhado a grande divisão entre os que eram de São Martinho e os que eram da Foz. Por questões daquilo a que hoje se chama mobilidade, antigamente a questão era “como podíamos ir para a praia” , eu era um frequentador de São Martinho. Fui frequentador enquanto me tinha de deslocar de comboio do Paúl para São Martinho e, depois mais tarde, já crescidinho, com 35 anos , comprei uma casa nessa praia. Curei-me em 2007, pois São Martinho, neste momento, perdeu todo aquele encanto que tinha.
Mas vamos ao “antigamente”.Todas as descrições que aqui foram efectuadas, só posso ter alguma memória do que se passava de dia, apesar de a minha área de actuação ser nas barracas do senhor Libório, logo em frente à estação dos comboios, pois a minha condição de viajante, e não residente de verão, não me permitia estar no grupo dos que frequentavam os locais que na altura eram considerados de élite.Apesar do sentimento que as coisas se passaram e eu não dei por elas, tenho tido grandes momentos de emoções “altamente” positivas com as maravilhosas prosas deste blog.
Pode ser que este escrito seja um primeiro entre muitos que poderão vir mais tarde.Quem aqui escreve é o TÓ-QUIM.
(RESPOSTA: Bem-vindo! É um enorme prazer ver a "chegada" de novos colaboradores ao Blog. Aguardo textos, comentários, fotos, com que ofereças aos outros as "emoções positivas" que aqui tiveste. Um abraço. JJ)

VERÕES DE SÃO MARTINHO, por Mário Xavier





Ano após ano, a família Xavier deslocava-se com “armas e bagagens” para a praia de S. Martinho do Porto durante os meses de Agosto e Setembro.

O ambiente que se vivia nessa época era bastante diferente do que se vive hoje em dia. Nas décadas de 50, 60 e princípios de 70, S. Martinho era uma estância balnear muito frequentada para os níveis de então, mas que nada têm a ver com o que se passa nos dias de hoje.

Na última semana de Julho, em minha casa, já havia a agitação própria dos preparativos necessários à grande mudança para a praia e que culminavam no dia 1 de Agosto, com o transporte de todas as bagagens numa camioneta do armazém do meu avô Augusto. Para nós era nesse dia que começavam as verdadeiras férias.

As alterações aos nossos hábitos eram muitas e a simples deslocação durante 2 meses para uma localidade a 15 quilómetros de distância das Caldas era sempre uma aventura inesquecível. Após a instalação iniciávamos uma nova forma de vida, noutra casa e com outros amigos. Na verdade tinha amigos da praia até porque, embora se deslocassem algumas famílias caldenses para S. Martinho, a maioria dos meus colegas e amigos faziam praia na Foz do Arelho.

Quem hoje conhece S. Martinho do Porto só consegue vislumbrar parte do ambiente e da vivência da época a que me refiro. Nesse tempo, ainda a praia fazia bem às criancinhas, S. Martinho era frequentada por algumas famílias que se conheciam umas às outras.

As barracas da praia, alugadas pelos banheiros: José Augusto, Libório, Eduardo e João (este último era quem nos alugava a nossa) formavam uma única fila paralela ao chamado Paredão (muro que ainda hoje existe e que separa a praia do passeio da estrada marginal).

Só bastante mais tarde, com a vinda de mais veraneantes, se alterou a disposição das barracas.

As embarcações de recreio encontravam-se no areal da praia, em frente das barracas. Existia uma jangada com dois pisos ancorada na baía, de onde se mergulhava. Os cães iam para a praia e conviviam alegremente com os donos nas barracas.

Era expressamente proibido jogar à bola e o uso do biquíni pelas senhoras. O cabo do mar encarregava-se de fazer cumprir essas regras, sendo vulgar apreender bolas de futebol (biquínis julgo que não).

Recordo-me que era muito usual a constituição de grupos de jovens. Eu era uma criança mas lembro-me dos meus irmãos Luís e Graça fazerem parte de um grupo que, embora constituído informalmente e sem regras explícitas, acabou por durar muitos e bons anos.

