Exceptuando nestes momentos, sempre gostara do meu quarto e da vista que usufruía sobre o Largo do Borlão, desde que a minha família viera inaugurar um dos andares dos três prédios que os Capristanos aqui tinham construído no início da década de sessenta. A casa era boa, o meu quarto parecia-me enorme e a Praça Oliveira Salazar/antigo Burlão (como se escrevia na correspondência postal, para mais fácil localização) além de espaçosa “cheirava a novo”, já que todas as construções eram recentes.
No meu prédio morava inicialmente no 1º andar a família do Dr. Ramos Franco, veterinário municipal, com dois filhos, o João e o Rui, infelizmente bem mais velhos que eu, o que nunca favoreceu qualquer convívio. No 2º andar habitava um casal, eram ambos muito simpáticos, não sei o nome, lembro-me apenas que ele era médico ortopedista. No 4º andar vivia uma conhecida actriz de teatro, Eunice Muñoz , que nos suscitava enorme curiosidade porque aparecia nalgumas Noites de Teatro da RTP. Mas só muito mais tarde tive noção da sua importância artística, na altura interessava-me mais saber que ali habitavam três garotos da nossa idade, numa casa com pouca mobília, onde eram possíveis, por isso, algumas brincadeiras proibidas no 3º andar.
Da minha janela via os dois outros prédios, arquitectonicamente iguais. No seguinte, também no 3º andar, como já disse, morava a Fátima Vasconcelos (Tucha) e os pais - o Sr. Vasconcelos era o gerente do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa, ali na esquina.
No 2º andar morava o casal Álvares Pereira com os seus três filhos. A irmã ainda lá mora, por cima do Maratona, na casa onde o seu irmão João morreu num trágico acidente anos mais tarde, mas nunca mais vi o Nuno ou, se o vi, não o reconheci.
Os primeiros andares destes três prédios acabaram unidos e habitados pelo futuro Presidente da Câmara, Engº Luís Paiva e Sousa, a mulher (Gininha) e os dois filhos (Teresinha e Luis). Todo este espaço era importante para tornar possíveis as suas magníficas festas nos anos sessenta, de que nos lembramos bem, eu e certamente todos os outros convidados que as frequentaram.
.A minha irmã Paula e a Tucha eram inseparáveis e tinham, no 3º andar seguinte, outra amiga, como elas nascida em 1956, a Ana, filha mais nova da família Saez Salgado. Os irmãos mais velhos eram o Xavier, o Carlos e o Jaime. O seu pai era o engenheiro Jaime Buceta, responsável pela famosa fábrica de sabão na estrada da Foz (ainda hoje lá está), que mais tarde fabricaria os conhecidos produtos Lander. Uma das sócias dessa fábrica viria ocupar, com a sua filha Pilar, o 2º andar do nosso prédio. A proximidade permitiu que a Sr.ª D. Maria Luísa Paneiro Amate me ensinasse a jogar Canasta e, um dia em que falei sobre um jogo a que assistia, ensinou-me também que “nos jogos de cartas os mirones são de gesso, quando falam são de merda”. Disse isto placidamente, enquanto chupava uma passa de um dos incontáveis cigarros Monserrat que queimava constantemente. Fiquei chocado, mas a minha mãe não pestanejou, a casa não caiu e eu aprendi uma lição para a vida.
Da minha janela via todas estas pessoas passarem, entrando e saindo de casa. Por cima dos Saez Salgado, no 4º andar, morava o dono da fábrica de móveis, o Sr. Serrano, a D. Luisa e os seus filhos, o Zé e a Mafalda; esta última manteve até hoje a vizinhança com o Xavier Salgado.
Na varanda do 2º andar viam-se, nas noites mais amenas, o Sr. Arquimedes, a esposa e as suas duas vistosas filhas.
Da minha janela via também o Padre Albino, o Padre Xico e o Sr. Dario saírem do prédio da esquina oposta para se deslocarem para o ERO no VW carocha azul claro – seria mesmo azul, ou sou traído pela memória? Ainda hoje mora nesse Lote 42 o Dario, que encontro quase diariamente. Da mesma porta saíam também a filha do dono do prédio, a Benilde Saramago, sempre luminosa, mesmo nos dias mais cinzento (quem a conhece, sabe que era assim) e a Nô e a Té, que eu já conhecia por termos sido vizinhos na Rua Dr. Leão Azedo. Eram filhas do Sr. Albertino, que possuía uma fábrica de garrafões para o lado do Avenal (frente ao quartel), e tinham duas cadelas pretas (uma chamava-se Chinha) que eu muito invejava, porque nunca tive um cão.
