ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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À JANELA DA MINHA INFÂNCIA



por Vasco Trancoso



Todos temos uma janela na nossa infância. Essa janela teve/tem um papel importante de entre todas as janelas da nossa Vida. Uma janela por onde espreitávamos sinais do exterior à descoberta de um mundo novo. Lembro-me de ficar ancorado muito tempo àquela janela assistindo ao desfile das vendedoras de água de Caneças sobre o ritmo da flauta do “amola tesouras e navalhas” e à passagem da mulher da “fava-rica”, do homem do “Ferro-velho” e da voz dos cegos cantores ambulantes que distribuíam um folheto que não viam com a história de uma coxinha - acompanhados na sua cantoria pelo som desafinado de um “acordeon”. A rua era animada ainda, ocasionalmente, por uma tenda de fantoches que andavam sempre à paulada uns com os outros sem se perceber porquê e pelos pregões das varinas e das vendedeiras de “figos de capa rota”. E havia o fascínio dos Saltimbancos que surgiam como num filme de Fellini, envolvidos no estrondo de tambores e no sopro estridente de instrumentos de metal.
Nino Rota - Tema de 8 1/2 (Fellini)


Estendiam um enorme tapete colorido, que imaginava oriundo de alguma cidade misteriosa do longínquo Oriente, sobre o qual actuavam o engolidor de espadas e soprador de fogo, bem como uma rapariguinha de aparência frágil e com olhos tristes que fazia contorcionismo. Antes de um rapazinho de boné na mão vir recolher a generosidade alheia - tinha lugar o número final: A célebre “Dança da ursa”. Então, ao som de uma música impossível, uma forma vagamente humana, vestida com um fato coçado a imitar um urso, bailava em círculo com uma corrente, atada a uma das pernas, conduzida por um domador de bigodinho à Errol Flynn.
Para além do som distante do circo que passava à frente da minha janela da infância, guardo na memória algo que tinha muita importância. As outras janelas que avistava da minha. Interrogava-me sobre as pessoas por detrás de cada vidraça. Que alegrias, tristezas, emoções se estariam a passar, naquele mesmo momento, no interior de cada casa. Durante a noite dormíamos afinal na mesma rua separados pelas janelas. Imaginava os prédios de repente transparentes e as eventuais histórias, ambientes e cores. Pessoas que ora riam, amavam, choravam ou sonhavam. Mas como não era assim restava-me tentar decifrar os vultos por detrás dos cortinados ou recortados pela luz que vinha do interior das vidraças.
Havia no entanto uma janela especial no 3º andar, do prédio azul, mesmo em frente. Era especial desde o dia em que se abrira para deixar passar uma jovem adolescente de cabelos longos que sorria. Sorria sempre como uma princesa que acabava de sair de uma história do jornal infantil que eu lia: "O Mundo de Aventuras". Consegui saber que se chamava Ana Paula e estranhei uma sensação nova e inexplicável. Quando olhava aquela janela sentia um bater de asas dentro do peito e uma emoção que antes nunca experimentara. Associava então a sua imagem à canção "Amapola" que se ouvia na telefonia interpretada por vozes como Tito Schipa, Luis Alberto del Parana & Los Paraguayos, os Lecuona Cuban Boys, ou os Cinco Latinos. Talvez porque a palavra Amapola quase faz lembrar Ana Paula. Aliás era só substituir na letra da canção Amapola por Ana Paula (embora Amapola signifique: papoila - em espanhol, língua em que a canção foi inicialmente composta).
De vez em quando lembro-me e regresso à janela da minha infância… onde se reflecte outra janela.
Todos temos uma janela aberta sobre a nossa infância. Todas trazem sobre o parapeito um pequeno pedaço da nossa própria história.
Vasco Trancoso

Amapola - Andrea Bocelli
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Post publicado em simultâneo com o blogue do autor
que deve ser visitado para um melhor visionamento da fotografia.
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(clique para ler)
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12 comentários:

Guida disse...

Uma cena extraordinariamente nítida a deste texto acompanhado pelo belo tema de Fellini. Faz-nos recuar no tempo. Muito belo, Vasco.Obrigada.

