ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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(ES)QUINAS



(Es)quinas





O chamamento, num tom ansioso, chegava-me cada vez mais distintamente. – “João José? Filho? João José?”. Agora percebia que era a voz da minha mãe. Tentei abrir os olhos, mas as pálpebras pesavam-me. Procurei levantar-me, mas o corpo não obedecia. Mexi os lábios, mas não consegui articular qualquer palavra.

Ergui o braço que logo voltou a cair. A minha mãe continuava a pronunciar o meu nome. A sua voz estava agora muito perto. Estremeci, agitado. “Oh, graças a Deus!” – disse ela, num tom que me sossegou. “Não deve ser grave”, pensei, tentando perceber se a aflição em redor podia ter sido ocasionada por mim. No meu quotidiano o síndrome de “suspeito do costume” era tão frequentemente activado que me treinara a descortinar todas as escapatórias. E ali, na solicitude inquieta da minha mãe, eu podia adivinhar uma folga oportuna. Fosse o que fosse que tivesse acontecido, não parecia ter sido culpa minha. De modo que me atrevi a perguntar: - “Que foi, mãe?” - e, desta vez, a minha voz, embora trémula, soou-me clara.

– “Consegues levantar-te?” Só então percebi que estava deitado no chão, meio torcido sobre mim próprio, uma perna e um braço dobrados e a cabeça muito demasiado perto do tamborete que suportava o pote antigo das azeitonas. Fiz um esforço e consegui sentar-me. Não me doía nada, outra conclusão desafiadora, pois era sabido que um extenso cardápio de pequenas dores faz parte das atribulações do dia a dia de um miúdo irrequieto. Confiante, tentei pôr-me de pé, mas sem o auxílio da minha mãe, provavelmente teria voltado ingloriamente ao chão. Sentia-me um pouco zonzo, mas estranhamente feliz, como se tivesse regressado à vida, sentindo pouco a pouco o corpo readquirir equilíbrio e as sensações reconfortantes do espaço e do tempo.

Não me lembrava do que sucedera. A última sensação que retivera era do mundo a rodopiar à minha volta e da queda iminente. – “Perdeste os sentidos, meu filho.“ A expressão era nova para mim, tentei absorver o significado das palavras: - “Perdi os sentidos?” - repeti em voz alta. – “E agora, mãe, já apareceram?” – “Ouvi um grito teu, seguido de um estrondo e vim a correr. Estavas caído no chão e não me ouvias. Que aconteceu? Porque gritaste”?

Parca em novidades, a pequena aldeia fez do acontecimento tema de comentários no dia seguinte.

