ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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C O M E N T Á R I O S

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Estes comentários referem-se ao post "À JANELA DA RAINHA", que deve ser lido antes. Basta clicar AQUI para o fazer.

Se já o leu, aprecie os comentários.
foto incluída na colecção online
Nuno Valadas disse...
Apesar de ser apenas filho adoptivo das Caldas não deixei de vibrar com este comentário da minha amiga Isabel pelo que tem de autenticidade e poesia. Os namoros de janela fazem parte também do meu imaginário juvenil e tornei a revivê-los. Brilhante!
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Júlia Ferreira disse:
Gostei muito do texto da Isabel nas referências à função das janelas no «dantes», e não pude deixar de sorrir com o ritual do namoro «de estaca» ou «de gargarejo», nas costas da Rainha, que mesmo passando do segundo para o primeiro andar teria ainda de obrigar a códigos de comunicação não-verbal. São apontamentos curiosos evocando a tradição feminina de espera e de reserva dentro do espaço doméstico, característico da burguesia urbana do Portugal dos «brandos costumes».

Mas a Isabel só não nos diz como era quando chovia. O namoro era interrompido, o enamorado (com torcicolo crónico...) aguentava ainda à janela estoicamente ensopadinho, correndo o risco de apanhar gripes e constipações ou passava-se só à troca de cartas «em papel perfumado»?

Também fui testemunha, nos meus tempos de «menina e moça», de namoros de janela. Só que as burguesinhas «do catolicismo» (como lhes chama Cesário) e os «burguesinhos» de uma vila pequena como a minha tinham mais sorte: nas moradias unifamiliares, a janela era no rés-do-chão, o que dispensava o recurso a técnicas sofisticadas de sinais e de alfabetos de gestos e permitia «outros abusos». E, neste campo, o meio rural ainda tinha mais sorte, com as idas à fonte e as desfolhadas nas eiras.

Sobre o título do «post», não tenho muito a dizer: no meu tempo de ave que arribou às Caldas e que depois migrou para outras paragens, nunca pude estar «à janela da Rainha», porque a minha janela, na rua da Alegria, dava para o comboio…. Mas lembro-me ainda de que Sua Majestade, apesar de me virar as costas quando eu saía da cidade, parecia acolher-me bem no regresso ao burgo.

Obrigada, Isabel, por este texto. Talvez não o tenha comentado como gostarias, mas… não podes esperar muito da escrita da pessoa «um tanto esgrouviada», que tens na memória…

Um beijinho e até breve,
Júlia Ferreira
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Pedro disse:
Isabel:
Que belo texto! Não é só poetisa (desculpe não dizer ‘poeta’, mas continuo a preferir distinguir o género!), é também “prosista”!
Parabéns e um abraço do
Pedro Sinde

Joaquim disse:

É a segunda vez que eu dou a minha opinião na "janela da rainha" e é com muito gosto que vejo que o prédio em que eu dizia que era de um granito esverdeado (o que parece ser) já lá vão 50 anos, era onde o Valente ia namorar a sua futura esposa. Eu mencionei pessoas que viviam naquele largo, porque não haveria janelas, se não houvessem pessoas.

As casas de um piso que estão no lado direito eram do Sr Joaquim Herculano, que eu tinha mencionado antes, que também tinha duas filhas que gostavam de estar à janela. Na casa dos "Samagaios" ( logo a seguir) ao prédio, eu falava muito com a Dona Margarida, porque ela adorava estar à janela assim como sua irmã e quando da minha chegada do ultramar ela foi das primeiras pessoas a ir a minha casa dar-me a boas vindasP.S..O cunhado da Isabel (o Valente) era muito popular "embora menino fino" juntava-se com colegas de várias camadas sociais da época e quando havia um jogo de bola lá estava ele "corria muito e tinha muita habilidade".

Joaquim

.Ana disse...
Adorei a leitura Isabel!Também eu, me revejo numa janela da Rainha...A casa das minhas Avós, Nia e São... e numa infância cheia de coisas boas.

O Quintal, com vista para a Rainha, os quinzes de Maio...claro! A ladeira, e as janelas...A da "casa da costura", da qual guardo memórias únicas, os primos, a infância, os Verões intermináveis e o cheiro dos bolos da Avó São.


Mas a "minha" janela...era a outra a seguir... a do quarto da minha Avó Nia! Ir dormir a casa da Avó era a melhor das experiências... o travesseiro a a almofada, o cheiro dos lençóis brancos e o barulho dos carros a passar mesmo ali ao lado...


Obrigada pela sua partilha, realmente os afectos que nos ligam a cada local desta cidade são comuns à nossa condição de Caldenses, que bom manter estas memórias tão vivas.

Ana Azevedo Coelho
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Alfredo disse...
A Janela da Rainha
Não vou comentar a janela da Isabel Xavier cujo texto é excelente e descritivo do Largo (embora da Rainha só possa descrever as costas) e arredores. Vou pegar na fotografia que nos mostra a pompa e circunstância das comemorações do 15 de Maio, dia da cidade. Não faço ideia se esta mesma fotografia foi tirada no ano que, resumidamente, vou evocar mas as semelhanças com o que presenciei na altura e que difusamente me vêm á memória são espantosamente iguais.

Saímos da Escola em formatura, era eu na altura um imberbe Chefe de Quina Arvorado, e fomos alinhar com a formatura do RI5 e a formatura dos Bombeiros Voluntários das Caldas da Rainha. Depois destas hostes terem recebido a instrução sobre o papel de cada uma no desfile e das honras a prestar, não só à Rainha mas também aos ilustres “casacas” convidados para a homenagem, lá seguimos marchando com o garbo e a altivez que o momento requeria: A Banda de música do RI5 na frente tocando uma marcha marcial qualquer marcando o passo dos mancebos, Bombeiros e Mocidade.

Embora tanto a Corporação de Bombeiros como o Corpo da Mocidade Portuguesa se tivessem apresentado com as suas respectivas caixas e clarins para marcarem o seu respectivo compasso, tanto estes como aqueles foram proibidos de tocar ficando a cadência entregue apenas à Banda do RI5. Disseram eles, os mandantes da altura, que era para não haver confusão com a mistura de toques. Acontece que a Mocidade encerrava o desfile, a vários metros de distância da Banda e o som chegava-nos difuso, baralhado e com eco, o que nos obrigava a, constantemente trocar o passo, na vã tentativa de acompanhar a cadência.Ao longo da rua, desde a Escola, passando pela Praça de Touros, topo da Rua das Montras e descer até ao Largo assistimos a uma mixórdia de desfile de passos trocados que faria corar o mais bem intencionado. A coisa só melhorou quando o Comandante de Grupo deu ordem aos Comandantes de Castelo para darem vozes de cadência… 1, 2, 1, 2… e aí as coisas entraram nos eixos.

Formados no Largo da Rainha (que afinal é o Largo Conde de Fontalva se bem me apercebi agora) ficamos à espera que as celebrações começassem. Só que neste tipo de eventos “os cães grandes”, nome que dávamos aos senhores de “casaca”, nunca chegam a horas e o tempo, longo tempo, de espera fez-nos suar “as estopinhas” provocando mal estar, dores de pernas e insolações inerentes.Por fim lá chegou o Almirante, sem barco, e ouviu-se o cornetim do RI5 a tocar o “firme”, “sentido”, “abrir fileiras”, “continência”, os Chefes e Comandantes saberiam este ritual, agora os jovens mancebos da hoste, de calções caqui e camisa verde com quinas ao peito não percebiam “patavina” do significado dos toques e foi a atrapalhação, bem disfarçada por sinal através das ordens de viva voz dos Comandantes.

Revista “às tropas em parada”, o Hino Nacional “a Portuguesa” tocado pela Banda e logo de seguida aguentámos estoicamente os discursos, a deposição das coroas e das flores aos pés da Rainha e o regresso, nós à Escola, os Bombeiros ao seu Quartel no final da Av. da Estação e os militares ao RI5.
Foi giro… tão giro que nos anos seguintes me esqueci de ir.
Um abraço
A.Justiça
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Júlia Ribeiro disse:
Um texto muito bem escrirto,muito agradável de ler,aliás, coisa a que a Isabel já nos vem habituando.....muitos parabéns e um beijinho.
Júlia R
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Luis disse:

Gostei do "romance" e da evocação da Rainha, embora o que eu recordo mesmo com saudade em relação a essa casa seja o "Much",várias vezes aqui referido.

Excelente post,na sequência de outros que também o foram,parabéns a todos.Abrç.L
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João B Serra disse:
O texto de memórias cruzadas da Isabel é um exercício sobre a metáfora da janela: um enquadramento da visão e dos afectos, uma silhueta onde se recortam rostos e paisagens.

Nas últimas décadas, a palavra foi popularizada pela informática e houve mesmo um sistema operativo que a tomou como designação. A janela passou a ser um dispositivo de organização que facilita o contacto entre o utilizador e o programa. A banalização da palavra fê-la entrar no sociologuês, surgindo em expressões de gosto tão duvidoso como "janela de oportunidade" e similares. A Isabel recuperou-a aqui para osentido original: abertura para o exterior, espaço através do qual se estabelece uma relação de duplo sentido de dentro para fora da casa.

Bela história a da negociação entre namorados e cúmplices que permitiu, num primeiro momento, aproximar a janela da função e, num segundo momento,conduzir quem estava no exterior para o lado de dentro da janela.
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Pedro disse...
Belíssima, esta sua evocação, Isabel! Perdeu-se, na verdade, este hábito antigo de falar à janela, como se perderam tantas outras coisas, que a Isabel agora resgata com a ternura da Saudade!

