ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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AS "LUSITANAS"

Os mais atentos aos últimos artigos do Blog ficaram a saber que em 1945 existiam nas Caldas dois colégios : o Caldense, só com alunos masculinos (correria hoje o risco de ser considerado um colégio Gay?) e o Lusitano, só com alunas. Quem quiser saber mais sobre tudo isto vá a :

ANTES DO EXTERNATO RAMALHO ORTIGÃO - Os colégios das Caldas da Rainha (1928-1945)



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É do Lusitano que falamos hoje. Para vos situar melhor, acrescentei fotos do edifício e da vista de uma das salas de aulas. Estrategicamente situado na R. de Camões, em frente ao Parque, tinha neste um local de eleição para as alunas passarem os tempos livres. As duas fotografias que abaixo mostramos foram lá tiradas, uma junto às grades e outra à porta do Museu.
As legendagens (provisórias e ainda incompletas) esperam as vossas contribuições. Apreciei especialmente a da Belão, referente à foto no museu, porque lembra um pouco aqueles labirintos do “ajude o ratinho a encontrar o queijo”, para trás e para a frente, para cima e para baixo, em busca do caminho…Mas é colorida e elucidativa e eu decidi não modificar (isto de ser preguiçoso é uma arte e depende muito da forma como justificamos a inactividade).
A da prisão, melhor, das grades, é legendada também pela filha de uma das fotografadas, a Guidó. Inclui algumas “estrelas de cinema”, com penteados sensacionais, que me fazem lamentar ter nascido tarde de mais para ir ao Parque nessa altura (espero que estes comentários não caiam mal nas visadas e, sobretudo, nas nossas colegas dos anos 60; escrever o que se pensa é sempre um exercício arriscado).
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Belão:
Aqui vai o que consegui saber.
Começando da esquerda para a direita, em cima :
- Contínuo do colégio; à frente, estão duas meninas - a mais pequena é a Beatriz Rodrigues e a de cabeça inclinada é Sami(prima do Vera Jardim); ao lado(brinco branco) Mª dos Anjos e logo atrás Graciete Ferreira; ao lado desta Teresa Galinha que tem à frente Mª Lucinda Igrejas e atrás Salete Afonso( filha do Caetano Afonso da Havaneza);à frente da Salete Afonso é a Bé que tem à frente dois homens - o indiano é o prof. Silveira e o outro o prof Jorge Morais;a minha mãe, que tem atrás a Helena Faria e a Isabel Girão e ao lado a Mª Berta Mesquita; atrás desta não sei o nome, mas ao lado é Mimi Bolotinha; o Sr gordo é o capitão Dario e ao lado, a senhora da gola branca é a prof de Moral, Alice Bruno; ao lado desta é a irmã da Mª Berta, a Helena Viriato; os senhores de bigode são respectivamente um prof de Matemática e o que está mais destacado é o prof Macedo. Ao lado deste está uma estrangeira chamada Helga.
Quanto à fila da frente, isto está fraco. Só consegui a Lurdes Teixeira( fato branco, sandália branca e laço branco), ao lado, de casaquinho, é a Margarida Botas, a seguir é a Fernanda Reis , depois é uma desconhecida e a seguir a Odete Subtil.






Guidó:

Da esq. para a direita.
Em baixo:
Valentina (prima da Isabel Castanheira), Ciló, Mila Marques, Mªa dos Anjos, Aida Moreira (filha do Capitão Justino Moreira), ?
2ª fila:
Bé Viriato, ?, ?, ?, Esmeralda Henriqueta (veio a casar com o Prof. Perpétua, acho que ela era prima do meus sogro), ?, ?, Maria Guilhermina, Isabel (veio a casar com o Girão), Letícia.
Presas, melhor, atrás das grades:
?.?. Terezinha Dario (filha do Capitão) Dario, irmã, Bé Castro.



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comentários


2008-02-11
Ana Nascimento disse:
Oh cachopas que delícia de fotografias ……ADOREI !!!!!.As “piquenas “ estão giríssimas… desde o penteado à fatiota uns verdadeiros figurinos... daqui a fama das Caldas ser uma cidade de mulheres bonitas e elegantes.!!!!!!!
Além das vossas mães, reconheci outras Lusitanas mas, com muita pena minha, apenas aquelas que já estão identificadas.
A minha mãe também foi uma delas, mas creio que não tem fotos dessa altura, de qualquer modo talvez nos dê uma ajuda para a legenda ficar completa.
Obrigada Belão e Guidó por terem partilhado comigo este pedacinho da história das vossas famílias. Beijinhos Ana

2008-02-11
JJ disse:
Esclareço que as fotos são uma contribuição do nosso colega José Mesquita de Oliveira, a Belão e a Guidó contribuíram com as legendas.

2008-02-11
Ana N disse:
Meu querido Zeca
Vi agora que as fotos são suas, obrigada meu amigo. Sim senhor… um grande exemplo para os mais novos que ou nem têm tempo, ou desconhecem (e aí ainda se desculpam) ou então andam a dormir na forma (o que não abona nada em seu favor…)..
Fiquei muito contente e orgulhosa por ver que foi um dos primeiros do seu tempo a aderir a este projecto, contribuindo para que não se percam as memórias das Caldas.
Um beijinho muito grande da Ana

