ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
.
.

PAU DE CABELEIRA (Everybody's Talking)

por José Manuel Franco



.


-Não vou !-disse eu.
.
-Oh Zé,vem lá.Se tu não fores também não me deixam ir.Vais ver que vais gostar.O Casino é divertido,devem lá estar os teus amigos das Caldas,raparigas da tua idade e podes estar atrás do palco a ver os músicos e a apreciar os truques do conjunto -argumentou a minha irmã,tentando convencer-me.

.
Estávamos no Verão de 1970,como de costume eu passava parte das férias grandes em casa dos meus avós,em Alcobaça.Era a grande reunião familiar que se completava com aqueles que,por razões profissionais ou outras,só ao fim de semana se juntavam –pais,tios,irmã.

.
A grande novidade desse Verão era o namoro da minha irmã.O jovem “chevalier servant” era um leiriense de mil ofícios e sete instrumentos,que por essa altura oficiava como instalador de equipamentos,técnico de som e o mais que aparecesse ,junto da banda residente (o conjunto ,como então se dizia) do Casino das Caldas da Raínha: a Xaranga Beat.

.
Ora,ia ter lugar um baile especial ,não me perguntem porquê que eu não me lembro(seria o Baile do 15 de Agosto?),ao qual ,obviamente, o meu futuro cunhado queria levar a Teresa e esta estava desertinha por ir.Não só para estar com o namorado,mas também para fugir ao tédio das noites alcobacenses que pouca animação tinham para oferecer a uma jovem da sua idade.

.
E aqui é que surgia o grande problema para cuja resolução a minha contribuição era indispensável-nem pensar em deixar uma rapariga de boas famílias ir de Alcobaça para as Caldas da Raínha,à noite,para um baile, em companhia de rapazes,um dos quais seu namorado,ainda por cima!

.
Depois de muita argumentação e algumas ameaças veladas quanto a futuras trocas de favores,lá me deixei convencer e anuí a fazer aquela triste figura com a qual os meus amigos e eu tanto gozávamos a propósito dos desgraçados que se viam obrigados a emparelhar com as irmãs em festas,bailes,convívios e outras ocasiões onde a virtude e, sobretudo, a reputação das donzelas pudesse perigar-o Pau de Cabeleira.

.
E foi assim que,na noite do grande acontecimento, o Luís Maduro que ,além de guitarrista do conjunto(o que “desabonava” a sua situação ), era também amigo de infância e tinha sido colega de escola da minha irmã,para lá de ser filho de amigos e colegas dos meus pais( o que abonava a seu favor),se apresentou em nossa casa pronto para nos transportar até esse sítio desconhecido e vagamente transgressor ,onde ,dizia-se,além de se dançar,se jogava às cartas e ,imagine-se, as mulheres fumavam.

.
O Casino tinha uma entrada que, para um rapaz da minha idade,causava uma forte impressão.As portas corta vento de madeira dando acesso ao corredor de pé muito alto,encimado por um tecto em vidro curvado suportado numa armação em ferro forjado( o céu de vidro), ligando ao parque, o salão de jogo de um lado,continuado pelo bar, o qual por sua vez desembocava no salão de baile.Este desenvolvia-se perpendicularmente ao corredor ,era amplo e com várias portadas dando para o Parque D.Carlos.Alinhada junto a estas portadas uma fila de cadeiras,estrategicamente colocadas, para as senhoras,as quais assim não só beneficiavam do fresco do parque mas também controlavam as movimentaçãos das respectivas filhas ,das outras raparigas e lhes permitia ter uma visão próxima de quem dançava com quem,quem bebia demais e das toilletes de damas e cavalheiros.Não havia o perigo de falta de assunto, na Zaira, no dia seguinte!

.
Ultrapassado este primeiro deslumbramento com a arquitectura,o ambiente e o”beautiful people” que ainda antes do baile começar já circulava pelo Casino,fui “ajudar” a montar e afinar os equipamentos e instrumentos da banda.

.
Foi assim que conheci o Carlos Velez,guitarrista exímio,cuja interpretação do “Tico-tico no fubá “ainda hoje recordo, impressionado pela destreza das suas mãos,o António Achega, viola baixo e cantor,o Carlos Alberto ,teclista discreto e eficaz,o Rui Venâncio,baterista de batida forte e disposição festeira,o Carlos Cavalheiro que cantava tudo o que fosse preciso ,desde os Deep Purple até Bossa Nova,com garbo e distinção.Além ,claro, do já citado Luís Maduro cujo desempenho na viola ritmo ,sendo discreto,não deixava de ser importante .

.
Está claro que ,apesar de amigos e companheiros de muitas noites e viagens,os músicos mantinham uma relação pautada por alguma tensão e rivalidade-aquela causada sobretudo por motivos relacionados com a incerteza quanto ao futuro,a guerra colonial estava no auge,a música era uma actividade adicional para alguns e única para outros, e esta por questões de saias.

.
Com este enquadramento,as piadas,anedotas e partidas eram o pão nosso de cada dia.

.
Não sei se foi nesta noite ou em qualquer outra semelhante que ,para se vingar de alguma sacanice,para ganhar uma aposta ou pura e simplesmente por gozo,o meu futuro cunhado desligou a viola ao Luís Maduro deixando-o a tocar a seco toda a santa noite sem que este desse por nada.

.
A música era variada permitindo assim satisfazer as várias camadas etárias que acorriam ao Casino para conviver ,dançar e, no caso do pessoal adolescente, sacudir a ossatura e encostar às garotas com quem se tinham trocado olhares langorosos.