Blow Up disse...

Há mais a ternura de Amarcord do que o surrealismo amargo de 8 e Meio neste exercício "cinematográfico".

Excelente evocação,com doses certas de realismo e emoção.
Visitarei certamente o hevenly.Parabéns.

Meus Sonhos disse...

Belissima fotografia,com reflexos que se vêem e outros que se adivinham,tal como no texto.
O rendilhado das recordações confunde-se com o rendilhado das cortinas.
Quanto do que somos hoje é resultado dessas experiências e emoções de infância que mal recordamos ou pensamos mesmo não recordar?
Gostei muito.
CC

Belão disse...

É impossível, ao ler este texto do Vasco, tão pleno de realismo, não darmos por nós a recordar o que víamos da nossa janela e como a nossa imaginação nos permitia embarcar em viagens únicas e tão características da infância. Belo texto. Obrigada Vasco.

Anónimo disse...

Uma descrição bonita e com muita clareza! As músicas muito bem escolhidas!
Laurinha (Facebook)

Anónimo disse...

Uma descrição bonita e com muita clareza! As músicas muito bem escolhidas!
Laurinha (Facebook)

Guida CS disse...

Esta janela do Vasco levou-me também a mim à minha infância e à minha janela, onde eu ficava parada até que a chuva passasse, à espera de poder voltar a ir brincar «lá fora» onde me esperavam os campos de malmequeres, os cucos, os pardais dos telhados e os charcos onde as rãs saltavam. Cada um de nós tem a sua janela. Parabéns ao Vasco por ter partilhado a sua com tanta clareza.

João Ramos Franco disse...

Palavras de Vasco Trancoso no FB: João Ramos Franco esta história é à tua medida...
- Como entendo as tuas palavras, meu amigo…
Tens toda a razão quando nos dizes que “espreitávamos sinais do exterior à descoberta de um mundo novo.”
No meu caso, na casa onde nasci, via o Chafariz em frente, (inicio da estrada para a Foz do Arelho, no nº 7) nas traseiras do prédio, para lá do quintal, tinha a Misericórdia, o Hotel Lisbonense e uma pequena propriedade, que tinha uma Azenha que funcionava com as águas que vinham das Termas.
A Janela minha da infância, era a cerca de 50 metros de Casa, tudo passava por uma visão, quase que constante da imensidão e da gente que passeava no Parque D. Calos I.
Foi por aqui que comecei a fixar as primeiras imagens de um universo que hoje povoa a minha mente e sinto que as da infância foram as mais belas e puras.
Um abraço amigo
João Ramos Franco

F. Clérigo disse...

A Arte de Ser Feliz

Houve um tempo em que a minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e o meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crianças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como reflectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E
sinto-me completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles

Uma Sugestiva Janela, uma narrativa expressiva, onde a Imaginação e o Sonho “brincam” e “pulam” de mãos dadas, aos Olhos de uma criança... transpostos agora para um Olhar perscrutante, uma escrita cuidada, embalada ainda pela Música que outrora encenava o bailado de borboletas, em redor de um Coração...
Bonita conjugação para a “Arte de Ser Feliz”...
Parabéns ao Autor pelo Belo Post !

Bjs

Fátima

Anónimo disse...

...e esta é a Isabel e este o João.- dizia eu,enquanto acabava de preencher o parapeito da janela com as minhas bonecas.De imediato,tive que satisfazer a sua curiosidade.Expliquei que a mazela numa das bochechas desse bebé chorão se devia a um acidente com a chaminé de uma locomotiva,quando ao meu colo,tropecei no combóio do meu irmão.Sendo filha única,ficou encantada por eu ter um irmão.
Assim se iniciou a descoberta da vida de cada uma de nós,ambas de cinco anos,através dos respectivos brinquedos,expostos diariamente nas nossas janelas,sob o olhar divertido dos transeuntes.
A menina desconhecida que viera de Lisboa,com seus pais,instalar-se na casa oposta à da minha família,
viria,desde então,a percorrer, comigo ,sucessivos caminhos da vida,inclusive o do E.R.O..
(Actualmente ,o João e a Isabel integram o acervo do Museu do Brinquedo ,em Sintra.Ambos exibem as vestes originais).