Esse grupo divertia-se com o que era possível fazer nessa época, nomeadamente organizando festas em casa do Zé Valente, actividades desportivas e, imagine-se, um “autêntico” concurso da areia, com o espaço delimitado por cordas, júri, prémios, etc. Este concurso em tudo era igual ao verdadeiro mas com inspirações diferentes no que respeita às construções elaboradas, recorrendo muitas vezes a material sanitário como fontes de inspiração.

Na praia existia um único café, construído em madeira, que toda a gente chamava “TÁBUAS”.

Se a memória não me atraiçoa, tal café ostentava um tom verde bastante feioso e, garantidamente, não resistiria a uma breve investida da ASAE.

Para além deste café, os veraneantes eram servidos por muitos vendedores de bolos, barquilhos e gelados. Os outros locais de convívio eram o cinema, com duas classes de lugares (geral e plateia), sendo a geral constituída por cadeiras de madeira e a plateia por cadeiras com estofo e mais cómodas. Normalmente frequentava a geral, mas quando ia com as minhas irmãs sentávamo-nos na plateia.

O local mais frequentado, e que ainda hoje tem importância relevante, era a famosa “rua dos cafés” com as suas esplanadas sempre com gente e animação. Nessa rua existia, e julgo que ainda funciona, o chamado clube, onde no rés-do-chão se jogava ténis de mesa, bilhar e outros jogos e no primeiro andar, reservado a sócios, se jogava às cartas.

Alguns caldenses e ex-alunos do ERO frequentavam esta praia, tais como: o meu cunhado Zé Valente e a sua irmã Fátima, a Salete, a família Rosado Lourenço, a Cristina e os seus irmãos (entretanto falecidos, Victor e Zé Luís), o Luís Machado e a irmã Teresa, e outros que não recordo.

Os jogos mais frequentes na praia eram o futebol e o mata, bem como partidas de cartas (King, Sueca e Lerpa), todos disputados com elevado brio e alto nível técnico.

Tenho ainda outras boas recordações de S. Martinho do Porto, o que é normal, pois lá vivi boa parte da minha juventude, com momentos inesquecíveis e, sei-o hoje, de felicidade e alegria.

Fazem parte do meu espólio de recordações pessoais, que gosto de preservar, até porque tiveram influência determinante no meu modo de estar e ser.

Nos 2 meses de férias esperávamos pacientemente que o tempo “levantasse”, tal como na Foz do Arelho.

Eram tempos bem diferentes dos que vivemos hoje, em que a escassez de outros divertimentos mais sofisticados nos “obrigava” a conviver mais, o que consolidou amizades que perduram até aos dias de hoje.

Foram, enfim, belos tempos de lazer e divertimento.

Caldas da Rainha, 04 de Outubro de 2008,

Mário Xavier

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COMENTÁRIOS
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Isabel Xavier disse:
Oh Mário! Será que não tens acompanhado a "saga" do cinema de S. Martinho, para me vires assim desmentir? Só se foi com as irmãs mais velhas, mas duvido! Eu nunca vi um filme na plateia do cinema de S. Martinho, sendo tu a acompanhar-me ou não.
Quanto às paródias ao concurso da areia, há quem diga que foi por isso que deixaram de o fazer na praia de S. Martinho, com evidente prejuízo para a iniciativa e respectivos organizadores. A areia de S. Martinho pode ser muito arreliante, principalmente quando há vento, mas para construções na areia não há melhor. Eu que o diga que nunca ganhei senão prémios de consolação, no concurso a sério, claro. Isabel Xavier
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JJ disse:
Foi apanhada, a Isabel! Na plateia, com o maninho mais velho....Que desprestígio!
Mas quem conhece o Mário sabe que ele é assim, sempre muito concentrado e atento a tudo, calculista, perito em maquinações, dissimulado, traiçoeiro...(Pobre Mário, imagino o que não vai ouvir na próxima reunião familiar!)
E as memórias são assim, variando a cada testemunho, todas diferentes e todas verdadeiras. Como eu digo sempre, esta diversidade é a riqueza destas memórias colectivas.
Obrigado aos dois "Xavieres" pela sua disponibilidade e bom humor (com que então não se apreendiam biquinis?). Até à próxima. JJ
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Luisa disse:
Afinal vimos nestes últimos dias que havia muito para dizer sobre S. Martinho, muitos segredos, muitas saudades...
S. Martinho ou Foz, os locais importam pouco, o que importa é se lá fomos ou não felizes! Bjs aos "Xavieres" . Luisa
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Manuela Gama Vieira disse:
Devo dizer que tenho assistido absolutamente deliciada a todo este "filme", em S.Martinho do Porto, que intitularia de "Modos de ver...."
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AnaLuisa disse...
Cada um lembra-se do que quer,somos donos das nossas memórias,ora essa!!!E estas notas soltas ficam bem neste filme de que fala a Manela e que vimos esta semana,porque como aprendemos na história do Jales a ordem não interessa - interessa é que lá estejam os acontecimentos todos.....
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Maria Fátima Gama Vieira
Sempre agradável visitar o site, é uma visita repleta de momentos maravilhosos,convivemos revivendo e sentimo-nos próximos. bem hajas João.
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Isabel Esse disse...
Já aqui foi dito (e vejo aqui repetido pelo Mario) que a ausência de tecnologia (e de dinheiro!!) aguçava o engenho em busca de distracções e fortalecia as amizades e relações pessoais. Tenho a mesma opinião, mas sou muitas vezes chamada de retrógrada por a pronunciar....
É sempre um prazer ler estas memórias (que são comuns a várias gerações) Isabel S

