ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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A MINHA JANELA SOBRE O BORLÃO

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Ouvi bater palmas e alguém chamar –Paula! - muito perto da minha janela. Mesmo estando num terceiro andar não me admirei, a janela da Tucha, no prédio ao lado, ficava muito perto da minha, ali a dois metros, se tanto. Larguei o meu livro e fui lá dizer-lhe que a minha irmã não estava… que tinha saído…mas ela já entrava pela porta do meu quarto, entusiasmada com a perspectiva de dois dedos de conversa (se se pode chamar conversa a algum “corte e costura” na toilette de umas amigas e umas vagas insinuações sobre uns problemas de coração…). A minha esperança para recuperar o sossego era que a Ana Salgado, moradora no 3º andar seguinte, as ouvisse e viesse exigir que passassem para as janelas das traseiras, onde a ausência do ruído da rua (e dos ouvidos dos transeuntes) lhe permitia também participar.
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Exceptuando nestes momentos, sempre gostara do meu quarto e da vista que usufruía sobre o Largo do Borlão, desde que a minha família viera inaugurar um dos andares dos três prédios que os Capristanos aqui tinham construído no início da década de sessenta. A casa era boa, o meu quarto parecia-me enorme e a Praça Oliveira Salazar/antigo Burlão (como se escrevia na correspondência postal, para mais fácil localização) além de espaçosa “cheirava a novo”, já que todas as construções eram recentes.

No meu prédio morava inicialmente no 1º andar a família do Dr. Ramos Franco, veterinário municipal, com dois filhos, o João e o Rui, infelizmente bem mais velhos que eu, o que nunca favoreceu qualquer convívio. No 2º andar habitava um casal, eram ambos muito simpáticos, não sei o nome, lembro-me apenas que ele era médico ortopedista. No 4º andar vivia uma conhecida actriz de teatro, Eunice Muñoz , que nos suscitava enorme curiosidade porque aparecia nalgumas Noites de Teatro da RTP. Mas só muito mais tarde tive noção da sua importância artística, na altura interessava-me mais saber que ali habitavam três garotos da nossa idade, numa casa com pouca mobília, onde eram possíveis, por isso, algumas brincadeiras proibidas no 3º andar.

Da minha janela via os dois outros prédios, arquitectonicamente iguais. No seguinte, também no 3º andar, como já disse, morava a Fátima Vasconcelos (Tucha) e os pais - o Sr. Vasconcelos era o gerente do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa, ali na esquina.

No 2º andar morava o casal Álvares Pereira com os seus três filhos. A irmã ainda lá mora, por cima do Maratona, na casa onde o seu irmão João morreu num trágico acidente anos mais tarde, mas nunca mais vi o Nuno ou, se o vi, não o reconheci.

Os primeiros andares destes três prédios acabaram unidos e habitados pelo futuro Presidente da Câmara, Engº Luís Paiva e Sousa, a mulher (Gininha) e os dois filhos (Teresinha e Luis). Todo este espaço era importante para tornar possíveis as suas magníficas festas nos anos sessenta, de que nos lembramos bem, eu e certamente todos os outros convidados que as frequentaram.

.A minha irmã Paula e a Tucha eram inseparáveis e tinham, no 3º andar seguinte, outra amiga, como elas nascida em 1956, a Ana, filha mais nova da família Saez Salgado. Os irmãos mais velhos eram o Xavier, o Carlos e o Jaime. O seu pai era o engenheiro Jaime Buceta, responsável pela famosa fábrica de sabão na estrada da Foz (ainda hoje lá está), que mais tarde fabricaria os conhecidos produtos Lander. Uma das sócias dessa fábrica viria ocupar, com a sua filha Pilar, o 2º andar do nosso prédio. A proximidade permitiu que a Sr.ª D. Maria Luísa Paneiro Amate me ensinasse a jogar Canasta e, um dia em que falei sobre um jogo a que assistia, ensinou-me também que “nos jogos de cartas os mirones são de gesso, quando falam são de merda”. Disse isto placidamente, enquanto chupava uma passa de um dos incontáveis cigarros Monserrat que queimava constantemente. Fiquei chocado, mas a minha mãe não pestanejou, a casa não caiu e eu aprendi uma lição para a vida.

