ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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O PADRE QUE TESTEMUNHOU NA BOA-HORA



por Zé Tó Ribeiro Lopes








João, ok, se é para isso (falar sobre o Padre Renato), tenho que responder, tenho gosto em falar do padre distraído, do que o incomodava – as paroquianas ociosas, os superiores enfatuados e os alunos tolos – e da sua atenção à música e às cores.

Sim, o Padre Renato dispôs-se a ser e foi minha testemunha. Fico contente por poder manifestar o meu reconhecimento e admiração pela atitude que tomou, cabendo compará-la com a de quem, em Caldas, nem um abaixo-assinado contra a minha prisão quis subscrever (e tratava-se de um fulano que estava preso não necessariamente por ser militante do PCP, antes um estudante integrado nas movimentações associativas).

O julgamento, no Plenário da Boa-Hora, durou umas breves horas. O ambiente, cinzento e pesado. A presença dominante e intimidante de polícias torcionários e de magistrados vendidos ensombrava tudo. Julgamento é uma forma de dizer. O que ali se passava era uma encenação de uma condenação previamente decidida. Mas também marcava presença no meio daquilo tudo a dignidade das testemunhas de defesa. O Padre Renato era particularmente dissonante: só o facto de se encontrar naquele sítio e naquelas circunstâncias, incomodava. Estavam ali aqueles servidores do regime a esforçar-se por justificá-lo, fazendo a tal justiça, e do lado contrário, do lado errado, estava um membro da Igreja, da mesma igreja que tanto apoiava o seu regime. Pior: o Padre Renato não se limitou a dizer que o rapaz não era mau rapaz. Não havia meio de se calar.

Comunista este? Um franciscano, isso sim, o rapaz tem é alma de franciscano. Palavra por palavra, tanto quanto me recordo. E ele tinha toda a autoridade do mundo para falar de franciscanos ( também é de franciscano aquele piedoso exagero).

Se, como dizes, alguém diagnosticou eu estar «um pouco embotado pelas "agruras" da vida», podes responder que fiquei surpreendido. Embotado é provável, mas «agruras»? Saber que era sobre o Padre Renato era suficiente para eu juntar esta meia dúzia de palavras. Olha que eu chego a lamentar não colaborar aí para o blog-ERO, mas falta-me o jeito. Um abraço,

José Ribeiro Lopes
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COMENTÁRIOS
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JJ disse:
Como o texto indica esta é a resposta a um pedido que fiz ao Zé Tó para colaborar no Blog, nesta série de depoimentos sobre o Padre Renato. O João Serra tinha curiosamente referido este episódio no artigo anterior.
Acho que não necessito de acrescentar nada ao que ele escreveu, o Zé Tó é eloquente, não vejo onde está a "falta de jeito" que ele refere no texto.
Obrigado, vai aparecendo.
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jorge disse...
Lembro-me da prisão do José António Ribeiro Lopes.Já não estava nas Caldas nem era um estudante activista mas a sua detenção provocou comoção nas Caldas e na Universidade.A morte de amigos e familiares nas colónias.O assassinato de Ribeiro dos Santos pela PIDE.Estas prisões.Tudo nos obrigava a não ignorar o pesadelo em que vivíamos.Para não esquecer.
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Isabel Esse disse...
Sou de uma geração diferente do autor mas julgo que o mais importante aqui é que um homem bom e sério mantém essas qualidades em qualquer circunstância.Não sei se foi isso que ele quis dizer mas foi assim que eu li!
É bom ver apoarecer no blogue novos autores,especialmente quando conseguem ser tão comunicativos como o José Ribeiro Lopes.
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Manuela Gama Vieira disse:
"O Padre que amava a LIBERDADE"
Sobre o SENHOR P.e Renato, nada mais digo. Nunca ficará completo o seu "retrato", tal a magnanimidade do HOMEM.
José António:
- Aos que o julgaram (?) não eram JUÍZES!
- Aos cobardes que se esgueiraram, nem uma palavra!
- A SI, COM TODA A MINHA ALMA, MUITO OBRIGADA!!!!
Manuela Gama Vieira

O Padre Renato – 4 histórias, uma nota de leitura, uma breve reflexão e uma “velha” fotografia

por João Serra

Os comentários generosos dos militantes deste blog estimulam-me a voltar à figura singular do Padre Renato André Ramos. Permitam-me pois que partilhe convosco quatro histórias curiosas e exemplares, uma nota de leitura, e algumas interrogações que esta personalidade me suscita.