OS CINCO

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. . . . . .São Martinho, 1953.

Ensaio (inédito) para o famoso túnel
por João B Serra
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Só podes voltar ao banho às 5, sentenciava a minha Mãe, quando dava o almoço por encerrado. 3 horas de espera! Que faz um miúdo de 8 anos durante 3 intermináveis horas na praia?

Estávamos numa pequena casa alugada em S. Martinho, praia que os médicos aconselhavam para crianças, menos agressiva em iodo que as restantes praias da região, dizia-se.

O que é que eu faço? insistia eu, na esperança ingénua de assim ganhar uns minutos à sentença de esperar pelas 5, ou obter uma qualquer boa sugestão de entretenimento. Mas o quê?

Podia ir passear à beira-mar, mas nem pensar sequer em molhar os pés. Um suplício! Brincar com outros rapazes? Impossível. Àquela hora, os veraneantes de S. Martinho, estavam recolhidos na suas vivendas e os filhos passavam a hora da digestão em jogos de casa ou jardim. Eu, que pela primeira vez estava naquela praia (que logo comecei a detestar), numa modesta casita à beira da estrada, não conhecia ninguém.

A minha Mãe tentou então resolver aquele problema recorrendo a uma vizinha de barraca, que tinha duas filhas. No dia seguinte, as duas raparigas, uma da minha idade, a Té, e outra um pouco mais velha, a Nô, convidaram-me gentilmente para ir a casa delas depois de almoço.

As raparigas eram ambas muito bonitas e a Nô muito simpática. Mas, bicho-do-mato como era, o convite deixou-me constrangido. Tinha tido muito pouca convivência com raparigas, se exceptuarmos os episódicos encontros de poucos dias com primas, pois na aldeia a diferenças de classes era inibidora da convivência e eu tivera uma experiência limitada da escola pública. De qualquer forma, nunca conhecera raparigas que respondessem pelo nome Té ou Nô. Conhecera Laurindas, Ermelindas, Francelinas e Rosas.

A minha Mãe conduziu-me à casa da vizinha de barraca e a Nô veio receber-me à porta e levar-me até ao quarto ocupado por ela e pela irmã. Seguiu-se uma tentativa de encontrar um jogo, um passatempo em que eu pudesse participar. Sem sucesso. Não conhecia, não sabia jogar, nunca tinha ouvido falar. A que é que sabes jogar? perguntou delicadamente a Nô. Às escondidas, respondi de pronto, mas no campo. Jogo às escondidas com os meus primos, quando vêm de férias. Sei jogar às cartas. À bisca de 4 e de 9, costumo jogar com o Titina. À canasta, sabes. À quê? perguntei. Também sei jogar ao chinquilho, mas aqui nunca vi nenhum e de qualquer modo não é jogo de mulheres.

