
DESPERTAR

DR. AZEVEDO (Laura)
A Matemática para ele, era como para nós comer um bolo. Basta relembrar que até as soluções dos exercícios ele sabia, antes destes serem resolvidos, o que a mim me deixava perplexa.
Ensinava com clareza e castigava com ligeireza. Bastava o Benfica perder para, à 2ª feira, as aulas serem um suplicio.
Quando de castigo levávamos para T.P.C. 60 exercícios do livro do Palma Fernandes para fazer; se não conseguíamos cumprir, tal como esperado, no dia seguinte o número de exercícios passava para o dobro. Era então no fim de semana que se conseguia remediar o assunto. Quero salientar que o professor não era nenhum carrasco, pois por vezes fazia-se esquecido dos castigos.
Era uma pessoa de personalidade muito forte, mas com uma relação com os seus alunos de excepção.
Se a memória não me falha, ele foi sempre o meu professor de Matemática do 1º ao 7º ano.
Para mim foi um Mestre.
Laura Morgado
Curiosamente ele sabia de cor todos os compêndios, pontos e vírgulas incluídos. Guida Santos
VERSOS E CARICATURA (Dr. Azevedo)

Dr Azevedo
Na aula de matemática
Ai Jesus que aflição
Mas que coisa tão apática
De cortar o coração
Quando ele entra lá na sala
Impera o magro terror
Nós só pensamos na ala
Lá pr’ó grande corredor
Quando à segunda-feira
Ele entra furioso
O Benfica fez asneira
E o zero é mais viçoso
Se por acaso ao entrar
Traz na mão sua batinha
Há reumático e o azar
Começa de manhãzinha
Mas apesar destas coisinhas
Preferimo-lo, é fenómeno
Os brônquios andam sãozinhos
Não sabemos polinómios.
Versos de MANUELA CARVALHEIRO (1963)
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COMENTÁRIOS
Manuela Carvalheiro disse:
Caros amigos
Foi uma óptima ideia, lançar um Blog na web sobre o Externato Ramalho Ortigão e os seus antigos alunos. Para alguns de nós, como eu, já passaram muitos anos desde esse tempo na saudosa década de 60. Nem faço contas, por causa das rugas. No entanto é bom ver que alguns de vós ainda se recordam de mim e eu através do Blog recordo-me de todos e dos anos maravilhosos da nossa adolescência e juventude. Um abraço muito especial à Júlia, a minha porta de entrada nesse mundo de recordações e de amizade. Fico sensibilizada ao ver como durante todos estes anos ela guardou os meus versos de pé quebrado, com que eu glosava as pessoas (claro os professores) e as situações. Obrigada Júlia. Agora vou com alguma frequência às Caldas recuperei a quinta de S. José, a dos magustos, e encontro também lá um pouco desse passado que se vive no Blog.
Gostaria de estar convosco. Tem sido difícil no almoço convívio, a data tem colidido com responsabilidades profissionais. Talvez no próximo ano. E aí nas Caldas? Alguns de vós estão por aí. Têm algum local de encontro? Quem sabe se proximamente poderíamos conversar.
Fico à espera e contem comigo sempre
Manuela Carvalheiro
Isabel Vieira Pereira disse:
Desta vez, só quero expressar a minha satisfação pelo aparecimento da Manela Carvalheiro. Agora só falta ela vir a Lisboa com alguma disponibilidade para nos podermos encontrar, como já foi falado.
A não ser que ela vá passar o Natal às Caldas e a gente se veja por lá. Isabel VP
João Jales disse:
A poeta tem momentos de maior e menor hermetismo ao longo das cinco quadras. Não sendo a poesia uma área da minha especialidade (o que neste caso me dá imenso jeito), deixo aos leitores e comentadores a tarefa de decifrar:
- “Nós só pensamos na ala /Lá pr’ó grande corredor” (será que queriam fugir da aula, correndo pelo corredor fora?)
- A quarta quadra, que implica uma relação misteriosa entre a sua batinha e o seu reumático (parece que sofrendo de qualquer afecção reumatismal deveria vestir algo mais protector que uma batinha. Ou trazia-a na mão, e não vestida, porque tinha dores?).
- “Os brônquios andam sãozinhos” também não devia ser verdade num grande fumador como o Dr. Azevedo (mas, se não sabiam polinómios, não “andariam sãzinhas” certamente as caixas cranianas da autora e colegas).