Um beijinho
Pedro
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Jaime Serafim disse...
Ler um texto da Isabel é sempre um prazer enorme, mas este tocou-me especialmente.

Conheci a casa da Isabel. Ia lá semanalmente dar explicações à Lena. Naquele tempo era frequente os explicadores deslocarem-se a casa dos explicandos. Era uma casa onde se respirava o conceito de família na mais plena acepção da palavra. A Avó era uma senhora de forte personalidade, supervisora dos netos, em especial da Helena que, talvez por ser a mais tímida, requeria uma atenção mais dedicada. A Mãe da Isabel e de mais quatro irmãos, uma mãe serena, atenta, cuidadora, carinhosa, sempre com um sorriso no rosto, era, e consta que ainda é, uma senhora linda, elegante, sempre muito cuidada, perfumada e bem vestida. Uma casa cheia de gente jovem, mas de uma alegria tranquila onde sempre fui muito bem recebido e sentia os elos de carinho, de amor e de amizade que enlaçavam todos os seus componentes.

Mas os meus contactos com elementos desta Família também existiram fora daquela casa. A Irmã mais velha da Isabel, a Gracinha, foi minha colega no Externato e casou com o Tozé Valente, que foi o meu colega de carteira, também no Externato. São meus compadres - sou padrinho do segundo filho.

Fui professor do Luís, da Lena, da Isabel e do Mário.Mais tarde fui colega da Isabel. Embora de grupos disciplinares algo afastados, fizemos muitos trabalhos em comum, sempre com grande cumplicidade, muita amizade e admiração mútua.

Às vezes encontro a Lena – fazemos sempre uma grande festa. A amizade é forte e recíproca.

Também o texto da Isabel me recordou o que eu ouvia dizer do namoro no tempo dos nossos pais, sempre com muito recato e distância. Trouxe-me à lembrança uma cançoneta cantada naquele tempo pela voz fresca de uma cançonetista, como na altura se designava:

Ir à baixa de trem é o que convém e que mais realça.

E tocar todo o ano, no meu piano, a mesma valsa.

E poder namorar no meu quarto andar, com grande alvoroço…

E o rapaz lá na rua, a olhar p’ra Lua, com dor no pescoço.

Beijinhos, Isabel

Jaime Serafim
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Paulinha disse...
Olá Isabel
Que maravilha de texto, adorei, realmente aqui aparecem muitos talentos.
Escreve mais!
Bjs
PP
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dalila disse...
Excelente texto. Continuo a gostar de janelas, ainda que não veja nem rainha nem rei!Têm algo de mágico e romântico.

Como o texto que acabei de ler.
Dalila Garcia
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Artur Henrique Ribeiro Gonçalves comentou no Facebook:
Nunca apreciei muito particularmente a estátua estadonovista da rainha das caldas, Dona Leonor de Lancastre ou de Viseu ou de Avis, Infanta e Rainha de Portugal, criadora das misericórdias e do hospital termal da vila/cidade que passou a ser a sua, mecenas, princesa perfeitíssima, mulher do renascimento, inventora, sem o saber, da arte manuelina, que celebraria o nome do irmão e monarca afortunado, protetora de mestre Gil Vicente, a rainha velha dos autos, inflexível nas suas decisões, mão do infortunado príncipe D. Afonso e madrasta do infante bastardo D. Jorge. Ainda hoje há quem se pergunte se o marido e primo terá morrido de morte natural ou matada. Ainda hoje há quem se pergunte sobre o papel que a refugiada na Madre de Deus terá tido no desaparecimento do marido. Ainda hoje há quem se pergunte se alguma vez houve nestes reinos tornados república alguma governanta como ela...
Gosto de a ver representada

AQUI e


P.S. As minhas palavras acima referem-se exclusivamente, à foto que me enviaram. Tal como a Cris, não fui aluno do ERO, mas já tenho contribuído pontualmente com alguns pequenos comentários.

Gostei particularmente do texto da Isabel Xavier (que só conheço destas paragens), mas não tive oportunidade de compor umas palavras adequadas à postagem e nada me garante que o consiga em tempo útil. Este impedimento aplica-se a muitos outros textos publicados no Blog, que leio sempre com muito prazer, apesar do meu silêncio ser mais fruto das circunstâncias apontadas do que de uma falta de vontade de dar uma opiniãio através da escrita...
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Guida Sousa disse...
Belísima hstória, contada com mestria e carinho e lindissimas fotografias.Tanto quanto julgo saber a autora não perdeu nada por não estar à janela,já que casou cedo!!!Bonita evocação familiar em que se lembram as Caldas de outros tempos,enriquecendo este blogue.
Parabéns.GS
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Ana Saudade e Silva disse...
Isabel,Gostei muito da sua história. De facto a beleza das tradições de antigamente, e os sentimentos deixam saudade... A beleza dos sentimentos...
Beijinho
Ana Saudade e Silva
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Patrícia disse...
Já sabe, Isabel, que não resisto a estes textos que escreve.Também este me tem cativa pela forma e pelo conteúdo.
Acho adorável a forma como conta o namoro dos seus pais à janela e a ironia com que descreve a utilização da janela.
Não sei se é fidedigno que a sua mãe se tenha referido à desconsideração da Rainha por estar de costas para a vossa janela, mas parece que a oiço dizer as palavras!
Mais uma vez, no fim, a singularidade da menina que foge à norma e que prefere as janelas do quintal do que as que dão para a rainha. Umas oportunidades podem ter sido perdidas, mas outras terão certamente sido ganhas!!
beijo
Patrícia Baptista
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Paulo Caiado disse...
Fascinante Isabel.

A tua escrita, mas também a forma como começamos a dispensar afectos a locais, edificios e até a estátuas! E o amor pela cidade faz-se assim, pelo amor por cada um dos elementos que a integra. Por isso nos revoltamos quando algo que faz parte de nós , da nossa identidade, se pretende destruido, a troco de uma modernidade que ninguém compreende. Já bastam os dois mamarrachos da Praça. E ligados aos lugares estão as pessoas, que somos todos nós. E nós somos a cidade. Somos nós, que cá vivemos ou que por cá passámos, nós que amamos esta cidade e que mantemos a sua identidade viva e impedimos que se torne um dormitório da grande cidade, sem alma e sem afectos, somos nós que somos as Caldas!
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João Ramos Franco disse...
Nascido uns anos antes da Isabel Xavier, num prédio com janela para o chafariz, no inicio da estrada para a Foz do Arelho, a minha passagem diária pelo “Largo da Rainha” era obrigatória e ao qual dediquei um post no meu blogue com o nome “Exatidão”e do qual fazia parte o poema de Jorge de Sena que trancrevo.


Exactidão

Levam as frases sentido
que uma cadência lhes dá:
sentido do não-vivido
a que fica reduzido


o que, escolhido, não há.
Do imo do poder ser,
Onde o não-sido se arrasta,
Ouvi cadências crescer:
vaga música de ter,
na vida, quanto não basta

- quanto um sentido se entenda,
que nem verdade ou mentira.
(Que o que dele se aprenda
é como cobarde venda
para que a luz nos não fira.
Luz sem luz, brilho da treva
que tudo no fundo é;
e a certeza que se eleva
do fundo da própria treva,
de exacta que seja, é.)

Levam justiça consigo

as palavras que dissermos.
Por quanto sentido antigo,
nelas ficou por castigo

o futuro que tivermos.

Levam as frases sentido
que uma cadência lhes dá.
É justo, injusto - o escolhido?
Como quereis que, vivido,
ele não seja o que será?

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'

Sob o post e o local a Isabel X. escreveu as palavras que transcrevo:
"Isabel X disse...Pois fique sabendo, João Ramos Franco, que o "local de passagem diário" da sua juventude, ali mesmo por trás da estátua da rainha, foi o local onde eu nasci (1957), vivi até aos dezoito anos, e ainda vivo, até certo ponto, sempre que lá vou, pois a minha mãe continua a morar na mesma casa.Largo Conde de Fontalva, nº 7.

Não me estou a enganar! O Largo da Rainha D. Leonor é o do Hospital Termal, antigo Largo da Copa!

- Isabel Xavier -" 17 de Outubro de 2009 19:44
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Uma verdade, somos amigos, os 15 anos de idade que não nos separam…

Adorei ler “À JANELA DA RAINHA”, por acaso não me viu passar no Largo!?…

Um abraço amigo do

João Ramos Franco
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Joaquim disse.
Leitura muito agradável e um muito bem escrever da I.Xavier, a dizer-nos o que realmente se passava em tempos já lá idos e não "antigos", assim evito dizer "nos tempos de antigamente".
Vou tentar descrever o Largo M. de Fontalva (largo da Rainha) como ainda hoje o vejo mas, talvez com alguns enganos. Começando com a Rua de Camões (Rua do Parque) e a Almirante Reis (Rua do Felizardo), havia na junção "tipo vértice" das duas com o largo, um restaurante (hoje um estabelecimento de faianças artisticas ) do Sr. Mendes. Na junção Alm. Reis e a H. da Grande Guerra viviam os Parreiras. Contornando o largo era a taberna do Joaquim Herculano, depois se tornou também faianças e hoje...?