A MOVIDA CALDENSE


Sinto que não devo terminar esta incursão pela memória do espaço e da sociedade caldense da minha adolescência, sem referir sumariamente, em duas ou três pinceladas rápidas, o movimento cultural local.
A «movida» caldense dos anos 60, se é que me posso exprimir assim (ressalvadas evidentemente as distâncias entre as Caldas dos anos 60 e a Barcelona da década de 80), era demográfica e socialmente alimentada pelos bandos familiares que aportavam à cidade no Verão e pelos militares do RI 5 que se renovavam em sucessivas levas de recrutas, tinha como pólos dinâmicos o Conjunto Cénico Caldense e a Tertúlia Artes e Letras (a que me referi em crónica anterior) e como pontos obrigatórios da noite tribal e boémia o «Ferro Velho» e o «Inferno da Azenha».
A instalação de veraneio nas Caldas durante um, dois ou mesmo três meses, constituía prática antiga, remontando pelo menos ao século XIX. Na altura, era a corte e a fina-flor aristocrata e burguesa que vinha a banhos. Os periódicos locais anotaram cuidadosamente, desde o seu nascimento em 1884, as chegadas dos membros dos clãs, assomando primeiro os avós acompanhados dos netos, preparando os cómodos para a vinda dos filhos. Mas, nos anos 60, os apelidos sonantes que aportavam às Caldas contar-se-iam pelos dedos de uma só mão, arrastando ignotos vestígios de uma antiga grandeza. As Caldas do Verão tornara-se território das novas classes médias, que apreciavam o clima ameno e a abundância de camas, disponibilidade de praias e a facilidade de abastecimentos, a qualidade do comércio e dos serviços e o ambiente desenvolto que se respirava na cidade.
Há quem defenda, com oportunidade que não sei discutir, que essa «abertura» sentida na cidade pelos forasteiros, em contraste com o muro de reserva e desconfiança característicos dos meios pequenos e fechados sobre si próprios, se ficou a dever a convivência com refugiados judeus, residentes temporários nas Caldas na década de 40. Seja como for, a imagem externa da cidade na década de 60 entre as classes médias lisboetas era muito favorável e desse facto se orgulhava justamente parte da elite local.
Falo de um tempo anterior ao turismo de massa e à devastadora descoberta do Algarve, que desviou as Caldas da rota desse turismo relativamente culto e exigente, que fazia vida na cidade (e não em apartamentos ou aldeamentos), partilhava as preocupações dos caldenses com os seus equipamentos urbanos, animava os espaços públicos da cidade e trazia fôlego novo aos momentos conviviais da sociedade local. Falo de um tempo em que os nossos veraneantes apelavam ao que de melhor as Caldas podiam oferecer e se sentiam tão responsáveis pela cidade como os caldenses que aqui viviam todo o ano.
Falo de um autêntico glamour caldense, que a cidade irradiava com orgulho, de que seus frequentadores habituais tinham plena consciência e buscavam todos os anos reencontrar. Era um sopro, uma aura, um toque cosmopolita no seu provincianismo, uma subtileza cultural provavelmente ímpar. Como eu gostaria de a saber evocar aqui, essa subtileza, nas suas contradições e cambiantes, agora que me parece definitivamente enterrada!


João Bonifácio Serra

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NOTA: Esta crónica foi publicada originalmente na Gazeta das Caldas e consta na recolha "CONTINUAÇÃO". Publicada aqui agora porque penso que expressa bem uma certa atmosfera caldense evocada no artigo anterior, a propósito da fotografia em 62. JJ

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comentários:
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2008/02/07
João Ramos Franco disse:
Evocar essa subtileza, nas suas contradições e cambiante, faz-me recordar como era difícil frequentar a Zaira e Casino (pólo da alta burguesia local) e o Café Central ponto de reunião dos pólos dinâmicos como citas. No dia seguinte éramos criticados pela alta burguesia da cidade, as palavras (ele dá-se com a aquela gente) saltava-lhes da boca e só não éramos excluídos da sua convivência devido ao nome de família. João Ramos Franco
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2008/02/09
Isabel Vieira disse:
Os refugiados da guerra não foram só judeus e não passaram pelas Caldas em 40 só, muitos ficaram nas Caldas a viver e tiveram uma grande influência na maneira de cá viver. Penso que o autor desvaloriza isso um pouco, mas sem razão. Parabéms pelo Blog! Isabel
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2008/02/10
JJ disse:
Não discordando do João Serra, que penso que se limita a não se pronunciar sobre o assunto, estou completamente de acordo com a Isabel em relação à enorme influência dos refugiados no modo de viver nas Caldas, principalmente na forma de viver e conviver das mulheres caldenses. Quem conheceu, como eu, Leiria, Torres Vedras, Alcobaça, Santarém, sabe que essas cidades tinham, nos anos 60, vivências muito mais "fechadas", tanto entre os residentes como em relação aos visitantes. É talvez tema para uma outra crónica.
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2008/02/10
Pereira da Silva disse:
Seria uma pena que esta crónica do Bonifácio Serra se ficasse por um términus de "incursão" e por uma "referência sumária". Digo isto porque esse período histórico local, com poucos paralelos em termos nacionais para cidades de província, merecia registo e análise (para já não dizer teoria, por exemplo, na explicação da formação das elites locais).
O Serra identifica, com propriedade, duas instituições fulcrais: o CCC e a Tertúlia. Todavia, penso que se inserem, como vértices é certo, numa estrutura/textura convivial mais alargada em que (com algumas discriminações geracionais) se podem/devem incluir o Central, o Camaroeiro e o Clube de Inverno.
Incontornáveis para uma reconstituição de factos e ambientes são, em meu entender, o João Maria Ferreira, o Hermínio de Oliveira e o Tó Freitas. Bom...este blog está a tornar-se num caso sério...e ainda bem. José Manuel Pereira da Silva
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2008/02/11
Zé Carlos Faria disse:
Caldas da Rainha foi fortemente marcada por uma tradição de convivência e fruição cultural gerada pela frequência termal da aristocracia e duma burguesia de posses, que para aqui se deslocava em vilegiatura. O delicioso escrito do «patrono» Ramalho Ortigão em «Banhos de Caldas e Águas Minerais» é, a este respeito, bem esclarecedor.
A vinda dos refugiados Judeus durante a II Guerra Mundial, parece ter reforçado essa característica. Tratava-se de uma elite cosmopolita, alguns deles em trânsito para os EUA (o famoso «avião para Lisboa» do filme »Casablanca»), que era obrigada, na fronteira, a fazer prova de possuir os meios que garantissem a sua subsistência futura. Talvez devido a este efeito conjugado, o estigma provinciano do imobilismo sufocante, surgia, em muitos aspectos, diluído: cafés cheios até tarde, as famílias, noite dentro, em alegre conversata durante ininterruptas «piscinas» de Verão no tabuleiro da Praça...
Contraste acentuado com o quotidiano de cidades como Évora, por exemplo, a qual, no início da década de 90 do século XX, ainda se assemelhava, sob múltiplos pontos de vista, ao que Vergílio Ferreira, em 1959, tinha descrito na «Aparição» - mentalidade fechada devido ao isolamento, mulheres tendencialmente em casa porque a presença numa esplanada, mesmo de dia, seria, de imediato, um escândalo inusitado, padrões de comportamento esclarecidos pela voz de uma das personagens: «Aqui, nem mais do que a 4ª classe, nem menos do que 400 porcos»!...
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2008/02/11
João Bonifácio Serra respondeu:
Atenção. Este meu texto é tão só uma pequena crónica memorialística publicada na Gazeta das Caldas em 1998, que o João Jales achou oportuno republicar aqui! Talvez superficial, talvez injusta, decerto com omissões e até inexactidões. É só uma crónica. Não pretendi nem fazer, nem rever a história. E como escrevi na primeira pessoa, só me refiro ao que vivi. Não vivi na década de 40, não testemunhei a passagem dos refugiados, limitei-me, a este propósito, a repetir a explicação que muita gente dava. Não quero fugir à questão dos refugiados, que poderei discutir com base em dados mais objectivos do que as observações casuisticas sempre repetidas (mulheres que fumavam em público e frequentavam cafés, por exemplo), mas o tema central da minha crónica de há 10 anos era outro. A alteração dos fluxos turísticos e a crise do termalismo mudaram a "alma" das Caldas. Por outras palavras, deslocaram os seus centros de interesses. Talvez eu estivesse a ser dramático quanto à constatação do "enterro". Mas que a cidade é outra e o seu "glamour" está muito desmaiado é certo. Por vezes, assoma à janela um pouco desse antigo sopro sepultado com a chegada ao poder de um urbanismo preguiçoso e por vezes também inescrupuloso. Está nas iniciativas da “107”, em algumas performances da Esad, na criatividade do Ferreira da Silva, no regresso do “Teatro da Rainha”, no inconformismo de meia dúzia de resistentes maldispostos, nas memórias que ainda o são, no entusiasmo com que repentinamente discutimos supostas "inutilidades", neste blog, por exemplo. É possível que me tenha esquecido de mais alguns sobreviventes. Mas é pouco, acho eu. João Serra