As caricaturas da São Caixinha mostram sempre talento. Acho esta especialmente feliz, como se além da imagem a São tivesse guardado mais recordações do Azevedo. Uma das surpresas desta série! (Já sabem que basta clicar sobre a imagem para a ver em tamanho grande)
Júlia Ribeiro disse:
Joãozinho:
Não sei que castigo te irei dar...vou pensar! Já sei.....Acabaram-se as provas da ginginha!
A dizeres mal dos "maravilhosos" versos da Manela que, com tanto esforço, os ia fazendo nas respectivas aulas e depois no recreio nos proporcionavam umas gargalhadas.....
Estás a pôr-me numa situação perigosa....a Manela ainda me vai excomungar, pois a autora é ela, mas a responsável deles aqui estarem é da Júlia (conheces ?),a minha sorte é que foi com o seu conhecimento....eu não faria isso sem a sua autorização.
Se virem bem,são um resumo do muito que aqui já foi dito em relação ao Dr. Azevedo. A batinha...o Benfica....a má disposição à 2ª feira...o reumático...não vejo como não percebeste!
Com isto tudo não achas que, às vezes, nos apetecia sair porta fora? Lá para o grande corredor....
Em relação à caricatura da São,mais uma vez nos mostra os seus dotes que desconheciamos até ao inicio do Blog. A postura...a careca...os óculos...a pastinha....e a particularidade do ponteiro que não me lembrava mas que logo recompôs algo à sua imagem. Para que serviria ? Alguém consegue descobrir ?
Parabens São!
E agora um apelo à autora de todos os versos de professores entre 1958 e 1965, Manuela Carvalheiro . APARECE, todos aguardamos que digas alguma coisa....Dificuldade em escrever não tens...já sei que é falta de tempo, mas arranja só 5 minutos......Serás bem vinda, até porque muitos colegas te conhecem pelos magustos na tua Quinta, ou será que só te viam no principio e se esqueciam de tudo mais para o fim?! Não me admira nada.......
Um abraço para todos, obrigada Manela.
Júlia R
Isabel Esse disse...
Esplêndida a caricatura da São Caixinha.Na minha opinião a melhor das que aqui apresentou,há não só semelhanças como expressão.Parabéns.Os versos da década de 60 são uma preciosidade,embora concorde contigo que num ponto ou outro se tenha perdido significado em favor da rima...Mas ninguém liga a isso!
João Ramos Franco disse:
A caricatura pela mão da São Caixinha está mais próxima da realidade do Dr. Azevedo, aquele traço dos lábios muito bem (enigmático qb). Os versos da Manuela Carvalheiro também se aproximam mais da realidade.
Talvez não saibam, mas comportamento dele para com alunos melhorou quando o Dr. Perpétua saiu da direcção. O Dr. Azevedo utilizava também a reguada, talvez com pouca frequência, “mas o receio dela estava sempre presente”. Quando a direcção do ERO passou para o Patriarcado, e como o novo director, Pe. António Emílio, não concordava que o medo de agressão fosse favorável ao ensino numa sala de aulas, os hábitos de bater de nos aluno desapareceram.
João Ramos Franco
São Caixinha disse:
Olá João!Já tinha esta tarde visto que tinhas publicado a caricatura, mas só agora tenho tempo para te escrever! Acho que ficou muito bem a acompanhar os ingénuos e engraçados versos da Manuela que indiscutivelmente deviam ter sido, na altura, grande fonte de divertimento! Bom, ainda me divertem agora...e o teu comentário também!!
Z C Faria disse:
Eu, abaixo assinado, que aqui considerei que com as intervenções pedagógicas do Dr. Azevedo se estava apto a extrair raízes quadradas e também as raízes dos molares, juro e declaro, pela minha honra e saudinha que, se os motivos para tal se deviam a um qualquer (na época, raro) desaire conjuntural do glorioso e pluribus unum Sport Lisboa e Benfica, então era por uma nobre e excelente causa...
José Carlos Faria (por extenso e tudo)
A Nónimo respondeu:
Eu, abaixo não assinado, que aqui considerei que as intervenções pedagógicas do Dr. Azevedo não eram as mais apropriadas, juro e declaro, por minha honra e saudinha, que, se os motivos para tal se deviam ao facto do Z C Faria ser do Benfica, então eram por uma nobre e excelente causa! A Nónimo
Margarida Araujo disse:
Que bem verseja Manuela Carvalheiro e a caricatura da São Caixinha é como sempre formidável. Dava para se editar uns novos Perfis com Professores. Claro que seria trabalhoso para a São, mas talvez se consiga a pouco e pouco.