A Té riu e não gostei nada daquele riso. Então a Nô propôs: bem vamos ler. Temos aqui livros: olhei para a estante e escolhi um livro. Nunca tinha lido um livro e não sabia ler muito bem. Mas soletrei com o que me parecia, apesar de tudo, ser grande rapidez. Chamava-se “Os Cinco na Casa do Mocho”. Achei graça ao título. Os mochos não eram animais muito populares na minha aldeia e a minha Mãe ficava inquieta sempre que ouvia o seu pio nas noites serenas. A Nô e a Té escolheram também livros que tinham nos títulos as palavras “Os Cinco”. A Nô propôs um jogo: vamos ver quem lê mais depressa. Há uma surpresa para quem ganhar.


Comecei a ler, disposto a saltar páginas para chegar mais depressa ao fim. Mas cedo me senti preso pela narrativa. Nunca tinha lido nada de semelhante. A Nô acabou depressa o livro dela e a Té desistiu logo a seguir. Vamos até á marginal, disseram. Eu continuava a ler a aventura dos “Cinco”. Dez minutos antes das 5, a minha mãe chamou-me. Estava na hora do banho. Oh, Mãe, resmunguei. Já?... Só mais um bocadinho! Estou quase a acabar.
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JBSerra

Sáo Martinho, 1957- Os Quatro (da esquerda para a direita): Nô, João, Té, “Tim”.