1ª história – ainda o hipnotismo

Às histórias engraçadas, por vezes com traços cómicos, aqui contadas tenho algo a acrescentar. O Padre também fazia demonstração das suas capacidades invulgares sem, aparentemente, recorrer à hipnose. Para isso, fechava a mão em concha e cruzava-a por cima de uma das nossas, a cerca de 4/5 centímetros de distância. Ao fim de algum tempo, variável, a “cobaia” sentia nas costas da mão, num local para onde convergiriam hipoteticamente os “raios” concentrados da mão sobreposta, uma espécie de alfinetada. Nalguns casos, essa picadela provocava uma ligeira inflamação, detectável a olho nu.
Frequentei as aulas de Latim integrado na turma de Germânicas. A nossa colega Ema sofria de asma e muitas vezes chegava às aulas, na primeira hora da manhã, em dificuldade respiratória. O Padre Renato mandava-a sentar à frente, e fazia com ela a operação que atrás descrevi. Continuava a dar a aula enquanto a sua mão de dedos grossos e peludos quase ocultava a da aluna. Ao fim de algum tempo, a Ema serenava e a aula retomava o seu ambiente e ritmo habituais.

2ª história – aulas extra-curriculares

Recuperei a “honra perdida” junto do Padre Renato quando fui seu aluno a Latim, no 6º e 7º anos. No derradeiro período do 7º, enquanto procedia a revisões da matéria dada e insistia em procurar colmatar os pontos fracos dos alunos, o professor dispensou-me de assistir a aulas. - Vai ter comigo, depois de jantar, à residência paroquial, ordenou-me. No último trimestre do ano lectivo de 1965/66 eu ficava durante a semana nas Caldas, num quarto alugado na Rua da Electricidade. O Padre Renato recebia-nos (a mim e ao José António Ribeiro Lopes que estava a preparar a alínea de direito) numa sala e punha-nos a transcrever para português o De Bello Gallico de Caio Júlio César. Antes lia, em voz alta, teatral e enlevado, aquela prosa latina, como se de literatura se tratasse. Depois escolhia um capítulo e deixava-nos entregue ao nosso trabalho de o traduzir. Absorvidos naquela espécie de puzzle, era sempre em sobressalto que éramos despertados por uma das suas ruidosas gargalhadas. O Padre Renato era um apaixonado de banda desenhada e ria até às lágrimas com as aventuras do Tim-Tim.

3º história – o Latim que me ensinou

Foi tão proficiente no ensino do Latim, que vim a tirar no exame uma classificação impensável. Como se nesta língua morta eu tivesse encontrado uma compensação para o inêxito do canto coral.
Seja como for, essa habilitação veio a constituir para mim uma oportunidade inesperada. Percebendo como eram bem pagas as explicações de Latim, abalancei-me a essa tarefa em Lisboa. Em breve tinha uma pequena turma de alunas do Colégio Sagrado Coração de Maria a quem ajudava a fazer a sua preparação para o exame de Latim. O Padre Renato habilitara-me, com aquela língua morta, com o primeiro instrumento de trabalho intelectual que exercitei.

4ª história – o amigo corajoso

Em 14 de Julho de 1971, o José António Ribeiro Lopes foi preso pela PIDE/DGS. Segundo um comunicado da época, a polícia foi prendê-lo em casa, às 7 da manhã, e, como sempre acontecia, sem mandato de busca nem de captura. Era então estudante finalista (5º Ano) do Curso de Agronomia. Compareceu a julgamento no Tribunal Plenário da Boa Hora, a 17 de Fevereiro de 1972. Entre os que corajosamente fizeram depoimentos em sua defesa, ergueu-se um homem diferente, na indumentária e nas expressões, de todas as restantes testemunhas. Era padre. O Padre Renato André Ramos.