.
Houve uma música em particular que me deixou forte impressão e ainda hoje, passados quase quarenta anos,recordo com nitidez o Achega cantando,magro ,alto,bigode negro,olhar de ave de rapina adejando sobre as raparigas que dançavam ou simplesmente assistiam,as mães alvoroçadas ,os pais encostados ao bar,discutindo tudo e nada,os jogadores na sala ao lado e o mundo, todo um novo mundo que eu estava a descobrir e que passaria a frequentar assídua e prazenteirosamente ,concentrado naquela sala e naquela canção:
.
“Everybody’s talkin’ at me
I don’t hear a word their sayin’
Only the echoes of my mind…”



José Manuel Franco
2009.08.18
.
____________________________________________________________
C O M E N T Á R I O S
.
Belão disse...
Para mim é sempre com muita saudade que recordo os tempos do Casino e do Xaranga Beat.
Achei imensa piada ao post do Franco e dei comigo a pensar na sorte que eu tive por não ter o problema da Teresa. Morava em frente do casino e não precisava do meu irmão para ir ao bailarico. Também se precisasse, bem podia esperar sentada, que ele não iria, nem com um favorzito para a troca. A queda para a dança veio toda para mim!
Não sei se o Franco não estará enganado no ano, pois penso que o Xaranga chegou no Verão de 1970, mas com Rui Burguete e Porfírio. Cavalheiro, Achega e Carlos Alberto são posteriores.Contudo, recordo também com nitidez a música a quem todos ligamos o Achega e que tão bem a interpretava.
.
João Ramos Franco disse...
Falar do Casino é sempre do meu agrado. Mas vou retirar o ano de que Zé Franco nos fala, pela a simples razão de que nada sei das personagens de que fala. Nesta época já vivo em Lisboa.
Para quem o enfrenta pela primeira vez, faz nos uma boa descrição do interior do Casino dando-lhe vida, descrevendo a arquitectura e o ambiente que social com que se deparou.Um retrato com a vida do nosso Casino, do qual gosto do que me dá a ver…
Um abraço amigo
João Ramos Franco
.
Margarida Santos disse...
Lindo, o velho céu de vidro! Esta aproximação que lá puseram agora não tem nada a ver. Que tristeza! Se o rei cá voltasse e visse aquela "coisa" nem precisava de levar um tiro para morrer outra vez!
.
Isabel Esse disse...
Será que a malta nova ainda sabe o que é um pau-de-cabeleira?Julgo que não,mas posso estar enganada.
Já no ano passado se tinha aqui falado do Casino,mas esta história está bem contada e o casino bem descrito.
Julgo que a Belão tem razão,o Xaranga em 1970 ainda tinha o Rui Burguete como vocalista e não o Cavalheiro.
Gostei muito,espero que o autor tenha mais memórias e canções para nós.IS
.
João Jales disse:
Bom conto do meu amigo J M Franco, com uma evocação colorida e animada de um tempo e um local que marcou uma geração. Os paus de cabeleira não eram um papel simpático de representar mas tinham que existir para que as garotas também se divertissem… Calhou a todos!
Espero que o autor, também um melómano conhecedor, regresse a este blogue onde tem lugar reservado sempre que quiser.
E agora, posso falar um bocadinho de Everybody’s Talking?
Nilsson é um excelente compositor e músico, sendo responsável por dezenas de grandes álbuns e canções mas, ironicamente, os dois grandes êxitos que teve eram versões de outros : “Without You” (dos Badfinger) e este “Everybody’s Talking” (de Fred Neil).
Fred Neil é um dos maiores músicos de que vocês nunca ouviram falar. Compositor profissional no início da década de 60 (interpretado por Roy Orbison, Buddy Holly, Bobby Darin, Tim Hardin, Lovin’ Spoonfull, Jefferson Airplane, Nilsson, etc), venerado por David Crosby, Richie Havens e Tim Buckley, e uma influência sempre citada por Stephen Stills, David Crosby, Joni Mitchell, The Holy Modal Rounders, John Sebastian, Jerry Jeff Walker, Karen Dalton, Tim Hardin, Dino Valenti, Peter Paul And Mary… Ajudou a tornar conhecido um tal Bob Dylan, deixando-o tocar harmónica e cantar algumas das suas composições nos seus espectáculos em Greenwich Village em 1961.
Retirou-se da música em 1975 para se dedicar à preservação dos golfinhos durante o resto da sua vida. The Dolphins, uma composição sua de 1973, conheceu dezenas de versões (procurem no Youtube - se possível a de Tim Buckley ).
JJ
.
Isabel X disse...
Bem interessante esta perspectiva de José Manuel Franco, vindo de Alcobaça, sobre o casino. Lembro-me muito bem destes bailes e de como as músicas eram tão bem tocadas pelos Xaranga Beat. Acorriam pessoas de outros locais, além das Caldenses e de quem passava férias nas Caldas, com destaque para S. Martinho. Quem ganhava sempre o título de miss casino, e com toda a justiça, era a Ana Vieira Lino.
Lembro-me da Isabel Marçal (de Lisboa) me contar mais tarde quanto estranhava ver nesses bailes miúdas de quinze anos de vestidos compridos... Aquilo era giro, mas uma espécie de "ilha", na qual sobreviviam práticas algo invulgares para quem vinha de fora.
Muito úteis as explicações do JJ, que contribuiram para esclarecer a importância destas músicas, praticamente geracionais.
O vidro do actual "céu de vidro" nada tem com o que nós conhecemos, de facto, penso que já nem se fabrica nada de semelhante...
- Isabel Xavier -
.
Ana Carvalho
disse...
Zé (posso tratar-te assim?), sê muito benvindo ao nosso querido blogue. Adorei o texto voltei aos tempos de verão do Casino, de que tenho imensas saudades e relembrei aquela famosa banda, "Xaranga Beat", que nos divertia imenso.
Até assistiamos aos ensaios, que eram à 2ª feira, salvo erro, e nos quais colaborávamos bastante, havia quem cantasse, quem tocasse bateria...enfim uma noite bem passada; só até à meia noite, claro, porque as meninas eram bem comportadas e deitavam-se cedo!!!
Que saudades, tempos bons esses. Bjs PP
.
Miguel Cruz Gomes disse...
Olá Franco
Daqui um S. Martinhense convicto, mas de uma geração mais abaixo. Os meus anos já não são do Casino das Caldas, mas sim do "Ferro Velho" e posteriormente dos 1ºs anos do "Green Hill".
No meu caso não tive irmãs, mas afianço-te que o denominado "Pau de Cabeleira" ainda existia. Era passsageiro e só durava o tempo que levava a rapariga ou a contestar os pais, ou como aconteceu em todas as gerações, a dizer ao irmão, ou irmã, que fosse dar uma curva (nada que os mesmos não estivessem desejantes).
O que eu estou a descobrir, com os meus sobrinhos, é que hoje em dia estes paus de cabeleira podem estar muito diluídos, mas que existe agora uma figura nova: Um pai (menos vezes uma mãe, mas já vai existindo) sentado no carro à porta da Discoteca (com um ar "muita chateado") por volta das 4 da manhã, para ir buscar os crianços
.Algumas destas novas personagens, as que têm sorte, têm permissão dos "meninos" para entrar e esperar lá dentro, outras nem tanto.
Um abraço amigo (de um pai que daqui a uns anitos deverá estar nestas andanças)
Miguel Cruz Gomes
P.S.: Como era dito num dos comentários, ficamos á espera de mais...
.
Pedro Santos disse...
Gostei de ler a novela,embora a irmã do autor e o namorado tenham ficado esquecidos a meio,no que devia ter sido um final feliz(ou infeliz,como nos amores do João Jales!).Mas isso é um pormenor,concordo com os restantes comentadores que este é um bom retrato de um local que eu,que sou mais novo,não conheci tão bem.
Os comentários do JJ sobre música são sempre curtos e informativos,mas discordo da Isabel quando ela diz que estas músicas são apenas desta geração,muitas delas continuam a ser boas apesar da idade e esta canção que conheci num filme é um exemplo.
A minha geração aparece pouco aqui no blogue,só vi alguns mais novos quando publicaram a fotografia da D. Clarisse,mas sou um fã incondicional!P
.
Isabel X disse...
Claro que o valor das músicas não está em causa! Digo "praticamente geracionais" porque marcam uma geração. Há modas nas músicas, como em tudo o resto, mas muitas delas (como é o caso) nunca esquecem. O que disse foi para reforçar a pertinência dos esclarecimentos do Jales, pois muitos de nós (eu por exemplo) não sabemos nem uma pequena parcela do que ele sabe sobre música. Mais úteis se tornam as explicações dadas por ele quando pode haver quem não conheça tão bem as músicas por pertencer a outra geração.
- Isabel Xavier -