A"doce recordação" do despertar da Amizade,que aqui deixo,devo ao belo post de Vasco Trancoso.O meu reconhecimento e admiração.

Maria do Rosário Pimentel

Joaquim disse...

Esta janela, não é a bonita "window with a view" que o Vasco Trancoso nos deliciou, esta é apenas uma das janelas nas Caldas que nos abria as portas ao mundo português nos anos 40s, 50s e talvez princípios de 1960. Na Praça 5 de Outubro (antiga praça do peixe), havia uma Escola Primaria "masculina", no primeiro andar com grandes janelas que nos permitia uma grande visibilidade por toda essa mesma praça. O nosso saudoso professor Rodrigues" 3ª e 4ª classes" por vezes ia para as janelas mostrar-nos o mundo de "então". Era ver o" Rei das Toalhas e o Orlando Quinquelheiro" com os seus pregões, o vendedor da Pomada Giboia que vendia uma bisnaga não por 20 escudos, nem tã pouco por 10, era apenas 5 escudos e quem comprasse uma, levava uma outra inteiramente de "borla". Os Marionetes ou cabeças de pau deliciavam-nos com o rapazote solteiro que ia ao barbeiro desfazer a barba pois iria casar e então aí começava a paulada "com que então seu toleirão vai casar, vira a cara dum lado, vira a cara do outro, sempre com a navalha da barba que mais parecia uma " Moca". Depois lá aparecia o diabo que era o protector das meninas solteiras e a seguir era a tourada Eh toiro, eh toiro e acabava com o toiro a fugir à frente do toureiro, para as gargalhadas ingénuas da pequenada. Na pequena rua (perdi o nome) que liga a Praça 5 de Outubro à Heróis da Grande Guerra e que se cruza com a Rua das Vacarias era talvez o sítio preferido dos vendedores ambulantes e dos cantadores da desgraça, que cantavam e diziam que a estória era tal e qual vinha no folheto.Por lá aparecia o homem que vendia "esticadores prós colarinhos", outros mais brincalhões vendiam "pentes para carecas e óculos pra cegos e com o mesmo pente que dobravam diziam eles "é pró cabelo e pró cabelo e não arranha". Um outro vendedor que tinha como medida um corno de boi serrado vendia sementes em que apregoava "semente de nabo ou horto" cada cornada 5 tostões. Então lá aparecia o " vendedor de ilusões" quem quer a grande, anda hoje a roda, quem sabe lá quem sabe lá. Foi naquelas janelas, mesmo em frente ao "nosso" Teatro Pinheiro Chagas que para muitos o mundo se abria com os filmes de 31 partes, 15 episódios, os grandes filmes de histórias romanas e os nossos Capas Negras e tantos outros...Era simples o nosso mundo, não era?... Joaquim

VT disse...

Fantástico! Dir-se-ia o milagre das janelas! Agradecendo a atenção de todos os que enviaram os comentários super-simpáticos não posso deixar de constatar também que se desencadeou um fenómeno de “reacção em cadeia” – atentos os números excepcionais, nunca recepcionados antes, de visitantes, em ambos os blogues. E foram comentários/janelas (originando outros “posts”) a chegar. E o mérito é todo das janelas. Há vários tipos de janelas na Vida e em cada pessoa, com significados/emoções diferentes mas de facto todos temos uma janela muito importante: aquela na infância (que mexe muito com a criança ainda em nós). E o que aconteceu foi cada um(a) abrir a sua própria janela e trazê-la para o blogue – que se transformou numa rua que ia crescendo à medida que se iam abrindo cada vez mais janelas.
Têm, razão quando referem que o registo é mais “Amarcord” do que “8 e ½” – só que a música para os saltimbancos que “encaixava” perfeitamente era mesmo aquela do Nino Rota.
Em resumo: os blogues estão muito bonitos com toda a gente à sua janela que dá, por sua vez, para as janelas dos outros – todas a abrirem-se para um largo comum, cada vez maior, onde se sente uma festa do “sentir”.
Bem hajam
VT