Uma nota de leitura

Em Julho de 1997, veio a lume, nas Caldas da Rainha, uma obra intitulada Redigir Correctamente. Estudo Através duma Narrativa Cheia de Cenas Imprevisíveis. Livro de 160 páginas, contendo desenhos, vinha assinado, na ficha técnica – “Renato André Ramos, Pároco de Tornada, Caldas da Rainha”. Para que se compreenda o propósito da publicação e o espírito que presidiu à sua elaboração, transcrevo um trecho do apontamento final dirigido a um “jovem, bom amigo”:
Julgo que já foi banido o antigo sistema: “… e o trabalho de casa será uma redacção sobre isto ou aquilo …”
Penso que se evoluiu. Que os alunos inclinados para a iniciativa, são estimulados a investigar …ou a procurar dados, informações, etc. Tudo fora da Escola e em ordem a uma redacção a fazer na aula. Na aula e com o senhor professor presente. Presente e disponível para atender cada aluno que lhe peça ajuda.

Interrogações

Todos os depoimentos surgidos neste blog sublinharam a imagem forte e a personalidade rica e complexa do Padre Renato. Mas é verdade que nenhum de nós o conheceu bem, nem podia conhecer. Afinal todos o conhecemos quando tínhamos idades compreendidas entre os 10 anos e os 17 (no máximo) e ele era um homem feito. Nenhum de nós foi seu confidente ou amigo e nenhum de nós manteve com ele um relacionamento intenso para lá da fase em que foi seu aluno.
De qualquer modo, todos nos apercebemos hoje de que estivemos perante um homem de múltiplos talentos: a música (canto e instrumentos, nomeadamente piano e órgão), o desenho e a pintura, as humanidades clássicas, o português. Tivemos diversos padres como professores, mas nenhum, creio, com a preparação cultural e a polivalência do Padre Renato. A pergunta que se segue é: porque motivo este Padre, que poderia ser professor do Seminário ou Maestro de coros ou organista em Lisboa, foi colocado numa modesta paróquia provincial, ali permanecendo décadas?
Haverá certamente quem pense que na raiz do afastamento do Padre Renato de um grande centro, como Lisboa, pode estar o seu feitio truculento, esse “demónio” que alguns testemunharam à solta em certos momentos nas suas aulas. Talvez tenha razão. Mas poder-se-á também tentar inverter os dados da equação e tomar as irrupções temperamentais como consequência e não como causa. Se assim fosse, associaríamos o desterro do Padre Renato a uma condenação humilhante infligida a uma personalidade cujo brilho terá parecido a muitos como ofuscante e porventura excessiva. Muitas vezes me ocorreu que a humildade a que o Padre Renato se condenava poderia ser assimilada à auto-flagelação a que algumas comunidades monásticas se dedicavam.


Uma fotografia

Este Padre Renato em plena acção é o homem que todos recordam. Os que tiveram a felicidade de serem eleitos e todos os outros (pelos vistos uma imensa maioria) que ficando na plateia escutaram e aplaudiram e aprenderam a gostar do que ouviam.
Esta fotografia é um tira-teimas (sabemos agora quem efectivamente tinha sido dispensado no ano de 1964). É uma imagem carregada de memórias. Aquelas miudas no palco do ERO estavam ali por todos nós.

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COMENTÁRIOS / CONTRIBUTOS PARA A LEGENDAGEM DA FOTOGRAFIA

Se a foto foi tirada na festa de Natal de 1964 então eu estava no 5º ano e a Lena Arroz no 6ºano .
Completei a legenda da Lena:
Do lado da 1ªvoz e a contar da ponta mais à direita temos:
1ª- Fernanda(não me lembro do apelido, mas foi dona da loja de malas onde hoje é Bijou Brigite)
2ª- Umbelina
3ª- Lena Arroz
4ª- Ilda Lourenço (fila de trás)
5ª -Mª do Carmo Franco da Silva
6ª- Anabela Pimpão (fila de trás)
7ª- Mercês/ por trás até posso ser eu…pertencia à 1ª voz e , usava “soquetes”… mas não me lembro, queres ver que não fiz parte deste coro ???
8ª-Será a Luisinha Castro irmã do Zé e do Fernandinho?/ por trás talvez seja a Ema Botelho embora não veja lá a fita que ela usava…
9ª- Manuela Gama Vieira/por trás, pela altura, também posso ser eu… ou então a Isabel Corredoura
10ª-Fázinha, ou seja a Maria de Fátima Mendes Fernandes
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Do lado da 2ª voz a contar da ponta esquerda:
1º - Padre Xico
2º - Victor Proença Henriques
3ª - Olga Piedade de Sousa
4ª - Lena Vieira Pereira / por trás penso que é a Arnalda (não sei bem se ela se chama assim ,talvez a Fernanda se lembre mas não é a Ema Botelho embora tenha cabelo encaracolado e loiro)
5ª - Lisete Rebelo Palma./ Por trás a Gracinha Soeiro.
6ª ? esta não sei mesmo… passa-me ao lado .. ela que me desculpe. Ana Nascimento

