ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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UM EMAIL QUE, DIZEM, É UMA ESPÉCIE DE CRÓNICA ...

O que se segue não foi escrito como uma crónica, é um email que eu enviei ao Zé Carlos Faria (daí o título) a propósito do texto por ele aqui publicado há 3 dias, que considerei uma visão bem estruturada, mas sombria, do ERO. Ele respondeu: "Agradeço-te de coração o teu escrito. Acho sinceramente que convertido em formato de artigo seria muito interessante no blogue". E eu faço-lhe a vontade, mas sem conversão.
Peço a todos os nomeados na conversa que considerem acrescentados os devidos Srs, Drs. e outros títulos a que têm direito, porque em conversas entre colegas essas coisas, às vezes, desaparecem...JJ

Olá Zé Carlos
Não há razão para quaisquer justificações da tua parte e eu publiquei a crónica porque achei que devia ser publicada. As minhas reticências tinham a ver com o tamanho do texto, um pouco extenso demais para o habitual neste espaço.

Não pensamos de forma diferente em relação ao Padre Albino e aceito mais ou menos por inteiro os factos como os referes, mas não me revejo no Colégio que descreveste. Circunstâncias pessoais e familiares diferentes, formas de pensar e agir distintas, fazem-nos ter imagens e emoções diferentes na sua evocação. Eu nunca fui, por exemplo, fisicamente castigado por ninguém, Albino incluído.

Tenho, das regras que descreves, a recordação da permanente transgressão: namorei abertamente meia-dúzia de colegas a partir do 3º ano, ladeira abaixo e acima, mais dissimuladamente no Anfiteatro e na Biblioteca (tantas vezes aberta e sem ninguém a tomar conta,deviam pensar que ninguém lá ia...), até no confessionário nos intervalos em que não havia missa. Fui sujeito a um processo disciplinar por ser visto a sair da Mata à hora de almoço com uma colega e a única coisa que obtiveram foi a afirmação do meu Pai que ficava satisfeito por me saber um adolescente normal. Eu e outros fumámos nas casas de banho, no recreio e a meio dos corta-matos do sempre entusiástico Silva Bastos, enquanto os "atletas" subiam a Rua dos Loureiros. O Flores chegou a fumar dentro da sala de aula, acredita, enquanto o Miguel travava verdadeiros combates de luta livre com os colegas sentados na carteira à sua frente (desgraçados Silvestre e Rui Malaca). O Manuel Nunes ouvia relatos de futebol com um rádio portátil e auscultadores (caro o pagou depois...). Era uma festa.

Saí todos os anos no intervalo grande da manhã, sob pretextos vários, como ir buscar livros e cadernos esquecidos em casa, para me ir empanturrar de pastéis de nata quentes "cravados" à minha Mãe e às amigas que tomavam, a essa hora, café na Zaira. Lembro-me do Tó Zé Hipólito como companheiro entusiasta dessas excursões.

O meu cabelo e o do Rui Ferreira da Silva eram um alvo constante da atenção do Director. E acumulavam-se as desculpas para não o cortar, falta de tempo por ter muito que estudar, os pais não terem dado dinheiro para o efeito, barbearias muito cheias, "se o Sr Padre quiser eu vou hoje, mas tenho que faltar à aula de Ciências…". Era um jogo de gato e rato em que o gato ganhava sempre mas o rato tinha os seus momentos! E havia sempre as camisas às flores e com folhos, o lenço colorido atado ao pescoço (eu e o Rui, sempre os mesmos), os colarinhos à Mao, as camisolas cor–de-rosa, às riscas e com desenhos, tudo transgressões (?) que deixavam o homem à beira de um ataque de nervos. Do outro lado do muro a Anabela travava a mesma batalha, mas com o comprimento das saias e, ou a idade já me atraiçoa ou não me lembro de as ver com saias compridas... Emoção a rodos em embates desiguais, mas em que vendemos sempre cara a derrota.