09/09/09

.
.
.
Quarenta anos depois da última gravação dos Beatles como grupo, precisamente em Setembro de 1969, vamos poder usufruir finalmente de todas as gravações oficiais do grupo em formato digital, na melhor qualidade que é possível com a tecnologia de que dispomos hoje.
.
Os CDs dos Beatles disponíveis no mercado até hoje eram puras transcrições feitas a partir da mistura final de estúdio e não a partir das gravações originais. Daí que a grande maioria dos amantes da sua música preferissem sempre ouvi-los, com melhor qualidade, nas edições originais em vinil. É este o motivo, para quem não sabia, do enorme entusiasmo e excitação que rodeiam este lançamento, que não é uma simples reedição.
.
A música dos Beatles faz parte integrante da vida de todas gerações da segunda metade do século XX, independentemente do gosto pessoal de cada um.
.
Isto porque nunca mais o mundo parou à espera de um disco, nunca mais a gravação de uma canção foi televisionada para o mundo inteiro (e hoje seria fácil fazê-lo), nunca mais uma afirmação de popularidade de um músico (“we’re more popular than Jesus” – e eram) incendiou os E.U.A. e motivou autos de fé, nunca mais o FBI contratou Elvis Presley para espiar quatro adolescentes, nunca mais uma canção teve mais de quatro mil versões gravadas, nunca mais nenhum grupo vendeu tantos discos , nunca mais nenhuma geração ouviu o que um bando de adolescentes tinha para dizer sobre a guerra, a humanidade e o futuro (e eles pouco sabiam sobre tudo isso…), nunca mais um Presidente telefonou dezenas de vezes ao seu director nacional de segurança perguntando se um músico já tinha sido expulso do seu país (e não foi, Nixon também não teve essa satisfação), nunca mais outra banda teve sistematicamente os seus discos em todas as votações da melhor música do século XX (vejam a última lista da Rolling Stone), nunca mais se mantiveram durante anos estações de rádio (não digitais) só com as canções de um grupo.
.
E a música, alguém ainda quer saber da música? Eu espero ansiosamente a caixa com 14 CDs que encomendei há semanas numa loja online, como se a fosse ouvir pela primeira vez. V
em aí aquela que é verdadeiramente a Banda Sonora da Minha Vida.
.
JJ
.
.
.
.
COMENTÁRIOS
.
Artur R. Gonçalves disse...
Sempre tive uma certa dificuldade em eleger a música, o livro e o filme da minha vida. Prefiro falar das músicas, dos livros e dos filmes que marcaram momentos importantes da minha vida. Limitar o leque de preferências a um caso singular em cada género incomoda-me um pouco. É como se estivesse a pôr o derradeiro ponto final num testamento que não me sinto ainda preparado para assinar. Entretanto, vou exercitando os sentidos para captar o belo à medida que ele vai surgindo.
Os Beatles não é a Banda Sonora da Minha Vida. É uma das bandas que ouvi com muito prazer ao longo da minha vida e espero continuar a ouvir na companhia de outras. Dispor de 14 CD's em formato digital é um privilégio que só a tecnologia actual tornou possível. Ironicamente, é um prazer que só poderá ser usufruído por 50% dos elementos que compuseram o agrupamento. Nós ainda teremos a oportunidade de ouvir todas essas gravações. Nalguns casos pela enésima vez. O pior é quando a nossa audição já não ouve com o mesmo desembaraço como o fazia há quarenta anos atrás. É como se dispuséssemos da obra completa de Shakespeare e não conhecêssemos suficientemente o inglês isabelino para prescindir de uma qualquer tradução.
Mas isto são divagações pessoais sem grande sentido para todos aqueles para quem o 09/09/09 passará a constituir, porventura, a Capicua da Sua Vida. Esperemos pelas novidades que nos trará 10/10/10. É já daqui a 13 meses.
.
J J disse...
Obrigado ao Artur pela sua pertinente reflexão.
Já uma vez com uma comentadora deste Blog tive oportunidade de discutir esta questão, a propósito do lançamento desta série. Não será possível que ainda esteja por ler, ouvir ou ver o Livro, o Disco ou o Filme da nossa vida? Penso que o Artur, como a referida amiga, defende que sim.
Eu julgo sinceramente que não, não só pelas condições de produção artísticas actuais como pela minha incapacidade de constituir hoje um terreno tão impressionável como era na minha adolescência e juventude. Realço que falo por mim, não defendo que seja assim com toda a gente, gostaria de ouvir outras opiniões e tenciono voltar brevemente a este tema.
Mas a minha audição, que é para mim um instrumento de trabalho, está óptima, foi medida há pouco tempo e vou portanto poder usufruir das melhorias sonoras incluídas nestes CDs.
.
Fernando disse...
Se havia um "fanático" dos Beatles era o JJ!O fantástico texto que escreveu neste blogue sobre o Srgt Peppers demonstrou-o amplamente a todos o que ainda o ignoravam.
Eu concordo com tudo o que é aqui factualmente referido mas o meu coração musical balança por aqui mas também por outros lados...
Esperemos pela continuação. Fernando
.
J.L. Reboleira Alexandre disse...
A situação do Artur é talvez aquela que assenta melhor à maioria de nós.
Já quanto à dúvida que levanta, sobre se ainda está para aparecer a música da vida dele, aí não entendo. É que se em termos de audição, e depois de recente limpeza geral, também não estou muito mal, já o facto de não estar mais disponível para fazer 1400 Kms de carro em 2 dias, para ver o «meu grupo preferido», como o fez o meu descendente mais jovem (21 anos, idade linda)no último fim de semana, quer dizer muito.
Por isso, I will give up, e considero um facto adquirido que por muito boa vontade que possa ter, a música, ou as músicas da minha vida já estão todas cá fora, e infelizmente a maioria dos autores já nem andam entre nós.
.
Isabel X disse...
A tolerância é a única atitude razoável porque nos é vedado viver a vida dos outros, experienciar as suas experiências. Mesmo que isso fosse possível, como cada um de nós é um ser único e irrepetível, senti-las-íamos de um modo diferente, e seria diferente o efeito que em cada um de nós causariam.
Penso (tenho quase a certeza) ser eu a amiga a quem o amigo João Jales se refere e em conversas que mantivemos, estivemos de acordo pelo menos num ponto: é que a recordação que vamos tendo do passado vai mudando ao longo do tempo e é em cada momento o resultado da reconstrução mental que nos faculta uma memória que é activa, e ainda bem. O que me faz impressão não é descrer da capacidade de agora se criar algo superior ao que criaram os Beatles, ou a quem quer que nos tenha emocionado na adolescência; o que me parece incompreensível é assegurar de antemão que já não se possui a capacidade de emoção comparável à desse tempo só porque se é mais velho. Parece-me uma estratégia de defesa que se coloca à vida e à urgência de vivê-la plenamente ao longo de todo o seu tamanho. É alguém condenar-se a viver de um modo um pouco menor, um pouco amputado, faz-me pena.
Diz-se que "recordar é viver", mas essa frase para mim é de questionar quando acontece fixarmo-nos ao passado com tanto afinco. Quando eu digo que não me lembro do passado, algo que tem sido contestado por alguns dos meus colegas comentadores, digo-o também um pouco por provocação, para fazer pensar. Mas, de facto, tenho que me esforçar por recordar coisas em que nunca mais havia pensado, talvez porque não considero os episódios desse tempo mais marcantes dos que vivi num passado mais recente, dos que vivo agora e, espero, dos que viverei no futuro!
-Isabel Xavier -
.
António J M disse...
Comentou-se muito mas ainda ninguém disse que:
1.Este texto tem muito "coração", reflecte muitas emoções de quem o escreve.
2.Este texto tem muita "informação",gostava de saber melhor alguns dos temas que aqui se abordam.Saberá o Fernando que há uma continuação?
3.Este texto tem muita "paixão" porque só quem tem um lugar muito grande na sua vida para a músuca escreve omo o autor escreve(hoje e anteriormente).
4.Quem sabe se a recordação será ou não mais forte que a próxima emoção que vai sentir?Aqui não concordo com o JJ.
5.Depois de ler este texto reli o do Sargent Peppers e digo:é ainda melhor que este,experimentem relê-lo.
Abraço.AJM