Isabel Vieira Pereira disse:

Aulas de latim no edifício do Colégio? Mas que luxo! No meu tempo, eram numa casinha à esquerda deste. O frio ali também era intenso, até porque éramos só 3 alunas (a Fátima Rosado, a Pilar e eu), o que não dava para aquecer. Mas começávamos sempre com um exercício especial: correr à volta da diminuta sala a bater os pés e as palmas.Quanto aos dotes musicais do Pe. Renato, é de justiça lembrar que, além de exímio executante, era também compositor, creio que apenas de música sacra — pelo menos, nunca lhe conheci outro género.

As aulas extra em casa, também, já ele nos dava (a mim, quando não conseguia fugir antes de ele me ver através da janela).Mais tarde, já a estudar em Lisboa, quando ia às Caldas ao fim-de-semana, via-o com frequência passar por nossa casa na sua motoreta, a caminho de ou para Tornada. Tinha sempre o cuidado de parar para cumprimentar quem por ali andasse. E logo vinha o lamento obrigatório: «Minha filha, já não sabes nada do que te ensinei", ao que eu respondia com alguma declinação ou enunciação de algum verbo.

Apesar das suas fúrias, só tenho boas recordações do Pe. Renato, e sinto-me feliz por o ter conhecido e o ter tido como professor (ainda hoje me vêm à cabeça muitos dos seus ensinamentos).Lembro-me que só soube da sua morte no dia do funeral. E nesse momento senti que tinha perdido alguém. Isabel VP

Luís António disse:
Na primeira história entramos quase no domínio do para-normal, numa conversa que nos levaria longe. Gosto de ler um Historiador que não receia relatar o que viu, apesar de, provàvelmente, não ter qualquer explicação para os factos.
As outras histórias mostram-nos um Homem pouco comum, tem razão o autor em escrever que provavelmente nenhum de nós o conheceu bem.
É um privilégio ter o João Bonifácio Serra a escrever no nosso blogue. LA

Lena Arroz disse:

Gostei muito das histórias do Padre Renato, e até fiquei com pena de não ter tido latim. Como andava na alínea f, que era a que dava acesso às engenharias, medicina etc, enquanto os de letras estavam naquela salinha pequenina, estávamos nós, que éramos em número muito maior, na sala de aula com o Dr Azevedo ou o Dr Serafim...

A Foto do Padre Renato a dirigir o coro :
- Eu era uma das meninas que cantava neste coro (sou a mais alta do lado direito). Lá estou eu com a minha bata às risquinhas, a golinha branca a aparecer junto ao pescoço, muito direitinha.
Este grupo era constituído por pessoas de vários anos. Penso que nesta altura estaria eu no 7º ano, mas estão meninas muito mais novas que deviam andar ainda no 3º ou 4º.

Do lado da 1ªvoz e a contar da ponta mais à direita temos:
1ª- ?
2ª- Umbelina
3ª- Lena Arroz
4ª- Ilda Lourenço (fila de trás)
5ª -Mª do Carmo
6ª- Anabela Pimpão (fila de trás)
7ª- Mercês.
8ª-?
9ª- Manuela Gama Vieira
…..
Do lado da 2ª voz a contar da ponta esquerda:
1º - Padre Xico
2º - Victor
3ª - Lisete Palma
4ª - Lena Vieira Pereira
…..

Das outras meninas que se vêem, não me lembro dos nomes, embora as conheça a todas.
Na segunda fila dá para adivinhar a Graça Soeiro e a Ema (vê-se um pedacinho da fita que ela usava naquele cabelo louro, tão diferente do cabelo de todas nós).
Esta foto deve ter sido tirada numa daquelas festas de Natal no ginásio.