Caminhando um pouco mais, um prédio de granito esverdeado onde o Valente "aluno do Liceu" da família dos Natários e, segundo a minha memória me diz, uma vez candidato à presidência da Câmara Municipal, ia namorar "ele na rua, ela à janela". Depois um pequeno café (o Café do Rocha) e logo a seguir os "Samagaios" com a Senhora Margarida e a irmã sempre à janela, o irmão Zé Samagaio (pai), os filhos Augusto, o Toino (aluno do liceu) e a irmã. Havia um outro Samagaio (o Fernando) que tinha uma filha que casou com um sueco e por lá ficou. Nota curiosa: a esposa do F. Samagaio teve a sorte de ser contemplada com 200 contos na lotaria e na semana seguinte o marido com 1.000 (segundo constou), o que era uma quantia avultada para a época.
Continuando a caminhar era a loja do Joaquim Claro (J. Charuto), como era conhecido. No primeiro andar morava o Dr. Carvalho e a família. Do outro lado da Calçada era o Quintal do Charuto .onde moravam os Pereiras e toda a família "Charuto". Linda propriedade mas que foi dada ao abandono.

Do outro lado da estrada da Foz, era a oficina do Adelino Ferrador, que mais tarde se tornou no "Pinto das Bicicletas". Presentemente na esquina "sentido Lisbonense", o café do Amadeu Rosa que possivelmente trocou de nome.
Outra curiosidade: em frente à oficina dos Samagaios havia uma bomba de gasolina, talvez a mais antiga das Caldas. O Toino Samagaio como aluno do Liceu que apareça a dizer algo.
Joaquim
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Cristina comentou no Facebook:
Obrigada por divulgarem esta foto. A nossa rainha representada de forma muito académica por Francisco Franco. Rigidez própria da época e também de qualquer regime, pois os regimes gostam do que se enquadra em parâmetros muito fixos e dentro da sua época. Maravilhosas obras ficaram fora de concursos, de qualquer tipo de aceitação, apenas por estarem fora do seu tempo.
Mas do que eu gosto, ainda mais do que a famosa rainha com quem quase todos os dias me cruzo, é da história/lembranças da Isabel no blog do EROS. Através dela conheci uma vivência que não vivi, mas da qual agora, também, de certo modo faço parte. Não tendo partilhado essas histórias gosto de fazer parte do vosso/nosso mundo e quando leio o que escrevem, sinto que de certo modo passei por aqui "naquele tempo". Porque as histórias da nossa juventude são todas únicas, mas contudo são tão parecidas.
Obrigada Isabel pela partilha. Um beijinho para ti e para os antigos alunos de uma "velha aluna" que entrou agora para os bancos do colégio.
Cristina Ramos Horta .

A MINHA JANELA SOBRE O BORLÃO

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Ouvi bater palmas e alguém chamar –Paula! - muito perto da minha janela. Mesmo estando num terceiro andar não me admirei, a janela da Tucha, no prédio ao lado, ficava muito perto da minha, ali a dois metros, se tanto. Larguei o meu livro e fui lá dizer-lhe que a minha irmã não estava… que tinha saído…mas ela já entrava pela porta do meu quarto, entusiasmada com a perspectiva de dois dedos de conversa (se se pode chamar conversa a algum “corte e costura” na toilette de umas amigas e umas vagas insinuações sobre uns problemas de coração…). A minha esperança para recuperar o sossego era que a Ana Salgado, moradora no 3º andar seguinte, as ouvisse e viesse exigir que passassem para as janelas das traseiras, onde a ausência do ruído da rua (e dos ouvidos dos transeuntes) lhe permitia também participar.
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Exceptuando nestes momentos, sempre gostara do meu quarto e da vista que usufruía sobre o Largo do Borlão, desde que a minha família viera inaugurar um dos andares dos três prédios que os Capristanos aqui tinham construído no início da década de sessenta. A casa era boa, o meu quarto parecia-me enorme e a Praça Oliveira Salazar/antigo Burlão (como se escrevia na correspondência postal, para mais fácil localização) além de espaçosa “cheirava a novo”, já que todas as construções eram recentes.

No meu prédio morava inicialmente no 1º andar a família do Dr. Ramos Franco, veterinário municipal, com dois filhos, o João e o Rui, infelizmente bem mais velhos que eu, o que nunca favoreceu qualquer convívio. No 2º andar habitava um casal, eram ambos muito simpáticos, não sei o nome, lembro-me apenas que ele era médico ortopedista. No 4º andar vivia uma conhecida actriz de teatro, Eunice Muñoz , que nos suscitava enorme curiosidade porque aparecia nalgumas Noites de Teatro da RTP. Mas só muito mais tarde tive noção da sua importância artística, na altura interessava-me mais saber que ali habitavam três garotos da nossa idade, numa casa com pouca mobília, onde eram possíveis, por isso, algumas brincadeiras proibidas no 3º andar.

Da minha janela via os dois outros prédios, arquitectonicamente iguais. No seguinte, também no 3º andar, como já disse, morava a Fátima Vasconcelos (Tucha) e os pais - o Sr. Vasconcelos era o gerente do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa, ali na esquina.

No 2º andar morava o casal Álvares Pereira com os seus três filhos. A irmã ainda lá mora, por cima do Maratona, na casa onde o seu irmão João morreu num trágico acidente anos mais tarde, mas nunca mais vi o Nuno ou, se o vi, não o reconheci.

Os primeiros andares destes três prédios acabaram unidos e habitados pelo futuro Presidente da Câmara, Engº Luís Paiva e Sousa, a mulher (Gininha) e os dois filhos (Teresinha e Luis). Todo este espaço era importante para tornar possíveis as suas magníficas festas nos anos sessenta, de que nos lembramos bem, eu e certamente todos os outros convidados que as frequentaram.

.A minha irmã Paula e a Tucha eram inseparáveis e tinham, no 3º andar seguinte, outra amiga, como elas nascida em 1956, a Ana, filha mais nova da família Saez Salgado. Os irmãos mais velhos eram o Xavier, o Carlos e o Jaime. O seu pai era o engenheiro Jaime Buceta, responsável pela famosa fábrica de sabão na estrada da Foz (ainda hoje lá está), que mais tarde fabricaria os conhecidos produtos Lander. Uma das sócias dessa fábrica viria ocupar, com a sua filha Pilar, o 2º andar do nosso prédio. A proximidade permitiu que a Sr.ª D. Maria Luísa Paneiro Amate me ensinasse a jogar Canasta e, um dia em que falei sobre um jogo a que assistia, ensinou-me também que “nos jogos de cartas os mirones são de gesso, quando falam são de merda”. Disse isto placidamente, enquanto chupava uma passa de um dos incontáveis cigarros Monserrat que queimava constantemente. Fiquei chocado, mas a minha mãe não pestanejou, a casa não caiu e eu aprendi uma lição para a vida.

Da minha janela via todas estas pessoas passarem, entrando e saindo de casa. Por cima dos Saez Salgado, no 4º andar, morava o dono da fábrica de móveis, o Sr. Serrano, a D. Luisa e os seus filhos, o Zé e a Mafalda; esta última manteve até hoje a vizinhança com o Xavier Salgado.

Na varanda do 2º andar viam-se, nas noites mais amenas, o Sr. Arquimedes, a esposa e as suas duas vistosas filhas.

Da minha janela via também o Padre Albino, o Padre Xico e o Sr. Dario saírem do prédio da esquina oposta para se deslocarem para o ERO no VW carocha azul claro – seria mesmo azul, ou sou traído pela memória? Ainda hoje mora nesse Lote 42 o Dario, que encontro quase diariamente. Da mesma porta saíam também a filha do dono do prédio, a Benilde Saramago, sempre luminosa, mesmo nos dias mais cinzento (quem a conhece, sabe que era assim) e a Nô e a Té, que eu já conhecia por termos sido vizinhos na Rua Dr. Leão Azedo. Eram filhas do Sr. Albertino, que possuía uma fábrica de garrafões para o lado do Avenal (frente ao quartel), e tinham duas cadelas pretas (uma chamava-se Chinha) que eu muito invejava, porque nunca tive um cão.

Da porta do prédio seguinte, já junto ao Tribunal, abria entretanto a porta a Ana Isabel, excelente aluna e minha colega de turma. Como a Mafalda e eu, ela também casou com um colega do colégio, o Zé Sancho. Namoriscou em certa altura um outro nosso colega, o Pedro Nobre, que geralmente me esperava no carro que o pai, trabalhador dos CTT, estacionava às 7h 55m em frente à Igreja. Eu debruçava-me um pouco e via-o aproveitando aqueles minutos até eu sair para completar algum trabalho de casa atrasado ou estudar mais um pouco para um ponto (havia “pontos” e não “testes” nessa altura). Quando eu descia ele fechava o carro e lá íamos a discutir música, que era (é) uma paixão comum.

No vértice oposto do Borlão, à direita do tribunal, a porta da rua abria-se também às oito e um quarto para a saída da Mercês e do Eduardo, os dois irmãos que ali moravam e também frequentavam o Externato, respectivamente três anos e um ano à minha frente.