JANTAR DE ALUNOS DO ERO EM 1962

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RESTAURANTE "CABANA" , S.MARTINHO DO PORTO EM 1962
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1ª Fila sentados da esquerda para a direita:1ºJoão Ramos Franco, 2ºArtur Capristano, 3ºVasco Cunha(futuro cunhado do Artur) 4ºTó Freitas 5º Caldas Lopes 6º Carlos José Marques Henriques(CáZé), 7º Dr. Gama Rose, 8ºDr Luís Rosa Bruno 9º Dr. Fernando Fontinha, em frente o 10ºJoão Gama Lourenço 11ºAlvaro Duarte, 12ºAntónio Filipe Caetano Ferreira, 13ºJosé Augusto S. Silva, 14ºJoaquim Del Rio Nazareth, 15º João Calheiros Viegas;

1ª FILA EM PÉ:1º João Fialho, 2º Luís Manuel Saudade e Silva, 3º José Júlio (cunhado do Tony), 4ºRui Américo (cospe cospe), 5º Francisco Azevedo e Castro, 6º Néné, 7º Faustino Cunha, 8ºJoão Ribeiro Coelho (Bertolino), 9º Fernando Rainho(inclinado) 10º Adérito Amora, 11ºTó Marques, 12ºJosé Manuel Faria Saudade e Silva, 13ºJorge Calisto, 14º Fernando Figueiredo, 15º Asdrúbal Calisto, 16º Tony ( Vieira Pereira), 17º José Carlos Nogueira, 18º João César Gomes, 19 João Montez Varela;

2ª FILA EM PÉ:1º João José Veiga, 2ºAdalberto Capitaz Caldeira;
3ª FILA EM PÉ:1º João (Janica) Capristano, 2º António Ventura 3º Pedro Albuquerque.
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A Fotografia e a Juventude nas Caldas

Tentar passar uma mensagem do que sinto ao rever-me numa fotografia dos antigos alunos do ERO é difícil. Mas há um dom que ela tem, mostrar o forte sentimento de gerações unidas por algo que lhes foi comum.
Sobre o caminho que todos os presentes seguiram na vida deixo-vos uma citação sobre Humanismo: No Humanismo é imoral esperar que Deus aja por nós. Temos poderes notáveis. Termos um alto grau de liberdade para escolher o que havemos de fazer. O humanismo diz-nos que não importa qual seja a nossa filosofia, a responsabilidade pelo tipo de mundo em que vivemos, em última análise, cabe a nós mesmos….
A fotografia deste jantar mostra o forte companheirismo entre os alunos do Externato Ramalho Ortigão e faz-me recordar Caldas da Rainha na minha juventude. A vida da cidade dividia-se entre um Inverno em que vivia fechada sobre si e um Verão de portas abertas para os visitantes e o turismo.
Jovens e estudantes, inseridos neste ambiente social fortemente influenciado pelos refugiados da 2ª Grande Guerra, tivemos a sorte de aprender a viver numa Cidade fechada e aberta, com a mais valia do convívio com pessoas com outros modos de pensar e viver.
Partindo do princípio de que só estudar não é de estudante, faziam também parte da nossa vida os namoricos, futebol, hóquei, ténis, bilhar, damas, xadrez, remar no lago e passear no Parque, alugar uma bicicleta e ir até à Foz do Arelho, etc. Bem como os bailes no Casino e no Hotel Lisbonense e as noites nos Lobos do Mar (Nazaré) e Delírio (S. Martinho do Porto).
Contar-vos agora histórias passadas com os fotografados seria evocar uma série de aventuras que prefiro deixar para os vossos comentários...
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João Ramos Franco
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comentários
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JJ disse:
Este é um dos jantares que anualmente reuniam, no Verão, um grande grupo de alunos e professores do Externato Ramalho Ortigão.Estamos pois perante uma reunião precursora dos posteriores encontros dos Antigos Alunos, embora os novos tempos tenham trazido a presença das nossas colegas às reuniões. Felizmente.