Da minha janela via todas estas pessoas passarem, entrando e saindo de casa. Por cima dos Saez Salgado, no 4º andar, morava o dono da fábrica de móveis, o Sr. Serrano, a D. Luisa e os seus filhos, o Zé e a Mafalda; esta última manteve até hoje a vizinhança com o Xavier Salgado.

Na varanda do 2º andar viam-se, nas noites mais amenas, o Sr. Arquimedes, a esposa e as suas duas vistosas filhas.

Da minha janela via também o Padre Albino, o Padre Xico e o Sr. Dario saírem do prédio da esquina oposta para se deslocarem para o ERO no VW carocha azul claro – seria mesmo azul, ou sou traído pela memória? Ainda hoje mora nesse Lote 42 o Dario, que encontro quase diariamente. Da mesma porta saíam também a filha do dono do prédio, a Benilde Saramago, sempre luminosa, mesmo nos dias mais cinzento (quem a conhece, sabe que era assim) e a Nô e a Té, que eu já conhecia por termos sido vizinhos na Rua Dr. Leão Azedo. Eram filhas do Sr. Albertino, que possuía uma fábrica de garrafões para o lado do Avenal (frente ao quartel), e tinham duas cadelas pretas (uma chamava-se Chinha) que eu muito invejava, porque nunca tive um cão.

Da porta do prédio seguinte, já junto ao Tribunal, abria entretanto a porta a Ana Isabel, excelente aluna e minha colega de turma. Como a Mafalda e eu, ela também casou com um colega do colégio, o Zé Sancho. Namoriscou em certa altura um outro nosso colega, o Pedro Nobre, que geralmente me esperava no carro que o pai, trabalhador dos CTT, estacionava às 7h 55m em frente à Igreja. Eu debruçava-me um pouco e via-o aproveitando aqueles minutos até eu sair para completar algum trabalho de casa atrasado ou estudar mais um pouco para um ponto (havia “pontos” e não “testes” nessa altura). Quando eu descia ele fechava o carro e lá íamos a discutir música, que era (é) uma paixão comum.

No vértice oposto do Borlão, à direita do tribunal, a porta da rua abria-se também às oito e um quarto para a saída da Mercês e do Eduardo, os dois irmãos que ali moravam e também frequentavam o Externato, respectivamente três anos e um ano à minha frente.

Vinham da Coronel Santos Costa (hoje Raul Proença) os irmãos Noronha, o Jorge e a Isabel, os Agudos (a Ana Luísa que foi sempre minha colega, e o mais novo, o Manuel) e o Raul Curado e o Manuel Lino; aí viriam a morar, no final da década, o Dr. Jaime Serafim e a D. Esperança. Da esquina dessa Rua com a Avenida, apareciam de um lado (Lote 40) a Ana Clara Andrade e Sousa e o Luís Filipe Vasconcelos e, do outro (nº 18) , a Salette e os Gouveias (Ana Paula, Luís Abel e Cláudia, todos passaram pelo ERO). Já na Avenida moravam o João Mário e a Pilar (Lote 41) e, em frente, a Mami (Marta Figueiredo) e a Élia Mendonça (numa porta que, em vez de nº, exibe ainda hoje,estranhamente, “MOF”). Lá mais do fundo, de perto da estação da CP, vinham os Netos (Tó Zé, meu colega de turma, e o Jaime, mais novo). Uns passavam e seguiam a pé, outros paravam debaixo das arcadas da “casa dos padres”, onde esperavam a “carrinha” (uma camioneta dos Capristanos alugada para transportar alunos e professores para o Colégio).

Esticando um pouco o pescoço via da minha janela as traseiras do primeiro prédio da Rua Duarte Pacheco, onde moravam os meus colegas e amigos Zé Luís Azevedo (em casa do conhecido professor), Belica e Aida Mesquita, Zé Sancho e Belão, Tó Zé e Rui Hipólito, Alberto R. Pereira , Rui Malaca e Miguel Bento Monteiro; este último depressa se mudaria para a Diário de Notícias, trocando a instrução primária da D. Rosa pela do ERO. Eu iria atrás, convencidos os meus pais pela colorida argumentação da Elvira Bento Monteiro (nunca a tratei por Dona!) de que “os rapazes estão melhor a correr naquele recreio ao ar livre, do que a respirar as bufas da D. Rosa!” – lembro-me da frase, que me escandalizou (um pouco) e divertiu (muito), com se a tivesse ouvido hoje. Foi em 1962 e eu tinha oito anos. Referia-se à D. Rosa Magina, professora reformada, já com 80 anos nessa altura, que nos dava aulas em sua casa, na Duarte Pacheco 16 R/C-Esq., com o auxílio da filha, a D. Alice.