Vinham da Coronel Santos Costa (hoje Raul Proença) os irmãos Noronha, o Jorge e a Isabel, os Agudos (a Ana Luísa que foi sempre minha colega, e o mais novo, o Manuel) e o Raul Curado e o Manuel Lino; aí viriam a morar, no final da década, o Dr. Jaime Serafim e a D. Esperança. Da esquina dessa Rua com a Avenida, apareciam de um lado (Lote 40) a Ana Clara Andrade e Sousa e o Luís Filipe Vasconcelos e, do outro (nº 18) , a Salette e os Gouveias (Ana Paula, Luís Abel e Cláudia, todos passaram pelo ERO). Já na Avenida moravam o João Mário e a Pilar (Lote 41) e, em frente, a Mami (Marta Figueiredo) e a Élia Mendonça (numa porta que, em vez de nº, exibe ainda hoje,estranhamente, “MOF”). Lá mais do fundo, de perto da estação da CP, vinham os Netos (Tó Zé, meu colega de turma, e o Jaime, mais novo). Uns passavam e seguiam a pé, outros paravam debaixo das arcadas da “casa dos padres”, onde esperavam a “carrinha” (uma camioneta dos Capristanos alugada para transportar alunos e professores para o Colégio).

Esticando um pouco o pescoço via da minha janela as traseiras do primeiro prédio da Rua Duarte Pacheco, onde moravam os meus colegas e amigos Zé Luís Azevedo (em casa do conhecido professor), Belica e Aida Mesquita, Zé Sancho e Belão, Tó Zé e Rui Hipólito, Alberto R. Pereira , Rui Malaca e Miguel Bento Monteiro; este último depressa se mudaria para a Diário de Notícias, trocando a instrução primária da D. Rosa pela do ERO. Eu iria atrás, convencidos os meus pais pela colorida argumentação da Elvira Bento Monteiro (nunca a tratei por Dona!) de que “os rapazes estão melhor a correr naquele recreio ao ar livre, do que a respirar as bufas da D. Rosa!” – lembro-me da frase, que me escandalizou (um pouco) e divertiu (muito), com se a tivesse ouvido hoje. Foi em 1962 e eu tinha oito anos. Referia-se à D. Rosa Magina, professora reformada, já com 80 anos nessa altura, que nos dava aulas em sua casa, na Duarte Pacheco 16 R/C-Esq., com o auxílio da filha, a D. Alice.

De uma das janelas desse prédios saía frequentemente o som de um piano, hesitante e engasgado, enquanto a Madame Palavicini tentava transformar num pianista uma criança que provavelmente preferiria jogar futebol ou ao ringue… hoje lamento não ter sido uma delas, mas na altura nem quis ouvir falar nisso.

Da minha janela não via o Hemiciclo Frederico Ulrich (depois Guiné-Cabo Verde, depois João Paulo II …), a rua em forma de U que rodeia a igreja. Sempre tive enormes dificuldades burocráticas com meu nome e morada, nenhum funcionário da administração deste país foi jamais capaz de escrever, correcta e simultaneamente, “Jales” e “Hemiciclo” sem variadas explicações e múltiplas tentativas e erros…. Bom, mas voltando ao Hemiciclo, para o ver precisava de vir às janelas das salas viradas à Igreja e aí já avistava o prédio a seguir ao nosso, onde morava o nosso professor de Ginástica Silva Bastos, a família do Zé Mário Rego e a do Dr. Palma. Este último viria a mudar-se, com a esposa Maria Helena e os quatro filhos (Ana Margarida, João Paulo, Cristina e Alexandra) para o andar por cima de nós, enquanto a Eunice Muñoz rumava a Lisboa e à justa consagração - seria no final da década de sessenta a mais bem paga actriz portuguesa, ganhando trinta contos por mês! Tudo isto sem prejudicar a sua carreira paralela de mãe, já que teve um total de seis filhos.

Onde hoje é a R. Padre António Emílio havia um descampado em que se brincava e jogava à bola (foto anexa). Vinham ali ter connosco os ocupantes do prédio da Miguel Bombarda cujas traseiras confinavam com esse terreno: o Jorge Pedro (que cedo partiria para Leiria) e também o Baltazar Lourenço, irmão mais novo da Ilda e do João (de quem só me tornei íntimo muito mais tarde), os três filhos do Dr. Rosado Lourenço. Aí moravam também o Luis e a Teresa Machado, cujo pai também é médico e foi director do Termal. Mais tarde conheci lá a Anabela (também minha colega) e o seu irmão Zé Garcia. As escadas daquele prédio têm estórias fabulosas para contar, se um dia o quiserem fazer (as escadas, não eu!).

Depois desse terreno baldio (foto anexa) havia “a casa dos Juízes” onde habitaram o João Licínio, a Manuela , a Fáfá (minha colega) e o Luís Filipe Gama Vieira (ainda hoje um “puto”, só nasceu em 1966, nem devia ter direito a menção aqui no Blog, mas enfim…). O pai era um juiz austero e severo, uma reputação que não melhorou quando uma testemunha faleceu durante uma inquirição dirigida por ele; apesar da culpa não ser obviamente sua, constava que ninguém se atrevia a mentir ao Sr. Dr. Juiz Gama Vieira!

No Castelo Encantado a seguir vivia a Princesa, que eu via fugazmente entre as ameias do 2º Dtº ; lembro-me pouco de a ver ir “a butes” com a plebe, tenho ideia que o Coronel Miguel a transportava habitualmente no seu coche (um Ford azul?) para o Colégio. Já sei que a Anabela Miguel vai responder que ia pé quase todos os dias, mas é assim que eu me lembro…

Era muito povoado de EROs o edifício seguinte (por cima do actual Viveiro): no 3º os Gomes, Mena e Ruca (os pais tiveram ali no R/C a primeira loja Traviata, que depois mudou para a Heróis da Grande Guerra), no 2º andar os manos Pereira Fernandes (S. Luís, Fátima e Jorge) e no 1º andar os Pimenta de Castro. Destes recordo o Raul, a Madalena e a Conchita, mas penso que havia mais. Lembro-me melhor da Conchita por dois motivos: era da nossa idade, apenas um ano mais nova, e fazia bater mais depressa os adolescentes corações masculinos de todo o quarteirão, mas especialmente o do meu amigo Miguel, que desesperava na inútil busca pela atenção dos seus enormes e belos olhos castanhos… Aconteceu em 1965 ou 1966, tínhamos, nessa altura, onze ou doze anos.

No prédio de esquina, que completa o Hemiciclo, habitavam (e habitam) o Rogério e a Milena Caiado e, nessa altura, os seus quatro filhos (Paulo, Xinha, Teresa e Alexandra). A família detinha a Frami, importante fábrica de sumos e conservas ali em Tornada.


Ainda hoje vivemos nesta Praça do Estado Novo, uma espécie de Praça do Areeiro das Caldas, eu e uma outra colega do ERO que eu via passar sob a minha janela, com curiosidade, no longínquo ano de 1971… Mas isso é outra estória, hoje queria apenas terminar dizendo que nas casas das três dúzias de adolescentes e jovens que aqui moravam, e que aqui recordei (que me desculpem os que esqueci), se instalaram entretanto escritórios de advogados e meia-dúzia de imobiliárias. Já não há aqui nesta zona sítios para brincar ou jogar à bola, mas não fazem falta, porque já não vivem miúdos no Borlão…

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João Jales
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NOTAS:
1 -Escrevi este texto mais ou menos de chofre, de uma só vez e sem quase trocar impressões com mais ninguém. A minha memória falhou certamente, agradeço as correcções.
2 - Usei as duas imagens do Borlão que tinha à mão. A primeira foi roubada no livro "50 Fotografias dos Anos Cinquenta" que me foi oferecido pela autora (Isabel Xavier) e a segunda é uma foto tirada por mim. O problema é que o meu texto se refere ao início da década de 60 e as imagens são, respectivamente, dos anos 50 e 70. Talvez alguém tenha a foto certa para este texto, fico a aguardar. A terceira fotografia é de 1964 e já a usei aqui, mas vinha a propósito, é exactamente da época e desta vez está legendada.
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C O M E N T Á R I O S

O BORLÃO QUE VOCÊS NÃO CONHECERAM E OS COMENTÁRIOS AO BORLÃO QUE EU CONHECI...

