Jantar de professores, Natal de 1964Tive o Padre Renato como professor de Canto Coral, Português e Desenho. Foi sempre um professor empenhado e preocupado com o resultado da sua acção pedagógica, chegando a fazer verdadeiras aulas de recuperação, ou reforço, destinadas aos alunos interessados, ao Sábado à tarde, no Colégio. Perseguia os seus alunos de Latim do 7º Ano para lhes dar explicações em casa e nos Cafés, mas isso espero que sejam eles a contar.
Era pessoalmente uma pessoa estranha e imprevisível, como o João tão bem descreve, capaz de mudar subitamente de uma beatitude quase infantil à mais incontrolável das fúrias. Lembro-me de aulas interrompidas a meio, com alunos a sair da sala pelo ar (quando foi a minha vez de voar entre a 3ª fila e o corredor, a porta estava felizmente aberta), livros de ponto rasgados ao meio, os seus óculos e canetas violentamente esmagados em cima da secretária. Mas quando estes objectos eram repostos por alguns encarregados de educação que, conhecendo os filhos, sabiam que a culpa não era só do Sr. Padre, ele ia à Tália ou ao oculista trocá-los por similares mais baratos e usava o diferencial com os pobres e a Igreja de Tornada. Tentou fazer isso com um sobretudo comprado na Góia por algumas mães de alunos, numa colecta organizada na Zaira (não, não era só um ninho de víboras). Foi avisado o Adelino e, quando o bom do Padre tentou trocá-lo por algo mais barato, foi informado que o sobretudo não fora lá comprado, tinha seguramente vindo de Inglaterra e não podia ser devolvido. Usou-o duas ou três vezes, convencido pelo Padre Xico que seria uma afronta não o fazer, mas acabou, no ano seguinte, a agasalhar um pobre seu protegido.
Os seus dotes de hipnotizador eram inegáveis, várias vezes o vi exercitá-los no recreio do ERO. Vi um colega beijar uma coluna convencido que era a sua mãe, outro de gatas julgando-se um cão e outro ainda, convencido que era já de noite e estava atrasadíssimo no regresso a casa, ficar indescritível e genuinamente aflito. Um episódio em que um garoto, julgo que em Tornada, durante uma sessão destas atravessou inadvertidamente a estrada, arriscando-se a ser atropelado, levou o hipnotizador a reduzir muito a sua actividade. Foi ele próprio que me relatou este incidente.
No Canto Coral eu e o Miguel Bento Monteiro tivemos o mesmo destino do João Serra, absolutamente proibidos de emitir um só som enquanto a turma cantava. Tinham lugar estas aulas no anfiteatro, ao fundo do corredor do 1º andar. Chegámos ambos a tentar cantar o nosso melhor, muito baixinho: mal começávamos, uma mão descontrolada deixava de marcar o compasso e batia furiosamente no tampo de pedra! O ouvido do Sr. Padre Renato não suportava as nossas melhores tentativas, por mais que nos esforçássemos e lá vínhamos nós passear até ao recreio, normalmente enfiados pelo Sr. Ulisses na Sala de Estudo, onde medíamos forças com a D. Dora para ver quem perdia a paciência primeiro. Ela era um adversário duro, não ganhámos sempre.
Soube depois que as nossas duas notas de Canto Coral eram depois “negociadas” nas reuniões de turma no fim do período, na base da média das restantes notas de cada um de nós. A obtenção de 14 ou 15 valores numa disciplina onde nada fazíamos era motivo de indignação entre alguns colegas que cantavam afanosamente todas as aulas para obterem notas iguais ou mais baixas…
Nas aulas de Português do 4º Ano fomos sujeitos a um curso intensivo de Latim, mas por culpa nossa, claro. Bastava perguntar “oh Sr. Padre porque é que se escreve esta palavra assim?” ou “porque é que este verbo se conjuga assado?” para garantir uma aula sem problemas até ao toque final. O único que se podia queixar era o responsável pela limpeza do quadro, que tinha depois que apagar declinações e evoluções fonéticas e semânticas sem fim. Eu, o Flores, o Zequinha e o Vítor Gil ensaiávamos pequenos sketches com anedotas que representávamos nessas aulas, numa iniciativa de dinamização da sua hora lectiva que contrastava com a mortal agonia das aulas de História do Padre Albino, por exemplo.
Finalmente as aulas de Desenho à Vista, no 5º Ano, onde o Sr. Padre conseguiu que eu obtivesse dezasseis no exame final! Habituado toda a vida a ver gabadas as minhas mesas e cadeiras quando tentava representar vacas e cães, a minha nota foi um resultado notável …. do professor! Quem já viu qualquer desenho meu sabe bem o milagre que aquela nota significou. Foi aqui que aproveitei as suas aulas de Sábado à tarde, na sala contígua à sala dos professores, aprendendo a desenhar, e depois a pintar e sombrear com lápis de cera. Claro que alguns roubavam os seus cigarros, Português Suave sem filtro, e fumavam à janela, outros fugiam a meio para ir jogar para a Mata, aproveitando uma tarde em que a família não colocava grandes problemas de horários, visto teoricamente estarmos no Colégio (difícil explicar por vezes como arruinávamos umas calças ou uns sapatos a desenhar, mas a imaginação juvenil e a paciência maternal não têm limites…). E o Padre Renato, passadas as momentâneas fúrias, tudo perdoava.
Um homem bom, dos melhores que conheci, o Padre Renato.
Mas será possível que naquele colégio fossem todos duros de ouvido???Estou a brincar,o sr padre é que era muito exigente e eu ainda me lembro naquela altura de ser motivo de risota o João tentar cantar qualquer música!!!Era uma desgraça incompreensivel.Pelo contrário a escrever é fantástico,os textos e memórias fazem-me reviver aqueles anos como se fosse ontem.....e o sr padre Renato merece esta qualidade
Júlia Ribeiro disse:
Lê-se sem qq esforço,prende a atenção,vamos até ao fim! Olha que terias sucesso !
Está (não consigo exprimir por palavras)uma maravilha,talvez,mas não gosto desta palavra...olha,IMAGINA!Bjs
Júlia
Jorge disse:
esta série promete, se toda a gente desatar a escrever assim sobre todos os professores. o Padre Renato a respigar e hipnotizar, a filha da Isabel(é mesmo Renata!?) as aulas dele e as suas fúrias, como tu descreves, tudo, como a ti,me trouxe memórias.abraço
Luís disse:
Este foi o homem mais extraordinário que conheci no colégio,partilho convosco todos os elogios.
A qualidade dos posts continua alta,e o retrato da São é muito bom.O texto do João Serra fala do bricalhão,o da Isabel do homem com coração de ouro e o teu do professor querido de todos.
será possível escreveres tão bem sobre outros professores?Ou até nisso o Padre Renato teve culpa,como no teu desenho do 5º Ano? Luis
Seja neste, seja no blog da Escola, o Padre Renato está sempre presente. Nestes dois sítios já passaram todo o tipo de manifestações de apreço que todos nós temos, tivemos a seu respeito. Eu por exemplo já referi que adorava parar a bicicleta que me transportava para a Escola, no cimo da longa (na altura) subida dos moinhos do Chão da Parada, e ficar a admirar os seus trabalhos de aguarela enquanto ele pintava. O meu primo Louro, refere orgulhosamente ter sido por ele casado em Tornada, e guardar religiosamente umas telas que ele lhe deu na altura. Todos relembramos a dificuldade que tínhamos em fazer sair um qualquer som válido das nossas vozes. Será que no meio de todos aqueles potenciais cantores haveria afinal alguém que não desafinasse?