De uma das janelas desse prédios saía frequentemente o som de um piano, hesitante e engasgado, enquanto a Madame Palavicini tentava transformar num pianista uma criança que provavelmente preferiria jogar futebol ou ao ringue… hoje lamento não ter sido uma delas, mas na altura nem quis ouvir falar nisso.

Da minha janela não via o Hemiciclo Frederico Ulrich (depois Guiné-Cabo Verde, depois João Paulo II …), a rua em forma de U que rodeia a igreja. Sempre tive enormes dificuldades burocráticas com meu nome e morada, nenhum funcionário da administração deste país foi jamais capaz de escrever, correcta e simultaneamente, “Jales” e “Hemiciclo” sem variadas explicações e múltiplas tentativas e erros…. Bom, mas voltando ao Hemiciclo, para o ver precisava de vir às janelas das salas viradas à Igreja e aí já avistava o prédio a seguir ao nosso, onde morava o nosso professor de Ginástica Silva Bastos, a família do Zé Mário Rego e a do Dr. Palma. Este último viria a mudar-se, com a esposa Maria Helena e os quatro filhos (Ana Margarida, João Paulo, Cristina e Alexandra) para o andar por cima de nós, enquanto a Eunice Muñoz rumava a Lisboa e à justa consagração - seria no final da década de sessenta a mais bem paga actriz portuguesa, ganhando trinta contos por mês! Tudo isto sem prejudicar a sua carreira paralela de mãe, já que teve um total de seis filhos.

Onde hoje é a R. Padre António Emílio havia um descampado em que se brincava e jogava à bola (foto anexa). Vinham ali ter connosco os ocupantes do prédio da Miguel Bombarda cujas traseiras confinavam com esse terreno: o Jorge Pedro (que cedo partiria para Leiria) e também o Baltazar Lourenço, irmão mais novo da Ilda e do João (de quem só me tornei íntimo muito mais tarde), os três filhos do Dr. Rosado Lourenço. Aí moravam também o Luis e a Teresa Machado, cujo pai também é médico e foi director do Termal. Mais tarde conheci lá a Anabela (também minha colega) e o seu irmão Zé Garcia. As escadas daquele prédio têm estórias fabulosas para contar, se um dia o quiserem fazer (as escadas, não eu!).

Depois desse terreno baldio (foto anexa) havia “a casa dos Juízes” onde habitaram o João Licínio, a Manuela , a Fáfá (minha colega) e o Luís Filipe Gama Vieira (ainda hoje um “puto”, só nasceu em 1966, nem devia ter direito a menção aqui no Blog, mas enfim…). O pai era um juiz austero e severo, uma reputação que não melhorou quando uma testemunha faleceu durante uma inquirição dirigida por ele; apesar da culpa não ser obviamente sua, constava que ninguém se atrevia a mentir ao Sr. Dr. Juiz Gama Vieira!

No Castelo Encantado a seguir vivia a Princesa, que eu via fugazmente entre as ameias do 2º Dtº ; lembro-me pouco de a ver ir “a butes” com a plebe, tenho ideia que o Coronel Miguel a transportava habitualmente no seu coche (um Ford azul?) para o Colégio. Já sei que a Anabela Miguel vai responder que ia pé quase todos os dias, mas é assim que eu me lembro…

Era muito povoado de EROs o edifício seguinte (por cima do actual Viveiro): no 3º os Gomes, Mena e Ruca (os pais tiveram ali no R/C a primeira loja Traviata, que depois mudou para a Heróis da Grande Guerra), no 2º andar os manos Pereira Fernandes (S. Luís, Fátima e Jorge) e no 1º andar os Pimenta de Castro. Destes recordo o Raul, a Madalena e a Conchita, mas penso que havia mais. Lembro-me melhor da Conchita por dois motivos: era da nossa idade, apenas um ano mais nova, e fazia bater mais depressa os adolescentes corações masculinos de todo o quarteirão, mas especialmente o do meu amigo Miguel, que desesperava na inútil busca pela atenção dos seus enormes e belos olhos castanhos… Aconteceu em 1965 ou 1966, tínhamos, nessa altura, onze ou doze anos.