ANTES DO EXTERNATO RAMALHO ORTIGÃO - Os colégios das Caldas da Rainha (1928-1945)

Por João B. Serra


1. Introdução



A história do ensino particular liceal no nosso país está por fazer. Também não dispomos de monografias históricas sobre instituições de referência desse sector supletivo do ensino público. O breve apontamento aqui apresentado sobre as primeiras duas décadas dos estabelecimentos de ensino liceal nas Caldas da Rainha não pôde cruzar informações relativas a processos congéneres, nem beneficiar do método comparativo.
A expansão do ensino constituiu um dos elementos centrais da revolução social do século XX, sobretudo da sua segunda metade. Ainda no século XIX, os Estados mais desenvolvidos tinham incluído nas suas prioridades a alfabetização. O ensino primário fez então muitos progressos, tendo diversos países começado a atingir taxas de alfabetização superiores a 50 e 60% da população. Mas o número de estudantes na fileira do ensino secundário/superior permaneceu, em todo o mundo, até aos finais da década de 1950, muito reduzido, quase tão insignificante, quantitativamente, como na Idade Média. Ao longo das décadas de 1960, 1970 e 1980, os dados, porém, alteraram-se radicalmente. De forma generalizada, as famílias fizeram extraordinários esforços para colocar os seus filhos no ensino superior. Não se tratava apenas, como anteriormente, de famílias com capital económico ou cultural elevado. A ampliação da procura de ensino só pôde acontecer porque a ele acorreram jovens oriundos de estratos de rendimentos médios e baixos, cujos pais viram no ensino uma oportunidade de melhorar a condição social de origem.
Para participar neste movimento, Portugal, como é sabido, teve de ultrapassar obstáculos muito exigentes, à cabeça dos quais podemos apontar o fraco investimento do Estado Novo na expansão do sistema público de ensino. Esta observação vale tanto para o ensino primário, como para o secundário e superior. Particularmente gravoso para as regiões mais periféricas e para os grupos de menores rendimentos foi o princípio da concentração da malha de liceus nas capitais de distrito, uma vez que só os liceus davam acesso directo ao ensino superior. Em alternativa, desenvolveu-se, ao longo da primeira metade do século XX, sobretudo a partir dos anos 1920, uma rede de estabelecimentos privados que proporcionaram, nas localidades com alguma dimensão demográfica, ensino liceal. Sem essa rede, a modernização do país teria sido certamente muito mais lenta e estreita e o fenómeno de democratização do ensino superior mais atrasado e provavelmente menos consistente.


2. Fontes


Efectuei uma primeira pesquisa sobre o ensino secundário particular nas Caldas da Rainha em 1986, no âmbito de um estudo então iniciado sobre a formação das elites urbanas entre 1887 e 1941. Efectuei na altura entrevistas aprofundadas com diversos actores qualificados, como o tenente-coronel Justino Moreira, o Professor José Lalanda Ribeiro, o Dr. José Venâncio Paulo Rodrigues e o Dr. Aníbal Correia e consultei a imprensa local. A investigação foi no entanto interrompida e só muito recentemente retomada, no quadro da realização de provas académicas.
Mas o impulso decisivo para tornar público um ensaio historiográfico sobre este tema, numa forma ainda incipiente, veio do blog dos antigos alunos do Externato Ramalho Ortigão, do seu principal animador, o João Jales, e da sua colaboradora Margarida Araújo.
O João Jales publicou uma “Breve História do Externato Ramalho Ortigão, 1945-1973” onde incluiu referências a um período anterior a 1945, com identificação de algumas unidades e professores, baseando-se fundamentalmente em fontes orais. Facultou-me acesso ao texto, no decurso da sua própria elaboração, assim desencadeando um desafio estimulante que me “forçou” a ocupar-me de novo da questão. No diálogo que travámos, quase sempre a desoras, “intrometeu-se” a Margarida Araújo. A Margarida, a quem me une uma amizade com longínqua origem precisamente na docência da história, foi colocando em cima da mesa (ou seja nas nossas plataformas digitais) uma sucessão “interminável” de informações colhidas em edições da Gazeta das Caldas. Como dizia o João, fomos todos procurando compor o puzzle, ou, como na imagem inspiradora dos trabalhos de Penélope, fazendo, desfazendo e refazendo a história.
Aqui está o resultado (provisório) a que chegámos. Digo “chegámos” com inteira verdade: eu escrevi, eles foram participantes e cúmplices activos.

3. Os primórdios: 1926/1927


É em Agosto de 1926 que nos deparamos com a primeira notícia da Gazeta das Caldas sobre a criação de um colégio-liceu. “Uma iniciativa simpática” titulava o jornal, dando a lume uma entrevista com um dos seus principais protagonistas, o Dr. António Correia Sousa Neves.
António Sousa Neves queria transpor para as Caldas a experiência bem sucedida do colégio-liceu de Sintra, de que há 6 anos era director. “Portugal precisa de escolas que se preocupem com mais alguma coisa que impingir lições feitas à máquina; carece de olhar pelos seus filhos, criando-lhes qualidades, para que não continuem a ser esses eternos homens de amanhã, sempre inutilmente desejados…” (G.C. 22 de Agosto de 1926). Projectava dotar as Caldas de um estabelecimento de ensino para ambos os sexos, provido de professores especializados (para ciências e para letras), onde as línguas estrangeiras estivessem a cargo de professores das respectivas nacionalidades, se garantiria a disciplina de ginástica bem como a de higiene individual, à responsabilidade do subdelegado de saúde, Dr. Fernando Correia, que também exerceria as funções de médico escolar.
A atenção para as Caldas terá sido despertada por um professor do colégio de Sintra, Carlos de Loureiro “que conhece as Caldas”. As instalações não se encontravam ainda decididas, dependendo do número de inscritos, mas o nome já estava escolhido: “Colégio-Liceu de D. Leonor”.
Desconhecemos a sequência desta iniciativa, embora o nome da Rainha nos surja mais tarde ligado a um outro colégio das Caldas. Nada nos prova, porém, a existência de uma continuidade entre ambos. Mas parecia ter razão Sousa Neves quando afirmava que as Caldas “há muito reclamavam a organização de um estabelecimento de ensino e educação, vazado por moldes da moderna pedagogia, e no qual se pudesse cursar os liceus”. No seu entender, “Para não falar já nos progressos acentuados desta vila, basta a circunstância de haver cidades do país sensivelmente com a mesma população do que as Caldas e arredores e dotadas de um liceu oficial”.
Em 1930, residiam na freguesia das Caldas da Rainha 7822 indivíduos, sendo o total concelhio de 29207 (Censo da População de Portugal).Mais de 75% dos habitantes do concelho eram analfabetos.
Além de escolas primárias oficiais e privadas, na vila das Caldas tinha existido até justamente Julho de 1926, o mês anterior ao desta entrevista, uma Escola Primária Superior.
Para se compreende melhor o lugar desta escola, convirá recordar a orgânica do sistema de ensino republicano. Partindo da distinção entre ensino primário e secundário, o primeiro era obrigatório e compreendia 5 anos (dos 7 aos 12 anos), compreendendo 5 classes. Os que não seguissem o ensino secundário, que desembocaria no ensino superior, mas quisessem aprofundar estudos, tinham à sua disposição o ensino primário superior (3 anos, dos 12 aos 15), facultativo, compreendendo 3 classes. O diploma do curso das Escolas Primárias Superiores, habilitando os alunos com conhecimentos de línguas, dava acesso directo às Escolas Normais Primárias e a outras escolas do chamado ensino médio (agrícola, comercial e industrial) e equivalia ao Curso Geral dos Liceus.
Não encontrei dados sobre a frequência dos estabelecimentos de ensino primário nas Caldas nesta época, mas o Censo da População de 1930 indica o número de indivíduos alfabetizados entre os 6 e os 12 anos: 384. Estes números são evidentemente aproximativos, mas dão-nos um valor de referência muito baixo para a frequência do ensino primário no concelho das Caldas. Se tivermos em conta que os estudos já efectuados apontam para uma taxa de pouco mais de 4%, em 1930, para a população escolar primária que prossegue os estudos secundários, não podemos deixar de concluir que a margem seria muito apertada para os que se propunham criar um colégio-liceu nas Caldas.
A extinção da Escola Primária Superior caldense em Julho de 1926 deverá estar relacionada com este panorama. Mas pode ter tido reflexos directos ou indirectos em projectos de lançamento do ensino secundário. Professores e famílias tiveram que procurar alternativas, os primeiros à sua actividade docente nas Caldas, as segundas a uma via de estudos pós-ensino primário.
Um ano decorrido sobre a entrevista ao director do colégio-liceu de Sintra, a Gazeta insere uma notícia sobre iniciativa similar, desta vez com origem no colégio de S. José, em Santarém, cujo director, Oliveiros Brás Machado, se propõe abrir nas Caldas um estabelecimento similar (G.C., 29 de Set. de 1927). Também neste caso, desconhecemos o destino do projecto.
Um facto, porém, ocorrido exactamente em Setembro de 1927, parece ter sido decisivo para o arranque do ensino secundário liceal nas Caldas. Tratou-se da instalação definitiva do regimento de Infantaria 5 naquela que acabara de ver reconhecido, precisamente em Agosto, o estatuto formal de cidade.