Espero que por aí na Holanda o este teu trabalho tenha visibilidade. Por aqui também. É que é bom de mais para ficar escondido.
Margarida
Ana Carvalho disse:
São, as tuas caricaturas são fantásticas não te sabia tão grande artista, o que vale é que este blog tem dado a conhecer muitos talentos. Espero que haja mais caricaturas para aparecer aqui no blog. Beijos PP
Manuela Gama Vieira disse:
Parabéns à São pelos seus excelentes desenhos/caricaturas! Ao Dr. Azevedo, nem as rugas da testa escaparam...
À Manuela Carvalheiro, os seus versos talvez sofram das influências das aulas de Português, a preocupação com a métrica e a rima.
Conclusão: Alunos do ERO...uns TALENTOS!!! Manuela G V
Monólogos na aula de Matemática
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- Quem é que se está a rir?
O professor espreitava por trás do Júlio, de onde tinha vindo um movimento.
-Ah, és tu?
O professor tinha visto o Zé a tentar esconder-se.
- Vem cá meu “lindo”…
O Professor apontava para o Zé com a mão estendida e um sorriso nos lábios, como se fosse para o encorajar a aparecer.
- Sim tu. Não te escondas! Já te vi, chega aqui ao pé de mim.
O Zé não teve outro remédio. Levantou-se e foi até ao estrado. Quando passou perto do professor apanhou um “caldo” no pescoço. Encolheu-se, e apressou o passo para fugir do alcance da mão do professor e evitar outro “caldo”.
- Pega no giz!
Ordem peremptória e proferida em voz alta e firme.
- Agora escreve: cinco xis ao quadrado, mais três xis igual a dois. Hum. Eu disse ao quadrado…
“Carolada” na cabeça do Zé, com o ponteiro!
- É assim que se escreve? Apaga!
O Zé não sabia o que apagar e olhava espantado para o que tinha escrito.
- Não ouviste?
“Carolada”.
- Apaga, disse eu!
A turma, em silêncio inquieto, concentrava-se na cena. O Zé, aflitíssimo, enganava-se a todo o momento. Quando apagou o xis apanhou uma “carolada”, quando apagou o três apanhou outra. Já não sabia o que apagar. Algumas meninas rezavam para que ele acertasse, pondo um fim àquele suplício.
Mas o professor continuava:
-Então não sabes? Nem isto ao menos tu sabes?
O Zé finalmente acabou por ver que não tinha escrito o dois em cima do xis e, a muito medo, levou a mão até lá para finalmente o apagar e pôr em forma de potência. Às vezes quando íamos para emendar apanhávamos com o ponteiro nos dedos… Bom, desta vez, ao menos isso não aconteceu. Mal escreveu o xis ao quadrado e o resto da equação, ouviu-se:
- Está bem!
Acto contínuo, o professor virou-se de costas para o Zé (uma folga para ele, que soltou um pequeno suspirou de alívio) e dirigiu-se à secretária onde se sentou.
-Resolve!
Disse ele, enquanto se sentava cruzando as mãos sobre a barriga, sem olhar para o Zé.
Passados poucos segundos dirigiu-se a nós:
- E vocês também, ou o que é que julgam que estão aqui a fazer?
Olhava-nos ameaçador.
-Se vejo alguém sem estar a escrever vou até lá dar um “caldinho”! Sabem como são os meus “caldinhos”, não sabem?
Sabíamos… uns melhor que outros, mas todos sabíamos. Por acaso, o Zé era o que costumava levar mais “caldos”. As meninas levavam muito menos. O professor continuava com aquele sorriso trocista.
- Pois então façam! Resolvam a equação!
E logo a seguir:
- Que é que estão a olhar para mim? Sou bailarino? Não sou pois não? Sabem o que é que eu sou, não sabem?
A turma em silêncio aguardava a resposta, que viria do próprio professor, como de costume.
- Sou pequenino…
E continuava a sorrir e levantava as sobrancelhas realçando a evidência!