No prédio de esquina, que completa o Hemiciclo, habitavam (e habitam) o Rogério e a Milena Caiado e, nessa altura, os seus quatro filhos (Paulo, Xinha, Teresa e Alexandra). A família detinha a Frami, importante fábrica de sumos e conservas ali em Tornada.


Ainda hoje vivemos nesta Praça do Estado Novo, uma espécie de Praça do Areeiro das Caldas, eu e uma outra colega do ERO que eu via passar sob a minha janela, com curiosidade, no longínquo ano de 1971… Mas isso é outra estória, hoje queria apenas terminar dizendo que nas casas das três dúzias de adolescentes e jovens que aqui moravam, e que aqui recordei (que me desculpem os que esqueci), se instalaram entretanto escritórios de advogados e meia-dúzia de imobiliárias. Já não há aqui nesta zona sítios para brincar ou jogar à bola, mas não fazem falta, porque já não vivem miúdos no Borlão…

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João Jales
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NOTAS:
1 -Escrevi este texto mais ou menos de chofre, de uma só vez e sem quase trocar impressões com mais ninguém. A minha memória falhou certamente, agradeço as correcções.
2 - Usei as duas imagens do Borlão que tinha à mão. A primeira foi roubada no livro "50 Fotografias dos Anos Cinquenta" que me foi oferecido pela autora (Isabel Xavier) e a segunda é uma foto tirada por mim. O problema é que o meu texto se refere ao início da década de 60 e as imagens são, respectivamente, dos anos 50 e 70. Talvez alguém tenha a foto certa para este texto, fico a aguardar. A terceira fotografia é de 1964 e já a usei aqui, mas vinha a propósito, é exactamente da época e desta vez está legendada.
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C O M E N T Á R I O S

19 comentários:

J.L. Reboleira Alexandre disse...

O João diz que escreveu isto de chofre e nós até acreditamos. A verve dele está toda aqui. Afinal Caldas, cidade, nesta altura não se distinguia muito das aldeias circundantes, no que à vivência da miudagem diz respeito. A maioria dos garotos jogava a bola e só se distraia quando aparecia à janela uma daquelas «princesas» que alteravam o ritmo cardiaco daqueles.

Lá na minha aldeia tudo se passava da mesma forma, a única diferença estaria na mudança da identificação dos progenitores para:
- os filhos do Zé Mau, do Zé Sapateiro (da familia da avó dos meus netos Antoine e Coralie), do Zé Rato, do Zé da Quinta (pai daquele que segundo o nosso amigo Sanches, e eu concordo, era na altura o conterrâneo mais ilustre da terra, «et ainsi de suite».

Belo retrato de uma época.

Anónimo disse...

Olá Colegas,

Adorei ver o Borlão como ele era nos meus tempos de miúda. Quem disse algum dia que não vivemos de recordações? Eu prezo as minhas como se petisco foram!

Saudades dos outros tempos em todos nós tínhamos uma vidinha estudantil mais apetecível.
Abençoados todos vocês que colocam fotos inexcedíveis no Blog do meu Colégio de excelência...

Mil abraços de Óbidos,

Isabel de Azevedo Noronha

Anónimo disse...

Parabéns, JJ. Como você escreve bem!
Inês

Anónimo disse...

Tantos nomes que me são próximos!

(faltam os da minha geração claro, como as manas Velhinho, Cristina Caramelo, Paula Melo, Bandeira Duarte, Tomás Marques, Costa Faro, os Ruas também conhecidos pelos ''Torralta'' (Sónia, Luis e Paulo) o Luis Correia (filho do Dr. João Correia) e mais tarde os Morgado (Nuno, Vasco e Marcelo), Rosário (Pedro e Sandra), os meus primos do outro lado da Praça, a Rosarinho Moreira, a Paula do tribunal , os Cabrais (Manuela, João Paulo e Tiago) e outra familia que viviam no prédio da Telstar (Manuela e dois rapazes, um já falecido) e toda a troupe da Raul Proença que são tantos que encheriam o blog!
(Na sua maioria todos os ''habitantes do Borlão e Avenida e perpendiculares'' dos anos 70 estão enunciados na crónica ''Cruzando os Anos em Poucos Dias - Diário de um Estudante''.)