4. O Colégio Moderno (1928)


Em 1918, ano em que a Grande Guerra chegou ao seu termo, os Pavilhões do Parque D. Carlos I receberam um batalhão do regimento de Infantaria 5. Pouco depois, o batalhão retornou a Lisboa. Em 1927, porém, é o próprio regimento que troca a sua sede lisboeta, no Castelo de S. Jorge, pela das Caldas da Rainha. O facto não deve ser estranho à elevação, em Agosto, das Caldas a cidade. Este processo culminava uma ampla mobilização das forças políticas, económicas e sociais locais pela afirmação da cidade como segundo núcleo polarizador do distrito de Leiria.
Os oficiais do Regimento de Infantaria 5 deram um duplo impulso ao ensino liceal caldense: como organizadores e professores e como pais e familiares de alunos. Necessitavam de um estabelecimento que preparasse os seus filhos para ingressar em escolas superiores; ofereciam, em contrapartida, as suas próprias disponibilidade e capacidades para leccionar.
De acordo com testemunhos orais, ter-se-ia formado, também em 1927, um colégio de ensino primário. O seu director, um antigo professor primário, António Augusto Ferreira, tinha a intenção de o fazer evoluir para o ensino liceal. Não pudemos
comprovar a existência de uma articulação entre António Augusto Ferreira, Carlos de Loureiro e António Sousa Neves (do Colégio-Liceu de Sintra), mas o certo e que o colégio se denominava também D. Leonor.
Em 1928, juntam-se a António Augusto Ferreira o tenente Justino Moreira e o Professor José Antunes Faria, respectivamente, oficial do RI 5, e antigo professsor da Escola Primária Superior. O novo colégio, resultante dessa associação, terá o nome de Colégio Moderno. Anuncia-se na Gazeta, a 23 de Setembro de 1928, como estabelecimento onde se pratica a coeducação, se dispõe de professora habilitada para o ensino primário e se preparam alunos do secundário por meio de explicações. Situa-se na Rua General Queiroz, 19, 21 e 23.
Pouco tempo durou, porém, esta associação. Mais uma vez segundo o testemunho de Justino Moreira, houve desentendimento entre os Professores Ferreira e Faria, logo em 1929. Da cisão no Moderno, surgirão duas novas entidades.

5. Lusitano e Rainha D. Leonor


O ano escolar de 1929/1930 abriu em Outubro com dois colégios nas Caldas da Rainha: o colégio Lusitano e o colégio Rainha D. Leonor.
Este último é propriedade de António Augusto Ferreira, que recupera o nome do seu anterior estabelecimento. Continua a funcionar na Rua General Queirós. Apresenta-se com regime diurno e nocturno e, além do ensino primário e das explicações de secundário, também anuncia Educação Física (G.C., 10 de Novembro de 1929). Oferece ensino gratuito a dois alunos desprovidos de meios para estudar que sejam indicados pela Gazeta das Caldas, um do primário e outro do secundário.



No ano lectivo de 1930/31, o D. Leonor instalou-se no Hotel Madrid, localização que a Gazeta das Caldas saudou com entusiasmo (G.C., 11 de Janeiro de 1931). Mas em Outubro desse ano muda-se para um 1º andar do topo da Praça da República (nº 106). Anuncia também aulas de escrituração comercial. Faz gala dos seus resultados: 52 aprovações e apenas 4 reprovações no ano anterior. Torna públicas as mensalidades, como se pode ver no recorte junto (G.C., 4 de Outubro de 1931).
De acordo com o testemunho de José Paulo Rodrigues, neste crescimento do Rainha D. Leonor teve papel importante o Professor Ivo Mendes, inspector do ensino oficial, que se associou a A. A. Ferreira em 1930.