Dos contínuos e das suas queixas resultou um dos três dias de suspensão a que tive direito. Por descobrir um método para fechar as portas das retretes por fora não ficando ninguém lá dentro, vê lá o crime! Eram uns pobres diabos, não lhes guardo qualquer rancor.

Não tenho idéia de sentir qualquer terror nas aulas do Azevedo, mas admito que era bom aluno e visita assídua de casa dele. Talvez por isso, sofria mais o filho dele e meu colega de turma, o Zé Luis, do que eu. E lembro-me com carinho do Padre Renato(Português, Canto Coral e Desenho) um dos melhores homens que conheci e que há 40 anos nos deixava fazer pequenos teatros no meio das suas aulas(eu, o Zequinha e o Flores); a surpresa das aulas informais do Lopes (Matemática, Geometria Descritiva e Geografia, ainda um dia hei-de falar dessas aulas de Geografia), do entusiasmo contagiante da Ermelinda (será este o nome?) que no 4º e 5º Ano me fez apaixonar pela História e me tentou ensinar a fazer uma composição, começando logo por me dar Medíocre num exercício piegas e lastimável que eu fiz sobre (imagina!)"A Saudade". Tinha a mania que sabia escrever… fez-me bem! (se ela me lesse agora, classificar-me-ia na mesma?). A dedicação e o empenho do Serafim(Matemática e Fisico-Química), grande professor, e a absoluta inabilidade da nossa querida Super para dar Filosofia, ela gostava era de História, com terra nas mãos e nas botas (e de um bom petisco ao almoço). Devo o que sei de Francês à Cândida e de Inglês ao marido, o Luis ; um pouco também à Inês, de quem tenho uma foto num magusto e uma boa recordação , apesar da injusta expulsão de uma aula dela me ter valido também outro dia de suspensão. Foi uma espécie de acumulação de "cartões amarelos", tendo sido corrido de quatro das seis aulas a que assisti numa malvada quinta-feira de Abril. Como nos corria quente e rápido o sangue nessa altura do ano, éramos certamente insuportáveis!

Mas estas doces recordações não tornam menos abominável a Madame Inc.(lembras-te da Cristina? essa sim, merecia uma crónica de terror), menos monótonas as aulas da Nicole e do Albino (quem lhes disse que podiam ser professores?), nem me recordam outras eventuais nulidades que já esqueci.

Lembro-me de um tempo em que fui feliz, de Invernos com poucas preocupações e muitos amigos, festas, namoradas, música (todo o dinheiro que arranjava era para LPs na Tália), futebol, fins de tarde na Zaira, Camaroeiro ou esplanada do Parque, serões loucos a “estudar” em casa dos que tinham sótãos ou caves mais reservados (lerpa, king, algum álcool e os primeiros cigarros), matraquilhos na Floresta e bilhar no Central. E, a seguir, 3 meses com os gostos e desgostos dos amores de Verão, praia de manhã, ténis ou cartas à tarde e Casino ou Ferro Velho à noite. Há lá Albino que estrague isto?

Os nossos quadros têm os mesmos motivos mas as cores são diferentes.... Quem tem razão? Os dois, claro. E é por isso que ambos os testemunhos fazem falta no Blog.

Um abraço

JJ

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comentários:

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11Dezembro , 2007

Alguém disse :
Classificação: Muito Bom

Guidó

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11 Dezembro, 2007

JJ disse:

Na ausência da Dra. Ermelinda, vou usar a tua classificação. Mas ela não seria tão complacente, tenho a certeza.

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11 Dezembro, 2007

Filipe disse...
Desculpem a intromissão de alguém que não andou no Ramalho Ortigão mas sim na Escola Industrial e Comercial, escola esta que fez muito mais do que que propiciar a possibilidade de honradamente os seus alunos terem emprego.Sendo o vosso blog público não levarão seguramente a mal o meu comentário.Nao vivi o ambiente do colégio mas convivi com alguns alunos ao tempo, e sinceramente nunca me apercebi de uma imagem tão negativa como o Faria transmite no seu texto. Talvez não seja essa a sua intenção nem o seu sentimento, mas parece-me existir alguma mágoa interiorizada a que ainda não conseguiu fugir.Revejo-me muito mais na imagem que o Jales transmite.

