ALMOÇO / CONVÍVIO

ALMOÇO / CONVÍVIO

Os futuros almoços/encontros realizar-se-ão no primeiro Sábado do mês de Outubro . Esta decisão permitirá a todos conhecerem a data com o máximo de antecedência . .
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UMA JANELA SOBRE O MAR

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Madrugada. A Nascente o Sol desponta e espreita timidamente por sobre os picos mais altos da Serra de Aire. No céu pequenos nimbos de nuvens sob um azul claro e vivo de luminosidade prenunciam uma manhã calma e amena. As águas da baía vão formando pequenas ondas a um ritmo certo, que vêm rebentar sobre o areal e nele espairecerem numa monotonia melódica neste despontar do dia e ouve-se imperceptivelmente o marejare o pipilar dos pássaros, ao longe, nas árvores do largo, como que dando alegremente bênçãos ao céu numa ininterrupta dança sem rumo e uma cantilena que, por serem aos milhares, quase se torna, quando ouvidos mais de perto, ensurdecedora.
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O cais dos pescadores, de embarque e desembarque para os barcos,pequenas chavascas a remos, feitas de madeira, pesados e de fundo chato com saliências para melhor equilíbrio e evitar o desgaste docasco quando arrastadas pela areia, vai-se compondo de vida e azáfama preparando-se para mais um dia de faina. Os pescadores caminham ao longo e para o fim do cais transportandoconsigo as canas de pesca, o balde e a sacola com os parcos mantimentos que irão digerir durante o dia em pleno mar alto e que, na maioria das vezes, não passa de um naco de pão cozido na véspera ou, antes disso, umas postas de peixe frito e azeitonas, bem como uma garrafinha de vinho tinto, ideal para amenizar os enjoos, aquecer as entranhas e alegrar um pouco a vida soturna e áspera que levam consigo, e uma garrafa de água para mitigar a sede.Os rostos sulcados por profundas rugas em pele dura e áspera ganhas não só pela idade mas, e principalmente, pelo bater da brisa ou venton orte e frio que corta com dor, juntamente com o sol abrasador que,e spelhado pela água do oceano, se intensifica, fere os olhos e seca o sal, não só do mar como também do suor. Roupas grossas - o que tapa o frio tapa o calor - retesadas pela água e pelo sol, cinzentas, como cinzenta é a vida deles, e que ferem ac arne do corpo devido ao roçar e ao suor. Na cabeça um chapéu de pala em pano, estilo francês, comprado numa qualquer feira de uma qualquer aldeia dos arredores que de tanto servirem para limpar o suor dorosto, pescoço e testa, adquiriu uma cor indefinida.Mãos calejadas, grossas e com feridas do passado recente que o tempo ajudou a sarar, unhas grossas e cinzentas sem corte definido mas desbastadas pelas grossas cordas de cânhamo da amarração das embarcações às poitas ou ferros de ancoragem. Caminham apressados pois não querem perder a maré e ei-los que embarcam e com vigorosas braçadas remam rumo á barra e ao mar aberto.
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O sol já desce para poente e de repente um bando de numerosas gaivotas, como que vindas do nada, esvoaçam por sobre as águas da baía. Voam em círculos com esporádicos pousos sobre a água e sobre o areal de um amarelo dourado e areias finas. A ondulação na baía tornou-se mais forte e as ondas mais altaneiras e barulhentas. A preia-mar está no seu auge e a água já beija a superfície do cais. Pela barra nota-se, no horizonte longínquo, a formação de nuvens negras que rapidamente caminham para terra. Vem aí borrasca e da grossa e elas, as gaivotas, são as primeiras a saberem e, por isso, recolhem a terra muito antes do homem sequer desconfiar desta mudança repentina da atmosfera. Os barcos vão entrando na baía já com alguma dificuldade para vencerem as ondas da barra.


.Os pescadores, um a um, põem os pés em terra e ali ficam a ver os outros chegarem. O alerta soa nas mentes de cada um. Falta o barco doti’Joaquim.