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Estes são os comentários ao post A MINHA JANELA SOBRE O BORLÃO . Se ainda não o leu clique AQUI , se já o leu aprecie os comentários e as duas magníficas fotos do Borlão em duas épocas bem anteriores ao texto ...
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Júlia Ferreira disse...
Obrigada pelas fotografias de umas Caldas que eu também não conheci.
Tenho lido os «posts».
A crónica do João Serra é uma ternura. A narrativa de um episódio das tropelias do «suspeito do costume» mostra bem que, como diz algures o Drummond de Andrade, «mãe não tem limite». Boa escolha também da fotografia da janela, espaço de descoberta, espelhando nuvens, de onde o menino curioso espera «sinais».
Quanto à tua crónica sobre o Borlão (que memória e que boa escrita!), até a mim, que vivi tão pouco tempo nas Caldas, me trouxe memórias de alguns nomes e de alguns rostos conhecidos. Por isso, JJ, obrigada por me «presentificares» momentos da juventude!
Nesta «recherche du temps perdu», cada um escolheu a sua «madeleine» para ter o passado de volta.
Continuem a escrever, para me darem o prazer de boas leituras.
Júlia Ferreira
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Luis Machado disse:
Bolas, Jales, que memória. Lembro-me de quase toda a gente que falas.
Das escadas não te vou adiantar nada.
Mas recordo-me de um episódio, no Borlão, numa noite sem nada para fazer, eu, o João Lourenço e o Henrique Conceição.Andávamos às voltas à estátua do Carmona tecendo considerandos sobre as nossas colegas e amigas.Basicamente se nos tinham dado bola ou não.E a conversa lá se ia arrastando mais ou menos nesta base:
-É pá essa já andou com todos, só faltamos nós, e aqui o Carmona.
Acho que nós na altura curtíamos assim uma onda beat burguesa de esquerda folcloricó carnavalesca.E a ladainha lá continuava:
-É pá só faltamos nós e aqui o Carmona.
Até que se fala de uma bonita moçoila e o Henrique diz:
-Desculpem lá, mas agora ficam sozinhos com o Carmona...
Abraços
Luís Machado
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Inês disse:
JJ
Como não adorar este documento verdadeiramente histórico! Você é uma fonte a jorrar memórias dos que viveram nesta Praça do Areeiro das Caldas. Bebe-se cada gole desta sua fonte de águas santas e cristalinas que refresca saudades esquecidas. Humor, amor... reconstrução desse imaginário juvenil intocado. É um belo retrato do seu coração generoso guardador de pérolas.
Este não é mais um comentário, atenção. É apenas um beijo! De quem conheceu o Borlão quando você era ainda um bebé, e eu menina a olhar os presos que chegavam agrilhoados para construir o Tribunal, uma visão inédita. Agora entrei nos prédios em volta e conheci os inquilinos muitos dos quais revi com saudade e muitos sorrisos. Que belo, que divertido relato.
Agradeço-lhe por querer o meu nome na lista dos comentadores, e com vanitas!
Inês
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Luisa disse:
João,
Senti-me ao ler-te como que embalada por alguém que sabe tudo o que aconteceu e como tudo se passou.....no meio da confusão e do esquecimento há alguém que não está indiferente e traz de volta a nossa adolescência,como diz e bem a Isabel Xavier.Era assim que se afastavam os fantasmas e os medos quando éramos miúdos.
Só posso agradecer....e esperar por mais!!!
Beijos a todos.L
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Miguel Bento Monteiro disse:
Johny
A tua descrição é simplesmente magnífica e comovente, o que aliás se depreende dos diversos comentários já publicados.
Não me lembro de todo da observação feita pela minha mãe sobre o funcionamento dos intestinos da professora mas, por outro lado, lembro-me perfeitamente desse mesmo funcionamento,que era rítmico,regular e deveras oloroso. E para uma criança com a idade que eu tinha na altura, tornou-se quase uma vivência. Mas a verdadeira razão da minha ida para o ERO foi de ordem geográfica e, portanto, prática pois como disseste fui viver para muito próximo do ERO. Assim o meu pai não mais precisou de me ir buscar (?) à escola pois eu passei a regressar sozinho a casa. O (?) deve-se ao facto de ele se esquecer sistematicamente de mim e, na realidade, nunca me foi buscar, pois era sempre a minha mãe que acabava por passar a apanhar-me.
Mas seria também interessante entrar um pouco na residência Jales. Por exemplo, um dia fui lá jantar. Para além do arroz que a Maria Helena Jales fazia (eu trato-a aqui da mesma forma que o fazia directamente) e que era simplesmente divinal,fui servido de outro acepipe que de todo detestei,mas que degluti galhardamente. "Gostas?" pergunta a dona de casa, solícita. "Adorei" "Então toma lá mais"... bom,que remédio. Mas o pior ainda estava para vir,pois das vezes seguintes que lá fui jantar aguardou-me sempre o mesmo pitéu de que eu tanto tinha gostado,e com que a mãe Jales simpaticamente me presenteava.
Houve uma ocasião em que os pais do JJ se deslocaram por diversas vezes a Lisboa.Logo após a sua saída de casa tinham início umas batotadas (na altura era o king,o poker só surgiu mais tarde) mas o baralho utilizado tinha uma particularidade: os símbolos dos naipes e, em especial, as figuras eram nus femininos,o que baralhava completamente os jogadores.
Lembro-me ainda de ter ido à residência em questão buscar umas garrafas de vinho, isto porque o pessoal estava numa festa em casa do Rui Malaca,já bem bebidos,e por ser o único a não beber,fui nomeado voluntário para ir buscar os oxidrilos. Quando me viu de garrafas na mão,tipo saloon, o pai Jales ainda me mandou umas bocas no género "estás tocado"!,"andas nos copos a esta hora?",etc.
É claro que todas estas aventuras não passavam despercebidas, mas a Maria Helena apenas dizia fleumaticamente: "Espero, pelo menos, que ninguém vá dormir para a minha cama".
Um grande abraço para ti e muitos parabéns pelo texto.
Miguel B M
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Rosa disse:
Comecei a ler o teu texto sobre o Borlão e, efectivamente, tem um ritmo tal que não consegui parar senão mesmo no fim ... gostei muito.
E achei graça a uma referência que fizeste à família Pimenta de Castro, já que não imaginava que tinham vivido nas Caldas – se forem os mesmos que conheci, claro. Em Lisboa, na Escola Lusitânia (antiga escola tipica do Estado Novo, exclusivamente feminina, ao Arco-do-Cego, bem pertinho do Archote, lembras-te?), por volta de 1970, fui colega e amiga de uma Madalena Pimenta de Castro que morava em Cascais, salvo erro. Muito gira, alta, espertíssima... Vou procurar uma foto que suponho não ter ainda perdido, para veres se é mesmo ela (esperando que a possas reconhecer), feita numa excursão a Tânger.
Nunca mais soube dessas minhas colegas mas voltei a ver a Madalena há poucos anos, no Conservatório, enquanto esperávamos por audições das nossas crianças. Acho que tenho essas fotos nas Caldas. Faço um scan e mando-to, se a busca correr bem.
Bjs. Rosa
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Anabela disse:
Era muito miúda, mas recordo-me perfeitamente do descampado que era o Borlão e também da feira do 15 de Agosto ser lá realizada.Felizmente que se foi transformando, tornando-se numa zona habitável, senão não estaríamos a ler esta magnífica descrição feita através da janela do João, para não falar na sua incrível memória!!!
Olha meu querido João, quero-te dizer que aquela subida da rampa das Cinco Bicas foi feita a maioria das vezes a "butes".Aqui a tua memória falhou, desculpa lá… (Está bem, por vezes o meu Pai levava-me de carro, que não era azul, naquela altura seria talvez branco, mas era um Ford).
Fizeste-me recordar e com saudade as brincadeiras nas escadas de serviço do prédio dos Pimenta de Castro com a S.Luís e os seus irmãos, Fázinha e Jorge.
Confesso que sinto uma nostalgia quando passo pelo Borlão, pois já não é o Borlão da minha meninice…
Anabela Miguel
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Manuela disse...
Antes de mais, Jales, felicito-te pelo teu excelente texto, o Borlão, “visto” da tua Janela. Um perfeito documentário!
As palavras estão cá e elas próprias desencadeiam as imagens.Por momentos regressei à “minha” janela do Hemiciclo Frederico Ulrich. Vi as carinhas bonitas daqueles meninos que jogavam à bola atrás da Igreja e no descampado mesmo ao lado da "minha" casa. Percorri, tendo por guia a tua espantosa memória, todas aquelas ruas, até a toponímia me não escapou, já quanto aos andares e números de polícia das casas dos nossos colegas e Professores…A Benilde, a Anabela, a Mafalda, as colegas e amigas que me eram mais “próximas”. A a Benilde,"luminosa", como a definiste bem! Ainda hoje em dia mantém essa mesma "luminosidade".
"Há palavras que fazem bater mais depressa o coração…" disse Almada Negreiros.O meu bateu mais forte por não te teres esquecido de mim e dos meus irmãos e, muito especialmente, pelas palavras elogiosas com que te referes a meu Pai. A testemunha, com toda a certeza, não se sentia bem no “papel” de mentirosa. Quem pode gostar da mentira?
Manuela Gama Vieira
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SALETTE disse...
Olá,João
Que óptima memória e que descrição deliciosa!adorei rever o nosso querido Borlão...olha,quando da tua janela espreitavas a EngºDuarte Pacheco nunca avistaste o Nuno Mendes? Ele morava aí, no prédio em frente ao dos manos Hipólitos.
Eu,antes de morar no chamado prédio da Rocaltur, morei alguns anos na Duarte Pacheco,nº13, daí que recordo muito bem essa zona.Era emocionante a altura das feiras bem como a vinda ocasional de companhias de teatro que actuavam numa tenda junto á igreja.
Eu e a Benilde (que nessa altura era minha querida vizinha de prédio)chorámos baba e ranho a ver ''Amor de Perdição''.E as idas á Avenida da Estação para apanhar folhas para os nossos bichos da seda? Tantas memórias...
Beijinho
Salette
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Ana Luisa disse...Tanto ou mais do que a escrita admiro a tua memória. Por momentos lembrei um Borlão bem mais bonito do que estava na semana passada.
E da Ana Isabel por acaso sabes alguma coisa? Fomos muito amigas enquanto estive no ERO e claro também passávamos férias em S. Martinho, mas depois de alguns anos perdi o contacto.Algumas tardes ao lanchinho que a mãe dela nos preparava também íamos dando umas espreitadelas ao largo para "ver quem passava"...
Beijinhos
Ana Luisa
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Paulinha disse...
Olá João
Eu e a minha amiga Anabela Castro Afonso, inseparáveis como sempre, estamos a passar uns dias de férias aqui no Algarve e como habitualmente atentissimas ao nosso blog, lemos juntas mais um fantástico texto escrito por ti. Memória prodigiosa!!!! realmente brilhante como sempre, continuo a achar que devias escrever um livro...
Parabens João.