Paulo Caiado (Facebook)

Anónimo disse...

Uma evocação muito viva do Borlão que eu ainda conheci, um pouco de raspão...

Artur Henrique Ribeiro Gonçalves (Facebook)

Manuel Agudo disse...

Obrigado J Jales, por me ter recordado os tempos de miudo. De facto naquele bairro habitacional vivíamos muitos colegas do ERO, dos quais o JJ, tem uma quase completa lista.
Se me recordar de mais alguns digo! Apenas para recordar que entre mim e a minha irmã Ana Luísa, há um outro irmão do ERO (Zé) e recordo-me também de a minha irmã ter uma colega - Ana Isabel que morava no quarteirão mais próximo do Tribunal Tribunal.

Parabéns pela recordação da "Burlópole"
Manuel Agudo

Isabel X disse...

Recém-construído e vaticinado para novo centro da cidade, era toda uma geração de colegas e amigos da nossos que morava no Borlão e nas suas imediações.
A prodigosa memória do Jales e a forma quase fotográfica como descreve o que via, de umas e de outras janelas, com o pescoço mais ou menos esticado, fascinam-me!
A Paula Jales e a Tucha chegaram a ser minhas colegas no colégio, porque tiveram que repetir um ano; a Ana Salgado não, porque, em condições idênticas às das colegas, foi mandada para o Colégio Andaluz de Santarém, pelos pais.
Lembro-me bem de frequentar a casa da Paula e a da Ana. Belas festas de aniversário!
A amiga da minha geração que mais cedo "me morreu", a Isabel Reis Vieira, também morava no Borlão e uma outra amiga da primária, a Célia, de quem nunca mais soube nada.
Não fazia a menor ideia de que a Eunice Muñoz tinha morado nas Caldas, mas achei graça. Pena nunca me ter apercebido...
Tal como o Xavier e a Mafalda Serrano, também o João Jales e a Ana Paula Gouveia continuam "vizinhos" hoje em dia, mas com o o importante "pormenor" de ser no mesmo bairro da adolescência. "O bom filho à casa torna" ou será antes "os bons filhos que tornam a casa?"

Muito gratificante encontrar este retrato tão vivo dos amigos antigos. Até parece que voltamos à adolescência.

Parabéns, JJ!

- Isabel Xavier -

Anónimo disse...

João,os meus parabéns, está um texto muito bom e elucidativo!As coisas que eu aprendo com as publicações deste blog! Adorei mesmo...

Por seres muito novinho não te lembras das feiras...que também poderias ver da tua Janela! Mas o João Ramos Franco deve lembrar-se...pois não foge muito da minha geração.Eram muito engraçadas as feiras do São João e do 15 de Agosto no largo do "Borlão".

Retenho na minha memória uma pombinha de madeira...que ao ser empurrada batia as asas...uma delicia!!! Coisas de criança...e prendas de um avô!!

Laura Morgado

Alfredo disse...

A sorte que o fotógrafo teve de apanhar apenas um carro estacionado frente ao Tribunal (ironia)!
Se calhar era dos noivos! Nesta data passava por aqui todos os dias rumo á Escola Comercial e Industrial, ía saír por um portão de ferro frente á Praça de Touros. Ás segundas feiras havia um mercado de cebôlo e outros artigos de horta, ao longo da avenida que começava no Largo da Estação e se prelongava até ao Quartel dos Bombeiros.

João Ramos Franco disse...