- Quem estava com ele? - perguntam uns para os outros.
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-Estavamo ti’Toino e ti’João e deviam estar com sorte pois notava-se o carrego do barco. Deviam estar a fazer uma bela pescaria.
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Alguns em passo apressado resolvem subir a escadaria que os leva ao farol e à capelinha e de lá avistam o barco do ti’Joaquim tentando uma aberta para entrar. São várias as tentativas e desistências e o mar de minuto a minuto mais se encrespava e no lago já as ondas se enrolavam e rebentavam. No cais as ondas já o varriam em todo o seu comprimento e vinham bater com força nos quebra mar que protegiam as casas. A água já entrava pelos quintais e invadia os jardins frontais. Espuma amarelada de barrenta ficava depositada na terra. Quem diria que numa manhã tão calma o dia se transformaria assim de um momento para o outro?
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Homens e mulheres, alheios ao perigo corriam para chegar aos Socorros a Náufragos na tentativa de ajudar fosse no que fosse. Ao largo o ti’Joaquim faz a derradeira tentativa para entrar na baía. Acontecesse o que acontecesse, ali não podiam ficar e aconteceu o pior, o mar parecia estar desejoso por saborear carne viva e palpitante de vida, medo, terror e ansiedade, atira-se encarniçadamente contra o bote, envolvendo-o, partindo-o em estilhaços, enrolando-o num abraço fatal atirando para a morte os seus ocupantes. Luta-se com todas as forças que o desespero dispensa aos homens na sua ânsia de viver mas os esforços são diminutos contra a atroz força das águas enraivecidas e leva-os para o fundo. O resto do barco acaba por embater com extremaviolência contra as rochas do penedo e ti’Joaquim, ti’Toino e ti’João não mais são vistos.
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Nesse resto de tarde, noite e seguintes dias, a praia é calcorreada pelas pessoas da aldeia, pescadores e outros, todos se solidarizam nas buscas e vigília, na esperança de que, pelo menos, o mar devolva os corpos para que se pudesse dar-lhes o eterno descanso. As mulheres choram um pranto sonoro com gritos de desesperança, lamentos, pragas, injúrias contra o mar que lhes tinha roubado os entes queridos e as tinha atirado para as incertezas do futuro com a falta daqueles que lhes punham o pão nosso de cada dia na mesa. Mas o mar, soberbo e altivo guarda-os só para ele e não os devolve.
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Hoje apenas são recordados e servem de alerta para os actuais espíritos mais aventureiros fazendo-os recuar nos seus intuitos de saírem a barra com condições de tempo adversas ou simplesmente incertas.
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Mas da minha janela também se vêem coisas lindas e outras deslumbrantes… principalmente no Verão.
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A.Justiça
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C O M E N T Á R I O S
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Isabel X disse...
Comovente este testemunho trazido pelo Justiça, bem como o modo como o conta neste texto. Lembro-me do Justiça, de quando éramos mais novos, de S. Martinho, mas nessa altura só o conhecia "de vista" (como se costuma dizer). Mais tarde vim a conhecê-lo como colega na Escola onde ainda lecciono e da qual o Justiça já se aposentou.
Mas, reconheço, não o conhecia... Não imaginei nele esta rara capacidade de descrição do sofrimento, com dignidade, com humanidade. Gosto de conhecê-lo deste modo novo.
O caso de vida que o Justiça aqui traz faz-me lembrar uma canção de Patxi Andion, belíssima, cheia de força, cujo nome não me ocorre, que fala de um "marino", a quem foram morrendo todos os companheiros da faina, e que se refugia na bebida. Termina a canção, referindo-se-lhe como "un marino", "un borracho com toda la mar detrás".
Muito grata!
- Isabel Xavier -
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Júlia disse...
Um texto muito bonito, mas triste, aquele que o Alfredo Justiça nos traz aqui. Descreve a vida árdua de homens que lutam pela sobrevivência,que se fazem ao mar....um mar, por vezes traiçoeiro, que vai acabando com a vida de muitos seres humanos.