O v/blog está excelente, os meus parabéns.

Filipe Domingos

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11 Dezembro, 2007

E.R.O. disse:

É com ENORME prazer que acolhemos este comentário de um aluno de uma Escola onde sempre tivemos muitos amigos , apesar da existência de uma saudável rivalidade. E os magustos e festas da Escola Comercial, podemos reconhecê-lo hoje, eram muito mais divertidos que os do Colégio!

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12 Dezembro, 2007

Miguel B M disse:

Uma palavra sobre o comentário feito pelo aluno da escola.E é bom que elementos estranhos ao ERO mas nosos contemporâneos e com quem convivemos dêem a sua visão sobre aqueles tempos.É claro que nada transparecia para o exterior.Mas nós éramos jovens, despreocupados, visionários, e vivíamos a vida intensa e alegremente. E a rivalidade que havia com a escola era só nas diversas competições desportivas.Quanto ao mais apreciávamos imenso o convívio com os colegas da escola e especialmente com os borrachos que eram muitos e muito simpáticos.

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Dezembro 13, 2007

Alguém disse:

…..este texto é doce como hidromel, viciante como ópio e tóxico como absinto …. não sei se continue a ler a noite toda ou se deixe de vir ao blogue antes que fique dependente ….. Luisa

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Dezembro 13, 2007

JJ disse:

Se não desconfiasse que esta Luisa é um Luis travestido, ainda lhe dava o meu nº de telefone. Mas vivemos tempos duvidosos ...

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Dezembro 13, 2007

Miguel B Monteiro disse:

Em relação ao artigo do JJ subescrevo-o na totalidade.Felizmente a maioria das coisas que aconteceram foram boas e devemos recordá-las.Ainda para mais o JJ escreve cheio de nostalgia a que não posso ficar indiferente,senão sensibilizado.

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Mais duas para o Álbum de Memórias

Lembro-me bem do meu sogro, indefectível defensor do realismo na arte cinematográfica, sempre que num filme acontecia algo de mais improvável, menos verosímil ou menos conforme a realidade diária, comentar com o enfado de alguém a que tentaram, sem êxito, enganar: "Só os americanos!". Os filmes tinham, normalmente, uma ou duas hipóteses; se a cena era muito pouco plausível ou se reincidiam, ele abandonava. Mas há realmente coincidências incríveis, a vida é muito mais estranha do que a ficção.
Domingo, 9 de Dezembro de 2007, duas da manhã, eu o Vasco e o Flores conferenciávamos no Skype sobre as possibilidades de editar aqui neste Blog uma fotonovela com o que REALMENTE se disse, pensou e fez no convívio na Lareira (preparem-se para revelações escandalosas!), isto é , eles falavam sobre pps e ppt, video pro editor, medias converters, avis e outras abstrusidades, enquanto eu os ouvia como se eles falassem mandarim .... Para me integrar na conversa, o Vasco pergunta:"Ficaste com o contacto do Óscar Oliveira? Tenho umas fotografias para ele". Estava eu a responder que não sabia do Óscar há 36 anos quando "tlim!" a mensagem que se segue irrompeu no canto direito do meu monitor, introduzida pelo avisador do Gmail. Seria neste momento, indignado e incrédulo ao saber o nome do impossível remetente, que o meu sogro se levantaria e se iria embora. Espero que vocês fiquem e leiam.
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Olá a todos. Eu sou o Oscar (no ERO de 65 a 72).
Inscrevi-me no almoço do passado dia 17, passei a mensagem a algumas pessoas, mas à última hora não pude comparecer. Espero não faltar aos próximos eventos.
Só mais tarde vim a saber do blog, que tenho consultado religiosamente.
É giro rever as fotografias, quer as antigas quer as de agora. No entanto, alguma memória já vai faltando para associar uma ou outra fotografia ao respectivo nome.
De qualquer forma, fez-me apetecer desenterrar do baú das memórias algumas fotografias antigas, das quais, por agora, mando duas.
A primeira julgo datar do ano lectivo de 1969/70
(5.º ano), já que penso que o atleta que está ao meu lado (em baixo, à direita), que me parece chamar-se Virgílio, só frequentou o Externato nesse ano (tenho uma vaga ideia que tinha vindo do Seminário, mas não estou certo). Os outros são, em pé, da esquerda para a direita: João (Costa), Papoila, Zé Carlos Faria e António Rodriguez; em baixo, pela mesma ordem: Chico Carrilho, Alberto Pereira, eu e o Virgílio. Como é evidente, trata-se da fotografia de um jogo disputado no recreio dos rapazes, numa aula de Educação Física com o prof. Bastos.
A outra fotografia é do magusto de 1971 e vêem-se o Frederico Granja, o Silvestre, o Mário Pacheco e eu.
Deste magusto, tinha uma fotografias muito engraçada, com o Tó-Quim de garrafão à boca, mas não a encontrei para mandar.
Também tenho algumas fotografias engraçadas da viagem de finalistas de 1971, que mandarei em breve.
Há muitos colegas com quem continuo a manter contacto, até porque não estou longe. Depois de ter deixado de morar nas Caldas em 1972, estive 15 anos em Lisboa e desde 1987 que resido em Alcobaça.
Vou mantendo contacto e, naturalmente, a consulta do blog.
Beijinho e abraços
Oscar
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comentários
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9 Dezembro, 2007
E.R.O. diz:
Estas fotos são sempre benvindas e muito apreciadas por todos. É pena não haver mais colegas a enviá-las, particularmente de gerações anteriores. E estas duas são especialmente saudadas pelos editores porque vêm já com os nomes dos "artistas"e localização dos "eventos"!
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26 Dezembro, 2007
JJ diz:
A foto que o Óscar refere nesta mensagem não ter encontrado, foi posteriormente publicada no artigo "A FOTOGRAFIAS DOS MAGUSTOS" em 26 de Dezembro.

