ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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CAROCHINHAS À JANELA

por M Rosário Pimentel




- Novamente as tagarelas! -exclamava, em voz sonora, a Maria, que acabara de abrir a janela da casa da sua patroa, a fim de implicar com as "lourinhas", como costumava dizer quando se referia a nós. Afinal, que vinha ela fazer para a janela se não tinha brinquedos para mostrar? Tagarelar....
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Nesse dia, estávamos atarefadas a colocar as mobílias das nossas bonecas sobre os parapeitos das respectivas janelas. A seguir à secretária, estante e cadeirão do escritório, continuei a dispor a mesa da sala de jantar com as cadeiras ao redor, o aparador, lareira e candeeiro de pé alto, quando lançando o olhar para a janela oposta, me senti fascinada pela linda mobília de quarto e, para melhor a visualizar, coloquei-me em bicos de pés!...catrapus!
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Um automóvel parou bruscamente e o condutor saiu, apanhando, na estreita rua central dessa vila do Oeste, um par de cadeiras em madeira, por sinal pouco danificadas. Desci as escadas a correr, receando que o senhor batesse à porta, denunciando o que acabara de acontecer. Na véspera, ao ouvir o meu Pai regressar a casa, correra a contar-lhe as grandes novidades, mas ele disse que a Carochinha é que se põe à janela....
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Desde que a Balbina fora ao mercado, como era hábito, e regressara com os géneros alimentícios e as notícias frescas e, nesse dia, muito interessantes para mim, que eu não parara de bambear as cortinas das janelas, para grande arrelia da minha Mãe, a fim de observar a casa em frente.
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A Teresa, recém-chegada de Lisboa, não conheceria outras crianças e, sendo filha única teria que brincar sozinha, tal como eu! Mas os nossos Pais nunca se tinham encontrado e os adultos são muito complicados!
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- Dois tostões de rebuçados. - pedi a um dos empregados da mercearia da minha rua.Com a recomendação materna de não me demorar, saía apressadamente do estabelecimento quando reparei na Teresa à porta de sua casa ,na companhia da empregada. Impulsivamente, corri a oferecer-lhe alguns dos meus rebuçados. Ambas sorrimos e trocamos os nossos nomes.
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No dia seguinte, as nossas janelas abriram-se pela primeira vez. Aos cinco anos, não podia saber que seria o primeiro passo para a futura construção do maravilhoso pilar da AMIZADE.
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Maria do Rosário Pimentel
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C O M E N T Á R I O S
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São Caixinha disse.
Assistimos ao desenrolar de um emaranhado de enternecedores acontecimentos, que nos fazem regressar á essência de ser criança! E que gratificante reencontro!!
Encantadora a sua Janela, os meus parabéns Maria do Rosário!
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Infância
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Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor de lume:
o teu perfume,
lenha
da melancolia
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Carlos de Oliveira in "Cantata"
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São Caixinha
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Alfredo disse...
Enlevo.
É o que sinto ao ler esta descrição da “lourinha” apesar do súbito “catrapus” que me levou a ler mais depressa e em diagonal pensando que a “carochinha” tinha caído, mas afinal tinham caído apenas as cadeiras, obrigando-me a voltar atrás e recomeçar.
Até o pormenor da “galinha da minha vizinha é melhor que a minha” na descrição do fascínio sentido quando viu a mobília da amiga e a complicação dos adultos em entenderem o pensamento e desejos de uma criança.Os dois tostões de rebuçados comprados na mercearia fizeram-me recuar aos que outrora também comprava, na taberna da “gorda”… e que saborosos eram. Eram diferente nessa altura e nessa idade e não mais comi outros assim.
Sim… sem o sabermos na altura, muitas amizades começaram assim e perduram para o resto da vida sem que as janelas se fechem.
A.Justiça
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Filha disse...
Gostei muito, Mãe! Aqui está uma outra área por onde poderias enveredar... relatar as memórias passadas...
Nunca é tarde para nos descobrirmos a nós próprios. Espero um dia também o conseguir.
Continua.
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jorge disse...
delicioso.enternecedor.
é mesmo assim a infância e não é fácil um adulto retratá-la.
só não fiquei a saber onde é esta casa,tão tradicional.
parabéns.j
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Isabel disse:
Reza a história, bem velhinha,
que havia uma Carochinha,
que por ser engraçadinha,
teimou que haveria de casar.
Certo dia, quando estava a varrer a cozinha,
encontrou uma moeda de cinco réis
e correu para ir dizer à vizinha que já não tinha de esperar.
Felizmente,e apesar do acidente das cadeiras,esta nossa "carochinha" acabou a história em beleza,ou melhor,em amizade.
Muito bonita a casa e a fotografia.Onde é?
Bj. IS
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Artur disse...
As grandes histórias contam-se com palavras singelas, como é o caso desta carochinha revisitada e adaptada a uma situação de infância, simultaneamente distante e contígua...
Artur Henrique Ribeiro Gonçalves
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Cristina disse...
Que lindo edificio, bela arquitectura portuguesa e que mundo, história e vidas devem ter existido no seu interior!
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Júlia Ribeiro disse...
Que linda esta História da Carochina ! E assim se constrói uma AMIZADE...
Retratei-me aqui porque fui filha única até aos 8 anos. Umas férias conheci a Balia na Nazaré,tínhamos 6 anos e não mais nos vimos até ao dia em que nos reencontramos no mesmo local. Tinham passado 6 anos e a partir daí algo foi crescendo... uma Amizade muito forte, que se mantém .
Obrigada Maria do Rosário e Parabéns.
Um beijinho
Júlia R
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Manuela disse:
Admirável,a sensibilidade criativa das Carochinhas!Não se enfeitaram para ir para a janela, nem procuravam o joão ratão…mas uma "irmã".
O olhar ditou a empatia, os brinquedos a linguagem, as mobílias estateladas na rua despertaram o carinho de quem passava e os cinco“réis” concretizaram o doce sentimento da partilha. Que delicioso rebuçado!
As crianças são simples, não calculam os seus gestos, não têm artimanhas, buscam tesouros…intangíveis!
A Maria do Rosário leu-nos a história que ela própria e a Teresa umdia escreveram.Gostei muito de vos ouvir "tagarelar”....
As crianças não sabem ESCREVER histórias?
Manuela Gama Vieira