O tenente Justino Moreira e o Prof. José Antunes Faria responderam a António Augusto Ferreira com a criação do Lusitano. Começou a funcionar, em Outubro de 1929, num rés-do-chão da Rua Alexandre Herculano, nº 50.
O colégio Lusitano ficou também conhecido como o colégio dos militares. Além do director, nele leccionaram Mesquita de Oliveira (que tinha um curso incompleto de engenharia), Ruben Gomes (conhecido pelos seus dotes para o desenho), Paulo Cúmano (descendente de italianos, falava fluentemente várias línguas, incluindo o alemão) e José Pedro Pereira, todos tenentes.



Em Outubro de 1930, o Lusitano muda as suas instalações para o nº 75 da Rua de Camões, beneficiando da proximidade do Parque D. Carlos. Ao ensino primário e secundário junta também o ensino comercial. Os dois colégios caldenses jogam o jogo da concorrência. Mas nele não correrão o risco de se esgotarem?

6. Colégios, liceu: um debate (1931/32)

A 12 de Julho de 1931, a Gazeta das Caldas publicava um artigo onde se equacionava a questão do ensino nas Caldas e se advogava a criação de um estabelecimento que ministrasse formação ao longo de todo o percurso liceal. Para o autor do texto, a concorrência entre os dois colégios tinha precisamente esse ónus, o de não garantir tal objectivo. “Razões de ordem vária a isso se opõem, entre as quais a dispersão de competências espalhadas pelas duas casas de ensino – que as têm, e de valor – a falta de professorado que ensine até ao 5º ano e outras que a razão e o melindre nos mandam que calemos”. E acrescenta: “Ora, esta dispersão de forças de que, seja-nos lícito dizer, as Caldas é fértil, evita, neste caso, toda a possibilidade que possa haver na criação de um Colégio-Liceu, à roda e dentro do qual todos se reunissem, ministrando numa camaradagem apreciável o pão do espírito a tantas e tantas crianças”.
O artigo não é assinado, o que pode significar proximidade à direcção do jornal, na altura dirigido por Guilherme Nobre Coutinho, um dos próceres da corrente de autonomia regionalista que marcou a segunda metade da década de 1920 das Caldas. É, aliás, em nome dos interesses caldenses, que o autor do texto se julga legitimado para exigir que o problema seja debatido pela Comissão de Iniciativa, pela Associação Comercial e pela Câmara, à qual competiria subsidiar um Liceu municipal, e bem assim pelo “Núcleo de bons professores que aí há (ao qual pede que “estude a maneira de conseguir este benefício para esta terra”). A ausência de curso completo dos liceus nas Caldas tem as seguintes consequências que importa avaliar. “Daqui se transportam para vários liceus do País dezenas de rapazes, alguns com pesados sacrifícios para as suas famílias, deixando por lá, quantas vezes a sua saúde, e sempre o seu dinheiro, que aqui poderia ficar. Além desses que têm de ir buscar a outras terras a conclusão dos seus estudos do curso geral dos liceus, outros há por aqui em quantidade, que mais não seguem nos estudos porque não têm elementos para isso, na exiguidade dos seus recursos, e que uma vez aqui um Colégio-Liceu, seguiriam na estrada luminosa da instrução, concluindo-os e tornando-se aptos para a vida!”
Estava dado o primeiro sinal para uma reivindicação que só quatro décadas mais tarde seria satisfeita: um liceu nas Caldas. A Gazeta vai ecoando o tema ao longo dos anos de 1931 e 1932. A 27 de Setembro deste ultimo ano, publica um artigo intitulado “O Liceu Nacional”, no qual se reporta a um movimento de caldenses e amigos das Caldas que aplaude entusiasticamente o projecto de criação de um Liceu nas Caldas. “Na verdade, dissémos e voltamos a repetir, que a região das Caldas da Rainha, composta dos seus quatro grandes concelhos, canaliza para os diferentes liceus do País grande número de estudantes, e que além deles, outros há, de todas as terras limítrofes que preferem decerto vir matricular-se no liceu que, porventura, possa ser aqui criado. Há aí a uma Escola Industrial, que bons serviços tem prestado a esta região, frequentada por 200 ou mais alunos, a maioria deles ansiosos por que aqui se crie um Liceu, mas que, na sua falta, ali vão buscar a luz da instrução que tão necessária é! Há dois colégios onde alguns anos do liceu se leccionam, cujos alunos e seus pais têm de arcar com o incómodo de fazer os seus exames noutros liceus do país, com um gravame enorme para o seu orçamento”.
Cerca de um ano mais tarde, o jornal exulta com a confirmação de “um grande melhoramento: a criação de um Liceu Municipal nas Caldas da Rainha é uma realidade”. A notícia desenvolve a informação obtida “de boa fonte”, de que a Câmara Municipal obteve do Ministro da Instrução Pública concordância para a criação de um Liceu Municipal o qual deverá entrar em funcionamento no próximo ano lectivo. Exultante a Gazeta (30 de Outubro de 1932) não só assevera que o Presidente da Câmara (o Dr. José Saudade e Silva) já tem escolhido o edifício onde irá funcionar o Liceu, como dá início de imediato a uma campanha de angariação de alunos com o objectivo de rapidamente elevar o futuro liceu de municipal a nacional.
Neste caso, porém, o desejo é que foi tomado por realidade. Em Março do ano seguinte, o jornal lastimava-se que após a promessa “tudo caiu no silêncio confrangedor, neste marasmo muito da nossa terra, sem que publicamente nada se diga, sem uma nota oficiosa, como gota de água venha desfazer a sede escaldante da curiosidade pública. Perguntam-nos: - então, o Liceu? Então, esse Liceu vem ou não vem?. Vocês da Gazeta sempre são muito ingénuos… Acreditam em cada peta…” (G.C., 18 de Março de 1933).




