ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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UMA JANELA NO TELHADO (Ana Braga)

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JJ


Tenho visto, lido e apreciado o blog através de todas aquelas belíssimas janelas. Lembrei-me que escrevi há anos uma coisinha dedicada à minha filha sobre uma janela nova que abrimos no seu quarto. Vou-te mandar se achares engraçado podes editar. É uma visão também de fora para dentro e por isso também diferente.Logo verás.
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Ana Braga





UMA JANELA NO TELHADO

Lá em cima, no teu quarto,
que durante longo tempo foi projecto,
Nasceu hoje, por milagre,
um pedaço de céu no meio do tecto!

De dia, a Sul, no pano azul intenso,
viaja o sol no seu trajecto.
Às vezes, num canto desse mar imenso,
surge um barco/nuvem tocado a vento, numa fuga.
Cúmulo-nimbo? Presságio de chuva?
Ou apenas, solitário, vogando,
em busca de aventura?

À noite, é deslumbrante contar estrelas,
conhecer impossíveis lugares, terras distantes.
Ou tentar ver no céu milhares de “velas”,
que iluminaram as rotas dos nossos navegantes.

Nos fins de tarde agrestes,
quando a chuva, teimosa, não pára de cair,
corre irritado o vento, perdido,
sem saber se deva ficar… se deva ir.
As árvores, ancoradas,
agitam ramos nus, num vão lamento
e os bichos sem abrigo, vêem na tempestade
o seu maior tormento.

É nessas horas más,
quando chora , triste, a natureza,
que a janela vai mostrar-te
os contrastes do mundo
e revelar-te os feios meandros da pobreza.

Nesse teu quarto/refúgio, rodeada de conforto,
não esqueças, minha filha, ao longo da tua vida,
que há outro mundo diferente,
de pobre gente sofrida.

Em certas noites, surgirá, também a Sul,
espreitando atrás do monte, uma visita especial,
a iluminar profusamente o horizonte.

Gentil e vagarosa estende o manto,
realçando o mais pequeno e triste canto.
Sempre risonha e bem disposta,
D. Lua Cheia virá em noite fria,
e, graças a ela, da escuridão se fará dia.

Será também dessa janela, que verás, piscando,
a luz dos grandes aviões, no seu vai-vem constante e ruidoso,
carregando no bojo vagas de ansiosas multidões.
E no jeito de sonhar que eu te conheço,
sentada na cama, bem segura,
voarás para longe do teu quarto,
viajando sem medo, como se a nave fosse firme
e estivesse presa a um penedo.

E agora, que mais dizer dessa janela,
fantástico rasgo aberto ao céu?
Só sei que no futuro irás mirar-te nela,
digo-te eu!
Mas não esqueças, que o vidro
é de ambos os lados transparente,
e se serve para olhar p’ra fora,
também servirá para alguém, de lá,
olhar p’rá gente.

Desejo apenas que por ela
os Anjos te possam ver melhor e conhecer,
Te ajudem sempre a ser feliz,
nessa aventura fascinante que é crescer.
Percebam quem é essa menina que habita cá na Terra,
por trás duma fantástica janela.

Será sensível, generosa, fiel, bela, inteligente?
Eles vão descobrir isso.
E algum...
ainda vai pedir para ser teu confidente.



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Ana Braga, Agosto de 2004
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C O M E N TÁ R I O S
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Maria B Pestana disse...
É sempre bom poder reler este poema da mãe, recordar o rasgo do telhado, o sótão que tanto desejámos, onde eu tanto queria viver! Hoje já não tenho o prazer de viver e conviver diariamente nesse refúgio, agora tenho uma janela maior, uma outra visão, menos bonita, mas realista. Tal como a mãe previa no poema.
Mas as memórias continuam apesar da janela onde cada um possa estar ser diferente, porque"Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive."
Obrigada mãe,
Maria B Pestana
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Alfredo disse...
Bonito poema da Ana transmitindo o enlevo que se devota a um filho desejado e que tudo fazemos para o ver feliz dando-lhe as necessárias asas para voar e sonhar mesmo que para isso nos sacrifiquemos e retiremos a nós próprios confortos que se tornam de somenos importância perante o seu bem estar e a felicidade estampada no rosto pueril. S
e mais tarde aproveitaram ou não o gesto, acção e esforço não importa, importa sim que pelo menos tentámos como pais libertá-los para a vida oferecendo-lhes tudo o que estava ao nosso alcance e o fizemos com amor.
Um abraço
A.Justiça
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O das Caldas disse...
Para mim seria inpensável não publicar esta UMA JANELA NO TELHADO. Parabéns e obrigada por este miminho delicioso.
Higino
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Isabel Esse disse...
Também é poeta a Ana,de quem eu já gostava tanto da prosa!Muito bonito este post,traduzindo bem a esperança que todos temos que todas as janelas se abram para e sobre os nossos filhos.
Bj.IS
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F. Clérigo disse...
Belo Poema o de Ana Braga...Lá está...o efeito multiplicador em nós...recordou-me de imediato um texto que também escrevi à minha filha, em estilo de prosa poética...não a propósito de uma janela, mas de uma parede do seu quarto pintada de verde alface...
Centrando-me no Poema da Ana (que não tenho o Gosto de conhecer), gostaria de relevar a Beleza do mesmo em Si, mas também a Belíssima Forma de Expressar a uma Filha, o Mais belo Sentir, o Amor Incondicional de Mãe e os devidos alertas para o nosso Mundo, que por vezes não se afigura aos nossos olhos, tão belo assim...
Uma bonita “Lição de Vida” carinhosamente transmitida pela Ana à Sua Filha, sem dúvida, um “Crédito” inequívoco na Aventura do Seu crescimento e nas Suas Capacidades como Jovem...parecendo-me um Apelo Também para Um Olhar, atento à valorização do seu conforto e Solidário para com os Outros que não têm o Privilégio de Viver desta forma “confortável” e “Bem Amada”...
Para finalizar, gostaria de dizer à Ana que logo que tive o privilégio de ler o seu 1º texto, Senti uma “Sintonia” com a sua escrita e com a Sua Pessoa...esperando que me perdoe a expressão invasiva “sintonia”...Lá está de novo...a Força do Sentir...
Muitos Parabéns por Tudo !!!
Fátima
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jorge disse...
não sou perito em poesia mas este é um belo poema em que estão todos os sonhos que temos para os nossos filhos.proporcionando-lhes horas boas mas preparando-os para as horas más - que enfrentarão sozinhos.muito bom!j