- “O menino teve um desmaio”, contou a Francelina. - “A mãe não o deixou sair toda a tarde, coitadito”. -“Foi um grande susto”, rematou o Tóino. -“Aquilo passou-se quando ele estava à janela”. – “Muito gosta ele de ir para aquela janela!” – observou o Rosinda. – “Põe-se ali a ver os animais que passam no carreiro, os pássaros que se empoleiram na árvore. Às vezes cola papéis com palavras nos vidros. E desenhos. Fotografias. Bocados de jornais. Outras vezes, abre-a para ouvir melhor”. – “Oh, é para escutar o ruído dos carros e das camionetas que passam além, na estrada de macdam”. – “Põe-se a olhar para os montes e para as nuvens como se dali viessem sinais”. - “Foi o que aconteceu ontem. Ao abrir a janela bateu com o cotovelo na quina”. – “Até me faz impressão só de pensar. Dizem que é uma dor horrível”. – “Quina contra quina – quina do braço contra quina da janela”.
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João B Serra
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C O M E N T Á R I O S
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Isabel disse:
Até parece que sentimos a aflição da mãe, ansiosa por que o filho recobre os sentidos. Até parece que sentimos a estranheza e o alívio do filho quando, aospoucos, se sente voltar a si. Naquele dia o protagonista do acidente foi o centro das atenções, dos cuidados, das conversas de todos(eu lembro-me de em criança, quando fazia um disparate, me esconder e desejar ardentemente que me acontecesse qualquer coisa de mal para, em vez do merecido castigo que me aguardava, passar a ser alvo do carinho de todos).
Eis revelado (julgo) o motivo original da paixão do João por janelas! Curioso do que o rodeava, debruçou-se tanto, que caíu da janela abaixo: uma atracção que lhe ia sendo fatal e que lhe deixou sequelas... sentimentais. Quina contra quina (da janela, do autor), no título subtilmente transformadas em es(quinas), outra grande afeição do João, também dá que pensar! É que há uma lição de vida a retirar deste caso: quem se apaixona por janelas é porque em algum momento sofreu por elas, ou caíu delas abaixo. Como em tudo na vida, aliás.
Belíssima narrativa! Viva, expressiva, cheia de simbolismo! Gostei imenso!
- Isabel Xavier -
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Isabel Esse disse...
Um menino irrequieto e curioso teve um acidente invulgar e,pelos vistos,muito doloroso -resultado um post muito engraçado,irrequieto como deve ter sido o seu autor.
É sempre um prazer ler a prosa de João Serra!!!IS
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J J disse...
Interrogo-me muitas vezes sobre os motivos que levam a que determinados episódios do nosso passado fiquem tão nítidos na nossa memória, enquanto outros, aparentemente de igual (ou até maior) importância, se esfumam sem rasto...
Este parece ser um episódio marcante na vida do autor, mas porquê? Pela dor, pela perca dos sentidos, pela preocupação materna, pelos comentários dos outros ou porque lho relataram ou referiram posteriormente com frequência?
Não tive aqui resposta para a minha interrogação, confesso, mas é sempre com gosto que vejo um retrato "pintado" desta forma, com lápis fino e economia de traços.
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João Ramos Franco disse...
Ler esta narrativa de um episódio, do então menino João Serra, tem uma certa piada.
Ao dizer “No meu quotidiano o síndrome de “suspeito do costume” (visto pela Mãe) “, ou até como é visto pelos outros: “Põe-se a olhar para os montes e para as nuvens como se dali viessem sinais”. - “Foi o que aconteceu ontem. Ao abrir a janela bateu com o cotovelo na quina”.
Visto agora e rebuscando todos os relatos que tenho lido, encontro o João Serra que conheço e de quem me tornei amigo.
Um abraço amigo do
João Ramos Franco
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jorge disse...
histórias em estilo telegráfico,muita uva e pouca parra...muito bom,como de costume,o post do j s,levando-nos não só ao tempo mas ao local da sua infância.optimo.j
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Belão disse...
Se eu não estava nada a ver o João como um rapazinho irrequieto ao ponto de o "síndrome de suspeito do costume" ser tão "frequentemente activado"? Não foi uma surpresa, de facto. Os miúdos reguilas têm sempre muito mais para contar. E o João fá-lo como ninguém.
Um beijo ao meu amigo JS.
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Alfredo disse...
(Es)quinas
(“Não deve ser grave”, pensei, tentando perceber se a aflição em redor podia ter sido ocasionada por mim. No meu quotidiano o síndrome de “suspeito do costume” era tão frequentemente activado que me treinara a descortinar todas as escapatórias. E ali, na solicitude inquieta da minha mãe, eu podia adivinhar uma folga oportuna. Fosse o que fosse que tivesse acontecido, não parecia ter sido culpa minha.)