Está-me a apetecer ouvir os Shadows

O azul do Windows rasga-se no monitor à minha frente, antes que o apontador comandado pelo rato seleccione o browser num click. E pronto! Lá vou eu Rua Diário de Notícias acima, passo estugado de regresso ao colégio.

Poucos metros à frente segue o JJ, ambas as mãos ocupadas. Na esquerda um best dos Shadows, na direita o primeiro fascículo do novíssimo dicionário “Who is who” acabado de levantar na Tália, num ritual que se irá repetir semanas a fio, enquanto o editor não tiver registado os traços mais marcantes desta época irrepetível.

A primeira aula é a do Dr Lopes e hoje ele vai-nos falar de algo tão surpreendente como o espaço multi-dimensional. Como é que se irá desenvencilhar de matéria tão hermética junto de uma tão tridimensional população? Porque será que temos tanta dificuldade em compreender que para além das dimensões físicas em que o nosso corpo diariamente se afirma podem existir outras igualmente reais?

Imaginem uma aranha que tece um fio e nele vive a totalidade da sua existência. Os seus movimentos resumem-se a percorrer as duas direcções num vaivém perpétuo em ambos os sentidos. Tal como a nós para além dos limites cartesianos, a ela está-lhe virtualmente vedado compreender que há mais espaço para conquistar.

Hei-de lembrar-me mais tarde, vezes sem conta, deste artifício pedagógico que continuará a excitar-me o espírito tal como hoje nesta aula estimulante. Podemos não ter resolvido integralmente o problema, mas as nossas mentes ficaram bem mais tranquilas e preparadas para o vendaval que se haverá de seguir na aula de Laboratório de Biologia da Drª Cristina.

Afi
nal não era preciso gritar! E nem nos parece de todo que o Branco merecesse falta de material. Com uma lâmina Nacet, um belíssimo canivete suiço, um saca-rolhas e uma tesoura de costura pode perfeitamente dissecar-se o pombo, analisar-se-lhe as entranhas e registar com detalhe as observações científicas recomendadas no exercício.