Estes homens sofrem e lutam pelo sustento da mulher, dos filhos que aguardam pelo seu regresso,e é uma vida inteira assim.
É triste, por vezes! Quantos ti'Joaquins, ti'Toinos neste nosso País tão pequenino, partiram com a esperança de voltarem e por lá ficaram.
Obrigada, Alfredo Justiça.
Júlia R
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diz o que te vai na alma disse...
Outros tempos. As mesmas incertezas e angústias. Vidas difíceis que o tempo não apaga. Muito belo e triste.
Dalila Garcia
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Alfredo disse...
Isabel Xavier
O nome não me é totalmente estranho pois de algum modo está ligado a recordações instaladas no meu cérebro que o relacionam com S. Martinho e ao tempo de Escola nas Caldas embora, lamentavelmente para mim, não o consigo ligar com a sua fisionomia de então e, claro, muito menos com a de agora, passados mais de 45 anos. Isto tudo para que não fiquem personalidades trocadas sobre o Alfredo Justiça, eu, e o Justiça, seu colega professor da Proença, meu irmão, ligeiramente mais novo.
Agradeço-lhe as palavras simpáticas a propósito do texto que escrevi sobre o tema "das Janelas" e só a última parte do seu comentário me levou a escrever este esclarecimento para reposição da verdade. No entanto, ainda assim, atrevo-me a dizer, e desde já peço desculpa se assim não fôr, que este relacionamento do seu nome está também ligado á Isabel Veiga, Monserrate, Magda e outras meninas dos anos 60 e naturais, ou pelo menos residentes, em S. Martinho.
Uma vez mais, grato pela atenção que dispensou ao meu escrito e ao comentário que teve a amabilidade de lhe dispensar.
A. Justiça
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Isabel X disse...
Peço desculpa pela troca de "Justiças", altamente injusta aliás, que aqui fiz. Logo que vi que a Júlia se referia ao autor do texto chamando-lhe Alfredo, vi que me enganara.
Do Alfredo, a quem de facto se referem as minhas palavras, não me lembro. Mesmo o "outro" Justiça é mais velho do que eu. Lamento, mas as pessoas a quem me relaciona, Alfredo, são-me completamente estranhas. Nasci em Dezembro de 1957.
Desde que nasci, e até casar, em 1976, quando ainda tinha dezoito anos, fui sempre passar os verões a S. Martinho . (Já agora, divorciei-me aos trinta e seis, estado civil de que sou fervorosamente militante)
Sem desprimor para o próprio, não podia ser mesmo o "Justiça" que eu conhecia. Há aqui um travo feliz de verdade reposta e, por isso, de justiça reposta também.
Parabéns pelo seu texto, Alfredo Justiça. Gostava muito de o conhecer. Peço-lhe desculpa.
- Isabel Xavier -
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J L Reboleira Alexandre disse...
O Alfredo traz-nos, com uma sensibilidade que lhe é própria, mais uma bela narrativa da praia que foi a dele e de muitos de nós.
A minha atenção foi no entanto desviada para a segunda fotografia. Quantos momentos inesquecíveis passou o autor, passàmos todos nós, que frequentàvamos a baia, naquele local, há já tantos anos. Sobretudo no Verão!
Hoje em nome duma massificação do turismo, lá estão todos aqueles blocos de cimento, bem em frente à areia da praia, no género do que pior se faz em muitos outros locais da nossa costa e de outras costas afinal.
Obrigado meu caro.
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Maria João disse...
Boa tarde, Papá!Este texto é muito bonito! Apesar de "nascida e criada" em São Martinho, nunca vejo da minha janela estas histórias que no fundo marcam quem as Gentes são.Obrigada por esta visão :)
Beijos muito doces!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
MJ
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João Ramos Franco disse...
A janela de que olhamos traz-nos por vezes as realidades tristes, aquelas que existem mas que nós não gostamos de aceitar que façam parte do nosso arquivo… Para bem, ou mal, não as conseguimos apagar e elas perpetuam o nosso consciente.
Parabéns, A. Justiça, por este retrato da vida…
Um abraço amigo.
João Ramos Franco
