
O artigo está muito bem escrito, apesar de pessoalmente não subscrever algumas partes da visão que ele transmite. Mas as visões são mesmo assim, pessoais e com doses de subjectividade variáveis segundo os autores.
Interrogo-me também sobre a sua extensão, parecendo-me que este meio pode não conviver muito bem com artigos demasiado longos...
Em todo o caso, é seguramente mais um contributo para o enriquecimento do Blog e para o sucesso da iniciativa.
Aqui está, à vossa disposição para ler e comentar.
Externato Ramalho Ortigão
A «Ramalhal Figura» (como Eça lhe chamava) era o patrono tutelar. Da sua fina ironia e das «Farpas» de crítica mordaz, pouco ouvimos falar. Talvez o facto de, perante a Mofina, ter renegado a condição de ateu confesso e anticlerical impenitente, indo desta para pior confortado com a extrema-unção e os sacramentos da Santa Madre, acabasse por justificar, para cónegos, bispos e cardeais, o seu nome em relevo no frontão duma entidade pertencente ao Patriarcado.
Liceu era uma via aberta que conduzia directamente à Universidade, mas só existia nas capitais de distrito. Nas pequenas terras de província restava como alternativa o ensino particular ou as Escolas Industriais e Comerciais, formatadas para propiciar honradamente um emprego, ponto final. Para quem delas viesse e quisesse continuar os estudos, tinha pela frente um calvário tortuoso, que, aos mais persistentes e só a esses, conferiria enfim o direito a integrar o número dos «happy few» universitários. E cara alegre, já que o entendimento dominante num país com bem mais de um terço de analfabetos confinava-se ao ler, escrever e saber as quatro operações. E não para todos, claro!
O Colégio, portanto. Aliás, Externato: o E.R.O.

«Não há bons alunos nem maus alunos. Há tão só alunos que estudam mais e os que estudam menos», perorou o Director. Pertencendo eu arreigadamente ao segundo grupo, durante os anos que se seguiram tive de ouvir o meu pai repetir até à náusea tão douta máxima.
Para um novato caloiro, a guerra colonial em três frentes, que barrava o horizonte, era, naquela altura, apenas as imagens do «nós por cá todos bem /adeus até ao meu regresso» a zumbir na televisão e o eco longínquo, infiltrado na sala de aula, das explosões de obus e tiros de G-3 no campo de treino