Bjs PP
jorge disse...a memória do jj é fantástica(ou eu estou muito mais senil do que julgava)mas o que mais me admirou foi a capacidade de transformar o que poderia parecer uma lista telefónica num documentário,como´disse a manuela.mas lembro-me também do nuno,do azevedo santos e da salette na duarte pacheco,quando estavam a ser construidos os prédios de que aqui se fala.
junto os meus parabéns aos muitos que já cá estão!j
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Isabel X disse...
Recém-construído e vaticinado para novo centro da cidade, era toda uma geração de colegas e amigos nossos que morava no Borlão e nas suas imediações.
A prodigosa memória do Jales e a forma quase fotográfica como descreve o que via, de umas e de outras janelas, com o pescoço mais ou menos esticado, fascinam-me!
A Paula Jales e a Tucha chegaram a ser minhas colegas no colégio, porque tiveram que repetir um ano; a Ana Salgado não, porque, em condições idênticas às das colegas, foi mandada para o Colégio Andaluz de Santarém, pelos pais.Lembro-me bem de frequentar a casa da Paula e a da Ana. Belas festas de aniversário!
A amiga da minha geração que mais cedo "me morreu", a Isabel Reis Vieira, também morava no Borlão e uma outra amiga da primária, a Célia, de quem nunca mais soube nada.
Não fazia a menor ideia de que a Eunice Muñoz tinha morado nas Caldas, mas achei graça. Pena nunca me ter apercebido...
Tal como o Xavier e a Mafalda Serrano, também o João Jales e a Ana Paula Gouveia continuam "vizinhos" hoje em dia, mas com o o importante "pormenor" de ser no mesmo bairro da adolescência. "O bom filho à casa torna" ou será antes "os bons filhos que tornam a casa?"
Muito gratificante encontrar este retrato tão vivo dos amigos antigos. Até parece que voltamos à adolescência.
Parabéns, JJ!
- Isabel Xavier -
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Luis Abel disse :
Vivi no Borlão desde 1964, conheci bem o autor da prosa meia dúzia de anos depois quando me tornei pau-de-cabeleira para que pudesse mamoriscar a minha irmã Paula e ainda melhor quando, muitos anos depois, se tornou meu cunhado oficial.
Por isso, não é para mim novidade nenhuma a sua impressionante capacidade de memorizar factos e de os relatar. Já a minha...enfim, acho que nunca me contaste que a Eunice Munoz vivia por cima de ti, essa foi nova para mim!
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Alfredo disse...
A sorte que o fotógrafo teve de apanhar apenas um carro estacionado frente ao Tribunal (ironia)!Se calhar era dos noivos!
Nesta data passava por aqui todos os dias rumo á Escola Comercial e Industrial, ía saír por um portão de ferro frente á Praça de Touros. Às segundas feiras havia um mercado de cebôlo e outros artigos de horta, ao longo da avenida que começava no Largo da Estação e se prolongava até ao Quartel dos Bombeiros.
Joaquim disse:
João, na segunda destas duas fotos mais antigas, olhando de frente está a igreja e já se vê no meio a "rotunda". Mais para a direita está uma velha arrecadação que julgo pertencia à Câmara e que permaneceu lá durante muitos anos.
Na Rua Fonte do Pinheiro, que fazia parte desse Largo do Borlão, havia um muro "cor avinhada" que se alongava talvez até à Rua do Jasmim, com umas "humildes" casas de rés do chão e nelas moravam duas figuras simples e populares da nossa pequena cidade: eram o nosso " Ti'Pacheco" dos gelados e das quentinhas e boas e o Ti'Sebastião que era o "bagageiro" de serviço das Caldas, que percorria a cidade com a sua carroça e a sua esposa ao lado para dar uma ajuda se tal fosse necessário Quaisquer comerciante da época e não só...se lembrarão deles.
Bem hajam
Joaquim
(Estou fora do nosso país há mais de quatro décadas ,o quer dizer posso estar a ver o filme um pouco mal focado. Espero que não)
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Meus Sonhos disse...
O centro das Caldas continuou a ser a Praça da Fruta,o Borlão era as Avenidas Novas ou o Arieiro das Caldas como diz o JJ.
A memória do autor é realmente invulgar e o seu relato um testemhnho único de um tempo que não volta.Ninguém referiu ainda a conclusão final,em que se diz que as famílias com crianças foram substituídas por escritórios e serviços,desertificando o centro da cidade.Isso é verdade em quase todas as cidades portuguesas.
Grande post.
Parabéns, Jales!
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Não vos dou a certeza do ano em que fui habitar no “Borlão”, mas parece-me foi em 1959, para a rua Coronel Santos Costa, que à data nem estava alcatroada.
Esta mudança de residência deveu-se ao detectar do problema cardíaco do meu Pai, e aos médicos o mandarem evitar todos os esforços, até subir escadas; devido a isso fomos habitar um prédio com elevador.
A Laura tem toda razão em eu me recordar de ser ali o recinto da feira, o primeiro ano que eu habito lá, é precisamente o último das feiras no “Borlão”, tudo o resto coincide com o que eu me recordo.
Pouco tempo habitei na R. Coronel Santos Costa, logo que os prédios dos Capristanos estão construídos, vou residir para lá.
“A MINHA JANELA SOBRE O BORLÃO”, aproveitando as palavras do João Jales, apenas a ocupei quatro anos, em 1963 o serviço militar colocou-me perante outras janelas.
João Ramos Franco
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Benilde disse...
Olá João,
Que memória prodigiosa...
Gostei muito!
Bjs
Benilde
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João Joaquim disse...
Boa memória a do João, saber aqueles nomes todos é de apreciar.
Antes do João por ali morar, eu deslocava-me muitas vezes à Rua das Flores, onde o meu pai tinha uma pequena oficina de serralharia com o Constantino (pai do conhecido ceramista Constantino ) e então corria toda aquela área para brincar e jogar à bola com a "malta" do Bairro do Viola.
Dizia-se que nas traseiras dos armazéns de ferro do T. dos Santos(Rua 31 de Janeiro) teriam sido ali fuzilados alguns locais que se teriam revoltado contra as forças francesas. Toda aquela área era de terra batida e ali, no Largo do Borlão, se fizeram as melhores feiras anuais que as Caldas conheceram, a do São João e logo a seguir a do 15 de Agosto. Depois veio o progresso e tudo isso desapareceu, a Igreja e esses prédios, alguns sem classe alguma (os primeiros, vá lá, vá lá, depois os outros foram apenas construção e mais construção) .
O João apesar de mais novo uns anitos ainda tem a visão de tudo que existia por detrás da igreja e que se manteve durante muitos anos. Não sei ao certo o que havia de verdade nisto mas dizia-se que para tirar o tráfego desde a Rainha à Praça da Fruta, a calçada 5 de Outubro seria alargada, desde o Largo C. de Fontalva, passava no lado esquerdo da antiga Praça do Peixe , até à presente rua Padre A. Emílio e por ai fora.... Seria ideias dos arquitectos de obras feitas (opiniões), ou seriam planos da Câmara de então?
Parabéns
João Joaquim
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Isabel X disse...
Houve mesmo fuzilamentos na cerca do Borlão, no período das Invasões Francesas. Eu já escrevi sobre isso para a Gazeta, mas o que é realmente relevante é saber que há lá um "monumento" de homenagem aos fuzilados que é da autoria do "nosso" Zéquinha Pereira da Silva!
E esta... ein? Uma "caixinha de surpresas", o Zéquinha!...
- Isabel Xavier -
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J.L. Reboleira Alexandre disse...
O João diz que escreveu isto de chofre e nós até acreditamos. A verve dele está toda aqui.
Afinal Caldas, cidade, nesta altura não se distinguia muito das aldeias circundantes, no que à vivência da miudagem diz respeito. A maioria dos garotos jogava a bola e só se distraia quando aparecia à janela uma daquelas «princesas» que alteravam o ritmo cardiaco daqueles.
Lá na minha aldeia tudo se passava da mesma forma, a única diferença estaria na mudança da identificação dos progenitores para:
- os filhos do Zé Mau, do Zé Sapateiro (da familia da avó dos meus netos Antoine e Coralie), do Zé Rato, do Zé da Quinta (pai daquele que segundo o nosso amigo Sanches, e eu concordo, era na altura o conterrâneo mais ilustre da terra) «et ainsi de suite».
Belo retrato de uma época.
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Isabel disse...
Olá Colegas,
Adorei ver o Borlão como ele era nos meus tempos de miúda. Quem disse algum dia que não vivemos de recordações? Eu prezo as minhas como se petiscos fossem!
Saudades dos outros tempos em todos nós tínhamos uma vidinha estudantil mais apetecível. Abençoados todos vocês que colocam fotos inexcedíveis no Blog do meu Colégio de excelência...
Mil abraços de Óbidos,
Isabel de Azevedo Noronha
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Alberto Pereira disse:
Um texto bem giro; lembro-me de ir à caça das rãs que existiam nos charcos de água que se formavam atrás do Tribunal ainda não havia prédios por lá.
Também me recordo do circo que se instalava no local onde agora é a Câmara; uma noite o urso fugiu pela R.Engº Duarte Pacheco e, partindo as vidraças, entrou na Mercearia Simão; os meus Pais chamaram a Polícia pensando tratar-se de um assalto e imaginem os guardas quando lá chegaram e viram que o assaltante era um urso que estava calma e tranquilamente a comer todos os rebuçados que o Sr. Simão tinha em stock.
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Belão disse...
Mas que memória, João!Ler o teu texto foi um mais um regresso ao passado e que me trouxe à memória tantos episódios...Éramos tantos e todos vizinhos!
Lembrei-me das brincadeiras nas escadas do tribunal enquanto esperávamos a carrinha do ERO, logo pela manhã.
Também me lembro da cena do urso, que o meu vizinho do 1º andar(o Alberto) aqui conta e que deixou sem palavras os clientes mais notívagos do Avenida, um deles, segundo consta, não sei se anestesiado pela cerveja,pensou tratar-se de uma senhora pela rua de casaco de peles.
Adorei.
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Antonio Hipolito disse:
Um pequeno apontamento que a prosa do JJ me atiçou a fazer, provocado talvez por ainda hoje lamentar não ter continuado a aprendizagem do piano, por a madame Palavicini se ter ido embora das Caldas ... sim eu tambem era uma daquelas crianças.
Falta na lista de nomes apresentada, quer pelo autor como pelos comentadores, e atendendo que se chegou práticamente à estação da então CP, em frente ao Zé Neto, na esquina do outro lado da avenida morava a nossa colega Cristina Rolim e o mano.
Abraço do Tózé H.
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Inês disse:
Parabéns, JJ. Como você escreve bem!
Inês
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Manuel Agudo disse:
Obrigado J Jales, por me ter recordado os tempos de miúdo. De facto naquele bairro habitacional vivíamos muitos colegas do ERO, dos quais o JJ tem uma lista quase completa. Se me recordar de mais alguns digo! Apenas para recordar que entre mim e a minha irmã Ana Luísa, há um outro irmão do ERO (Zé) e recordo-me também de a minha irmã ter uma colega - Ana Isabel que morava no quarteirão mais próximo do Tribunal .Parabéns pela recordação da "Burlópole"
Manuel Agudo
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JJ respondeu:
Faltava realmente o vosso irmão Zé, mas a Ana Isabel está no texto.
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Laura disse...
João,os meus parabéns, está um texto muito bom e elucidativo!As coisas que eu aprendo com as publicações deste blog! Adorei mesmo...
Por seres muito novinho não te lembras das feiras, que também poderias ver da tua Janela! Mas o João Ramos Franco deve lembrar-se...pois não foge muito da minha geração.Eram muito engraçadas as feiras do São João e do 15 de Agosto no largo do "Borlão".
Retenho na minha memória uma pombinha de madeira...que ao ser empurrada batia as asas...uma delicia!!! Coisas de criança...e prendas de um avô!!
Laura Morgado
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Luis disse...
Para completistas - Faltam que me lembre a Célia, Maine,Guilherme, Domingos Afonso (filho de sub-gerente do BES), Carlos e irmãos (filhos do juíz) no hemiciclo; Graciano e irmãos (da Sapataria Mário), na avenida; Meirim na transversal da av.; Luís Brito e João Pedro (família Correia), Paulo Moreira, Pedro Mil-Homens, na Eng. Duarte Pacheco. Eu e a família Castro, vizinhos na Heróis da Grande Guerra e com passagem pedonal das traseiras para o Hemiciclo, zona das oficinas do A. Flores. Há mais...
Luís Lamy
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Luis disse...E faltam tb os irmão Santos (filhos do chefe dos CTT), na Eng. Duarte Pacheco - Luís Lamy
PS: Põe o Manique na Eng. Duarte Pacheco - Lamy
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Artur Henrique Ribeiro Gonçalves no Facebook:Uma evocação muito viva do Borlão que eu ainda conheci, um pouco de raspão...
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Paulo Caiado no Facebook:Tantos nomes que me são próximos!
Faltam os da minha geração claro, como as manas Velhinho, Cristina Caramelo, Paula Melo, Bandeira Duarte, Tomás Marques, Costa Faro, os Ruas também conhecidos pelos ''Torralta'' (Sónia, Luis e Paulo) o Luis Correia (filho do Dr. João Correia) e mais tarde os Morgado (Nuno, Vasco e Marcelo), Rosário (Pedro e Sandra), os meus primos do outro lado da Praça, a Rosarinho Moreira, a Paula do tribunal , os Cabrais (Manuela, João Paulo e Tiago) e outra familia que viviam no prédio da Telstar (Manuela e dois rapazes, um já falecido) e toda a troupe da Raul Proença que são tantos que encheriam o blog!
(Na sua maioria todos os ''habitantes do Borlão e Avenida e perpendiculares'' dos anos 70 estão enunciados na crónica ''Cruzando os Anos em Poucos Dias - Diário de um Estudante''.)Paulo Caiado (Facebook)