6 comentários:

Alfredo disse...

Enlevo.
É o que sinto ao ler esta descrição da “lourinha” apesar do súbito “catrapus” que me levou a ler mais depressa e em diagonal pensando que a “carochinha” tinha caído, mas afinal tinham caído apenas as cadeiras, obrigando-me a voltar atrás e recomeçar.
Até o pormenor da “galinha da minha vizinha é melhor que a minha” na descrição do fascínio sentido quando viu a mobília da amiga e a complicação dos adultos em entenderem o pensamento e desejos de uma criança.
Os dois tostões de rebuçados comprados na mercearia fizeram-me recuar aos que outrora também comprava, na taberna da “gorda”… e que saborosos eram. Eram diferente nessa altura e nessa idade e não mais comi outros assim.
Sim… sem o sabermos na altura, muitas amizades começaram assim e perduram para o resto da vida sem que as janelas se fechem.
A.Justiça

Filha disse...

Gostei muito, Mãe!
Aqui está uma outra área por onde poderias enveredar... relatar as memórias passadas...
Nunca é tarde para nos descobrirmos a nós próprios.
Espero um dia também o conseguir.
Continua.

Anónimo disse...

delicioso.enternecedor.é mesmo assim a infância e não é fácil um adulto retratá-la.só não fiquei a saber onde é esta casa,tão tradicional.parabéns.j

Anónimo disse...

As grandes histórias contam-se com palavras singelas, como é o caso desta carochinha revisitada e adaptada a uma situação de infância, simultaneamente distante e contígua...

Artur Henrique Ribeiro Gonçalves

Anónimo disse...

Que lindo edificio, bela arquitectura portuguesa e que mundo, história e vidas devem ter existido no seu interior!

Cristina Ramos Horta

Anónimo disse...

Júlia Ribeiro

Que linda esta História da Carochina ! E assim se constrói uma AMIZADE .....Retratei-me aqui porque fui filha única até aos 8 anos.Umas férias conheci a Balia na Nazaré,tínhamos 6 anos e não mais nos vimos até ao dia em que nos reencontramos no mesmo local.Tinham passado 6 anos e a partir daí algo foi crescendo...,e, uma Amizade muito forte se mantém .
Obrigada Maria do Rosário e Parabéns.Um beijinho
Júlia R