Back to BloguEro

por João Bonifácio Serra
.
.



Passei a manhã a tentar recuperar um mês de afastamento deste bloque. As relações fortes têm oscilações assim: momentos de interrupção, pausas, seguidas de reatamentos e reachamentos. De modo que me deitei com frenesim à consulta da série de post, comentários e fotografias recentes, procurando avidamente absorver num lance o resultado das diversas colaborações e da paciente dedicação de bloguistas nas últimas semanas. O resultado foi, como seria de prever, contraditório: o prazer da descoberta somou-se ao desconforto da falha de partilha simultânea, a surpresa da diversidade de temas e de perspectivas cruzou-se com a dificuldade de a todas reconhecer em paridade. A forma possível de sair desta ambivalência é tentar escrever sobre o que li e vi, comentar de novo, provocar.
.
Recuperámos memórias cinéfilas (João Jales, José Carlos Faria) literárias (Maria Manuela Gama Vieira, José Carlos Faria), musicais e discográficas (João Jales, José Carlos Faria). Graças a Vasco Trancoso, uma verdadeira aquisição do blogue certamente conseguida após duro teste à capacidade negocial do João Jales, pudemos ter contacto com uma memória dos anos 50, objectivada numa recriação do ano de 55, o ano em que o Brylcreem deu lustro e forma a cabeleiras e o rock and roll mudou a história do mundo, criando pela primeira vez uma cultura da juventude.
.
José Carlos Faria, uma presença rara mas sempre marcante neste blogue, escreve naquele estilo torrencial de que só conheço equivalente no Jorge Silva Melo (curiosamente também um homem do teatro), onde as referências culturais não têm fronteiras nem de temas nem géneros nem de espaço geográfico. E assim deambulamos pelas literaturas, pela música ou pelo cinema guiados pelo conhecimento e pela boa disposição do Zé Carlos e pelo seu imenso prazer de desfrutar as criações humanas de mistura com as vivencias pessoais, de as descrever e tornar públicas.
.
Maria Manuela Gama Vieira, alguém que tem uma rara capacidade de se entusiasmar com a vida e a literatura, trouxe-nos uma nota que é uma expressão do seu pathos queirosiano.
.
Fernando Jorge faz da sua fidelidade à banda desenhada uma celebração da imaginação e da iniciação à vida. Superou com garbo e proveito a “Cartilha Maternal”.

.
Mas os três acontecimentos bloguisticos deste Verão são as reportagens. A primeira, do “Encontro de Verão no Inatel”. Se tivesse acontecido em Vila Moura teria honras de páginas e páginas em revistas do social. Se contasse com a presença de um jovem politico em ascensão, poderia dar origem a um encarte no “Jornal das Caldas”. Na dimensão que o Picasa empresta ao slide show é um convívio alegre e empenhado de um conjunto de jovens que recusa a indiferença, apesar da inevitabilidade da mudança dos tempos. Devemos estar-lhes gratos.
.