7.O Caldense (1933-1945)


Em Outubro de 1933, um novo colégio emerge na cidade: o Caldense (G.C., 28 de Outubro 1933). Arranca na Rua dos Artistas nº 24, liderado pelo Prof. Ivo Mendes. Aparentemente, o Caldense preenche o lugar deixado vago pelo Rainha D. Leonor. Não se encontraram referências ao Prof. António Augusto Ferreira, a partir de 1932. Sabemos que Ivo Mendes tinha colaborado com ele.
O projecto pedagógico do Caldense é distinto do dos colégios precedentes. Além de inserir a Música Canto Coral, os Trabalhos Manuais e a Arte Aplicada na oferta formativa, ao lado da Educação Física, oferece o Curso Geral dos Liceus. Em 1934 (G.C., 22 de Setembro) muda as instalações para a Rua Dr. Leão Azedo, anunciando uma separação orgânica entre uma unidade vocacionada para o ensino liceal e outra para o ensino primário (o chamado colégio José Malhoa). Indica como professores os médicos José Pinto e Mário de Castro, José da Costa Abrunhosa (matemática), João de Oliveira Carvalho (Filosofia), Almeida Ávila (Letras) e Dario Preto Ramos.
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Em 1936 o Caldense tem instalações na Rua Miguel Bombarda (G.C., 12 de Setembro). Anuncia que prepara alunos para admissão à Universidade. De facto, o Caldense será o primeiro colégio das Caldas da Rainha a proporcionar uma frequência completa do ensino liceal. No seu depoimento, José Paulo Rodrigues afirma ter sido dos primeiros estudantes que preparou o curso liceal nas Caldas, terminado em 1939. Os exames dos alunos preparados pelo Caldense eram realizados em Santarém.





No princípio da década de 1940, o Caldense consegue uma vantagem sobre o seu concorrente. Entre 1939, 1940 e 1941 o Governo insiste na aplicação de uma disposição prevista em legislação de 1928, a qual restringia a tolerância para com a coeducação no ensino particular, só a permitindo “a título excepcional e precário” nas localidades onde não existisse mais do que um estabelecimento do mesmo tipo. Não era o caso nas Caldas, tendo o Caldense, porventura beneficiando da influência do seu fundador, o inspector Ivo Mendes, obtido autorização para ensinar o sexo masculino.
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8. O Lusitano


O aparecimento do Caldense obrigou o Lusitano a introduzir melhorias na sua oferta formativa, garantindo o Curso Geral dos Liceus. O Lusitano tinha a seu favor a qualidade e boa localização das instalações. Uma reportagem sobre o colégio, publicada pela Gazeta das Caldas em 9 de Outubro de 1932 punha essa circunstância em destaque: “Entrámos numa casa completamente transformada, cheia de luz e de bom ar, que acaba de ser adaptada a casa de ensino, de harmonia com o Estatuto do Ensino Particular”. Mas, no final da década de 30 e princípios da seguinte, o colégio vai passando por sucessivas crises. Justino Moreira é mobilizado para Cabo Verde e é forçado a deixar a direcção do estabelecimento.
Depois vem a imposição de leccionar apenas ao sexo feminino. Em 1944, um grupo
de professores, liderado por Alcino Jorge de Morais adquire o alvará. Em entrevista que concede à Gazeta das Caldas (20 de Outubro de 1944) Alcino de Morais confessa-se preocupado com a baixa frequência do colégio, mas admite ser possível inverter a tendência de as famílias caldenses preferirem para as suas filhas o curso comercial ao curso liceal.
Esta experiência não teve continuidade. Em 1945, o alvará de Justino Moreira mudará outra vez de mãos, desta vez para a Sociedade de Desenvolvimento Caldense, liderada por Júlio Lopes. Tornara-se, porém, evidente que a sobrevivência do ensino liceal particular nas Caldas estaria sempre comprometida com dois colégios, obrigados pelo salazarismo à separação do ensino por sexos. A Sociedade terá de adquirir também o Caldense para poder cumprir o preceito legal que autorizava a coeducação onde só existisse um estabelecimento de ensino liceal. Com a dupla aquisição, Júlio Lopes criou o Externato Ramalho Ortigão. Mas essa é uma outra história, que está a ser feita pelos contributos deste blog e pelo trabalho de recolha e síntese de João Jales.



João Bonifácio Serra
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comentários
2008-01-28
Rui F S disse.
... vejam como o que parecia ser apenas (mais) uma iniciativa nostálgica, está a produzir conteúdos com tanto interesse, nomeadamente para a história da educação em Portugal! Um abraço do Rui Ferreira da Silva
2008-01-28
A J Figueiredo Lopes disse:
Mais uma vez muitos parabéns a todos. Acabo de ler o fantástico artigo do J. Bonifácio Serra que em parte se deve ao contágio da vossa insistência e interesse. No fundo é uma parte do passado das Caldas dos últimos 90 anos... É interessante ver nomes de várias pessoas que ainda conheci mas cujas actividades em prol das Caldas, desconhecia. Houve outro militar o major Alves que ainda foi professor de Geografia. A filha, a Lídia Alves, velha amiga com quem infelizmente perdi o contacto, ex aluna do Lusitano, vive actualmente no Porto.Um abraço A. J. F. Lopes
2008-01-29
Mário Gonçalves disse:
Caro Amigo: Acabo de receber o seu excelente trabalho de investigação sobre a história mais remota do ensino secundário nas Caldas da Rainha. Trata-se de um importante contributo que vem enriquecer o conteúdo do blog ao qual o João Jales tem dedicado muito do seu tempo e o maior entusiasmo e carinho, bem como a Guidó, que colaborou no trabalho através das pesquisas feitas na Gazeta das Caldas dessa época já remota.
Sendo um dos beneficiários da leitura da sua investigação, não posso deixar de lhe manifestar o meu reconhecimento por assim me facultar o acesso aos factos que vivi a partir de 1937. Abraço Amigo
Mário Gonçalves
2008-01-30
João Ramos Franco disse:
Parabéns João Serra, mais um contributo para demonstrar que a nossa cidade tem um passado fértil de lutadores pela cultura da sua sociedade.
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2008-01-30
Luís António disse:
Ficámos a saber tudo sobre os colégios antes do Externato , e a história está muito bem redigida, e com muita informação. Mas com a fasquia tão alta o que é que vem a seguir, João?...
2008-01-30
Vasco B disse.
.........e assim com esta magnifica contribuição do João B. Serra todos nós ficamos mais próximos e enriquecidos. Aqui fica o meu agradecimento pelo teu magnífico trabalho, bem hajas.Vasco
2008-02-03
Deolinda P. Barros disse:
Tenho seguido com muito interesse o que o nosso blog nos tem proporcionado... Alguns são apenas nomes... Outros como o Bonifácio Serra fazem parte da minha história porque também como acabei na docência o nome dele foi-se cruzando comigo em múltiplas ocasiões e era sempre com prazer eorgulho que o via referenciado... Depois, creio que também andou nas lides da Presidência da República quando um amigo meu lá estava………………… ........Hoje, ao ler o artigo do Bonifácio Serra, que neste momento é apenas um nome (se o vir nem o reconheço), senti um orgulho enorme de ter nascido em Caldas da Rainha e de lá ter crescido, no seio de uma família em que o meu pai era do Porto e minha mãe alfacinha. Bem-hajam todos os que trabalham para que continuemos a sentir mais perto estas memórias contidas, guardadas que, no meu caso, esquecera que um dia também as tinha vivido. Outro dia vi uma referência à Tertúlia e aos encontros pessoanos... Eu recitava na época Fernando Pessoa e o saudoso David Mourão-Ferreira foi lá falar de Fernando Pessoa. A Eduarda Rosa e eu lá estivemos... por isso vos enviei a notícia da exposição de pintura que ajudei a organizar sobre Pessoa e que está na Fundação Mário Soares. Como fui muito lacónica, ninguém percebeu porque é que mandava a notícia. Um abraço especial de gratidão ao Bonifácio Serra pela preservação da história da instrução/educação da nossa terra. Deolinda Pereira de Barros
2008-02-10
Ana Nascimento disse:
Olá Bonifácio Em boa hora a Guidó se “intrometeu” e o JJ te “forçou” a escrever esta crónica. Resultou num documento óptimo que nos permite saber a evolução do ensino na nossa cidade.
A título de curiosidade, ligando o passado ao presente, sempre ouvi a minha mãe falar do colégio Lusitano, onde conheceu o meu pai e para onde transitou vinda do ensino particular, mais precisamente da D. Maria Perpétua porque esta não podia propor alunos a exame. No Lusitano teve como professora a D. Maria, autora de um livro que a minha mãe guarda religiosamente. Quanto ao Capitão Mesquita de Oliveira, que fez parte do “staff “ do Lusitano, é o avô da Maria Aida ou seja o pai do Zeca Mesquita.
Obrigada rapaz pelo teu interesse e pelo teu empenho, através dos quais enriqueci o meu conhecimento. Um abraço da Ana