Da porta do prédio seguinte, já junto ao Tribunal, abria entretanto a porta a Ana Isabel, excelente aluna e minha colega de turma. Como a Mafalda e eu, ela também casou com um colega do colégio, o Zé Sancho. Namoriscou em certa altura um outro nosso colega, o Pedro Nobre, que geralmente me esperava no carro que o pai, trabalhador dos CTT, estacionava às 7h 55m em frente à Igreja. Eu debruçava-me um pouco e via-o aproveitando aqueles minutos até eu sair para completar algum trabalho de casa atrasado ou estudar mais um pouco para um ponto (havia “pontos” e não “testes” nessa altura). Quando eu descia ele fechava o carro e lá íamos a discutir música, que era (é) uma paixão comum.
No vértice oposto do Borlão, à direita do tribunal, a porta da rua abria-se também às oito e um quarto para a saída da Mercês e do Eduardo, os dois irmãos que ali moravam e também frequentavam o Externato, respectivamente três anos e um ano à minha frente.
Vinham da Coronel Santos Costa (hoje Raul Proença) os irmãos Noronha, o Jorge e a Isabel, os Agudos (a Ana Luísa que foi sempre minha colega, e o mais novo, o Manuel) e o Raul Curado e o Manuel Lino; aí viriam a morar, no final da década, o Dr. Jaime Serafim e a D. Esperança. Da esquina dessa Rua com a Avenida, apareciam de um lado (Lote 40) a Ana Clara Andrade e Sousa e o Luís Filipe Vasconcelos e, do outro (nº 18) , a Salette e os Gouveias (Ana Paula, Luís Abel e Cláudia, todos passaram pelo ERO). Já na Avenida moravam o João Mário e a Pilar (Lote 41) e, em frente, a Mami (Marta Figueiredo) e a Élia Mendonça (numa porta que, em vez de nº, exibe ainda hoje,estranhamente, “MOF”). Lá mais do fundo, de perto da estação da CP, vinham os Netos (Tó Zé, meu colega de turma, e o Jaime, mais novo). Uns passavam e seguiam a pé, outros paravam debaixo das arcadas da “casa dos padres”, onde esperavam a “carrinha” (uma camioneta dos Capristanos alugada para transportar alunos e professores para o Colégio).
Esticando um pouco o pescoço via da minha janela as traseiras do primeiro prédio da Rua Duarte Pacheco, onde moravam os meus colegas e amigos Zé Luís Azevedo (em casa do conhecido professor), Belica e Aida Mesquita, Zé Sancho e Belão, Tó Zé e Rui Hipólito, Alberto R. Pereira , Rui Malaca e Miguel Bento Monteiro; este último depressa se mudaria para a Diário de Notícias, trocando a instrução primária da D. Rosa pela do ERO. Eu iria atrás, convencidos os meus pais pela colorida argumentação da Elvira Bento Monteiro (nunca a tratei por Dona!) de que “os rapazes estão melhor a correr naquele recreio ao ar livre, do que a respirar as bufas da D. Rosa!” – lembro-me da frase, que me escandalizou (um pouco) e divertiu (muito), com se a tivesse ouvido hoje. Foi em 1962 e eu tinha oito anos. Referia-se à D. Rosa Magina, professora reformada, já com 80 anos nessa altura, que nos dava aulas em sua casa, na Duarte Pacheco 16 R/C-Esq., com o auxílio da filha, a D. Alice.
De uma das janelas desse prédios saía frequentemente o som de um piano, hesitante e engasgado, enquanto a Madame Palavicini tentava transformar num pianista uma criança que provavelmente preferiria jogar futebol ou ao ringue… hoje lamento não ter sido uma delas, mas na altura nem quis ouvir falar nisso.
Da minha janela não via o Hemiciclo Frederico Ulrich (depois Guiné-Cabo Verde, depois João Paulo II …), a rua em forma de U que rodeia a igreja. Sempre tive enormes dificuldades burocráticas com meu nome e morada, nenhum funcionário da administração deste país foi jamais capaz de escrever, correcta e simultaneamente, “Jales” e “Hemiciclo” sem variadas explicações e múltiplas tentativas e erros…. Bom, mas voltando ao Hemiciclo, para o ver precisava de vir às janelas das salas viradas à Igreja e aí já avistava o prédio a seguir ao nosso, onde morava o nosso professor de Ginástica Silva Bastos, a família do Zé Mário Rego e a do Dr. Palma. Este último viria a mudar-se, com a esposa Maria Helena e os quatro filhos (Ana Margarida, João Paulo, Cristina e Alexandra) para o andar por cima de nós, enquanto a Eunice Muñoz rumava a Lisboa e à justa consagração - seria no final da década de sessenta a mais bem paga actriz portuguesa, ganhando trinta contos por mês! Tudo isto sem prejudicar a sua carreira paralela de mãe, já que teve um total de seis filhos.