A segunda a fotografia que a Guidó legendou “Três Nascimentos e uma Margarida”. Ela ilustra de forma superior o fascínio da imagem. O interior da tenda que reflecte uma ordem, um gosto, um espírito de alguém, Ivone, que não estando presente fisicamente dá sentido ao que se passa em primeiro plano. A pose das meninas nos seus sorrisos confiantes (na fotógrafa, evidentemente, também ela, Emília, presença não física mas adivinhada, escolhendo o elenco, o momento e a disposição dos elementos) e a Ana, na sua beleza serena, dando a todo o cenário, de uma singular coerência, um sentido que revela e esconde uma montagem que é toda ela feminina, nos actores, nos olhares, na organização, no ambiente.
.
A terceira reportagem é, claro, a de Belão. Não é a primeira vez que ela nos traz um registo de uma viagem. Para mim é sempre um acontecimento ler os seus textos: são claros e informados, são descritivos e pessoais, são imaginativos e rigorosos, são envolventes e precisos. A Belão, nas suas reportagens finge tão completamente que chega a fingir que é simples e natural aquilo que como simples e natural ela sente.
.
Eu sei que agora há holofotes distorcidos cravados no tema da verdade. Foi o momento escolhido pelo João Jales para tentar reescrever histórias passadas de Verão. Ele tem a base e dados e fez a sua escolha. Mas não nos deixemos iludir pelos seus modos insinuantes. Não se passou nada.
.
Até Novembro.
.
João Serra
____________________________________________________________
COMENTÁRIOS

.
Manuela Gama Vieira disse:
Claro que à sua falta de assiduidade ao BloguEro, o P.e Renato só poderia dizer: “Menino João, alumno dilecto meo, vá-se penitenciar de tamanha falta!”
Penitenciou-se e…brilhantemente com o texto em que de fio a pavio,tece as suas apreciações às participações dos seus ex-colegas.Reparei que, por motivos óbvios, se esqueceu….dos “Mundos Paralelos”,da sua autoria, cabendo-nos a nós colocar esta “nota” no Back toBloguEro”.Seria injusto não incluir a sua excelente participação na Série “Músicas, filmes e livros da nossa juventude”, proposta pelo nosso talentoso amigo João Jales, para o Verão 2009.
Que muitos Verões, Outonos, Invernos e Primaveras nos acompanhem a todos, aqui, no BloguEro!E agora que já começa a entardecer, vamos a caminho do Outono, o Sol nos deixa mais cedo e dá lugar à Lua, vou citá-lo, com uma evocação à Lua, num artigo que escreveu na sua juventude, publicado na Gazeta das Caldas, a propósito de uma noite enluarada de umas férias que passou na Foz do Arelho: “Palavra, que ainda um dia subo lá a cima e a tragotoda para baixo. Palavra…Palavrinha.”Quando conseguir…venha aqui contar-nos, fazendo uso do seu logos…(retribuição ao meu…pathos)!
Maria Manuela Gama Vieira
.
Belão disse...
Esta ausência do João Serra está de certeza justificada. Já tinha saudades de o “ver” por aqui. E digo por aqui, porque o visito frequentemente no “o que eu andei”. Muitas vezes a falta de tempo, por motivos profissionais, impede-me de viajar pelos blogs. Mas na correspondência que tento actualizar, são muitos os mails que recebo, e ainda bem, que me encaminham para a sua escrita. E dá-me sempre muito prazer.
Quando fiz o Complemento de Formação na Universidade Aberta, sobre Património Histórico Local, telefonei ao mestre Pedro Flor, meu orientador, e questionei-o sobre a bibliografia a consultar. Sugeriu-me várias obras e concluiu: “Mas em JB Serra tem tudo.”
Apesar de ter lido um “Até Novembro” aqui no blog, espero que nos continuemos a encontrar por “aí.”Um beijo.
.
Guida disse...
Não podias resistir a parafrasear Pessoa. Não é, Bonifácio?
.
VT disse...
Agradeçendo as palavras sempre amigas do João, aproveito para referir que colaborar no Blog do ERO é que representou uma aquisição para mim... Para além dos amigos que já tinha vim a conhecer aqui outras pessoas também estimáveis que enriqueceram os meus conhecimentos e as minhas solidariedades.
Comungo da opinião que este Blog merece mais destaque ainda, devida à grande qualidade dos diversos contributos... Porque não a edição de uma brochura com textos e imagens (obrigatórias as caricaturas da São) mais significativas?
Para nós que nos habituamos aos excelentes textos e às opiniões profundas e amigas do João, o "até Novembro" soa a muito tempo... Apesar de compreendermos, esperamos que nos continuemos a encontrar "por aí" como diz a Belão - na Blogosfera... e não só.
Abraço
VT
.
Luisa disse...
Achei muito interessante esta crítica do João Serra,até porque não tem sido muito habitual alguém escrever sobre toda uma temporada do blogue.Queria dizer que gostei muito mas achei que houve dois esquecimentos para mim incompreensíveis,além do artigo do autor como a Manuela referiu.Refiro-me ao Hotel Califórnia e sobretudo ao Piquenique,dois textos que,melhor do que qualquer descrição,mostram bem a vida na nossa adolescência.
Não pretendo com isto fazer qualquer crítica,se calhar os dois artigos já tinham sido referidos e eu é que não reparei.O que interessa é que este foi um dos melhores temas de sempre aqui no blogue.Bjs.Luisa
.
João Serra respondeu:
Tem razão, Luisa. Não li todas as colaborações de Verão e disso me penitenciei logo na abertura do meu breve e ligeiro comentário. É provável que tenha perdido o melhor. Mas vou tentar recuperá-lo e volto já.
João Serra
.
João Jales disse:
É sempre bom conhecer uma perspectiva assim do Blog, para quem, como eu, tem dele uma visão parcelar, diária e sempre demasiado próxima. Saber o que alguém, que por aqui passa após algum tempo de ausência, retém e aprecia é um indicador precioso, particularmente quando o observador é o João Serra.
Os autores dos posts referidos já responderam ao comentário, restam apenas os pobres e tão maltratados Mitos Estivais... Sempre que ficcionei alguns episódios mais ou menos românticos da minha adolescência, recebi sempre comentários que os analisavam como se de uma auto-biografia se tratasse! Agora que decidi relatar ipsis verbis três pequenos apontamentos estivais, estes sim verídicos e biográficos, a resposta que recebo é "não nos deixemos iludir pelos seus modos insinuantes. Não se passou nada." Só talvez o (também) incompreendido Fernão Mendes Pinto me fizesse justiça...
Espero que a longa ausência do João não se repita e ele apareça de forma mais regular neste Blog onde as suas colaborações são sempre muito apreciadas.
Um abraço. JJ
.
Isabel X disse:
Este olhar para dentro do próprio blogue, óptima ideia aliás e que tão bem resultou, só mesmo o João Serra para a ter! E, principalmente, só ele para a executar deste modo subtil e cheio do humor velado que lhe é característico.
Quanto aos post a que se refere ou não refere neste texto, suponho que estão todos os que foram publicados desde a última vez em que o João participou no blogue. Não me parece que haja lugar a apontar esquecimentos.- Isabel Xavier -
.
Margarida Araújo disse:
É verdade que temos por aqui um Quinteto (Sexteto?) de peso. Em diferente áreas, ou em áreas comuns, são um manancial rico de memória, de informação, de cultura. Cada um com estilo próprio de escrita, traçam a história de várias gerações, e são um prazer para quem os lê.
João, "Três Nascimentos e uma Margarida" é um título muito feliz, que o JJ arranjou. A lembrar-me outro, "Paredes de Louça", que tu deste a um trabalho meu e do Património Histórico sobre a azulejaria de fachada das Caldas da Rainha.
Deixo aqui o recado da autora da fotografia e o meu: a tua análise comoveu-nos. O teu olhar exterior a reforçar o que ali se passa. Como actrizes, como uma encenação, como um teatro, como a vida.
Guidó
.
José Carlos Faria disse:
É um privilégio para todos poder contar com a participação do João Bonifácio Serra e desfrutar da sua lúcida ponderação, da aguda capacidade crítica tão serenamente transmitida, da sensibilidade das suas estórias e do sentido da(s) sua(s) história(s). ficamos a aguardar (ansiosamente) por Novembro, que remédio...
.
Anónimo disse...
Luisa,atente neste parágrafo do João Serra:"Eu sei que agora há holofotes distorcidos cravados no tema da verdade. Foi o momento escolhido pelo João Jales para tentar reescrever histórias passadas de Verão. Ele tem a base e dados e fez a sua escolha. Mas não nos deixemos iludir pelos seus modos insinuantes. Não se passou nada."
Afinal...o Jales tem "a base de dados",percebe agora...o esquecimento?Mais que desculpado o João Serra...
E o menino Jales é muito traquinas...
Como bem diz o povo..."uns comem os figos,a outros rebenta-lhes a boca"!
Manuela Gama Vieira
.