Não vos dou a certeza do ano em que vou habitar no “Borlão”, mas parece-me foi em 1959, para a rua Coronel Santos Costa, que à data nem estava alcatroada.
Esta mudança de residência deve-se ao detectar do problema cardíaco do meu Pai, e aos médicos o mandarem evitar todos os esforços, até subir escadas, devido a isso, o irmos habitar um prédio com elevador.
A Laura tem toda razão em eu me recordar de ser ali o recinto da feira, o primeiro ano que eu habito lá, é precisamente o último das feiras no “Borlão”, tudo o resto coincide com o que eu me recordo.
Pouco tempo habitei na R. Coronel Santos Costa, logo que os prédios dos Capristanos estão construídos, vou residir para lá.
“A MINHA JANELA SOBRE O BORLÃO”, aproveitando as palavras do João Jales, apenas a ocupei quatro anos, em 1963 o serviço militar colocou-me perante outras janelas.
João Ramos Franco

Anónimo disse...

Olá João,

Que memória prodigiosa...
Gostei muito!

Bjs
Benilde

Luis disse...

Vivi no Borlão desde 1964, conheci bem o autor da prosa meia dúzia de anos depois quando me tornei pau-de-cabeleira para que pudesse mamoriscar a minha irmã Paula e ainda melhor quando, muitos anos depois, se tornou meu cunhado oficial. Por isso, não é para mim novidade nenhuma a sua impressionante capacidade de memorizar factos e de os relatar. Já a minha...enfim, acho que nunca me contaste que a Eunice Munoz vivia por cima de ti, essa foi nova para mim!

Anónimo disse...

Antes de mais, Jales, felicito-te pelo teu excelente texto, o Borlão, “visto” da tua Janela.
Um perfeito documentário! As palavras estão cá e elas próprias desencadeiam as imagens.

Por momentos regressei à “minha” janela do Hemiciclo Frederico Ulrich. Vi as carinhas bonitas daqueles meninos que jogavam à bola atrás da Igreja e no descampado mesmo ao lado da "minha" casa.
Percorri, tendo por guia a tua espantosa memória, todas aquelas ruas, até a toponímia me não escapou, já quanto aos andares e números de polícia das casas dos nossos colegas e Professores…
A Benilde, a Anabela, a Mafalda, as colegas e amigas que me eram mais “próximas”.

A a Benilde,"luminosa", como a definiste bem! Ainda hoje em dia mantém essa mesma "luminosidade".

"Há palavras que fazem bater mais depressa o coração…" disse Almada Negreiros.O meu bateu mais forte por não te teres esquecido de mim e dos meus irmãos e, muito especialmente, pelas palavras elogiosas com que te referes a meu Pai. A testemunha, com toda a certeza, não se sentia bem no “papel” de mentirosa. Quem pode gostar da mentira?

Manuela Gama Vieira

Anónimo disse...

Para completistas - Faltam que me lembre a Célia, Maine,Guilherme, Domingos Afonso (filho de sub-gerente do BES), Carlos e irmãos (filhos do juíz) no hemiciclo; Graciano e irmãos (da Sapataria Mário), na avenida; Meirim na transversal da av.; Luís Brito e João Pedro (família Correia), Paulo Moreira, Pedro Mil-Homens, na Eng. Duarte Pacheco. Eu e a família Castro, vizinhos na Heróis da Grande Guerra e com passagem pedonal das traseiras para o hemiciclo, zona das oficinas do A. Flores. Há mais... Luís Lamy

Anónimo disse...

PS: Põe o Manique na Eng. Duarte Pacheco - Lamy

Anónimo disse...

Johny
A tua descrição é simplesmente magnífica e comovente, o que aliás se depreende nos diversos artigos já publicados.

Não me lembro de todo do comentário feito pela minha mãe sobre o funcionamento dos intestinos da professora mas,por outro lado,lembro-me perfeitamente desse mesmo funcionamento,que era rítmico,regular e deveras oloroso.E para uma criança com a idade que eu tinha na altura,tornou-se quase uma vivência.Mas a verdadeira razão da minha ida para o ERO foi de ordem geográfica,e portanto prática,pois como disseste fui viver para muito próximo do ERO.Assim o meu pai não mais precisou de me ir buscar (?)à escola pois eu passei a regressar sozinho a casa.O (?) deve-se ao facto de ele se esquecer sistematicamente de mim e, na realidade, nunca me foi buscar,pois era sempre a minha mãe que acabava por passar a apanhar-me.

