
Esta tão significativa mensagem, esta reflexão, elucida sobre a sua vontade de estar para servir a qualquer momento e em qualquer lugar, sem desvanecimentos, correspondendo ao apelo que interiorizou como sendo o seu dever, comungando das alegrias, dando vidas, a cura, partilhando também os sofrimentos, dando o conforto perante as eventuais adversidades que por vezes atormentam o exercício da Profissão.
A entrega tão franca destes bens inestimáveis evidencia a convicção e a coerência que acompanharam o Dr. João Vieira Pereira quando exerceu, com igual eficiência, a clínica rural, que aliás manteve de forma duradoura, e a clínica de feição urbana.
A sua vinda para as Caldas da Rainha ocorreu em 1938, ano em que iniciou a actividade clínica na Associação de Socorros Mútuos Rainha D. Leonor, Instituição onde criou, logo em 1939 e a expensas suas, um gabinete de electroterapia, tendo adquirido então, para além do equipamento próprio, também um gerador eléctrico, dada a então precária distribuição geral de corrente eléctrica na Cidade. O mesmo gerador proporcionou a realização dos primeiros bailes com luz eléctrica que se efectuaram no grande salão que existia no Montepio. Um sucesso, no dizer humorado do Dr. Vieira Pereira.
Desde o início da sua estada nas Caldas, foi de facto com o Montepio que estabeleceu um elo que se tornaria cada vez mais forte, numa ligação em que os aspectos profissionais se harmonizaram sempre com a sua natural afectividade.
O Dr. João Vieira Pereira complementou os seus conhecimentos clínicos por incentivo de realização profissional e também por marcado espírito de serviço. O seu curriculum clínico, formal, é revelador da diligência com que prosseguiu a sua própria formação, acrescentando-lhe competências que lhe permitiram assumir o desempenho de actividades médicas especializadas. Com a sua participação efectiva verificaram-se avanços em sectores médicos que, à época, representaram, tanto a nível local como regional, factores de inovação que resultaram em benefício das populações que, deste modo, passaram a estar assistidas com mais proximidade e melhor qualidade.
Assim e por mérito próprio, o Dr. João Vieira Pereira pôde exercer e quase sempre acumular, para além das responsabilidades próprias de Médico de Clínica Geral, as de Médico de Saúde Pública e dos Serviços Médico-Sociais, de Médico Radiologista e Anestesiologista, continuando a cumprir com denodo, sem reservas, o seu percurso de Vida sempre inspirado pela sua fé, fonte das suas convicções. “Não há melhor maneira de descansar do que a mudança de trabalho”, dizia o Doutor João Vieira Pereira.
Integrou como Anestesista, a primeira equipa cirúrgica que se constituiu no Montepio, da qual também faziam parte o Dr. Ernesto Moreira, o Dr. Mário de Azevedo e Castro e mais tarde o Dr. Jovalino Vieira Lino. A notoriedade do trabalho realizado em conjunto, propiciou que fossem distinguidos com a Medalha de Prata de Gratidão e Mérito, conferida pela Câmara Municipal das Caldas da Rainha em Sessão Solene realizada em 11 de Março de 1981, na comemoração do 121º aniversário do Montepio Rainha D. Leonor.
Sublinhe-se também, por imperativo de justiça, que o Montepio foi, nas Caldas da Rainha, a Instituição pioneira na prestação de serviços no domínio da Radiologia, por virtude da oferta do respectivo equipamento, efectuada no ano de 1943, por um núcleo de Sócios apaixonados pelo Montepio. O Dr. João Vieira Pereira foi o responsável do Serviço assim criado, assegurando-lhe todo o seu apoio, numa disponibilidade permanente confirmativa de que as competências por si adquiridas estavam efectivamente ao serviço da Instituição. Verificamos à distância que foi a generosidade de alguns Sócios conjugada com a acção compreensiva e constante de um Médico, que permitiram fundar, no Montepio, uma unidade de Radiodiagnóstico que, com o decorrer dos anos, evoluiu para uma unidade de Imagiologia de ponta, mercê de uma adequada e progressiva modernização dos seus equipamentos e da imprescindível intervenção de recursos humanos técnica e profissionalmente qualificados.