MITOS ESTIVAIS - DESMONTAGEM DAS ESPECULAÇÕES E REPOSIÇÃO DA VERDADE

.
.
No encontro de Verão na Foz do Arelho, há cerca de um mês, foram recordados alguns episódios estivais rodeados de uma carga de fantasia que o tempo inevitavelmente cola à História. Pretende esta pequena crónica repor a verdade dos factos. JJ

.
Durante a época balnear na Foz do Arelho, era organizado pelo menos um piquenique. Há estórias destas em todos os anos e, era eu ainda muito garoto, lembro-me de umas “burricadas” (meados da década de 60, ainda participei numa ou duas) mas, nessa altura, os actores e organizadores eram de uma geração mais velha. Talvez um dia alguém queira evocar aqui esses episódios, que eu recordo de forma difusa mas de que conheço até várias fotografias.
.
No final da década de sessenta, lembro-me de um grupo de cerca de vinte jovens, alguns do ERO e outros veraneantes de fora das Caldas, atravessar a Lagoa e ir passar o dia com um farnel do “lado de lá”. Antes da Aberta, na zona onde, nessa altura, a Lagoa mais se aproximava do Gronho, formavam-se dunas consolidadas por alguma vegetação rasteira. Essas formações caíam a pique sobre a água e estendiam-se com mais fraca inclinação para o lado oposto. Protegiam por isso quem se instalava desse lado da habitual nortada e dos olhares indiscretos dos banhistas da Lagoa e do Mar.

.
O transporte era garantido essencialmente em bateiras mas também em um ou dois barcos a motor dos participantes.
.
A errada interpretação de vários episódios enriqueceu durante anos a rica e colorida história oral dos usos e costumes caldenses (que entretanto se perdeu), obstando a que alguns pais mais zelosos autorizassem as filhas (também alguns filhos, mas sobretudo as filhas) a participar nesses eventos. Foi esse o motivo, e não a falta de entusiasmo dos participantes, do fim dessas travessias.


.
Eu nunca fui muito de ligar a mexericos, mas acho que está na altura da verdade histórica ser reposta, acabando com alguns mitos estivais relacionados com esses piqueniques.


1
.
.
Lembro-me de ser abundantemente referido um episódio em que duas jovens apanharam um enorme escaldão em zonas do corpo que deveriam, em princípio, estar protegidas pelos fatos de banho.
.
Claro que a má-língua caldense, gente ociosa com mentes perversas, equacionou imediatamente a hipótese de, em algum momento, as ditas peças de vestuário não estarem colocadas de acordo com os bons usos e costumes da época. Nada mais falso! O problema é que os fatos de banho, em vez de terem sido adquiridos na Nobela ou na Góia, tinham sido importados de Espanha, comprados em Badajoz conjuntamente com uns caramelos ranhosos que se colavam irritantemente aos dentes lusitanos. Ora o tecido de que eram fabricados esses fatos de banho era também de muito má qualidade, como toda a produção espanhola da época, não garantindo a necessária protecção contra os nefastos efeitos dos raios ultra-violetas, motivo porque, apesar de em nenhum momento a moral e os bons costumes terem sofrido qualquer atropelo, as já referidas, e muito sensíveis, zonas dérmicas terem ficado muito afectadas.
.
Por mais que isto fosse explicado, havia gente que não percebia, insistindo em transformar um caso de mau controlo de qualidade industrial num escândalo!
.