Assim se lhe desse uma oportunidade de demonstrar a sapiência do povo quando diz que “quem não tem cão caça com gato”.

Dissimulámos os sorrisos, mas invejámos-lhe a coragem. O Branco foi mais cedo para intervalo e nós suportámos a destilação do humor da nossa circunspecta professora até ao toque misericordioso da campainha, evitando-nos a provação de assistirmos à decomposição dos cadáveres que jaziam nas bancadas.

JJ, está-me a apetecer ouvir esses Shadows na tua aparelhagem hipnótica da qual emanam superlativos sons que só se hão-de democratizar mais tarde. Vamos?

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E.R.O. , por José Carlos Faria

Recebemos por email este artigo do José Carlos Faria. Pedida a opinião a um dos editores, ele escreveu:

O artigo está muito bem escrito, apesar de pessoalmente não subscrever algumas partes da visão que ele transmite. Mas as visões são mesmo assim, pessoais e com doses de subjectividade variáveis segundo os autores.
Interrogo-me também sobre a sua extensão, parecendo-me que este meio pode não conviver muito bem com artigos demasiado longos...
Em todo o caso, é seguramente mais um contributo para o enriquecimento do Blog e para o sucesso da iniciativa.

Aqui está, à vossa disposição para ler e comentar.


Externato Ramalho Ortigão

por José Carlos Faria

A «Ramalhal Figura» (como Eça lhe chamava) era o patrono tutelar. Da sua fina ironia e das «Farpas» de crítica mordaz, pouco ouvimos falar. Talvez o facto de, perante a Mofina, ter renegado a condição de ateu confesso e anticlerical impenitente, indo desta para pior confortado com a extrema-unção e os sacramentos da Santa Madre, acabasse por justificar, para cónegos, bispos e cardeais, o seu nome em relevo no frontão duma entidade pertencente ao Patriarcado.
Liceu era uma via aberta que conduzia directamente à Universidade, mas só existia nas capitais de distrito. Nas pequenas terras de província restava como alternativa o ensino particular ou as Escolas Industriais e Comerciais, formatadas para propiciar honradamente um emprego, ponto final. Para quem delas viesse e quisesse continuar os estudos, tinha pela frente um calvário tortuoso, que, aos mais persistentes e só a esses, conferiria enfim o direito a integrar o número dos «happy few» universitários. E cara alegre, já que o entendimento dominante num país com bem mais de um terço de analfabetos confinava-se ao ler, escrever e saber as quatro operações. E não para todos, claro!
O Colégio, portanto. Aliás, Externato: o E.R.O.