C O M E N T Á R I O S
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Júlia Ribeiro disse:
O João Serra com esta descrição tão engraçada e pormenorizada fez-me voltar à década dos anos 50-60 quando ia para a praia, nessa altura para a Nazaré. Como tomava o pequeno almoço às 9h lá tinha que esperar até ao meio-dia para o famoso banho. Após o banhito tinha que mudar de fato de banho para não apanhar uma "constipação", provavelmente. Lá corria o pano da barraca e mudávamos a "toilette".....o fato de banho.
Por acaso não vos acontecia da parte da tarde não tomar banho e ir de vestidinho (nessa altura as meninas não usavam calças nem calções)? Imaginem o que era estar na praia de vestidinho toda a tarde. E então o que fazíamos? Jogávamos ao ringue e ao prego. Lembro-me dum vestido cor-de-rosa que não se amarrotava e era o que queria sempre levar.
Eu julgo que só conheci os Cinco mais tarde, também eram dos meus livros preferidos. A coincidência da Té e da Nô... Por onde andarão? Lembro-me muito bem da casa delas em S. Martinho mesmo na marginal. Obrigada por me teres proporcionado voltar aos tempos de pequenina!!!!!!!!!!!! Um abraço. Júlia
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João Ramos Franco:
Aos 8 anos de idade passava férias em S. Martinho, tinha apenas um pouco mais de sorte que o João Serra, existia um tio de Rio Maior, com três filhos, que também lá alugava casa e eu não tinha falta de companhia para brincar.
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Isabel Xavier
Nasci em Dezembro de 1957, pelo que já deveria "andar" lá por S. Martinho no ano da fotografia do João, da Nô, da Té e do Tim, mas... ainda na barriga da minha mãe!
Conheci a Nô e a Té desde miúda, por serem amigas da minha irmã Gracinha e do meu cunhado Zé, embora as tenha perdido de vista há muito tempo; e julgo ter conhecido o João Serra também em criança por ser colega e amigo do meu irmão Luís.
Mas, pelo menos, (e disto tenho a certeza) conheço-o bem desde que foi meu professor na faculdade e como nunca o "perdi de vista" desde então, considero-o mesmo um grande amigo! Por isso, confesso, mais que a minha surpresa, a mais profunda perplexidade em descobrir serem as manas Nô e Té as responsáveis pela iniciação do Dr. João Serra no mundo da leitura! Que papel importante pode ter um encontro quase fortuito no futuro de alguém! Elas nem devem sonhar com semelhante responsabilidade! Isabel Xavier
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São Cx
"Os Cinco" é outra simpática estória do João Serra, e que prazer recordar!! Eu li e reli devotadamente todas as estórias, que saudades daquelas aventuras!!
Ah...e permaneço fiel á promessa que então fiz a mim mesma de dar o nome de Tim ao meu primeiro cão!!!! Bjs São X
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João Jales disse:
Estou de acordo com a Isabel X, este é um conto sobre a descoberta da leitura e o prazer que ela representa (mas o autor é um especialista em descobrir ângulos inusitados nos textos, deve julgar esta análise demasiado prosaica e evidente).
Em recente sondagem no Reino Unido Enid Blyton revelou-se o mais popular escritor de sempre, à frente de Ronald Dahl, J K Rowling, Shakespeare, Agatha Christie, D H Lawrence, Ian Fleming, irmãs Bronte... E mesmo em Portugal os Cinco conquistaram seguramente mais gente para o “partido da leitura” do que qualquer campanha ou acção que eu conheça e, nesse aspecto, este texto constitui um justo reconhecimento.
Eu invejava sobretudo aos Cinco os piqueniques e o Tim, estou convencido que teria lido com enorme prazer um livro deles sem aventuras, só com comida e passeios com o cão. Tendo mudado eu, nesta época, para o prédio onde moravam precisamente a Nô e a Té que aqui vemos, recordo a inveja que eu sentia por elas terem, não uma, mas duas cadelas (será uma delas que está na foto?). Eu tinha apenas uns pachorrentos coelhos no quintal, inquilinos de curta estadia…
Não sei se a Té vai ler tudo isto mas, se o fizer, quero deixar-lhe aqui uma palavra de consolo por ser tão maltratada no texto! Além de não ser simpática como a irmã, ainda ria de uma forma que o autor não gostava… Aqui fica a expressão do meu protesto e da minha solidariedade!
Uma palavra final para a obra de engenharia que aparece na foto, de impressionante envergadura para tão pequeno engenheiro. Já na altura, o autor não fazia nada pela metade nem deixava os seus créditos por mãos alheias!
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AnaLuisa disse...
Sempre adorei a Enid Blyton.Não sei se ela é a mais popular autora inglesa mas sei é dos escritores que tem mais traduções.Vem logo a seguir ao Walt Disney,Agatha Christie,Julio Verne,Lenine e Shakespeare sabiam?E além dos Cinco escreveu milhares de contos novelas e romances.
Nunca se preocupou com os críticos porque dizia que só lhe interessava a opinião dos que têm menos de 12 anos.Venderam-se 600.000.000 de livros dela até hoje.No ano passado (2007 ) 10.000.000 , mais de 1.000.000 deles eram dos Cinco!!!Voltei a comprar a colecção toda para a minha filha e voltei a ler dois ou três.Obrigado João Serra por esta memória.
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Isabel V P disse:
Esta história fez-me pensar: os Cinco, tanto quanto me lembro, foi o grande entusiasmo lá em casa no final da década de 50; também por lá passaram os Sete, mas não teve o mesmo efeito. Curiosamente, duas gerações mais tarde, surge o êxito do Noddy, que é a grande paixão dos meus sobrinhos-netos. E é graças a eles que o conheço….
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Belão disse:
Já por esta estória tinha passado os olhos. A minha falta de tempo é que tem emperrado os meus comentários!
Também eu passei férias em S. Martinho. Era muito pequena e lembranças tenho muito poucas, pois cedo o meu pai trocou a baía pela Foz do Arelho.
A prosa do JBS trouxe-me à memória as incríveis colecções da Enid Blyton, nomeadamente "Os Cinco" e "Os Sete", que devorava à noite, quando todos pensavam que já retemperava as forças para mais um dia de escola. E lembrei-me, imaginem, do clube que o meu irmão pôs a funcionar lá em casa, no quarto dele. Os artistas, se não me falha a memória, eram o meu irmão, o João Jales, o Zé Luís Azevedo e o Miguel B Monteiro. Fechavam-se naquela divisão tardes inteiras e eu as minhas amigas ficávamos com o ouvido encostado à porta na tentativa de ouvir os segredos de tão secretas reuniões. De quando em vez batíamos à porta na esperança de que ela se abrisse, mas só ouvíamos: "Senha!" Nunca conseguimos lá entrar. A única pessoa com esse privilégio era a senhora minha avó que elaborava os magníficos lanches, tal qual os descritos nos livros (laranjadas, limonadas, scones...) e que estava isenta de saber a dita senha que tanto nos enervava, quase todos os dias.
Senhora sábia e com um dom especial para lidar com crianças, tentava tirar-nos da porta do "clube" acenando-nos com outras brincadeiras e com o maravilhoso lanche, que foi, durante muito tempo, a única coisa que "eles" eram obrigados a partilhar com as meninas, embora nós o degustássemos fora, claro, daquele misterioso quarto. O JJ, que tem memória de elefante poderá esclarecer melhor esta estória. Bjo
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Isabel Knaff disse:
Foi com muito prazer que li a estória do Bonifácio. Compreensível que o banho perdesse todo o interesse quando um Livro dos Cinco se meteu pelo caminho!!! Estórias tão absorventes ! E que familiar este título.
Na biblioteca do ERO havia grande parte da coleção dos Livros dos Cinco que em pouco tempo eu li, fascinada . Continuei na biblioteca do Parque que tinha, felizmente, os que me faltavam ler. E que giro vir reencontrá-los aqui através do Conto do Bonifácio! Que venham mais !
Até á próxima. Beijinhos. Isabel Caixinha
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Vasco Baptista disse:
Este rapaz é mesmo uma mais valia :-) no nosso blog.
Um abraço João e faz o favor de continuar. Vasco

