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Os livros são uma memória e um tesouro colectivo e pessoal, mas nos nossos tempos de adolescência muitos livros e autores foram também muitas vezes um denominador comum em "sociedades secretas" , como se a sua descoberta fosse uma senha de entrada num mundo mágico e exclusivo.... O mesmo se passava talvez com músicos, LPs e canções, mas tenho hoje a ideia que os livros são mais perenes (embora goste tanto de Música como de Literatura).
Fui no Domingo ao último dia da Feira do Livro, onde revi com alguma emoção os livros de Júlio Verne, Enid Blyton, Emilio Salgari, até alguns velhos exemplares da Marabu Junior, Mundo de Aventuras, Cavaleiro Andante, etc, que povoaram a nossa imaginação quando frequentámos o ERO. Mas era de outros livros que eu ia à procura...
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Vem isto a propósito de um pequeno comentário que publiquei no Facebook sobre o assunto e que alguns amigos e colegas sugerira que publicasse neste
Blog. Se têm ou não razão, deixo ao vosso juízo, pedindo desculpa se acharem que perderam tempo com estas linhas.

Entrei na Feira e descobri
imediatamente a Relógio de Água, que vendia livros entre 3 e 7 Euros.
Edna O’Brien, Stephen Jay Gould, Oliver Sachs, Mishima, Hélia Correia, Maria Gabriela Llansol… tudo coisas que
eu compraria mais tarde ou mais cedo, mesmo a preço normal. Claro que
fui logo “abandonado” pela família, que planeava estadias menos
prolongadas nos stands.
Decidi que, a partir dali tinha que me apressar mas, logo a seguir, uns álbuns de fotografias, cinema e Jazz tinham 75% de
desconto … Nos primeiros dez metros da feira já tinha três sacos com
livros - péssimo começo! Fiz uma revisão do plano inicial e só parei nas
editoras onde os descontos eram pelo menos de 50% ou havia “livros a
escolher” até 5€. Vocês acreditam que, mesmo com este critério, foi
possível comprar quase todos os livros do que levava numa pequena “lista
de compras” para completar colecções? John Updike, Lawrence Durrell,
Maalouf, Eco, Duras , Yourcenar , Erico Veríssimo, David Leavitt,
Conrad, Gore Vidal, Don Dellilo , Coetzze, le Clezio, Julian Barnes, Cela, da
minha lista só Philip Roth (faltam-me 4 ou 5 livros dele) e Salman
Rushdie estavam ausentes das promoções (suponho que nunca se “saldam” os
próximos Nobel).
É claro que ainda não foi desta vez que completei Vargas
Llosa e Erico Veríssimo, por mais que me esforce faltam-me sempre alguns
dos seus títulos - desconfio até que o brasileiro escreve e edita directamente do Além
mais livros do que os que eu consigo comprar! Uma paixão que me
acompanhou toda a vida, desde que li O Tempo e o Vento.
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Uma
colecção do Círculo de Leitores (com a clara indicação só é permitida a
venda a Sócios) era oferecida a 2 livros=5€ . Muitos eram
interessantes (embora não novidades) comprei vários, de que destaco dois
de Mário Braga, um dos grandes autores do neo-realismo português e que
foi professor do “meu” Externato Ramalho Ortigão. É pai da minha amiga
Ani e tive o prazer de o conhecer pessoalmente no último
almoço/convívio do Colégio.
De Roberto Bolano já tenho todos
(estava lá, a preço “normal”), de Murakami já tenho livros demais
(quando lemos “O Pássaro de Corda” e “Kafka à Beira Mar” , descobrimos
que já lemos todos), de novas traduções de Sebald não vi sinal (e ele é
um dos mais entusiasmantes dos escritores que ninguém leu - morreu há
dez anos e nem tudo está publicado em português), Flannery O’Connor tinha lá os livros a 7,5€ (valem
facilmente 1000 cada um, mas ela escreveu infelizmente pouco...) . Do que comprei de biografias(
Lou Reed, Nick Cave, Patty Smith, Fred “sonic” Smith, Miles Davies,
Coltrane, Peter Hammill, etc), bem como de ilustrações de capas de discos,
falamos noutro dia.
A compra mais curiosa aconteceu num
alfarrabista: faltavam dois livros para completar o número que tínhamos
combinado para ele me fazer um preço unitário mais baixo do que o
anunciado na banca. Quando já não tinha mais para escolher, e ia refazer
o negócio, o vendedor apresenta-me um saco com uma dúzia de livros que
alguém tinha reservado mas não tinha ido buscar. Com a feira a acabar,
se eu quisesse algum, ele já não se sentia na obrigação de manter a
reserva. Entre livros do Paul Auster , Yourcenar, John Heller, Susan
Sontag, Martin Amis, Ian Mcewan (alguns eu já tinha, outros não, mas o
cliente tinha bom-gosto!) descobri “Beloved”, de Toni Morrison, que
tinha inutilmente procurado em vários locais desde que soube que
integrava todas as listas dos melhores livros anglo-saxónicos dos
últimos tempos. Os livros estavam todos como novos e acabei por os pagar
a 3€ cada. Foi então que descobri que já não conseguia transportar
tudo o que tinha comprado, pelo que enviei um SOS à família que me ajudou a transportar os sacos para o carro e me acompanhou num retemperador jantar na Isaura (ali na Av. de Paris, para quem não conhece
um dos “emblemas“ da gastronomia lisboeta e uma das melhores garrafeiras
nacionais. Morei ali perto, quando fui para Lisboa em 1971, sou portanto cliente há ... mais de quarenta anos!).
Soube durante esse jantar que tinha perdido o convívio com muitos dos escritores presentes quando a minha filha exibiu o último Mia Couto autografado. Nunca há tempo para tudo...
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Adeus, vou tentar, como me ordenaram quando cheguei a casa, “arrumar os
livros nas prateleiras”. Mas sobram os primeiros e faltam as segundas …
nenhuma mulher quer entender isto…
JJ
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C O M E N T Á R I O S
Anónimo disse...
Está fantástico como sempre!Ainda um dia havemos de ir todos à
Feira do Livro comprar um livro com as tuas crónicas. Fico à
espera....parabéns
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Concluiria dizendo que,embora formalmente bom e até divertido,o texto se dirige apenas a quem partilha os gostos de quem o escreveu.Não será?