Em Outubro de 1965, o Benfica de Costa Pereira, Coluna, José Augusto, Torres, Simões e do número De(u)z Eusébio, ganhava campeonatos em séries de três, os Beatles estavam à beira de editar «Rubber Soul» com «Girl» e «Michelle», e eu, de alma amortalhada na borracha duma gabardina nova dum escuríssimo castanho, comprida e com capuz (quase um hábito fradesco) a qual, como de costume e para desespero do meu casal progenitor, viria a perder rapidamente, dava entrada (bicho pequeno assustado) no ginásio/salão de festas do E.R.O. para a sessão de boas vindas do novo ano lectivo.
«Não há bons alunos nem maus alunos. Há tão só alunos que estudam mais e os que estudam menos», perorou o Director. Pertencendo eu arreigadamente ao segundo grupo, durante os anos que se seguiram tive de ouvir o meu pai repetir até à náusea tão douta máxima.
Para um novato caloiro, a guerra colonial em três frentes, que barrava o horizonte, era, naquela altura, apenas as imagens do «nós por cá todos bem /adeus até ao meu regresso» a zumbir na televisão e o eco longínquo, infiltrado na sala de aula, das explosões de obus e tiros de G-3 no campo de treino
militar. Ao fim da tarde, entre mornos pastéis de nata da "Frami"
e a consulta gulosa dos discos da "Tália", podia-se assistir ao desfile extenuado de magotes enlameados dos magalas do RI5, em camuflado, a marcar com os pés no chão, em cadência marcial, a rota batida para o «Ingola é nossa». Aqueles rebanhos de desgraçados em fardeta, vindos da instrução de armas, marchavam perante o bando de basbaques que formávamos no passeio e que, a curto prazo, intuiria ser uma outra Instrução um recurso precioso para fintar sina tão mal fadada.
No E.R.O., louvados sejam os Deuses, não existia Mocidade Portuguesa. Dela restavam uns tristes trastes num canto esconso da arrecadação e dois tambores esventrados, despojos empoeirados de defuntas glórias e dos «clamores sem fim» do «Lá vamos cantando e rindo, levados, levados, sim». Sobravam, no entanto, propósitos blasonados de brio e aprumo. Com Mãe e Avó, 2-familiares-2 como docentes no Colégio, era suposto dar exemplo. O meu, foi sempre, na medida do possível, o da irreverência e da insubmissão, porque contra contínuos, «profes» e sanções paternas, tinha uma reputação para defender na selva do recreio. Nada de cedências, mesmo (ou sobretudo), afectado, como tantos outros, pelo sindroma inculcado dos três P’s: Pais, Padres e Professores. Era pois, por vocação, um desalinhado (no corpo e no espírito). Para não tão poucos assim, o Quadro de Honra era uma infâmia, edital aviltante afixado no átrio. Orgulhosamente na corda bamba feita fio da navalha, entre o alfa e ómega do 9 e do 12 (chegava e era óptimo), não ignorávamos que a fama de melhor instituição de ensino do distrito de Leiria ditava a subavaliação interna e rendia o proveito de, pelo menos, dois a três valores suplementares nos exames: suficiente transmutava-se em bom!


Num universo concentracionário de portões fechados a cadeado e corrente, pátios e escadarias separadas para gineceu e androceu, o ritual de passagem acontecia no 5º ano, com o cartão que facultava, nos intervalos maiores, sair, para tirar umas passas (não, ainda não eram cigarrinhos de fazer rir), às escondidas do senhor Caria, ex-polícia reformado, de feitio cariado pelo serviço na Corporação e, («ordes» são «ordes»), oficial a tempo inteiro do santo ofício de apontar nomes para minudentes relatórios ao Padre Albino. O todo poderoso Padre Albino! As protuberâncias quistosas na calva deste espectro em perpétuo negro, vértice da hierarquia e de medíocre magistério, surgiam como uma crista ruim, signo cruel da maldição violácea que o coroava e cujos efeitos sofríamos em metódica repressão, quase como se procurasse alívio nas humilhações que espalhava a eito. O focar dos olhos azul-aço, por detrás da fronteira gélida das lentes, era já uma devassa impiedosa. Os tufos de pelos nas orelhas de abade Camiliano, brotavam de igual modo nas falanges, falanginhas (não sei se nas falangetas) dos dedos grossos, diligentes em ocasionais e viscosas festas nas nucas duns infelizes, desconsolados eleitos, ou em mais frequentes e enérgicos puxões de orelhas, (engalanados pelo requinte da garra adunca do polegar cravada no lóbulo), quando não em girândola de bofetões estrepitosos (e bofetões havia-os de quase todos os tipos e para todos os perfis; os didáctico-pedagógicos eram a especialidade do Dr. Azevedo nas aulas de Matemática, distribuídos em relação directamente proporcional aos erros cometidos. À minha condição «caixad’óculos» era concedido o privilégio de aviso prévio. No final, estava-se apto a extrair raízes quadradas e as raízes dos molares…).
A ladeira das 5 Bicas perfilava-se como uma via rigorosamente vigiada pelos zeladores da Moral, sempre dispostos a identificar onde quer que fosse a horrenda fisionomia do pecado, almejando sexos em forma de cruz e de pias de água benta. Contrariando ingénuos (e incipientes) amores adolescentes, preconizava-se lados distintos da estrada para rapazes e raparigas (norma ostensivamente ignorada), sim, que a canga da suprema disciplina (ler diciplina) estendia-se até casa.
Pontificavam as rusgas e inspecções minuciosas ao tamanho das guedelhas masculinas (cuidadosamente dissimuladas no esconderijo pouco fiável do colarinho) ou para avaliar o grau de pureza do comprimento das bainhas das saias, escondidas sob o uniforme multicolor das batas às riscas. Emprestávamos medo e t(r)emor sob a aparência de respeito e recebíamos cautela. Cautela com tudo! Diga-se que por vezes rasgada em pedaços de gáudio descarado, como quando o Canhão, obrigado a cortar a grenha, ousou afrontar a intimação com uma esplêndida e radical ida à máquina zero, conquistando, em simultâneo, a admiração geral e uns dias de suspensão; ou quando uma tropa fandanga, de para aí uma centena de moços, miúdos e graúdos irmanados, decidia vingar-se e achincalhava, em coro uníssono, os contínuos, pobres homens, encarregues de serem os primeiros vigilantes da Ordem e da Autoridade, contestada ali pela insolência, espontânea, instintiva e inconsciente da pandilha em turbamulta…
E assim fomos, pouco a pouco, crescendo e perdendo a inocência, entre muros, onde, apesar de tudo, conseguíamos a bênção e a proeza duma alegria sadiamente estouvada.