Onde hoje é a R. Padre António Emílio havia um descampado em que se brincava e jogava à bola (foto anexa). Vinham ali ter connosco os ocupantes do prédio da Miguel Bombarda cujas traseiras confinavam com esse terreno: o Jorge Pedro (que cedo partiria para Leiria) e também o Baltazar Lourenço, irmão mais novo da Ilda e do João (de quem só me tornei íntimo muito mais tarde), os três filhos do Dr. Rosado Lourenço. Aí moravam também o Luis e a Teresa Machado, cujo pai também é médico e foi director do Termal. Mais tarde conheci lá a Anabela (também minha colega) e o seu irmão Zé Garcia. As escadas daquele prédio têm estórias fabulosas para contar, se um dia o quiserem fazer (as escadas, não eu!).
Depois desse terreno baldio (foto anexa) havia “a casa dos Juízes” onde habitaram o João Licínio, a Manuela , a Fáfá (minha colega) e o Luís Filipe Gama Vieira (ainda hoje um “puto”, só nasceu em 1966, nem devia ter direito a menção aqui no Blog, mas enfim…). O pai era um juiz austero e severo, uma reputação que não melhorou quando uma testemunha faleceu durante uma inquirição dirigida por ele; apesar da culpa não ser obviamente sua, constava que ninguém se atrevia a mentir ao Sr. Dr. Juiz Gama Vieira!
No Castelo Encantado a seguir vivia a Princesa, que eu via fugazmente entre as ameias do 2º Dtº ; lembro-me pouco de a ver ir “a butes” com a plebe, tenho ideia que o Coronel Miguel a transportava habitualmente no seu coche (um Ford azul?) para o Colégio. Já sei que a Anabela Miguel vai responder que ia pé quase todos os dias, mas é assim que eu me lembro…
Era muito povoado de EROs o edifício seguinte (por cima do actual Viveiro): no 3º os Gomes, Mena e Ruca (os pais tiveram ali no R/C a primeira loja Traviata, que depois mudou para a Heróis da Grande Guerra), no 2º andar os manos Pereira Fernandes (S. Luís, Fátima e Jorge) e no 1º andar os Pimenta de Castro. Destes recordo o Raul, a Madalena e a Conchita, mas penso que havia mais. Lembro-me melhor da Conchita por dois motivos: era da nossa idade, apenas um ano mais nova, e fazia bater mais depressa os adolescentes corações masculinos de todo o quarteirão, mas especialmente o do meu amigo Miguel, que desesperava na inútil busca pela atenção dos seus enormes e belos olhos castanhos… Aconteceu em 1965 ou 1966, tínhamos, nessa altura, onze ou doze anos.
No prédio de esquina, que completa o Hemiciclo, habitavam (e habitam) o Rogério e a Milena Caiado e, nessa altura, os seus quatro filhos (Paulo, Xinha, Teresa e Alexandra). A família detinha a Frami, importante fábrica de sumos e conservas ali em Tornada.

Ainda hoje vivemos nesta Praça do Estado Novo, uma espécie de Praça do Areeiro das Caldas, eu e uma outra colega do ERO que eu via passar sob a minha janela, com curiosidade, no longínquo ano de 1971… Mas isso é outra estória, hoje queria apenas terminar dizendo que nas casas das três dúzias de adolescentes e jovens que aqui moravam, e que aqui recordei (que me desculpem os que esqueci), se instalaram entretanto escritórios de advogados e meia-dúzia de imobiliárias. Já não há aqui nesta zona sítios para brincar ou jogar à bola, mas não fazem falta, porque já não vivem miúdos no Borlão…
.
.
NOTAS:
1 -Escrevi este texto mais ou menos de chofre, de uma só vez e sem quase trocar impressões com mais ninguém. A minha memória falhou certamente, agradeço as correcções.
2 - Usei as duas imagens do Borlão que tinha à mão. A primeira foi roubada no livro "50 Fotografias dos Anos Cinquenta" que me foi oferecido pela autora (Isabel Xavier) e a segunda é uma foto tirada por mim. O problema é que o meu texto se refere ao início da década de 60 e as imagens são, respectivamente, dos anos 50 e 70. Talvez alguém tenha a foto certa para este texto, fico a aguardar. A terceira fotografia é de 1964 e já a usei aqui, mas vinha a propósito, é exactamente da época e desta vez está legendada.
.