2
.
Noutra ocasião alguns rapazes foram também vítimas de alguma incompreensão por não suportarem a perigosa travessia de regresso com o estoicismo supostamente exigível aos descendentes dos grandes navegadores lusitanos.
.
Perante as alterosas ondas da Lagoa e a manifesta instabilidade das bateiras utilizadas no transporte, era natural e normal o aparecimento de fenómenos de náuseas, regurgitação, perda de equilíbrio e desorientação entre os turistas.
.
Claro que as mesmas mentes malévolas, que já não tinham percebido bem a questão das queimaduras solares, com o espírito envenenado por alguns observadores menos informados, insinuavam que a introdução de álcool na ementa do saudável repasto era responsável pelos sintomas verificados. Incrível!
.
Não era verdade, era apenas o enjoo, absolutamente natural em qualquer um que desafia o Mar.
.
3
.
Havia, nessa época, pouca gente que possuísse máquina fotográfica e, mesmo entre os que a possuíam, era difícil ultrapassar as objecções paternas quanto ao seu transporte e utilização numa excursão aquática. Lembro-me de haver poucas, quase nenhumas, fotografias destes piqueniques por causa disso mesmo.
.
Isto tinha aspectos bons e maus. Maus porque a recordação desses dias seria certamente mais saborosa com imagens que evocassem o prazer e a alegria com que eram vividos; bons porque as fotografias transmitiam, por vezes, uma imagem distorcida do que realmente acontecia. Estou-me a referir a uma famosa (na sua época) fotografia, justamente apelidada de “O Banho de Touca”, tirada no último ano em que se realizou a passeata. A imagem era absolutamente inocente, um grupo de meia dúzia de teenagers tomava banho na Lagoa, apenas se vendo as suas cabeças, já que estavam imersos na água até ao pescoço. A graça era que todos, rapazes e raparigas, estavam de touca na cabeça, o que dava um tom muito alegre e divertido ao grupo!
.
A fotografia, da autoria de uma jovem artista, obviamente ausente da imagem, foi revelada na Tália onde, posteriormente, foram pedidas várias cópias. Aparentemente esse facto despertou a curiosidade do Sr. Diogo que mostrou uma delas ao pai de uma das banhistas. As mesmas mentes perversas e malévolas do costume começaram a especular que nenhuma das raparigas possuía ou usava touca, muito menos os rapazes!
.
Começaram a interrogar-se onde é que teriam arranjado as toucas no meio de nenhures e, não sei se depois de ampliarem a foto, aventaram a absurda hipótese de que não eram toucas mas sim calções de banho que o alegre grupo exibia na cabeça! Seriam eventualmente calções suplementares que a miudagem, sempre precavida, tinha levado para a eventualidade de precisar de os trocar? Isto explicava tudo excepto talvez o facto de alguns dos divertidos banhistas usarem na cabeça calções do sexo oposto... A aceitação generalizada desta hipótese levou à não aceitação da primeira explicação (de outra forma lógica e cabal) e foi um rude golpe num convívio que não pode assim repetir-se.
.
Não posso deixar de reflectir no facto de terem sido as versões distorcidas e malévolas que ficaram na recordação de quase todos e não a realidade inocente que aqui reponho. Como diz Gerald M. Edelman:
.
"Cada acto de percepção é, em certa medida, um acto de criação.
Cada acto de memória é, em certa medida, um acto de imaginação."
.
.
João Jales
(fotografias de Margarida Araújo)
C O M E N T Á R I O S
.
.
Margarida Araújo disse:
As fotografias tiradas não são desses piqueniques porque EU NUNCA FUI A ESSES PIQUENIQUES!
Mas fui a outros idênticos (eh, eh, eh)... com acampamento na época estival, nas dunas do Bom Sucesso e, por acaso, com banhos semelhantes a esses das toucas.
Explico: mal chegava o verão a Família Salles Henriques & Associados (Barreto, Gouveia, Brilhante, Magalhães, Rodrigues) acampavam no lado de lá da lagoa, numa zona dunar perto daquela que se refere no texto. Passei por lá vários anos felizes. Tenho a certeza que muito alunos do ERO também, Rogério Matias, Namy, Ana Buceta, Miguel BM e, ajudem-me, muitos outros que o poderão testemunhar como eu. Várias tendas familiares, organizadas de forma urbanísticamente equilibrada na malha dunar, um conjunto de cozinhas comunitárias e ainda uma chuveiro (balde de zinco com puxador para controle de água) e casa de banho em madeira, devidamente afastada do local, para um bom saneamento. Um ECO campismo. Fica aqui a minha gratidão a todos que me proporcionaram férias tão inesquecíveis. Idas às camarinhas, já em Setembro, pescas ao candeeio, com as bateiras cheias de miúdos, que por vezes adormeciam, e a luz do petromax a lembrar lanternas chinesas, correrias nas dunas e, claro, banhos na lagoa, no mar e no braço lagunar de que o JJ fala. Tomava-se balanço na descida, mergulhava-se de cabeça (o braço era fundo) e de vez em quando apareciam as ditas toucas (eh, eh, eh).
Em relação aos fatos de banho, venho aqui afirmar a possibilidade aqui destapada. Passo a explicar: pela mesma altura tinha um fato de banho - não era espanhol, mas também não foi comprado na Nobela, nem na Góia - branco com flores vermelhas. Pois nesse ano tive um bronzeado incomum, como se pode advinhar!!!!!!
...e o texto do João é quase tão bom como as fotografias (ih, ih, ih)e as fotografias são quase tão boas como o próprio local. Obrigada pelos os elogios às ditas e ao João, que nos vai proporcionando este avivar de memória cheio de graça e qualidade narrativa (fui clara?????)
bjs amigos. Guidó
.
Guida Barreto disse:
Foram de facto tempos muito felizes, inesquecíveis mesmo! Um grande bem haja à Guidó pelas belíssimas fotografias e comentários, que fazem parte do nosso imaginário do que foi uma infância espectacular!
Guida Barreto
.
Manuela Gama Vieira disse:
O Jales conseguiu, num golpe de asa, desmontar as “horrorosas” ideias que passavam pelas cabeças dos adultos. Imaginem que a propósito dos escaldões das meninas, até a qualidade da matéria-prima dos fatos de banho espanhóis- naquele tempo falava-se lá de controlo de qualidade- lhe veio à ideia para justificar o bronzeado (não previsto…). Fiquei asaber que, naquela época, “de Espanha nem bons ventos, nem bons casamentos”, nem bons fatos de banho, já para não falar nos caramelos…”ranhosos”!