Nós, os filhos dilectos da pequena burguesia, impropriamente tomados por elite (as propinas eram caras e o esforço familiar considerável), com todas as naturais diferenças de percurso, de visão do mundo e de opções de vida, fomos capazes de encontrar um caminho norteado pela honradez e dimensão ética. Sem isso não há qualquer sucesso nem qualificação profissional que valham. E este é porventura o maior elogio que se pode fazer ao E.R.O.
Há quem se vanglorie dos homens de Estado formados numa dada escola, à laia de atestado da sua presumível excelência. Não é esse o nosso caso, felizmente!
Tal como escreveu Su-Tung P’o, poeta chinês do século XI, citado por Bertolt Brecht:

As famílias quando lhes nasce um filho
Desejam-no inteligente.
Eu, que pela inteligência
Arruinei toda a minha vida,
Só tenho a esperança de que o meu filho
Venha a sair
Ignorante e tardo no pensar.
Então terá vida tranquila
Como ministro no Gabinete

Saímos todos, sem excepção, um pouco mais espertos, graças sejam dadas…


José Carlos Faria

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comentários:
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Dezembro 12, 2007-12-12
Miguel B M disse:
Comentário ao artigo do Faria
Na minha opinião o artigo do ZCF pode ser analisado de duas maneiras. Do ponto de vista literário trata-se de uma escrita densa e que precisa de ser lida atentamente. O autor revela uma erudição assinalável e facilidade de expressão. mas o conteúdo peca por defeito. Embora eu não concorde com as observações em relação ao dr AJAzevedo, pois ele não era como a fama que o precedia fazia crer, e no dia a dia até era uma pessoa agradável e afável,quanto ao resto eu teria sido mais duro que o autor. E poderia acrescentar mais meia dúzia de situações inenarráveis, espiões, delatores, coacções, perseguições, castigos e proibições injustas e desajustadas. Tivémos profs magníficos como a Super de boa memória ou o dr Tó Zé Lopes,mas também tivémos docentes execráveis. Vivemos agora um período particularmente agradável graças ao almoço e especialmente ao blogue,que nos permite fazer uma viagem no tempo sempre que o queiramos. Temos a ponderação que os cabelos brancos proporcionam e que nos permite analisar (julgar?) os factos que ocorreram há muito tempo. Mas não podemos esquecer esses mesmos factos porque vivemos coisas muito desagradáveis,perfeitamente evitáveis e desnecessárias. E isso molda-nos em termos de futuro. Eu dou apenas um exemplo: tenho as minhas convicções cristãs e acredito na maioria dos dogmas da religião,no entanto sou profundamente anti-clerical. Mas esta conversa levava-nos muito longe
….

Bonanza - Intro (Opening Theme)

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