Gostei muito de saber o que sentiam os nossos colegas que não estavam no palco:
“Aquelas miúdas no palco do ERO estavam ali por todos nós”
Na altura não tínhamos a certeza se cantávamos bem ou mal, embora me lembre de um pequeno texto publicado na Gazeta das Caldas pelo João, em que ele se referia ao nosso canto com algum agrado. Mas mais ninguém se pronunciava... e os nossos pais eram suspeitos.

Eu gostei tanto de cantar em coro que ainda hoje canto. O prazer de ouvir e sentir a harmonia das vozes misturadas é para mim, ainda hoje, enorme. Hoje canto no coro dos Pimpões.

Beijinhos para todos
Lena Arroz

Uma achega para legendar a foto do coro do P. Renato. À esquerda da Lena V Pereira é a Lisete Palma. Júlia R

João Jales disse:
A hipótese levantada pelo João Serra de um génio incompreendido e mal-amado ser desterrado para uma paróquia perdida na província, onde os seus invulgares dotes eram subaproveitados no ensino de cantores medíocres (nós: JJ, Laura, J Serra) e em missas assistidas só por meia-dúzia de idosos (J L Reboleira Alexandre) é uma teoria irresistível. Encanta-me e atrai-me como se uma sereia ma cantasse aos ouvidos … Mas depois vejo que é o sortilégio de uma escrita ascética mas rica em pormenores, só aparentemente seca e impessoal , que me arrasta numa aparente sucessão de puros factos muito bem narrados (as quatro estórias) para essa conclusão.
Julgo que a Igreja, não havendo questões políticas envolvidas, teria seguramente todo o interesse em usar os inegáveis talentos artísticos (principalmente musicais) se eles não existissem em alguém tão problemático como o Padre Renato.
Num comentário ao meu texto sobre ele a Paulinha recordou o quanto o Padre Renato gostava de nós e em mais de uma ocasião eu disse aqui quanto todos gostávamos dele. Mas era um homem atormentado e instável (bipolar, como hoje se diz?).
Os depoimentos do João são sempre assim, concisos e simples, e por isso tão difíceis de imitar. Preciso sempre de uma página para dizer o que ele escreve num parágrafo, por isso ele brinca com as minhas “novelas” e eu invejo as suas “short stories”. JJ

farofia disse...
Confesso que ainda ando um bocadito à toa, perdida no blog. Já tinha passado por aqui, mas não 'comentei' e retornei. Para dizer que estas 4 histórias do Padre Renato me encantaram.
Aliás, todas as entradas sobre o Pe Renato merecem 20 valores!
Se é aqui que deixo uma anotação, é porque a figura que conheci tinha, a par de uma grande humanidade, uma aura de mistério. E, de certo modo, este belíssimo texto responde a perguntas que gostaria de ter feito ao meu Amigo Padre Renato. Obrigada, João Serra!

O PADRE QUE AFUGENTAVA O FRIO


por Amélia Teotónio





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-Truz...truz...truz, dá licença Sr. Padre Renato?

-Claro, entrem meninas, já vêm atrasadas, o Sr Toscano é o único cumpridor...

Eram 8 da manhã e o frio era intenso. A sala da aula de latim ficava situada na parte de trás do colégio e o sol demorava a aquecê-la.

Ui, está tanto frio, dizia a Gracinha (Soeiro), Sr. Padre Renato não consigo escrever, tenho os dedos congelados, dizia a Guida (Roberto), ai,ai, que gelo, lamentava-se a Isabel (Conceição), não se pode estar aqui, vamos ficar constipadas, proclamavam as restantes meninas, que faziam questão de demonstrar sempre a sua solidariedade, qualquer que fosse o assunto...

O Padre Renato que não era homem para ficar sem resposta, rapidamente nos calou.

Dizia ele: o frio é uma questão psicológica, portanto vamos todos pôr-nos de pé e repetir em voz alta , não tenho frio...não tenho frio...não tenho frio...

E eu, não sei se por sugestão, se porque naquela altura éramos jovens e os corações eram rápidos a transbordar de calor, o certo é que rapidamente o tumulto se desvaneceu.

O calor humano tinha suplantado aquela “grave e complexa” situação...e a aula lá continuou, rosa,rosae,rosarum,rosas!