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Guida C.S. disse...
A belíssima descrição do Alfredo sobre o drama dos pescadores levou-me a mim também a esse passado já tão longe, mas estranhamente as fotos insistem em me fazer regressar ao presente... a última vez que estive em S Martinho (e já foi há mais de 40 anos) as urbanizações ainda não estavam lá!
É mega surrealista estar a ver uma imagem completamente diferente da que temos na memória quando lemos uma estória que aí se encaixa perfeitamente!
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Joaquim disse...
Justiça, gosto das estórias que tu contas, tanto do tempo do serviço militar como a mostrar o teu mundo e como o vias.
Apesar de não ser de "São Martelo", nome dado pela malta dos anos 50s, quando havia uns trocados ia até lá na automotora e gostava de atravessar o túnel com os colegas (agora é perigoso), alguns de São Martinho e de Salir, e ver como alguns deles ganhavam uns "cobres" na faina de apanhar o limo, que segundo se dizia era para fins medicinais.
Talvez te encontre no almoço da Foz, que para mim continua a ser "a minha praia".
Joaquim
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Alfredo disse...
As janelas
Caros amigos e amigas de eterna juventude, que recordaram e nos transmitiram recordações de outrora e julgadas esquecidas, mas que afinal apenas estavam arquivadas e adormecidas nesta indecifrável, complexa e, por vezes, inexplicável memória que com extrema facilidade guardou lembranças de um passado já longínquo e por outras esquece as de ontem.
Li e reli, por diversas vezes, os posts e respectivos comentários sobre as janelas que o Vasco Trancoso nos “obrigou” a abrir com a sua “janela”.Vou ousar, e perdoem-me a ousadia, eleger o post que mais me impressionou e ao qual nem me atrevi a comentar pois entendi que quaisquer palavras seriam muito pobres perante a franqueza e verdades simples nele retratado.Todos os posts estão soberbos e, perdoem a imodéstia, o meu também pois retrata um acontecimento verídico do inicio dos anos 50 embora os nomes dos intervenientes sejam forjados porque ainda são vivos os descendentes directos da estória trágico-marítima contada e seria impensável trazer-lhes à memória tamanha tragédia.
O texto que mais me marcou foi o da São Caixinha. Humilde e modesto, sonhador e real, genuíno e puro, descrito com força e descritivo da simplicidade que o nosso mundo de então estava impregnado.Foi realmente a janela que, mesmo difícil de abrir, mais revelou a ternura e emoções sentidas na descoberta do espaço exterior pejado, bem sei, de agruras, e não da beleza pueril visto pelos olhos de uma criança, mas que gostaríamos que assim continuasse a ser por todo o nosso sempre.
Parabéns a todos. Foi um dos momentos mais altos e dignos do blog, repletos de ternura e de recordações de uma época, locais e vivências, demonstrativos de pertencermos à última geração de românticos (ousada esta afirmação? Talvez! Mas atendendo ao que nos rodeia…).
Abraços amistosos.
A.Justiça
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Tó Quim disse:
O maravilhoso texto de Justiça, ao mesmo tempo com pedaços de tristeza, faz com que a minha memória me traga à luz alguns momentos passados em São Martinho.
Nos pequenos momentos em que podia ir para São Martinho, sempre de comboio do Paul (Bombarral) ia para casa da minha tia que era, na altura a governanta da casa do sr. Engenheiro, que é hoje a casa de chá e o hotel situado na marginal.
Lembro-me de querer brincar com os “meninos” desta casa apalaçada e só podia ver. Eu pertencia ao povo e o povo não podia brincar com estes “meninos” Refira-se que tinham a mesma idade que eu.
Também me vem à memória a minha tia, juntamente com as criadas, levar o chá e uns bolinhos às senhoras que estavam nas barracas da praia.São momentos que nunca nos esqueceremos e que marcam o nosso saber para o resto da vida.
Agora, a fotografia do café do facho lembra-me já outros tempos, os finais de tarde com aquele poderoso pôr do sol...
Mais uma vez um grande abraço ao pai deste blog pela vontade de ele existir e a todos aqueles que o alimentam com grandes textos.
António Fialho Marcelino (Tó-Quim)