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Meus Sonhos disse...
Não é frequente a poesia nos artigos do nosso blogue e isso torna ainda mais notáveis aqueles em que é utilizada.
Muita ternura e muita emoção,muita autenticidade nestas palavras que falam mais da maternidade que da janela.Pelo menos fala mais das janelas da alma do que das que abrem para o ar exterior.
Gostei muito,muito.
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J J disse...
A Ana é uma autora de posts sempre muito pessoais, misturando uma grande sensibilidade e um arguto espírito de observação. Como normalmente só as mulheres sabem fazer, parecendo sonhar enquanto se mantém atenta aos outros. Já realcei esta sua qualidade, que transparece sempre nos seus excelentes comentários e é particularmente evidente aqui, a propósito de outras colaborações.
A abertura de janelas para os nossos filhos é uma gratificante (mas por vezes dolorosa) missão dos pais. É a Vida...
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VT disse...
Não resisto a comentar o poema da Ana Braga, que escreve muito bem, por aquilo que revela: O sentir que aquela janela, no futuro, seria mágica para a filha - é também um gesto não só predictivo mas em si próprio também mágico - para além da ternura, sensíbilidade e inteligência que respiram nas entrelinhas.
Uma lição em que a Beleza e a Poesia andam de mãos dadas (ainda por cima com a janela no telhado voltada para as estrelas...), mas que não deixa de ter o cuidado de alertar para os "contrastes" da Vida.
Parabéns e obrigado pela partilha de um momento muito bonito.
VT
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Ana Braga disse...
Não posso deixar de me sentir reconhecida pela forma tão simpática como acolheram o meu texto e o calor que conseguiram transmitir-me através das vossas palavras. É muito gratificante perceber que aquilo que escrevo, de forma sincera e despretensiosa, tem tido a força suficiente para chegar “à outra margem”.
Sempre gostei de me expressar, escrevendo - em alturas mais difíceis esse exercício teve até um efeito terapêutico - mas esta partilha, este desvendar de sentimentos, às vezes, como se de pequenos segredos se tratasse, só foi possível agora, por sentir que do outro lado havia alguém disposto a “ouvir-me” e a receber com empatia as minhaspalavras.
O meu primeiro contacto com o blog foi interessante: deparei-me, por mero acaso, com uma porta entreaberta e fui entrando, naturalmente,como se já vos conhecesse. A vossa recepção tem constituído um incentivo para mim.
Obrigada a todos, pelos belos textos com que vêm comentando o que escrevo.Assim, sinto-me mesmo tentada a aparecer de vez em quando.
Ana Braga
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12 comentários:

Alfredo disse...

Bonito poema da Ana transmitindo o enlevo que se devota a um filho desejado e que tudo fazemos para o ver feliz dando-lhe as necessárias asas para voar e sonhar mesmo que para isso nos sacrifiquemos e retiremos a nós próprios confortos que se tornam de somenos importância perante o seu bem estar e a felicidade estampada no rosto pueril.
Se mais tarde aproveitaram ou não o gesto, acção e esforço não importa, importa sim que pelo menos tentámos como pais libertá-los para a vida oferecendo-lhes tudo o que estava ao nosso alcance e o fizemos com amor.
Um abraço
A.Justiça

O das Caldas disse...

Para mim seria inpensável não publicar esta UMA JANELA NO TELHADO. Parabéns e obrigada por este miminho delicioso.
Higino

Isabel Esse disse...

Também é poeta a Ana,de quem eu já gostava tanto da prosa!

Muito bonito este post,traduzindo bem a esperança que todos temos que todas as janelas se abram para e sobre os nossos filhos.