TÓ FREITAS

Na minha recente conversa com o Tó Freitas para a "Breve história do E.R.O." tive, mais uma vez, a oportunidade de reencontrar uma espantosa memória caldense, capaz de recitar nomes completos de turmas inteiras de alunos do colégio que ele frequentou, de forma intermitente e diletante, entre 1952 e 1962.
A caricatura é do meu amigo Vasco Trancoso e o texto do Hermínio de Oliveira. Foram originalmente publicados no "Álbum de Figuras Caldenses 1990/1991" e são aqui reproduzidos com um abraço de agradecimento pela colaboração do Tó na referida "Breve história...". JJ


O Tó Freitas

Doutorado em politica, catedrático de estratégias, mestre de xadrez, arauto de novidades.
Conhece 18.689 nomes de pessoas e os respectivos possuidores.
Amador da Canção Nacional, tem de cor a letra e o tom de 971 fados e conhece-lhes os autores. Sabe distinguir uma guitarra duma viola, pelo toque, coisa que eu não sei.
É detentor do record de fala contínua, durante 574 horas.
Consegue em 80 ganhar 3 partidas de xadrez, o que convenhamos não é nada mau, mas que ele espera melhorar sacrificando o seu sagrado repouso para estudar e aprofundar a sublime arte de Alekine.
Requintado sibarita conhece, pelo rótulo, 1040 vinhos, e pelo paladar mais de 500. Sabe qual é o melhor para acompanhar o linguado, - Seco de Bucelas, meio-seco de Colares, - Não desdenhando um branco de Figueira de Castelo Rodrigo, embora mais doce.
Mas também não desdenha um tinto cartaxeiro para fazer escorregar umas petinguinhas fritas com açorda, porque se pela.
Tem pois um paladar democrático, ao nível do “Jaquinzinho” e arroz de pimentos, com umas febres intermitentes de restaurantes de luxo, donde sai alagado em suor, pela escaldadela.
Antigo aluno do Colégio Moderno foi nesse alfobre de personalidades graúdas que forrageou para o seu celeiro celebridades a quem trata por tu.
Lá jogou futebol e deu algumas caneladas em aristocráticas gâmbias que fortaleceram velhas amizades, ainda bem vivas quer recordando o toque quer a nódoa negra.
Há para ai quem diga que a população portuguesa está a envelhecer e a nascer menos o que eu acho um acto de sovinice. Deixar de nascer é o acto mais miserável que o homem pratica, para além de fazer baixar a estatística o que é sempre mau… por ser uma baixa. Nisso o Tó e exemplar nem evitou de nascer nem evitou que lhe nascessem três filhas. Equilibrou a estatística.
Pela mais velha foi o Tó de avião aos Açores… sem aconselhar o condutor a ter cuidado nas curvas.
Irreverente, independente, senhor de si, nunca vestiu a batina que o Trancoso lhe enfiou, sendo aqui um símbolo da sua catedrática sabença… em política central partidário – coscuvilheira.
Fundador do PS e o seu mais antigo membro nas Caldas, nunca ocupou qualquer lugar, na Câmara, Assembleia Municipal ou mesmo em qualquer modesta e plebeia Junta de Freguesia. Foi no entanto deputado, e, embora lá estivesse pouco tempo, ainda fez um contracto especial de prestação de serviços parlamentares, extra eleitoral, na Comissão de Saúde, onde falou de remédios, seus velhos conhecidos de infância. Mantém o escritório do pai – meu querido e chorado amigo António Maldonado Freitas – tal como ele lho deixou, com os livros no mesmo lugar e os jornais no mesmo monte... Não precisa, nem quer, alterar nada, fixando-se na memória dos seus antepassados com uma devoção religiosa pelos livros lidos pelo seu pai, as cerâmicas, gravuras e quadros, que lhe foram fonte de beleza, transformando esse velho escritório num santuário onde murmura as suas orações de saudade.
O Café Central, de que é co-proprietário não lhe é só escritório; é também e sobretudo um local onde se vive, onde se conversa, onde se sabe. Património caldense, traz até nós um tempo em que o tempo não contava, em que os minutos não valiam a tanto por escudo, em que se estava, e está, sentado a mirar essa obra deliciosamente romântica de Júlio Pomar, rasgada a ouro no azul celeste da parede.
Tudo isto é o Tó, em “quem luz algum talento” como dizia o Bocage, mas que vale sobretudo… por saber ser um amigo.

Hermínio de Oliveira