A grande dedicação do Dr. João Vieira Pereira ao Montepio foi sendo consolidada ao longo de décadas por razão de uma vivência, de uma identidade de ideais que suscitaram no Médico a vontade de contribuir para o progresso da Instituição, através de uma colaboração profissional entusiástica, ao ponto de o próprio Dr. Vieira Pereira afirmar, carinhosamente, que “Mais de metade da minha vida foi ali passada” motivo porque o Montepio se tornou “um inimigo” pois lhe roubava muito tempo, impedindo-o de estar com a Família. A compensação que aqui recebeu por este devotado labor não foi de natureza material mas antes traduzida em gestos de desvelo, em manifestações de apreço pelas qualidades de abnegação e de altruísmo que foram, afinal, as que constituíram a sua verdadeira riqueza.
Não causou assim surpresa que tenha sido o Montepio Rainha D. Leonor a tomar a iniciativa de promover a Comemoração do Centenário do Seu Nascimento, preenchendo-a de Solenidades que prestaram Homenagem ao Médico que cumpriu a Vida cultivando a fé, a probidade, o saber, a modéstia, virtudes que identificam o Homem Bom que sempre foi o Dr. João Vieira Pereira. O descerramento do seu busto, da autoria do Mestre Ceramista Herculano Lino Elias e a inauguração do mais moderno equipamento de Radiodiagnóstico no Serviço que muito justamente tem já o seu nome, representaram uma forma de o Montepio tornar perene a sua memória, lembrando que este Homem Solidário serviu, de alma e coração, esta Instituição de Solidariedade.
Os Valores que nos foram transmitidos pelo Dr. João Vieira Pereira, não se confinaram aos do seu exercício profissional: no seu legado encontramos outros talentos que reflectem a sua grande sensibilidade, a diversidade dos seus interesses intelectuais dedicados ao coleccionismo (foi um distinto coleccionador filatélico e numismático e de miniaturas dos Mestres Ceramistas Eduardo Elias e Herculano Elias), à fotografia, às actividades artísticas e culturais, ao gosto pela escrita que tão cedo se manifestou quando ainda era aluno liceal e que prosseguiu através da colaboração em Jornais e em Revistas Médicas. Nas Caldas da Rainha, conforme revelado de forma oportuna, excelente, pelo Dr. João Serra, foi o fundador de “O Progresso”; na poesia encontrou forma de exprimir sentimentos, talvez sobretudo os de índole mais íntima. O seguinte poema traduz uma síntese de vida: “Colhi rosas, colhi espinhos,/dias e noites sem descanso/percorri árduos caminhos para fazer hoje o meu balanço./Anos de clínica rural/a valer-me dos meus fracos recursos/foram a fase baptismal dos meus benéficos percursos.”; a afabilidade, o sentido de humor, a serenidade, a sua simpatia, reflectiam uma imensa capacidade de estima.
Os bens imateriais tão generosamente doados pelo Dr. João Vieira Pereira, constituem um património inestimável, uma herança colectiva que é imperioso salvaguardar. As Cerimónias que decorreram, presididas por individualidades da mais elevada representatividade e com a comparência tão expressiva e qualificada de presenças, constituíram a confirmação inequívoca de que são sentimentos como os de gratidão, de respeito, de sincera admiração, que criaram o claro consenso de louvor dedicado ao Médico que enobreceu a sua Profissão, servindo-a.
Homenagear o Dr. João Vieira Pereira no Centenário do Seu Nascimento, enaltecendo a sua dignidade, representou um perfeito acto de Justiça.
Quando, numa visão prospectiva, nos surge a dúvida sobre se será inexorável a degradação das sociedades, sentimos que a experiência ancestral acumulada conserva os ditames que, em contínuo, hão-de contribuir para obviar a deterioração das qualidades humanas. Esta expectativa firma-se quando recorremos às boas memórias, lembrando a exemplaridade das Pessoas que, à sua dimensão, nos transmitem a confiança de que vale a pena acreditar na prevalência dos Valores.
Na data memorável do seu Nascimento e para sempre, Honra ao Dr. João Vieira Pereira!!!
Caldas da Rainha, 2 de Setembro de 2008
* Mário Gonçalves