13 comentários:

Isabel X disse...

Comovente este testemunho trazido pelo Justiça, bem como o modo como o conta neste texto.

Lembro-me do Justiça, de quando éramos mais novos, de S. Martinho, mas nessa altura só o conhecia "de vista" (como se costuma dizer). Mais tarde vim a conhecê-lo como colega na Escola onde ainda lecciono e da qual o Justiça já se aposentou.

Mas, reconheço, não o conhecia... Não imaginei nele esta rara capacidade de descrição do sofrimento, com dignidade, com humanidade. Gosto de conhecê-lo deste modo novo.

O caso de vida que o Justiça aqui traz faz-me lembrar uma canção de Patxi Andion, belíssima, cheia de força, cujo nome não me ocorre, que fala de um "marino", a quem foram morrendo todos os companheiros da faina, e que se refugia na bebida. Termina a canção, referindo-se-lhe como "un marino", "un borracho com toda la mar detrás".
Muito grata!
- Isabel Xavier -

Anónimo disse...

Um texto muito bonito, mas triste, aquele que o Alfredo Justiça nos traz aqui. Descreve a vida árdua de homens que lutam pela sobrevivência,que se fazem ao mar....um mar, por vezes traiçoeiro, que vai acabando com a vida de muitos seres humanos . Estes homens sofrem e lutam pelo sustento da mulher, dos filhos que aguardam pelo seu regresso,e é uma vida inteira assim.
É triste, por vezes! Quantos ti'Joaquins, ti'Toinos neste nosso País tão pequenino, partiram com a esperança de voltarem e por lá ficaram.
Obrigada, Alfredo Justiça.
Júlia R

Anónimo disse...

http://www.youtube.com/watch?v=N1mkABQBfs0

diz o que te vai na alma disse...

outros tempos. As mesmas incertezas e angústias. Vidas difíceis que o tempo não apaga. Muito belo e triste.
Dalila Garcia

Alfredo disse...

Isabel Xavier
O nome não me é totalmente estranho pois de algum modo está ligado a recordações instaladas no meu cérebro que o relacionam com S. Martinho e ao tempo de Escola nas Caldas embora, lamentavelmente para mim não o consigo ligar com a sua fisionomia de então e, claro, muito menos com a de agora passados mais de 45 anos. Isto tudo para que não fiquem personalidades trocadas sobre o Alfredo Justiça, eu, e o Justiça, seu colega professor da Proença, meu irmão, ligeiramente mais novo. Agradeço-lhe as palavras simpáticas a propósito do texto que escrevi sobre o tema "das Janelas" e só a última parte do seu comentário me levou a escrever este esclarecimento para reposição da verdade. No entanto, ainda assim, atrevo-me a dizer, e desde já peço desculpa se assim não fôr, que este relacionamento do seu nome está também ligado á Isabel Veiga, Monserrate, Magda e outras meninas dos anos 60 e naturais, ou pelo menos residentes, em S. Martinho.
Uma vez mais, grato pela atenção que dispensou ao meu escrito e ao comentário que teve a amabilidade de lhe dispensar.
A. Justiça

J L Reboleira Alexandre disse...

O Alfredo traz-nos, com uma sensibilidade que lhe é própria, mais uma bela narrativa, da praia que foi a dele e de muitos de nós. A minha atenção foi no entanto desviada para a segunda fotografia. Quantos momentos inesquecíveis passou o autor, passàmos todos nós, que frequentàvamos a baia, naquele local, há já tantos anos. Sobretudo no Verão!

Hoje em nome duma massificação do turismo, lá estão todos aqueles blocos de cimento, bem em frente à areia da praia, no género do que pior se faz em muitos outros locais da nossa costa e de outras costas afinal.

Obrigado meu caro.

Isabel X disse...

Peço desculpa pela troca de "Justiças", altamente injusta aliás, que aqui fiz. Logo que vi que a Júlia se referia ao autor do texto chamando-lhe Alfredo, vi que me enganara.

Do Alfredo, a quem de facto se referem as minhas palavras, não me lembro. Mesmo o "outro" Justiça é mais velho do que eu.

Lamento, mas as pessoas a quem me relaciona, Alfredo, são-me completamente estranhas.

Nasci em Dezembro de 1957. Desde que nasci, e até casar, em 1976, quando ainda tinha dezoito anos, fui sempre passar os verões a S. Martinho. (Já agora, divorciei-me aos trinta e seis, estado civil de que sou fervorosamente militante.)

Sem desprimor para o próprio, não podia ser mesmo o "Justiça" que eu conhecia. Há aqui um travo feliz de verdade reposta e, por isso, de justiça reposta também.

Parabéns pelo seu texto, Alfredo Justiça. Gostava muito de o conhecer. Peço-lhe desculpa.

- Isabel Xavier -

Anónimo disse...

Boa tarde, Papá!

Este texto é muito bonito!

Apesar de "nascida e criada" em São Martinho, nunca vejo da minha janela estas histórias que no fundo marcam quem as Gentes são.

Obrigada por esta visão :)

Beijos muito doces!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
MJ

João Ramos Franco disse...

A janela de que olhamos traz-nos por vezes as realidades tristes, aquelas que existem mas que nós não gostamos de aceitar que façam parte do nosso arquivo… Para bem, ou mal, não as conseguimos apagar e elas perpetuam o nosso consciente.
Parabéns, A. Justiça, por este retrato da vida…
Um abraço amigo
João Ramos Franco

Alfredo disse...