Muito me impressionaram as alterosas ondas em plena…. “Aberta”- O Captain! My Captain!”- imagino as náuseas, os desequilíbrios, dos valentes e jovens marinheiros. Quem vai para o mar, avia-se em terra, é assim ou não é?
Ora as toucas…mas que complicações o Sr. Diogo, zeloso dos meninos e meninas que frequentavam a Tália, foi arranjar verificando aquela estranha forma de toucado… São toucas, senhor, são toucas, logo replicou o Jales!
Qual má-língua caldense, gente ociosa com mentes perversas, qual quê? Mitos! E se tu Jales, e Gerald M. Edelman me permitirem, atrevo-me a terminar assim:Cada acto de criação é, em certa medida, um acto de percepção. Cada acto de imaginação é, em certa medida, um acto de memória.
Muitos parabéns pelo que, com imenso talento, muito humor e…tanto salero, hoje trouxeste ao Cine-ERO!
Muitos parabéns à Margarida Araújo pelas lindíssimas fotografias!Pelo teus dotes de criação, imaginação e capacidade de comunicação,aqui vai o meu BRAVOOOO!!!
Manuela Gama Vieira
.
vitor b disse...
Este é o artigo do VERÃO 2009!Como é que estas histórias estavam guardadas na gaveta há tanto tempo?Só se foram mesmo as conversas do encontro de agosto a avivar tudo isto e seja essa a explicação.
Muito muito divertido e escrito com muito humor.Gostaria de saber uns nomes mas suponho que isso esteja fora de causa.....
As melhoras para as meninas do "escaldão",para os rapazes enjoados e quero saber onde arranjo uma cópia dessa fotografia!!!VB
.
Julinha disse:
Embora estivesse no encontro de Verão, confesso que me passou completamente ao lado a conversa da má língua!!!!
Eu, realmente, sou um pouco mais velha....Ah!!!! tenho apenas mais uns aninhos e, provavelmente, os intervenientes estariam com receio que eu fosse contar aos papás .....seria????
Como se pode ver pela magnifica descrição do JJ, com uma dose extraordinária de inocência (que eu lhe não conhecia) foi tudo um verdadeiro equivoco da época....portanto, papás dos meninos e principalmente meninas, estejam descansados pois o Jales repôs aqui toda a verdade nua e crua!
Um Abraço para todos
Júlia R
.
Isabel Esse disse...
O que eu me ri!!!As queimaduras,os enjoos dos marinheiros e os banhos de touca,uma velha tradição da Foz,mas também da Nazaré.
Mas que fique bem claro que EU NÃO FUI a NENHUM desses piqueniques :-)
Disse um dia destes que o blogue estava sensacional,nem sei o que mais diga hoje...
Bjs.IS
.
Belão disse...
Eu sempre achei que os fatos de banho espanhóis eram ranhosos..... A prova está aqui, neste post.
Quanto aos enjoos, também acho que é muito natural tal fenómeno durante a travessia da lagoa. Com ou sem álcool.
No que se refere aos banhos de touca, devo dizer que eram de certeza e mesmo, toucas. E havia delas giríssimas: lisas, às riscas (com lacinhos), às flores. Modelos ousados para a época, sobretudo nas cabeças dos meninos.
Adorei, João!
.
ze_mas disse...
Quando vi o título antes de iniciar a leitura até me interroguei se estaríamos perante uma especulação filosófica sobre o Verão e os ritos de passagem da juventude.
Depois ri-me com gosto,li duas vezes e descobri que,com humor e tudo,mas eu tinha razão!
Uma palavra mais para as fotografias de uma fotógrafa que não conheço pessoalmente mas que descobri a eprendi a apreciar neste blogue e depois no seu.
Parabéns.JJ:há mais histórias de onde vieram estas?Queremos o filme das nossas vidas aqui no Cine ERO(como diz a Manuela no seu EXCELENTE comentário)com um realizador de talento que nos lava a alma e alegra os dias.ZMS
.
Guida disse...
É incrível a capacidade de invenção e má língua de algumas pessoas. Só inveja e mau gosto! Não participavam nas coisas e depois arranjavam historietas para estragar a vida aos outros.
Mas já agora pergunto. Ondas na lagoa? Quando? Correntes, sim.
.
Luis disse:
Tem havido momentos assim no blogue mas deve ser preciso uma mistura mágica de recordações, imaginação,humor,capacidade de observação,que os tornam raros e preciosos.O JJ e o Faria têm sido os grandes responsáveis por eles - recordo o futebol dos Flinstones,o Dr Serafim e o Calhambeque,um teatro de Natal...
Ri-me,sozinho e sem amarras,nesta evocação criativa de um piquenique que recordo vagamente(será o mesmo?)mas que o JJ transformou numa das grandes recordações da minha adolescência.
Genial!
L
.
Guida Carvalho da Silva disse:
Muito bom! Fotos lindas e texto super divertido .... de repente lembrei-me de quando ia a pé pela praia de S Martinho, até Salir, só para depois subir e descer as dunas de Salir a rebolar até cá baixo... muito bom....
.
António J M disse...
Não comento tanto neste blogue como gostaria e como acho que merecia.
Mas há momentos em que não posso deixar de dizer alguma coisa como forma de retribuir o prazer que tenho ao visitá-lo.
Estas três Histórias retratam uma época de abertura de costumes,de confronto entre o Novo e o Velho de uma forma aparentemente ligeira,mas só aparentemente.e com um humor "inocente" que é irresistível e divertídissimo,do melhor que nos têm aqui oferecido.Abraço.A
.
Ana Carvalho disse:
Ai João, ainda bem que este assunto se esclareceu de uma vez por todas. Realmente explicado assim desta maneira acaba de uma vez por todas com as desconfianças de todos.
Realmente nesta terra sempre se inventou muita coisa, éramos umas crianças inocentes.... parece impossivel de certeza que com outro almoço se resolverão muito mais mistérios.
Bjs PP
.
jorge disse...
só hoje pude por em dia os posts.esta evocação da foz em que se misturam as naturais tropelias de uma nova geração com uma explicação naive dos acontecimentos merece todos os elogios!divertida e cáustica,arrasando a claustrofobia provocada pela má lingua caldense este é um dos momentos altos em humor e conteúdo do blogue.jorge