O Cinema de S. Martinho, por Luis Machado

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“Só a verdade é revolucionária”

Mao Zedong






Sou um dos desterrados que o Jales refere no texto que escreveu (CINEMA EM S. MARTINHO ). Sou igualmente a personagem filosofante quanto à arbitrariedade da ordem da projecção do filme.
O texto do Jales é bem engraçado e vem reavivar uma velha questão:


- S. Martinho ou Foz?

Estatisticamente ganham os adeptos da Foz, mas creio ser matéria contabilística. Como já disse era um dos habitantes das Caldas que passava o Verão em S. Martinho.
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Um pouco de rigor:

O Cinema era branco, branco sujo.


Não entendi bem algumas considerações sobre o Cinema, aliás a Isabel Xavier diz o mesmo. (Deliciosa a história da apanha e venda do limo para comprar bilhetes, o travo neo-realista é irresistível.)


O Cinema era um local incontornável. As cadeiras eram realmente de pau, mas não me lembro da incomodidade. A inclinação era insuficiente mas a questão da visão não se punha porque logo que as luzes se apagavam as cabeças ficavam aos pares e podia-se ver pelos intervalos. Também o facto do foyer ser ao ar livre constituía um verdadeiro must e o cacimbo (se quiserem podem traduzir por chuva, como diz o Jales) não atrapalhava nada, antes pelo contrário, permitia até alguns gestos cavalheirescos, como tirar o casaco ou o pullover e pô-lo delicadamente nos ombros da eleita, a quem se andava a arrastar a asa (bolas, até eu estou admirado com a qualidade da prosa).


Quanto aos desterrados eram poucos mas bons. Para além dos já citados no texto do Jales, recorde-se o Quá-Quá e a Micéu que vinham de Alfeizerão, onde tinham casa, de carro com chauffeur. Que glamour! (Ele não gosta nada que eu o chame assim e vai já pôr-se a chamar-me nomes). O António (pronto) tinha o record de maior número de anos sem pôr o pé na areia, creio que já ia em 5 ou 6 anos.


Mais rectificações:


Não acho nada que o principal passatempo fosse “olhar uns para os outros”, era mais olhar uns para as outras.
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São Martinho não era só um lugar frequentado por queques e alentejanos (queques era com se chamava na altura, betinhos só uns anos mais tarde) havia muito mais gente, alguma bem engraçada. Lembro-me perfeitamente das longas tardes à conversa com o João Rosado Lourenço e o Eduardo Prado Coelho já desaparecidos.

Mas havia mais:
Bailarinas em pontas no terraço do Samar, sardinhadas na praia da Gralha quando ainda não havia estrada, passeios nocturnos no túnel para ir ver o mar a Stº. António (uma vez um pai mais irritado apontou os faróis do carro à boca do túnel e foi uma confusão), as idas a Salir ao pôr-do-sol ou de madrugada, os bailes em casa do Bernardo (também já desapareceu, S. Martinho tem isso, os melhores desaparecem), leituras colectivas dos textos do Luiz Pacheco (na altura acabadinhos de sair os Exercícios de Estilo), as audições de singles dentro das barracas com um gira-discos portátil e com os discos “arquivados” em cutelo na areia, os banhos nos Salgados (o melhor mesmo era voltar à areia), as tardes no Tábuas e no cais a comer pevides. Aquela sensação que tudo ia ser assim eternamente. S. Martinho tinha isso.