Sendo um homem especial, embora simples, julgo que não deixou indiferente todo aquele que o conheceu. Era um homem bom e foi um óptimo professor. Com os seus alunos de latim era de uma dedicação extrema. Deixou-nos boas recordações e várias estórias.

Amélia Teotónio
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COMENTÁRIOS
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Manuela G V disse:
Que linda rapariga!!! Amélia, avivou-me a imagem da sombria e relativamente pequena sala destinada às aulas de Latim, e...a 1ª declinação...também!
DA LUZ E DO CALOR, encarregava-se o P.e Renato, e...nem precisava de recorrer à janela!A JANELA dele era IMENSA E BELA. "A DIFERENÇA... ESTÁ NA DIFERENÇA" e o P.e Renato era SAUDAVELMENTE DIFERENTE!
Manuela Gama Vieira.
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João Jales disse:
Não sei se repararam que, depois da fotografia, está um texto que mostra as invulgares capacidades do Padre Renato (eu sei que a maior parte só tinha reparado na fotografia).
Já aqui disse antes que a Amélia tem memórias de episódios, nomes e pessoas que se desvaneceram nos discos duros da maioria dos colegas, espero que os continue a partilhar connosco. Os seus textos têm a grande qualidade de relatar, sem que o autor pareça estar à frente do que é relatado.
Quanto à fotografia lamento ser nessa altura (64?65?) um garoto mais novo do que ela, e hoje ela uma garota mais nova do que eu... Injustos desencontros!
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jorge disse :
A sala do latim era ao cimo das escadas do lado dos rapazes,1ª porta à direita.Metade da porta era vidro martelado.Era muito fria porque era virada a norte,se bem me lembro.Só o Padre Renato a poderia realmente aquecer,hipnotizando as alunas.Uma história simples mas elucidativa.
Bela fotografia,como é que essas coisas aí vão parar ao blogue?

O PADRE QUE ARRUINOU UMA CARREIRA ...

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Tendo sido aluna de canto coral do Padre Renato, tinha que dedicar umas palavrinhas ao professor que arruinou a minha carreira musical.


Frequentava eu o meu 3º ano quando, num dos ensaios das suas aulas de canto, consegui, não sei bem como, provocar-lhe um tipo de vibração nos tímpanos que ele nunca mais esqueceu. No ano lectivo seguinte ia eu no “dó” a caminho do “ré” e fui imediatamente dispensada das aulas. Daí em diante o Padre Renato sempre que me via entrar na sala de aula dizia: “a menina pode sair, está dispensada” nem me dava uma oportunidade de eu poder mostrar a minha voz angelical.


Relembro, a propósito dos seus dotes de hipnotizador, que ele só os usava nos rapazes, pois dizia que não queria problemas com as raparigas.

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Como tudo o que se podia dizer sobre este professor foi já dito pelos meus colegas, quero apenas realçar o facto do Padre Renato ser uma pessoa muito humana.


Laura

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COMENTÁRIOS

João Jales disse:
Olá Laura, bem-vinda aos clube dos desiludidos do Belo Canto pelo Padre Renato… Então também não podias mostrar os teus lindos gorgeios nas aulas de Canto Coral? Graças a Deus, dirão os teus colegas!
Mas a sério, não havia cantores no colégio? Ou são demasiado modestos para aparecer? Como escrevia aqui há dias a Isabel, digam-me um, só um, para quebrar esta má imagem musical dos alunos do ERO.
A foto da Laura (fornecida pela Júlia) mostra o recreio do Colégio no início dos anos 60, parece um terreno agrícola. Não tenho qualquer recordação de ter chegado a ver este local assim, como aqui está.
Obrigado Laura, e apesar da estória de uma carreira que não chegou a ser me ter entristecido, espero que tenhas mais para contar…

Ana Nascimento disse:
Laurinha:
Pois eu não tive a sorte de ficar dispensada… fazia parte da 1ª voz … mas de pouco me serviu pois não fiz carreira nesta área…!!!!!!
Sim senhora, que linda foto… a menina a passear no recreio dos rapazes !!!!!!! Tal atrevimento não nos era permitido ….Só pode ter sido tirada numa tarde de Sábado em actividades da JEC… estou certa ou estou errada ?
Beijinhos
Ana

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