Mas seria também interessante entrar um pouco na residência Jales.Por exemplo,um dia fui lá jantar.Para além do arroz que a Maria Helena Jales fazia (eu trato-a aqui da mesma forma que o fazia directamente) e que era simplesmente divinal,fui servido de outro acepipe que de todo detestei,mas que degluti galhardamente."Gostas?"pergunta a dona de casa, solícita. "Adorei" "Então toma lá mais"... bom,que remédio. Mas o pior ainda estava para vir,pois das vezes seguintes que lá fui jantar aguardou-me sempre o mesmo pitéu de que eu tanto tinha gostado,e com que a mãe Jales simpaticamente me presenteava.

Houve uma ocasião em que os pais do JJ se deslocaram por diversas vezes a Lisboa.Logo após a sua saída de casa tinham início umas batotadas (na altura era o king,o poker só surgiu mais tarde) mas o baralho utilizado tinha uma particularidade: os símbolos dos naipes e, em especial, as figuras eram nus femininos,o que baralhava completamente os jogadores. Lembro-me ainda de ter ido à residência em questão buscar umas garrafas de vinho.Isto porque o pessoal estava numa festa em casa do Rui Malaca,já bem bebidos,e por ser o único a não beber,fui nomeado voluntário para ir buscar os oxidrilos. Quando me viu de garrafas na mão,tipo saloon, o pai Jales ainda me mandou umas bocas no género "estás tocado","andas nos copos a esta hora",etc.

É claro que todas estas aventuras não passavam despercebidas, mas a Maria Helena apenas dizia fleumaticamente "Espero, pelo menos, que ninguém vá dormir para a minha cama".

Um grande abraço para ti e muitos parabéns pelo texto.

Anónimo disse...

João, nestas duas fotos mais antigas(a segunda), olhando de frente está a igreja e já se vê no meio a "rotunda". Mais para a direita uma velha arrecadação que julgo pertencia à Câmara e que permaneceu lá durante muitos anos.

A Rua Fonte do Pinheiro que fazia parte desse Largo do Borlão havia um muro "cor avinhada" com umas casas de rés do chão "humildes" que se alongava talvez até à Rua do Jasmim e nelas moravam duas figuras simples e populares da nossa pequena cidade
Elas eram o nosso " Ti'Pacheco" dos gelados e das quentinhas e boas e o Ti'Sebastião que era o "bagageiro" de serviço das Caldas, que percorria a cidade com a sua carroça e a sua esposa ao lado para dar uma ajuda se tal fosse necessário Quaisquer comerciante da época e não só...se lembrarão deles. Bem hajam Joaquim

(Estou fora do nosso país há mais de quatro décadas ,o quer dizer posso estar a ver o filme um pouco mal focado. Espero que não)

Anónimo disse...

Bolas, Jales, que memória.
Lembro-me de quase toda a gente que falas.
Das escadas não te vou adiantar nada.

Mas recordo-me de um episódio, no Borlão, numa noite sem nada para fazer, eu, o João Lourenço e o Henrique Conceição.
Andávamos às voltas à estátua do Carmona tecendo considerandos sobre as nossas colegas e amigas.
Basicamente se nos tinham dado bola ou não.
E a conversa lá se ia arrastando mais ou menos nesta base: É pá essa já andou com todos, só faltamos nós, e aqui o Carmona.
Acho que nós na altura curtíamos assim uma onda beat burguesa de esquerda folcloricó carnavalesca.
E a ladainha lá continuava: É pá só faltamos nós e aqui o Carmona.
Até que se fala de uma bonita moçoila e o Henrique diz: desculpem lá, mas agora ficam sozinhos com o Carmona.


Abraços

Luís Machado

Isabel disse...

O João Jales escreve divinamente! Jão, já pensaste em publicar um livro com estas crónicas divinas? Garanto-te que todos ajudamos, embora não precises de reavivivar a tua memória...
Sobre as festas em casa dos Jales, a Maria Helena, excelente anfitriã aliás, todos os anos nos brindava com petiscos pantagruélicos, e a famosa musse de chocolate, de sabor excélsio (não há adjectivos que assim a qualifiquem), no dia de anos da Paulinha!
Para todos os meus beijinhos de Óbidos, com eternas saudades daqueles tempos!
Isabel de Azevedo Noronha