-O conto que o João Serra nos traz, para além de uma prosa excelente, a que já estamos habituados a ler, traz-nos também que, já ao tempo, uma rara subtileza política, o que me leva a crer que se tivesse seguido esta carreira, talvez, se tivesse saído vitorioso, senão vejamos: já tinha o espírito treinado para descortinar todas as escapatórias para possíveis erros cometidos, e fosse qual fosse o acontecido a culpa seria sempre de terceiros e nunca dele.Será que isto nos faz lembrar os políticos de hoje ou é somente impressão minha? Até parece o outro a dizer que o Governo não mentiu (TVI). Pois não. A acusação também não diz que foi o Governo, foi ele.
Um abraço
A.Justiça
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Joaquim disse...
Eu gosto muito dos contos do João Serra e neste está um pouco da criancice de todos nós "uns mais traquinas que outros e lá íamos causando sarilhos aos pais, mas por vezes pagávamos pela fama (bicho carpinteiro), mas sempre com o amor deles".
A minha estória de verdade, não era uma quina ou esquina, talvez... a quina partida de um tronco de árvore e um sexto sentido ou preocupação de uma mãe. Quem conhece as Caldas e em particular a área da antiga praça do peixe até ao Largo da Feira Velha, conhece as duas ruas que se unem, apenas divididas pela Calçada 5 de Outubro. Elas são a Rua das Vacarias e a Rua da Ilha. A das Vacarias era uma dum antigo calcetado,uma espécie de paralelepípedos toscos. A Rua da Ilha era de terra solta e argilosa. Elas eram um mundo rural dentro da cidade, pois nelas haviam currais para bovinos, estábulos para cavalos, cocheiras para burros e outros animais. A meio da Rua da Ilha existia a casa e o quintal do Zé Martins (latoeiro bem conhecido dessa época) da família dos Clérigos, conhecido empresário com um estabelecimento de ferragens e torrefacção de café na Rua H. da Grande Guerra em frente aos Caldeanos. Essa propriedade na dita Rua da Ilha tinha a casa para a rua e o quintal ìa até ao chafariz na estrada da Foz, mesmo em frente da antiga casa do João Franco (veterinário), dos Paramos e depois o mui conhecido Zé de Sousa.
Em Setembro era uma alegria, havia o chegar das uvas que vinham das vindimas, pois nessa casa havia um grande lagar e com a azafama da entrega das mesmas sempre havia um cacho ou dois que conseguíamos "desviar". Ora para fazer a estória mais curta; nesse quintal havia uma serie de árvores de fruta, o que quer dizer "a good supply" de sobrevivência Entre essas árvores de fruta havia uma grande nespereira. E como tal, mesmo contra a lei lá íamos "roubar" esses deliciosos frutos,até que um belo dia, eu ao ouvir o alarme de um dos "fora da lei"... vem aí o dono (mentira), ao tentar fugir fiquei preso num tronco da árvore, quase de cabeça para baixo sem conseguir sair dele. Eu lembro-me que a minha mãe que era costureira de calças tinha-me feito uns calções de alças que não tinham botões para que eu não os pudesse arrancar para o jogo do "botão" por isso eu não conseguia sair daquela aflita situação. Tanto, tanto gritei que a minha saudosa mãe, de quem se dizia que tinha ouvidos de "tuberculosa",disse à Josefa (sogra do Mário Lino): -o meu filho está a gritar - e lá foram em meu salvamento.
Moral da estória: o meu pai soube do sucedido e lá vai o então "chá de pau de marmeleiro". Para quem não saiba o significado desse tal chá . é que o tronco do marmeleiro é cheio de nós e quando bate nas costas faz mesmo mossa
Eu menciono nomes e ruas como eram nos anos 50 para que não se percam na história e que certamente a fizeram na nossa cidade, mesmo pequeno que fosse esse contributo.....
Joaquim
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Manuela disse:
Tudo tem uma explicação. A Francelina e o Tónio, carinhosamente, na posse de alguns indícios - os momentos passados à janela, os papéis com “dizeres” nela colados, a falta de autorização para sair de casa - logo se apressaram a encontrar a razão de tamanha dor. Dor de juventude. Sequiosa, sonhadora, inquieta, arrojada. Só não souberam identificá-la. Os sinais, esses, reconheceram-nos com notável sensibilidade.
Que bonita a troca de afectos entre Mãe e filho, entre “palavras” de despertar da perda de sentidos.Linda homenagem que o João aqui presta a sua Mãe e às pessoas simples da sua terra.
O que as (es)quinas de uma janela e de um cotovelo podem ocasionar e revelar!
Manuela Gama Vieira
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Júlia Ferreira disse...
A crónica do João Serra é uma ternura. A narrativa de um episódio das tropelias do «suspeito do costume» mostra bem que, como diz algures o Drummond de Andrade, «mãe não tem limite». Boa escolha também da fotografia da janela, espaço de descoberta, espelhando nuvens, de onde o menino curioso espera «sinais».
Júlia Ferreira
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10 comentários:

Anónimo disse...

"Até parece que sentimos a aflição da mãe, ansiosa por que o filho recobre os sentidos. Até parece que sentimos a estranheza e o alívio do filho quando, aos
poucos, se sente voltar a si. Naquele dia o protagonista do acidente foi o centro das atenções, dos cuidados, das conversas de todos.
(eu lembro-me de em criança, quando fazia um disparate, me esconder e desejar ardentemente que me acontecesse qualquer coisa de mal para, em vez do merecido castigo que me aguardava, passar a ser alvo do carinho de todos)
Eis revelado (julgo) o motivo original da paixão do João por janelas! Curioso do que o rodeava, debruçou-se tanto, que caíu da janela abaixo: uma atracção que lhe ia sendo fatal e que lhe deixou sequelas... sentimentais. Quina contra quina (da janela, do autor), no título subtilmente transformadas em es(quinas), outra grande afeição do João, também dá que pensar! É que há uma lição de vida a retirar deste caso: quem se apaixona por janelas é porque em algum momento sofreu por elas, ou caíu delas abaixo. Como em tudo na vida, aliás.
Belíssima narrativa! Viva, expressiva, cheia de simbolismo!
Gostei imenso!"
- Isabel Xavier -

Isabel Esse disse...

Um menino irrequieto e curioso teve um acidente invulgar e,pelos vistos,muito doloroso -resultado um post muito engraçado,irrequieto como deve ter sido o seu autor.
É sempre um prazer ler aprosa do Dr. João Serra!!!IS

João Ramos Franco disse...

O ler desta narrativa de um episódio, do então menino João Serra, tem uma certa piada.
- Ao dizer “No meu quotidiano o síndrome de “suspeito do costume” (visto pela Mãe) “, ou até como é visto pelos outros, “Põe-se a olhar para os montes e para as nuvens como se dali viessem sinais”. - “Foi o que aconteceu ontem. Ao abrir a janela bateu com o cotovelo na quina”.
- Visto agora e rebuscando todos os relatos que tenho lido, encontro o João Serra que conheço e de quem me tornei amigo.
Um abraço amigo do
João Ramos Franco

João Ramos Franco disse...

O ler desta narrativa de um episódio, do então menino João Serra, tem uma certa piada.
- Ao dizer “No meu quotidiano o síndrome de “suspeito do costume” (visto pela Mãe) “, ou até como é visto pelos outros, “Põe-se a olhar para os montes e para as nuvens como se dali viessem sinais”. - “Foi o que aconteceu ontem. Ao abrir a janela bateu com o cotovelo na quina”.
- Visto agora e rebuscando todos os relatos que tenho lido, encontro o João Serra que conheço e de quem me tornei amigo.
Um abraço amigo do
João Ramos Franco

Alfredo disse...

(Es)quinas
(“Não deve ser grave”, pensei, tentando perceber se a aflição em redor podia ter sido ocasionada por mim. No meu quotidiano o síndrome de “suspeito do costume” era tão frequentemente activado que me treinara a descortinar todas as escapatórias. E ali, na solicitude inquieta da minha mãe, eu podia adivinhar uma folga oportuna. Fosse o que fosse que tivesse acontecido, não parecia ter sido culpa minha.)
-
O conto que o João Serra nos traz, para além de uma prosa excelente, a que já estamos habituados a ler, traz-nos também que, já ao tempo, uma rara subtileza política, o que me leva a crer que se tivesse seguido esta carreira, talvez, se tivesse saído vitorioso, senão vejamos: já tinha o espírito treinado para descortinar todas as escapatórias para possíveis erros cometidos, e fosse qual fosse o acontecido a culpa seria sempre de terceiros e nunca dele.
Será que isto nos faz lembrar os políticos de hoje ou é somente impressão minha?
Até parece o outro a dizer que o Governo não mentiu (TVI). Pois não. A acusação também não diz que foi o Governo, foi ele.
Um abraço
A.Justiça

jorge disse...

histórias em estilo telegráfico,muita uva e pouca parra...muito bom,como de costume,o post do j s,levando-nos não só ao tempo mas ao local da sua infância.optimo.j

Belão disse...

Se eu não estava nada a ver o João como um rapazinho irrequieto ao ponto de o "síndrome de suspeito do costume" ser tão "frequentemente activado"? Não foi uma surpresa, de facto. Os miúdos reguilas têm sempre muito mais para contar. E o João fá-lo como ninguém.
Um beijo ao meu amigo JS.

Anónimo disse...