As janelas
Caros amigos e amigas de eterna juventude, que recordaram e nos transmitiram recordações de outrora e julgadas esquecidas, mas que afinal apenas estavam arquivadas e adormecidas nesta indecifrável, complexa e, por vezes, inexplicável memória que com extrema facilidade guardou lembranças de um passado já longínquo e por outras esquece as de ontem.
Li e reli, por diversas vezes, os post’s e respectivos comentários sobre as janelas que o Vasco Trancoso nos “obrigou” a abrir com a sua “janela”.
Vou ousar, e perdoem-me a ousadia, de eleger o post que mais me impressionou e ao qual nem me atrevi a comentar pois entendi que quaisquer palavras seriam muito pobres perante a franqueza e verdades simples nele retratado.
Todos os post’s estão soberbos e perdoem a imodéstia, o meu também pois retrata um acontecimento verídico do inicio dos anos 50 embora os nomes dos intervenientes sejam forjados porque ainda são vivos os descendentes directos da estória trágico-marítima contada e seria impensável trazer-lhes à memória tamanha tragédia.
O texto que mais me marcou foi o da São Caixinha. Humilde e modesto, sonhador e real, genuíno e puro, descrito com força e descritivo da simplicidade que o nosso mundo de então estava impregnado.
Foi realmente a janela que, mesmo difícil de abrir, mais revelou a ternura e emoções sentidas na descoberta do espaço exterior pejado, bem sei, de agruras, e não da beleza pueril visto pelos olhos de uma criança, mas que gostaríamos que assim continuasse a ser por todo o nosso sempre.
Parabéns a todos. Foi um dos momentos mais altos e dignos do blog, repletos de ternura e de recordações de uma época, locais e vivências, demonstrativos de pertencermos à última geração de românticos. (ousada esta afirmação? Talvez! Mas atendendo ao que nos rodeia…)
Abraços amistosos.
A.Justiça

Guida C.S. disse...

A belíssima descrição do Alfredo sobre o drama dos pescadores levou-me a mim também a esse passado já tão longe, mas estranhamente as fotos insistem em me fazer regressar ao presente... a última vez que estive em S Martinho (e já foi há mais de 40 anos) as urbanizações ainda não estavam lá! É mega surrealista estar a ver uma imagem completamente diferente da que temos na memória quando lemos uma estória que aí se encaixa perfeitamente!

Joaquim disse...

Justiça, gosto das estórias que tu contas, tanto do tempo do serviço militar como a mostrar o teu mundo e como o vias. Apesar de não ser de (São Martelo)nome dado pela malta dos anos 50s,quando havia uns trocados ia até lá na automotora e gostava de atravessar o túnel com os colegas ("agora é perigoso"), alguns de São Martinho e de Salir e ver como alguns deles ganhavam uns "cobres" na faina de apanhar o limo, que segundo se dizia era para fins medicinais. Talvez te encontre no almoço da Foz, que para mim continua a ser "a minha praia". Joaquim

Anónimo disse...

O maravilhoso texto de Justiça, ao mesmo tempo com pedaços de tristeza, faz com que a minha memória me traga à luz alguns momentos passados em São Martinho.
Nos pequenos momentos em que podia ir para São Martinho, sempre de comboio do Paul (Bombarral) ia para casa da minha tia que era, na altura a governanta da casa do sr. Engenheiro que é hoje a casa de chá e o hotel situado na marginal.
Lembro-me de querer brincar com os “meninos” desta casa apalaçada e só podia ver. Eu pertencia ao povo e o povo não podia brincar com estes “meninos” Refira-se que tinham a mesma idade que eu.
Também me vem à memória a minha tia, juntamente com as criadas, levar o chá e uns bolinhos às senhoras que estavam nas barracas da praia.
São momentos que nunca nos esqueceremos e que marcam o nosso saber para o resto da vida.
Agora, a fotografia do café do facho lembra-me já outros tempos, os finais de tarde com aquele poderoso pôr do sol.

Mais uma vez um grande abraço ao pai deste blog pela vontade de ele existir e a todos aqueles que o alimentam com grandes textos.

António Fialho Marcelino (Tó-Quim)