.
JJ
Vou-te mandar se achares engraçado podes editar. É uma visão também de fora para dentro e por isso também diferente.Logo verás. UMA JANELA NO TELHADO
Lá em cima, no teu quarto,
que durante longo tempo foi projecto,
Nasceu hoje, por milagre,
um pedaço de céu no meio do tecto!
De dia, a Sul, no pano azul intenso,
viaja o sol no seu trajecto.
Às vezes, num canto desse mar imenso,
surge um barco/nuvem tocado a vento, numa fuga.
Cúmulo-nimbo? Presságio de chuva?
Ou apenas, solitário, vogando,
em busca de aventura?
À noite, é deslumbrante contar estrelas,
conhecer impossíveis lugares, terras distantes.
Ou tentar ver no céu milhares de “velas”,
que iluminaram as rotas dos nossos navegantes.
Nos fins de tarde agrestes,
quando a chuva, teimosa, não pára de cair,
corre irritado o vento, perdido,
sem saber se deva ficar… se deva ir.
As árvores, ancoradas,
agitam ramos nus, num vão lamento
e os bichos sem abrigo, vêem na tempestade
o seu maior tormento.
É nessas horas más,
quando chora , triste, a natureza,
que a janela vai mostrar-te
os contrastes do mundo
e revelar-te os feios meandros da pobreza.
Nesse teu quarto/refúgio, rodeada de conforto,
não esqueças, minha filha, ao longo da tua vida,
que há outro mundo diferente,
de pobre gente sofrida.
Em certas noites, surgirá, também a Sul,
espreitando atrás do monte, uma visita especial,
a iluminar profusamente o horizonte.
Gentil e vagarosa estende o manto,
realçando o mais pequeno e triste canto.
Sempre risonha e bem disposta,
D. Lua Cheia virá em noite fria,
e, graças a ela, da escuridão se fará dia.
Será também dessa janela, que verás, piscando,
a luz dos grandes aviões, no seu vai-vem constante e ruidoso,
carregando no bojo vagas de ansiosas multidões.
E no jeito de sonhar que eu te conheço,
sentada na cama, bem segura,
voarás para longe do teu quarto,
viajando sem medo, como se a nave fosse firme
e estivesse presa a um penedo.
E agora, que mais dizer dessa janela,
fantástico rasgo aberto ao céu?
Só sei que no futuro irás mirar-te nela,
digo-te eu!
Mas não esqueças, que o vidro
é de ambos os lados transparente,
e se serve para olhar p’ra fora,
também servirá para alguém, de lá,
olhar p’rá gente.
Desejo apenas que por ela
os Anjos te possam ver melhor e conhecer,
Te ajudem sempre a ser feliz,
nessa aventura fascinante que é crescer.
Percebam quem é essa menina que habita cá na Terra,
por trás duma fantástica janela.
Será sensível, generosa, fiel, bela, inteligente?
Eles vão descobrir isso.
E algum...
ainda vai pedir para ser teu confidente.
Ana Braga, Agosto de 2004
É sempre bom poder reler este poema da mãe, recordar o rasgo do telhado, o sótão que tanto desejámos, onde eu tanto queria viver! Hoje já não tenho o prazer de viver e conviver diariamente nesse refúgio, agora tenho uma janela maior, uma outra visão, menos bonita, mas realista. Tal como a mãe previa no poema.
Bonito poema da Ana transmitindo o enlevo que se devota a um filho desejado e que tudo fazemos para o ver feliz dando-lhe as necessárias asas para voar e sonhar mesmo que para isso nos sacrifiquemos e retiremos a nós próprios confortos que se tornam de somenos importância perante o seu bem estar e a felicidade estampada no rosto pueril. S
.
O das Caldas disse...
Para mim seria inpensável não publicar esta UMA JANELA NO TELHADO. Parabéns e obrigada por este miminho delicioso.
.
Isabel Esse disse...
Também é poeta a Ana,de quem eu já gostava tanto da prosa!Muito bonito este post,traduzindo bem a esperança que todos temos que todas as janelas se abram para e sobre os nossos filhos.
.
F. Clérigo disse...
Belo Poema o de Ana Braga...Lá está...o efeito multiplicador em nós...recordou-me de imediato um texto que também escrevi à minha filha, em estilo de prosa poética...não a propósito de uma janela, mas de uma parede do seu quarto pintada de verde alface...
não sou perito em poesia mas este é um belo poema em que estão todos os sonhos que temos para os nossos filhos.proporcionando-lhes horas boas mas preparando-os para as horas más - que enfrentarão sozinhos.muito bom!j
.
Não é frequente a poesia nos artigos do nosso blogue e isso torna ainda mais notáveis aqueles em que é utilizada.
.
A Ana é uma autora de posts sempre muito pessoais, misturando uma grande sensibilidade e um arguto espírito de observação. Como normalmente só as mulheres sabem fazer, parecendo sonhar enquanto se mantém atenta aos outros. Já realcei esta sua qualidade, que transparece sempre nos seus excelentes comentários e é particularmente evidente aqui, a propósito de outras colaborações.
.
Não resisto a comentar o poema da Ana Braga, que escreve muito bem, por aquilo que revela: O sentir que aquela janela, no futuro, seria mágica para a filha - é também um gesto não só predictivo mas em si próprio também mágico - para além da ternura, sensíbilidade e inteligência que respiram nas entrelinhas.
Não posso deixar de me sentir reconhecida pela forma tão simpática como acolheram o meu texto e o calor que conseguiram transmitir-me através das vossas palavras. É muito gratificante perceber que aquilo que escrevo, de forma sincera e despretensiosa, tem tido a força suficiente para chegar “à outra margem”.
.




