As janelas povoaram a nossa infância na sua dupla função: proteger e franquear, esconder e desvelar, observar e expor-se. Se a infância é um tempo para descobrir e ser descoberto, a janela é também uma síntese desse tempo em que rasgamos cortinas em busca do mundo e nos surpreendemos com os lances de um mundo à nossa procura.
A metáfora da janela povoa por isso a imaginação plástica, como a aventura dos passos em volta: nenhum pintor, nenhum fotógrafo, escapou à magia sedutora de uma janela. A janela é uma fonte de luz ou um horizonte, um enquadramento ou um jogo de ângulos, um rasgão na noite ou um grito na solidão, uma transparência que oferece profundidade, uma superfície que reflecte e deforma, ou uma mancha opaca que nos interroga.
Para Vasco Trancoso a janela é uma memória de infância, onde se replicam outras janelas dos sons, das cenas, das pessoas, dos objectos que o fascinaram. Para Vasco Trancoso, a infância foi a janela por onde espreitou o espírito curioso e emocionado de um ser insatisfeito e por onde entrou a cidade com os seus desafios cruéis e os seus encantos gloriosos.
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M do Rosário disse...
Sendo filha única,ficou encantada por eu ter um irmão. Assim se iniciou a descoberta da vida de cada uma de nós,ambas de cinco anos,através dos respectivos brinquedos,expostos diariamente nas nossas janelas,sob o olhar divertido dos transeuntes. A menina desconhecida que viera de Lisboa,com seus pais,instalar-se na casa oposta à da minha família,viria,desde então,a percorrer, comigo ,sucessivos caminhos da vida,inclusive o do E.R.O... (Actualmente ,o João e a Isabel integram o acervo do Museu do Brinquedo ,em Sintra.Ambos exibem as vestes originais).
A"doce recordação" do despertar da Amizade,que aqui deixo,devo ao belo post de Vasco Trancoso.O meu reconhecimento e admiração.
Maria do Rosário Pimentel
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Ana Braga disse:
Gostei muito deste seu belo texto intimista, um regresso tão terno à infância, criado a partir da sua janela.
Ana Braga
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Ai que prazer! De repente, num exercício de regressão, a minha janela também se abriu, revi a magia dos baús empoeirados dos saltimbancos e escutei a flauta, prenunciadora de chuva, do amolador de tesouras.
Singular, a projecção de janelas, tão autêntica quanto as memórias reflectidas no espelho da imaginação, porque “uma vida não basta apenas ser vivida, também precisa de ser sonhada”…
Obrigada pela sua lindíssima janela vermelha que, por momentos, também foi minha.
Já lá vai tanto tempo e parece-me tão pouco!
Manuela Gama Vieira
"João Ramos Franco esta história é à tua medida..."
- Como entendo as tuas palavras, meu amigo…Tens toda a razão quando nos dizes que “espreitávamos sinais do exterior à descoberta de um mundo novo.” No meu caso, na casa onde nasci, via o Chafariz em frente (inicio da estrada para a Foz do Arelho, no nº 7); nas traseiras do prédio, para lá do quintal, tinha a Misericórdia, o Hotel Lisbonense e uma pequena propriedade, que tinha uma Azenha que funcionava com as águas que vinham das Termas.
A Janela da minha infância era a cerca de 50 metros de Casa, tudo passava por uma visão, quase constante, da imensidão e da gente que passeava no Parque D. Carlos I. Foi por aqui que comecei a fixar as primeiras imagens de um universo que hoje povoa a minha mente e sinto que as da infância foram as mais belas e puras.
Um abraço amigo
João Ramos Franco
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Guida disse...
Excelente evocação,com doses certas de realismo e emoção.Visitarei certamente o hevenly.Parabéns.
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Meus Sonhos disse...
Quanto do que somos hoje é resultado dessas experiências e emoções de infância que mal recordamos ou pensamos mesmo não recordar?
Gostei muito.CC
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Laura Morgado
Belo texto. Obrigada Vasco.
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Guida CS disse...
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Julinha disse:
Que paisagem bonita que o Vasco descreve na sua janela !Todos temos uma janela na nossa infância....eu também tive a minha e quantas horas passava sentada a olhar o céu, a ver a estrada, a ver as flores, esperando que a chuva passasse, esperando uma amiga para conversar, brincar....brincar ás mães e filhas, professora e alunos..... sim,aquelas brincadeiras de infância que me preparariam para mais tarde ser a mulher que sou!
Obrigada Vasco, por, de uma maneira tão singela, me teres levado á década de 50.
Júlia R
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J J disse...
Recordações mágicas da infância de todos nós num post que casa uma fotografia bela, mas complexa, com um texto que é também ambas as coisas, onde está mais do que o somatório das palavras que o compôem, como é habitual com o nosso amigo VT.
Esperamos que esta colaboração, que tão bons resultados tem tido, possa continuar.
Abraço. JJ
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Luisa disse:
Muito bonita e muito terna toda esta evocação das memórias visuais da infância,todos tivemos a nossa janela para o Mundo.
Gostei muito da fotografia,como é habitual em todos os leitores do heavenly.
Esta colaboração parece-me muito positiva para os dois blogues e foi sem dúvida uma boa ideia.
Bjis. Luisa
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F. Clérigo disse...
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A Arte de Ser Feliz
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Houve um tempo em que a minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e o meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crianças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como reflectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E
sinto-me completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.
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Cecília Meireles
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Uma Sugestiva Janela, uma narrativa expressiva, onde a Imaginação e o Sonho “brincam” e “pulam” de mãos dadas, aos Olhos de uma criança... transpostos agora para um Olhar perscrutante, uma escrita cuidada, embalada ainda pela Música que outrora encenava o bailado de borboletas, em redor de um Coração...
Bonita conjugação para a “Arte de Ser Feliz”...
Parabéns ao Autor pelo Belo Post !
Bjs
Fátima
Gostei imenso de "A janela da minha infância",veio mostrar a antiga escola onde andei da primeira à terceira classe .
Frederico Maria Oom Moniz Galvão.
Ao Frederico Maria, posso dizer que o talho era o "Talho do Monteiro" e, a seguir, no sentido do Bairro da Ponte, era a "Loja do João Vintém", avô dos Madeira Lau: o João (já falecido),o António (meu colega de escola, que se formou em engenharia e se ficou por Lisboa), e o Chico (que continuou com a tradição de estabelecimento de "venda a retalho"). No sentido contrário era uma mercearia, a drogaria do Lopes, e o Teodoro das Caraças, famoso na época pois vendia tudo necessário para fins carnavalescos.