E o baile das chitas, e as futeboladas na areia molhada ao fim da tarde, e os bailes do Delírio, onde havia sempre o risco de acabarmos a dançar em cima dos bilhares, no andar de baixo.


E havia os barcos. Que saudades do meu Moby Dick (reparem só na imaginação do nome), uma chata com uma combinação de cores fabulosa. E o barco do João Lourenço, um bote tradicional com o qual saíamos sempre à vela e voltávamos sempre a remos. Grandes marinheiros.


E havia a pesca:

Pesca de todas as formas e feitios.


As longas jornadas na Maria da Serra e em S. Romeu com o meu tio Zé António e o Meca, a pescar à bóia sargos e taínhas. O Meca fazia a melhor sopa de navalheiras com massinha que já alguma vez comi. Além disso era filósofo. Estes também já desapareceram, é o drama de S. Martinho.


Anos mais tarde comprei um Zebro e dediquei-me à pesca submarina com o Mário Eliseu. E não é que já desapareceu também… Corríamos toda a costa entre S.Martinho e a Foz na altura que ainda havia peixe.


Quanto à vida nocturna, tenho que discordar de alguns comentários, não acho nada que fosse assim tão má, não me lembro de me ter deitado algum dia antes das 4 da manhã.


A boémia é uma atitude. E havia grandes boémios em S. Martinho. Lembro-me bem do arquitecto Martinho que bebia vinho tinto em chávena de chá trazido num bule, no café da Ana, rodeado da melhor sociedade (a história é velha e recorrente mas eu vi-o de facto fazer isso). E do "Morcego", que vivia entre as seis da tarde e as seis da manhã, evitando o sol e consumindo exclusivamente álcool. Claro que também já desapareceram, ambos com cirrose.
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À noite, depois das famílias recolherem a casa, S. Martinho modificava-se. O cacimbo e os copos diluíam a estratificação que existia à luz do sol (quando havia). Muitas noites acabavam no meu terraço, numa casa alugada ao ano pelos meus pais( também já demolida), entre a rua dos cafés e a marginal. Até inventei uma bebida que fez algum sucesso, S. Martinho Smog, à base de gin, fazia bestialmente bem depois de umas litradas de cerveja.

Quem lá esteve nessa altura, sabe que S. Martinho era um sítio mágico.


O problema não está na troca das bobines:

O pior é que os banqueiros têm interesses imobiliários em terrenos REN, os pais de família que vão para Oeste usam calças pela barriga da perna e bonés virados ao contrário, os cowboys andam de motos de água enquanto os índios aceleram na marginal em carros tunning e o herói curte com uma brasileira que conheceu na internet.



“ A verdade é relativa.”

Jack Nicholson
, in (não me lembro do nome do filme).