A NOVA IMAGEM DO BLOG

por Lena Arroz
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Mais uma foto lindíssima, pelo menos para mim.
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Aqui estão os meus queridos colegas:
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- Em cima a começar pela esquerda, Sérgio, Ema, Natércia, Efigénia ( Geninha), Lena Vieira Pereira, o jovem seguinte, que sei muito bem quem é, não me lembro do nome;
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-Em baixo da esquerda para a direita, Victor, Zé Manel, João Lourenço, e Ângelo.

A Ema seguiu letras, mas não sei que licenciatura tirou, talvez línguas e literaturas. A Natércia, o Zé Manel, o João Lourenço (infelizmente falecido muito novo, com quarenta e poucos anos) a Ilda Lourenço e o Xico Vieira Lino (estes 2 não estão na foto) tiraram o curso de medicina, a Efigénia o curso do ISLA, a Lena Vieira Pereira e a Emiliana (que também não está na foto), tiraram o curso de Assistência Social. Do Victor e do Ângelo falámos na foto anterior.
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Agora reparo que muitos dos meus colegas foram para medicina. É de referir que nessa altura se entrava em medicina porque se queria mesmo ser médico e se tinha vocação. Não era preciso ter grande nota para entrar. A nota de entrada em engenharia, por exemplo, era mais elevada do que a de medicina.
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No dia do aniversário da Efigénia, telefonei-lhe. Todos os anos me lembrava, naquele dia, mas ou não tinha disponibilidade ou não tinha o nº do telefone e por isso há uns vinte ou mais anos que não falávamos. Eu não lhe disse quem era logo de início. Fui-lhe apenas dando pistas para ela descobrir quem lhe estava a telefonar.
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Dizia-lhe :
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-Ia brincar contigo para aquele sótão transformado em casa de bonecas que ficava no prédio do café das Cavacas, ao fundo da praça...
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-Ia com a Dadinha e a Guida reunir contigo para formarmos o clube "qualquer coisa " ( não me lembro o nome) do qual eu era a tesoureira e por isso juntava moedinhas numa caixinha de folha...
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- Era tua colega de turma até ao 5º ano...
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- Era amiga do teu namorado Zé Manel...
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- etc, etc...
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Foi muito divertido quando ela descobriu que era eu. Lá pusémos um pouco a "escrita" em dia, mas ficou muito por dizer e muitas saudades.
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Beijinhos, para todos.
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Lena Arroz
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C O M E N T Á R I O S
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Guida disse...
Se não estou em erro o jovem da fotografia, em pé à direita, é o Zé Mendoça.
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(ES)QUINAS



(Es)quinas





O chamamento, num tom ansioso, chegava-me cada vez mais distintamente. – “João José? Filho? João José?”. Agora percebia que era a voz da minha mãe. Tentei abrir os olhos, mas as pálpebras pesavam-me. Procurei levantar-me, mas o corpo não obedecia. Mexi os lábios, mas não consegui articular qualquer palavra.

Ergui o braço que logo voltou a cair. A minha mãe continuava a pronunciar o meu nome. A sua voz estava agora muito perto. Estremeci, agitado. “Oh, graças a Deus!” – disse ela, num tom que me sossegou. “Não deve ser grave”, pensei, tentando perceber se a aflição em redor podia ter sido ocasionada por mim. No meu quotidiano o síndrome de “suspeito do costume” era tão frequentemente activado que me treinara a descortinar todas as escapatórias. E ali, na solicitude inquieta da minha mãe, eu podia adivinhar uma folga oportuna. Fosse o que fosse que tivesse acontecido, não parecia ter sido culpa minha. De modo que me atrevi a perguntar: - “Que foi, mãe?” - e, desta vez, a minha voz, embora trémula, soou-me clara.

– “Consegues levantar-te?” Só então percebi que estava deitado no chão, meio torcido sobre mim próprio, uma perna e um braço dobrados e a cabeça muito demasiado perto do tamborete que suportava o pote antigo das azeitonas. Fiz um esforço e consegui sentar-me. Não me doía nada, outra conclusão desafiadora, pois era sabido que um extenso cardápio de pequenas dores faz parte das atribulações do dia a dia de um miúdo irrequieto. Confiante, tentei pôr-me de pé, mas sem o auxílio da minha mãe, provavelmente teria voltado ingloriamente ao chão. Sentia-me um pouco zonzo, mas estranhamente feliz, como se tivesse regressado à vida, sentindo pouco a pouco o corpo readquirir equilíbrio e as sensações reconfortantes do espaço e do tempo.

Não me lembrava do que sucedera. A última sensação que retivera era do mundo a rodopiar à minha volta e da queda iminente. – “Perdeste os sentidos, meu filho.“ A expressão era nova para mim, tentei absorver o significado das palavras: - “Perdi os sentidos?” - repeti em voz alta. – “E agora, mãe, já apareceram?” – “Ouvi um grito teu, seguido de um estrondo e vim a correr. Estavas caído no chão e não me ouvias. Que aconteceu? Porque gritaste”?

Parca em novidades, a pequena aldeia fez do acontecimento tema de comentários no dia seguinte.