Bj.IS

F. Clérigo disse...

Belo Poema o de Ana Braga...Lá está...o efeito multiplicador em nós...recordou-me de imediato um texto que também escrevi à minha filha, em estilo de prosa poética...não a propósito de uma janela, mas de uma parede do seu quarto pintada de verde alface...

Centrando-me no Poema da Ana (que não tenho o Gosto de conhecer), gostaria de relevar a Beleza do mesmo em Si, mas também a Belíssima Forma de Expressar a uma Filha, o Mais belo Sentir, o Amor Incondicional de Mãe e os devidos alertas para o nosso Mundo, que por vezes não se afigura aos nossos olhos, tão belo assim...
Uma bonita “Lição de Vida” carinhosamente transmitida pela Ana à Sua Filha, sem dúvida, um “Crédito” inequívoco na Aventura do Seu crescimento e nas Suas Capacidades como Jovem...parecendo-me um Apelo Também para Um Olhar, atento à valorização do seu conforto e Solidário para com os Outros que não têm o Privilégio de Viver desta forma “confortável” e “Bem Amada”...

Para finalizar, gostaria de dizer à Ana que logo que tive o privilégio de ler o seu 1º texto, Senti uma “Sintonia” com a sua escrita e com a Sua Pessoa...esperando que me perdoe a expressão invasiva “sintonia”...Lá está de novo...a Força do Sentir...Muitos Parabéns por Tudo !!!

Fátima

jorge disse...

não sou perito em poesia mas este é um belo poema em que estão todos os sonhos que temos para os nossos filhos.proporcionando-lhes horas boas mas preparando-os para as horas más - que enfrentarão sozinhos.muito bom!j

Meus Sonhos disse...

Não é frequente a poesia nos artigos do nosso blogue e isso torna ainda mais notáveis aqueles em que é utilizada.
Muita ternura e muita emoção,muita autenticidade nestas palavras que falam mais da maternidade que da janela.Pelo menos fala mais das janelas da alma do que das que abrem para o ar exterior.
Gostei muito,muito.

J J disse...

A Ana é uma autora de posts sempre muito pessoais, misturando uma
grande sensibilidade e um arguto espírito de observação. Como
normalmente só as mulheres sabem fazer, parecendo sonhar enquanto se mantém atenta aos outros. Já realcei esta sua qualidade, que transparece sempre nos seus excelentes comentários e é particularmente evidente aqui, a propósito de outras colaborações.

A abertura de janelas para os nossos filhos é uma gratificante (mas por vezes dolorosa) missão dos pais. É a Vida...

Maria B Pestana disse...

É sempre bom poder reler este poema da mãe, recordar o rasgo do telhado, o sótão que tanto desejámos, onde eu tanto queria viver! Hoje já não tenho o prazer de viver e conviver diariamente nesse refúgio, agora tenho uma janela maior, uma outra visão, menos bonita, mas realista. Tal como a mãe previa no poema.
Mas as memórias continuam apesar da janela onde cada um possa estar ser diferente, porque
"Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive."

Obrigada mãe,

Maria B Pestana

Anónimo disse...

Não posso deixar de me sentir reconhecida pela forma tão simpática como acolheram o meu texto e o calor que conseguiram transmitir-me através das vossas palavras. É muito gratificante perceber que aquilo que escrevo, de forma sincera e despretensiosa, tem tido a força suficiente para chegar “à outra margem”.

Sempre gostei de me expressar, escrevendo - em alturas mais difíceis esse exercício teve até um efeito terapêutico - mas esta partilha, este desvendar de sentimentos, às vezes, como se de pequenos segredos se tratasse, só foi possível agora, por sentir que do outro lado havia alguém disposto a “ouvir-me” e a receber com empatia as minhas
palavras.

O meu primeiro contacto com o blog foi interessante: deparei-me, por
mero acaso, com uma porta entreaberta e fui entrando, naturalmente,
como se já vos conhecesse. A vossa recepção tem constituído um
incentivo para mim.

Obrigada a todos, pelos belos textos com que vêm comentando o que escrevo.

Assim, sinto-me mesmo tentada a aparecer de vez em quando.

Ana Braga

VT disse...

Não resisto a comentar o poema da Ana Braga, que escreve muito bem, por aquilo que revela: O sentir que aquela janela, no futuro, seria mágica para a filha - é também um gesto não só predictivo mas em si próprio também mágico - para além da ternura, sensíbilidade e inteligência que respiram nas entrelinhas. Uma lição em que a Beleza e a Poesia andam de mãos dadas (ainda por cima com a janela no telhado voltada para as estrelas...), mas que não deixa de ter o cuidado de alertar para os "contrastes" da Vida.
Parabéns e obrigado pela partilha de um momento muito bonito.
VT

Gonçalo Rodrigues disse...

adorei o poema Ana! desconhecia o seu jeito para compor. espero um dia vir a conhecer esse "anjo confidente" da sua filha. ;)

Gonçalo Rodrigues disse...

muitos parabens ana. desconhecia o seu jeito para compor. espero um dia vir a conhecer esse "anjo confidente" da sua filha ;)