Luís S. Machado


C O M E N T Á R I O S
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Isabel disse:
Grande texto sobre S. Martinho! Claro que um S. Martinho assim tão agitado não era o meu, rapariga recatada como era, mas tenho pena...
Isabel Xavier
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Jorge disse:
Divertidissimo ... o texto ... e S. Martinho, pelos vistos! o Jales tem aqui uma resposta à altura do seu conto.
Posso perguntar quem é o Luis Machado? contemporâneo do João Lourenço? não me lembro dele. jorge
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S. disse:
Este S. Martinho tem muito chantilly, e algum Gin q.b., para agradar a todos... O texto é de boa qualidade e o que o JJ pintou de preto,pintou o Luis de côr-de-rosa!A tal verdade deve andar algures no meio.Mas,com tudo isto ganhamos todos,rememorando belos tempos com bons contadores de histórias.Venham mais,de S Martinho,daNazaré ou da Foz.
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Luis Eme disse:
excelentes todas estas memórias...
é óptimo quando um blogue consegue criar esta interacção de opiniões e de histórias.
não sou da vossa geração (nasci em 1962...), e desde cedo que escolhi a Foz como minha praia. primeiro por questões pequenas, como a areia (menos fina que a de S. Martinho) ou a existência da Lagoa, para nadar, e o mar, para ver aquele festival que nos era oferecido pelas ondas, quase sempre furiosas...). depois porque era a praia da generalidade dos meus amigos...
e ainda hoje é a minha praia, mesmo que passe o Verão sem a visitar...
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João Jales disse:
Caro Luis:
Foi bom receber um texto simultaneamente tão poético e divertido, respondendo e corrigindo o meu Cinema. Agradeço a reposição da verdade com as tuas correcções, que passo a enumerar:
Eu escrevi que o Cinema tinha as “paredes exteriores de cor amarelada, muito sujas” e tu corrigiste "era branco sujo”.
Eu escrevi “Sentámo-nos numas duras cadeiras sem qualquer almofada ou forro” mas afinal não era verdade. Felizmente tu pudeste repor a verdade histórica dizendo que “As cadeiras eram realmente de pau”.
Eu fui injusto ao afirmar “A inclinação do chão era insuficiente para garantir o integral visionamento do ecrã” mas tu, que não deixas passar nada, logo corrigiste ”A inclinação era insuficiente…”.
Eu impensadamente afirmei que passámos o intervalo “no estreito pátio exterior” mas fiquei agora a saber que afinal a questão era, como tu corriges, “o facto do foyer ser ao ar livre”. Era um foyer e não um pátio, e eu não dei pela diferença!
Eu também pensava que vocês eram “meia-dúzia de amigos que lá estavam desterrados” mas afinal não era assim, porque tu afirmas “os desterrados eram poucos mas bons”, o que é completamente diferente.
E depois acrescentas “Mais rectificações”. E eu fui ver no que mais tinha errado.
“Não acho nada que o principal passatempo fosse “olhar uns para os outros”, era mais olhar uns para as outras”. Aqui confesso que não percebi bem qual a diferença, excepto excluir uma eventual comunidade Gay do "passatempo".

Os betinhos, afinal, ainda eram queques nesta altura, só evoluindo posteriormente.
Finalmente, já muito abalado por todas estas correcções, preparei-me para saber porque era falso o que eu afirmara: “nessa altura a vida nocturna (em S. Martinho) era para nós pouco apelativa.”
Fiquei a saber que “tenho que discordar de alguns comentários, não acho nada que (a vida nocturna) fosse assim tão má, não me lembro de me ter deitado algum dia antes das 4 da manhã.” Ah, bom! Se tu não te deitavas antes das 4 da manhã a vida era seguramente trepidante. Preparei-me para revelações empolgantes. E elas vieram: o arquitecto bebia tinto em chávenas de chá, o Morcego emborcava copos das seis da tarde às seis da manhã e o resto do pessoal bebia um cocktail de Gin na varanda de uma casa alugada. Parece Monte Carlo, fervilhante, febril, os néons a piscar, música no ar…

Mas acredito que S. Martinho fosse mágico (eu não disse que não era), bastava lá estares tu e o Joni a beber um copo e a contar umas estórias. E, só por isso, lamento não ter lá ido mais vezes. Um abraço. João Jales
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São Caixinha disse:
Diverti-me imenso com o comentário do Luís Machado ao teu "Cinema em São Martinho" e por sua vez com a tua resposta!! Se pudesse voltar atrás no tempo iria certamente dar-me uma generosa oportunidade de reconsiderar as possibilidades da praia...eventualmente em dias de tempestade, pois como o Luís Eme também eu dou preferência a mares mais agitados!! Mas que esse mar manso de São Martinho continua até aos dias de hoje a inspirar artistas é um facto, como prova este óleo com o titulo de "Meia felicidade" (tradução minha) de Pierre Guillaume, pseudónimo do pintor Holandês Peter Willemse. Bjs e até breve. São X

João Ramos Franco disse:
“A boémia é uma atitude”, como cita o Luís Machado. Respondo-lhe com a fotografia do jantar dos antigos alunos de 1962,
JANTAR DE ALUNOS DO ERO EM 1962 e também uma pergunta:
- Será que éramos malta de ir para cama depois de do jantar?

Um abraço , João Ramos Franco.