No E.R.O., louvados sejam os Deuses, não existia Mocidade Portuguesa. Dela restavam uns tristes trastes num canto esconso da arrecadação e dois tambores esventrados, despojos empoeirados de defuntas glórias e dos «clamores sem fim» do «Lá vamos cantando e rindo, levados, levados, sim». Sobravam, no entanto, propósitos blasonados de brio e aprumo. Com Mãe e Avó, 2-familiares-2 como docentes no Colégio, era suposto dar exemplo. O meu, foi sempre, na medida do possível, o da irreverência e da insubmissão, porque contra contínuos, «profes» e sanções paternas, tinha uma reputação para defender na selva do recreio. Nada de cedências, mesmo (ou sobretudo), afectado, como tantos outros, pelo sindroma inculcado dos três P’s: Pais, Padres e Professores. Era pois, por vocação, um desalinhado (no corpo e no espírito). Para não tão poucos assim, o Quadro de Honra era uma infâmia, edital aviltante afixado no átrio. Orgulhosamente na corda bamba feita fio da navalha, entre o alfa e ómega do 9 e do 12 (chegava e era óptimo), não ignorávamos que a fama de melhor instituição de ensino do distrito de Leiria ditava a subavaliação interna e rendia o proveito de, pelo menos, dois a três valores suplementares nos exames: suficiente transmutava-se em bom!
A ladeira das 5 Bicas perfilava-se como uma via rigorosamente vigiada pelos zeladores da Moral, sempre dispostos a identificar onde quer que fosse a horrenda fisionomia do pecado, almejando sexos em forma de cruz e de pias de água benta. Contrariando ingénuos (e incipientes) amores adolescentes, preconizava-se lados distintos da estrada para rapazes e raparigas (norma ostensivamente ignorada), sim, que a canga da suprema disciplina (ler diciplina) estendia-se até casa.
Pontificavam as rusgas e inspecções minuciosas ao tamanho das guedelhas masculinas (cuidadosamente dissimuladas no esconderijo pouco fiável do colarinho) ou para avaliar o grau de pureza do comprimento das bainhas das saias, escondidas sob o uniforme multicolor das batas às riscas. Emprestávamos medo e t(r)emor sob a aparência de respeito e recebíamos cautela. Cautela com tudo! Diga-se que por vezes rasgada em pedaços de gáudio descarado, como quando o Canhão, obrigado a cortar a grenha, ousou afrontar a intimação com uma esplêndida e radical ida à máquina zero, conquistando, em simultâneo, a admiração geral e uns dias de suspensão; ou quando uma tropa fandanga, de para aí uma centena de moços, miúdos e graúdos irmanados, decidia vingar-se e achincalhava, em coro uníssono, os contínuos, pobres homens, encarregues de serem os primeiros vigilantes da Ordem e da Autoridade, contestada ali pela insolência, espontânea, instintiva e inconsciente da pandilha em turbamulta…
E assim fomos, pouco a pouco, crescendo e perdendo a inocência, entre muros, onde, apesar de tudo, conseguíamos a bênção e a proeza duma alegria sadiamente estouvada.

Há quem se vanglorie dos homens de Estado formados numa dada escola, à laia de atestado da sua presumível excelência. Não é esse o nosso caso, felizmente!
Tal como escreveu Su-Tung P’o, poeta chinês do século XI, citado por Bertolt Brecht:
As famílias quando lhes nasce um filho
Desejam-no inteligente.
Eu, que pela inteligência
Arruinei toda a minha vida,
Só tenho a esperança de que o meu filho
Venha a sair
Ignorante e tardo no pensar.
Então terá vida tranquila
Como ministro no Gabinete
Saímos todos, sem excepção, um pouco mais espertos, graças sejam dadas…
José Carlos Faria
............................................................................................................
comentários:
.
Dezembro 12, 2007-12-12
Miguel B M disse:
Comentário ao artigo do Faria
Na minha opinião o artigo do ZCF pode ser analisado de duas maneiras. Do ponto de vista literário trata-se de uma escrita densa e que precisa de ser lida atentamente. O autor revela uma erudição assinalável e facilidade de expressão. mas o conteúdo peca por defeito. Embora eu não concorde com as observações em relação ao dr AJAzevedo, pois ele não era como a fama que o precedia fazia crer, e no dia a dia até era uma pessoa agradável e afável,quanto ao resto eu teria sido mais duro que o autor. E poderia acrescentar mais meia dúzia de situações inenarráveis, espiões, delatores, coacções, perseguições, castigos e proibições injustas e desajustadas. Tivémos profs magníficos como a Super de boa memória ou o dr Tó Zé Lopes,mas também tivémos docentes execráveis. Vivemos agora um período particularmente agradável graças ao almoço e especialmente ao blogue,que nos permite fazer uma viagem no tempo sempre que o queiramos. Temos a ponderação que os cabelos brancos proporcionam e que nos permite analisar (julgar?) os factos que ocorreram há muito tempo. Mas não podemos esquecer esses mesmos factos porque vivemos coisas muito desagradáveis,perfeitamente evitáveis e desnecessárias. E isso molda-nos em termos de futuro. Eu dou apenas um exemplo: tenho as minhas convicções cristãs e acredito na maioria dos dogmas da religião,no entanto sou profundamente anti-clerical. Mas esta conversa levava-nos muito longe….
1 comentário:
bom comeco
Enviar um comentário