Eu gosto muito dos contos do João Serra e neste está um pouco da criancice de todos nós "uns mais traquinas que outros e lá íamos causando sarilhos aos pais, mas por vezes pagávamos pela fama (bicho carpinteiro), mas sempre com o amor deles".
A minha estória de verdade, não era uma quina ou esquina, talvez... a quina partida de um tronco de árvore e um sexto sentido ou preocupação de uma mãe. Quem conhece as Caldas e em particular a área da antiga praça do peixe até ao Largo da Feira Velha, conhece as duas ruas que se unem, apenas divididas pela Calçada 5 de Outubro. Elas são a Rua das Vacarias e a Rua da Ilha. A das Vacarias era uma dum antigo calcetado,uma espécie de paralelepípedos toscos. A Rua da Ilha era de terra solta e argilosa. Elas eram um mundo rural dentro da cidade, pois nelas haviam currais para bovinos, estábulos para cavalos, cocheiras para burros e outros animais. A meio da Rua da Ilha existia a casa e o quintal do Zé Martins (latoeiro bem conhecido dessa época) da família dos Clérigos, conhecido empresário com um estabelecimento de ferragens e torrefacção de café na Rua H. da Grande Guerra em frente aos Caldeanos. Essa propriedade na dita Rua da Ilha tinha a casa para a rua e o quintal ìa até ao chafariz na estrada da Foz, mesmo em frente da antiga casa do João Franco (veterinário), dos Paramos e depois o mui conhecido Zé de Sousa. Em Setembro era uma alegria, havia o chegar das uvas que vinham das vindimas, pois nessa casa havia um grande lagar e com a azafama da entrega das mesmas sempre havia um cacho ou dois que conseguíamos "desviar". Ora para fazer a estória mais curta; nesse quintal havia uma serie de árvores de fruta, o que quer dizer "a good supply" de sobrevivência Entre essas árvores de fruta havia uma grande nespereira.e como tal, mesmo contra a lei lá íamos "roubar" esses deliciosos frutos,até que um belo dia, eu ao ouvir o alarme de um dos "fora da lei"... vem aí o dono (mentira), ao tentar fugir fiquei preso num tronco da árvore, quase de cabeça para baixo sem conseguir sair dele. Eu lembro-me que a minha mãe que era costureira de calças tinha-me feito uns calções de alças que não tinham botões para que eu não os pudesse arrancar para o jogo do "botão" por isso eu não conseguia sair daquela aflita situação. Tanto, tanto gritei que a minha saudosa mãe que se dizia: tinha ouvidos de "tuberculosa",disse à Josefa (sogra do Mário Lino) o meu filho está a gritar e lá foram em meu salvamento. Moral da estória: o meu pai soube do sucedido e lá vai o então "chá de pau de marmeleiro". Para quem não saiba o significado desse tal chá . é que o tronco do marmeleiro é cheio de nós e quando bate nas costas faz mesmo mossa Eu menciono nomes e ruas como eram nos anos 50 para que não se percam na história e que certamente a fizeram na nossa cidade mesmo pequeno que fosse esse contributo.....Joaquim

Anónimo disse...

Tudo tem uma explicação. A Francelina e o Tónio, carinhosamente, na posse de alguns indícios - os momentos passados à janela, os papéis com “dizeres” nela colados, a falta de autorização para sair de casa - logo se apressaram a encontrar a razão de tamanha dor. Dor de juventude. Sequiosa, sonhadora, inquieta, arrojada. Só não souberam identificá-la. Os sinais, esses, reconheceram-nos com notável sensibilidade.

Que bonita a troca de afectos entre Mãe e filho, entre “palavras” de despertar da perda de sentidos.
Linda homenagem que o João aqui presta a sua Mãe e às pessoas simples da sua terra.

O que as (es)quinas de uma janela e de um cotovelo podem ocasionar e revelar!

Manuela Gama Vieira

Anónimo disse...

A crónica do João Serra é uma ternura. A narrativa de um episódio das tropelias do «suspeito do costume» mostra bem que, como diz algures o Drummond de Andrade, «mãe não tem limite». Boa escolha também da fotografia da janela, espaço de descoberta, espelhando nuvens, de onde o menino curioso espera «sinais».

Júlia Ferreira