Ninguém tirava os olhos dos cadernos. Mesmo que não soubéssemos que volta havíamos de dar à equação, tínhamos que estar a olhar para baixo. Todos conhecíamos de cor a frase emblemática daquele professor: “homem pequenino, ou velhaco ou bailarino”…
sousalaurinda@live.com.pt
(...) fartei-me de rir com todos os depoimentos sobre o Azevedo e a excelente caricatura do Licínio mas, na minha opinião, os Monólogos superaram tudo! Eu não me lembro mas creio que sim...que seriam exactamente assim as aulas com este professor. Que extraordinária personalidade!
Bjs São
Esta abundância de caroladas e caldinhos só pode ser do Dr. Azevedo numa qualquer segunda feira depois de uma derrota do Benfica. Parece que estou a vê-lo na sua batinha branca desabotoada e com aquela careta de dor por causa dos "bicos de papagaio" que o atacavam mais naquelas alturas. Wicca
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João B Martins disse:
Olá caro João Jales.
Não nos conhecemos pois somos de gerações diferentes. Chamo-me João B. Martins. Sigo o blog há tempos e se agora escrevo é por causa do Dr. Azevedo. Este homem foi, para mim, um excelente professor e um bom amigo.
Deve ter sido o professor que mais anos leccionou no ERO. Por coincidência foi, ao longo do curso liceal, o primeiro e o último professor de matemática. Entrei para o Colégio em 1949 e tive-o logo como Prof. de Matemática. Em 1954 vim para Lisboa para fazer o terceiro ciclo no Liceu Passos Manuel mas como chumbei a Físico-químicas e Matemática, em 56/67 voltei às Caldas e ao ERO para as repetir. Foi então que de novo o Dr. Azevedo me voltou a ensinar Matemática. Trabalhamos muito nesse ano mas mereceu a pena. Por exemplo: quer eu quer o Nozes tiramos 17. Para quem tinha tido 5.4 no ano anterior foi bem bom. Como disse, trabalhámos muito. Até em muitos sábados de manhã íamos para o colégio para fazer exercícios. Tivemos aulas práticas de Trigonometria no Parque para onde ele levava um teodolito.
Foi no 2º ciclo professor de Ciências, Geografia e, salvo erro, até de História Universal (pelo menos em parte do 3" ano). Criou as sabatinas que nos ajudavam a consolidar a matéria de empinanço, pois era assim naquela época. Tinha com ele um senão: não havia caldaços mas um par de chapadas apenas a um aluno - dizia-se que a mãe o havia autorizado. Aproveitava-se de todos os pretextos para o fazer.
Em 1957 voltei para Lisboa e os meus regressos às Caldas passaram a ser raros. Só voltei a estar com o Dr. Azevedo 2 vezes: no princípio dos anos 60 no velório de minha avó Maria José e depois na grande reunião de antigos alunos de 1988, a que fui arrastado pelo meu primo Fernando (Figueiredo). Neste encontro apanhei-o junto com o Dr. Luís Rosa Bruno e perguntei a ambos quem eu era. –Olha é o Martins ! Passados tantos anos ainda se lembravam de mim. Curioso.
Um abraço. Até sempre.
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Manuela Gama Vieira disse:
Nunca imaginei que o Prof. em causa, até me custa dizer o nome- não lhe conheci esta faceta- fosse capaz de actos de tortura; deculpem-me, mas o que é descrito tem o nome de TORTURA!Faz-me lembrar outros tempos e situações vividas nesse tempo no Portugal salazarento, de tão má memória!
Fiquei absolutamente chocada e, por solidariedade, não posso deixar de saudar os meus colegas vítimas destes execráveis métodos!
Julgo que alguns ainda se lembrarão de outro tipo de "tortura" (a ironia tem a ver com os tempos presentes, onde os professores até podem levar dos alunos, mas ai deles se, nem que seja em legítima defesa, tocarem num cabelo dos meninos) do dr. Azevedo.
Só não me lembro quem era o "mártir" dessa actuação, mas tenho a sensação que era um colega nosso precocemente desaparecido, o Joaquim do Norte (a alternativa que imagino só podia ser o Zé Carlos Faria...).
Então não é que o dr. Azevedo, quando queria aplicar um enxota moscas na cara, para que o aluno em causa não pudesse fugir, tinha o cuidado de, antecipadamente, lhe pisar a ponta do sapato, só o largando quando a mão dele atingia o objectivo?
Julgo que existirão outros colegas a lembrar-se desta particularidade.
Oscar
o j r franco pergunta se a verdade é para se dizer?que blogue seria este se não fosse?
OH DR AZEVEDO !
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Oh Dr. Azevedo!