- “O menino teve um desmaio”, contou a Francelina. - “A mãe não o deixou sair toda a tarde, coitadito”. -“Foi um grande susto”, rematou o Tóino. -“Aquilo passou-se quando ele estava à janela”. – “Muito gosta ele de ir para aquela janela!” – observou o Rosinda. – “Põe-se ali a ver os animais que passam no carreiro, os pássaros que se empoleiram na árvore. Às vezes cola papéis com palavras nos vidros. E desenhos. Fotografias. Bocados de jornais. Outras vezes, abre-a para ouvir melhor”. – “Oh, é para escutar o ruído dos carros e das camionetas que passam além, na estrada de macdam”. – “Põe-se a olhar para os montes e para as nuvens como se dali viessem sinais”. - “Foi o que aconteceu ontem. Ao abrir a janela bateu com o cotovelo na quina”. – “Até me faz impressão só de pensar. Dizem que é uma dor horrível”. – “Quina contra quina – quina do braço contra quina da janela”.
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João B Serra
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C O M E N T Á R I O S
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Isabel disse:
Até parece que sentimos a aflição da mãe, ansiosa por que o filho recobre os sentidos. Até parece que sentimos a estranheza e o alívio do filho quando, aospoucos, se sente voltar a si. Naquele dia o protagonista do acidente foi o centro das atenções, dos cuidados, das conversas de todos(eu lembro-me de em criança, quando fazia um disparate, me esconder e desejar ardentemente que me acontecesse qualquer coisa de mal para, em vez do merecido castigo que me aguardava, passar a ser alvo do carinho de todos).
Eis revelado (julgo) o motivo original da paixão do João por janelas! Curioso do que o rodeava, debruçou-se tanto, que caíu da janela abaixo: uma atracção que lhe ia sendo fatal e que lhe deixou sequelas... sentimentais. Quina contra quina (da janela, do autor), no título subtilmente transformadas em es(quinas), outra grande afeição do João, também dá que pensar! É que há uma lição de vida a retirar deste caso: quem se apaixona por janelas é porque em algum momento sofreu por elas, ou caíu delas abaixo. Como em tudo na vida, aliás.
Belíssima narrativa! Viva, expressiva, cheia de simbolismo! Gostei imenso!
- Isabel Xavier -
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Isabel Esse disse...
Um menino irrequieto e curioso teve um acidente invulgar e,pelos vistos,muito doloroso -resultado um post muito engraçado,irrequieto como deve ter sido o seu autor.
É sempre um prazer ler a prosa de João Serra!!!IS
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J J disse...
Interrogo-me muitas vezes sobre os motivos que levam a que determinados episódios do nosso passado fiquem tão nítidos na nossa memória, enquanto outros, aparentemente de igual (ou até maior) importância, se esfumam sem rasto...
Este parece ser um episódio marcante na vida do autor, mas porquê? Pela dor, pela perca dos sentidos, pela preocupação materna, pelos comentários dos outros ou porque lho relataram ou referiram posteriormente com frequência?
Não tive aqui resposta para a minha interrogação, confesso, mas é sempre com gosto que vejo um retrato "pintado" desta forma, com lápis fino e economia de traços.
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João Ramos Franco disse...
Ler esta narrativa de um episódio, do então menino João Serra, tem uma certa piada.
Ao dizer “No meu quotidiano o síndrome de “suspeito do costume” (visto pela Mãe) “, ou até como é visto pelos outros: “Põe-se a olhar para os montes e para as nuvens como se dali viessem sinais”. - “Foi o que aconteceu ontem. Ao abrir a janela bateu com o cotovelo na quina”.
Visto agora e rebuscando todos os relatos que tenho lido, encontro o João Serra que conheço e de quem me tornei amigo.
Um abraço amigo do
João Ramos Franco
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jorge disse...
histórias em estilo telegráfico,muita uva e pouca parra...muito bom,como de costume,o post do j s,levando-nos não só ao tempo mas ao local da sua infância.optimo.j
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Belão disse...
Se eu não estava nada a ver o João como um rapazinho irrequieto ao ponto de o "síndrome de suspeito do costume" ser tão "frequentemente activado"? Não foi uma surpresa, de facto. Os miúdos reguilas têm sempre muito mais para contar. E o João fá-lo como ninguém.
Um beijo ao meu amigo JS.
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Alfredo disse...
(Es)quinas
(“Não deve ser grave”, pensei, tentando perceber se a aflição em redor podia ter sido ocasionada por mim. No meu quotidiano o síndrome de “suspeito do costume” era tão frequentemente activado que me treinara a descortinar todas as escapatórias. E ali, na solicitude inquieta da minha mãe, eu podia adivinhar uma folga oportuna. Fosse o que fosse que tivesse acontecido, não parecia ter sido culpa minha.)
-O conto que o João Serra nos traz, para além de uma prosa excelente, a que já estamos habituados a ler, traz-nos também que, já ao tempo, uma rara subtileza política, o que me leva a crer que se tivesse seguido esta carreira, talvez, se tivesse saído vitorioso, senão vejamos: já tinha o espírito treinado para descortinar todas as escapatórias para possíveis erros cometidos, e fosse qual fosse o acontecido a culpa seria sempre de terceiros e nunca dele.Será que isto nos faz lembrar os políticos de hoje ou é somente impressão minha? Até parece o outro a dizer que o Governo não mentiu (TVI). Pois não. A acusação também não diz que foi o Governo, foi ele.
Um abraço
A.Justiça
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Joaquim disse...
Eu gosto muito dos contos do João Serra e neste está um pouco da criancice de todos nós "uns mais traquinas que outros e lá íamos causando sarilhos aos pais, mas por vezes pagávamos pela fama (bicho carpinteiro), mas sempre com o amor deles".
A minha estória de verdade, não era uma quina ou esquina, talvez... a quina partida de um tronco de árvore e um sexto sentido ou preocupação de uma mãe. Quem conhece as Caldas e em particular a área da antiga praça do peixe até ao Largo da Feira Velha, conhece as duas ruas que se unem, apenas divididas pela Calçada 5 de Outubro. Elas são a Rua das Vacarias e a Rua da Ilha. A das Vacarias era uma dum antigo calcetado,uma espécie de paralelepípedos toscos. A Rua da Ilha era de terra solta e argilosa. Elas eram um mundo rural dentro da cidade, pois nelas haviam currais para bovinos, estábulos para cavalos, cocheiras para burros e outros animais. A meio da Rua da Ilha existia a casa e o quintal do Zé Martins (latoeiro bem conhecido dessa época) da família dos Clérigos, conhecido empresário com um estabelecimento de ferragens e torrefacção de café na Rua H. da Grande Guerra em frente aos Caldeanos. Essa propriedade na dita Rua da Ilha tinha a casa para a rua e o quintal ìa até ao chafariz na estrada da Foz, mesmo em frente da antiga casa do João Franco (veterinário), dos Paramos e depois o mui conhecido Zé de Sousa.
Em Setembro era uma alegria, havia o chegar das uvas que vinham das vindimas, pois nessa casa havia um grande lagar e com a azafama da entrega das mesmas sempre havia um cacho ou dois que conseguíamos "desviar". Ora para fazer a estória mais curta; nesse quintal havia uma serie de árvores de fruta, o que quer dizer "a good supply" de sobrevivência Entre essas árvores de fruta havia uma grande nespereira. E como tal, mesmo contra a lei lá íamos "roubar" esses deliciosos frutos,até que um belo dia, eu ao ouvir o alarme de um dos "fora da lei"... vem aí o dono (mentira), ao tentar fugir fiquei preso num tronco da árvore, quase de cabeça para baixo sem conseguir sair dele. Eu lembro-me que a minha mãe que era costureira de calças tinha-me feito uns calções de alças que não tinham botões para que eu não os pudesse arrancar para o jogo do "botão" por isso eu não conseguia sair daquela aflita situação. Tanto, tanto gritei que a minha saudosa mãe, de quem se dizia que tinha ouvidos de "tuberculosa",disse à Josefa (sogra do Mário Lino): -o meu filho está a gritar - e lá foram em meu salvamento.
Moral da estória: o meu pai soube do sucedido e lá vai o então "chá de pau de marmeleiro". Para quem não saiba o significado desse tal chá . é que o tronco do marmeleiro é cheio de nós e quando bate nas costas faz mesmo mossa
Eu menciono nomes e ruas como eram nos anos 50 para que não se percam na história e que certamente a fizeram na nossa cidade, mesmo pequeno que fosse esse contributo.....
Joaquim
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Manuela disse:
Tudo tem uma explicação. A Francelina e o Tónio, carinhosamente, na posse de alguns indícios - os momentos passados à janela, os papéis com “dizeres” nela colados, a falta de autorização para sair de casa - logo se apressaram a encontrar a razão de tamanha dor. Dor de juventude. Sequiosa, sonhadora, inquieta, arrojada. Só não souberam identificá-la. Os sinais, esses, reconheceram-nos com notável sensibilidade.
Que bonita a troca de afectos entre Mãe e filho, entre “palavras” de despertar da perda de sentidos.Linda homenagem que o João aqui presta a sua Mãe e às pessoas simples da sua terra.
O que as (es)quinas de uma janela e de um cotovelo podem ocasionar e revelar!
Manuela Gama Vieira
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Júlia Ferreira disse...
A crónica do João Serra é uma ternura. A narrativa de um episódio das tropelias do «suspeito do costume» mostra bem que, como diz algures o Drummond de Andrade, «mãe não tem limite». Boa escolha também da fotografia da janela, espaço de descoberta, espelhando nuvens, de onde o menino curioso espera «sinais».
Júlia Ferreira
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